06 abril, 2009

/uma fotografia, um nome\

Manuel Magalhães, s/t
© Manuel Magalhães


Na teia de inscrições que uma imagem sempre representa, esta fotografia de Manuel Magalhães fala de arte abstracta.

Não é uma imagem pitoresca, não a vemos como um quadro; essa designação liga-se com a paisagem. Mas aqui, como na imagem pitoresca há, aparentemente, reprodução do original.
Manuel Magalhães faz do mundo real referência – o que se torna claro na pedra que ladeia um hipotético pedaço de muro e na rugosidade da superfície pintada. É uma fotografia que cria o seu referente directo. Mas esse referente, (decididamente enquadrado, com uma sombra que o limita e atravessa) conecta-se na memória do fotógrafo com imagens de pintura abstracta. E este é, afinal, o velho tema da teoria da representação do pós.modernismo.

No entanto, se bem que igualmente agravada como o desafio de Sherrie Levine na sua refotografia de conhecidos fotógrafos, a obra de Manuel Magalhães tendendo a ser a reprodução do imaginário, ancora na realidade. A teoria da representação pós-modernista nega a representação do acontecimento, da exterioridade, já que surge armadilhada com a associação da representação prévia, - essa multidão de imagens apelando ao conhecimento e ao desejo, que hoje faz a nossa aprendizagem.

E, de certo é esse o motivo desta imagem de Manuel Magalhães e é a sua memória e o seu desejo que a constituíram, conhecimento da arte abstracta, desejo de o formular, fotografando o que estava no seu interior.

Ou seja, se a representação é teorizada como origem e não como réplica fotográfica, (pois o fragmento é arbitrariamente perspectivado), esta fotografia informa, acima de tudo, sobre a composição abstracta a que a mesma arte nos habituou e que o fotógrafo isolou na sua consciência e no seu olhar.


O conceptualismo complicou a análise do olhar, criou outros patamares de compreensão. Recusa liminarmente a ingenuidade do fotógrafo e do observador. Tratando da relação palavra-objecto, já o pós-estruturalismo afirmara que o significado apenas se produzia internamente, por ruptura: percebemos o significado de um objecto apenas porque lhe negamos outros significados, é abstracto porque não é naturalista, porque não é barroco, porque não é de intenção futurista… olhar é então argumentar com a nossa memória, com o nosso conhecimento. Olhar e isolar um fragmento é colocar-lhe toda a canga da cultura; uma argumentação interior. Derrida dirá mais, a linguagem, além de arbitrária, é autónoma. A que se liga, pois, o significado?

Precisamente ao agora, ao momento em que um sujeito historicamente situado dá significado ao objecto.

O que continua a causar problemas a quem olha e entende de forma aprazível o significado.
Manuel Magalhães oferece-nos aqui a réplica de um quadro abstracto, sem intenção pictorialista, como uma fotografia directa. A realidade que subjaz à composição é identificável. É uma composição, pois há enquadramento milimétrico; é, de resto, uma escolha feliz. Porque qualquer deambulação sobre o significado da arte a justifica.

Maria do Carmo Serén

o regresso dos franceses

Porto, Palácio de Cristal, 2008
© Georges Dussaud

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 4.04.2009)

Aquela mulher está sempre ali a dividir a sua comida com os pombos!”, dizia Georges Dussaud, um dia desta semana, quando descíamos a Rua Mouzinho da Silveira, em plena Baixa portuense. A sua mulher Christine acrescentava que, no café e na peixaria que se habituaram a frequentar perto do antigo campo do Salgueiros, são já cumprimentados e “simpaticamente tratados como gente da terra”.

É esta faceta “quase rural, de uma aldeia na grande cidade”, que mais agrada ao fotógrafo francês, e é esse Porto que ele regista, com a “objectiva afectiva” da sua Leica, como o P2 pôde verificar quando o acompanhou, em Novembro de 2007, estava Dussaud a começar a fotografar a cidade respondendo a um desafio dos Serviços Culturais do Consulado de França no Porto e do Centro Português de Fotografia (CPF).

Depois de várias semanas, em diferentes épocas do ano, de passeio e deriva pelas ruas e bairros da cidade, o olhar com que Georges Dussaud viu (e vê) o Porto está agora também à vista de todos, numa exposição no CPF/Cadeia da Relação. É a montra mais vasta e mais expressiva da iniciativa InVisões: Portugal visto pelos fotógrafos franceses, que reúne uma selecção de trabalhos realizados desde o final do século XIX até à actualidade e que integram a Colecção Nacional de Fotografia – e onde estão autores como Henri Cartier-Bresson, Edouard Boubat, Alain Buttard, Bernard Plossu, Bernard Faucon, Robert Demachy ou Jacques-Henri Lartigue.

Na sua (In)visão do Porto – o título da exposição é um declarado trocadilho com Invasão, agora na ordem do dia por via da evocação do bicentenário das Invasões Francesas –, Georges Dussaud insiste na estética que tem marcado a sua obra, e que a partir de 1987 associou à histórica agência Rapho, que fora fundada em Paris em 1933, e por onde passaram nomes como Robert Doisneau e o já citado Edouard Boubat. “Faço uma fotografia dita da escola humanista e afectiva. Eu não saberia fazer um trabalho sob a perspectiva da antipatia, da distância ou do ódio. Aquilo que me interessa é estabelecer uma relação de simpatia com as pessoas”, justifica Dussaud. Foi essa faceta que certamente fez com que fosse desafiado, pela câmara de Lisboa, a fazer um trabalho sobre o bairro do Martim Moniz, na capital. “Sei que é um bairro com forte presença de imigração, com muitos indianos, paquistaneses e africanos”, diz o fotógrafo (que já publicou um livro sobre a Índia), que não sabe ainda se vai haver condições para que esse projecto se concretize.

Adiado fica, por enquanto, a edição de um catálogo da exposição sobre o Porto, por falta dos apoios necessários à sua realização. A concretizar-se, o livro poderá vir a incluir também fotografias de Gaia, que Dussaud está agora a fotografar. “Faria todo o sentido deixar um traço de todo este investimento humano e afectivo”, diz o autor das Crónicas Portuguesas, a grande exposição retrospectiva que realizou na Cadeia da Relação em 2007, e que tem vindo a ser apresentada noutras cidades portuguesas – as próximas paragens serão Évora, em Junho, e possivelmente a Régua, no final do ano.

InVisões, Portugal Visto pelos Fotógrafos Franceses, vários autores
Centro Português de Fotografia, Porto
Até 30 de Setembro

05 abril, 2009

The Prison Within

© Alexandr Glyadyelov


Não há legendas visíveis ao lado das fotografias que Alexandr Glyadyelov mostra na Galeria Pente 10 (The Prison Within), mas o que nelas está impresso é suficientemente explícito para nos lembrarmos das condições de vida e das chagas que flagelam ainda muitos países do Leste da Europa. Estão carregadas de penumbra e rostos vazios de expressão estas imagens de denúncia e documento social que raramente encontram lugar numa galeria de fotografia contemporânea.

Excerto do texto que Paulo Nozolino escreveu para o catálogo da exposição:

(...) Alexandr Glyadyelov, polaco de origem e ucraniano de alma, luta, através do seu trabalho como fotógrafo, para mostrar que nada mudou. A opressão continua na Grande Rússia. Povo endurecido pela revolução de 1917, massacrado durante a Segunda Guerra Mundial, privado de tudo durante os anos da Guerra Fria e a quem foi finalmente dada a ilusão de liberdade depois da queda do muro. O capitalismo selvagem da era pós-Gorbachev, a tirania putiniana e a fragmentação do território em províncias, não ajudou em nada este povo quebrado pelo quotidiano e alienado depois de duas guerras perdidas, no Afeganistão e na Chechénia.
Alexandr Glyadyelov faz parte deste povo. Escolhe como sujeitos as crianças abandonadas das ruas de Kiev, os toxicodependentes de Odessa e os esquecidos nos gulagues siberianos do século XXI. Cheirar cola em miúdo, injectar heroína mais tarde, roubar para sobreviver à miserável realidade. Crime e castigo. A expiação do mal interior. A maldição eterna das estepes. A miragem das grandes cidades.

(...)

The Prison Within, de Alexandr Glyadyelov
Galeria Pente 10, Travessa da Fábrica dos Pentes, Lisboa
Até 30 de Abril

Les Américains na América

Robert Frank (1924-), Movie premiere, Hollywood, 1955
The Museum of Modern Art, Nova Iorque © Robert Frank, The Americans


No ano passado comemoraram-se 50 anos da edição de Les Américains, de Robert Frank, primeiro publicado em Paris por falta de editor nos EUA. A indiferença durou apenas um ano. Em 1959, a Grove Press decidiu imprimir e lançar o livro nos Estados Unidos. À boleia da segunda efeméride, a National Gallery of Art, de Washington DC, organizou a exposição Looking In: Robert Frank's The Americans. Paralelamente, a NGA oferece um olhar sobre alguns dos mais importantes livros de fotografia publicados durante o século XX na mostra Reading the Modern Photography Book: Changing Perceptions.

O site da NGA está bem apetrechado de textos e material gráfico sobre as duas exposições:
aqui pode ver-se percurso de Frank pela América;
aqui estão imagens e pequenos textos sobre os livros;
e aqui podcasts sobre a exposição.

04 abril, 2009

 fotografiafalada

Edgar Martins, The Accidental Theorist
© Edgar Martins


Nesta série (The Accidental Theorist) há uma ausência de vida e uma escassez propositadas. Dou importância ao silêncio nestas fotografias, cujos cenários, tal qual um buraco negro, parecem ter consumido todos os vestígios e sinais de vida. Todo o meu trabalho que envolve a noite lida com a questão da representação através da ausência. A área escura acaba por funcionar quase como uma tela branca para que quem observa consiga projectar a suas experiências, as suas memórias.

Estou interessado no aspecto teatral das imagens, na performance, mas não no sentido tradicional da palavra. Estou interessado em representar a performance do mundo consigo próprio enquanto conjunto de processos e factos. E a única forma de captar isto é abrandando o tempo. É por este motivo que recorro sempre a longas exposições e um dos motivos pelos quais utilizo a máquina fotográfica como máquina de filmar.

Gosto da ideia de que todo e qualquer espaço faz um processo de mutação instigado pela pessoa que observa e sempre que o observa. Se conseguirmos abrandar o tempo o suficiente talvez consigamos captar essa performance. Há uma ambiguidade inerente às imagens que também é importante. Isto remete para a fotografia enquanto processo de representação. Estou interessado naquilo que André Breton chamava de object trouvé (objecto encontrado). Fotografo apenas aquilo que se encontra nas praias, os vestígios da presença humana. No entanto, isto não é explícito. O observador não sabe o que se passa nestes espaços.

Muitas vezes perguntam-me se estas fotografias são feitas com recurso a pequenos cenários de estúdio. A ambiguidade é importante porque confere ao trabalho um lado teatral que é o que dá vida às imagens. A luz misteriosa é uma característica que une todos os trabalhos nocturnos e um dos aspectos que transmite uma carácter surreal a estas obras. A qualidade da luz vem das longas exposições. Num conjunto de 40 imagens, haverá cinco que foram fotografadas em espaços que tinham alguma fonte de luz artificial, não minha mas das próprias praias. A olho nu estas praias apareceriam totalmente escuras. Aquilo que as longas exposições fazem é trazer à luz esses espaços que têm alguma fonte de iluminação. Nunca iluminei as praias. A maioria estava quase na penumbra.

Esta ideia de falta de controlo é muito importante em todos os trabalhos. Não quero ter o controlo total sobre os espaços. A única forma de permitir que essa performance aconteça é havendo algum elemento de espontaneidade, é não tentar controlar a situação. Quando se utiliza exposições muito prolongadas é tudo mais difícil de controlar.

Quero que estas imagens sejam ambíguas porque, para mim, o processo é tudo. Se de facto houver alguma ambiguidade, acho que quem observa poderá questionar o processo de produção das fotografias. Haverá pessoas que vão considerar que são controladas digitalmente - mas a verdade é que não são. Não há qualquer intervenção da minha parte, para além do enquadramento.

Topologias, de Edgar Martins
Museu do Oriente, Lisboa
Até 19 de Abril

03 abril, 2009

K*MoPA


© Debasish Shom

O Kiyosato Museum of Photographic Arts (K*MoPA) abriu mais um programa Young Porfolios que prevê a aquisição de trabalhos de fotógrafos de qualquer parte do mundo com menos de 35 anos.
Mais informações aqui

Pente 10 na Paris Photo


Ofelia, Suíça, 2006
(
© Flor Garduño)

A galeria portuguesa Pente 10 foi admitida para a próxima edição da Paris Photo, uma das mais importantes feiras de fotografia do mundo. O certame está agendado para o Carrousel du Louvre entre 19 e 22 de Novembro e terá a fotografia árabe e iraniana como pano de fundo.

=ColecçãoàVista= 11

Eadweard Muybridge, Two Women on steps, 1887
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


In Motion

A pedido de Leland Stanford, ex-governador da Califórnia, Eadweard Muybridge (1830-1894) fotografou uma sequência de imagens de um cavalo a galope. Stanford acreditava que o cavalo erguia as quatro patas em simultâneo quando galopava e esperava que Muybridge o provasse. Este último, acabaria por criar, em parceria com John D. Isaacs, um projecto para captação sequencial de imagens. Em 1877 a teoria foi provada. Muybrigde deu continuidade a estes estudos fotografando também outros animais, homens e mulheres. Dispunha num espaço 12 a 24 câmaras alimentadas com uma bateria que captavam os vários instantes. Estas sequências contribuíram decisivamente para a investigação da locomoção animal e inspiraram Isadora Duncan na dança moderna e Gertrude Stein na escrita.
(texto:CPF)

começar


Growth and Despair, Deer bed, 2007
© Katherine Wolkoff


A Women in Photography - plataforma para fotógrafas emergentes lançada no ano passado por Amy Elkins e Cara Philips - está a promover a WIP-Lightside Individual Project Grant, uma bolsa para mulheres fotógrafas em início de carreira.

Regulamento e prazos aqui

expression

Susan Meiselas, The Prince Street Girls
© Susan Meiselas


A Magnum Photos e a HP criaram um novo prémio de fotografia, o Expression Photography Award. Objectivo: discover and illuminate compelling documentary photography employed in innovative ways to affect social awareness and propel humanitarian compassion. O júri da Magnum é composto por Alec Soth, Jonas Bendiksen, Paolo Pellegrin e Susan Meiselas.

Regulamento, prazos e prémios estão aqui

01 abril, 2009

Helen Levitt 1913-2009

Helen Levitt, Nova Iorque, 1940


Helen Levitt (Bensonhurst, 1913 - Manhattan, 2009) nunca fez parte de grupos ou movimentos de fotografia. Mas o trabalho que produziu ao longo de quase 50 anos de carreira inspirou-se profundamente nas imagens de Henri Cartier-Bresson e de Walker Evans, com quem chegou a colaborar numa série de fotografias captadas nos arredores de Nova Iorque. As suas primeiras imagens datam de 1936 e o grosso da sua obra está focada em cenas do quotidiano de rua de Nova Iorque. É muito frequente aparecerem crianças nas suas fotografias. A zona de Manhattan, onde vivia, era um dos seus locais favoritos para trabalhar. Foi a exposição Children: Photographs of Helen Levitt no M.O.M.A., de 1943, que lançou a sua reputação como fotógrafa. Depois de 1960, Levitt abandona o preto e branco e começa a fotografar a cores para captar a vida urbana. Publicou trabalhos na Fortune, na Harper`s Bazaar e na Time e, em 1990, o M.O.M.A. dedicou-lhe uma retrospectiva.

O obituário do New York Times está aqui
e o do Libération aqui

Encontros em Maio

(© Margarida Correia)

Depois de uma partida em falso, no ano passado, os Encontros da Imagem de Braga parecem ter encontrado a luz do dia (leia-se o apoio do Ministério da Cultura que vai contribuir com 89 mil euros). O arranque do festival está agendado para Maio com o tema Fronteiras do Género a pautar a programação. Ao todo, estarão representadas quatro dezenas de fotógrafas portuguesas e estrangeiras divididas por dois grandes núcleos: Do feminismo ao feminino, no Mosteiro de Tibães; Olhares femininos, em vários espaços da cidade.

(...)
Fronteiras do Género, não pretende revisitar as lutas feministas dos finais dos anos 60, mas reflectir, a partir dessa génese, na multiplicidade de linguagens e representações artísticas da contemporaneidade. Para o efeito, o projecto delineado, embora remeta para as raízes dos anos 60, evolui rapidamente para a diversidade actual, procurando verificar se efectivamente existe, ou não, uma expressividade mais característica do género feminino. Assim, para além da já tradicional representação do corpo, encontramos propostas que vão desde a evidência dos problemas actuais da sociedade, ao uso e forma de materiais mais tradicionalmente femininos, até conceitos mais abstractos.
(...)
Rui Prata

30 março, 2009

 fotografiafalada

Edgar Martins, Landscapes Beyond: The Burden of Proof
© Edgar Martins


Há uma relação muito interessante entre estas duas séries. A dos fogos florestais (The Rehersal of Space) foi produzida entre 2005 e 2006 em Portugal. Inicialmente era para ter sido feita a partir de uma residência em várias corporações de bombeiros pelo país fora, mas esse esquema não funcionou. Acabei por ter ajuda da Protecção Civil e todas as manhãs telefonava a pedir as coordenadas dos incêndios activos. As fotografias de glaciares (Landscapes Beyond: The Burden of Proof) foram todas captadas em países nórdicos, nomeadamente na Islândia.

As imagens das duas sérias são muito fotográficas no sentido ortodoxo da palavra. São minimalistas. São muito… fotográficas, não sei bem que outra expressão usar se não esta. São algo ortodoxas a nível estrutural, a nível formal e a nível pictórico. Quero que o observador faça uma primeira leitura e, à medida que as for estudando, se aperceba que algo mais sinistro está a acontecer dentro delas.

As fotografias de fogos, foram criadas para fazer alusão à pintura romântica de William Turner e John Constable. As imagens de glaciares tentam fazer alusão à fotografia topográfica do século XIX, do apelo ao histórico e ao sublime. No entanto, a particularidade destas fotografias é que, enquanto as pinturas de Turner e Constable celebravam a vida e a morte, estas fotografias fazem o oposto. Anunciam não só a morte do espaço, mas a morte da paisagem como tema pictórico.

A série das paisagens nórdicas surgiu depois das imagens de fogo, mas foram estas que inspiraram as primeiras. De uma forma geral, o meu trabalho lida com duas polaridades: o impacto do modernismo no meio-ambiente em sentido lato; e com a fotografia enquanto processo de representação. Sempre fiz alusão não só ao uso de determinados temas dentro da fotografia, como também à forma como estes temas são entendidos pelo próprio observador. Queria criar um trabalho que lidasse com paisagem, mas que fosse para além disso – que reflectisse sobre o tema da paisagem.

Sempre tive um grande fascínio pela fotografia topográfica do final do século XIX e início do século XX, não pelas fotografias em si, mas pela função que essas fotografias tinham na sociedade. Hoje em dia, a fotografia já não tem as mesmas funções. No trabalho de paisagem nos países nórdicos quis criar imagens que possam ser vistas quase como um exercício de futilidade. Ou seja, nos antigos esquemas topográficos, a fotografia trazia ao mundo espaços remotos, espaços que nunca tinham sido vistos. Nestes trabalhos fiz expedições. Fui com equipas de geógrafos, de geólogos e com equipas de socorro. Quis ir a sítios desolados, de difícil acesso. Embora não estejam muito presentes, sabia que ao representar estes espaços estava a captar lugares que, de uma forma ou de outra, já eram conhecidos. É neste sentido que digo que o resultado desta série acabou por ser um exercício de futilidade. E é neste sentido que estes trabalhos lidam com a morte da paisagem como tema pictórico.

(Edgar Martins)


Edgar Martins, The Rehersal of Space
© Edgar Martins

Topologias, de Edgar Martins
Museu do Oriente, Lisboa
Até 19 de Abril

28 março, 2009

leilões

Alberto Garcia-Alix, autorretrato (mano tatuada), 2000
(leilão Phillips de Pury)


Avizinham-se mais três grandes leilões de fotografia:

»»Sotheby`s (30 de Março): conjunto muito heterogéneo de fotografias que vai desde o início da história da fotografia até à contemporaneidade. Inclui um naipe de grandes nomes, entre os quais Alfred Stiglitz (1864-1946), Paul Strand (1890-1976), Manuel Álvarez Bravo (1902-2002), Berenice Abbott (1898-1991) e William Henry Fox Talbot (1800-1877);

»»Christie`s (31 de Março): terceira e última sessão do leilão do espólio do realizador de cinema Leon Constantiner centrado em imagens do século XX e na obra de Helmut Newton (1920-2004);

»»Phillips de Pury (1 de Abril): conjunto de fotografias sobretudo ligadas à contemporaneidade. Tem muitos dos grandes nomes da história da fotografia da segunda metade do século XX. A venda inclui dois lotes com obras de Helena Almeida.

Helena Almeida, Dessin Habité (Inhabited Drawing), 1977
(leilão Phillips de Pury)

26 março, 2009

DBPP - Paul Graham


Do livro a shimmer of possibility, 2007
© Paul Graham/cortesia Anthony Reynolds Gallery, London


O britânico Paul Graham é o vencedor do 2009 Deutsche Börse Photography Prize, dotado de 30 mil libras (32,5 mil euros). O prémio foi ontem à noite anunciado na Photographers’ Gallery, em Londres, por Jefferson Hack, co-fundador da revista Dazed & Confused. Graham foi escolhido pela edição em livro do trabalho a shimmer of possibility (steidl MACK, Outubro de 2007). O Deutsche Börse Photography Prize reconhece fotógrafos vivos de qualquer nacionalidade que tenham realizado no ano anterior trabalhos marcantes para a fotografia europeia, quer seja através de exposições ou de publicações.
Os outros finalistas do prémio eram: Emily Jacir (1970, Pal.); Tod Papageorge (1940, EUA); e Taryn Simon (1975, EUA).

25 março, 2009

PHE09 - programa

Joshua Benoliel, sem título




Foi hoje desvendado em Madrid o programa de exposições da próxima edição do PHotoEspaña que decorrerá em diferentes locais entre 3 de Junho e 26 de Julho. Lisboa é, pelo segundo ano consecutivo, um dos destinos das exposições da Secção Oficial: o Museu Colecção Berardo receberá a mostra antológica de Cristóbal Hara e uma exposição de Mabel Palacin, que inclui fotografia e vídeo. E Portugal estará também presente em Espanha com um ciclo de cinema de Pedro Costa e com uma exposição antológica de Joshua Benoliel, agendada para a Fundação Saura, em Cuenca. O cinema de Pedro Costa poderá ser visto na Filmoteca espanhola que passará 14 obras fundamentais do realizador, entre as quais "O sangue", "Casa de Lava", "Ossos" e "No quarto da Vanda".

Em declarações citadas pela agência Lusa, Sérgio Mah, comissário geral do festival, destacou a importância da participação de Pedro Costa: "É uma oportunidade excelente para ter alguém que aposta nos modelos documentais e que mantém um compromisso temático que é muito evidente, sobre a vida nas cidades e a vida contemporânea". Ainda na apresentação, Mah recordou que a edição deste ano continua a apostar nos "múltiplos sentidos da história e da cultura fotográfica", apresentando obras "que mantêm um relacionamento peculiar com o quotidiano, com as vivências e gestos mais próximos e comuns". "É um tema muito aberto, mas também fundamental para perceber o tempo social que vivemos. É uma forma de reflectir tendências e fenómenos contemporâneos muito específicos das artes visuais", explicou.

A edição 2009 daquele que é um dos maiores festivais de fotografia da Europa acolherá 72 exposições de 248 artistas e criadores de 40 nacionalidades, organizados segundo a temática do Quotidiano. Entre os artistas escolhidos contam-se os nomes de Gerhard Richter, Larry Sultan, Iñigo Manglano-Ovalle, Malick Sidibé, Dorothea Lange, Ugo Mulas, Jindrich Styrsky, Annie Leibovitz e Mauro Restiffe.

Mais informações no site do PHE09 aqui

fototipias

© António Machado de Mendia, 1913

Em Junho de 1875, Carlos Relvas gabava-se de ter "introduzido" em Portugal "o processo de phototypia". Antes do rico amador da Golegã, José Júlio Rodrigues, da secção Photographica da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, garantia ter feito, em finais de 1874, "ensaios" com aquele processo fotográfico que, na sua óptica, fornecia "um manancial fecundissimo de esplendidos primores d`arte; destinada porém a morrer, victima da photogravura [...]". Medalhas de mérito à parte, a fototipia foi durante os últimos 20 anos do século XIX um dos processos de reprodução mais exclusivos e cultivados e o alemão Emílio Biel, radicado no Porto, conseguiu industrializar a sua produção, com a edição de álbuns memoráveis.
O Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico acaba de inaugurar uma exposição que relembra a subtileza e a qualidade deste processo de reprodução fotográfica através de trabalhos inéditos do fotógrafo António Machado de Mendia (1880-1933), a maior parte dos quais paisagens captadas no País Basco. Há também reproduções de fotografias captadas por Eduardo Portugal (1900-1958), Domingos Alvão, Silva Nogueira, Francesco Rochinni e outros fotógrafos em actividade no final do século XIX e primeira metade do século XX. Paralelamente a esta exposição, o Arquivo mostra ainda outros processos de impressão fotomecânicos, materiais e processos de fabrico.

»»fototipia: processo de impressão fotomecânico, comercializado a partir de 1868, que permite imprimir muitas provas a partir da mesma matriz, com excelente reprodução dos meios-tons, detalhe minucioso nas sombras e a aparência de fotografias reais. A rede deste processo fotomecânico, irregular, é dificilmente perceptível à vista desarmada, pelo que a semelhança com as provas fotográficas é notável.
(descrição: AML-AF)

Fototipias
Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, rua da Palma, 246
Até 21 de Maio
Serviço educativo: Paula Figueiredo e Alexandra Nunes

aprender

© Neil Stewart


Estão abertas as inscrições para os workshops Campus PHE Grandes Maestros do PHoto España 09. Durante duas semanas grandes nomes da fotografia mundial partilham com alunos os seus conhecimentos e as suas abordagens ao suporte fotográfico. Esta edição contará com os seguintes formadores: Stephen Shore, Alessandra Sanguinetti, Ángel Marcos, Roger Ballen, Patrick Faigenbaum, Neil Stewart, Jim Goldberg, Stefan Ruiz e Rosângela Rennó.
Inscrições e mais informações aqui

=ColecçãoàVista= 10

Koos Breukel (1962), Porto, 2001
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Filtro de dois olhares

Koos Breukel nasceu em Haia em 1962 e estudou na Academia Real das Artes de 1982 a 1986. Inicia-se como fotógrafo freelancer em Amesterdão e especializa-se em fotografia de retrato. Cedo publicado em jornais e revistas, o seu trabalho é hoje considerado um dos melhores exemplos de fotografia de retrato contemporâneo da Holanda. As suas imagens, a preto e branco, são reconhecidas pela técnica perfeita, pelo aproveitamento da luz e pelo constante alvo – retratos de pessoas. Nesse encontro momentâneo entre fotógrafo e fotografado, busca o conhecimento do alvo, da sua história ou histórias. Tenta percepcionar o sofrimento dessas pessoas, provocado pelos reveses da vida, numa tentativa de verificar até que ponto os conseguiram ultrapassar. Nas suas imagens assiste-se a uma paralisia efémera que nos transporta à descoberta da intensidade interna e intimista de quem se dispôs a posar.
(texto:CPF)

24 março, 2009

Mar Fêmea

© Nelson d`Aires

O mar mulher de Vila do Conde

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 20.03.2009)

Há um fundo permanentemente negro nas fotografias de Nelson d'Aires (n. Vila do Conde, 1975). Os raros momentos de luz são os que vêm do mar, mas sempre toldado por um céu irremediavelmente já rendido à noite. São apenas reflexos (relâmpagos, quase) do mar mais íntimo da terra, e por isso mais conforme com a natureza do feminino, como se depreende do título da selecção de fotografias, Mar Fêmea, que Nelson d'Aires expõe na Kgaleria, em Lisboa, até 28 de Março.

Um texto de valter hugo mãe, outro autor vilacondense que sabe bem de que realidade falam estas imagens, explica essa associação. "Quem vive de encontro ao mar conhece dois sentimentos mais fortes, o desejo de partir e o martírio de esperar. É porque alguém parte que outros aprendem a espera, e esta fica sobretudo do lado das mulheres, esses humanos mais parecidos às flores e capazes de fincarem os pés na areia como sondas emocionadas que perscrutam incansavelmente as águas."

As fotografias de Nelson d'Aires "mostram o momento mais feminino do mar" - acrescenta o escritor de O apocalipse dos trabalhadores -, "com o granulado acentuado do preto-e-branco e com a essencialidade da narrativa que contêm". E essas narrativas são as de uma terra de fortes tradições, com as das festas, romarias e outros rituais religiosos. Mas também - e principalmente, aqui - as das horas difíceis vividas à beira do mar, à espera. "Porque esperar também é esperar pelo que não vem, até que o coração se convença de que chega a hora de voltar a casa e suportar a dor", escreve valter hugo mãe.

Nelson d'Aires é um fotógrafo autodidacta, que, depois de dez anos a trabalhar no sector da construção civil, decidiu abraçar a aventura da fotografia e do fotojornalismo. No seu currículo tem o Prémio Reportagem da 7ª edição do Prémio Fotojornalismo Visão/BES, em 2007, por um trabalho sobre a trasladação da Irmã Lúcia. Integra actualmente o colectivo Kameraphoto e tem realizado (ou participado em) sucessivas exposições online e em diferentes galerias e espaços públicos por todo o país.

A exposição Mar Fêmea terá uma evolução até ao dia do seu encerramento, e, durante a sua permanência na Kgaleria, serão realizadas novas fotografias, que substituirão as anteriores.


Mar Fêmea, de Nelson d`Aires
KGaleria, Rua da Vinha, 43A
Até 28 de Março

23 março, 2009

duas

Aspecto da exposição de Rosângela Rennó
© Galeria Cristina Guerra


Duas críticas a exposições de fotografia:

»»José Marmeleira fala sobre Arquivo Universal - A condição do documento e a utopia fotográfica moderna, patente no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. aqui

»»Luísa Soares Oliveira fala sobre Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita..., de Rosângela Rennó, patente na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa. aqui

BES Photo

© André Gomes


Inaugura amanhã ao público no Museu Colecção Berardo a exposição com os trabalhos dos três finalistas da quinta edição do prémio BES Photo. André Gomes, Edgar Martins e Luís Palma foram escolhidos por unanimidade por um júri de selecção, composto por Delfim Sardo (curador), Miguel von Hafe Pérez (curador) e Nuno Crespo (crítico de arte).
A decisão sobre o vencedor será tomada por um júri constituído por Agnès Sire, (directora da Fondation Henri Cartier-Bresson e curadora independente), Helena Almeida (artista e vencedora da 1ª edição do BES Photo) e Paul Wombell (curador).

Prémio BES Photo
Museu Colecção Berardo, Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 17 de Maio

20 março, 2009

*Três perguntas a...

Luiz Pacheco
© Pedro Loureiro

Pedro Loureiro. Nasceu na Gafanha da Nazaré, em 1969. Estudou fotografia na MI21/Ecole des Arts et Metiers de l’image, em Paris. De 1991 a 1998 foi fotógrafo do semanário O Independente. Em 1996, foi bolseiro do programa comunitário Leonardo da Vinci, em Paris. Ajudou a fundar a KameraPhoto, agência de fotógrafos, em 2002, e a K Galeria, em 2005. Entre 1998 a 2005 foi fotógrafo da revista Grande Reportagem, e entre 2006 a 2008 editou a revista Notícias Sábado. Actualmente é free lancer e fotógrafo residente na revista de literatura LER. Desenvolve projectos na área da edição e multimédia. Já publicou fotografias e portfólios em dezenas de jornais e revistas nacionais e internacionais. Vive e trabalha em Lisboa. Expõe actualmente Fotografias 94-05 na livraria e galeria Vemos, Ouvimos e Lemos, em Serpa.


Por que é que fotografas?
Fotografo porque me interessa o outro. Interessa-me a vida dos outros, as histórias que têm para contar, não no sentido voyeur, de ir à procura da intimidade. De alguma forma também há intimidade quando me contam histórias, mas nunca fotografo ninguém sem pedir autorização e sem ter uma pequena conversa e explicar o que é que estou a fazer, o que é que pretendo das pessoas. Salvo raras excepções, falo sempre com as pessoas, tento saber um pouco mais sobre elas.

Não tenho a ousadia de achar que pela fotografia conto a verdade ou faço um mundo melhor - não acredito muito na verdade da fotografia, a verdade da fotografia é sempre relativa.

As tuas fotografias apresentam-se muitas vezes distanciadas do sujeito mas nunca a um ponto de se perder o envolvimento mínimo com o que nos queres mostrar. Dão a informação necessária a partir de um ponto que parece sempre no limite de qualquer coisa. O que é que te leva a optar por este espaço de intermediação?
O que me interessa muitas vezes é fotografar uma narrativa - todas as imagens têm pequenos pormenores que nos permitem construir uma narrativa à volta dessa pessoa. Muitas das minhas imagens têm sido feitas com a intenção de serem publicadas em revistas e jornais, estamos a falar de informação de imprensa. Tento sempre contar uma história em cada fotografia. Mas sei que aquelas imagens vão ter uma determinada escala e por isso tenho de ter algum cuidado a fotografar. Mas também há uma vontade própria, ou seja, quando estou a fotografar não penso se as imagens são para tal ou tal sítio.

Esse distanciamento permite ter narrativas à volta das personagens que são sempre centrais e nunca colaterais. Quando capto pessoas, tento dar o olhar que me é dirigido e depois passá-lo para quem vê. As fotografias têm de ter uma leitura própria e a maneira como as pessoas vão ler as minhas fotografias sempre se me colocou. O espaço que guardo entre mim e o sujeito permite-me dar um bom enquadramento da história - da mesma maneira que um texto não começa numa frase e acaba na outra, também as imagens têm de ter uma ordem de leitura. As minhas fotografias têm sobretudo informação e essa informação é conseguida guardando uma certa distância. Hoje não há muito espaço para este tipo de fotografia, infelizmente foi-se perdendo.

Tens uma vasta experiência na área do fotojornalismo e já acompanhaste diferentes projectos editoriais ao longo dos últimos anos. A que é que atribuis a actual encruzilhada em que está envolvida a produção fotográfica documental de grande fôlego em Portugal?
Tenho dúvidas que haja produção documental de grande fôlego em Portugal - não me parece que esteja a haver. Há de facto muitos jornais, muitas revistas e há pessoas óptimas a trabalhar, mas produção documental não existe. A imprensa tem aí um papel, mas não é exclusivo. Na verdade, se juntarmos todos os trabalhos que os fotojornalistas têm feito talvez consigamos encontrar um conjunto de imagens sobre o que é que foi o país nos anos 80 e nos anos 90. Hoje, as instituições que deveriam pensar nisso não o fazem - o CPF não existe, não é dotado de verbas, o Arquivo Municipal de Lisboa não é dotado de verbas, não há dinheiro, mas, no entanto há dinheiro para vir o Nick Knight e para vir o Steven Klein [para fotografar as campanhas de publicidade Portugal Europe's West Coast]. Aí fala-se sempre em milhões e pergunto por que é que esses milhões não são aplicados num conjunto de fotógrafos, de arquitectos, de artistas plásticos, de pintores que documentem e pensem o que há em Portugal.

Ao contrário de outros países não se está a fazer nada. Em França, por exemplo, o Ministério da Agricultura tem uma série de fotógrafos durante o ano inteiro a registar como é hoje a agricultura em França. E comparam como é que foi a agricultura nos anos 70, como é que foi nos anos 80, e como é que as coisas chegaram onde chegaram. Cá não há ninguém. Acho que o problema da falta de produção documental em Portugal passa mais por aí do que propriamente pelos jornais que não têm de ter essa responsabilidade. Há instituições e ministérios que deveriam ter essa responsabilidade e não a têm.

Daqui a uns anos vamos estar a perguntar como é que este país era há 10 ou há 20 anos. Se isto continua assim, havemos de chegar a 2020, a 2030 sem registos nenhuns. Curiosamente os fotógrafos até fazem mais esse registo em termos internacionais - vão mais à Holanda, à Inglaterra, à Alemanha - do que cá em Portugal. Muitas vezes nem estamos a falar de grandes verbas, estamos a falar de coisas muito pequenas.

Há na fotografia em Portugal um problema que não sei identificar. Vejo muitas exposições, mas é tudo muito efémero. O documental e o fotojornalismo não estão na moda. Há até uma vergonha de os meter na parede, uma vergonha de nós próprios, e isso é uma coisa também muito portuguesa, mas já era tempo de acabar. Tenho muita pena, mas produção documental de grande fôlego em Portugal não há.

 fotografiafalada

Robert Adams, Tract house and vegetable garden, Longmont, Colorado, EUA, 1973
Cortesia George Eastman House


Esta fotografia fala-nos do presente.
Ao mesmo tempo que relê a idade de ouro da fotografia documental dos anos de 50 e 60 está a ser coerente com as ideias do conceptualismo.
Nos anos 70, o documento fotográfico já não é um produto fácil, requer metodologias complexas, já não é como o naturalismo do século XIX. Os fotógrafos conceptuais desta década estão a fazer uma contribuição sobre a transformação do espaço urbano. Não só nos deixam a crítica da representação, o conceptualismo, como também nos deixam todo o discurso sobre o direito à cidade num momento em que a cidade está a desaparecer.
A exposição
New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape, na qual Robert Adams participou, ajudou a redefinir o documento fotográfico em relação à cidade, numa época em que a cidade se estava a converter num território parecido com o que vivemos hoje - a cidade neoliberal, privatizada. Eles começam a mostrar esta realidade no momento em que começou a acontecer.

(Jorge Ribalta, P2, Público, 14.03.2009)

Arquivo Universal - A condição do documento e a utopia fotográfica moderna
Museu Colecção Berardo, Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 3 de Junho

18 março, 2009

PHE09 - O Quotidiano

Viktor Kolar, série Ostrava, 1979
© Viktor Kolar


O tema da 12ª edição do PHotoEspaña é O Quotidiano. O programa geral de exposições vai ser apresentado no dia 25 no Círculo de Bellas Artes, em Madrid.
Entretanto, a organização já avançou alguns nomes do cartaz que contará com "reconhecidos nomes da fotografia clássica e contemporânea" como Dorothea Lange e Íñigo Manglano-Ovalle e uma grande exposição colectiva dedicada à fotografia dos anos 70.

17 março, 2009

*Três perguntas a...


self-portrait
© Rita Barros


Rita Barros nasceu em Lisboa. Tem um mestrado em Art in Media; Studio Art, da New York University/International Centre of Photography, e uma licenciatura em Photography, da SUNY (State University of New York). Tem retratos e paisagens urbanas publicadas em vários jornais e revistas. Expõe individualmente desde 1992. A série Quinze Anos: Chelsea Hotel é um dos principais marcos da sua carreira. Mostra actualmente o trabalho Wall, na Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea, em Almada, e participa na exposição colectiva Artistas Portugueses Lá Fora, no Museu da Electricidade, em Lisboa. Vive e trabalha em Nova Iorque.

Por que é que fotografas?
Fotografo pela mesma razão que me levanto todos os dias, tomo um duche, um café. Não por hábito, mas por ser assim que vivo e que encaro o mundo. A fotografia, para mim, é uma conversa que mantenho, uma maneira de comunicar através das cores e formas e que ultrapassa a dislexia e a confusão do significado das palavras.

Em Wall, a maleabilidade do corpo é um contraponto à força pictórica e imutável de uma superfície plana. Esta coreografia táctil que ambiciona superar os limites da física é também uma tentativa de transportar a tua fotografia rumo a universos narrativos mais ficcionais?
Tenho uma forte ligação à narrativa: contar uma história, exprimir uma ideia que não tem de ser objectiva. Em Wall continuo uma ideia iniciada em 2000: através de uma sequência de acções conto uma história de uma forma puramente visual e sem o apoio da escrita. Os títulos são as “pistas” para a ideia que é desenvolvida. No caso de Wall, a parede serve de metáfora e apoio para uma queda e um querer transcender o real. Tenho também uma grande ligação com a literatura o que tem decididamente influenciado o desenvolver destas histórias que conto.

Desde 2000 que crias pequenos livros fotográficos artesanais de tiragem muito limitada. Que importância atribuis a estes objectos? O que é que te leva a produzi-los?
Foi depois de ter feito o livro sobre o Chelsea Hotel que decidi que o formato da edição era ideal para apresentar narrativas que ficam contidas num espaço delimitado criando assim uma experiência intimista: um livro. Como objecto que é, o livro carrega toda uma sensualidade do ser tocado e o leitor ao manuseá-lo participa no movimento da narrativa. Também é importante o facto de os meus livros serem construídos à mão e de haver um envolvimento total e físico nesta criação (contrariamente às edições de tipografia). Cresci rodeada por livros com encadernações muito bonitas. O meu pai era um colecionador que partilhava a sua paixão e que me fazia apreciar a beleza e raridade das suas aquisições.

SWPA09

Piotr Fajfer, Polónia
© Piotr Fajfer

Foram hoje anunciados os vencedores dos Sony World Photography Awards 2009.
A lista de vencedores está aqui

=ColecçãoàVista= 9

Expo Watch Camera, Magnus Niéll, Expo Camera Co., Nova Iorque, EUA
Colecção de Câmaras do CPF © Centro Português de Fotografia

A câmara que parece um relógio

Concebida para ser pequena, facilmente transportada e confundida com um relógio de bolso, esta câmara teve um enorme sucesso junto do público. O seu criador, Magnus Niéll (cidadão sueco, residente em Nova Iorque), patenteou o invento em 1904, tendo-o descrito como uma inovação em matéria de câmaras fotográficas, tanto na sua forma, como na sua construção. A pequena câmara mede apenas 55mm de diâmetro e cabe na palma da mão, tendo sido produzida nas versões metalizada (mais comum), azul, vermelho e preto. Utiliza filme em rolo e permite efectuar 25 exposições em negativos de 15x22mm. A fotografia é obtida pelo botão de dar corda ao relógio, cuja parte superior serve de tampa da objectiva. Embora não seja uma peça rara, é muito valorizada pelos coleccionadores e por isso difícil de encontrar no mercado do coleccionismo.
(texto:CPF)

16 março, 2009

O homem da multidão


Daniel Rocha/Público


O crítico Eduardo Cintra Torres ficou encantado com esta imagem do fotojornalista Daniel Rocha. Eis o texto que escreveu para o Arte Photographica:

A fotografia de Daniel Rocha que ilustrou a manifestação de sexta-feira em Lisboa tem o brilho das grandes imagens prenhes de significados. É um texto aberto à espera dos nossos pensamentos e, também, das nossas emoções.

Em vez dos cem mil, dos duzentos mil, um só. Um homem olha para a câmara do fotógrafo, para nós. Ele está parado, está a posar para nós, mas não se exibe a si mesmo, exibe a sua razão de estar ali, sabe-se lá donde ele vem, não parece de Lisboa, não tem ar de Restauradores, do Palácio Foz escondido mas mostrado o suficiente para situar a fotografia, para fazer dela a imagem da reportagem, da notícia.

O homem exibe a sua luta, seja ela qual for, com o São Guevara numa bandeira e na boina. A bandeira é preta, será anarquista, será comunista, será guevarista, ou é apenas um contra que tem o santo como bandeira de ser contra? É do contra, vê-se-lhe na cara. A bandeira é preta, mas a camisa é vermelha, um mais um dá a simbologia dos anarcas, mas a boina é verde, porque em Portugal os internacionalistas gostam é da santa terrinha, o Guevara é como se fosse a Catarina Eufémia, são parecidos nas suas imagens simbólicas, podia ser ela na bandeira se ela, a Santa Catarina mártir, não fosse propriedade privada do PC.

Enquanto o homem pára para nós, o resto do mundo anda dum lado para o outro. O fotógrafo escolheu uma velocidade de captação que isolou o momento exacto e deixou que os outros manifestantes continuassem — nesta imagem parada — andando, marchando, falando. O movimento do homem de chapéu branco que está por trás do protagonista ficou congelado para sempre na fotografia. E mesmo o São Guevara tremula ligeiramente na bandeira.

O homem parou para o fotógrafo porque sabia que ia ser uma grande fotografia. E foi. Vê-se-lhe nos olhos. Ele parou a luta para a fotografia, mas a paragem foi mais luta que o resto. Ele tem a cara forte, marcada, arguta, popular, inteligente no centro visual da imagem. O centro geométrico cai-lhe na garganta, que é órgão físico de importância numa manifestação, e a cabeça está logo acima, triangula em conjunto com a intersecção das diagonais.

A cabeça é o centro de tudo porque o ângulo ligeiramente picado, com o fotógrafo um pouco mais alto ou acima dele, atira-lhe o corpo para o asfalto da cor da bandeira. A lente angular aproxima de nós a mão que segura o pau da bandeira, mas não nos ameaça, não há perigo, a mão segura gentilmente o mastro, que repousa no ombro. Os óculos, queiramos ou não, são sinal de inteligência e também repousam sobre o peito, porque o dia não é de leituras, mas de andaduras.

A multidão não ameaça, manifesta-se, fala pelo número, fala pela garganta que a fotografia mostra mas só ouve por imagem, a manifestação diz não, que é a única palavra que se lê bem da bandeirola ao fundo.

Não sei por onde vou, sei que não vou por aí, diz-me o homem. Não sabemos quem ele é, não sabemos de onde vem, não sabemos se é do PC, do BE, do sindicato A ou B, se é anarquista, se é livre ou prisioneiro dalguma ideologia, não sabemos, não queremos saber o que quer dizer o sorriso irónico que lhe aflora nos olhos e nos lábios. Ele é o homem da multidão. Ele é o homem daquela multidão e, por causa desta fotografia, de muitas outras multidões.

Eduardo Cintra Torres

Topologias em Lisboa

Edgar Martins, Topologias
© Edgar Martins

Topologias, de Edgar Martins, chega a Lisboa pela mão do Museu do Oriente. Este trabalho, com apresentações em vários locais, entre quais Nova Iorque, está plasmado num álbum com o mesmo nome editado no ano passado pela editora americana Aperture.
No ano passado Edgar Martins, um dos fotógrafos portugueses com maior reconhecimento internacional, ganhou o prémio Personal/Fine Arts Series, nos New York Photo Awards.
A mostra é inaugurada no dia 20 e está patente até ao dia 19 de Abril, na Galeria de Exposições Temporárias, do Museu do Oriente.

 
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