24 fevereiro, 2009
classificação experimental
Há uma exposição de fotografia em Lisboa a criar furor entre a crítica especializada: Trabalho de Campo, de Jochen Lempert. A primeira mostra do artista alemão em Portugal questiona os limites do suporte fotográfico e maneira como a experimentação deste meio transforma a percepção que temos das formas e da natureza.
A crítica que Óscar Faria escreveu no Público está aqui
Este é o texto de apresentação do curador Miguel Wandschneider:
“Antes de eleger a fotografia como medium do seu trabalho artístico, Jochen Lempert (Moers, Alemanha, 1958) dedicou-se intensamente, entre 1979 e 1989, à realização de filmes experimentais no âmbito do colectivo Schmelzdahin. Paralelamente, entre 1980 e 1988, fez os seus estudos universitários em Biologia. De ambas as actividades ficariam traços indeléveis no seu trabalho fotográfico. Este distingue-se, desde logo, pela escolha do assunto: a vida animal, que o artista investiga com um olhar informado e uma curiosidade insaciável, nas suas diferentes formas e nos mais diversos contextos (do habitat natural ao museu de história natural, do jardim zoológico ao meio urbano), mas também nas suas manifestações e representações na vida quotidiana e na cultura material. A este interesse pela vida animal como assunto alia-se uma exploração das propriedades e da materialidade da imagem fotográfica. Jochen Lempert fotografa com uma câmara de 35 mm e a preto e branco, escolhe deliberadamente papéis que não se conformam aos padrões profissionais e tira partido, de forma prodigiosa, do processo de revelação. O seu trabalho define uma posição artística solitária, discretamente construída sem qualquer concessão às tendências e aos cânones dominantes na fotografia contemporânea.”
Miguel Wandschneider
Trabalho de Campo, de Jochen Lempert
Culturgest, Lisboa
Até 10 de Maio
*Miguel Wandschneider fará visistas guiadas à exposição nos dias 28 de Fevereiro e 21 de março
aristocracia+fotografia
As mostras exclusivamente organizadas na rede proliferam (ainda há dias Luís Maio escreveu na Fugas sobre essa nova maneira de organizar e ver exposições de todas as épocas e de todos os universos artísticos). A Sección Nobleza del Archivo Histórico Nacional de Espanha juntou dezenas de imagens que revelam o profundo enamoramento entre a nobreza espanhola e o suporte fotográfico entre 1845 e 1945.
Para visitar Atrapados en Blanco Y Negro clique aqui
Artigo do El País sobre a exposição aqui
23 fevereiro, 2009
“entre aspas”
21 fevereiro, 2009
DBPP countdown
White Tiger (Kenny), Selective Inbreeding, Turpentine Creek Wildlife Refuge and Foundation, Eureka Springs, Arkansas© 2007 Taryn Simon/Cortesia Steid/Gagosia
O crítico do Guardian Adrian Searle visitou a exposição da Photographers' Gallery onde estão os quatro finalistas do Deutsche Börse Photography Prize: Paul Graham (1956, GB); Emily Jacir (1970, Pal.); Tod Papageorge (1940, EUA); Taryn Simon (1975, EUA).
O vencedor será anunciado no dia 25 de Março.
O vídeo de Searle está aqui
20 fevereiro, 2009
=ColecçãoàVista= 5
W. Eugene Smith (1918-1978), Pittsburgh, 1955Colecção Nacional de Fotografia, CNF 1067 © Centro Português de Fotografia
Pittsburgh
Eugene Smith fez as suas primeiras fotografias entre 1933 e 1935. Em 1937 muda-se para Nova Iorque onde trabalhou para a revista Newsweek até 1938. A sua entrada no mundo da fotografia coincide com o grande impacto que as revistas ilustradas tiveram na América e que ofereciam ao seu público uma grande diversidade de temas. As suas impressões fotográficas são marcadas por diferenças muito subtis nas tonalidades e possuem focos brilhantes onde os intensos negros contrastam com o efeito produzido através da aplicação local de descorantes. É convidado pelo jornalista Stefan Lorant a produzir 100 fotografias sobre o renascimento de Pittsburg, mas Smith pretendia retratar a cidade industrial e a sua vivência, o resultado foram 2000 imagens de um total de 10.000 negativos.
(texto:CPF)
18 fevereiro, 2009
*Três perguntas a...
Runcorn (2007), da série Subtopia, The New Towns Archive (work in progress)
© Paulo Catrica
Paulo Catrica nasceu em Lisboa, em 1965. Tem formação em fotografia da Ar.Co (Lisboa) e do Goldsmith’s College (Image & Communication, University of London). Tem também formação superior em História (Universidade Lusíada, Lisboa). Foi bolseiro da Fundação da Ciência e Tecnologia, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Português de Fotografia. Expõe regularmente desde 1998 e está representado em várias colecções de fotografia públicas e privadas. Mostra actualmente no Silo-Espaço Cultural (Porto) o projecto ReHospitalidade: H08, um conjunto de imagens sobre os espaços frios e impessoais de alguns hotéis londrinos.
Por que é que fotografas?
É uma pergunta ambígua, aparentemente simples e terrivelmente complexa tal como o são as fotografias.
As fotografias são um modo de me relacionar com um conjunto de interesses que me fascinam e interrogam. E confesso que gosto que outros olhem para as coisas como eu as vejo.
Faço fotografias de lugares, em torno da ideia de apropriação da paisagem, da maneira como a vivemos quotidianamente. Interessa-me o modo como a paisagem é pensada e desenhada como é consequência de uma conjuntura ideológica, económica e social.
As fotografias por vezes respondem a assuntos sobre os quais pretendo reflectir, outras talvez por curiosidade ou intuição são de algo que eu próprio ainda não consigo compreender. Assim, partilho o enigma.
As fotografias que faço estão quase sempre relacionados com os assuntos fotografados - digamos que têm uma abordagem "realista". No entanto, as fotografias constroem um espaço autónomo, afastando-se dos assuntos que tratam, são contraditórias. As minhas imagens pretendem criar um lugar imaginado que às vezes fica perto de coisas que de facto existem, outras vezes não. Acredito na capacidade critica das fotografias, mas outras vezes creio que apenas funcionam como um acto contemplativo.
As fotografias são assustadoramente omnipresentes. Falo de todas as fotografias, as de família, as da parede do museu, as dos jornais, da publicidade... são impossíveis de classificar, incompletas, banais, transversais e por isso tão fascinantes.
Depois de anos a fotografar territórios em desalinho com a paisagem envolvente, o que é que te levou a registar este mundo quase asséptico e irrepreensivelmente aprumado dos hotéis de design?
Esta série H08 que está em exposição no Silo foi criada a partir de uma encomenda para o projecto Allgarve.
A primeira ideia foi tratar a evolução do conceito de hotel, cruzando uma perspectiva cronológica com as tipologias arquitectónicas do moderno - definidas pela História da Arte/Arquitectura. Através de imagens-síntese, umas abstractas outras mais referenciadas, pretendia fotografar alguns dos arquétipos dos hotéis do século XX - como o Savoy, em Londres, o Ritz, em Lisboa, o Infante Sagres, no Porto - e cruzá-los com fotografias de Hotéis indeferenciados, tipo Ibis em parte nenhuma ou os Easy Jet Hotel – menos espaço e sem serviço.
Entendi mais tarde que esta ideia era demasiado próxima do documental, um território com o qual me identifico, mas que no caso se afastava do conceito da exposição. Houve ainda que superar dificuldades logísticas e de produção que se prendiam com o acesso e liberdade total para fotografar. Poderiam resultar se houvesse tempo para as maturar o que envolvia fotografar mais que uma vez em cada um dos cenários escolhidos. Revisitar e re-fotografar são condições que procuro garantir sempre que faço um projecto.
Depois de uma ida ao Zetter, que não conhecia, e de ter visto o Yotel, em Heathrow, decidi concentrar-me apenas em hotéis urbanos desenhados recentemente e onde a arquitectura é indissociável do design. De facto hoje o design de interiores através da manipulação e associação de objectos, recria imagens e atmosferas para tipos de consumidores identificados por estudos de marketing. Mais design e menos arquitectura, a atmosfera sobrepõe-se ao espaço.
A imagem para estes lugares é crucial, todos os elementos são pensados como se fossem intemporais. Não existe espaço para a improvisação, acidente, desgaste ou erosão dos materiais. Uma espécie de exercício, minimalista na procura e barroco na criação.
Mas esta incursão nos hotéis de design foi um desvio. São fotografias de objectos, do design da arquitectura, são imagens de imagens, passe o pleonasmo.
Que projectos te ocupam agora? Vais continuar a olhar para estes lugares de tempo indefinido?
Estou a trabalhar no meu doutoramento, na Universidade de Westminster, em Londres. A investigação associa uma componente prática visual, a outra teórica, ou escrita. A prática trata as New Towns, a paisagem urbana construída no pós Segunda Guerra Mundial, na Grã Bretanha – entre 1946 e os anos 1980 foram construídas 32 novas cidades para responder a necessidades criadas pela guerra: habitação, ordenamento do território e implementação do Estado Social. Na génese, estas cidades condensam elementos das utopias do final do séc. XIX que resultaram na construção das cidades-jardim, com a racionalidade e a funcionalidade do planeamento moderno saídos da carta de Atenas. Ao longo de quarenta anos estes modelos foram-se adaptando às diferentes contingências políticas e históricas e incorporando arquitectos e urbanistas críticos do movimento moderno. Estas cidades são uma utopia de estado, foram criadas por decreto, contemporâneas e semelhantes no ideário a Brasília – não decerto na escala e na ambição.
O meu trabalho pretende construir uma New Town imaginária com fragmentos de sete cidades, correspondendo estas a períodos históricos diferentes. São arquitectura em contexto ou apenas fotografias de paisagem.
A componente teórica pretende reflectir sobre o impacto da fotografia na matriz ideológica da arquitectura e do urbanismo moderno, a ideia de que a paisagem disciplinada e ordenada pode ser regeneradora e projectar um futuro melhor - a new landscape for a better tomorrow. Relacionando a história e a teoria da fotografia e da arquitectura com questões nucleares do pensamento crítico moderno do século XX. Através da análise de fotografias e do seu contexto histórico, como exemplo, as de Charles Marville, Atget, Rodchenko, Bill Brandt, Humphrey Spender ou Luigi Ghirri, ect.
A apresentação final prevê uma exposição, que espero mostrar em diversos locais da Inglaterra e a publicação de um livro, assim a crise o permita.
Estou também a terminar uma monografia de um trabalho que fiz entre 2005 e 2008, com o Teatro S. Carlos. São fotografias que tratam um momento de transição na vida do edifício, uma espécie de estratigrafia ou arqueologia visual do espaço.
Espero, quando voltar a Portugal, recomeçar a fotografar um projecto que explora o conflito entre a tentativa de disciplinar o caótico – os PDMs imaginários e os delírios autárquicos - e apropriação mais ou menos quotidiana que tem na auto-construção a sua essência.
Viver num país pré-moderno pode ser muito saudável, e a paisagem portuguesa é fantástica do ponto de vista da fotogenia. Uma constante surpresa onde o espaço privado invade o público e este não se sabe bem o que é. Em Inglaterra está tudo disciplinado e vedado, o acesso é muito difícil, por isso a paisagem (seja lá o que for) é apenas uma imagem. Fotográfica ou outra.
ReHospitalidade: H08, de Paulo Catrica
Silo-Espaço Cultural, NorteShopping, Porto
Até 28 de Fevereiro
17 fevereiro, 2009
Lynne Cohen na K
[Kgaleria]
Rua da Vinha, 43 A, Lisboa
1 de Março
15 fevereiro, 2009
fotografia+música
Kazuo Ohno (Naoya Ikegami, Tóquio, 1977), The Crying Light, Antony And The Johnsons(© Naoya Ikegami)
O namoro entre a fotografia e a música é antigo. Começou a sério com as capas dos discos de jazz e foi ficando cada vez mais cúmplice com os concertos ao vivo ou com as fotografias promocionais dos músicos.
Nos últimos tempos vieram parar-me às mãos três discos com sonoridades muito diferentes onde a imagem fotográfica se revela com poder através de formatos criativos também muito diversificados.
Em The Crying Light, de Antony And The Johnsons, não é só o retrato de capa do bailarino japonês Kazuo Ohno, de 102 anos, que nos comove - no interior, as imagens de Don Felix Cervantes são igualmente singulares e sedutoras.
Em O Maquinista, projecto a solo do vocalista dos Hipnótica, João Branco Kyron, a fotografia aparece como suporte requintado e parceiro de ambientes. Cada disco é acompanhado com uma fotografia de uma série de quatro imagens originais e numeradas da autoria de Lois Gray (a minha mostra o nevoeiro a abraçar o casario velho e desordenado - obrigado L.)
Em Niña de Fuego, é Buika que pega na máquina para nos mostrar dezenas de auto-retratos onde a pele e o corpo são protagonistas.
14 fevereiro, 2009
ECT sobre os prémios WPP08
O crítico do Público Eduardo Cintra Torres é um espectador atento à criação fotográfica contemporânea e ao fotojornalismo em particular.
Eis o texto que escreveu para o Arte Photographica sobre os prémios World Press Photo 2008 ontem divulgados:
“Não há luz ao fundo da porta do fundo das nossas casas
O Iraque e o Afeganistão desapareceram dos prémios World Press Photo relativos a 2008. Não há entre as fotografias premiadas nada da guerra no Iraque (mas ainda há guerra no Iraque? Esta semana, em Badgad, o movimento do anti-american radical cleric Al-Sadr, como lhe chama a imprensa americana, patrocinou uma boa exposição de pintura contemporânea iraquiana). Do Afeganistão, nada também. E do Médio Oriente, onde ocorreram duros combates entre Israel e o Hamas, chega apenas uma fotografia, anterior ao conflito. É uma imagem de perturbadora beleza: quatro manifestantes palestinos procuram abrigar-se debaixo de uma oliveira isolada enquanto pelo chão se espalha uma nuvem de gás lacrimogéneo; a mancha branca do gás é bela, igual aos farrapos de nuvens verdadeiras no céu azul com que parece misturar-se, o nevoeiro lacrimoéneo quer esconder o mal que alberga; e a oliveira, tão bonita, símbolo de paz, no meio da pequena clareira onde o gás ainda não chegou, parece o antídoto contra o gás venenoso, mas, na sua velhice, enrosca-se em si mesma, dando um movimento adicional à imagem que nos diz como a paz é torta e difícil naquele lugar. A fotografia não ganhou o primeiro prémio, nem as fotografias do conflito mais ilustrado deste ano, o da guerra na Geórgia, que aos tanques e militares preferiram gente que chora mortos: o fotojornalismo, como a pintura desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial, não quer saber de vitórias militares, apenas vê derrotas humanas.
É o caso das guerras tribais no Quénia, que motivaram imagens premiadas, fotografias extraordinárias que mostram que não há ali diferença entre vencidos e vencedores, os que matam e os que morrem são intermutáveis, é terrivelmente difícil sentir pena, apenas se sente horror pelo grau zero a que chega o valor da vida: aquela criança que à porta de casa agita as mãos quando chega o assassino de cacete na mão tem o horror da morte espelhado no gesto.
Há ainda outras guerras destacadas pelos prémios deste ano. São as guerras da natureza contra o homem, a que chamamos catástrofes naturais: um terramoto na China premiou um instantâneo com o primeiro lugar nessa categoria e originou um outro segundo prémio para uma fotografia que parece caótica por nos transmitir o caos da destruição em Beichuan; um ciclone em Myanmar arrancou o terceiro prémio de reportagem; um vulcão no Chile transmitiu toda a beleza da explosão ao primeiro prémio na categoria Natureza. Há também as guerras nas favelas, as guerras de gangues, o terrorismo em Bombaim. E sobra sangue: sangue no desporto (no judo, no boxe), sangue nos chãos de zonas de conflito e sangue que escorre debaixo da manga dum manifestante em Atenas, numa fotografia de impressionante composição: em primeiro plano, à direita, a manga dum blaser, o sangue que escorre pela mão, a mão que segura um dossiê, mão de professor. À sua frente, os escudos da polícia de choque: o sangue é o índice da violência e da irredutibilidade das posições.
Todavia, dentre todas as imagens, o júri escolheu para fotografia do ano a imagem de um polícia dentro de uma casa desocupada. Ele está armado, aponta a arma para uma divisão da casa que não podemos ver. O chão da divisão em que nos encontramos com ele está caótico: caixotes espalhados, lixo, papéis, mobílias velhas. Na parede ao fundo, um aplique torto; na casa de banho pela porta aberta em frente, a mesma desarrumação. Só a legenda nos pode explicar esta imagem marcada por uma violência que já passou (a desarrumação) e por uma violência que poderá chegar (o polícia que se precavê de arma apontada). Esta guerra é outra, diz a legenda: “Economia dos EUA em Crise: depois dum despejo, o detective Robert Kole tem de garantir que os moradores saíram da sua casa. Cleveland, Ohio, 26 de Março”.
Esta guerra chegou ao interior dos Estados Unidos. É mesmo uma guerra, vê-se os indícios dela. E é um drama, vê-se pela composição: a parede do fundo é como um pano de teatro paralelo aos espectadores (nós que vemos a fotografia), há portas como no teatro, há um movimento subtil do polícia, como os dos actores no palco. Há suspense: que poderá acontecer na outra divisão da casa? Estará alguém lá? Imaginamos que a família saiu, de rastos pela miséria que sobre ela se abateu, e vingando-se, deixando o lixo para quem vier a seguir: mas será que a família desesperada se esconde ainda no quarto ao lado?
A composição como de um palco de teatro favorece a organização harmónica, fornecendo a compreensão estética que compensa o caos dos elementos soltos. E essa harmonia é reforçada por um elemento paradoxal: o polícia, que parece estar do lado direito da imagem, por já ter ultrapassado a porta do fundo, está afinal exactamente no centro geométrico da imagem: o colt que traz à cintura marca o ponto em que as diagonais se intersectam.
Lemos as imagens da esquerda para a direita, e aqui essa narrativa só nos promete incerteza e a hipótese de conflito e de medo. Como nos quadros, a luz vem da esquerda, do passado, dos tempos alegres em que a família viveu nesta casa; a escuridão está à frente do polícia e por isso à nossa frente, do lado direito, é o negro para lá da porta, o Adamastor da crise. É para lá que o polícia aponta a arma: para o futuro, para a crise, para uma guerra em potência dentro das nossas casas — aquele vazio negro é o túnel sem luz ao fundo que nos ameaça a todos. Esta fotografia é um ícone da crise que chegou, da crise que está, da guerra das famílias contra a crise, o Adamastor, o monstro negro. É o ícone do fim da era Bush e das suas guerras pelo mundo fora, é o ícone do início da era Obama, da guerra interior com que se vêem a braços milhares de milhões de famílias, empresas, polícias e policiados da América e de cada país do mundo. ”
Eduardo Cintra Torres
13 fevereiro, 2009
12 fevereiro, 2009
Eluana

Eluana Englaro morreu na segunda-feira, depois de 17 anos em estado vegetativo e depois de 11 anos de envolvimento numa batalha legal pela liberdade de decidir o momento do fim da sua vida. Nos últimos dias entrámos na vida desta italiana e ficámos a conhecer o seu sorriso rasgado por imagens de um tempo em que a fatalidade de um acidente de viação ainda não tinha acontecido. Não foram tornadas públicas imagens recentes de Eluana que ilustrassem a condição em que vivia. Desconheço o motivo dessa decisão. Mas seja ele qual for, é certamente herdeiro dos legítimos direitos à imagem e à reserva da intimidade. No entanto, ao olhar para a rapariga escondida atrás da cortina de banho, de chuveiro na mão, ou para qualquer uma das outras fotografias que a família decidiu partilhar, questiono-me se não será mais intrusivo este contacto com momentos da vida de Eluana que, na verdade, não deviam ser chamados para o caso.
três olhares
Haverá poucos lugares públicos onde se cruzam e acontecem tantas experiências pessoais e colectivas como os hospitais. Os fotógrafos Luís Ferreira Alves, Olívia da Silva e Paulo Pimenta foram convidados a registar algumas parcelas desse emaranhado de situações, ambientes e paisagens numa das maiores unidades de saúde do país, o Hospital de São João, no Porto, que comemora 50 anos. O resultado dessas três abordagens pode ser visto até 15 de Março no Centro Português de Fotografia.
Curtos depoimentos sobre a exposição 3 formas de ver:
11 fevereiro, 2009
Fairey vs AP
Parece que vamos ter batalha legal interessante entre a Associated Press e o artista Shepard Fairey a propósito da imagem que inspirou o poster icónico de Barack Obama. Depois do primeiro processo movido pela AP, agora é Fairey que quer que um juiz declare como fair-use a utilização da fotografia do repórter freelance Mannie Garcia. Os advogados do criador do cartaz argumentam que o uso da fotografia foi tomado apenas como uma "referência" para criar uma imagem visual com outros "significados" e "diferentes mensagens". Acho que o caso ainda é capaz de levar o seu tempo até ficar resolvido.
O New York Times conta todos os pormenores aqui
>post relacionado
>>Obama BD
10 fevereiro, 2009
=ColecçãoàVista= 4
Valter Vinagre (1954), Carta do Sentir #22, 2000
Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia
Sentir
Valter Vinagre é natural de Anadia e formou-se no AR.CO – Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa. Iniciou a sua actividade fotográfica em 1980. O cariz documental marca o início do seu percurso, que viria a ser mais orientado para uma abordagem mais interiorizada da paisagem, dos lugares e das pessoas.
No portfólio Carta do Sentir, o autor mostra o que ninguém vê ou quer saber. Estas imagens são esculturas da natureza, formas puras, fragmentos da paisagem abandonada que parecem ter sido esculpidos com todo o rigor e perfeição.
O sentimento é o elemento de ligação entre nós e estes pedaços de vida que nos transportam para outra dimensão. Nestas paisagens despojadas de sentido é estabelecida a ligação entre a morte e a vida, o esquecimento e a valorização da existência, o on e o off.
(texto:CPF)
09 fevereiro, 2009
images'10
Geert Goiris (vencedora da 6º Grande Prémio Internacional de Fotografia de Vevey), Whiteout, 2008© Geert Goiris
O Festival de Artes Visuais de Vevey, na Suíça, está a receber portfólios candidatos a integrar a sua próxima edição, agendada para Setembro de 2010. Os trabalhos podem enviados até ao dia 30 de Abril por aqui
mais perto
08 fevereiro, 2009
"não vida"
João Pina, fotojornalista da KameraPhoto, e Miguel Mora, actual correspondente do El País na Itália e antigo correspondente do mesmo jornal em Portugal, passaram um dia com o escritor italiano Roberto Saviano, autor do polémico livro sobre a mafia napolitana Gomorra que deu origem a um filme com o mesmo nome. A reportagem que assinam hoje na revista El País Semanal mostra uma vida de um homem que passa muito ao lado da fama e do sucesso alcançado com relato dos meandros mais obscuros da mafia. Saviano passou a ter uma "não vida". "Sus ojos muestran una melancolía infinita, sus gestos son a ratos desesperados; su cara, la imagen de la vulnerabilidad", escreve Mora. A imagem de um homem assim descrito mora nas fotografias de João Pina. Aqui
07 fevereiro, 2009
fogo frio
Duarte Belo já tinha fotografado a matéria escura que envolve o espaço do Vulcão dos Capelinhos. Mas, em 2007, voltou à ilha do Faial com outro ritmo para captar a ambiência de um lugar que cresceu da terra como um abcesso. No ano passado, a Assírio & Alvim publicou em livro o resultado dessa estadia. Na semana passada, a Kgaleria inaugurou a exposição Fogo Frio, uma selecção de fotografias feita por Valter Vinagre. Kathleen Gomes escreveu um texto no P2 sobre a mostra, aqui.
Alexandra Lucas Coelho apresenta este trabalho assim:
“Silêncio
Não há um intruso nas fotografias do Duarte. Ele vê como se ninguém estivesse a
ver aquilo. Então é assim que as coisas são quando estão sozinhas.
No Vulcão dos Capelinhos as coisas estão antes de nós. O mar abriu um buraco
negro e de repente coincidimos com uma paisagem que ainda não sabe da nossa
existência. Dorsos altos com encostas cobertas de minerais, ocres, brancos,
vermelhos, azuis. Ao meio-dia, cega, de tanto brilho.
Todos os dias o vento leva a sua parte. Nenhuma pergunta, nenhuma resposta. O
lugar não fala e vai desaparecer.
Então é assim que as coisas são quando estamos sozinhos.”
Alexandra Lucas Coelho (Faixa de Gaza, 31 de Janeiro de 2009)
06 fevereiro, 2009
fotoencuentros 09
Decorre até ao fim deste mês nas cidades espanholas de Murcia e Cartagena a nona edição do fotoencuentros, este ano dedicados ao tema objecto. O crítico de fotografia do El País, Alberto Martín, diz que é uma tarefa complicada arrumar um conjunto coerente de exposições a respeito de um conceito tão vasto. O problema, sublinha, não é a falta de referências - é a superabundância. Um texto a ler aqui
O programa do fotoencuentros 09 está aqui
Jesus nunca falha
"Jesus nunca falha"
Será que não?
Jesus Never Fails, de António Júlio Duarte
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 15 de Março
pomés
A La Fábrica Editorial acaba de acrescentar o nome de Leopoldo Pomés (Barcelona, 1931) à colecção PhotoBolsillo que reúne já dezenas de autores espanhóis e estrangeiros. Na meia dúzia de fotografias reunidas pelo El País distinguem-se bem a singularidade e a irreverência de que fala Eduardo Mendoza no prefácio do livro.
burn
Duas coisas
~uma: vale a pena passar o máximo de tempo possível na recém-criada revista burn., imaginada pelo fotógrafo da Magnum David Alan Harvey (atenção ao portfólio de Miguel Ribeiro Fernandes sobre pessoas infectadas com HIV em Portugal);
~duas: estão abertas as candidaturas para uma bolsa criada por Harvey e apoiada pela Magnum Foundation destinada a fotógrafos emergentes. Mais informações aqui
05 fevereiro, 2009
valentina
=ColecçãoàVista= 3
Nas margens do Ganges
A arquitectura foi a primeira paixão. Concluiu o curso na Escola Superior de Belas-Artes do Porto. A par da arquitectura, a arte de fixar imagens, que haveria de marcar profundamente a sua vida. O primeiro contacto com a fotografia deveu-se à influência do pai. Mais tarde, "e de uma forma quase autodidacta", aprendeu a revelar e a imprimir. "Tinha descoberto que a fotografia era uma forma extraordinária de ver o mundo", conta Júlio de Matos. A Índia, porém, despertou-lhe maior interesse. Em Váránasi, captou imagens em preto e branco que lhe provocaram um misto de emoção e choque cultural. Nas margens do rio Ganges, registou as recorrentes cerimónias fúnebres de cremação de restos mortais. Familiares e amigos acompanham um corpo sem vida e assistem à fusão da vida com o universo.
(texto: CPF)
03 fevereiro, 2009
Plat(t)form
Helena PÅLS, Untitled, from: För att/Because, 2000-2005, Plat(t)form 2009, menção especial© Helena PÅLS
Desde há três anos que o Fotomuseum Winterthur, de Zurique, na Suíça, promove uma análise crítica de portfólios no último fim de semana de Janeiro. A iniciativa pretende ser "um fórum para a nova fotografia europeia" e foi baptizada como Plat(t)form. Depois de um primeiro processo de selecção, 42 artistas emergentes submetem os seus projectos à análise de profissionais do sector. Na última edição foi lançado o Plat(t)form Databank, uma base de dados que mapeia os trabalhos dos artistas que já passaram por esta iniciativa.
O júri do Plat(t)form 09 destacou as fotografias de Bianca Brunner, Thomas Julier, Anouk Kruithof, Taiyo Onorato, Nico Krebs, Helena Påls, Giuliana Racco e Wytske van Keulen. A próxima edição da Plat(t)form decorre entre 29 e 31 Janeiro de 2010.
Para saber mais sobre este projecto clique aqui
/uma fotografia, um nome\
“A cidade do Porto é uma estrutura complicada; hoje distribui-se por mais de 7 colinas. O velho centro cívico da Sé já era, na voz caseira e descontente dos seus burgueses medievais, 'uma fraga' sem viço e sem proveito. Vista de Vila Nova de Gaia, que se lhe ergue paralela na outra margem, a cidade despenha-se no Douro, adivinhando-se aqui e ali os muitos rios encanados que foram abrindo passagem por entre os montes. É também uma cidade de muitas águas que encharcavam os caminhos e se abriam em dezenas de fontes.
Aqui, nesta enganosa imagem de Augusto Lemos encontramo-nos a meio do cruzamento de duas vertentes que descem divergentes para a Praça da Liberdade, (onde se alarga o esteio das duas ribeiras invisíveis que vão fazer em Mouzinho da Silveira, o Rio da Vila). A casa vagamente modernista à nossa direita deveria estar bem inserida num forte plano inclinado. À esquerda, na nossa memória, sobe a igreja dos Clérigos, de Nasoni; ainda vemos os últimos patamares da sua Torre, ex-libris da cidade.
O absurdo da observação calha bem com o lugar que os edifícios escondem: para lá do visível fica a Cadeia da Relação, actual CPF e o antigo lugar do Campo dos Enforcados, párias até na morte.
A fotografia tem destas coisas. Quando há uma brecha faz-nos ver as estratificações dos tempos e, ainda, as correcções da memória.
Augusto Lemos acentua aqui a transgressão que determinou a série Um Porto de Nível. Não se trata de uma simulação, o título aponta a origem da transgressão: há um nivelamento de uma rua que é inclinada, produzida pela posição da câmara. Com essa alteração, tudo se modifica.
Ora o insólito da imagem argumenta com os dados visuais da memória que guardamos. Por vezes a memória é imperfeita, achaque habitual que rodeia o muito conhecido com que nos cruzamos. E aí a fotografia avança com a sua virtude terapêutica: acrescenta dados, completa a informação defeituosa. No mínimo dá-nos a imperfeição dos dados em armazém e faz-nos olhar de novo, reflectir sobre essa mesma leviandade do olhar.
O desejo que se afirma no olhar distingue o sujeito do objecto, mas considera-se Uno entre os dois; mas um Uno como parte de um não-todo. Por isso a psiquiatria fala de real apenas aqui, neste momento de verdade: o acto de amor da fotografia nunca é desinteressado, porque é desejo, mas está nas antípodas do cinismo. No mundo de simulação que necessariamente somos, tudo converge para a integração.”
Maria do Carmo Serén
Augusto Lemos é fotógrafo, professor de Fotografia e arqueólogo.
Vive e trabalha no Porto.
02 fevereiro, 2009
Amis and friends
A candura e a entrega ao registo fotográfico tendem a encontrar na intimidade o seu território mais fértil. Esse contacto que fixa a expressão dos afectos pode muito bem acontecer no mais saturado dos contextos e distingue-se por um certo alheamento e uma boa dose de cumplicidade. Como acontece neste retrato de Martin Amis captado em Paris por Angela Gorgas, namorada da época, que, para além do escritor inglês, fotografou a partir de dentro a elite intelectual de Londres durante os anos 70, entre os quais se contam Ian McEwan, Christopher Hitchens, Kingley Amis, James Fenton e Pat Kavanagh. Martin Amis and Friends, patente na National Portrait Gallery, mostra essa geração de calças à boca de sino, casacos de veludo gastos e lenços garridos em plena ascensão criativa.
Lynn Barber, do Guardian, escreveu uma crítica à exposição aqui
Martin Amis and Friends, de Angela Gorgas
National Portrait Gallery, Londres
Até 5 de Julho
01 fevereiro, 2009
os ciganos das Alminhas
Adriano Miranda habituou-nos ao melhor fotojornalismo da imprensa portuguesa. A reportagem que hoje assina com Ana Cristina Pereira (texto) na Pública sobre o modo de vida e a situação periclitante em que vivem os ciganos do Lugar das Alminhas, Viana do Castelo, é só mais uma prova dessa excelência.





























