07 fevereiro, 2009

fogo frio

Duarte Belo, Fogo Frio
© Duarte Belo


Duarte Belo já tinha fotografado a matéria escura que envolve o espaço do Vulcão dos Capelinhos. Mas, em 2007, voltou à ilha do Faial com outro ritmo para captar a ambiência de um lugar que cresceu da terra como um abcesso. No ano passado, a Assírio & Alvim publicou em livro o resultado dessa estadia. Na semana passada, a Kgaleria inaugurou a exposição Fogo Frio, uma selecção de fotografias feita por Valter Vinagre. Kathleen Gomes escreveu um texto no P2 sobre a mostra, aqui.


Alexandra Lucas Coelho apresenta este trabalho assim:

Silêncio
Não há um intruso nas fotografias do Duarte. Ele vê como se ninguém estivesse a
ver aquilo. Então é assim que as coisas são quando estão sozinhas.
No Vulcão dos Capelinhos as coisas estão antes de nós. O mar abriu um buraco
negro e de repente coincidimos com uma paisagem que ainda não sabe da nossa
existência. Dorsos altos com encostas cobertas de minerais, ocres, brancos,
vermelhos, azuis. Ao meio-dia, cega, de tanto brilho.
Todos os dias o vento leva a sua parte. Nenhuma pergunta, nenhuma resposta. O
lugar não fala e vai desaparecer.
Então é assim que as coisas são quando estamos sozinhos.

Alexandra Lucas Coelho (Faixa de Gaza, 31 de Janeiro de 2009)

06 fevereiro, 2009

fotoencuentros 09

Jonas Bendiksen, Abjasia, Sukhum, 2005
© Jonas Bendiksen/Magnum Photos/Contacto

Decorre até ao fim deste mês nas cidades espanholas de Murcia e Cartagena a nona edição do fotoencuentros, este ano dedicados ao tema objecto. O crítico de fotografia do El País, Alberto Martín, diz que é uma tarefa complicada arrumar um conjunto coerente de exposições a respeito de um conceito tão vasto. O problema, sublinha, não é a falta de referências - é a superabundância. Um texto a ler aqui
O programa do fotoencuentros 09 está aqui

Pedro Meyer, El hereje, Texococo, Edo de México, 1975
© Pedro Meyer

Jesus nunca falha




"Jesus nunca falha"
Será que não?




Jesus Never Fails, de António Júlio Duarte
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 15 de Março

pomés

Leopoldo Pomés, Rose Marie, 1975
© Leopoldo Pomés


A La Fábrica Editorial acaba de acrescentar o nome de Leopoldo Pomés (Barcelona, 1931) à colecção PhotoBolsillo que reúne já dezenas de autores espanhóis e estrangeiros. Na meia dúzia de fotografias reunidas pelo El País distinguem-se bem a singularidade e a irreverência de que fala Eduardo Mendoza no prefácio do livro.

burn

Sean Gallagher (Emerging Photographer Fund 2008), Desertification in Western China
© Sean Gallagher

Duas coisas
~uma: vale a pena passar o máximo de tempo possível na recém-criada revista burn., imaginada pelo fotógrafo da Magnum David Alan Harvey (atenção ao portfólio de Miguel Ribeiro Fernandes sobre pessoas infectadas com HIV em Portugal);
~duas: estão abertas as candidaturas para uma bolsa criada por Harvey e apoiada pela Magnum Foundation destinada a fotógrafos emergentes. Mais informações aqui

05 fevereiro, 2009

valentina

© Manuel Luís Cochofel

O universo é ficcional e fragmentário, tão rarefeito quanto os pontos de cor intercalados que nos dão a ilusão de unidade. A trama à vista só serve para nos enganar ainda mais. Há uma personagem de eleição que não se identifica visualmente com precisão mas que se multiplica em espaços e situações que variam entre a mais pura banalidade das imagens caseiras e a tentativa de sedução pela pose. O convite para entrar no The Inner World of Valentina 170167 é de Manuel Luís Cochofel, que expõe um conjunto de 31 imagens na Galeria Pente 10, em Lisboa.


The Inner World of Valentina 170167, de Manuel Luís Cochofel
Galeria Pente 10, Lisboa
Até 21 de Março

=ColecçãoàVista= 3

Júlio de Matos, Marnikanika # 51 Manikarnika Ghat - Assistindo a uma cremação, 2003
Colecção Nacional de Fotografia/© Centro Português de Fotografia


Nas margens do Ganges

A arquitectura foi a primeira paixão. Concluiu o curso na Escola Superior de Belas-Artes do Porto. A par da arquitectura, a arte de fixar imagens, que haveria de marcar profundamente a sua vida. O primeiro contacto com a fotografia deveu-se à influência do pai. Mais tarde, "e de uma forma quase autodidacta", aprendeu a revelar e a imprimir. "Tinha descoberto que a fotografia era uma forma extraordinária de ver o mundo", conta Júlio de Matos. A Índia, porém, despertou-lhe maior interesse. Em Váránasi, captou imagens em preto e branco que lhe provocaram um misto de emoção e choque cultural. Nas margens do rio Ganges, registou as recorrentes cerimónias fúnebres de cremação de restos mortais. Familiares e amigos acompanham um corpo sem vida e assistem à fusão da vida com o universo.
(texto: CPF)

03 fevereiro, 2009

Plat(t)form

Helena PÅLS, Untitled, from: För att/Because, 2000-2005, Plat(t)form 2009, menção especial
© Helena PÅLS

Desde há três anos que o Fotomuseum Winterthur, de Zurique, na Suíça, promove uma análise crítica de portfólios no último fim de semana de Janeiro. A iniciativa pretende ser "um fórum para a nova fotografia europeia" e foi baptizada como Plat(t)form. Depois de um primeiro processo de selecção, 42 artistas emergentes submetem os seus projectos à análise de profissionais do sector. Na última edição foi lançado o Plat(t)form Databank, uma base de dados que mapeia os trabalhos dos artistas que já passaram por esta iniciativa.
O júri do Plat(t)form 09 destacou as fotografias de Bianca Brunner, Thomas Julier, Anouk Kruithof, Taiyo Onorato, Nico Krebs, Helena Påls, Giuliana Racco e Wytske van Keulen. A próxima edição da Plat(t)form decorre entre 29 e 31 Janeiro de 2010.
Para saber mais sobre este projecto clique aqui

/uma fotografia, um nome\

Rua das Carmelitas, in Um Porto de Nível, 2008
© Augusto Lemos

A cidade do Porto é uma estrutura complicada; hoje distribui-se por mais de 7 colinas. O velho centro cívico da Sé já era, na voz caseira e descontente dos seus burgueses medievais, 'uma fraga' sem viço e sem proveito. Vista de Vila Nova de Gaia, que se lhe ergue paralela na outra margem, a cidade despenha-se no Douro, adivinhando-se aqui e ali os muitos rios encanados que foram abrindo passagem por entre os montes. É também uma cidade de muitas águas que encharcavam os caminhos e se abriam em dezenas de fontes.

Aqui, nesta enganosa imagem de Augusto Lemos encontramo-nos a meio do cruzamento de duas vertentes que descem divergentes para a Praça da Liberdade, (onde se alarga o esteio das duas ribeiras invisíveis que vão fazer em Mouzinho da Silveira, o Rio da Vila). A casa vagamente modernista à nossa direita deveria estar bem inserida num forte plano inclinado. À esquerda, na nossa memória, sobe a igreja dos Clérigos, de Nasoni; ainda vemos os últimos patamares da sua Torre, ex-libris da cidade.

O absurdo da observação calha bem com o lugar que os edifícios escondem: para lá do visível fica a Cadeia da Relação, actual CPF e o antigo lugar do Campo dos Enforcados, párias até na morte.

Para lá da Torre e da Porta do Olival, do velho muro, ficava a Judiaria. Era um lugar maldito, o Monte da Vitória e o planalto da Cordoaria, onde mais tarde, na Universidade de hoje, ficava o Colégio dos Órfãos, com a sua cruz vermelha na túnica andrajosa. É todo um lugar de muitos poderes e muitas transgressões.

A fotografia tem destas coisas. Quando há uma brecha faz-nos ver as estratificações dos tempos e, ainda, as correcções da memória.

Augusto Lemos acentua aqui a transgressão que determinou a série Um Porto de Nível. Não se trata de uma simulação, o título aponta a origem da transgressão: há um nivelamento de uma rua que é inclinada, produzida pela posição da câmara. Com essa alteração, tudo se modifica.

Quem se coloca à porta da Igreja dos Clérigos vê a rua descer até à Praça, fazendo um quase espelho com o abrupto da rua em frente dos olhos, 31 de Janeiro; a ribeira que vem de Sampaio Bruno e a Ribeira das Hortas, na rua do Almada, criaram a planície intermédia dos poucos metros da Baixa e tornaram mais elevados os montes da Sé e da Vitória. Não há um metro de terreno que não sofra a inclinação das rochas de granito.

Ora o insólito da imagem argumenta com os dados visuais da memória que guardamos. Por vezes a memória é imperfeita, achaque habitual que rodeia o muito conhecido com que nos cruzamos. E aí a fotografia avança com a sua virtude terapêutica: acrescenta dados, completa a informação defeituosa. No mínimo dá-nos a imperfeição dos dados em armazém e faz-nos olhar de novo, reflectir sobre essa mesma leviandade do olhar.

Neste Um Porto de Nível questiona-se tanto essa leviandade de estar como a simulação do olhar. Mas o que fica é mesmo o acto fotográfico, que não é apenas a integração das glórias e limitações da câmara, mas aquele olhar que não lhe pertence.

O desejo que se afirma no olhar distingue o sujeito do objecto, mas considera-se Uno entre os dois; mas um Uno como parte de um não-todo. Por isso a psiquiatria fala de real apenas aqui, neste momento de verdade: o acto de amor da fotografia nunca é desinteressado, porque é desejo, mas está nas antípodas do cinismo. No mundo de simulação que necessariamente somos, tudo converge para a integração.

Maria do Carmo Serén

Augusto Lemos é fotógrafo, professor de Fotografia e arqueólogo.
Vive e trabalha no Porto.

02 fevereiro, 2009

Amis and friends

Martin Amis, Paris, 1979
© Angela Gorgas

A candura e a entrega ao registo fotográfico tendem a encontrar na intimidade o seu território mais fértil. Esse contacto que fixa a expressão dos afectos pode muito bem acontecer no mais saturado dos contextos e distingue-se por um certo alheamento e uma boa dose de cumplicidade. Como acontece neste retrato de Martin Amis captado em Paris por Angela Gorgas, namorada da época, que, para além do escritor inglês, fotografou a partir de dentro a elite intelectual de Londres durante os anos 70, entre os quais se contam Ian McEwan, Christopher Hitchens, Kingley Amis, James Fenton e Pat Kavanagh. Martin Amis and Friends, patente na National Portrait Gallery, mostra essa geração de calças à boca de sino, casacos de veludo gastos e lenços garridos em plena ascensão criativa.
Lynn Barber, do Guardian, escreveu uma crítica à exposição aqui

Martin Amis and Friends, de Angela Gorgas
National Portrait Gallery, Londres
Até 5 de Julho

01 fevereiro, 2009

os ciganos das Alminhas

© Adriano Miranda


Adriano Miranda habituou-nos ao melhor fotojornalismo da imprensa portuguesa. A reportagem que hoje assina com Ana Cristina Pereira (texto) na Pública sobre o modo de vida e a situação periclitante em que vivem os ciganos do Lugar das Alminhas, Viana do Castelo, é só mais uma prova dessa excelência.


31 janeiro, 2009

 fotografiafalada

© Paulo Catrica


A clarabóia
Ilumina em tons de vermelho um pequeno átrio. As fotografias de arquitectura quase sempre disciplinam os assuntos, fazendo-os parecer mais interessantes do que, de facto, são. Por isso elas são, para os arquitectos, a melhor forma de ver a coisa. Como refere Beatriz Colomina, na arquitectura, enquanto sistema de representação, o edifício é a fotografia.


(Paulo Catrica, P2, Público, 16.01.2009)

ReHospitalidade: H08, de Paulo Catrica
Silo-Espaço Cultural, NorteShopping, Porto
Até 28 de Fevereiro

29 janeiro, 2009

farol

Alec Soth, The Last Days of W
(© Alec Soth/Magnum Photos)


A Magnum e os fotógrafos da Magnum andam muito e estão um pouco por todo lado. Andam tanto que pode ser difícil de acompanhá-los. A pensar nessa multiplicidade de participações culturais, educativas e formativas que envolvem os seus fotógrafos e nas várias exposições que se mostram em todo mundo, a cooperativa decidiu criar um farol para nos guiar: chama-se Magnum Photos Events e, em vez de estar no pico de uma montanha, está na internet. Aqui


entre aspas

© Antony Hegarty


Sempre gostei de desenhar; nada de figurativo, traços, linhas, rabiscos, e de combinar isso com outras técnicas, como a fotografia.

Antony Hegarty, Ípsilon, 16.01.2009




© Antony Hegarty


»»Isis Gallery presents: Antony - The Creek

27 janeiro, 2009

mutação

© Raymon Depardon


O mundo roda, o mundo muda. O homem no mundo muda com ele. O fotógrafo e cineasta Raymond Depardon e o filósofo e urbanista Paul Virilio fazem uma reflexão do mundo e do homem em mudança na Fundação Cartier. Sérgio C. Andrade escreveu sobre a exposição Terre Natale - Ailleurs commence ici. Aqui
Há mais informações sobre este projecto aqui



© Raymon Depardon

26 janeiro, 2009

=ColecçãoàVista= 2

Sabine Weiss, Intérieur d’ Église au Portugal, Portugal, 1954
Colecção Nacional de Fotografia, CNF 1144 © Centro Português de Fotografia

Devoção

“Gosto muito deste diálogo constante entre mim, o meu aparelho e o meu sujeito, isto é o que me diferencia de alguns fotógrafos que não procuram este diálogo e que preferem distanciar-se do seu sujeito.”
Sabine Weiss nasceu em Saint Gingolph, Suiça, em 1924 e vive em Paris desde 1945.
Começou a fotografar em 1938. Trabalhou com Paul Boissonas e com Willy Maywald. Desenvolveu o seu trabalho na moda e colaborou com revistas como a Esquire, Vogue, Holiday, Life, entre outras. Fotografa essencialmente a preto e branco. A sua obra pessoal é associada à corrente “humanista” dada a sua ligação ao quotidiano, às emoções e às pessoas. Passou por Portugal em 1954 e 1956.
(texto: CPF)


Nota: os leitores que acompanham com alguma regularidade este blogue devem recordar-se de ter prometido, no início de Dezembro, a publicação semanal das fotografias e textos que têm saído todos os dias no P2, do Público. Acontece que, depois de ter divulgado a primeira imagem, fui informado que deveria passar a publicar as restantes com a marca d`água do CPF. Discordei dessa decisão e escrevi ao director do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Silvestre Lacerda, quem tutela o Centro Português de Fotografia, para lhe dar conta dos meus argumentos. A mensagem foi enviada também para o director do CPF, Bernardino Castro. Não obtive resposta. Apesar de ser contra a utilização deste carimbo em cima de fotografias que fazem parte da Colecção Nacional de Fotografia, retomo a sua publicação.


(...) colecção pública não apenas no sentido ingénuo de estar aberta ao povo para visita, mas principalmente no sentido nobre do termo, de ter sido feita com o dinheiro de todos nós, e a todos pertencer. Colecções públicas são as do Estado e acabou. (...)

Jorge Calado, in 1839-1989 Um Ano Depois, SEC, 1990, Porto

MAIOCLARO


Vem aí uma nova revista de fotografia. Chama-se MAIOCLARO, nasceu por vontade e iniciativa da direcção do Curso de Artes Visuais Fotografia/ESAP e tem lançamento oficial agendado para o dia 31 de Janeiro, no Centro Português de Fotografia, no Porto. O texto de apresentação diz o seguinte:

Nascido sob o signo da claridade e cumprido quase um ano de trabalhos piloto, chegámos por fim à publicação da Revista MAIOCLARO.
Apresentando-se a área das Artes Visuais, como um vasto campo de cruzamento de saberes e competências diversas, pretendeu-se compreender e analisar o campo de acção da Fotografia e destacar a interacção relacional das várias disciplinas no modo de fazer e pensar a prática fotográfica.
Depois da inevitável experiência de campo, os próximos finalistas do Curso Superior de Artes Visuais-Fotografia assumem a decisiva prova do valor global do conceito avançado.
Novos indicativos e a estreia de um novo conceito tornam o MAIOCLARO* um planeta habitado por uma linguagem estética que brinda às ideias novas daqueles que erguem o olhar para ver além do imediato.

*MAIOCLARO, Refúgio dinâmico do pensar fotográfico, erguido para a unificação simbólica de um sentir em que as artes eternamente se confrontam.

Entre 23 e 30 de Maio, está prevista a realização da II Semana de Fotografia da ESAP, com workshops, mesas redondas e um triciclo de cinema que é para esquecer de vez os monociclos e os duociclos sem motor.

Há mais informações aqui

saldos


Isto já vai um pouco em cima da hora mais ainda assim: a editora brasileira Cosac & Naify está a vender muitos dos seus títulos relacionados com fotografia com 50 por cento de desconto. Aqui

24 janeiro, 2009

Goa

© António Júlio Duarte


(P2, Público, 24.01.2009)

Há geografias que habitam em permanência nos fotógrafos. Podem morar neles de forma subtil, em estado de latência, fornecendo-lhes impulsos criativos pontuais, ou podem revelar-se a cada disparo, de maneira mais intensa e recorrente. António Júlio Duarte tem o Oriente dentro de si e pertence ao primeiro grupo. Houve períodos da sua produção fotográfica - sobretudo os primeiros, a preto e branco - em que o lugar se identificava, mas nunca com grande espalhafato simbólico. Sabíamos que havia distância nessas imagens, mas essa lonjura era-nos dada de maneira quase imperceptível, por detalhes, sempre a fugir ao protagonismo. Estava lá e, em vez de gritar, sussurrava. Mesmo depois, já com a cor e o flash directo no limite do suportável com os quais passou a trabalhar, a crueza com que registou objectos, pessoas e paisagens urbanas, ele foi hábil a fugir ao exótico pelo exótico.
António Júlio Duarte - que no final do ano passado deixou o colectivo Kamera Photo - consegue muitas vezes captar a essência dos lugares pela estranheza e fealdade, sem a ajuda e o conforto do reconhecível, do já visto, do belo.
As 30 fotografias da série Jesus Never Fails, exposição que já passou pelo Centro Cultural de Lagos e que hoje abre ao público no Museu da Electricidade em Lisboa, mostram Goa pelo lado menos bucólico, sem o romantismo dos postais ilustrados. "Esta não é a Goa das recordações pós-coloniais; não identificamos nem a bela tristeza dos que ficam, olhando-nos como referente, nem a bela decadência daquilo que se deixou ao partir", escreve João Pinharanda no texto de apresentação da mostra. Esta Goa de cores desbotadas, registada em 2004, parece abandonada por alguém. "Estas imagens contêm em si mesmas (sem necessitarem de qualquer designação) um poderoso espírito de lugar: e é um lugar social, económica e psicologicamente devastado, que abre fendas (por onde entram homens e animais), que é invadido pela natureza vegetal e pela construção humana, que colhe bolores e lixos, humidade e pobreza", afirma Pinharanda. E de repente a frase "Jesus never fails", que andava nessa altura escrita nos autocarros da cidade indiana, roça a provocação. António Júlio Duarte encarou-a como "auto-ironia" e escolheu-a para mote de todo o trabalho. A fotografia do autocarro com propaganda religiosa foi tirada, mas não consta da série. Para adensar "o enigma", explica o fotógrafo.
Jesus nunca falha. Será que não?


© António Júlio Duarte


Jesus Never Fails, de António Júlio Duarte
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 15 de Março

23 janeiro, 2009

moda no ICP 2

© Tim Walker, Vogue, Itália, 2008


A crítica do New York Times Roberta Smith já foi ver as exposições dedicadas ao tema da moda recentemente inauguradas no International Center of Photography. O texto está aqui (é preciso estar registado no NYT.com)

22 janeiro, 2009

Parr+Obama



Já cá faltava Martin Parr e a sua queda para a fotografia de recuerdos kitsch. Depois dos postais, dos relógios Saddam Hussein e dos pratos Margaret Thatcher (a lista nunca mais acaba), a última obsessão gira à volta dos objectos Obama. A Aperture diz-se delighted por comercializar um portfolio exclusivo de quatro provas sobre o bric-a-brac da "obamamania". Dizem que é para comemorar a tomada de posse do democrata que derrotou W. Bush. Que seja.

guia de compras

© Birthe Piontek

A Humble Arts Foundation vai passar a publicar um guia de dois em dois anos que pode ser muito útil para quem está a pensar investir em fotografia contemporânea em vez de acções de bancos. Chama-se The Collector`s Guide to Emerging Art Photography, sai a 3 Março e contém referências a 163 fotógrafos em início de carreira.
A lista completa de nomes está aqui

21 janeiro, 2009

Marc Riboud

© Marc Riboud/Magnum Photos


Marc Riboud, de 85 anos, foi reconhecido com o prémio carreira atribuído pelos Sony World Photography Awards. Riboud tem um trabalho vasto e variado que vai desde a guerra do Vietname à fotografia de rua de Paris. Esta rapariga que enfrenta os soldados numa manifestação nos EUA contra a guerra do Vietname, em 1967, é uma das suas fotografias mais icónicas.
Riboud começou a tirar fotografias com uma Kodak do pai quando era adolescente. Estudou engenharia. Depois de conhecer Henri Cartier-Bresson e Robert Capa juntou-se à Magnum, em 1953. Foi fotógrafo da cooperativa durante mais de 30 anos.
Riboud disse à Reuters que continua a viajar e a fotografar e que ultimamente se tem dedicado à organização o seu arquivo.
O fotógrafo francês vai receber o prémio na cerimónia dos Sony World Photography Awards em Cannes, no dia 16 de Abril.



I didn't look for scoops, I didn't know the word for scoop. I got the idea that if you look for something you miss it. You have to follow your instinct.


Marc Riboud

20 janeiro, 2009

sugimoto+U2



As rajadas sónicas da guitarra de Edge e a voz frenética de Bono parecem ter pouca relação com a placidez minimalista da fotografia de Hiroshi Sugimoto escolhida para a capa do novo disco dos U2, No Line On The Horizon. E no entanto há uma linha no horizonte. Vem sublinhada, assinalada, limitada e aprisionada. E no entanto pode estar só na nossa imaginação. É talvez disso que nos queiram falar: da provocação pela contradição.

19 janeiro, 2009


entre aspas

Entre as Faucherys que não foi buscar para Marijana ver está aquela que mais profundamente o atormenta. É de uma mulher e seis filhos agrupados à porta de uma cabana de lama e caniços. Quer dizer, podia ser uma mulher e seis filhos, ou a rapariga mais velha podia não ser filha coisa nenhuma, mas sim uma segunda mulher, trazida para tomar o lugar da primeira, que parece esvaziada de vida, exausta de ventre.
Todos eles mostram a mesma expressão: não hostis ao estranho com a moderna máquina de tirar retratos que um momento antes daquele momento enfiou a cabeça por baixo do pano escuro, mas assustados, paralisados, como bois no portal do matadouro. A luz incide-lhes em cheio na cara, apanha todas as manchas da pele e da roupa. Na mão que a criança mais pequena leva à boca a luz expõe aquilo que pode ser doce mas era mais provavelmente lama. Como foi possível revelar tudo aquilo com as longas exposições necessárias naquele tempo, ele nem sequer consegue imaginar.

J.M. Coetzee, O Homem Lento, D. Quixote, 2008

16 janeiro, 2009

/uma fotografia, um nome\

Aníbal Lemos, in Vozes e silêncios da cidade, 2001
© Aníbal Lemos

Nas suas fotografias de autor Aníbal Lemos privilegia o preto e branco. Esta série é a cor e bem se entende que a mulher de vermelho assim o exigia.

Em qualquer perspectiva ela é o centro, - geométrico, figurativo, indicial, ela de tudo se apropria. A rua de Santa Catarina, no Porto, sobe ao fundo a colina que leva ao Marquês de Pombal; em primeiro plano confrontam-se aspectos renovados de um comércio tradicional de levante e exemplares do monopólio internacional. Mas tudo fica indistinto no olhar, à volta da mulher de vermelho a vida parece suspensa, mesmo a outra mulher, sentada, que a olha, ou o polícia que desconfia sabe Deus de quê. O contexto tornou-se mera decoração, é o contexto da mulher de vermelho.

E tudo porque a mulher, bem ao centro se torna enigmática não nos olhando, deixando, com alguma probabilidade, o seu olhar inquirir numa distância qualquer; porque o seu corpo comum e o “treino” de classe média ganharam o lugar de caput de toda a cena. Porque o vermelho da cor é pregnante para os olhos e para o imaginário ocidental.

É assim que reorganizamos o visual, não num primeiro olhar de síntese interpretativa, mas a partir de sinais que já foram úteis para a nossa sobrevivência e se transmutam em armadilhas do entendimento e do olhar actual.

Organizamos o mundo visível a partir do imaginário. Sabemos a história de representações como esta. Podemos atribuir-lhe interpretações psicológicas ou filosóficas feitas já regras do entendimento, inserindo esses indispensáveis elementos invisíveis na fotografia da mulher de vermelho. Ao designá-la assim aceitamos que a fotografia, como qualquer outra obra produzida para ser vista está destinada a ser completada no seu sentido, pelo destinatário. É, naturalmente, uma estrutura que o autor nos oferece, um conjunto de estímulos onde os biológicos se tramam nos culturais, organizados para nos capturar. Um fotógrafo que a analise, coloca-se na posição da câmara, avalia a distância, investiga os diversos planos e a sua relativa intensidade; o observador comum porta-se como observador, debruça-se na janela e entra no espaço mítico, avançando sobre a cena perspectivada.

Ao isolar a mulher de vermelho na sua transitoriedade de centro absoluto, Aníbal Lemos subalternizou o contexto; este não interage connosco, não tem ponto de fuga, mesmo sabendo a colina que se esbate e indefine nos fundos da imagem. Situa-nos assim na polémica da representação contemporânea que desmistifica, desconstruindo-as, clássicas convenções do olhar imagético. A imagem próxima e horizontal é aqui desnecessária, a mulher de vermelho bloqueia o sentido de fuga e impede a nostalgia do sem-fim.

A fotografia deixou de ser transparente, tornou-se opaca com as subtilezas do problema a explorar pelo observador. Este sabe que olha a fotografia com o prazer de quem a produziu, o seu olhar demora no quase enigma da mulher de vermelho, alternando vagos sentimentos de alienação com interrogações sobre o milagre do ponto de vista.

O olhar deixa e retorna sempre à mulher de vermelho.

Maria do Carmo Serén

Aníbal Lemos é doutorado em Fotografia, professor, fotógrafo, investigador em fotografia. Foi director da Galeria ImagoLucis, no Porto.

acess to life



Depois de terem usado todas as potencialidades multimedia na internet, os oito ensaios associados ao projecto Acess to Life, que luta contra a sida, a tuberculose e a malária, vão ser publicados em livro e em DVD na chancela da Aperture. A Magnum emprestou os fotógrafos que andaram por todo o mundo a registar a diferença entre ter acesso a tratamentos anti-retrovirais e não ter.
para ver o resultado do projecto Acess to Life clique aqui


Access To Life/Russia
© Alex Majoli/Magnum Photos

moda no ICP

Juergen Teller
© Juergen Teller/cortesia do artista

O International Center of Photography de Nova Iorque tem boa parte da programação deste ano recheada de exposições relacionadas com a moda. Chama-lhe Year of Fashion e tudo. Hoje começam Edward Steichen: In High Fashion, The Condé Nast Years, 1923-1937; Weird Beaty: Fashion Photography Now; This Is Not a Fashion Photograph; e Munkacsi`s Lost Archive. Para Setembro estão agendadas Avedon Fashion: Photographs, 1944–2000; David Seidner: Paris Fashion, 1945; e John Wood: Quiet Protest.
A informação detalhada sobre cada uma destas mostras está aqui


Edward Steichen, Model Marion Morehouse in a bouffant dress and actress Helen Lyons in a long sleeve dress by Kargère; masks by the illustrator W.T. Benda, 1926
© Condé Nast Publications/Cortesia Condé Nast Archive, Nova Iorque

15 janeiro, 2009

visita guiada

Manel Armengol, Manifestación por las libertades, Barcelona, 1976
© Manel Armengol

Jorge Calado vai fazer no sábado, às 15h00, uma visita guiada (entrada gratuita) à exposição de Manel Armengol, Transições. 70s em Espanha, China e Estados Unidos. É uma ocasião privilegiada para acompanhar o grande trabalho do fotógrafo catalão no último dia da mostra em Lisboa.
Lembrete: a feira de livros de fotografia com a chancela do Arquivo Fotográfico Municipal e da Foto Colectania continua até 30 de Janeiro. Todos os livros têm descontos até 5o por cento.


>>post relacionado
>transições

13 janeiro, 2009

os melhores

David Maisel: Library of Dust (Chronicle)

Para a redacção da revista photo-eye estes foram os melhores livros de fotografia publicados em 2008:

~David Maisel: Library of Dust (Chronicle)
~Dayanita Singh: Sent a Letter (Steidl)
~Ed Templeton: Deformer (Damiani)
~James Mollison: The Disciples (Chris Boot)
~Josef Koudelka: Invasion 68 Prague (Aperture)
~Julie Blackmon: Domestic Vacations (Radius)
~Pieter Hugo: Hyena and Other Men (Prestel)
~Raymond Meeks: A Clearing (Nazraeli)
~Tatsuki Masaru: Decotora, 1998-2007 Japanese Art Truck Scene (Little More)
~Zoe Strauss: America (AMMO)

Para além desta lista, a revista pediu a vários fotógrafos de renome que eleborassem o seu top ten do ano (é sempre interessante ver o que é que Martin Parr escolhe). Está tudo aqui

Raymond Meeks: A Clearing (Nazraeli)

 
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