18 abril, 2009
Riboud
O (meio) século XX de Marc Riboud
Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 18.04.2009)
Em Novembro do ano passado, por entre a multidão de jornalistas e correspondentes que acompanharam a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, estava um velho senhor de cabelos brancos, 85 anos, que não quis deixar de registar o acontecimento com a sua câmara fotográfica, como o fizera inúmeras outras vezes, ao longo do último meio século, em diferentes partes do mundo. O fotógrafo em causa é o francês Marc Riboud (n. 1923), um nome fundamental da fotografia do século XX, nomeadamente através da sua ligação à agência Magnum, de Henri Cartier-Bresson e Robert Capa.
Uma exposição retrospectiva da obra de Marc Riboud pode ser visitada em Paris, no Musée de la Vie Romantique, até 26 de Julho. Chama-se O Instinto do Instante - 50 Anos de Fotografia e traça, em mais de uma centena de imagens, o percurso aventuroso deste autor para quem a fotografia, "mais do que uma profissão, foi sempre uma paixão muito próxima da obsessão" (diz ele, na abertura do seu site em http://www.marcriboud.com/).
No museu parisiense estão expostas inúmeras das fotografias mais conhecidas de Riboud (verdadeiros documentos históricos), muitas delas inéditas e outras em provas vintage. Entre elas encontram-se, claro, as do pintor da torre Eiffel - que, em 1953, valeram a Riboud a entrada para o "clube" restrito de Cartier-Bresson e Capa -, e as das duas jovens, empunhando uma flor perante os militares em Washington (1967) e levantando o punho, às costas de um manifestante, nas ruas de Paris (1968), que simbolizaram os importantes movimentos sociais e políticos que marcaram esse final da década de 60, nos dois lados do Atlântico.
Mas a câmara de Marc Riboud fotografou também, antes e depois destas datas, os principais protagonistas e os grandes acontecimentos políticos verificados na China e Índia (anos 50), a descolonização da Argélia e de outros países de África, ou ainda a Guerra do Vietname, ajudando assim a fazer o retrato da segunda metade do século XX.
Ao lado destes registos mais históricos, a exposição dá ainda a ver a faceta mais pessoal e íntima da vida deste "homem honesto e corajoso, poeta tão interessado pelo homem como pela natureza, e com uma sensibilidade sempre vigilante e vibrante de ternura e de humor", diz a escritora Sophie Nauleau, no catálogo que acompanha a exposição.
O Instinto do Instante - 50 Anos de Fotografia, de Marc Riboud
Musée de la Vie Romantique, Paris
Até 26 de Julho
17 abril, 2009
A2008PP
O fotógrafo australiano Michael Corridore venceu o Aperture 2008 Portfolio Prize, hoje anunciado, com o projecto Angry Black Snake. Para além de Corridore, foram distinguidos os trabalhos de Jowhara AlSaud, Colin Blakely, Joe Johnson, Hector Mata e Elizabeth Pedinotti.
Os portfólios vencedores podem ser vistos aqui
comemorar o furo
»Introdução à fotografia estenopeica
»Razões do crescimento da prática deste processo de fotografia alternativa
»A rede e a fotografia estenopeica - O mundo através de um estenopo (furo)
»Adaptação de câmaras para a realização de fotografia estenopeica
»Construção/preparação de câmaras para a realização de fotografia estenopeica
»Tratamento laboratorial
»Mostra dos trabalhos realizados
»Mostra de diferentes câmaras
»Mostra de fotografia estenopeica
»Apresentação e publicação de fotografias no sítio Worldwide Pinhole Photography Day
Os participantes deverão levar caixas em que a luz não entre (latas de biscoitos, de bebidas, latas de chá).
O Arte Photographica associa-se a esta iniciativa e publicará os trabalhos que forem produzidos durante esta sessão.
LaChapelle
“If I could choose any period to have been an artist, it would definitely be the Baroque”
David LaChapelle
fotografiafalada
“O projecto de retratos de Sander para a república de Weimar é um grande monumento da fotografia do século XX. Estabelece um método de trabalho meticuloso e é um dos fundadores da fotografia tipológica. Para ele, uma imagem é sempre insuficiente. O importante era o projecto, a estrutura de trabalho. É esse aspecto que se tenta sublinhar nesta exposição. Não se tratava apenas de incluir boas ou grandes imagens, bons ou grandes autores, mas de compreender métodos de trabalho, produção de conhecimento e de estruturas de arquivo. O arquivo é justamente isso – a produção de conhecimento e de saber.”
(Jorge Ribalta, P2, Público, 14.03.2009)
Arquivo Universal - A condição do documento e a utopia fotográfica moderna
Museu Colecção Berardo, Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 3 de Junho
16 abril, 2009
Merce
imagem da morte
O poder político americano dos últimos 18 anos negou a existência de imagens de repatriamentos de soldados mortos em combate no estrangeiro. A interdição começou com Bush pai numa tentativa de tornar menos presente (e real) a morte de tropas dos EUA em cenários de guerra. Com a chegada de Barack Obama à Casa Branca, a atitude da Administração americana em relação a este delicado tema mudou substancialmente. Logo nas primeiras semanas depois de ter sido eleito, os jornalistas perguntaram ao Presidente se iria rever esta interdição. Obama disse que sim, mas não se comprometeu. No entanto, na semana passada os media foram informados que podem voltar registar estas operações de repatriamento que decorrem na base aérea de Dover. A decisão não é consensual, como bem mostra Kathleen Gomes no texto A América já não esconde os seus soldados mortos que assina no P2. Aqui
“O que importa perceber é: o que é que as imagens dos jornais fazem? Provavelmente dirá que elas informam. Mas, de certo modo, não é assim. Elas sublinham ou reforçam o que já sabemos.”
Tim Hetherington, P2, Público, 12.04.2009
15 abril, 2009
flamenco+fotografia
A objectiva dos fotógrafos andou sempre atenta aos movimentos do corpo dançante e à expressividade de quem toca e canta. Entre os infindáveis géneros, o flamenco é dos mais fotogénicos e um dos que mais encenação leva para a fotografia. A pensar nesse poder, o Centro Andaluz de Arte Contemporáneo acaba de inaugurar uma vasta exposição que percorre a representação fotográfica do flamenco desde meados do século XIX. Mais de 200 imagens de mais de 70 autores de todo o mundo tentam transmitir a arte e a magia presentes nesta expressão de canto e dança profundamente influenciada pela cultura cigana.
A mostra chama-se Prohibido el cante. Flamenco y fotografía, uma alusão ao letreiro que muitas tabernas de Espanha ostentaram.
Prohibido el cante. Flamenco y fotografía
Centro Andaluz de Arte Contemporáneo
Até 30 de Agosto
14 abril, 2009
O tempo suspenso em África
Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 11.04.2009)
Há um tempo que já passou e outro tempo que está ainda por vir na Avenida Patrice Lumumba. Esta avenida é mais do que uma estrada desgastada pelos solavancos da História, é um tempo suspenso e incerto: sabe-se onde e como começou o caminho, que rectas e curvas inesperadas lhe surgiram pela frente, e o beco em que hoje se encontra; não se sabe a que futuro vai parar.
Avenida Patrice Lumumba é a exposição que o Museu de Serralves exibe actualmente nas suas principais salas, a revelar no Porto o trabalho do fotógrafo sul-africano Guy Tillim (n. Joanesburgo, 1962). O título remete directamente para o imaginário das lutas de libertação do colonialismo, em volta da figura do líder que ajudou à independência da República do Congo face à Bélgica, e que seria assassinado em 1961, poucos meses depois de se ter tornado no primeiro-ministro do novo país, e de ter sido deposto por um golpe de Estado. Mas é o tempo presente que é reflectido nas mais de meia centena de fotografias que constituem a exposição, e cujo tom quase sépia de cores cansadas retrata também uma realidade fatigada, simultaneamente gasta por excesso e por falta de vida. Na República do Congo, mas também em Moçambique e Angola, e no Benim e Madagáscar. Há um hotel em ruínas que já foi grande hotel, e uma piscina agora transformada em tanque de águas paradas; há jardins de estátuas apeadas, sem plinto umas, sem cabeça ou membros outras; há um liceu, um consultório, um banco, um escritório, um stand da Toyota, que já não o são.
São imagens que nos "falam, de modo tocante, do fracasso das utopias europeias" - escreve o comissário da exposição, Ulrick Loock, director adjunto do Museu de Serralves -, e simultaneamente "das dificuldades hoje sentidas pela população que ocupou esses edifícios, e que tenta aceitar o seu passado colonial e a respectiva herança". Mas é uma herança ainda sem futuro previsível. É visível a desadequação das pessoas perante os edifícios e os espaços urbanos que lhe foram deixados pelos regimes coloniais.
O que sobra - também para o visitante da exposição - é um passeio pela desolação desta Avenida Patrice Lumumba.
Avenida Patrice Lumumba, de Guy Tillim
Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto
Até 17 de Maio
=ColecçãoàVista= 12
Augusto Alves da Silva (1963), Projecto CNB, Lisboa, 2003Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia
Bailado
Augusto Alves da Silva acompanhou durante dois anos o trabalho da Companhia Nacional de Bailado, assistindo a ensaios e a espectáculos. O resultado ficou registado em fotografia e vídeo, séries fotográficas apresentadas quer em conjunto, quer separadamente. Nestas imagens, que resultam de uma encomenda com carácter comercial perfeitamente conjugada com um trabalho de autor, podemos observar o quotidiano dos bailarinos, o trabalho do seu corpo, colocando em evidência aquilo que querem transmitir ao espectador, os pormenores que nos aproximam dos seres humanos por detrás das coreografias e representações. Tudo isto torna o olhar de Augusto o de alguém que viu muito além da fotografia de cena, presenciou com atenção os pormenores do dia-a-dia e os quis homenagear, mostrando-nos uma faceta que não nos é acessível a partir da plateia.
(texto:CPF)
08 abril, 2009
Edgar Martins vence BES Photo08
s/t, da série When light casts no shadow, 2008
© Edgar Martins
Edgar Martins, de 32 anos, tornou-se o fotógrafo mais novo a vencer o Prémio BES Photo, um dos mais importantes galardões de arte contemporânea atribuídos em Portugal com uma dotação de 25 mil euros. O júri de premiação foi constituído pelos curadores Agnès Sire e Paul Wombell e pela artista plástica Helena Almeida, vencedora da primeira edição do BES Photo.
A escolha de Edgar Martins para vencedor da quinta edição do prémio "resulta da coerência e da consistência do trabalho desenvolvido pelo artista, critérios patentes na forma como seleccionou e apresentou as obras em exposição. O diálogo estabelecido entre as séries de obras escolhidas, bem como a percepção e o aproveitamento do espaço expositivo na instalação das fotografias". O júri aponta ainda "a diversidade das técnicas utilizadas pelo artista, bem como o processo e o propósito do trabalho inédito apresentado".
Depois do anúncio do prémio feito pelo ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, Edgar Martins afirmou-se "genuinamente surpreendido" com este reconhecimento. "Comunicar através da arte e da fotografia é difícil. Talvez este cheque facilite esse processo de comunicação", disse o fotógrafo nascido em Évora, a viver em Londres desde o final dos anos 90.
Com um discurso a enaltecer o prémio e a sublinhar a sua importância no panorama da arte contemporânea em Portugal, o ministro da Cultura lançou um "desafio" ao presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado, também presente na ocasião, pedindo-lhe que abrisse uma linha de crédito com taxas indexadas à Euribor para compra de peças de arte. Para Pinto Ribeiro, devia comprar-se arte em Portugal "com a mesma facilidade com que se compram casas" numa tentativa de "apoiar o mercado e os artistas". A plateia reagiu com um burburinho.
O ministro da Cultura pediu ainda ao "sector financeiro" presente na sala que apoiasse residências de artistas portugueses no estrangeiro em troca de obras de arte produzidas por esses criadores. Desta vez a reacção da audiência foi mais discreta.
Luís Palma e André Gomes foram os outros finalistas do Prémio BES Photo. A exposição com trabalhos inéditos dos três artistas estará patente ao público no Museu Colecção Berardo até ao dia 17 de Maio.
>>1. (fotografiafalada)
>>2.(fotografiafalada)
07 abril, 2009
MadridFoto
Entre 7 e 10 de Maio decorre a primeira edição da MadridFoto, uma feira de fotografia contemporânea que pretende imitar o conceito de outras grandes feiras mundiais da especialidade, como a Paris Photo ou a Photo Miami. Giulietta Speranza, directora artística da iniciativa, anunciou a participação de 47 galerias, entre as quais 15 estrangeiras. A iniciativa afirma-se vocacionada para "um público heterogéneo" e pretende incentivar "um novo tipo de coleccionismo" motivado por iniciativas como o PHotoEspaña. Nesta primeira edição, haverá apenas lugar para fotografias produzidas e impressas nos últimos cinco anos. As galerias seleccionadas terão à venda obras de mais de 230 fotógrafos, entre os quais Alberto García-Alix, Nan Goldin, Andrés Serrano, Antoni Muntadas, Axel Hütte, Candida Höfer, Chema Madoz, Phillip Lorca-DiCorcia, Martin Parr e Isabel Muñoz.
A Galeria Mário Sequeira e a Carlos Carvalho Arte Contemporânea são as representantes portuguesas na MadridFoto.
06 abril, 2009
/uma fotografia, um nome\
“Na teia de inscrições que uma imagem sempre representa, esta fotografia de Manuel Magalhães fala de arte abstracta.
Não é uma imagem pitoresca, não a vemos como um quadro; essa designação liga-se com a paisagem. Mas aqui, como na imagem pitoresca há, aparentemente, reprodução do original.
Manuel Magalhães faz do mundo real referência – o que se torna claro na pedra que ladeia um hipotético pedaço de muro e na rugosidade da superfície pintada. É uma fotografia que cria o seu referente directo. Mas esse referente, (decididamente enquadrado, com uma sombra que o limita e atravessa) conecta-se na memória do fotógrafo com imagens de pintura abstracta. E este é, afinal, o velho tema da teoria da representação do pós.modernismo.
No entanto, se bem que igualmente agravada como o desafio de Sherrie Levine na sua refotografia de conhecidos fotógrafos, a obra de Manuel Magalhães tendendo a ser a reprodução do imaginário, ancora na realidade. A teoria da representação pós-modernista nega a representação do acontecimento, da exterioridade, já que surge armadilhada com a associação da representação prévia, - essa multidão de imagens apelando ao conhecimento e ao desejo, que hoje faz a nossa aprendizagem.
E, de certo é esse o motivo desta imagem de Manuel Magalhães e é a sua memória e o seu desejo que a constituíram, conhecimento da arte abstracta, desejo de o formular, fotografando o que estava no seu interior.
Ou seja, se a representação é teorizada como origem e não como réplica fotográfica, (pois o fragmento é arbitrariamente perspectivado), esta fotografia informa, acima de tudo, sobre a composição abstracta a que a mesma arte nos habituou e que o fotógrafo isolou na sua consciência e no seu olhar.
O conceptualismo complicou a análise do olhar, criou outros patamares de compreensão. Recusa liminarmente a ingenuidade do fotógrafo e do observador. Tratando da relação palavra-objecto, já o pós-estruturalismo afirmara que o significado apenas se produzia internamente, por ruptura: percebemos o significado de um objecto apenas porque lhe negamos outros significados, é abstracto porque não é naturalista, porque não é barroco, porque não é de intenção futurista… olhar é então argumentar com a nossa memória, com o nosso conhecimento. Olhar e isolar um fragmento é colocar-lhe toda a canga da cultura; uma argumentação interior. Derrida dirá mais, a linguagem, além de arbitrária, é autónoma. A que se liga, pois, o significado?
Precisamente ao agora, ao momento em que um sujeito historicamente situado dá significado ao objecto.
O que continua a causar problemas a quem olha e entende de forma aprazível o significado.
Manuel Magalhães oferece-nos aqui a réplica de um quadro abstracto, sem intenção pictorialista, como uma fotografia directa. A realidade que subjaz à composição é identificável. É uma composição, pois há enquadramento milimétrico; é, de resto, uma escolha feliz. Porque qualquer deambulação sobre o significado da arte a justifica.”
Maria do Carmo Serén
o regresso dos franceses
Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 4.04.2009)
“Aquela mulher está sempre ali a dividir a sua comida com os pombos!”, dizia Georges Dussaud, um dia desta semana, quando descíamos a Rua Mouzinho da Silveira, em plena Baixa portuense. A sua mulher Christine acrescentava que, no café e na peixaria que se habituaram a frequentar perto do antigo campo do Salgueiros, são já cumprimentados e “simpaticamente tratados como gente da terra”.
É esta faceta “quase rural, de uma aldeia na grande cidade”, que mais agrada ao fotógrafo francês, e é esse Porto que ele regista, com a “objectiva afectiva” da sua Leica, como o P2 pôde verificar quando o acompanhou, em Novembro de 2007, estava Dussaud a começar a fotografar a cidade respondendo a um desafio dos Serviços Culturais do Consulado de França no Porto e do Centro Português de Fotografia (CPF).
Depois de várias semanas, em diferentes épocas do ano, de passeio e deriva pelas ruas e bairros da cidade, o olhar com que Georges Dussaud viu (e vê) o Porto está agora também à vista de todos, numa exposição no CPF/Cadeia da Relação. É a montra mais vasta e mais expressiva da iniciativa InVisões: Portugal visto pelos fotógrafos franceses, que reúne uma selecção de trabalhos realizados desde o final do século XIX até à actualidade e que integram a Colecção Nacional de Fotografia – e onde estão autores como Henri Cartier-Bresson, Edouard Boubat, Alain Buttard, Bernard Plossu, Bernard Faucon, Robert Demachy ou Jacques-Henri Lartigue.
Na sua (In)visão do Porto – o título da exposição é um declarado trocadilho com Invasão, agora na ordem do dia por via da evocação do bicentenário das Invasões Francesas –, Georges Dussaud insiste na estética que tem marcado a sua obra, e que a partir de 1987 associou à histórica agência Rapho, que fora fundada em Paris em 1933, e por onde passaram nomes como Robert Doisneau e o já citado Edouard Boubat. “Faço uma fotografia dita da escola humanista e afectiva. Eu não saberia fazer um trabalho sob a perspectiva da antipatia, da distância ou do ódio. Aquilo que me interessa é estabelecer uma relação de simpatia com as pessoas”, justifica Dussaud. Foi essa faceta que certamente fez com que fosse desafiado, pela câmara de Lisboa, a fazer um trabalho sobre o bairro do Martim Moniz, na capital. “Sei que é um bairro com forte presença de imigração, com muitos indianos, paquistaneses e africanos”, diz o fotógrafo (que já publicou um livro sobre a Índia), que não sabe ainda se vai haver condições para que esse projecto se concretize.
Adiado fica, por enquanto, a edição de um catálogo da exposição sobre o Porto, por falta dos apoios necessários à sua realização. A concretizar-se, o livro poderá vir a incluir também fotografias de Gaia, que Dussaud está agora a fotografar. “Faria todo o sentido deixar um traço de todo este investimento humano e afectivo”, diz o autor das Crónicas Portuguesas, a grande exposição retrospectiva que realizou na Cadeia da Relação em 2007, e que tem vindo a ser apresentada noutras cidades portuguesas – as próximas paragens serão Évora, em Junho, e possivelmente a Régua, no final do ano.”
InVisões, Portugal Visto pelos Fotógrafos Franceses, vários autores
Centro Português de Fotografia, Porto
Até 30 de Setembro
05 abril, 2009
The Prison Within
Excerto do texto que Paulo Nozolino escreveu para o catálogo da exposição:
“(...) Alexandr Glyadyelov, polaco de origem e ucraniano de alma, luta, através do seu trabalho como fotógrafo, para mostrar que nada mudou. A opressão continua na Grande Rússia. Povo endurecido pela revolução de 1917, massacrado durante a Segunda Guerra Mundial, privado de tudo durante os anos da Guerra Fria e a quem foi finalmente dada a ilusão de liberdade depois da queda do muro. O capitalismo selvagem da era pós-Gorbachev, a tirania putiniana e a fragmentação do território em províncias, não ajudou em nada este povo quebrado pelo quotidiano e alienado depois de duas guerras perdidas, no Afeganistão e na Chechénia.
Alexandr Glyadyelov faz parte deste povo. Escolhe como sujeitos as crianças abandonadas das ruas de Kiev, os toxicodependentes de Odessa e os esquecidos nos gulagues siberianos do século XXI. Cheirar cola em miúdo, injectar heroína mais tarde, roubar para sobreviver à miserável realidade. Crime e castigo. A expiação do mal interior. A maldição eterna das estepes. A miragem das grandes cidades.
(...)”
The Prison Within, de Alexandr Glyadyelov
Galeria Pente 10, Travessa da Fábrica dos Pentes, Lisboa
Até 30 de Abril
Les Américains na América
04 abril, 2009
fotografiafalada
Estou interessado no aspecto teatral das imagens, na performance, mas não no sentido tradicional da palavra. Estou interessado em representar a performance do mundo consigo próprio enquanto conjunto de processos e factos. E a única forma de captar isto é abrandando o tempo. É por este motivo que recorro sempre a longas exposições e um dos motivos pelos quais utilizo a máquina fotográfica como máquina de filmar.
Gosto da ideia de que todo e qualquer espaço faz um processo de mutação instigado pela pessoa que observa e sempre que o observa. Se conseguirmos abrandar o tempo o suficiente talvez consigamos captar essa performance. Há uma ambiguidade inerente às imagens que também é importante. Isto remete para a fotografia enquanto processo de representação. Estou interessado naquilo que André Breton chamava de object trouvé (objecto encontrado). Fotografo apenas aquilo que se encontra nas praias, os vestígios da presença humana. No entanto, isto não é explícito. O observador não sabe o que se passa nestes espaços.
Muitas vezes perguntam-me se estas fotografias são feitas com recurso a pequenos cenários de estúdio. A ambiguidade é importante porque confere ao trabalho um lado teatral que é o que dá vida às imagens. A luz misteriosa é uma característica que une todos os trabalhos nocturnos e um dos aspectos que transmite uma carácter surreal a estas obras. A qualidade da luz vem das longas exposições. Num conjunto de 40 imagens, haverá cinco que foram fotografadas em espaços que tinham alguma fonte de luz artificial, não minha mas das próprias praias. A olho nu estas praias apareceriam totalmente escuras. Aquilo que as longas exposições fazem é trazer à luz esses espaços que têm alguma fonte de iluminação. Nunca iluminei as praias. A maioria estava quase na penumbra.
Esta ideia de falta de controlo é muito importante em todos os trabalhos. Não quero ter o controlo total sobre os espaços. A única forma de permitir que essa performance aconteça é havendo algum elemento de espontaneidade, é não tentar controlar a situação. Quando se utiliza exposições muito prolongadas é tudo mais difícil de controlar.
Quero que estas imagens sejam ambíguas porque, para mim, o processo é tudo. Se de facto houver alguma ambiguidade, acho que quem observa poderá questionar o processo de produção das fotografias. Haverá pessoas que vão considerar que são controladas digitalmente - mas a verdade é que não são. Não há qualquer intervenção da minha parte, para além do enquadramento.”
Topologias, de Edgar Martins
Museu do Oriente, Lisboa
Até 19 de Abril
03 abril, 2009
Pente 10 na Paris Photo
A galeria portuguesa Pente 10 foi admitida para a próxima edição da Paris Photo, uma das mais importantes feiras de fotografia do mundo. O certame está agendado para o Carrousel du Louvre entre 19 e 22 de Novembro e terá a fotografia árabe e iraniana como pano de fundo.
=ColecçãoàVista= 11
Eadweard Muybridge, Two Women on steps, 1887Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia
In Motion
A pedido de Leland Stanford, ex-governador da Califórnia, Eadweard Muybridge (1830-1894) fotografou uma sequência de imagens de um cavalo a galope. Stanford acreditava que o cavalo erguia as quatro patas em simultâneo quando galopava e esperava que Muybridge o provasse. Este último, acabaria por criar, em parceria com John D. Isaacs, um projecto para captação sequencial de imagens. Em 1877 a teoria foi provada. Muybrigde deu continuidade a estes estudos fotografando também outros animais, homens e mulheres. Dispunha num espaço 12 a 24 câmaras alimentadas com uma bateria que captavam os vários instantes. Estas sequências contribuíram decisivamente para a investigação da locomoção animal e inspiraram Isadora Duncan na dança moderna e Gertrude Stein na escrita.
(texto:CPF)
expression
A Magnum Photos e a HP criaram um novo prémio de fotografia, o Expression Photography Award. Objectivo: discover and illuminate compelling documentary photography employed in innovative ways to affect social awareness and propel humanitarian compassion. O júri da Magnum é composto por Alec Soth, Jonas Bendiksen, Paolo Pellegrin e Susan Meiselas.
Regulamento, prazos e prémios estão aqui
01 abril, 2009
Helen Levitt 1913-2009
Helen Levitt (Bensonhurst, 1913 - Manhattan, 2009) nunca fez parte de grupos ou movimentos de fotografia. Mas o trabalho que produziu ao longo de quase 50 anos de carreira inspirou-se profundamente nas imagens de Henri Cartier-Bresson e de Walker Evans, com quem chegou a colaborar numa série de fotografias captadas nos arredores de Nova Iorque. As suas primeiras imagens datam de 1936 e o grosso da sua obra está focada em cenas do quotidiano de rua de Nova Iorque. É muito frequente aparecerem crianças nas suas fotografias. A zona de Manhattan, onde vivia, era um dos seus locais favoritos para trabalhar. Foi a exposição Children: Photographs of Helen Levitt no M.O.M.A., de 1943, que lançou a sua reputação como fotógrafa. Depois de 1960, Levitt abandona o preto e branco e começa a fotografar a cores para captar a vida urbana. Publicou trabalhos na Fortune, na Harper`s Bazaar e na Time e, em 1990, o M.O.M.A. dedicou-lhe uma retrospectiva.
O obituário do New York Times está aqui
e o do Libération aqui
Encontros em Maio
Depois de uma partida em falso, no ano passado, os Encontros da Imagem de Braga parecem ter encontrado a luz do dia (leia-se o apoio do Ministério da Cultura que vai contribuir com 89 mil euros). O arranque do festival está agendado para Maio com o tema Fronteiras do Género a pautar a programação. Ao todo, estarão representadas quatro dezenas de fotógrafas portuguesas e estrangeiras divididas por dois grandes núcleos: Do feminismo ao feminino, no Mosteiro de Tibães; Olhares femininos, em vários espaços da cidade.
“(...)
Fronteiras do Género, não pretende revisitar as lutas feministas dos finais dos anos 60, mas reflectir, a partir dessa génese, na multiplicidade de linguagens e representações artísticas da contemporaneidade. Para o efeito, o projecto delineado, embora remeta para as raízes dos anos 60, evolui rapidamente para a diversidade actual, procurando verificar se efectivamente existe, ou não, uma expressividade mais característica do género feminino. Assim, para além da já tradicional representação do corpo, encontramos propostas que vão desde a evidência dos problemas actuais da sociedade, ao uso e forma de materiais mais tradicionalmente femininos, até conceitos mais abstractos.
(...)”
Rui Prata
30 março, 2009
fotografiafalada
“Há uma relação muito interessante entre estas duas séries. A dos fogos florestais (The Rehersal of Space) foi produzida entre 2005 e 2006 em Portugal. Inicialmente era para ter sido feita a partir de uma residência em várias corporações de bombeiros pelo país fora, mas esse esquema não funcionou. Acabei por ter ajuda da Protecção Civil e todas as manhãs telefonava a pedir as coordenadas dos incêndios activos. As fotografias de glaciares (Landscapes Beyond: The Burden of Proof) foram todas captadas em países nórdicos, nomeadamente na Islândia.
As imagens das duas sérias são muito fotográficas no sentido ortodoxo da palavra. São minimalistas. São muito… fotográficas, não sei bem que outra expressão usar se não esta. São algo ortodoxas a nível estrutural, a nível formal e a nível pictórico. Quero que o observador faça uma primeira leitura e, à medida que as for estudando, se aperceba que algo mais sinistro está a acontecer dentro delas.
As fotografias de fogos, foram criadas para fazer alusão à pintura romântica de William Turner e John Constable. As imagens de glaciares tentam fazer alusão à fotografia topográfica do século XIX, do apelo ao histórico e ao sublime. No entanto, a particularidade destas fotografias é que, enquanto as pinturas de Turner e Constable celebravam a vida e a morte, estas fotografias fazem o oposto. Anunciam não só a morte do espaço, mas a morte da paisagem como tema pictórico.
A série das paisagens nórdicas surgiu depois das imagens de fogo, mas foram estas que inspiraram as primeiras. De uma forma geral, o meu trabalho lida com duas polaridades: o impacto do modernismo no meio-ambiente em sentido lato; e com a fotografia enquanto processo de representação. Sempre fiz alusão não só ao uso de determinados temas dentro da fotografia, como também à forma como estes temas são entendidos pelo próprio observador. Queria criar um trabalho que lidasse com paisagem, mas que fosse para além disso – que reflectisse sobre o tema da paisagem.
Sempre tive um grande fascínio pela fotografia topográfica do final do século XIX e início do século XX, não pelas fotografias em si, mas pela função que essas fotografias tinham na sociedade. Hoje em dia, a fotografia já não tem as mesmas funções. No trabalho de paisagem nos países nórdicos quis criar imagens que possam ser vistas quase como um exercício de futilidade. Ou seja, nos antigos esquemas topográficos, a fotografia trazia ao mundo espaços remotos, espaços que nunca tinham sido vistos. Nestes trabalhos fiz expedições. Fui com equipas de geógrafos, de geólogos e com equipas de socorro. Quis ir a sítios desolados, de difícil acesso. Embora não estejam muito presentes, sabia que ao representar estes espaços estava a captar lugares que, de uma forma ou de outra, já eram conhecidos. É neste sentido que digo que o resultado desta série acabou por ser um exercício de futilidade. E é neste sentido que estes trabalhos lidam com a morte da paisagem como tema pictórico.”
(Edgar Martins)
Topologias, de Edgar Martins
Museu do Oriente, Lisboa
Até 19 de Abril
28 março, 2009
leilões
Avizinham-se mais três grandes leilões de fotografia:
»»Sotheby`s (30 de Março): conjunto muito heterogéneo de fotografias que vai desde o início da história da fotografia até à contemporaneidade. Inclui um naipe de grandes nomes, entre os quais Alfred Stiglitz (1864-1946), Paul Strand (1890-1976), Manuel Álvarez Bravo (1902-2002), Berenice Abbott (1898-1991) e William Henry Fox Talbot (1800-1877);
»»Christie`s (31 de Março): terceira e última sessão do leilão do espólio do realizador de cinema Leon Constantiner centrado em imagens do século XX e na obra de Helmut Newton (1920-2004);
»»Phillips de Pury (1 de Abril): conjunto de fotografias sobretudo ligadas à contemporaneidade. Tem muitos dos grandes nomes da história da fotografia da segunda metade do século XX. A venda inclui dois lotes com obras de Helena Almeida.
26 março, 2009
DBPP - Paul Graham
Do livro a shimmer of possibility, 2007
© Paul Graham/cortesia Anthony Reynolds Gallery, London
O britânico Paul Graham é o vencedor do 2009 Deutsche Börse Photography Prize, dotado de 30 mil libras (32,5 mil euros). O prémio foi ontem à noite anunciado na Photographers’ Gallery, em Londres, por Jefferson Hack, co-fundador da revista Dazed & Confused. Graham foi escolhido pela edição em livro do trabalho a shimmer of possibility (steidl MACK, Outubro de 2007). O Deutsche Börse Photography Prize reconhece fotógrafos vivos de qualquer nacionalidade que tenham realizado no ano anterior trabalhos marcantes para a fotografia europeia, quer seja através de exposições ou de publicações.
Os outros finalistas do prémio eram: Emily Jacir (1970, Pal.); Tod Papageorge (1940, EUA); e Taryn Simon (1975, EUA).
25 março, 2009
PHE09 - programa
Foi hoje desvendado em Madrid o programa de exposições da próxima edição do PHotoEspaña que decorrerá em diferentes locais entre 3 de Junho e 26 de Julho. Lisboa é, pelo segundo ano consecutivo, um dos destinos das exposições da Secção Oficial: o Museu Colecção Berardo receberá a mostra antológica de Cristóbal Hara e uma exposição de Mabel Palacin, que inclui fotografia e vídeo. E Portugal estará também presente em Espanha com um ciclo de cinema de Pedro Costa e com uma exposição antológica de Joshua Benoliel, agendada para a Fundação Saura, em Cuenca. O cinema de Pedro Costa poderá ser visto na Filmoteca espanhola que passará 14 obras fundamentais do realizador, entre as quais "O sangue", "Casa de Lava", "Ossos" e "No quarto da Vanda".
Em declarações citadas pela agência Lusa, Sérgio Mah, comissário geral do festival, destacou a importância da participação de Pedro Costa: "É uma oportunidade excelente para ter alguém que aposta nos modelos documentais e que mantém um compromisso temático que é muito evidente, sobre a vida nas cidades e a vida contemporânea". Ainda na apresentação, Mah recordou que a edição deste ano continua a apostar nos "múltiplos sentidos da história e da cultura fotográfica", apresentando obras "que mantêm um relacionamento peculiar com o quotidiano, com as vivências e gestos mais próximos e comuns". "É um tema muito aberto, mas também fundamental para perceber o tempo social que vivemos. É uma forma de reflectir tendências e fenómenos contemporâneos muito específicos das artes visuais", explicou.
A edição 2009 daquele que é um dos maiores festivais de fotografia da Europa acolherá 72 exposições de 248 artistas e criadores de 40 nacionalidades, organizados segundo a temática do Quotidiano. Entre os artistas escolhidos contam-se os nomes de Gerhard Richter, Larry Sultan, Iñigo Manglano-Ovalle, Malick Sidibé, Dorothea Lange, Ugo Mulas, Jindrich Styrsky, Annie Leibovitz e Mauro Restiffe.
Mais informações no site do PHE09 aqui
fototipias
© António Machado de Mendia, 1913
Em Junho de 1875, Carlos Relvas gabava-se de ter "introduzido" em Portugal "o processo de phototypia". Antes do rico amador da Golegã, José Júlio Rodrigues, da secção Photographica da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, garantia ter feito, em finais de 1874, "ensaios" com aquele processo fotográfico que, na sua óptica, fornecia "um manancial fecundissimo de esplendidos primores d`arte; destinada porém a morrer, victima da photogravura [...]". Medalhas de mérito à parte, a fototipia foi durante os últimos 20 anos do século XIX um dos processos de reprodução mais exclusivos e cultivados e o alemão Emílio Biel, radicado no Porto, conseguiu industrializar a sua produção, com a edição de álbuns memoráveis.
O Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico acaba de inaugurar uma exposição que relembra a subtileza e a qualidade deste processo de reprodução fotográfica através de trabalhos inéditos do fotógrafo António Machado de Mendia (1880-1933), a maior parte dos quais paisagens captadas no País Basco. Há também reproduções de fotografias captadas por Eduardo Portugal (1900-1958), Domingos Alvão, Silva Nogueira, Francesco Rochinni e outros fotógrafos em actividade no final do século XIX e primeira metade do século XX. Paralelamente a esta exposição, o Arquivo mostra ainda outros processos de impressão fotomecânicos, materiais e processos de fabrico.
(descrição: AML-AF)
Fototipias
Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, rua da Palma, 246
Até 21 de Maio
Serviço educativo: Paula Figueiredo e Alexandra Nunes




























