26 janeiro, 2009
24 janeiro, 2009
Goa
(P2, Público, 24.01.2009)
Há geografias que habitam em permanência nos fotógrafos. Podem morar neles de forma subtil, em estado de latência, fornecendo-lhes impulsos criativos pontuais, ou podem revelar-se a cada disparo, de maneira mais intensa e recorrente. António Júlio Duarte tem o Oriente dentro de si e pertence ao primeiro grupo. Houve períodos da sua produção fotográfica - sobretudo os primeiros, a preto e branco - em que o lugar se identificava, mas nunca com grande espalhafato simbólico. Sabíamos que havia distância nessas imagens, mas essa lonjura era-nos dada de maneira quase imperceptível, por detalhes, sempre a fugir ao protagonismo. Estava lá e, em vez de gritar, sussurrava. Mesmo depois, já com a cor e o flash directo no limite do suportável com os quais passou a trabalhar, a crueza com que registou objectos, pessoas e paisagens urbanas, ele foi hábil a fugir ao exótico pelo exótico.
António Júlio Duarte - que no final do ano passado deixou o colectivo Kamera Photo - consegue muitas vezes captar a essência dos lugares pela estranheza e fealdade, sem a ajuda e o conforto do reconhecível, do já visto, do belo.
As 30 fotografias da série Jesus Never Fails, exposição que já passou pelo Centro Cultural de Lagos e que hoje abre ao público no Museu da Electricidade em Lisboa, mostram Goa pelo lado menos bucólico, sem o romantismo dos postais ilustrados. "Esta não é a Goa das recordações pós-coloniais; não identificamos nem a bela tristeza dos que ficam, olhando-nos como referente, nem a bela decadência daquilo que se deixou ao partir", escreve João Pinharanda no texto de apresentação da mostra. Esta Goa de cores desbotadas, registada em 2004, parece abandonada por alguém. "Estas imagens contêm em si mesmas (sem necessitarem de qualquer designação) um poderoso espírito de lugar: e é um lugar social, económica e psicologicamente devastado, que abre fendas (por onde entram homens e animais), que é invadido pela natureza vegetal e pela construção humana, que colhe bolores e lixos, humidade e pobreza", afirma Pinharanda. E de repente a frase "Jesus never fails", que andava nessa altura escrita nos autocarros da cidade indiana, roça a provocação. António Júlio Duarte encarou-a como "auto-ironia" e escolheu-a para mote de todo o trabalho. A fotografia do autocarro com propaganda religiosa foi tirada, mas não consta da série. Para adensar "o enigma", explica o fotógrafo.
Jesus nunca falha. Será que não?
© António Júlio Duarte
Jesus Never Fails, de António Júlio Duarte
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 15 de Março
23 janeiro, 2009
moda no ICP 2
A crítica do New York Times Roberta Smith já foi ver as exposições dedicadas ao tema da moda recentemente inauguradas no International Center of Photography. O texto está aqui (é preciso estar registado no NYT.com)
22 janeiro, 2009
Parr+Obama
guia de compras
A Humble Arts Foundation vai passar a publicar um guia de dois em dois anos que pode ser muito útil para quem está a pensar investir em fotografia contemporânea em vez de acções de bancos. Chama-se The Collector`s Guide to Emerging Art Photography, sai a 3 Março e contém referências a 163 fotógrafos em início de carreira.
21 janeiro, 2009
Marc Riboud
Marc Riboud, de 85 anos, foi reconhecido com o prémio carreira atribuído pelos Sony World Photography Awards. Riboud tem um trabalho vasto e variado que vai desde a guerra do Vietname à fotografia de rua de Paris. Esta rapariga que enfrenta os soldados numa manifestação nos EUA contra a guerra do Vietname, em 1967, é uma das suas fotografias mais icónicas.
Riboud começou a tirar fotografias com uma Kodak do pai quando era adolescente. Estudou engenharia. Depois de conhecer Henri Cartier-Bresson e Robert Capa juntou-se à Magnum, em 1953. Foi fotógrafo da cooperativa durante mais de 30 anos.
Riboud disse à Reuters que continua a viajar e a fotografar e que ultimamente se tem dedicado à organização o seu arquivo.
O fotógrafo francês vai receber o prémio na cerimónia dos Sony World Photography Awards em Cannes, no dia 16 de Abril.
“I didn't look for scoops, I didn't know the word for scoop. I got the idea that if you look for something you miss it. You have to follow your instinct.”
20 janeiro, 2009
sugimoto+U2
19 janeiro, 2009
“entre aspas”
“Entre as Faucherys que não foi buscar para Marijana ver está aquela que mais profundamente o atormenta. É de uma mulher e seis filhos agrupados à porta de uma cabana de lama e caniços. Quer dizer, podia ser uma mulher e seis filhos, ou a rapariga mais velha podia não ser filha coisa nenhuma, mas sim uma segunda mulher, trazida para tomar o lugar da primeira, que parece esvaziada de vida, exausta de ventre.
Todos eles mostram a mesma expressão: não hostis ao estranho com a moderna máquina de tirar retratos que um momento antes daquele momento enfiou a cabeça por baixo do pano escuro, mas assustados, paralisados, como bois no portal do matadouro. A luz incide-lhes em cheio na cara, apanha todas as manchas da pele e da roupa. Na mão que a criança mais pequena leva à boca a luz expõe aquilo que pode ser doce mas era mais provavelmente lama. Como foi possível revelar tudo aquilo com as longas exposições necessárias naquele tempo, ele nem sequer consegue imaginar.”
16 janeiro, 2009
/uma fotografia, um nome\
“Nas suas fotografias de autor Aníbal Lemos privilegia o preto e branco. Esta série é a cor e bem se entende que a mulher de vermelho assim o exigia.
Em qualquer perspectiva ela é o centro, - geométrico, figurativo, indicial, ela de tudo se apropria. A rua de Santa Catarina, no Porto, sobe ao fundo a colina que leva ao Marquês de Pombal; em primeiro plano confrontam-se aspectos renovados de um comércio tradicional de levante e exemplares do monopólio internacional. Mas tudo fica indistinto no olhar, à volta da mulher de vermelho a vida parece suspensa, mesmo a outra mulher, sentada, que a olha, ou o polícia que desconfia sabe Deus de quê. O contexto tornou-se mera decoração, é o contexto da mulher de vermelho.
E tudo porque a mulher, bem ao centro se torna enigmática não nos olhando, deixando, com alguma probabilidade, o seu olhar inquirir numa distância qualquer; porque o seu corpo comum e o “treino” de classe média ganharam o lugar de caput de toda a cena. Porque o vermelho da cor é pregnante para os olhos e para o imaginário ocidental.
É assim que reorganizamos o visual, não num primeiro olhar de síntese interpretativa, mas a partir de sinais que já foram úteis para a nossa sobrevivência e se transmutam em armadilhas do entendimento e do olhar actual.
Organizamos o mundo visível a partir do imaginário. Sabemos a história de representações como esta. Podemos atribuir-lhe interpretações psicológicas ou filosóficas feitas já regras do entendimento, inserindo esses indispensáveis elementos invisíveis na fotografia da mulher de vermelho. Ao designá-la assim aceitamos que a fotografia, como qualquer outra obra produzida para ser vista está destinada a ser completada no seu sentido, pelo destinatário. É, naturalmente, uma estrutura que o autor nos oferece, um conjunto de estímulos onde os biológicos se tramam nos culturais, organizados para nos capturar. Um fotógrafo que a analise, coloca-se na posição da câmara, avalia a distância, investiga os diversos planos e a sua relativa intensidade; o observador comum porta-se como observador, debruça-se na janela e entra no espaço mítico, avançando sobre a cena perspectivada.
Ao isolar a mulher de vermelho na sua transitoriedade de centro absoluto, Aníbal Lemos subalternizou o contexto; este não interage connosco, não tem ponto de fuga, mesmo sabendo a colina que se esbate e indefine nos fundos da imagem. Situa-nos assim na polémica da representação contemporânea que desmistifica, desconstruindo-as, clássicas convenções do olhar imagético. A imagem próxima e horizontal é aqui desnecessária, a mulher de vermelho bloqueia o sentido de fuga e impede a nostalgia do sem-fim.
A fotografia deixou de ser transparente, tornou-se opaca com as subtilezas do problema a explorar pelo observador. Este sabe que olha a fotografia com o prazer de quem a produziu, o seu olhar demora no quase enigma da mulher de vermelho, alternando vagos sentimentos de alienação com interrogações sobre o milagre do ponto de vista.
O olhar deixa e retorna sempre à mulher de vermelho.”
Maria do Carmo Serén
Aníbal Lemos é doutorado em Fotografia, professor, fotógrafo, investigador em fotografia. Foi director da Galeria ImagoLucis, no Porto.
acess to life

Depois de terem usado todas as potencialidades multimedia na internet, os oito ensaios associados ao projecto Acess to Life, que luta contra a sida, a tuberculose e a malária, vão ser publicados em livro e em DVD na chancela da Aperture. A Magnum emprestou os fotógrafos que andaram por todo o mundo a registar a diferença entre ter acesso a tratamentos anti-retrovirais e não ter.
para ver o resultado do projecto Acess to Life clique aqui
moda no ICP
A informação detalhada sobre cada uma destas mostras está aqui
Edward Steichen, Model Marion Morehouse in a bouffant dress and actress Helen Lyons in a long sleeve dress by Kargère; masks by the illustrator W.T. Benda, 1926© Condé Nast Publications/Cortesia Condé Nast Archive, Nova Iorque
15 janeiro, 2009
visita guiada
Jorge Calado vai fazer no sábado, às 15h00, uma visita guiada (entrada gratuita) à exposição de Manel Armengol, Transições. 70s em Espanha, China e Estados Unidos. É uma ocasião privilegiada para acompanhar o grande trabalho do fotógrafo catalão no último dia da mostra em Lisboa.
Lembrete: a feira de livros de fotografia com a chancela do Arquivo Fotográfico Municipal e da Foto Colectania continua até 30 de Janeiro. Todos os livros têm descontos até 5o por cento.
>>post relacionado
>transições
13 janeiro, 2009
os melhores
Para a redacção da revista photo-eye estes foram os melhores livros de fotografia publicados em 2008:
~David Maisel: Library of Dust (Chronicle)
~Dayanita Singh: Sent a Letter (Steidl)
~Ed Templeton: Deformer (Damiani)
~James Mollison: The Disciples (Chris Boot)
~Josef Koudelka: Invasion 68 Prague (Aperture)
~Julie Blackmon: Domestic Vacations (Radius)
~Pieter Hugo: Hyena and Other Men (Prestel)
~Raymond Meeks: A Clearing (Nazraeli)
~Tatsuki Masaru: Decotora, 1998-2007 Japanese Art Truck Scene (Little More)
~Zoe Strauss: America (AMMO)
Para além desta lista, a revista pediu a vários fotógrafos de renome que eleborassem o seu top ten do ano (é sempre interessante ver o que é que Martin Parr escolhe). Está tudo aqui
prendas

Sei que isto pode soar um bocadinho fora do baralho ou, pelo menos, fora do calendário, mas gostava de partilhar esta vantagem de termos paixões por objectos e suportes que são... temporalmente abrangentes. Quando assim é corremos o risco de sermos mimados no Natal com prendas que vão desde os cromos/brindes fotográficos ao estilo Arte Nova dos sabonetes Celebridades da fábrica Claus & Schweder, do Porto, às melhores revistas de fotografia contemporânea, daquelas que só chegam pelo correio. Obrigado A. Obrigado C.
12 janeiro, 2009
photo la
Esta é a lista dos 13 fotógrafos que escolheram outros tantos livros:
Harvey Benge honours William Eggleston
Chris Coekin honours Hendrick Duncker & Yrjo Tuunanen
Peter Granser honours Robert Frank
Pieter Hugo honours Roland Barthes
Tiina Itkonen honours Pentti Sammallahti
Onaka Koji honours Daido Moriyama
Jens Liebchen honours Anthony Hernandez
Michael Light honours Ansel Adams
Mark Power honours Stephen Shore
Matthew Sleeth honours Lars Tunbjörk
Alec Soth honours Andrea Modica
Jules Spinatsch honours Block 2008
Raimond Wouda honours Paul Shambroom
11 janeiro, 2009
teatro+fotografia
À boleia d`O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, que volta à cena do Teatro Nacional de São João em Janeiro, Daniel Blaufuks viajou até Veneza para tentar encontrar os sinais da presença judaica na cidade dos canais. O desafio foi lançado pelo encenador Ricardo Pais e o resultado são dez fotografias montadas numa instalação própria concebida por João Mendes Ribeiro e Catarina Fortuna.
“[...] Shakespeare não menciona que as portas do gueto de Veneza, o primeiro da Europa, eram fechadas entre o anoitecer e o amanhecer, e que os judeus europeus eram obrigados a usar estrelas amarelas ou vermelhas, como em Portugal, entre outras proibições e obrigações. Pensava em tudo isto e em quem tratamos hoje como forasteiros nas nossas terras comuns, enquanto caminhava pelas ruas de Veneza, rente aos canais, sentindo os passos em volta. Não foi preciso fugir dos turistas, porque eles se afastavam de mim, pressentindo provavelmente essa presença que não me abandonava. Um fim de dia, por mero engano, pedi dois Martinis no café na esquina da praça de San Stefano. Saí de Veneza na manhã seguinte, atravessando de comboio a laguna, e só então pensei nestas fotografias que agora aqui estão.”
Os Passos em Volta, de Daniel Blaufuks, a partir de O Mercador de Veneza
Salão Nobre do Teatro Nacional de São João, Porto
Até 28 de Fevereiro
10 janeiro, 2009
Hatje Cantz
A editora berlinense Hatje Cantz tem um catálogo de álbuns de fotografia de qualidade irrepreensível. Para além da atenção que presta aos livros, dedica-se também à venda de fotografias originais dos autores que publica. A aposta é quase exclusivamente na fotografia contemporânea. Os nomes que fazem parte da Collector' s Editions são estes
09 janeiro, 2009
bone lonely
A não perder a entrevista de Óscar Faria no Ípsilon de hoje a Paulo Nozolino a propósito da exposição bone lonely que inaugurou na Galeria Quadrado Azul, em Lisboa.
Paulo Nozolino: Vivemos num mundo sujo
Da série bone lonely
© Paulo Nozolino
bone lonely, de Paulo Nozolino
Galeria Quadrado Azul
Largo dos Stephens, 4, Lisboa
Até 21 de Fevereiro
08 janeiro, 2009
Odessa

[Kgaleria], Pour Zarma, Changer à Babylone, Colectivo Odessa
Rua da Vinha, 43 A, Lisboa
De qua. a sáb., das 15h às 20h (excepto feriados)
Até 31 de Janeiro
07 janeiro, 2009
“entre aspas”
Foi por isso que, mais tarde, começou a perder o interesse pela fotografia: primeiro quando a cor ganhou preponderância, a seguir quando se tornou claro que que a velha magia das emulsões fotossensíveis estava a desvanecer-se, que para a geração emergente o encantamento residia numa techne de imagens sem substância, imagens que podiam surgir repentinamente através do éter sem residir em sítio algum, que podiam ser sugadas para dentro de uma máquina e emergir dela adulteradas, infiéis. Desistira então de registar o mundo em fotografias e transferira as suas energias para a conservação do passado.
Dirá alguma coisa sobre ele, essa preferência nata pelo preto e branco e matizes de cinzento, essa falta de interesse pelo novo? Seria disso que as mulheres sentiam a falta nele, em particular a sua mulher: cor, abertura?”
06 janeiro, 2009
trocar
Os ambientes fellinianos concebidos e registados em Lisboa pelo fotógrafo Danilo Pavone viajam agora até à Madeira, depois de terem sido expostas no Porto. É uma troca de poisos que responde na perfeição ao espírito do trabalho de Pavone que, para além dos lugares, quer misturar culturas.
Maria do Carmo Serén escreveu a sinopse do projecto:
“É um mundo felliniano que Danilo Pavone concentra nesta série de imagens: há o jogo de bilhar, como jogo da vida, sempre sujeito ao poder de quem pode. Os carnavais da vida, inseguros e grotescos, mas persistentes no parecer que engana o ser, a fé que faz esquecer, a morte que sempre lembra, que sempre acontece. Os encontros dos homens, tangentes do nada e da utopia, encontros que são desencontros, porque o outro somos nós. O acaso conduz o sentido das coisas, das acções e dos intervalos: então o infinito surge do mar, de um areal sem fim, de uma iluminação que descobre o céu de novo.”
© Danilo PavoneFellini - Lisboa, de Danilo Pavone
MadeiraShopping, Santo António, Funchal
Até 3 de Abril
retratos+paisagens
(© Espólio Fotográfico Português)
04 janeiro, 2009
bastidores
Desde os anos 60 que Mary Ellen Mark fotografa os bastidores de filmes, muitos dos quais vieram a marcar a história do cinema (Apocalypse Now, Amarcord, Voando Sobre um Ninho de Cucos...). Nesse ambiente particular captou actores, realizadores e todo o burburinho característico da rodagem de longas metragens. A editora Phaidon acaba de lançar um álbum onde parte desse trabalho está reunido. A maioria das imagens reproduzidas em Seen Behind the Scene nunca fora publicada. Além das 168 fotografias, o livro contém textos de várias personalidades ligadas à indústria do cinema, entre as quais Francis Ford Coppola, Helen Mirren e Alejandro Gonzalez Inarritu. O El Mundo falou com Mary Ellen Mark a propósito do lançamento deste álbum. Essa conversa está aqui
03 janeiro, 2009
30 dezembro, 2008
Toscani+mafia
O fotógrafo italiano Oliviero Toscani registou oficialmente a marca mafia, mas ainda não se sabe com que propósito. Vittorio Sgarbi, crítico de arte e presidente da câmara de Salemi, na Sicília, diz que a ideia é boa e garante que foi tudo feito em nome desta localidade e com a sua autorização. Toscani é conselheiro de comunicação de Salemi.
A utilização da palavra mafia para fins comerciais já deu polémica em Itália. Desta vez é capaz de não ser diferente, quaisquer que sejam as intenções de Toscani.
Mais aqui
29 dezembro, 2008
Requiem Polaroid
Agora que os filmes Polaroid dão os últimos suspiros sucedem-se os requiems e os artigos mais ou menos nostálgicos, como o que Michael Kimmelman publicou há dias no New York Times.
Kimmelman diz que a fotografia instantânea inventada por Edwin Land não era perfeita, mas era mágica. Concordo. Quem disse que a perfeição é a virtude da imagem?
25 dezembro, 2008
/uma fotografia, um nome\
“O isto foi de Roland Barthes ainda incomoda muita gente. Mesmo aqueles que aceitam com cautela o valor indicial da fotografia, mas recusam que a fotografia, toda a fotografia, tenha a sua natureza específica, o seu “noema”.
Esta imagem de António Drumond é posterior à sua belíssima publicação O Preto, o Branco e alguma Cor, que é de 2006 (Campo de Letras), onde quase resume uma longa história do seu olhar fotográfico, sempre experimental e sempre atento às alterações dos contextos. Meses atrás este Arte Photographica publicou esta mesma imagem para ilustração da comemoração do Movimento IF, no Museu Soares dos Reis.
Trata-se de uma composição feliz. Que seja arbitrária ou não, é indiferente: Drumond apreendeu a ligação imediata entre o livro que a jovem da pintura de Veloso Salgado segura com certo enfado e a montra adjacente do Museu. O vestido negro fabrica um contraste profundo e provoca uma impressionante festa de cores quentes.
Há um lugar de interacção e o fascínio criado pelo umbral da desconstrução da rapariga do quadro. O mistério desse limiar, que atinge apenas a memória, assenta no facto de ser o lugar onde o observador não pode estar: é, naturalmente, a desconstrução da continuidade e da identidade de cada um. O que nos leva ao código da experiência estética militante, no seu afã muito actual de que as obras de arte valham não pelo que são, mas pelo que fazem.
A lógica cultural é hoje a multiplicação da oferta, que os estados traduzem na sua política cultural de conteúdos. Mas a arte não pode dissolver-se na comunicação que tudo rege, porque tem um núcleo incomunicável que, por isso mesmo, suscita diversas interpretações. Tenta sê-lo pela procura de singularidades, pelas manifestações transgressoras, pela diluição das fronteiras. Mas há uma aura de real nas fotografias, há uma contiguidade entre objecto fotografado e a imagem latente que fica na película e por isso mesmo Barthes dizia de todas as fotografias, isto foi. Por isso a arte contemporânea cede ao trauma do encontro com o real de que a fotografia é contaminada – esse real que, lá diz Lacan, se distingue do verdadeiro, porque não é aberto à linguagem e ao simbólico.
E então António Drumond investe em Veloso Salgado como uma citação sem propósito e num pequeno marketing da nossa cultura que ainda se mantém erudita: esta imagem fotográfica parece congregar a inutilidade de ferozes criticismos sobre o lugar do poder na arte: fala de um museu, está num museu, é e não é a sua memória.
Na contiguidade entre a realidade, oferecida ou construída, mas que vemos e olhamos, qualquer coisa se instalou na película ou na organização dos pixels, o isto foi. Podia não ser, porque não apreendido no seu enquadramento antes da imagem; é a imagem que cria o seu referente. Agora é uma realidade poética cheia de cor, a realidade da fotografia , que resultou de um olhar e de uma pulsão qualquer.
António Drumond construiu uma metáfora, nós construiremos, olhando-a, outras ainda. É com estratégias destas, onde conta muito o desejo e sua poesia que entendemos o mundo diverso onde vivemos.”
Maria do Carmo Serén
António Drumond é fotógrafo amador; pertenceu ao Grupo IF (Ideia e Forma) e tem uma sólida carreira de exposição.
23 dezembro, 2008
“entre aspas”
- Sim, tive um estúdio em Unley. Durante uns tempos também dei aulas de fotografia à noite. Mas nunca fui (como é que hei-de dizer?) um artista da câmara. Fui sempre mais um técnico.
Salomon
Chamavam-lhe o rei dos indiscretos
(Público, 28.11.2008)
Conferências internacionais, julgamentos, recepções a embaixadores, festas da alta sociedade alemã. Erich Salomon estava lá, com as suas câmaras fotográficas (a Leica ou a Ermanox de que raramente se separava), exibidas na mão ou escondidas numa pasta, para registar “momentos de desatenção” de alguns dos maiores políticos e celebridades do período entre as duas grandes guerras. Estava lá porque fazia parte dessa elite que ao mesmo tempo desafiava no seu próprio território, expondo-a naquilo que tinha de menos público.
Cento e trinta fotografias de Erich Salomon (1886-1944) estão até 25 de Janeiro no Jeu de Paume (Hotel de Sully), em Paris. A exposição, a primeira de uma trilogia dedicada à fotografia europeia entre guerras, é feita com o museu de arte moderna, arquitectura e fotografia de Berlim (depositário do arquivo Salomon) e ajuda a traçar o percurso deste filho de banqueiros, doutorado em Direito, que chegou a estudar zoologia, e que aos 40 anos se tornou fotógrafo.
Pioneiro do fotojornalismo, Salomon tornou-se famoso a partir de uma reportagem para o Berliner Illustrirte Zeitung em que, com a câmara escondida, fotografou um homicida em tribunal através de um buraco feito no chapéu. Seguiram-se muitos encontros com estrelas
das artes (como Marlene Dietrich) e da política (o primeiro-ministro francês Aristide Briand chamava-lhe o rei dos indiscretos), que muitas vezes só descobriam nas páginas das revistas e nas paredes das galerias que tinham sido apanhadas pelo “Houdini da fotografia”.
Judeu, refugiou-se na Holanda com a ascensão do nazismo na Alemanha. Com a invasão alemã, a família Salomon é descoberta e enviada para Auschwitz, onde viria a morrer em Julho de 1944. O seu trabalho ficou, como testemunha da revolução que desencadeou. Não era por acaso que Briand dizia que uma reunião só era verdadeiramente importante se Salomon lá estivesse.
(Erich Salomon)
22 dezembro, 2008
saldos
Adenda: a feira do livro foi prolongada até 30 de Janeiro. Para além dos álbuns do Arquivo, estão também à venda livros da Fundación Foto Colectania.


































