20 março, 2009

*Três perguntas a...

Luiz Pacheco
© Pedro Loureiro

Pedro Loureiro. Nasceu na Gafanha da Nazaré, em 1969. Estudou fotografia na MI21/Ecole des Arts et Metiers de l’image, em Paris. De 1991 a 1998 foi fotógrafo do semanário O Independente. Em 1996, foi bolseiro do programa comunitário Leonardo da Vinci, em Paris. Ajudou a fundar a KameraPhoto, agência de fotógrafos, em 2002, e a K Galeria, em 2005. Entre 1998 a 2005 foi fotógrafo da revista Grande Reportagem, e entre 2006 a 2008 editou a revista Notícias Sábado. Actualmente é free lancer e fotógrafo residente na revista de literatura LER. Desenvolve projectos na área da edição e multimédia. Já publicou fotografias e portfólios em dezenas de jornais e revistas nacionais e internacionais. Vive e trabalha em Lisboa. Expõe actualmente Fotografias 94-05 na livraria e galeria Vemos, Ouvimos e Lemos, em Serpa.


Por que é que fotografas?
Fotografo porque me interessa o outro. Interessa-me a vida dos outros, as histórias que têm para contar, não no sentido voyeur, de ir à procura da intimidade. De alguma forma também há intimidade quando me contam histórias, mas nunca fotografo ninguém sem pedir autorização e sem ter uma pequena conversa e explicar o que é que estou a fazer, o que é que pretendo das pessoas. Salvo raras excepções, falo sempre com as pessoas, tento saber um pouco mais sobre elas.

Não tenho a ousadia de achar que pela fotografia conto a verdade ou faço um mundo melhor - não acredito muito na verdade da fotografia, a verdade da fotografia é sempre relativa.

As tuas fotografias apresentam-se muitas vezes distanciadas do sujeito mas nunca a um ponto de se perder o envolvimento mínimo com o que nos queres mostrar. Dão a informação necessária a partir de um ponto que parece sempre no limite de qualquer coisa. O que é que te leva a optar por este espaço de intermediação?
O que me interessa muitas vezes é fotografar uma narrativa - todas as imagens têm pequenos pormenores que nos permitem construir uma narrativa à volta dessa pessoa. Muitas das minhas imagens têm sido feitas com a intenção de serem publicadas em revistas e jornais, estamos a falar de informação de imprensa. Tento sempre contar uma história em cada fotografia. Mas sei que aquelas imagens vão ter uma determinada escala e por isso tenho de ter algum cuidado a fotografar. Mas também há uma vontade própria, ou seja, quando estou a fotografar não penso se as imagens são para tal ou tal sítio.

Esse distanciamento permite ter narrativas à volta das personagens que são sempre centrais e nunca colaterais. Quando capto pessoas, tento dar o olhar que me é dirigido e depois passá-lo para quem vê. As fotografias têm de ter uma leitura própria e a maneira como as pessoas vão ler as minhas fotografias sempre se me colocou. O espaço que guardo entre mim e o sujeito permite-me dar um bom enquadramento da história - da mesma maneira que um texto não começa numa frase e acaba na outra, também as imagens têm de ter uma ordem de leitura. As minhas fotografias têm sobretudo informação e essa informação é conseguida guardando uma certa distância. Hoje não há muito espaço para este tipo de fotografia, infelizmente foi-se perdendo.

Tens uma vasta experiência na área do fotojornalismo e já acompanhaste diferentes projectos editoriais ao longo dos últimos anos. A que é que atribuis a actual encruzilhada em que está envolvida a produção fotográfica documental de grande fôlego em Portugal?
Tenho dúvidas que haja produção documental de grande fôlego em Portugal - não me parece que esteja a haver. Há de facto muitos jornais, muitas revistas e há pessoas óptimas a trabalhar, mas produção documental não existe. A imprensa tem aí um papel, mas não é exclusivo. Na verdade, se juntarmos todos os trabalhos que os fotojornalistas têm feito talvez consigamos encontrar um conjunto de imagens sobre o que é que foi o país nos anos 80 e nos anos 90. Hoje, as instituições que deveriam pensar nisso não o fazem - o CPF não existe, não é dotado de verbas, o Arquivo Municipal de Lisboa não é dotado de verbas, não há dinheiro, mas, no entanto há dinheiro para vir o Nick Knight e para vir o Steven Klein [para fotografar as campanhas de publicidade Portugal Europe's West Coast]. Aí fala-se sempre em milhões e pergunto por que é que esses milhões não são aplicados num conjunto de fotógrafos, de arquitectos, de artistas plásticos, de pintores que documentem e pensem o que há em Portugal.

Ao contrário de outros países não se está a fazer nada. Em França, por exemplo, o Ministério da Agricultura tem uma série de fotógrafos durante o ano inteiro a registar como é hoje a agricultura em França. E comparam como é que foi a agricultura nos anos 70, como é que foi nos anos 80, e como é que as coisas chegaram onde chegaram. Cá não há ninguém. Acho que o problema da falta de produção documental em Portugal passa mais por aí do que propriamente pelos jornais que não têm de ter essa responsabilidade. Há instituições e ministérios que deveriam ter essa responsabilidade e não a têm.

Daqui a uns anos vamos estar a perguntar como é que este país era há 10 ou há 20 anos. Se isto continua assim, havemos de chegar a 2020, a 2030 sem registos nenhuns. Curiosamente os fotógrafos até fazem mais esse registo em termos internacionais - vão mais à Holanda, à Inglaterra, à Alemanha - do que cá em Portugal. Muitas vezes nem estamos a falar de grandes verbas, estamos a falar de coisas muito pequenas.

Há na fotografia em Portugal um problema que não sei identificar. Vejo muitas exposições, mas é tudo muito efémero. O documental e o fotojornalismo não estão na moda. Há até uma vergonha de os meter na parede, uma vergonha de nós próprios, e isso é uma coisa também muito portuguesa, mas já era tempo de acabar. Tenho muita pena, mas produção documental de grande fôlego em Portugal não há.

 fotografiafalada

Robert Adams, Tract house and vegetable garden, Longmont, Colorado, EUA, 1973
Cortesia George Eastman House


Esta fotografia fala-nos do presente.
Ao mesmo tempo que relê a idade de ouro da fotografia documental dos anos de 50 e 60 está a ser coerente com as ideias do conceptualismo.
Nos anos 70, o documento fotográfico já não é um produto fácil, requer metodologias complexas, já não é como o naturalismo do século XIX. Os fotógrafos conceptuais desta década estão a fazer uma contribuição sobre a transformação do espaço urbano. Não só nos deixam a crítica da representação, o conceptualismo, como também nos deixam todo o discurso sobre o direito à cidade num momento em que a cidade está a desaparecer.
A exposição
New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape, na qual Robert Adams participou, ajudou a redefinir o documento fotográfico em relação à cidade, numa época em que a cidade se estava a converter num território parecido com o que vivemos hoje - a cidade neoliberal, privatizada. Eles começam a mostrar esta realidade no momento em que começou a acontecer.

(Jorge Ribalta, P2, Público, 14.03.2009)

Arquivo Universal - A condição do documento e a utopia fotográfica moderna
Museu Colecção Berardo, Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 3 de Junho

18 março, 2009

PHE09 - O Quotidiano

Viktor Kolar, série Ostrava, 1979
© Viktor Kolar


O tema da 12ª edição do PHotoEspaña é O Quotidiano. O programa geral de exposições vai ser apresentado no dia 25 no Círculo de Bellas Artes, em Madrid.
Entretanto, a organização já avançou alguns nomes do cartaz que contará com "reconhecidos nomes da fotografia clássica e contemporânea" como Dorothea Lange e Íñigo Manglano-Ovalle e uma grande exposição colectiva dedicada à fotografia dos anos 70.

17 março, 2009

*Três perguntas a...


self-portrait
© Rita Barros


Rita Barros nasceu em Lisboa. Tem um mestrado em Art in Media; Studio Art, da New York University/International Centre of Photography, e uma licenciatura em Photography, da SUNY (State University of New York). Tem retratos e paisagens urbanas publicadas em vários jornais e revistas. Expõe individualmente desde 1992. A série Quinze Anos: Chelsea Hotel é um dos principais marcos da sua carreira. Mostra actualmente o trabalho Wall, na Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea, em Almada, e participa na exposição colectiva Artistas Portugueses Lá Fora, no Museu da Electricidade, em Lisboa. Vive e trabalha em Nova Iorque.

Por que é que fotografas?
Fotografo pela mesma razão que me levanto todos os dias, tomo um duche, um café. Não por hábito, mas por ser assim que vivo e que encaro o mundo. A fotografia, para mim, é uma conversa que mantenho, uma maneira de comunicar através das cores e formas e que ultrapassa a dislexia e a confusão do significado das palavras.

Em Wall, a maleabilidade do corpo é um contraponto à força pictórica e imutável de uma superfície plana. Esta coreografia táctil que ambiciona superar os limites da física é também uma tentativa de transportar a tua fotografia rumo a universos narrativos mais ficcionais?
Tenho uma forte ligação à narrativa: contar uma história, exprimir uma ideia que não tem de ser objectiva. Em Wall continuo uma ideia iniciada em 2000: através de uma sequência de acções conto uma história de uma forma puramente visual e sem o apoio da escrita. Os títulos são as “pistas” para a ideia que é desenvolvida. No caso de Wall, a parede serve de metáfora e apoio para uma queda e um querer transcender o real. Tenho também uma grande ligação com a literatura o que tem decididamente influenciado o desenvolver destas histórias que conto.

Desde 2000 que crias pequenos livros fotográficos artesanais de tiragem muito limitada. Que importância atribuis a estes objectos? O que é que te leva a produzi-los?
Foi depois de ter feito o livro sobre o Chelsea Hotel que decidi que o formato da edição era ideal para apresentar narrativas que ficam contidas num espaço delimitado criando assim uma experiência intimista: um livro. Como objecto que é, o livro carrega toda uma sensualidade do ser tocado e o leitor ao manuseá-lo participa no movimento da narrativa. Também é importante o facto de os meus livros serem construídos à mão e de haver um envolvimento total e físico nesta criação (contrariamente às edições de tipografia). Cresci rodeada por livros com encadernações muito bonitas. O meu pai era um colecionador que partilhava a sua paixão e que me fazia apreciar a beleza e raridade das suas aquisições.

SWPA09

Piotr Fajfer, Polónia
© Piotr Fajfer

Foram hoje anunciados os vencedores dos Sony World Photography Awards 2009.
A lista de vencedores está aqui

=ColecçãoàVista= 9

Expo Watch Camera, Magnus Niéll, Expo Camera Co., Nova Iorque, EUA
Colecção de Câmaras do CPF © Centro Português de Fotografia

A câmara que parece um relógio

Concebida para ser pequena, facilmente transportada e confundida com um relógio de bolso, esta câmara teve um enorme sucesso junto do público. O seu criador, Magnus Niéll (cidadão sueco, residente em Nova Iorque), patenteou o invento em 1904, tendo-o descrito como uma inovação em matéria de câmaras fotográficas, tanto na sua forma, como na sua construção. A pequena câmara mede apenas 55mm de diâmetro e cabe na palma da mão, tendo sido produzida nas versões metalizada (mais comum), azul, vermelho e preto. Utiliza filme em rolo e permite efectuar 25 exposições em negativos de 15x22mm. A fotografia é obtida pelo botão de dar corda ao relógio, cuja parte superior serve de tampa da objectiva. Embora não seja uma peça rara, é muito valorizada pelos coleccionadores e por isso difícil de encontrar no mercado do coleccionismo.
(texto:CPF)

16 março, 2009

O homem da multidão


Daniel Rocha/Público


O crítico Eduardo Cintra Torres ficou encantado com esta imagem do fotojornalista Daniel Rocha. Eis o texto que escreveu para o Arte Photographica:

A fotografia de Daniel Rocha que ilustrou a manifestação de sexta-feira em Lisboa tem o brilho das grandes imagens prenhes de significados. É um texto aberto à espera dos nossos pensamentos e, também, das nossas emoções.

Em vez dos cem mil, dos duzentos mil, um só. Um homem olha para a câmara do fotógrafo, para nós. Ele está parado, está a posar para nós, mas não se exibe a si mesmo, exibe a sua razão de estar ali, sabe-se lá donde ele vem, não parece de Lisboa, não tem ar de Restauradores, do Palácio Foz escondido mas mostrado o suficiente para situar a fotografia, para fazer dela a imagem da reportagem, da notícia.

O homem exibe a sua luta, seja ela qual for, com o São Guevara numa bandeira e na boina. A bandeira é preta, será anarquista, será comunista, será guevarista, ou é apenas um contra que tem o santo como bandeira de ser contra? É do contra, vê-se-lhe na cara. A bandeira é preta, mas a camisa é vermelha, um mais um dá a simbologia dos anarcas, mas a boina é verde, porque em Portugal os internacionalistas gostam é da santa terrinha, o Guevara é como se fosse a Catarina Eufémia, são parecidos nas suas imagens simbólicas, podia ser ela na bandeira se ela, a Santa Catarina mártir, não fosse propriedade privada do PC.

Enquanto o homem pára para nós, o resto do mundo anda dum lado para o outro. O fotógrafo escolheu uma velocidade de captação que isolou o momento exacto e deixou que os outros manifestantes continuassem — nesta imagem parada — andando, marchando, falando. O movimento do homem de chapéu branco que está por trás do protagonista ficou congelado para sempre na fotografia. E mesmo o São Guevara tremula ligeiramente na bandeira.

O homem parou para o fotógrafo porque sabia que ia ser uma grande fotografia. E foi. Vê-se-lhe nos olhos. Ele parou a luta para a fotografia, mas a paragem foi mais luta que o resto. Ele tem a cara forte, marcada, arguta, popular, inteligente no centro visual da imagem. O centro geométrico cai-lhe na garganta, que é órgão físico de importância numa manifestação, e a cabeça está logo acima, triangula em conjunto com a intersecção das diagonais.

A cabeça é o centro de tudo porque o ângulo ligeiramente picado, com o fotógrafo um pouco mais alto ou acima dele, atira-lhe o corpo para o asfalto da cor da bandeira. A lente angular aproxima de nós a mão que segura o pau da bandeira, mas não nos ameaça, não há perigo, a mão segura gentilmente o mastro, que repousa no ombro. Os óculos, queiramos ou não, são sinal de inteligência e também repousam sobre o peito, porque o dia não é de leituras, mas de andaduras.

A multidão não ameaça, manifesta-se, fala pelo número, fala pela garganta que a fotografia mostra mas só ouve por imagem, a manifestação diz não, que é a única palavra que se lê bem da bandeirola ao fundo.

Não sei por onde vou, sei que não vou por aí, diz-me o homem. Não sabemos quem ele é, não sabemos de onde vem, não sabemos se é do PC, do BE, do sindicato A ou B, se é anarquista, se é livre ou prisioneiro dalguma ideologia, não sabemos, não queremos saber o que quer dizer o sorriso irónico que lhe aflora nos olhos e nos lábios. Ele é o homem da multidão. Ele é o homem daquela multidão e, por causa desta fotografia, de muitas outras multidões.

Eduardo Cintra Torres

Topologias em Lisboa

Edgar Martins, Topologias
© Edgar Martins

Topologias, de Edgar Martins, chega a Lisboa pela mão do Museu do Oriente. Este trabalho, com apresentações em vários locais, entre quais Nova Iorque, está plasmado num álbum com o mesmo nome editado no ano passado pela editora americana Aperture.
No ano passado Edgar Martins, um dos fotógrafos portugueses com maior reconhecimento internacional, ganhou o prémio Personal/Fine Arts Series, nos New York Photo Awards.
A mostra é inaugurada no dia 20 e está patente até ao dia 19 de Abril, na Galeria de Exposições Temporárias, do Museu do Oriente.

13 março, 2009

Yann Arthus-Bertrand

© Emmanuel Duparcq/AFP


A última crónica de Página de Rosto, uma das novas rubricas do P2 de domingo, assinada por José Vítor Malheiros, fala sobre o francês Yann Arthus-Bertrand e o seu projecto "A Terra vista do céu", que originou vários livros e exposições no mundo inteiro.
Aqui fica o texto:

Yann Arthus-Bertrand visto de cima

Foi num fim de tarde do Verão de 2000, em Paris, que vi pela primeira vez as fotos de Yann Arthus-Bertrand. Era uma exposição no Jardim do Luxemburgo, ao ar livre, enormes fotos coloridas de manchas às vezes quase abstractas, penduradas no gradeamento, para serem vistas do lado de fora.

Os transeuntes deslizavam numa marcha silenciosa pelo passeio, hipnotizados pelas imagens, crianças puxavam os pais para lhes mostrar o que tinham visto mais adiante, grupos de pessoas paravam à frente de uma fotografia interrompendo o tráfego, envoltos num fascínio que a chuva miúda do fim do dia só conseguia ampliar.

As fotos da exposição pertenciam ao projecto "A Terra vista do céu", que tinha saído em livro há uns meses e que conheceria um êxito extraordinário em todo o mundo. Eram fotografias tiradas do ar mas muitas delas a baixa altitude, a partir de helicópteros e balões. E mostravam um planeta que, não sendo completamente desconhecido, se revelava dilacerantemente belo e tocantemente frágil, onde a perspectiva tornava surpreendentes as coisas mais familiares, com a terra e as plantas e a água e as casas a desenhar um mosaico de uma variedade e um colorido inesperado. Não eram apenas as grandes paisagens mas também as catástrofes naturais, os sinais da actividade humana, os campos e os jardins e os bairros mostrados de cima mas a uma escala humana, às vezes as próprias pessoas, acenando, uma caravana de dromedários lançando as suas sombras alongadas no pôr-do-sol, pessoas no meio de uma lixeira, tanques a enferrujar ao sol do Iraque.

O enorme livro, que o Scientific American dizia parecer mais uma coffee table que um coffee-table book, conseguiu o efeito que Arthus-Bertrand pretendia, um efeito semelhante àquela fotografia da Terra tirada do espaço na véspera de Natal de 1968, que nos mostrou sozinhos no espaço e que evidenciava tão claramente a nossa fragilidade e como as nossas disputas eram insensatas e mesquinhas.

Arthus-Bertrand, que fará 63 anos dentro de dias, lançou o seu projecto da "Terra vista do céu" em 1994, para assinalar o início do século XXI. O objectivo era fazer o grande fresco do planeta, um recenseamento que mostrasse o estado do nosso habitat. O projecto teve dificuldade em encontrar financiamento mas acabou por conseguir o aval da UNESCO e, a partir daí, as portas começaram a abrir-se. O projecto da "Terra vista do céu" deu origem a inúmeras exposições, prolongou-se por outros livros, alargou-se a duas séries de documentários (Vu du Ciel) tendo acumulado 300.000 fotos de mais de 150 países.

Mas antes de "A Terra vista do céu" já Arthus-Bertrand era famoso. Francês, nascido em 1946, começou por se apaixonar pelo cinema, foi assistente de realização, foi actor (no currículo menciona que contracenou com Michelle Morgan). Aos vinte anos tornou-se encarregado de uma reserva natural em França. Aos trinta anos parte para o Quénia com a mulher, Anne, para fazer um estudo sobre os leões da reserva Massaï Mara. É neste país, onde ficará três anos, que nascem as duas paixões de hoje: a fotografia e o ar. Fotografa os leões, começa a pilotar balões, descobre a beleza dos grandes espaços vistos do céu, lança o seu primeiro livro (Lions). De regresso a França inicia uma carreira como fotógrafo de desporto, de aventura, de viagem. Durante uma dúzia de anos a sua vida distribui-se pelo Paris-Dakar, por Roland Garros, publica na Paris-Match, na Geo, Life, National Geographic.

Em 1991 funda uma agência que reúne especialistas de fotografia aérea de todo o mundo, Altitude.

Lança e apoia organizações e campanhas ambientalistas (Action Carbone, GoodPlanet, Développement Durable Pourquoi?), lança sites de ecologia, apadrinha escolas dedicadas à conservação da Natureza (há sete escolas com o seu nome em França). E vai publicando livros, mais de 50 até agora. E está sempre no terreno, acompanhado de uma equipa que o apoia e transporta os 150 (mínimo) a 450 quilos de material que o seu trabalho exige (20 quilos de máquinas). Para além dos que ficam no quartel-general e asseguram a logística, angariam financiamentos públicos e privados, negoceiam contratos, tratam das relações públicas, tentam obter autorizações de voo. "Em muitos países", queixa-se Yann no seu site oficial, "a fotografia aérea é proibida e considerada como espionagem". As negociações exigem investimento e diplomacia. Há 4 anos que espera autorização para sobrevoar a China, por exemplo.

Há dias, toda a equipa foi expulsa da Argentina quando se preparava para fotografar a barragem de Yacyretá, propriedade da Argentina e do Paraguai, devido a uma acusação de não pagamento de uma dívida a uma agência de viagens. O zelo policial, segundo Arthus-Bertrand, deve-se simplesmente ao facto de que as suas fotos iriam levantar o problema do impacto ambiental da barragem e dos deslocados causados pela sua construção.

Nos últimos anos o cinema e o vídeo captaram a sua atenção.

Home, uma longa-metragem para o cinema, TV, Internet e DVD produzida por Luc Besson, deve estrear a 5 de Junho. O tema são ainda os desafios da protecção do planeta.

Mas o grande projecto dos últimos anos chama-se "6.000 milhões de outros", e aqui Arthus-Bertrand desce à Terra. Nada menos do que 5.000 entrevistas filmadas, feitas em 75 países a pessoas comuns, por seis realizadores, e que deu origem a uma grande exposição no Grand Palais, em Paris, que terminou no mês passado. O projecto nasceu em 2003 mas está a conhecer um novo fôlego na Internet, no site http://www.6milliardsdautres.org/, onde se convidam pessoas de todo o mundo a filmar-se com a sua webcam, a responder a algumas perguntas simples e profundas e a enviar o depoimento para o site. Perguntas como "Qual é a sua primeira recordação?" "É feliz?" "Sente-se livre?" "O que significa Deus para si?" "O que é o amor?" "O que gostaria de transmitir aos seus filhos?" A ideia nasceu depois de uma avaria de helicóptero no Mali, ocorrida ainda antes da realização da "Terra vista do céu", e parece uma página de Saint-Exupéry: "Tive de ficar à espera do piloto e passei uma tarde inteira a falar com um aldeão. Falou-me do seu quotidiano, das suas esperanças, dos seus medos. A sua única ambição era ter comida suficiente para alimentar os filhos", conta Arthus-Bertrand no seu site. "Estava a trabalhar numa encomenda para uma revista e de repente vi-me mergulhado nestas necessidades elementares. Ele olhava-me nos olhos, sem queixas, sem pedir nada, sem ressentimentos. Tinha ido fotografar paisagens e fiquei cativado pelo seu rosto, pela sua palavra".
José Vitor Malheiros


Yann Arthus-Bertrand , Brise-glace Louis Saint Laurent dans Resolute Bay, Territoire de Nunavut, Canadá
© Yann Arthus-Bertrand

12 março, 2009

Weegee em Madrid


Weegee, O palhaço Emmett Kelly, 1944
© Getty images

Retratos da cidade nua

Sérgio C. Andrade
(P2, Público, 06.03.2009)

Há um auto-retrato de 1942 que é todo um programa de vida. Arthur Fellig (1899-1968), mais conhecido por Weegee, abre a mala do Chevrolet e mostra o seu estúdio de trabalho em directo: a máquina Speed Graphic com o seu potente flash, o equipamento de revelação e impressão, a máquina de escrever e... a caixa dos charutos.
Weegee vivia praticamente 24 horas na rua, sempre perto do acontecimento e do que podia vir a acontecer, por via do rádio transístor com que captava em permanência as comunicações da polícia: acidentes, incêndios, lutas entre bandos, homicídios e todas as manifestações mais sórdidas das ruas de Nova Iorque, junto das quais chegava sempre em primeiro lugar. De passagem, também captava instantâneos da entrada e saída da ópera ou do cinema, dos restaurantes ou dos clubes. Para todas essas situações, Weegee moldava uma estranha e perturbadora fotogenia, sempre a preto e branco, que depois registou no seu livro Naked City (1945).

Uma retrospectiva da obra de Weegee - cujos trabalhos já puderam ser também vistos em Portugal, na Lisboa Photo, no Centro de Artes Visuais de Coimbra e no Museu de Serralves - está agora em exposição na Fundação Telefónica, em Madrid, até 17 de Maio. Tem como título óbvio Weegee's New York e conta com 270 fotografias da colecção privada dos suíços Michel e Michèle Auer.

=ColecçãoàVista= 8


Frank Eugene (1865 – 1936), La Cigale, 1904
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Camera Work

Frank Eugene, foi gráfico, gravador, fotógrafo e pintor. Nasceu em Nova Iorque onde viveu até 1886. Parte então para Munique, na Alemanha, onde vive até 1898, passando alguns anos em Londres até 1906. Acaba por regressar à Alemanha onde vive até a sua morte. Estudou pintura em Nova Iorque e Munique. Aprendeu Artes Gráficas e iniciou-se na fotografia como amador. Foi um dos membros fundadores da Photo-Secession que abandonou em 1913. Colaborou com Stieglitz na revista Camera Work (1903-1917), onde publicou, desde 1904 até 1916 as suas imagens. A presente fotogravura foi a primeira obra do autor a ser publicada no n.º 5 desta revista, em Janeiro de 1904. As técnicas da gravura estavam bem presentes no seu trabalho. Experimentou também os processos de platina e goma dicromatada.
(texto:CPF)

11 março, 2009


entre aspas


No concerto em Lisboa, contou que o seu marido, Fred "sonic" Smith, costumava dizer: "Tricia, acho que és meio portuguesa!"
[risos] Sim. Ele dizia que um dia eu ia acordar e começar a falar como um pescador português, porque tinha tantos livros sobre Portugal - a nossa biblioteca era um pouco antiga, com álbuns de fotografia de Portugal dos anos 30, com imensos pescadores. (...)

Patti Smith em entrevista a Kathleen Gomes, Ípsilon, 6.03.2009

cut

João Pinto de Sousa, s/título, 2008
(© João Pinto de Sousa)


Cut, o título da exposição individual na Ordem dos Médicos, no Porto, foi escolhido porque o fotógrafo [João Pinto de Sousa] é também cirurgião. O corte é o fundamento da estética fotográfica como o é da invasão cirúrgica.

Sabemos, naturalmente, que os médicos reparam em detalhes e nessa persistência determinada que é a vida. O cut fotográfico suspende num “eternamente” necessariamente variável, o acontecer, o que é afinal uma catástrofe física que o devir da natureza fluida do mundo, de modo algum previa.

Mas a vida não é de facto o que as fotografias, sempre pretéritas e sempre de imagem fixa, nos mostram. É o que sabemos e o que sentimos ao olhá-las que nos devolve o seu significado. Para isso qualquer coisa, qualquer organização na imagem, nos aponta o caminho; só assim ela é entendida e nos cede o seu fascínio. Do fotógrafo exige-se que conheça o código da transferência.
Cut estende-se por duas salas, numa delas a cidade aparece-nos fraccionada, esclarecida pela publicidade, pelas sobreposições de imagens identificadas, pelas atitudes dos seus utentes.

Sobressai a sua face desestruturada, oferecendo-nos o labirinto que a transforma em cidade subterrânea ou, pelo contrário, a urbe acima dos olhos que esconde os seus fetiches da indiferença do nosso olhar citadino. Ocultamento é, naturalmente, uma das suas características que apenas a apropriação da fotografia torna destacável: as suas margens sociais, o seu vício do consumismo, a sublimação da sua violência, as infra-estruturas que a suportam, os mitos arqueológicos da sua austeridade. São imagens de brecha que, como num videoclip de cor, nos impõem aquele olhar que é nosso contemporâneo, breve, difuso, vagamente perceptivo e raras vezes normativo. É o olhar da acumulação, da saturação de imagens, de um quotidiano rodeado de imagens de sucedâneo.

E, no entanto, desafiam-nos com os seus argumentos, apelam á nossa experiência e à nossa aprendizagem cultural. Jogam com a nossa memória fotográfica. Tudo nelas recusa a censurada perspectiva triangular, tudo se move em “olhares de Deus” que o cinema nos trouxe ou na proximidade do motivo, construindo-se no paralelismo dos planos. Uma ironia suave conjuga-se na aparência distanciada dos lugares, no testemunho humano dos objectos, na indeterminação e no desfoque ou na organização da montagem mas não desloca o sentimento geral que este zapping urbano nos insinua, a solidão das pessoas e dos lugares, o irredutível cenário da nossa perigosa sobremodenidade.

Esta flutuação de vida torna-se tese na segunda sala; não se trata de um enclausuramento interior provocado pela difusão da imagem, pela cópia infinita do mundo onde florescem os não-lugares da nossa vagabundagem, que o fotógrafo flaneur nos oferece à associação compreensiva, actualizando ou não o conhecimento vago da tribo urbana. O que se debate aqui é a previsibilidade do horizonte que a obra aberta nos oferece; a previsibilidade do horizonte do olhar, quando esse horizonte, no visível, se esconde. Seja pela abordagem barroca da diluição da cor pelo negro, (a mostra começa aí com um hospital nocturno, definindo-se apenas pelas diversas refracções de cor nas janelas, imediatamente seguido duma estrutura de caixas de plástico que sugerem o amontoado urbano), seja pelas paisagens marítimas, (o mar, que sempre foi o símbolo mais fiel do horizonte) onde o horizonte se desvirtua: pela multidão da praia que o devora, seja porque o plano é uma transparência e o mar, um conceito; ou está destinado ao lugar do espectador, (como a imagem do homem no paredão). Um quase plongé na Ribeira do Porto esmiúça detalhes perceptíveis no longe e no perto, como um qualquer quadro famoso de Pieter Bruegel, que representava, como sabemos, o olhar nórdico que contrariava o olhar perspectivo. Aí, com paciência, podemos imaginar as histórias que queremos do quotidiano, o olhar nunca se perde no infinito; não há fim nem princípio.

O ponto de vista de um caminhar para um horizonte invisível, (e, portanto, imprevisível) representa-se em três fotografias. Só vemos o caminhar, é uma coisa muito bela e muito inquietante. O futuro, o progresso, o dinamismo da vida surgem-nos bloqueados, são análises que aqui neste mundo do presente expandido não funcionam. O que ressalta é a impossibilidade dos limites do ver e do prever. A sedução constrói-se do que falta, da ilusão, da procura de um sentido de infinito.

Maria do Carmo Serén
Março de 2009

Cut, de João Pinto de Sousa
Ordem dos Médicos, Porto
Até 26 de Março

09 março, 2009

*À conversa com...

André Malraux, Selecting photographs for Le Musée imaginaire, circa 1947
Cortesia Maurice Jarnoux/Paris Match/Scoop


A grande (em quantidade e qualidade) exposição Arquivo Universal - A condição do documento e a utopia fotográfica moderna abre amanhã ao público no Museu Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. No meio de molduras encaixotadas e ao som de berbequins, o comissário catalão Jorge Ribalta aceitou responder a estas perguntas:

A condição de documento é uma maldição para a fotografia?
Pelo contrário. Creio que o documental é a grandeza da fotografia. O conceito de documento é muito mais complexo do que parece. Não tem a ver apenas com a representação das coisas, é muito mais do que isso. Defino documento através dos conceitos e relações de intersecção e de tensão não-pacífica entre museus, arquivo e meios de comunicação. Insisto: o documento tem a ver com esta tensão, que não é fácil e está em conflito.

Uma das razões pelas quais a noção de documento é difícil de definir é justamente porque é noção móbil, instável que muda historicamente – não significa o mesmo nos anos 30 e nos anos 50. Em todo caso, penso que esta capacidade de produzir documento é uma das grandezas da fotografia. Não é uma maldição. É justamente o contrário.

Acha que ainda é pela fotografia que o mundo mais se arquiva?
A fotografia continua a ser o fundamento e o edifício que suporta a cultura visual moderna. Foi o primeiro meio de comunicação de massas, antes da televisão, e partir da qual nasce a imprensa visual... sim, continua a ser [o meio pelo qual o mundo mais se arquiva].

Os meios de comunicação e as tecnologias não operam de maneira a anularem a anterior, mas de maneira a acumularem-se. Quando aparece uma tecnologia esta obriga a que a anterior se defina, mas não quer dizer que anterior desapareça e morra.

Estou contra a ideia de que a fotografia digital acabou com a fotografia. O que houve foi uma transformação.

O que é que esta exposição tenta provar? Que discussão pretende levantar?
A exposição tenta defender a ideia de documento fotográfico numa época em que se fala da morte da fotografia e da pós-fotografia. Tenta defender que a noção de documento é central e deve ser entendida de maneira complexa.

O que acontece agora na arte contemporânea é que parece que há uma moda do documental. Em geral, parece-me que há um uso muito superficial do conceito de documento que ignora a história do meio e a sua dimensão política. A fotografia não é só arte, também é… documento. Ou seja, pode ter um papel no debate público. E esta é uma dimensão importante. Se aceitarmos que a fotografia morreu, então aceitamos que ela já não tem capacidade de documentar, de intervir no debate público, que só pode ser arte. Resisto à ideia de uma fotografia que seja só arte. Pode ser mais coisas, deve ser mais coisas e não devemos renunciar a isso.

O digital empobreceu a mais-valia documental da fotografia?
Não me parece que tenha havido qualquer mudança estrutural. O problema do realismo fotográfico é prévio à fotografia digital. A partir dos anos 60/70 - quando toda uma série de novos artistas e fotógrafos afirmam que a fotografia não era transparente, que era ideologia e construção - começou a problematizar-se a questão que se coloca actualmente com a imagem digital - a questão do grau de realismo, a questão de saber até que ponto a imagem digital, através do Photoshop, põe em causa a condição realística da fotografia.

Não me parece que a tecnologia digital esteja agora a mudar as regras do debate. A partir dos anos 70, o documental passou a necessitar de algo mais do que simples imagens. Precisou de ser acompanhado de texto. Já não acreditávamos na inocência, na transparência da fotografia. Mas isto não quer dizer que o documental e o realismo não sejam necessários. O que se passa hoje é que é preciso pôr em acção métodos mais complexos para construir um documento fotográfico. É preciso estabelecer outro tipo de relacionamento entre o fotógrafo e o seu sujeito e é preciso tornar transparentes as políticas de representação. O debate actual sobre o realismo fotográfico está a repetir o que se discutiu nos anos e 70 e 80.

Qual é a maior utopia que hoje se apresenta ao suporte fotográfico?
Sou um moderno. Creio que a utopia actual é uma utopia moderna. Ou seja - e pode até parecer um pouco tonto dizê-lo – a utopia é poder compreender, intervir e melhorar o mundo. O documental é, historicamente, um género para a melhoria das classes desfavorecidas, nasce para melhorar a vida em sociedade e promover o acesso ao bem-estar. A exposição começa com o trabalho de Lewis Hine a denunciar o trabalho infantil em 1907. Um trabalho que depois provocou reformas legais e impediu que as crianças continuassem a ser exploradas. O documental está ligado a isto. É o seu projecto moderno tal como o entendo – ou seja fazer com que cada vez mais pessoas possam viver melhor e tenham acesso a melhores condições de vida. E isto continua a ser um projecto da fotografia que temos de defender.

O texto de Vanessa Rato no Íplison sobre a exposição está aqui

>>Post relacionado
>Arquivo Universal

Arquivo Universal - A condição do documento e a utopia fotográfica moderna
Museu Colecção Berardo, Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 3 de Junho



07 março, 2009

Batalha de Sombras

Fernando Taborda, Estrada da Vida, 1954


Quando a fotografia portuguesa se movia por sombras
(P2, Público, 7.03.2009)

O palco principal da batalha é o papel fotográfico. As armas escolhidas são variadas, umas mais afiadas que outras, mas há uma que atravessa muitas provas e que se presta a usos diversificados - as sombras, que ora escondem, ora revelam correntes, intenções e influências. Na exposição Batalha de Sombras - a primeira apresentação pública de imagens fotográficas da colecção do Museu do Chiado que hoje é inaugurada no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira - mostra-se também pela primeira vez de forma estruturada e contextualizada a produção fotográfica dos "amadores" dos anos 50 que deram corpo a uma das décadas mais ricas e mais marcantes da história da fotografia portuguesa do século XX, pouco conhecida, pouco estudada, e muitas vezes arrumada em gavetas demasiado estanques.

Ao contrário do que o tema genérico possa sugerir, Batalha de Sombras não trata de lutas do bem contra o mal ou de jogos de poder entre entidades maléficas e anjos protectores. No momento em se davam os últimos retoques nas legendas das fotografias e no grande painel de abertura onde constam as biografias dos autores representados, Emília Tavares, comissária da exposição vinda do MC e que durante mais de dois anos preparou e investigou este período particular da história da fotografia portuguesa, justificava o título com a intenção de conjugar três aspectos: a marginalidade a que foram votados os trabalhos destes fotógrafos (uma escuridão que em alguns casos durou até hoje); a longa noite do contexto histórico, político e cultural do país que remeteu a produção fotográfica de 50 para um silencioso diálogo de sombras, onde a discussão girava quase exclusivamente à volta da técnica; a concretização pela imagem da melancolia, do desalento e da angústia existencial que percorreram a época...

...ler texto completo

*À conversa com...


Varela Pécurto, Belezas da Noite, 1951


...Emília Tavares (comissária da exposição Batalha de Sombras)

Quem são os protagonistas desta batalha de sombras?
É a fotografia portuguesa dos anos 50. É uma época muito sombria da nossa história. A fotografia deste período reflecte um pouco essa melancolia e esse desalento. A batalha de sombras aqui evoca essa dicotomia que se estabeleceu historiograficamente entre fotógrafos que eram todos amadores, mas, supostamente, uns eram mais esclarecidos do que outros. Acho que é uma dicotomia errada se for vista de uma forma linear. Há muitas nuances, ambivalências e contradições.

A exposição relaciona o contexto social, político e histórico desse período com estes fotógrafos. Supostamente estariam a caminhar em sentidos opostos em termos de expressão fotográfica, mas como se vê na exposição não estão assim tão distantes. Mas o que importa sublinhar é que, por vezes, dentro do mesmo autor há manifestações de várias correntes fotográficas. Por outro lado, o título tem a ver com a marginalidade e com a quase inexistência de visibilidade para esta fotografia.

Todos estes autores estão na sombra. Produzem, fazem um trabalho fotográfico, mas sempre na sombra. Ou fazem-no num circuito muito fechado dos salões ou então não mostram os seus trabalhos. Gérard Castello-Lopes , Sena da Silva ou Carlos Afonso Dias têm percursos mais em conjunto ou mais isolados, mas completamente de costas voltadas para outras correntes. E também não mostram os seus trabalhos. Só a partir dos anos 80 é que se tornam conhecidos, quando António Sena os expõe.

Os autores e as obras estavam na sombra em relação à sociedade e ao meio cultural e artístico do seu período, são completamente ignorados. Mesmo os fotógrafos mais empenhados politicamente ou que tinham conotações políticas – há aqui autores que têm uma conotação declarada, como Carlos Afonso Dias que pertenceu ao MUD. Este ensejo de querer outra sociedade, outra cultura e outro regime manifesta-se sempre através de um lado muito melancólico. As imagens da sociedade portuguesa desta época são muito carregadas e tristes, marcadas por uma grande angústia existencial.

O que é que torna os anos 50 um momento tão particular na fotografia portuguesa?
Acho que é uma confluência de todas estas correntes que estão patentes na exposição. É a vertente do salonismo, do naturalismo, do surrealismo, do abstraccionismo, do humanismo e das aproximações às imagens mais neo-realistas ou com preocupação mais social.

A emergência de novas associações fotográficas nos anos 50 que vieram também dinamizar o meio.

Que importância tem a exposição surrealista na Casa Jalco para o desenvolvimento de correntes fotográficas mais desligadas da ideologia e dos salões?
Tem um significado social e cultural muito grande na época. Há uma intencionalidade muito própria para chocar. É o surrealismo ao serviço da inquietação. Dirige-se socialmente à burguesia enquanto que o neo-realismo quer intervir em relação ao povo. É um momento episódico que depois não tem qualquer continuidade, ao contrário do neo-realismo. Estancou ali.

Quando o movimento surrealista se dilui, no início dos anos 50, o próprio Lemos faz aproximações ao abstraccionismo. A influência fotográfica da exposição da Casa Jalco perde-se. Não é um caminho que seja explorado também porque internacionalmente a fotografia segue outros rumos. Quando chega Gérard Castello-Lopes e o seu grupo não estão interessados no surrealismo, estão mais interessados na fotografia realista de inspiração francesa e na escola americana.

Há muitos nomes nesta exposição sobejamente conhecidos mas outros sobre os quais raramente se ouviu falar. A que é que se deve este desconhecimento quase absoluto de um período da nossa história da fotografia que afinal não é assim tão distante?
Deve-se a essa inexistência de expressão pública da fotografia na época. Quando foi incorporada nas exposições de artes plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes a fotografia só esteve presente em 3 das 11 exposições. Não se falava sobre fotografia, os outros artistas não falavam sobre fotografia. Do ponto de vista historiográfico a atenção também foi quase nula. Há muita história da fotografia portuguesa que ainda está por desvendar. Aqui [nesta exposição] era importante conhecer as imagens para sabermos sobre o que é que estamos a falar. Se nem as imagens conhecíamos não se podia partir para lado nenhum. É por isso que é tão importante a investigação.


Continua a ser fulcral para a fotografia portuguesa procurar espólios e aprofundar conhecimentos sobre espólios já conhecidos e isso é uma luta que passa pelas universidades e pelos museus, por todos os agentes culturais que devem investir mais nesta vertente.

Outra coisa importante para esta questão da visibilidade é que todos estes autores de que fala esta exposição eram amadores, tinham outras profissões e a fotografia era como um passatempo, exceptuando alguns como António Paixão e João Martins. O que temos aqui era uma manifestação daquilo a que se pode chamar de “baixa cultura”.

Exceptuando o Harrington Sena e Franklin Figueiredo, todos os outros amadores salonistas têm até algum pudor em considerar a fotografia como arte. João Martins dizia, por exemplo, que a fotografia era arte mas não se equiparava à pintura.

Há outra vertente muito importante dos anos 50 que é a visita de muitos fotógrafos estrangeiros a Portugal. É muito interessante olhar hoje para essas imagens e para estas.

Paradoxalmente, neste clima social e cultural abafado, pouco discutido e ousado quanto baste, produziram-se imagens fotográficas com um grande impacto documental e estético que influenciaram muito do que se fez nas décadas seguintes...
A influência se calhar não é assim tão consciente. O livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre foi praticamente ignorado até há pouco tempo. Nos anos 60 a grande via de afirmação da fotografia portuguesas é a da fotorreportagem. Nomes como Jorge Guerra, Augusto Cabrita, Alfredo Cunha, e Eduardo Gageiro começam a explorar mais o real na fotografia. Quando olhamos para as suas imagens é natural vermos reflexos daquilo que está para trás no livro da dupla Palla/Costa Martins.

As outras vertentes são mais ou menos abandonadas. Os salões começaram a cair, vão morrendo por si próprios. A fotografia começa a ser também incorporada no discurso artístico de uma forma que não tinha sido até então. Os artistas plásticos começam a utilizar a fotografia integrando-a noutras linguagens.

No texto de apresentação afirma-se que a tradição e a inovação deixaram de ser neste período os principais pontos de referência. Para onde se voltaram então as principais correntes fotográficas?
Para a hibridez. O que mais me fascinou neste período foi a riqueza na contradição. Foi ter um fotógrafo com a paisagem mais bucólica possível, mais clássica e tradicional, e a seguir com uma abstracção a explorar as linhas, a luz e as sombras.

Olho para as correntes dos anos 50 como se fossem nichos, todos de costas voltadas, mas que a um certo nível estão a tecer uma rede, relações, contaminações e interferências. Olhando hoje historicamente para isso percebe-se que há ali um mapa de expressões do qual os próprios não se apercebiam.

Pode falar-se do surgimento de um modernismo fotográfico durante os anos 50? Em que escolhas se manifestava essa opção?
Pelo menos da afirmação de um certo modernismo, acho que sim. É curioso porque parece que estes autores surgiram do nada. Olha-se para trás e pergunta-se onde é que eles foram buscar as suas influências, as suas linguagens. Mas não nos podemos esquecer de uma coisa: apesar de serem fechados os salões tinham relacionamento internacional. E se calhar esta era a única esfera da fotografia portuguesa deste período a ter este contacto sistemático com coisas que se faziam noutros países.

É importante dizer aqui também – e sou obrigada a rever algumas das minhas posições quando publiquei em livro a investigação sobre João Martins – que não é assim tão linear a associação entre salonismo e fascismo. É óbvio que o salonismo também serviu a fotografia de propaganda, mas de facto este género não é só isso. E essa é a grande lição que tirei ao estudar agora a década de 50. É um estereótipo que acho que vale a pena rever. Dentro do salonismo as coisas não são rectilíneas.

A fotografia salonista teve algum impacto noutros géneros?
Não, porque não tinha expressão pública. Não podia influenciar nada porque não tinha visibilidade. Nem visibilidade nem reconhecimento.

Acha que o Estado Novo não impôs assim tanto como pensávamos a sua ideologia à produção fotográfica?
Acho que não. O regime nunca impôs uma linguagem fotográfica. Aquilo que António Ferro [líder do Secretariado da Propaganda Nacional e depois do Secretariado Nacional de Informação durante o Estado Novo] fez nas décadas anteriores foi contratar os grandes fotorrepórteres e aproveitar o trabalho que já tinham feito. A máquina de propaganda do regime foi buscar aquilo que já existia. A utilização dessas imagens é feita de acordo com interesses muito específicos do ponto de vista ideológico. Há imagens dos anos 30 que são aproveitadas para os grandes álbuns do Estado Novo que tinham sido publicadas em reportagens dez anos antes noutro contexto completamente diferente.

a colecção

Victor Palla, s/t, década de 50

Museu do Chiado começa a incorporar fotografia portuguesa
(P2, Público, 7.03.2009)

A incorporação de fotografia portuguesa e de documentos com ela relacionados no Museu do Chiado começou em 1999 com a aquisição de algumas obras do surrealista Fernando Lemos. Desde essa altura, o museu tem procurado reforçar a sua colecção com espólios que abarquem o lastro temporal das suas colecções noutros suportes. Ou seja, um critério que engloba quase toda a história da fotografia tendo em conta que as obras mais antigas do museu recuam até 1850 (o anúncio da invenção da fotografia foi feito em 1839).

Mas o ano decisivo nesta política de aquisições e incorporação de doações foi 2006 com a entrada de grandes espólios dos salonistas António Paixão e Eduardo Harrington Sena (negativos, álbuns, provas de época e documentação gráfica variada) e provas de época de Franklin Figueiredo e Varela Pécurto. Paralelamente, no mesmo ano, foram compradas fotografias de autores mais ligados ao realismo fotográfico como Gérard Castello-Lopes, Victor Palla, Carlos Calvet, Carlos Afonso Dias e Sena da Silva (a família doou metade do espólio).

Em 2007, entrou o trabalho fotográfico e muita documentação pertencentes a Fernando Taborda. E, por último, em 2008, acentuando a tónica na fotografia dos anos 50, o museu recebeu todo o espólio de Adelino Lyon de Castro, um dos fundadores das Edições Europa-América. Este conjunto inclui muitas provas de época, bem como negativos da sua obra, uma das mais próximas da estética neo-realista.

06 março, 2009

Babelia

© Miroslav Tichý

O último número do Babelia, o inspirado suplemento cultural do El País, está bem recheado de artigos relacionados com fotografia:


#Alberto Martín critica as exposições de Rineke Dijkstra (Holanda, 1959), Jonathan Hernández (México, 1972) e Paul Schütze (Austrália, 1958);

#Fietta Jarque fala sobre o peculiar mundo de Miroslav Tichý;

#Santiago Belausteguigoitia escreve sobre o fotógrafo israelita Ilan Wolff e a sua opção por uma técnica fotográfica que remonta à pré-fotografia.

escolher

André Gomes, Macha
© André Gomes


Agnès Sire, Helena Almeida e Paul Wombell são os nomes escolhidos para o júri de premiação do BES Photo 08. Agnès Sire é directora da Fondation Henri Cartier-Bresson e curadora independente; Helena Almeida, artista e vencedora da 1ª edição BES photo; e Paul Wombell, curador independente. O vencedor será decidido no dia 8 de Abril entre um destes três nomes: André Gomes, Edgar Martins e Luís Palma. A inauguração da exposição no Museu Colecção Berardo está agendada para o dia 23 de Março.

Estas são as exposições pelas quais os artistas foram seleccionados:

#André Gomes, Macha, Teatro Municipal de Almada (5 a 27 de Maio de 2007) e no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro de 2007);

#Edgar Martins, Topologies, Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro – 28 de Fevereiro de 2007);

#Luís Palma, Territorialidade, Galeria Presença, Porto (7 de Janeiro a 27 de Fevereiro 2008)

03 março, 2009

Arquivo Universal

Berenice Abbott, Pike and Henry Streets, Manhattan, 1936

Está agendada para terça-feira no Museu Colecção Berardo a abertura ao público da exposição Arquivo Universal - O documento e a utopia fotográfica que reúne mais de mil fotografias, revistas, filmes e documentos. As obras escolhidas têm um lastro temporal muito alargado: entre 1851 e 2008.
Produzida originalmente pelo Museu d'Art Contemporani de Barcelona (MACBA), em co-produção com o Museu Colecção Berardo, Arquivo Universal propõe uma análise alargada "à noção de documento na história da fotografia a partir do estudo e encenação de uma série de debates sobre o género, ao longo do século XX".
O texto de divulgação da exposição revela ainda o seguinte:

(...) Abordando várias hipóteses sobre os significados e mecanismos do género documental, (Arquivo Universal) traça um itinerário histórico que vai do início da hegemonia da fotografia na imprensa ilustrada, no primeiro terço do século XX, até à alegada crise do realismo fotográfico na era digital, no final do século. A exposição não pretende, no entanto, delinear uma história do género, nem esgota as suas definições possíveis, mas tenta, em vez disso, estudar a forma como tem sido constituído o documento fotográfico – de uma forma consistentemente polémica e ambivalente – em determinados contextos históricos. Desde que Grierson, fundador do movimento documental britânico no final dos anos 1920, definiu o documental como o 'tratamento criativo da actualidade', este género tornou-se a essência dos discursos sobre o realismo na fotografia e no cinema. Não obstante, os conceitos de documento e documentário adquiriram diferentes significados no decorrer do século XX. A complexidade das suas definições deve-se ao facto de que estes conceitos se inscrevem na filosofia do Positivismo, que une o conhecimento científico ocidental, e estão imbricados em campos discursivos e artísticos tão diferentes como as ciências sociais e naturais, o direito e a historiografia.

A exposição, patente até 3 de Maio, divide-se em três grandes núcleos: As Políticas da Vítima; Espaços Fotográficos Públicos; e a noção da fotografia como um instrumento para as ciências sociais e para a criação de arquivos de imagens em projectos históricos.

salta

Álvaro Sánchez-Montañés, Salta
© Álvaro Sánchez-Montañés

Os prémios do III Concurso Epson de Fotografia Digital - que, julgo, só este ano incluíram fotografias provenientes de Portugal - foram entregues na última semana em Madrid. Salta, de Álvaro Sánchez-Montañés (Barcelona), foi reconhecida com a distinção máxima.
O júri era composto por Claude Bussac, directora da PhotoEspaña; Naia del Castillo,
artista multidisciplinar; Lola Garrido, comissária; Enric Galve, presidente
do Salão Sonimagfoto e gestor da EGM Laboratorios Color; Manuel López, director da
revista Foto; Sérgio Mah, professor e comissário de fotografia; e Juan Coromines,
presidente e director geral da Epson Ibérica. Ao todo, o concurso dividiu 30.000 euros em prémios. Entre as distinções principais, há apenas uma imagem enviada de Portugal reconhecida com uma menção honrosa: Saiu p’rá rua de Luís Flores (Lisboa).
A lista com todos os vencedores está aqui

=ColecçãoàVista= 7

Frits Eisenloeffel (1944-2001), Cabo Verde, s/data
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Tempo de libertação

Frits Eisenloeffel, holandês, formado em Ciências Políticas e Sociais, exerceu jornalismo de imprensa para movimentos de resistência e independência. O uso da fotografia na ilustração dos seus artigos, traçou-lhe a carreira paralela de fotojornalista. Produziu imagens sobre África e as ex-colónias portuguesas, Portugal e a Revolução dos Cravos. As temáticas abordadas e as inclinações políticas e sociais permitiram-lhe o acesso ao interior dos grupos de esquerda. Conviveu com os emigrados portugueses em Paris que recusavam a incorporação para a Guerra Colonial. Teve assim conhecimento da Revolução de 25 de Abril de 1974, da descolonização em África, e do Movimento das Forças Armadas portuguesas. Depois de ter percorrido África na fase da descolonização, e produzido reportagens de sensibilização dos problemas aí vividos, acaba por regressar à Holanda.
(texto:CPF)

02 março, 2009

/uma fotografia, um nome\

Greg Tardy, 2003
© Rosa Reis

Os fundos negros, deliberadamente produzidos no exterior da figuração, já são comuns nas imagens de retrato do naturalismo fotográfico. Há uma famosa imagem de Alvin Langdon Coburn, de 1906, retratando o polémico escritor Henry James, tão nu como a estátua de “O Pensador” de Rodin que imita e tão rodeado do negro que muito lhe convém.

Mas é no modernismo já moderado de Edward Weston ou Imogen Cunningham que pensamos quando queremos encontrar os antecedentes desta interesseira forma de destacar a figuração.
Os efeitos técnicos da lâmpada de magnésio definem, no fotojornalismo, a noite americana e acrescentam-lhe aquela característica barroca da focagem da cena no interior de um espaço iluminado; este dramatismo, não sendo novo, terá enorme êxito na imagem de imprensa e ajuda-nos a entender o espaço intervalar da cultura entre as duas guerras, que anuncia a banalidade do mundo. O que é comum a todas estas aproximações de uma forma de destacar é a pretendida coincidência entre o exterior e o modo como se organiza e mantém a imagem na nossa vida interior, na nossa evocação.

Por isso falo em cenário barroco. Nesta imagem de Rosa Reis, de esvaimento do corpo, apenas vemos a esforçada expressão do músico e a clarividência minuciosa do instrumento musical, que se impõem pela exuberância de uma luz quase errática. Rosa Reis - que conjuga de forma muito pessoal o humanismo do retrato e do grupo com a eleição da forma produzida pela luz e pela sombra - usa aqui do minimalismo figurativo que o branco parece percorrer na forma fluida do reflexo do metal. E, mais do que em qualquer outra das suas imagens desta série, é o jazz que aqui se contempla, essa colonização da alma que apenas necessita de vagos suportes visuais. A impressão recebida conota-se com a do barroco, é sugestão e ocultamento e toda a figuração, incompleta e fugidia está decisivamente encenada para destacar visualmente o ritmo
que sugere.

O neo-barroquismo que trata da obsessão e transporta consigo o efeito egípcio, (a plenitude do tempo incorporada no momento presente, com uma narrativa mítica sem fim) é uma forma de reagir à linearidade do “actual”. O actual está firmado na legenda da imagem, (denominação e data) e indica o arquivo e armazenamento que hoje nos são tão caros. Mas a imagem não pertence a um acerbo de TV ou vídeo, que permitem o regresso do actual como presente, como reportório. Hoje, como sabemos, com a banalização destes registos, o passado é uma coisa que pode voltar, que é sempre um presente potencial. O efeito egípcio pertence à nossa mentalidade, sabemos bem que nada se pode apropriar exclusivamente do tempo e ninguém pode estabelecer com o tempo actual uma verdadeira relação de co-presença. Na imagem de Rosa Reis joga-se o tempo do jazz, aquele sopro que adivinhamos, porque a imagem tende a isso mesmo, permitir-nos essa apropriação de sentido e de evocação. E, para isso, nada melhor do que esta encenação de luz e sombra que tornam intermitente volumes e figurações, esta relação de orgânico e inorgânico, de permutabilidade que é também a ilusão de som e imagem. Tudo nesta imagem de Rosa Reis se revela e combina entre si, tudo se mistura num espectáculo de possessão.E o conceito, sendo um limite, não se define.

Maria do Carmo Serén

Rosa Reis, fotógrafa independente e free-lancer,
vive em Lisboa e tem dezenas de álbuns publicados.

01 março, 2009

aprender

© Atelier de Lisboa

O Atelier de Lisboa, Escola de Fotografia e Centro de Artes Visuais, tem mais dois cursos prestes a começar: Fotografia Contemporânea, a 11 de Março, orientado por Bruno Santos, e Linguagem Fotográfica 1, a 17 de Março, orientado por Bruno Pelletier Sequeira. Os programas de estudos estendem-se por 8 semanas ao ritmo de uma sessão por semana (quartas-feiras, em horário pós-laboral).
Mais informações sobre os cursos e programas completos aqui

NYPH09


© Roger Ballen

A partir do dia 2 de Março é possível começar a enviar portfólios para o New York Photo Festival 2009. Os trabalhos podem submetidos até ao dia 1 de Maio, mês em que decorre o festival (13-17).
Mais informações aqui

POYi

Emilio Morenatti, Running from Gas, Paquistão, Março de 2008
© Emilio Morenatti/Associated Press

Já são conhecidos os vencedores da 66ª edição dos prémios Pictures of the Year International organizados pelo Donald W. Reynolds Journalism Institute, da Missouri School of Journalism, dos EUA.
Emilio Morenatti, da Associated Press, venceu na categoria Newspaper Photographer of the Year, e Uriel Sinai, da Getty Images, foi reconhecido com o Magazine Photographer of the Year.
A lista de vencedores e os trabalhos galardoados podem ser vistos aqui

27 fevereiro, 2009

Walker Evans

Virgínia Ocidental, EUA, 1935
© Walker Evans Archive, The Metropolitan Museum of Art


À procura da realidade pura e dura
(P2, 27.02.2009)

As letras abandonaram Walker Evans (St. Louis, EUA, 1903-1975), mas Walker Evans nunca abandonou as letras. O falhanço como artífice da palavra escrita, depois de uma passagem pela Sorbonne, em Paris, em 1926, abriu caminho ao inventor do estilo documental na fotografia e ao defensor da imagem fotográfica como "documento lírico, poético" que, além de fazer o registo e a descrição da realidade, consegue criar uma linguagem particular, carregada de signos, ícones e símbolos.

Ao mesmo tempo que lutava por autonomizar as fotografias em relação aos textos que as acompanhavam, no começo dos anos 30, Evans escolhia como principal sujeito das suas imagens justamente as letras que no começo o desdenharam e depois o apaixonaram ao ponto de se ter tornado coleccionador dos reclames originais de papel, lata, madeira ou ferro, que foi registando em película ao longo da carreira. Ou seja, uma dupla apropriação da realidade ou a experiência fotográfica levada ao extremo.

A obsessão pela plasticidade gráfica das letras é apenas uma faceta da obra de Walker Evans presente na grande retrospectiva que agora pode ser visitada na Fundação Mapfre, em Madrid. Uma selecção de mais de uma centena de fotografias - a maior parte das quais são cópias vintage (de época) ou foram reproduzidas com o controlo do próprio autor - traçam o percurso criativo de um nome fundamental para a história da fotografia e raramente visto de maneira coerente e abrangente fora dos Estados Unidos. Organizada a partir de uma colecção privada de alguém que preferiu manter-se no anonimato, a exposição abrange um período que vai desde 1928 até 1975, quase cinco décadas de produção preenchidas com imagens directas, de abordagem apolítica e despidas de artifícios de estilo.

O conjunto está dividido em cinco etapas que correspondem a outros tantos períodos cronológicos. O percurso começa com o deslumbramento com as geometrias da cidade, em Nova Iorque. Passa para um trabalho em Havana, Cuba, onde o fotógrafo se concentra mais nos rostos e na rua. Surgem depois as imagens do tempo em que esteve ao serviço da Farm Security Administration (FSA), uma agência do Governo Federal criada para registar a forma como parte da América, sobretudo o Sul, enfrentava as consequências da Grande Depressão que se seguiu à crise de 1929. É considerado um dos períodos mais marcantes da obra de Evans. Do contacto com o país profundo mergulhado na miséria, na melancolia e na fome nascem algumas das fotografias mais icónicas do seu trabalho. Despedido da FSA por não alinhar na tentação política do projecto, começa a fazer retratos de improviso no metro de Nova Iorque com uma máquina escondida no casaco. Estes rostos soturnos em desalinho formam a quarta etapa. Na última parte da exposição, mais uma opção experimental - as polaróides a cores.

Evans abandonou o preto-e-branco, mas nunca abandonou as letras, inclusive as do seu nome. A representação do "W" foi uma das últimas imagens que captou em vida, em 1975. O "W" de outro americano mais próximo dos nossos dias ainda está bem presente. Como parecem do presente muitas das imagens da América da incerteza e da esperança do New Deal do Presidente Roosevelt, que tentou forjar um novo país, a partir de novos paradigmas. Como também agora se tenta fazer.



26 fevereiro, 2009

=ColecçãoàVista= 6

Miguel Chikaoka (1950), São João, Porto, Portugal, 2000
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia


Um olhar sobre o São João

O São João no Porto é uma festa emblemática da cidade. Na noite de 23 para 24 de Junho a cidade transforma-se. O fotógrafo Miguel Chikaoka, fundador da Associação Fotoativa, passou por aqui e viveu a festa. A série de imagens daí resultantes, havia sido encomendada pelo CPF no ano 2000. Pretendia-se um trabalho que nos desse a visão do outro, dado que a mesma encomenda foi efectuada a mais dois fotógrafos estrangeiros: Adriano Heitmann, em 1998 e a Carel Van Hees, em 1999. Nesta fotografia assistimos ao momento final - o amanhecer nas praias da Foz - depois de uma longa noite de folia a deambular pelas ruas da cidade, começando pela sardinhada, o alho-porro, hoje substituído pelos martelinhos, e, não menos simbólicas as rusgas e cantigas. A fogueira na praia é o fim da festa. Dali volta-se para casa já durante a manhã de 24 de Junho.
(texto:CPF)

25 fevereiro, 2009

Leibovitz nas lonas

Annie Leibovitz
© Larry Downing/Reuters

Parece Annie Leibovitz, o papa do retrato de celebridades, está com problemas de liquidez, que é como quem diz não tem dinheiro para pagar as contas. Solução: meteu no prego propriedades e parte da obra (direitos de autor, negativos das fotografias incluídos). A contrapartida da Art Capital - que funciona como uma espécie de casa de penhores para artistas de renome nas lonas - é um empréstimo de 15 milhões de dólares (cerca de 11,7 milhões de euros).

O New York Times publicou um texto revelador sobre o assunto aqui
E o Guardian também aqui

leão para Baldessari

John Baldessari
© 2007 Sidney B. Felsen

John Baldessari foi reconhecido com o Leão de Ouro de carreira da Bienal de Arte de Veneza, que decorrerá em Junho em Itália. Para além de Baldessari, a japonesa Yoko Ono receberá igual distinção. Para o curador geral da bienal, Daniel Birnbaum, o galardão servirá para prestar homenagem "dois artistas cujo trabalho de vanguarda permitiu novas possibilidades de expressão poética, conceptual e social para os artistas de todo o mundo que se exprimem através de todo o tipo de linguagens". Ono e Baldessari receberão o prémio a 6 de Junho, na abertura da bienal, que este ano é dedicada ao tema Making Worlds.
~
As primeiras obras de John Baldessari (National City, Califórnia, 1931) tentavam estabelecer ligações entre a pintura e outros tipos de linguagens. A partir de 1963 começa a usar o suporte fotográfico e videográfico. A Europa começa a receber os seus trabalhos a partir de 1971. Os seus trabalhos fotográficos exploram e recodificam os universos das imagens cinematográficas televisivas através da montagem, da descontextualização e da desconstrução. Boa parte da sua matéria prima tem origem em filmes de série "B". O estatuto e o impacto das imagens mediatizadas estão no centro da sua reflexão conceptual. Tem no currículo mais de 200 exposições individuais e mais de 900 colectivas.
(fonte: Dictionnaire Mondial de la Photographie, Larousse)

A página de John Baldessari está aqui

John Baldessari, Study for Splattered Faces, 1990,
© 2009 John Baldessari/MoMA, Gift of Brooke Alexander and of the artist

 
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