18 maio, 2009

Yashica-D


O Rui ajudou-me a meter o rolo de 120 mm na Yashica-D. Da maneira como se vão tornando raras as películas, convém chamar por quem sabe. Meter um rolo - só a expressão já parece do Mesolítico. É todo um cerimonial que se instala, desde o momento que se rompe o cartucho até ao primeiro disparo, ainda na incerteza sobre se a língua do negativo ficou bem presa no carreto. Agora só quero ver se esta maravilha ainda está aí para as curvas. Mal se fechou a porta, disparámos logo duas vezes. Tenho impressão (quase, quase a certeza absoluta) que a minha Yashica-D (nº de série D 2100039) não me vai deixar ficar mal.

17 maio, 2009

Inês e S. Tomé

© Inês Gonçalves


A tragédia de Carlos Magno em S. Tomé e Príncipe

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 17.05.2009)

O tchiloli é uma representação teatral popular de S. Tomé e Príncipe, que encena as intrigas da corte de Carlos Magno como se elas fossem o paradigma cultural da população local. É uma celebração ritual, um acréscimo de solenidade para os momentos fortes do quotidiano: um casamento, um funeral ou apenas uma festa. E esta representação - que terá chegado ao então território colonial português no século XVIII associado à exploração da cana-de-açúcar - está de tal modo enraizada na cultura local que as personagens que cada membro da população representa em palco acabam por se colar à sua vida quotidiana e à sua própria identidade.

Foi este facto que mais impressionou a fotógrafa Inês Gonçalves e o documentarista Kiluanje Liberdade, e é isso que está documentado na exposição S. Tomé, Máscaras e Mitos (que é também o título de um documentário sobre o mesmo tema), que a Galeria Pente 10, em Lisboa, vai inaugurar na próxima terça-feira e mostrar até 31 de Julho.

Olhando as fotografias, é notório que, mesmo fora de cena, as pessoas continuam a vestir a pele (e não apenas os figurinos) das suas personagens. Há imperadores, reis e princesas, damas de rainha e sibilas, ministros e marqueses, beltrões a gamelões, que continuam a sê-lo no seio da comunidade. São "personagens anónimos a ganharem protagonismo no seu ambiente natural", escreve Adelaide Ginga, num dos textos no catálogo da exposição - o documentário, feito em coprodução com a RTP, espera ainda exibição em Portugal.

As fotografias de S. Tomé, Máscaras e Mito foram feitas em Janeiro de 2008, a convite da Bienal de S. Tomé e Príncipe, que levou Inês Gonçalves e Kiluanje Liberdade de regresso a África, no que foi o retomar de uma parceria que já tinha resultado, em 2007, no trabalho Agora Luanda (com textos de Delfim Sardo e José Eduardo Agualusa).

Evocando agora a sua experiência em S. Tomé, Inês Gonçalves diz que ficou "com imensa vontade de lá voltar", para captar outras personagens e outras representações desta Tragédia (nome genérico da representação teatral), que evoca desgraça. "A cada um a tarefa e o prazer de entender o que ambiguamente, como todos os grandes retratos fazem, e como toda a arte o faz, estas fotografias mostram. A clareza descritiva de todas elas é parte do seu fascínio", escreve João Carneiro, no outro texto do catálogo da exposição.

S. Tomé, Máscaras e Mito, de Inês Gonçalves
Galeria Pente 10, Travessa da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa
Até 31 de Julho


16 maio, 2009

NYPF

Red Head, 1967, 2008-2009
© Carlos Ranc, cortesia do artista e da galeria Nina Menocal

O New York Photo Festival decorre até domingo. Jody Quon, directora de fotografia da New York Magazine falou com o Photo Distric News a propósito da exposição que comissariou a partir de obras do colectivo Mondongo (Juliana Laffitte, Manuel Mendanha e Agustina Picasso) e sobre os trabalhos Rene & Radka, Grant Worth e Carlos Ranc. Hank Willis Thomas apresenta as suas colagens de imagens apropriadas de pinups dos anos 70.



15 maio, 2009

explicar

s/t, da série When light casts no shadow, 2008
© Edgar Martins


Edgar Martins, vencedor da última edição do prémio BES Photo, faz hoje, às 17h00, uma visita guiada à exposição que tem patente no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. A entrada é livre e gratuita.

13 maio, 2009

/uma fotografia, um nome\


Elsa Penalva, da série Retratos
© Elsa Penalva

Mesmo a sós, olhar uma fotografia é uma experiência partilhada; admitimos (e desejamos) que outros vejam o mesmo que nós e do mesmo modo, que tenhamos idêntica impressão. Tudo isto se torna muito claro se a imagem nos perturba e for difícil de classificar.

A imagem suscita um sentimento de pertença ou de exclusão, mas não é igual para todos, não há, de facto, comunidade de percepção da fotografia. E, por razões acrescidas, a interpretação do observador distingue-se habitualmente da do fotógrafo.

Desde as suas origens que associamos o retrato ao seu contexto, os adereços, o mobiliário, o tipo de fundo, a atitude e a própria expressão. Se a integração social num grupo deixou de nos ocupar, continuamos a tentar procurar o seu significado.

Mas o que se destaca no retrato é o olhar – esse olhar que dirigimos a um corpo ou um retrato é ainda um tocar. A repetida actualização da ruptura com o corpo da mãe, que a todos é imposta. Como o seio ou o falo, o olhar é um objecto de desejo parcial; parcial porque incompleto e desconhecido. E então, o olhar é um instrumento de assimilação psíquica do mundo, fabrica equivalentes psíquicos.

E é assim que domesticamos, com a fotografia, realidades temidas e perturbadoras.

Tudo cabe no fantasma depressivo provocado pelo corte com a mãe e que se revela em todas as separações. E é isso que vejo nesta perturbante imagem de rosto-máscara de Elsa Penalva. Como a raiz grega da palavra esta imagem traz-nos o ícone, qualquer coisa que está para lá da posse, mesmo se a tocamos. Como o ícone há uma construção mental que lhe subjaz, um desejo palpável de deixar rastro, de marcar o olhar do outro e de si mesma. E é isso a que a fotografia apela, a rastro, vestígio em nós. E não a morte como a palavra latina, imago. Mesmo no retrato, o fotógrafo quer deixar a sua presença, o seu domínio.

Tudo se adensa neste retrato com o papel da máscara; a imagem que é já retrato-cópia é aqui ela mesma e o seu duplo, a máscara que se ajeita à pele, continuando e, obviamente deformando o rosto. Há um contraste evidente entre a sensibilidade da mulher, o olhar firme e claro, apesar de imóvel, e os traços duros da máscara. Repetindo o olhar, absorvendo o conjunto, é a máscara que se impõe. E nela cabe ainda a evidência da vida da fotógrafa.

A unidade entre o que vive e o inorgânico é uma das habituações do nosso tempo; habitamos em próteses e elas habitam em nós. Há muito que as fronteiras se esbateram entre o que somos e a simbiose em que nos transformamos, seja pelos fármacos que absorvemos, seja pelas próteses que nos dão visão, audição ou capacidade de movimentos. Mas o medo da ligação entre o animal que somos e o mineral que não queremos ser continua para lá da repetição dos mitos. A máscara é esse instrumento de tornear o interdito e o horror. A máscara está ligada à morte, mas também a outra vida. Funciona plenamente como desejo, traz-nos outros lugares, outros cultos e outra personalidade. Na arqueologia dos mitos é e não é, fornece alteridade. Acho que é essa alteridade que esta fotografia nos oferece. Não apenas a velha duplicidade do homem, mas o não-ser apenas máscara, ser também humano. Mas na coisa fotografada, o que é humano é sempre decididamente humano, - alterável e perecível, mas proporcionando vida a qualquer máscara.

O vínculo entre a realidade e o corpo é precisamente o sentimento que temos da realidade. Para nós que observamos, conta a realidade e não a máscara; para a fotógrafa, que sublimou a sua pulsão de fuga de si, importará a máscara.

Porque é uma produção humana, a fotografia nunca se deixa verdadeiramente ler.

Maria do Carmo Serén

Elsa Penalva vive em Cascais e é investigadora.

esconder


É um passo à frente e uns quinhentos atrás. Primeiro Barack Obama surpreendeu com a autorização para se captarem fotografias do repatriamentos de soldados americanos mortos em combate no estrangeiro contrariando uma regra proibicionista que já tinha 18 anos e que atentava contra a liberdade de informar. Agora, segundo o New York Times, o mesmo presidente não quer a divulgação de fotografias de militares americanos a maltratar prisioneiros quando, ainda no mês passado, o Pentágono e a American Civil Liberties Union tinham chegado a um acordo pela divulgação destas fotografias. São muito diferentes os sujeitos, os contextos e as implicações destes dois tipos de imagens. O que parece mais óbvio é o medo das consequências que uma imagem fotográfica pode provocar.

Ballen

Roger Ballen, da série Boarding House
© Roger Ballen

A Phaidon acaba de lançar Roger Ballen: Boarding House, sobre a transitoriedade e a vivência de pessoas e objectos num espaço residencial intervencionado com desenhos e esculturas. É um trabalho peculiar que tenta entrar na psique e nos nossos mais abstrusos pesadelos ("Oh, these pictures are a bit like Diane Arbus or Weegee"). Ballen é um dos fotógrafos presentes na edição deste ano do PHotoEspaña e um dos autores que me despertou mais curiosidade nos últimos tempos.
Para ver imagens deste livro clique aqui

todos



Agora somos todos fotógrafos e o New York Photo Festival (de 13 a 17 de Maio) quer mostrar as nossas fotografias. Pelo menos é o que diz aqui

12 maio, 2009

And/Or




O livro de Susan Meiselas In History (ICP/Steidl), que resume boa parte do seu trabalho na fotografia documental de causas, ganhou o 2009 And/Or Photography Book Award da Kraszna-Krausz Foundation. Os prémios And/Or estão entre os mais reputados do Reino Unido na área editorial da fotografia e da imagem em movimento. Photography and Cinema de David Campany (Reaktion Books) venceu na categoria Best Moving Image Book.
No ano passado, comprei o livro de Susan e desesperei na fila dos autógrafos. Havia muita gente. Quando chegou a minha vez dei por ganho cada momento que ali passei. Porque vale a pena falar com Susan. Nem que seja por dois minutos. E com outras 50 pessoas a olhar e a desesperar.


11 maio, 2009

entre aspas

Inês Gonçalves
© Enric Vives-Rubio/Público

[Fotografar] Para mim, é um desafio. Sei que é uma invasão, mas fazer uma entrevista também é. Uma invasão interessante e boa porque, ao contrário do que se possa imaginar, é raríssimo que uma pessoa não queira mesmo ser fotografada.

Inês Gonçalves em conversa com Ana Sousa Dias, Pública, 10.05.2009

=ColecçãoàVista= 16

Margaret Bourke-White, Italy Entrance to Ponte Real Bailey Bridge on the road to Benafro, 1944
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Pioneira

Margaret Bourke-White (1904-1971) destacou-se no fotojornalismo de tendência política e social e foi considerada pioneira de muitos momentos importantes da fotografia. Foi a primeira repórter fotográfica da revista Fortune e a primeira mulher a quem foi dada permissão para fotografar em território soviético, na década de 1930. Pelas mãos de Henry Luce, Bourke-White integrou a equipa da revista Life a partir de 1936, trabalhando como correspondente de guerra durante a II Guerra Mundial. Depois da capitulação da Alemanha, as suas chocantes fotografias da libertação de campos de concentração atraíram a atenção de todo o mundo. Em 1946 viajou até a Índia para documentar a luta desse país pela liberdade.
(texto:CPF)

09 maio, 2009

MadridFoto

Edward Burtynsky, Silver Lake Operations #12, Lake Lefroy, Western Australia, 2007
Cortesia Galeria Nicholas Metivier


À procura de novos compradores
Sérgio B. Gomes, Madrid
(P2, Público, 9.05.2009)

Não é uma entrada de rompante. Nem era para ser. Pelo menos é o que dizem os organizadores da MadridFoto, a feira de fotografia contemporânea que abriu portas pela primeira vez este fim-de-semana na capital espanhola. Embora a atitude da entrada em cena tenha sido feita com pezinhos de lã, a ambição mais ou menos declarada é a de se tornar, a curto prazo, numa alternativa à Paris Photo, a principal referência do sector na Europa, e mesmo à Photo Miami, um dos faróis da fotografia nos Estados Unidos.

A italiana Giulieta Speranza, directora artística da feira, quer pôr em prática uma "concorrência leal" e só vê vantagens na existência de competição. "Queremos que no futuro nos possam comparar com outras grandes iniciativas da mesma área, mas não procuramos o confronto", disse ao PÚBLICO pouco depois do arranque oficial da feira que estará aberta até amanhã. Apesar de se atravessar uma conjuntura de negócios pouco favorável e "um ano difícil", Enrique Polanco, principal promotor da ideia, sublinhou a resposta positiva na primeira edição de 47 galerias – 16 madrilenas, 15 do resto de Espanha e 16 estrangeiras, entre as quais duas portuguesas, a Carlos Carvalho Arte Contemporânea (Lisboa) e a Mário Sequeira (Braga). E a intenção para as próximas edições é estabilizar o número de galerias até às 70 (a Paris Photo tem quase o dobro de expositores). Ou seja, os argumentos passam mais pela qualidade do que pela quantidade ou dimensão.

O tamanho reduzido ao indispensável e a organização do espaço expositivo – que mais parece uma ilha dentro do gigantismo oceânico da Feria de Madrid - são aliás apresentados como pontos fortes da MadridFoto que espera receber entre 6 a 8 mil visitantes. Concebido pelo arquitecto Andrés Jaque, o modelo imita a largueza e a cumplicidade das praças citadinas em substituição dos nichos labirínticos, menos dialogantes com os vizinhos do lado. As vantagens são nítidas para quem percorre o espaço à procura de ver fotografia de uma maneira menos claustrofóbica. E os expositores também se mostram agradados com esta divisão equilibrada (todas as galerias têm o mesmo espaço). "A feira é democrática e arejada", foi a descrição dada ao PÚBLICO por Oliva Arauna, responsável pela galeria madrilena com o mesmo nome. Ao longo do dia da inauguração, foram usadas palavras sinónimas para classificar a mostra e o ambiente que a rodeia.

Agressividade de principiante à parte (ou a falta dela), o certo é que a MadridFoto se estreia num contexto particularmente interessante no que diz respeito às actividades ligadas à fotografia em Espanha: o país tem festivais consolidados e reconhecidos mundialmente; exposições nos grandes museus e instituições públicas com nomes que marcaram a história da fotografia, que marcam a contemporaneidade e que ficam na memória; dinâmica editorial variada e de qualidade; produção teórica regular; coleccionismo privado em crescendo; várias galerias (muitas em exclusivo) dedicadas à fotografia por todo o país; vários prémios e bolsas de estudo e produção; e um público que responde e participa. Com todos estes condimentos faltava ainda uma iniciativa espanhola de âmbito internacional ligada à venda da fotografia para o caldo ficar completo. É esse o espaço que a MadridFoto, exemplarmente organizada, quer agora preencher. E uma das grandes apostas passa pela conquista de novos coleccionares de um suporte que consegue passar ao lado do arrefecimento das vendas noutros campos da arte – uma das vantagens é a grande amplitude de preços, que torna provas de qualidade acessíveis a compradores com carteiras menos recheadas. "A fotografia funciona muito bem nestes momentos porque os preços são mais ajustados", afirmou ao El País Lorena de Corral, comissária independente que participou no comité de selecção da feira. A propósito da primeira edição da MadridFoto e da aproximação do festival PHotoEspaña (começa na primeira semana de Junho), o suplemento de cultura do mesmo diário, Babelia, dedicou recentemente um caderno especial à fotografia, classificada num dos títulos como "moeda estável".

"Faltam as vintage"
Oliva Arauna vinha de apresentar a um possível comprador os dois auto-retratos de Jorge Molder que ocupam lugar de destaque no seu espaço. As expectativas para a venda das imagens do fotógrafo português são "grandes". Diz Arauna que, em Espanha, há muitos coleccionadores a admirar a obra de Molder. As duas provas da série Ocultações 8 são muito recentes (2008), assim como quase todas as cópias dos outros artistas que levou à feira (excepção para o maliense Malik Sibidé). Para a galerista, à MadridFoto "faltam as vintage", as provas de época impressas a partir dos negativos de fotógrafos consagrados num prazo até cinco anos contados (quando possível) a partir da data do registo original. Essa presença daria à feira maior "solidez" e traria "a autenticidade" que por vezes se revela demasiado diluída na imagem fotográfica e que faz com que muitos compradores ainda franzam o sobrolho. Habitualmente, os coleccionadores dão muito valor às provas de época e estão dispostos a pagar mais por este tipo de imagens. Giulieta Speranza diz-se consciente desta ausência, mas afirma que seria "arriscado" apostar já em todo o leque temporal da história da fotografia o que a levou a concentrar-se apenas em autores e tiragens recentes. "Vamos fazer o contrário do que fez a Paris Photo que começou com as cópias vintage", anunciou Speranza sem colocar de lado a hipótese de vir a incorporar a fotografia antiga nas próximas edições da feira.

Galeristas portugueses optimistas
Os dois galeristas portugueses que decidiram apostar na MadridFoto mostraram-se optimistas em relação às vendas e apontam a fotografia como um suporte seguro no negócio da arte e que tem mostrado um interesse crescente por parte dos compradores. Carlos Carvalho considera-a "uma das áreas artísticas com mais futuro". Levou até Madrid trabalhos de Daniel Blaufuks, Paulo Catrica, Carla Cabanas, Roland Fischer, Antía Moure e Manuel Vilariño. "Tenho um stand homogéneo com obras grandes. Não trago selos para a crise. Trago obras com consistência", disse ao PÚBLICO enquanto alguém virava uma fotografia de Catrica que tinha sido colocada ao contrário. Por seu lado, Mário Sequeira sublinhou o número de clientes espanhóis que compram já na sua galeria e que seguem com atenção o trabalho de Helena Almeida, um dos nomes do portfólio de artistas que representa na feira ao lado de outros consagrados como Axel Hütte, Candida Hofer e Nan Goldin, que tem actualmente uma exposição em Braga. Fora das galerias portuguesas, para além de Molder, apenas André Cepeda marcou presença na galeria galega adhoc onde apresentou um conjunto de 3 fotografias da série River captadas nos EUA no ano passado.

O corpo e a paisagem
À medida que se percorrem as praças da MadridFoto e as galerias que as fecham em círculo é possível ir arrumando mentalmente quase tudo o que se vê em duas grandes categorias – corpo e paisagem. Por mais voltas que se dêem, por mais técnicas, tecnologias, formatos e suportes que se encontrem, a figuração humana e a paisagem permanecem como troncos principais da árvore genealógica do sujeito fotográfico. E as feiras de fotografia têm essa grande vantagem de juntar num espaço comum a diversidade de formas de ver e de representar ideias e realidade. É um local estratégico para apreciar todas as derivas e ramificações que se abrigam em qualquer um dos dois campos. E é um momento ainda melhor para assistir às mais acirradas divergências de gosto e de escolha. Quando, por exemplo, se ouve a forma apaixonada como o inglês Nicholas Mativier (da galeria canadiana com o mesmo nome) fala das paisagens industriais abstractas de Edward Burtynsky e, a uns metros de distância, se olha para a cara de enfado do holandês Martin Rogge (Flatland) a vociferar: "Odeio paisagem!".


Nazif Topçuoglu, Gossip, 2007
Cortesia Galeria Fatland

06 maio, 2009

Húmus - parar para respirar


© Valter Vinagre


O trabalho de Valter Vinagre (Avelãs de Caminho, 1954) na fotografia caminha por muitas direcções. É multíplice. É assertivo. E surpreendente. Como é surpreendente e acertada a escolha feita pelo madrileno Alejandre Castellote para uma exposição que não quer ser retrospectiva - quer fazer uma pausa para respirar depois de mais de 20 anos de fotografia. Chama-se Húmus, como que a pôr os pés descalços na terra para sentir a textura, o corpo e a substância da obra realizada. São quase 70 imagens que abarcam o período entre 1988 e 2009. "O fio condutor da mostra explora de forma fragmentada alguns dos estratos mais íntimos do imaginário do ser humano. A selecção de imagens não está estruturada cronologicamente, antes sublinha as conexões simbólicas e a dualidade de significados existentes em muitos dos trabalhos de Valter Vinagre", refere o texto de apresentação.

Húmus, de Valter Vinagre
Fundação D. Luís I , Cascais
De 9 de Maio a 28 de Junho

05 maio, 2009

à venda

Júlio Augusto Siza
© P4Photography.com

Avizinha-se mais um leilão organizado pela P4 Photography. Desta vez há literatura sobre fotografia (manuais do século XIX, catálogos...), livros de fotografia (Lisboa, Cidade Triste e Alegre começa a ser um habitué) e fotografias de várias épocas e tendências, para além de desenhos e cartazes. Uma das estrelas da venda é o álbum de Júlio Augusto Siza, um fotógrafo pouco conhecido entre nós que revela agora uma interessante produção, paralela à actividade comercial, mais voltada para a paisagem e etnografia, não só na Guiana Inglesa (plasmada neste conjunto), como também em Belém do Pará, onde durante anos manteve um estúdio.
Ângela Camila Castelo-Branco escreveu um artigo que resume muito bem o percurso de Júlio Siza na fotografia. Está aqui

Para folhear o catálogo clique aqui

Prémio OjodePez


Behind the Veil
© Olivia Arthur


O prazo para o envio de trabalhos para o Prémio OjodePez de Valores Humanos termina a 15 de Maio. Podem participar fotógrafos de todo o mundo e de qualquer idade com trabalhos que destaquem valores como a solidariedade, a ética e a justiça. O prémio inclui uma exposição e a publicação, junto com outros finalistas, na revista de Outono da OjodePez.
A vencedora da edição do ano passado foi Olivia Arthur com a série Behind the Veil.
Mais informações e inscrições aqui

04 maio, 2009

=ColecçãoàVista= 15


Vari Caramés (1953), Tránsito I, 1999
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Momentos

Vari Caramés começa a fotografar em 1968 com uma Voitglander oferecida pelo seu pai, expondo pela primeira vez em 1980. O universo que retrata nesta série de imagens intitulada Tránsito mostra-nos o desenvolvimento do seu trabalho, imagens que emergem de um sonho nebuloso como peças isoladas mas não soltas de um mundo real, diário, identificável, reconhecível, mas passível de ser interpretado livremente por cada espectador, porque se a familiaridade da imagem é algo comum, o significado é díspar para cada um de nós. Uma aparente simplicidade que nos leva a viagens mais profundas do nosso ser, um momento, um sentimento, uma memória vã de algo que já esquecemos, ou algo presente, vivo, intenso, a cada um, o seu significado. A luz constantemente difusa faz parte do seu trabalho permitindo-lhe mostrar tudo aquilo que o rodeia de forma directa e clara mas nunca óbvia.
(texto:CPF)

comemorar o furo - a prática II

© António Leal
26 de Abril, 2009, Dia Mundial da Fotografia Estenopeica


Fez este domingo uma semana que andámos de caixas de cartão e lata em punho a experimentar a acção da luz no papel sensibilizado. A fotografia estenopeica (pinhole) tem esse condão de nos fazer regressar aos mais primitivos mecanismos da imagem fotográfica e de nos obrigar à simplicidade de procedimentos. Isto para além do entusiasmo (pelo menos para alguns) fornecido pela incerteza quase absoluta do resultado final das provas. Foi vê-los a correr num corropio entre a rua e a câmara escura para comprovar se o Sol tinha feito a parte do trabalho que lhe competia. Quem teve trabalho e paciência com todos foi António Leal. Obrigado.

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01 maio, 2009

a mala

David Seymour, máquina de escrever destruída depois de um bombardeamento, Gijon, Astúrias, 1937

O tesouro começa a revelar-se. A mala mexicana com 126 rolos de negativos de 35 mm pertencentes a Robert Capa, Gerda Taro e David Seymour foi aberta no ano passado. Agora, depois de um cuidado processo de restauro, as fotografias dos três míticos fotojornalistas captadas durante a Guerra Civil de Espanha começam a surgir. A maior parte serão inéditas.

O New York Times conseguiu um exclusivo ao publicar uma dúzia de imagens positivadas dos negativos que estiveram "escondidos" durante mais de 70 anos. Apesar da riqueza do conjunto, NYT sublinha a importância dos rolos atribuídos a Seymour - também conhecido por Chim, um dos fundadores da Magnum. Enquanto as objectivas de Capa e de Taro andaram mais focadas nas vicissitudes do conflito, mais próximas das linhas da frente, Seymour concentrou-se mais nas dificuldades do dia-a-dia da sociedade espanhola. O International Center of Photography, instituição que negociou a entrega da mala mexicana e que cuida agora do seu conteúdo, anunciou para Setembro de 2010 uma exposição retrospectiva dedicada a Chim, que será baseada nas imagens agora tratadas (um terço das fotografias da mala são da sua autoria).

Apesar da esperança alimentada no ano passado sobre a existência do negativo da famosa A Morte de um Miliciano (5 Set. de 1936), não existe na mala mexicana nenhuma sequência deste momento nem tão pouco a matriz que lhe deu origem (as imagens que circulam em papel fotográfico são feitas a partir de cópias vintage). A inexistência daquele que é considerado o Santo Graal da fotografia do século XX não retira um milímetro da importância deste conjunto que tem mais de 4300 imagens (no ano passado estimava-se cerca de 3500). Para Cynthia Young, curadora do ICP e uma das pessoas que esteve mais envolvida no tratamento do espólio, o conteúdo da mala mexicana dá "um entendimento profundo sobre a forma como os três fotógrafos trabalharam durante um curto período no qual criaram os arquétipos da moderna fotografia de guerra".

Para além da retrospectiva dedicada a Chim, o ICP promete também para 2010 uma exposição sobre o conteúdo da mala envolvendo os três fotógrafos.

O artigo do NYT está aqui
e a galeria com imagens da mala mexicana aqui

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© Tony Cenicola/The New York Times

30 abril, 2009

*Três perguntas a...

Foto Estúdio Paris
Colecção Particular

Paulo Seabra (n.1959). Vive e trabalha em Lisboa. Tem formação em artes gráficas, animação, fotografia e vídeo. Trabalhou para publicidade, teatro, festivais de jazz e jornais. A partir de 2003 começou a dedicar-se essencialmente ao vídeo e ao cinema. Em 1993, comprou parte do espólio do Foto Estúdio Paris, à Estrela, Lisboa. Hoje, às 21h00, no Museu do Oriente, no âmbito do festival Indie Lisboa (Festival Internacional de Cinema Independente), apresenta Uns Tantos Milhares de Negativos (repete a 2 de Maio), que fala sobre a descoberta dessas imagens.

O que é que te levou a gravar este filme? Como é que esta parte do espólio da Foto Paris te chegou às mãos?
Chegou como outros espólios, pelas pessoas saberem que sou um apaixonado pelo coleccionismo e fotografia. O que levou a fazer este trabalho foi a riqueza do assunto e a ideia inicial de se filmar em negativo respeitando os próprios negativos.

O registo do filme joga muito com o som e a música deixando, por exemplo, o registo histórico de lado. Quiseste que as imagens brilhassem por si, que contassem a sua história…
Claro. A base das narrativas é a riqueza da linguagem e respeitar a inteligência do espectador, estar subentendido.

Quais são as cenas dos próximos capítulos?
O laboratório. Com a mesma linguagem, descontração e estética, ampliar e revelar alguns dos negativos a cores e preto e branco.

29 abril, 2009

o regresso dos franceses

Mondego, 1994
Pierre Devin © Centro Português de Fotografia DGARQ/MC

Há duzentos anos, o Norte vivia em sobressalto a invasão de Soult. Mas é da lei da guerra e da paz que os ocupantes deixem atrás de si rastos da cultura própria e outras alterações mais gratuitas do futuro. No país, que levaria o seu exército com Wellington a atravessar os Pirinéus, uma outra revolução de advogados estava já em marcha.

Por isso mesmo, este conjunto de exposições não comemora apenas as misérias e as vitórias locais do império napoleónico mas, acima de tudo, os efeitos culturais de sucessivos reconhecimentos.

A Península, respondendo com uma violência inesperada ao exército jacobino, ganhava então o seu cunho de exotismo e barbárie, - a temeridade dos bandoleiros fará eco nos libretos de Ópera, no romance oitocentista e na representação dos seus habitantes. A meados do século XIX, a pátria do Empecinado e do general Silveira era visitada pelas missões fotográficas com o mesmo olhar de descoberta que levava os fotógrafos a Marrocos ou ao Egipto.

Cabo da Europa a que o mar imenso fizera esquecer, são por vezes esses olhares franceses que fazem o país descobrir-se a si mesmo. E é esse olhar do outro que nos confronta ou que dele dá notícia, que aqui se mostra. Inclui grandes fotógrafos franceses, pretéritos ou nossos contemporâneos, todos eles incluídos na Colecção Nacional de Fotografia. Georges Dussaud, que lhe pertence, mostra-nos uma série com que tudo, aqui no Norte, parece fechar, a sua visão da cidade que mal conhecemos.

Enxovia de Santa Ana
Muito cedo a imprensa portuguesa fez saber sobre a descoberta da fotografia apresentada e depois demonstrada por Daguerre. Muito cedo, ainda, fotógrafos e missões fotográficas francesas percorriam o país, anunciando, por vezes, a sua presença.

Depois de cada passagem, alternando lições e sessões de fotografia, os fotógrafos habitualmente vendiam câmaras e equipamentos, que os novíssimos fotógrafos portugueses compravam.
Também por vezes fotógrafos franceses passavam a residir em Portugal. Como Fillon, o simpatizante da Comuna de Paris, que se tornaria o símbolo da elegante prática fotográfica em Lisboa e no Porto. Eça cita-o num dos seus romances e hoje faz parte da nossa história da fotografia. Então já se usava para múltiplos efeitos o carte de visite, uma das mais notáveis colonizações francesas no campo da fotografia.

É o olhar francês nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, que aqui vemos.

Enxovia do Senhor de Matosinhos
Nesta representação francesa da segunda metade do século XX encontra-se um dos famosos momentos decisivos de Cartier-Bresson, trabalhos conceptuais de Bernard Faucon, documentalistas de reconhecida estética, Paul Berger, Alain Buttard ou Jean Gaumy, mas dominam quatro projectos feitos em Portugal por Pierre Devin, Guy Le Querrec, Frédric Bellay e Bernard Plossu. De certo modo fica coberto o Portugal geográfico e algumas das mais importantes vertentes da fotografia francesa contemporânea. Seja a poesia divertida de Fréderic Bellay, (que chega a repautar imagens clássicas da Fotografia), as poderosas perspectivas de Pierre Devin, o olhar militante e sensível de Guy Le Querrec ou os olhares oblíquos e breves sobre os gestos da cultura que as câmaras descartáveis detectam neste seu “País da poesia”.

Enxovias de Stª Teresa e de Stº António (Georges Dussaud)
Georges Dusaud, todos o sabem, conhece o país, conhece a cidade. Este percurso pelas nossas coisas, pela nossa gente não é apenas o olhar do fotógrafo flaneur que sempre foi. É um saber de nós, do enigma de uma cidade que não gosta de se denunciar, da atmosfera das suas esquinas e escadinhas perdidas, das fachadas das velhas mercearias finas, dos cafés e passeios ribeirinhos.

A cidade oitocentista da classe média continua a esconder-se por trás do rendilhado de árvores que fazem minúsculos jardins ou alamedas, o clássico “Porto”, de lança repousada espreita, desterrado do centro cívico, para lá das muralhas que nada protegem. Dussaud gosta de gente. Fotografa-a nos seus lugares de afecto, prodigalizando um perto e um longe que a une ou separa. Por vezes deixa que um breve humanismo fotográfico envolva o seu olhar de síntese, mas aqui, nesta série sobre o Porto, há uma outra contemporaneidade, um outro olhar argumentativo que desfaz clássicos enquadramentos e pontos de vista, desfoca os motivos, desvia o olhar das histórias que se contam.

E então as suas imagens compõem uma lição sobre o modo como vemos, hoje, o mundo em imagem, onde tudo é cenário interrompido como um vídeo-clip, onde o sujeito é o zapping da nossa insatisfação. Onde tudo é sempre muito belo como um argumento de vida.

Maria do Carmo Serén

Invisões, Portugal Visto pelos Fotógrafos Franceses, vários autores
Centro Português de Fotografia, Porto
Até 28 de Setembro

aprender


© Pierre et Giles

Está prestes a arrancar (5 de Maio) a segunda edição do workshop de Estética Fotográfica no espaço Yron, em Lisboa. Para além dos nove módulos discutidos em sala haverá uma componente prática que envolve trabalhos no exterior e posterior análise crítica.
Mais informações e inscrições aqui

28 abril, 2009

Joaquim Cabral (1932-2009)



Joaquim Cabral

O português que fotografou na NASA a chegada do homem à Lua

Sérgio C. Andrade

No seu currículo, surgirá sempre em primeiro plano a circunstância de ter sido o único fotojornalista português a ter acompanhado, em Julho de 1969, há quase 40 anos, na NASA, a partida da nave Apollo 11, que levaria o primeiro homem à lua. Mas Joaquim Cabral, falecido no domingo da semana passada em Ovar, aos 76 anos, deixa também o registo de uma carreira marcante no fotojornalismo durante os anos que viveu em Angola, e depois no ensino da fotografia, no Porto e em Matosinhos, a que dedicou a última parte da sua vida.

Esta vertente pedagógica é realçada por Rui Mendonça, professor de Fotografia na Faculdade de Belas Artes do Porto e na ESAD (Escola Superior de Arte e Design), em Matosinhos, que se assume como discípulo devedor da “lição profissional mas também de vida” de Joaquim Cabral. “Sinto-me privilegiado por ter vivido durante vinte anos esta experiência profissional e humana com ele”, diz Mendonça. E cita a importância do trabalho de Joaquim Cabral como técnico de fotografia, tanto nas Belas Artes do Porto, onde ingressou em 1976, após o regresso de Angola, como, mais tarde, a partir de 1990, na ESAD, de que foi um dos primeiros professores e onde permaneceu até há pouco tempo.

Mas voltemos a 1969, àquele momento histórico que Joaquim Cabral viveu e registou no Centro Espacial Kennedy em Cabo Canaveral, na Florida, quando integrou a privilegiada delegação internacional de fotojornalistas junto dos cientistas e autoridades que acompanharam, da Terra, o lançamento e a aventura da nave Apollo 11 e dos astronautas Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins. “Ficou-me na memória o entusiasmo de todos, rompendo a enorme apreensão que ali se sentia”, recordou o fotojornalista, em entrevista ao Diário de Notícias do passado dia 12 de Janeiro.

As suas fotografias foram publicadas na revista Notícia, em Angola, para a qual trabalhava. Mas, nessa altura, já Joaquim Cabral acumulava outras fortes experiências profissionais. Chegado a Luanda no início da década de 50, com apenas vinte anos (tinha nascido em Lamego, em 1932), o fotógrafo acompanhou profissionalmente vários momentos históricos da então colónia portuguesa, desde as viagens de políticos até à guerra colonial. “Mas ele não era um fotógrafo do regime”, diz Rui Mendonça, salientando o profissionalismo do seu trabalho. “Estive em várias guerras”, comentou o fotógrafo ao DN na citada entrevista. “E foram suas” – diz a biografia-homenagem agora divulgada pela ESAD – “algumas das primeiras fotografias” que chamaram a atenção do mundo para a fome no Biafra.

Em 1961, Joaquim Cabral assinou a fotografia da capa da Notícia com Moisés Tshombe, Presidente do Katanga, um efémero estado africano que declarara a secessão, no ano anterior, logo após a independência do Congo Belga (depois Zaire e actual República Democrática do Congo).

Também nos anos 60, o fotojornalista fizera uma volta ao mundo em 37 dias para a mesma revista de Luanda, a convite do Governo de Macau. “Fizemos um número especial sobre Macau. Partimos de Luanda e a viagem de ida teve paragens de dois dias em Lisboa, Roma, Atenas, Istambul, Teerão, Banguecoque e Hong Kong. Para cá, viemos ao contrário, por forma a percorrermos o outro meio mundo: Macau, Tóquio, Honolulu, S. Francisco, Nova Iorque, Lisboa e Luanda”, recordou o fotógrafo ao DN, sobre esta reportagem feita em 1968 para a Notícia.

Em 1971, Joaquim Cabral assinou, com o poeta Herberto Helder, uma reportagem sobre a catástrofe provocada pelas chuvas, que foi intitulada Lobito das águas violentas. No mesmo ano, acompanhou também o Carnaval no Rio de Janeiro.

Depois do regresso a Portugal a seguir à Revolução de 1974, perdeu-se o rasto da sua carreira de fotojornalista, e Joaquim Cabral dedicou-se ao ensino. Mas continuou ligado à fotografia, tendo mesmo participado em exposições colectivas. Rui Mendonça publicou, com a chancela das edições Gémeo, dois livros com obras suas: Envolto na Neblina (2004), sobre a Ria de Aveiro – “de que ele gostava muito”, nota o editor, e Assinatura do Sol (2005), com o registo de trabalhos dos anos 60 em Angola. A ESAD está a preparar uma exposição de homenagem.


Páginas da revista Notícia com a reportagem em Cabo Canaveral

27 abril, 2009

comemorar o furo - a prática

Para Niépce, Lisboa, 2009
Paula Ferreira/Alexandra Gonzalez/Sérgio B. Gomes

Êxito. Sim porque o êxito pressupõe o atingir da meta estipulada. E hoje [domingo] a meta era estimular novos praticantes para um processo fotográfico alternativo com pouco impacto entre nós, a propósito do Dia Mundial da Fotografia Estenopeica [26 de Abril].

Não chegou à dúzia, mas os interessados foram descobrindo as diferentes partes de um todo que constitui a percepção do processo fotográfico: a construção da câmara; a razão da formação da imagem; o tratamento químico-laboratorial que permite revelar e tornar durável a imagem formada pela acção da Luz sobre a emulsão fotográfica, neste caso o papel fotográfico. Este, não para uma qualquer impressora de jacto de tinta, mas obrigando a cuidados baseados em magia de alquimista para tornar visível a realidade formada e manipulada por câmaras que na sua simplicidade obrigam a aprender o manual do bom utilizador, e do trato a dar a um trajecto pela luz feito no recto caminho em direcção à emulsão.

Foram feitos alguns ensaios com câmaras já existentes e assim cativar estes entusiastas, para um pequeno salto: construir a sua câmara estenopeica. E perceberam de imediato a razão do estenopeico e o do pinhole, o grego estenopo passou a parceiro do saxesónico pin-hole e dessa parceria agulha e prego rapidamente abriram espaço nas paredes de caixas e latas. Surgiram então novos objectos adaptados a uma nova utilização - a de produzirem imagens fotográficas. E elas foram surgindo, pelo entusiasmo do fazer, na busca do aprender, realizando obra para mostrar. Desafio aceite. Lavadas e secas as primeiras fotografias, os olhos do grupo brilharam de satisfação.

Como miúdos, ficámos felizes.
Foi um êxito.

António Leal
Clube Buraco de Agulha


She`s gone, 2009
Alexandra Gonzalez

Danny Lyon

Boys With Rubber Bands
Danny Lyon ©
Edwynn Houk Gallery

Desconhecia a obra de Danny Lyon (e ainda desconheço...). Comecei a gostar dela depois de ver uma pequeníssima amostra do seu trabalho e de ler um texto no New York Times (obrigado E.) a propósito do recente lançamento do livro Danny Lyon: Memories of Myself que traça o percurso de mais de 40 anos de carreira daquele que a editora Phaidon classifica como "um dos mais originais e influentes fotógrafos americanos". Lyon (1942) é considerado um dos pioneiros do novo jornalismo fotográfico dos 60 e 70 ao qual se juntaram Mary Ellen Mark e Larry Clark e que surgiu em resposta ao estilo documental revista Life que até então se praticava.
A primeira tentativa para "destruir a Life", que para Lyon dava uma imagem anódina da América, foi feita com a publicação de Bikeriders, fruto de mais de dois anos de viagem como membro do grupo de motoqueiros Outlaws.
Muitas das fotografias agora reproduzidas em Memories of Myself nunca foram mostradas publicamente. O livro reúne uma selecção de ensaios erráticos que vão desde Chicago até Port-au-Prince, Haiti, e Cuba, mais recentemente.
Texto do NYT aqui e galeria aqui

I wanted to change history and preserve humanity, but in the process I changed myself and preserved my own.
Danny Lyon, NYT

=ColecçãoàVista= 14

José Carmo da Rosa, Aldeia da Luz, 1998
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

Aldeia da luz

José Carmo da Rosa nasceu em Agadir, Marrocos, em 1951. Viveu em Portugal entre 1960 e 1972. Em 1960 passou a viver com a família no Porto, onde permaneceu até à idade de cumprir serviço militar. A partir de 1970, ao invés de ingressar no exército português, resolve "emigrar" para a Europa. Em 1972 opta por viver na Holanda onde frequenta o curso de fotografia na School Voor Fotografie de Haia (1982-1987). Inicia a actividade de fotógrafo profissional em 1988 e trabalha como freelancer para vários jornais, editoras, ministérios e instituições camarárias. Executa projectos fotográficos em Marrocos e Turquia em 1994 e 1995. Em 1998, faz o levantamento fotográfico da Aldeia da Luz no âmbito do projecto da barragem do Alqueva. A vida social e a arquitectura da aldeia são ilustradas antes da subida das águas.
(texto:CPF)

25 abril, 2009

IPF:28

Aurélio da Paz dos Reis, Porto, Biblioteca Municipal, s/d

No dia 28, as sedes do Instituto Português de Fotografia no Porto e em Lisboa merecem uma visita atenta:

»»No Porto: Tereza Siza e Maria do Carmo Serén terão a seu cargo a sessão A origem da Fotografia no Porto: visão crítica dos percursos enquadrada no ciclo Contributos para a História da Fotografia no Porto - uma perspectiva;

»»Em Lisboa: Paula Figueiredo falará sobre fotografia de família e a organização de álbuns familiares, uma área de investigação a que se tem dedicado nos últimos anos. Para além desta sessão, o IPF organizou um curso prático para a realização de um álbum vitoriano e de um álbum do século XX. O curso (21 horas, uma sessão semanal, entre 13 e 30 de Junho) será orientado por Paula Figueiredo e Margarida Duarte, técnica de conservação e restauro de fotografia.


Retrato do estúdio de Emílio Biel, Porto, ca. 1900
(© Colecção Particular)

nan em tibães

Clemens in Nuremberg Eck, 1997
© Nan Goldin


Últimos dias para ver a exposição de Nan Goldin na Galeria Mário Sequeira (Quinta da Igreja, Parada de Tibães, Braga). O conjunto de 40 imagens representa o trabalho intimista e cru desenvolvido pela fotógrafa americana ao longo das últimas três décadas.

Nan Goldin é uma apaixonada historiadora do amor na era da sexualidade fluida, do glamour, da beleza, da violência, da morte, da intoxicação e da farsa. Uma atenção invulgar e atracção pelo drama e pelos lugares comuns da vida estruturam as suas fotografias. Tendo recebido uma câmara quando era adolescente, Goldin começou imediatamente a fotografar os que a rodeavam, um gesto bastante simples mas que se combinou com um sentido de história.

Ao capturar o presente, Goldin sabia, instintivamente, que aquele registo acabaria por produzir um passado. A partir do fluxo da experiência, captura momentos que, cumulativamente, contam histórias de amor, de amizade, de desejo e das suas ressacas. A sua câmara congela as idas e as vindas da experiência social do desejo; o amor e o ódio nas relações íntimas; momentos de isolamento, auto-revelação e adoração.

No trabalho de Goldin, a vastidão da experiência condensa-se em incidentes recordados: o fluxo e o tempo da vida podem ser capturados em imagens dos dias e das noites de pessoas conhecidas. Apesar de uma imagem isolada poder ser devastadora na sua intensidade e beleza, tal como um novelista ou um realizador de cinema, ela pensa simultaneamente em imagens isoladas e em sequências de imagens interligadas que formam uma narrativa.

Tendo intuitivamente desenvolvido o seu ponto de vista a partir de instantâneos dos seus amigos, Goldin encontrou no igualmente amador passatempo dos diapositivos a resposta para a sequenciação e edição de imagens. E descobriu então que o seu interesse pela fotografia residia na criação de narrativas imagéticas.

Ao longo da sua carreira, Goldin registou também espaços sem pessoas: paisagens, cenas urbanas e interiores. Seguindo uma tradição da fotografia que deixa o espaço físico funcionar como metáfora de um estado de espírito, Goldin elaborou um caminho alternativo baseado nas suas próprias viagens pela vida. De várias maneiras, utiliza o vazio destes espaços como uma metáfora da perda.

Nan Goldin é uma retratista de almas. Vê através dos olhos dos seus retratados, em ambas as direcções, e a sua visão inclui amigos, amantes, artefactos, roupa, quartos: o contexto da alma. Ela revê-se nos seus temas; as portas entre a sua vida e o seu trabalho estão sempre abertas de par em par. (...)

(fonte: Galeria Mário Sequeira)

Galeria com fotografias da exposição aqui

Nan Goldin
Galeria Mário Sequeira
Quinta da Igreja, Parada de Tibães, Braga
Até 4 de Maio

23 abril, 2009

Bandeira e multidão, dois símbolos nacionais

© Laszlo Balogh/Reuters


Eduardo Cintra Torres

A fotografia de Laszlo Balogh, da Reuters, mostrando uma bandeira e uma multidão de manifestantes húngaros exigindo eleições antecipadas, no passado dia 5 de Abril, é uma ilustração perfeita da relação próxima entre a bandeira e a multidão como símbolos nacionais.

Quase toda a fotografia é ocupada pela bandeira com as cores da Hungria. No pano estão bordados os dizeres Gloria Victis 1956, glória aos vencidos da revolução de 1956, reprimida pela União Soviética. A bandeira tem o mesmo formato e orientação da fotografia: é como se pudessem coincidir, como se um momento antes a bandeira tivesse coincidido inteiramente com a imagem. Mas não. O momento decisivo foi este em que se cria uma narrativa de reportagem (de acção) que inclui no canto inferior esquerdo a mão que segura o pau de bandeira e no canto oposto, dominando em altura, uma bandeira oficial do país.

O que torna originalíssima esta imagem é que a a bandeira Gloria Victis 1956 está aberta ao centro: tem um buraco que coincide com os limites da representação em mapa da Hungria. E, através do buraco, vê-se a multidão de manifestantes. Há, assim, uma raríssima coincidência entre a bandeira, a multidão nacional (e neste caso nacionalista) e o mapa do país. Três em um. Perde-se quase a percepção da perspectiva e os manifestantes transformam-se em tecido da bandeira.

A relação entre a multidão e a bandeira tem sido muito frequente na arte, na fotografia e na publicidade desde que Eugène Delacroix pintou A Liberdade Guiando o Povo no 28 de Julho de 1830. Escrevi sobre esta relação num texto muito ilustrado publicado na revista online Observatorio (OBS*) com acesso directo por aqui.

deserto

© David Zimmerman


O americano David Zimmerman venceu o L’Iris D’Or para o Fotógrafo do Ano no Sony World Photography Awards 2009, um prémio já anunciado em Cannes no fim da semana passada. A imagem com que Zimmerman arrecadou o galardão principal do concurso estava incluída na categoria Paisagem e revela a limpidez árida do deserto do sudoeste americano, um ecossistema considerado frágil.

“A minha documentação destes notáveis desertos espalhados pelo Arizona, Novo México, Califórnia e Nevada é um esforço continuado para influenciar a preservação destes locais através da consciência, opinião e intervenção pública”, afirmou Zimmerman na cerimónia de entrega do prémio.

O Honorary Judging Committee é composto por 12 membros do World Photography Awards Academy. Bruce Davidson, representante do Honorary Judging Committee, afirmou: “Vivemos numa era de consciência ambiental. É também a era da imagem. Ambas podem co-existir para nos dar uma perspectiva mais clara do uso e abuso dos nossos amados oceanos profundos e terra firme, que se encontram bem mais em risco do que nos atrevemos a admitir. As fotografias de David Zimmerman conseguiram fazer coincidir imagem e significado. Na sua perspectiva sensual e determinada, tomamos consciência de onde como seres humanos nos encontramos no percurso das areias ao longo do tempo”. Para Mary Ellen Mark, esta imagem transmite “uma visão única de beleza, poesia, e de poder, possível numa soberba fotografia de paisagem”.

Na mesma ocasião, o fotógrafo francês e anterior presidente da Magnum Photos Marc Riboud foi reconhecido com o Prémio 2009 Lifetime Achievement Award entregue por Elliott Erwitt.

22 abril, 2009

Amor Cachorro

© Jordi Burch

O fotógrafo do colectivo [kameraphoto] Jordi Burch participará num debate no dia 23 (21h30) sobre um dos seus mais recentes trabalhos, Amor Cachorro, em exposição na galeria P4Photography. Participarão na conversa Ricardo J. Rodrigues, jornalista, e Luís Trindade, director da P4. Amor Cachorro faz um retrato de "mulheres que amam demais" que fazem parte da associação MADA-Mulheres, sediada em S. Paulo, no Brasil. O projecto de Jordi Burch cruzou-se com as palavras da jornalista Marí­lia Gabriela no livro Eu que amo tanto.

Para ver mais fotografias de Amor Cachorro clique aqui

Amor Cachorro, de Jordi Burch
Galeria P4, R. dos Navegantes, 16
Até 20 de Maio

 
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