11 dezembro, 2008

em conjunto

Sebastian Hacher, Bolivianos en Buenos Aires: la fiesta es aquicito, 2008
(© Sebastian Hacher/Cooperativa Sub)

Inaugura hoje em S. Paulo, no Brasil, a exposição Laberinto de Miradas 3 - Coletivos fotográficos Ibero-Americanos onde estará representada a mais recente criação fotográfica não só de colectivos de fotógrafos, mas também de espaços culturais alternativos e grupos de acção social que utilizam a imagem fotográfica como principal meio de expressão. No dia em que abre ao público a mostra, começa também na Galeria Olido o Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero–Americanos, iniciativa que nasceu de uma parceria entre o Centro Cultural Espanha em São Paulo e Claudi Carreras, comissário da exposição. O encontro vai ser acompanhado pelo blogue Garapa que terá também uma página no Flickr

Estes são os colectivos presentes na exposição:

Argentina: Cooperativa Sub e Fundación PH15
Brasil: Cia de Foto, Rolê e Observatório de Favelas
Espanha: Blank Paper, No Photo e Pandora
Guatemala: FotoKids
México: Monda Foto e Taller Fotográfico de Guelatao
Peru: Archivo Tafos e Supay Fotos
Portugal: Kamera Photo
Venezuela: ONG - Organización Nelson Garrido

Laberinto de Miradas 3 - Coletivos fotográficos Ibero-Americanos
Galeria Olido, São Paulo, Brasil
Até 1 de Março de 2009

Molder deixa CAM

Jorge Molder
(© Adriano Miranda/Público)

Jorge Molder vai deixar de ser director do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Fonte do gabinete de comunicação da Gulbenkian disse ao Público que Molder “solicitou à fundação a reforma antecipada e consequentemente a cessação das suas funções enquanto director do Centro de Arte Moderna, com efeitos a partir de 11 de Janeiro, por motivos de carácter pessoal”.
Jorge Molder era director do CAM desde 1994 e vai ficar ligado à instituição como "consultor".

10 dezembro, 2008

Leibovitz em Londres

Annie Leibovitz, Londres, 2008
(© Leon Neal/AFP)

Alexandra Lucas Coelho esteve em Londres na inauguração de Annie Leibovitz - A Photographer''s Life, 1990-2005. A fotógrafa americana está nos píncaros do mediatismo e aparenta lidar com esse estrelato como um maestro lida com uma orquestra. O texto de Alexandra está no novo site do Ípsilon aqui

Annie Leibovitz - A Photographer''s Life, 1990-2005
National Portrait Gallery, Londres
Até 1 de Fevereiro

09 dezembro, 2008

linhas abandonadas

Mohave and Milltown #3, 2004
© Mark Ruwedel

Nos blogues do The Guardian, Liz Jobey escreve sobre um álbum recente do fotógrafo americano Mark Ruwedel (Westward: The Course of Empire, Yale University Art Gallery, 2008) que passou os últimos 15 anos a registar as linhas abertas durante o século XIX e que agora estão abandonadas. E não são só as linhas e o trabalho de as instalar que são do tempo dos cowboys. Há nestes registos qualquer coisa de "olhar primitivo", uma aproximação inóspita a lugares de quase ninguém. O post de Jobey está aqui

traseiras de Serralves

(© Nelson Garrido/Público)

Fotografia, medo e preconceito - a bordo do 200 da STCP, rumo às traseiras de Serralves.

200
Forasteiro: - Boa noite. Este passa por Serralves?
Condutor: - Não.
Forasteiro: - Não? Mas disseram-me que sim.
Condutor: - Não passa.
Forasteiro: - E perto? Passa perto?
Condutor: - Hmmm. [ar de enfado] Não. Era o 207, mas já fez a recolha.
Ex-"guna": - Olhe lá! Então este não passa nas traseiras de Serralves?
Condutor: - Hmmm... é capaz. Sou novo nesta linha. Não conheço bem aquela zona...
Ex-"guna": -É no Lordelo homem, perto do Campo Alegre!
Condutor: - ...
Ex-"guna": - Então aquilo não são as traseiras de Serralves?
Condutor: - ...
Forasteiro: - É muito longe? Quanto tempo leva a pé?
Ex-"guna": - São aí uns 1o minutos a andar bem. Vou sair lá. Posso dizer-lhe o caminho.
Forasteiro: - Ah, ok. Obrigado. Quero um bilhete.

Fotografia
Ex-"guna": - Vai haver alguma festa em Serralves?
Forasteiro: - Não. É só a inauguração de uma exposição de fotografia.
Ex-"guna": - Gosto de Serralves. É bom ir para lá.
Forasteiro: - Pois é. Acho que é um orgulho para o Porto ter Serralves.
Ex-"guna": - Lá isso é. A minha casa fica mesmo nas traseiras.
Forasteiro: - Ena! Uma casa com vista para Serralves!
Ex-"guna": ...
Forasteiro: - Assim ficas a um passo...
Ex-"guna": - Quando era mais puto ia lá roubar laranjas. Aquilo era a casa do conde. Tinha boas laranjas.
Forasteiro: - Roubar laranjas?
Ex-"guna": - Sim. Mas há pouco tempo fui lá participar numa cena de fotografia.
Forasteiro: - Ai sim?
Ex-"guna": - Foi bem giro.
Forasteiro: - E que tal foi a experiência?
Ex-"guna": - Eles tinham de tudo na... como é que se diz...
Forasteiro: - ...na câmara escura.
Ex-"guna": - Sim, isso. Tinham as águas, o papel... tudo. Era para aprender do início ao fim. Para vermos como é que se faz a fotografia antiga.
Forasteiro: - Fotografia antiga?
Ex-"guna": - Sim, a que aparece em fotografia mesmo.

Próxima paragem: Lordelo (traseiras de Serralves)

Medo
Ex-"guna": -É aqui que saimos.
Forasteiro: - Ok.
Ex-"guna": - Isto é perto.
Forasteiro: - Então em que direcção é?
Ex-"guna": - É por ali.
Forasteiro: - Hã, bem, então obrigado...
Ex-"guna": - Eu também vou para lá.
Forasteiro: - Ai sim..
Ex-"guna": - Eu moro nessa direcção. Aqui isto está rodeado. Ali é o bairro H., ali o bairro S., e ali o bairro R.
Forasteiro: ...
Ex-"guna": - E aqui é o antigo hotel I. que está a ser recuperado.
(edifício preto, esventrado, de fios ao pendurão)
Ex-"guna": - Passo aqui todos os dias. É um bocado feio. São as traseiras de Serralves. Ali à frente tem uma fábrica antiga toda arrebentada.
Forasteiro: - É um bocado escuro...
Ex-"guna": - Pois é. Às vezes a minha mulher está ali na paragem de carro e dá-me boleia. Prefiro não me chatear.
Forasteiro: - ...
Ex-"guna": - Isto às vezes não é certo. Está ali a fábrica...
(o passeio estreita)
Ex-"guna": - Passa.
Forasteiro: - Não, passa tu.
Ex-"guna": - Tu primeiro.
Forasteiro: - Obrigado.
(o passeio alarga)
Ex-"guna": - Pronto. Agora é por ali. É só seguires em frente que vais lá dar.
Forasteiro: - Obrigado. Então boa-noite.

Fim de preconceito
Ex-"guna": - Boa-noite. Continuação.

07 dezembro, 2008


entre aspas

Capa de Chet Baker and Strings, a partir de fotografia de William Claxton

(...) Perguntamos a Joaquim Paulo se existe algo de particular na imagem gráfica dos discos de jazz que não tenha paralelo noutros géneros musicais. 'A fotografia. A relação dos fotógrafos com os músicos e com o jazz era especial. Os fotógrafos eram fãs, gostavam daquilo, eram quase 'groupies'. Era uma pequena família. Os fotógrafos de jazz de um certo período [anos 60] são extraordinários: William Claxton, Burt Goldblatt, Charles Stuart...'
(...)

Ípsilon (5.12.2008), Jazz para os Olhos, sobre Joaquim Paulo, autor de Jazz Covers (Taschen, 2008)

06 dezembro, 2008

revelar

© David Infante


Inaugurou ontem no Museu de Serralves a exposição BES Revelação, que na sua quarta edição reconheceu os trabalhos de David Infante, Mariana Silva e Nikolai Nekh. O júri de selecção foi composto por Bruno Marchand (curador independente), Pierre Muylle (curador no S. M. A. K., Gent, Bélgica), Ricardo Nicolau (Museu de Serralves) e Sandra Terdjeman (curadora e gestora de projectos na Kadist Art Foundation, Paris).
Tirando os conjuntos de fotografias a preto e branco apresentados por David Infante (Évora, 1982), os restantes projectos escolhidos são representativos do rumo das anteriores edições do prémio que distinguiu propostas que se socorrem de linguagens fotográficas que estão fora do que vulgarmente certificamos como objecto fotográfico.
Nikolai Nekh (Slavyansk-na-Kubani, Rússia, 1985) apresenta uma instalação que envolve sete imagens transformadas em formato postal e um vídeo. Nos "postais", devidamente engaiolados em expositores próprios, emerge a experiência pessoal dos lugares e a memória que deles se guarda ou não se guarda, como revela "a carta ao pai" também usada no conjunto. No vídeo Vento Branco, Nekh partiu de gravações familiares para desconstruir a realidade de acontecimentos pessoais valendo-se da edição (corte, escolha de velocidade).
Mariana Silva (Lisboa, 1983) concebeu um espaço onde o espectador pode escolher pequenos registos fílmicos do período pós-25 de Abril e manobrá-los em moviolas (aparelhos que projectam as imagens em pequenos ecrãs). Todos os filmes foram alterados de forma a que cada fotograma se sobreponha ao seguinte criando um efeito de ligeiro desconcerto e ilusão. O projecto propõe uma reflexão sobre a função documental da imagem e questiona o seu poder enquanto reduto privilegiado de arquivo da memória colectiva.
Fui convidado para escrever o texto sobre o trabalho que David Infante tem desenvolvido nos últimos anos. Para ler esse ensaio clique aqui

BES Revelação, David Infante, Mariana Silva e Nikolai Nekh
Museu de Serralves, Porto
Até 15 de Março, 2009

05 dezembro, 2008

mudança

Gail and Dale, Pacifica (I), 2007
© Katy Grannan


A Photographers' Gallery de Londres abre a sua nova morada no sábado, 16 - 18 Ramillies St., a dois minutos da paragem de metro de Oxford Circus.
Com a mudança de coordenadas, surgem também novas exposições, uma livraria renovada e os habituais espaços de venda de provas fotográficas contemporâneas e café.
A programação da nova temporada está aqui

04 dezembro, 2008

incentivar

Kumari & Anapayini, Alachua, 2006
© Michael Bühler-Rose

A última bolsa da Humble Arts Foundation (concedida duas vezes por ano, Primavera e Outono) foi atribuída ao americano Michael Bühler-Rose que submeteu a concurso um interessante trabalho de retrato que nos leva também o olhar para a elegância, harmonia e sumptuosidade dos saris com dobras a fazer lembrar a pintura clássica.
Ainda dentro da Humble Arts Foundation vale a pena passar pelo trabalho Nevada Rose, de Marc McAndrews.

O statement de Michael Bühler-Rose é este:

In my project Constructing the Exotic I look at the ideas and structures of exoticism by photographing the theatrical reality of Eastern-raised women in the West and the unique relationship they create with the Western landscape and conventions of exoticism within the history of painting. In continuing my practice, I am interested in looking further into the political structures inherent within historical works.

Beyond the beauty of the Dutch Still-life lays the evidence of Dutch colonial power: its imports of exotic spices and goods from India. You can currently purchase any of these Indian imports, plus anything else you can find in the streets of Delhi, Mumbai, Kolkata, or Chennai, in the 'Little India' sections of various major cities of the world. This new project 'Little Indian Still-lifes' will feature a mixture of contemporary and traditional items purchased in these 'Little Indias', including Bollywood videos; Indian fruits, vegetables and flowers; cloth; lamps; betel nuts; magazines; posters; books; jewelry; and cooking utensils, among other items.

The photographs will reference the lighting, compositions, and scale of the Dutch still-life tradition in order to create an aesthetic experience of near recognition while still allowing disorienting puncture points to come through. Although visually similar to the Dutch still-life, these pictures do not evidence Western colonial power but rather a reverse of power, of India settling the West.

dar a ver

(© PowerHouseBooks)


A editora PowerHouse Books, de Brooklyn, Nova Iorque, está a organizar a sua quinta análise crítica de portfolios, uma iniciativa dirigida a fotógrafos emergentes e a nomes já firmados. Um painel alargado que envolve críticos, editores, galeristas e fotógrafos vai analisar dezenas de trabalhos para lhes dar um enquadramento e dirigi-los para áreas específicas.
O Annual powerHouse Portfolio Review dura apenas um dia e acontecerá em Fevereiro de 2009 na PowerHouse Arena, em Brooklyn. Cada portfolio será visto por cinco críticos individualmente. As inscrições são limitadas e podem ser feitas aqui

02 dezembro, 2008

=ColecçãoàVista= 1

Desde a última remodelação do Público que o P2 divulga, todos os dias, um texto e uma imagem referentes às colecções de museus e instituições públicas nacionais. Algumas destas peças são facilmente reconhecíveis porque fazem parte das exposições permanentes, mas outras raramente foram vistas em público. Há cerca de um mês, chegou a vez da fotografia e da Colecção Pública de Fotografia que está à guarda do Centro Português de Fotografia. Este espólio começou a ser organizado (e comprado) em 1989 por iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura de então que pretendia assinalar os 150 anos do anúncio oficial da invenção do suporte fotográfico. Jorge Calado foi responsável pelas aquisições e comissariou uma exposição, em 1990, que reuniu 152 fotografias das 346 que até então tinham sido reunidas. São desse conjunto as imagens publicadas diariamente nas páginas de abertura do P2 e que o Arte Photographica reproduzirá também semanalmente a partir de hoje. Os textos são da responsabilidade do CPF.

(...) colecção pública não apenas no sentido ingénuo de estar aberta ao povo para visita, mas principalmente no sentido nobre do termo, de ter sido feita com o dinheiro de todos nós, e a todos pertencer. Colecções públicas são as do Estado e acabou. (...)

Jorge Calado, in 1839-1989 Um Ano Depois, SEC, 1990, Porto


Jorge Henriques, s/título, anos 1970
© Centro Português de Fotografia/DGARQ


Jorge Henriques (1912-1988) cresce na Lousã, conclui o liceu em Cernache de Bomjardim e entra para a Faculdade de Ciências de Coimbra, nos Preparatórios de Medicina. Tendo reprovado, é-lhe exigido pelo pai que regresse. Recusa tal imposição e vai para Lisboa trabalhar como funcionário público. Em 1943 vem prestar serviço para o Porto. No início dos anos 50 Henriques começa a fotografar. Tinha quase quarenta anos quando resolveu destinar as manhãs de domingos e feriados à actividade. Até ao meio-dia, percorria com a sua câmara o Porto ribeirinho. Procurou a autenticidade da cidade, tendo na mira o rio, o conjunto de mulheres e crianças, e a luz que rasga as suas fotografias. Soube aproveitar o efeito da contra luz para definição da imagem que queria colocar no seu cenário.
(texto: CPF)

Cuba - 50 anos

Girl in a brothel, Havana, Cuba, 1954
© Eve Arnold/Magnum


A Magnum organizou uma exposição em Londres para assinalar o 50º aniversário da Revolução cubana que se comemora no dia 1 de Janeiro de 2009. A mostra reúne provas vintage e contemporâneas do período pré-revolucionário captado por Eve Arnold, dos acontecimentos que destronaram o regime de Fulgencio Batista registados por Burt Glinn e dos principais protagonistas da Revolução (Fidel e Che) fixados por Rene Burri e Elliott Erwitt. Os trabalhos de Alex Webb, David Alan Harvey e Christopher Anderson mostram já o dia-a-dia cubano durante a liderança de Fidel Castro. E há ainda fotografias dos correspondentes Andrew Saint George e Bob Henriques, que a Magnum classifica como "rarely seen", dos avanços das tropas de Castro rumo a Havana.
O site da Magnum tem uma galeria com algumas imagens da exposição aqui


Cuba, 1998
© David Alan Harvey/Magnum


Cuba: 50 Years of Revolution
Magnum Print Room, Londres
Até 30 de Janeiro de 2009

26 novembro, 2008

Colecção BES sai do escuro

Thomas Struth, Shangai Panorama, 2002
© Thomas Struth/BESart – Colecção Banco Espírito Santo

Está feita a primeira grande apresentação pública da colecção de fotografia que o Banco Espírito Santo foi juntando ao longo dos últimos quatro anos. As comissárias espanholas María de Corral e Lorena Martínez de Corral escolheram cerca de 300 obras, entre mais de 450 trabalhos, que pretendem "contar o presente, e imaginar um hipotético futuro" através da produção fotográfica contemporânea que envolve mais de 150 artistas, que podem ser nomes consagrados ou valores emergentes. A mostra O Presente: Uma Dimensão Infinita, que ficará como uma das mais marcantes exposições de fotografia contemporânea alguma vez realizadas em Portugal, tem uma característica que a atravessa - a diversidade, característica fundamental da génese coleccionista que está na base deste conjunto que é uma boa amostra das últimas duas décadas de criação fotográfica em Portugal e no estrangeiro. Outra das boas surpresas é a confirmação de uma presença assinalável, em quantidade e qualidade, de autores portugueses ao longo dos vários núcleos expositivos. No texto de apresentação, as comissárias avisam que a divisão por temas "não pretende em absoluto classificar ou categorizar, mas apenas dar maior fluidez e clareza ao percurso". E acrescentam: "cada uma das oito secções gira à volta de certos traços, obsessões ou ideias comuns, estranhas afinidades ou encontros peculiares, independentemente da geografia e do enquadramento temporal". As salas vão-se sucedendo segundo os seguintes temas: Naturezas; Universos Privados; Retratos; Narrações; Ficções e Realidades; Sociedade e Vida Urbana; Conceitos, Ideias e Críticas; Espaços, Lugares, Objectos; Arquitecturas.

Hiroshi Sugimoto, Mechanical Forms, Worm Gear, 2004
© Hiroshi Sugimoto/BESart – Colecção Banco Espírito Santo


O Presente: Uma Dimensão Infinita, BESart Colecção Banco Espírito Santo
Museu Colecção Berardo, Centro Cultural de Belém, Lisboa

Até 25 de Janeiro

transições

Militar con cámara fotográfica, Xangai, China, 1979
© Manel Armengol

No final dos anos 70, à medida que cumpria a agenda de serviço com uma máquina carregada com película a cores, Manel Armengol (Badalona, 1949) sacava de vez em quando uma segunda câmara equipada com filme a preto e branco para um trabalho mais ousado e pessoal, capaz de o libertar dos requisitos cénicos do acontecimento que podia ou não tornar-se notícia. A necessidade de um outro olhar sobre a realidade que se deparava à sua frente foi tornando obrigatória esta "segunda" máquina, muito mais atenta às geometrias, aos silêncios, às sombras e aos reflexos. E foi sobretudo a partir deste registo que se revelaram ensaios sobre modos de estar, de sobreviver e de combater.
Transições, 70s em Espanha, China e Estados Unidos mostra três países em mudança social e política através de um olhar por vezes harmonioso e próximo, outras vezes mais contundente e distante. As 75 fotografias de Armengol escolhidas pela comissária Irene de Mendoza são um bom prenúncio para inauguração da actividade expositiva da Fundação Foto Colectania em Portugal. Convém sempre recordar - ou descobrir, como é o nosso caso - aqueles que ousaram fazer diferente aquilo que lhes estava destinado. Os que abriram caminho e se esforçaram para nos dar uma visão alternativa das coisas.


Te amo, Manhattan, EUA, 1978
© Manel Armengol



Transições, 70s em Espanha, China e Estados Unidos, de Manel Armengol
Arquivo Municipal de Lisboa/Arquivo Fotográfico
Rua da Palma, 246
Até 30 de Janeiro

24 novembro, 2008

ostentação

The Millionaire Fair, Crocus Expo International Exhibition Center, Moscovo, Rússia, 2007
© Martin Parr

Nos últimos anos, Martin Parr tem concentrado a objectiva e o flash para pessoas que gostam de ostentar os seus bens ou que adoram mostrar o quanto são ricos e famosos. As feiras de arte e os desfiles de moda são o tipo de acontecimento ideal para esta fogueira de vaidades e os locais onde o fotógrafo inglês mais tem procurado matéria-prima para o seu projecto. O The Art Newspaper contratou Parr para fotografar a última edição da Frieze Art Fair a partir deste olhar mordaz para a ostentação.
O fotógrafo da Magnum fala um pouco sobre este projecto aqui

Paris#8 (rescaldo no Público)

© Emmanuel Nguyen Ngoc/Paris Photo


O texto que escrevi para a edição impressa do Público acerca do rescaldo da participação japonesa na Paris Photo está aqui

23 novembro, 2008

EUA 70`

Garry Winogrand, Los Angeles, Califórnia, 1969
© The estate of Garry Winogrand, cortesia Fraenkel Gallery, San Francisco

Seventies, Le Choc de la Photographie Américaine é uma das mais fortes exposições do Mois de la Photo que está a decorrer em Paris. Construído a partir da colecção da Biblioteca Nacional de França - que tem mais de 3 mil fotografias provenientes dos EUA deste período -, o conjunto traça uma boa perspectiva do que foram estes anos de liberdade criativa e experimentações férteis. As provas de época estão divididas em seis sequências temáticas que não pretendem fazer historial cronológico, mas sim um percurso plástico indicador de tendências e escolhas dialogantes.

São elas:
Des Précurseurs;
L`influence du Snapshop;
Géométrie et espace;
Paysage;
Matière et Forme;
Le Miroir Obscur.

Para ver uma apresentação em vídeo da exposição feita pela comissária Anne Biroleau clique aqui

"I wanted Christina to learn some responsibilities for cleaning her room, but didn`t work", da série Suburbia, 1971
© Bill Owens

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Edward Steichen, visitantes da exposição The Family of Man, Moscovo, 1959

»»Alexandra Libânio sugere uma visita à exposição Archivo universal. La condición del documento y la utopía fotográfica moderna, patente no Museu d`Art Contemporani de Barcelona. A mostra, centrada na noção de documento ao longo da história da fotografia, está dividida em duas partes: a primeira apresenta alguns dos principais debates sobre o documento fotográfico no período moderno, entre 1850 e 1980; a segunda foca este debate na trajectória histórica de Barcelona, aqui entendida como caso específico de estudo.
Depois de Barcelona, a exposição viaja até Lisboa, para o Museu Colecção Berardo (09.03.2009 a 03.05.2009).

O texto de apresentação da exposição está aqui

21 novembro, 2008

/uma fotografia, um nome\

Manuel Valente Alves, Le temps retrouvé
© Manuel Valente Alves

Fotografar não é apenas “o acto fotográfico” como quer Philippe Dubois. É também o depois, o muito depois: seleccionar, escolher o suporte e, cada vez mais, cortar, manipular. Porque é este hoje o tempo da fotografia e, como nós, a imagem não se quer imutável.

Mas no acto fotográfico há ainda o enorme “antes”, mais ou menos atento, mais ou menos denso. Faz-se uma imagem porque sim, porque se tem uma câmara ou porque cá dentro tudo se conjuga e a síntese parece estar ali, naquele momento. E a imagem, esta ou aquela, trazem consigo um pouco do mundo irredutível à captação.

Manuel Valente Alves habituou-nos à solidez do seu conceptualismo; por vezes militante, extremamente conceptualizado ou minimalista, obrigando a libertar o olhar da forma e procurando o sentido. Uma chamada de atenção para o nosso descontentamento ou uma hipótese de descoberta de uma cultura que abandonara a natureza do mundo. Vindo da pintura, recusou as gavetas do estilo e definiu os recursos das artes como um código de pesquisa e decifração.

Mas num pintor, o que faz a sublimação das pulsões pode ser a cor. E é com o olhar de pintor que Manuel Valente Alves construiu esta imagem. Os azuis são quase impressionistas porque a refracção do ar os liquefaz, mas a intensidade ambígua do céu e os reflexos amarelos da luz fazem lembrar a intemperança de William Blake: estes vultos indeterminados seguem em frente inconscientes do abismo. O céu deste entardecer tem a cor de uma estação que envelhece.

O que a fotografia nos diz é muito do que queremos ver.

A composição fotográfica, definindo um espaço cénico, pode ser como o espelho de Alice, a vida é aí que reside, tão arbitrária ou louca como a que deixou para trás. Não interessa a ausência, a nossa recusa do realismo perfeito, o selo do pretérito que a qualifica. Com ou sem perspectiva cónica nós entramos no espelho, seguimos o anzol do enigma. Somos, para a imagem, o seu mundo invisível, mas também o caçador que persegue a presa. E aí o suporte deixa de interessar, papel ou digital, uma parede, um livro ou um ecrã, a imagem é o jardim secreto dos nossos sustos ou das nossas memórias.

Nem mesmo a fixidez da imagem pode esconder a vida que a anima, o movimento que suspendeu. Nem a (calculada) distância percorrida, abrindo um espaço de sedução entre nós e os ciclistas que rodam, lhe retira a realidade. A composição e o enquadramento que são o seu autor – e que nos dão o passaporte para a descoberta e a empatia – abrem uma totalidade enfeitada de detalhes onde nos procuramos: a fotografia é, antes de tudo um modo de existência, está ali porque o acontecer esteve ali.

Mas construir um jardim secreto é um recurso à poesia e à ilusão perceptiva, do fotógrafo e do observador. O perigo é a contemplação, que não faz mal a ninguém, mas que nos tira a liberdade do olhar.

Maria do Carmo Serén

Manuel Valente Alves é médico, professor, editor e fotógrafo.
Dirige o Museu de Medicina da F.M./U.L. e programou em colóquios e encontros (ex. O Impulso Alegórico) a relação arte e Medicina

20 novembro, 2008

debater

© Rita Barros, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa


O ciclo de debates ArteCapital na Arte Lisboa deste ano abre com um painel que discutirá O Coleccionismo de Fotografia no Mercado Ibérico (19h00).
Moderadora: Filipa Valladares (Fundación Foto Colectania)
Convidados: Bruno Santos (fotógrafo e professor); Mário Teixeira da Silva (coleccionador e galerista), Margarida Medeiros (crítica e professora universitária), Norberto Doctor (galerista, Madrid).

19 novembro, 2008

toda a LIFE online

Alfred Eisenstaedt, The Parisians, Parc de Montsouris, Paris, 1963
© Time Inc.

WOW! É de ficar de boca aberta: o Google vai disponibilizar online todo o arquivo da LIFE. São só 10 milhões de imagens, das quais 97 por cento nunca foram vistas pelo comum dos mortais. Para já, apenas 20 por cento do arquivo está digitalizado, mas o Google promete libertar o resto "nos próximos meses".

A viagem começa aqui

Banier no Estoril

© François-Marie Banier


François-Marie Banier expõe pela primeira vez em Portugal a convite do Estoril Film Festival 08. A mostra, que tem o retrato como protagonista, poderá ser vista apenas durante as datas do festival, até ao dia 22.


Todo o retrato, quando vou de encontro ao sujeito com a máquina, responde a uma única exigência: a vida em si mesma. Implica o registo da emoção que fez o meu coração faltar um batimento, ao ter contacto com um rosto, um traço, um mistério no movimento: numa palavra, humanidade. Cada retrato é um caso de amor instantâneo, independentemente do sujeito. É um violento grito de paixão, mesmo se o botão onde fixo a imagem faz o mais pequeno sussurro do bater de asas de um insecto. O melhor disparo é quase sempre o primeiro. Ou o último. Quando já dissemos adeus, mas de repente uma iluminação repentina me faz voltar a um piscar de olhos, ou um ângulo que me tinha escapado à primeira. Cada retrato é uma fonte de esperança, de paixão, de experiências que não podem ser reveladas por palavras. Só um olhar, uma expressão, um encolher de ombros podem dizer: 'é aqui que estou neste momento'. Não pode haver retrato sem um elemento surpresa, para ambos: sujeito e fotógrafo. Não há retrato sem revelação. Não há retrato sem alegria, raiva, sem questionamento. Não há retrato sem si, o Outro, o meu modelo.

François-Marie Banier, 21.2.2008

>Post relacionado
>>(Direitos)

18 novembro, 2008

Paris#7 (notas atrasadas)

Lee Miller, Women with Fire Masks, Downshire Hill, Londres, 1941
© Lee Miller Archives

**É possível ir a Paris sem tirar uma única fotografia? É.

**Há quem duvide da existência de uma "escola de Düsseldorf" da fotografia. As catalogações são sempre redutoras e formadoras de equívocos, mas o certo é que um grupo alargado de artistas que a frequentaram, guiados pela nova objectividade, se destacou no panorama artístico contemporâneo formando um corpo de trabalho que, apesar de muito diversificado na forma e no conteúdo, partilha a mesma filiação estética, as mesmas orientações criativas - a do arquivo e a da tipificação. E isto é capaz de ser uma "escola". A exposição Objectivités, que junta professores e alunos da Kunstakademie de Düsseldorf, é uma das propostas mais interessantes da programação do Mois de la Photo. Foi publicado um catálogo que se reveste de particular importância para compreender a produção fotográfica actual.

**Uma rapariga fotografava outra rapariga de ar acabrunhado e cabelo colado à cara pela chuva miudinha. Cenário escolhido: uma fotografia de publicidade a um perfume francês. Aposto que ela não gostou de se ver. O ficheiro deve ter sido apagado.

**Nos 70` americanos fotografou-se com despudor, criatividade e ilusão. Já vimos muitas das imagens que foram escolhidas para a exposição sobre fotografia americana deste período, patente na Biblioteca Nacional de França. Mas o que emociona nunca cansa. E para lá da emoção do reencontro, há a emoção da descoberta pessoal, como a que fiz de Louis Faurer e Bruce Gilden.

**Garry Winogrand: I photograph to find out what something looks like when photographed.

**Parecia uma barata tonta ali para os lados da Bastilha à procura da rua Jules-Cousin. Perguntei a um farmacêutico, a um jornaleiro e a mais meia dúzia de pessoas com cara de quem fosse capaz de me apontar o dedo da direcção certa. Nada, nem um. Depois de meia hora à deriva, desisti. Ou quase: no metro espreitei o mapa outra vez. Zero. Arrisquei mais uma pergunta, a última. A mulher, que notou o sotaque estrangeirado, sorriu, sacou um guia de ruas da mala, seguiu as coordenadas e com um sotaque britânico carregado deu-me as indicações que me levariam à Galeria Vu (uma inglesa a orientar-me em Paris!). Subi à superfície outra vez, andei os quarteirões que precisava e… bati com o nariz na porta quando o programa garantia o contrário. Atrás de mim, duas italianas que vinham ao mesmo entoaram de rajada 10 palavras por segundo. Aí umas 9 deviam ser asneiras, pragas e amaldiçoamentos. À minha conta, os senhores da Vu também devem ter ficado com as orelhas a arder.

**Na Maison Européenne de la Photographie a bicha para entrar chegava à rua. Sabine Weiss apresenta um trabalho de fotojornalismo clássico que inclui uma dúzia de fotografias de Portugal dos anos 50 e 80. Parei algum tempo à frente de uma imagem da Baixa de Lisboa onde uma mulher com um cesto de flores à cabeça corre para o outro lado da estrada, talvez em direcção à Praça do Rossio, onde as rosas e os malmequeres já reinaram. MacDermott & MacGough andam fascinados pelos antigos processos fotográficos (cianotipia, papel salgado...) mas não se deixaram enredar pela armadilha arqueológica. An Experience of Amusing Chemistry é um olhar delicado, actual e criativo para as antigas maneiras de ver. No fotojornalismo, destaque também para a obra do turco Göksin Sipahioglu, mítico fundador da agência Sipa.

**Na rua Gosciny as indicações aparecem em balões de banda de desenhada e letra de brincar. Nos postes e no chão. Parece que estamos dentro dos quadradinhos a disparar mais rápido do que Lucky Luke. Pum! Morri.

**Alguém me pode explicar por que é que o Metro de Lisboa nos obriga a sacar do bilhete sempre que queremos sair de uma estação? Em Paris, e na generalidade das cidades com metro, as portas abrem-se e já está.

**Desilusão máxima: Expérimentations Photographiques en Europe des Anées 20 à Nos Jours. Não há aqui um retrato das experimentações fotográficas coisa nenhuma. O que há é um percurso metido à pressão por meia dúzia de salas onde aparecem artistas avant-garde que usaram a fotografia como suporte.

**Desilusão mínima: Gabriele Basilico, Moscou Verticale. Esta aposta na vertigem pela monumentalidade pode não resultar muito bem e pode até transformar-se na visão de um turista embriagado. Basilico deslumbrou-se até à miopia com a grandeza dos mastodontes arquitectónicos do antigo império russo ou então bebeu uns copitos de vodka a mais.

**O melhor, ao vivo e a preto e branco: Philip Jones Griffiths, Recollections.

**A surpresa, ao vivo e a cores: Reiner Riedler, Fake Holidays.

**O que não vi e gostava de ter visto: John Bulmer, Hard Sixties, l´Angleterre post-industrielle; Nathan Lerner, L`héritage du Bauhaus à Chicago; Xavier Lambours, XElles27; Werner Bischof, Images d`Après-guerre; Jackie Nickerson, Faith; Joakim Eskildsen, Voyages chez les Roms; Miguel Rio Branco, Photos Volées; Pierre Verger, L`Espagne Prémonitoire; Sarah Moon, 1-2-3-4-5; Henri Cartier-Bresson e Walker Evans, Photographier l`Amérique, 1929-1947.

**No Jeu de paume, logo de manhã, há casa cheia. Lee Miller é rainha - pelas fotografias que tirou, pelas fotografias que lhe tiraram.

**Em frente ao Centro Cultural Sueco, onde vi fotografias de Lars Tunbjörk, há um pequeno jardim onde apetece ficar muito tempo. As folhas começaram a cair e os tons de castanho parecem infinitos. O trabalho de Tunbjörk é uma imitação esforçada da crítica consumista de Martin Parr, mas não passa disso. É das heras a ganhar terreno às paredes que me vou lembrar.

17 novembro, 2008

Buñuel no Estoril

Na rua de San Juan de Létran, na Cidade do México, que aparece em Los Olvidados, o primeiro filme de Buñuel no México
© Luís Buñuel


México pela câmara (fotográfica) de Luis Buñuel

Alexandra Prado Coelho
(P2, Público, 15.11.2008)

Para Luis Buñuel, provavelmente não representavam muito mais do que imagens de cenários para os seus filmes. Mas, 25 anos depois da morte do realizador, as fotografias que tirou no México, nos locais onde depois filmou, tornam-se elas próprias objecto de exposição. São cerca de 80 fotografias - que podem ser vistas durante o Estoril Film Festival, entre hoje e o próximo dia 22 - que o realizador, nascido em Espanha mas naturalizado mexicano, tirou durante a preparação e rodagem de 12 dos 20 filmes que fez no país onde viveu quatro décadas e acabaria por morrer, em 1983.

As imagens revelam, explica a comissária Elena Cervera no texto de apresentação, um aspecto menos conhecido da obra de Buñuel e permitem-nos "contemplar um México distante do turístico" e de "qualquer pretensão esteticista".

Uma rua larga, com pouca gente, sol, um homem em primeiro plano com um chapéu preto e jornais às costas (Los Olvidados); velhas casas com arcadas por onde passa um mexicano levando dois burros (fazenda de San Francisco de Cuadra, de Abismos de Pásion); um rio, entre palmeiras, com uma velha ponte (de El Rio y la Muerte); o palacete de El Ángel Exterminador.

A exposição está organizada de forma a que junto de cada imagem surja o fotograma equivalente no filme a que corresponde. Algumas fotografias terão sido tiradas exactamente no local onde Buñuel pôs depois a câmara de filmar; outras têm apenas a preocupação de registar um espaço e um ambiente.

"Durante quatro ou cinco meses, geralmente sozinho, dediquei-me a percorrer as cidades perdidas, quer dizer, os arredores improvisados, muito pobres, que rodeiam a Cidade do México. Algo disfarçado, vestido com roupas velhas. Olhava, escutava, fazia perguntas, fazia amizade com toda a gente", contou Buñuel na sua autobiografia O Último Suspiro. Durante esses passeios, fotografava.

As imagens chegaram à Filmoteca Española, numa caixa de cartão, classificadas em 73 grupos, com formatos e papéis diferentes - o que é natural, segundo a comissária, porque entre o primeiro filme que o realizador fez no México, Los Olvidados (1950), e o último, Simón del Deserto, passaram-se 15 anos. Para assinalar os 25 anos da morte de Buñuel, o Estoril Film Festival mostra também O Último Guião, documentário de Javier Espada e Gaizka Urresti, que inclui, além de material inédito do cineasta, uma sessão de filmagens no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, onde Buñuel trabalhou quando chegou aos EUA.

14 novembro, 2008

Paris#6 (notas)



Bert Teunissen, On the Road - A Domestic Landscapes Travelog, 2008
© Bert Teunissen, cortesia L. Van Paddenburgh

**Já chove. Os franceses andam com medo das sabotagens nas linhas do TGV. A fotografia de Ségolène Royal reaparece outra vez nos jornais como possível candidata dos socialistas para tentar derrotar Sarkozy em 2012.

**É constrangedora a inexistência de uma representação portuguesa, por mínima que fosse. As únicas excepções vão para Edgar Martins, com fotografias à venda na editora americana Aperture, na Paris Photo, e para Vasco Araújo, que faz parte da programação oficial do Mois de la Photo, no Jeu de paume. Tudo o resto são fugachos de olhares de fora: Antoni Muntadas (Doble Exposure), com duplas paisagens urbanas de Lisboa e Bogotá expostas no mesmo de negativo, na galeria espanhola Moises Perez de Albeniz; e duas imagens soberbas (Portugal, Woman; Portugal, Men) que o americano Ray K. Metzker captou em Lisboa, em 1961.

**Há uma meia dúzia de galerias com fotografia do século XIX na feira, mas, tirando as gueixas retocadas à mão com vermelhos e azuis fortes, não se nota uma grande aposta na fotografia antiga.

**O vencedor do prémio BMW Paris Photo, Yao lu, vende que se farta. E os fotógrafos da China também. A 798 Photo Galery, a única galeria chinesa, não tem mãos a medir. É só bolinhas vermelhas por baixo das fotografias.

**Muitos fotógrafos japoneses vieram com as galerias e editoras do seu país, mas, pelo que se vê na feira, há muito que as galerias do Ocidente encontraram esta pérola asiática da fotografia. Nobuyoshi Araki e Daido Moriyama estão representados em boa parte delas.

**O antigo avançado francês do Manchester United Eric Cantona gosta de fotografia. Da Paris Photo saiu com duas molduras de baixo do braço. Já estavam embaladas com plásticos de bolinhas para rebentar com os dedos, mas deu para perceber que eram a preto e branco.

**Para além de livros de fotografia excepcionais, os japoneses têm os óculos mais bonitos do mundo. A governadora do Alaska e ex-candidata republicana à Casa Branca Sarah Palin já percebeu isso e encomendou um par deles, mas parece que quem ficou a ganhar foi só quem os desenhou. Ainda Bem.

**Teoria pessimamente mal comprovada do ponto de vista científico: a capacidade humana para ver com atenção imagens fotográficas é finita e não vai para além das 2 horas, 39 minutos e 4 segundos.

**A livraria Dennis Ozane, especializada em livros antigos de fotografia, tem à venda quatro títulos portugueses: Lisboa, Cidade Triste e Alegre; Portugal, Terra de Vinho; Angola, 1961-1963; Portugal, SNI.

**No Carrousel do Louvre o café esgotou. Já as rolhas das garrafas de champagne saltaram durante toda a tarde.

Paris#5 (prémio)

Yao lu, New Landscape part 1 – YL01 Ancient Spring-time Fey, 2006


O prémio BMW Paris Photo deste ano (12 mil euros) foi atribuído ao chinês Yao lu, pelo trabalho New Landscape part 1 – YL01 Ancient Spring-time Fey.
Foram galardoados com menções honrosas o sueco J. H. Engström, o japonês Nobuhiro Fukumi e o norte-americano Andrew Bush. O tema proposto era Never Stand Still.

Paris#4 (o Japão e o livros)


As prateleiras dos cinco editores japoneses convidados são os espaços mais concorridos do Carrousel. Percebe-se bem porquê. Já tinha ouvido falar muito dos livros de fotografia japoneses. Mas nunca tinha sentido desta maneira e tantas vezes a intensidade que a escolha de um tipo de papel ou o desenho de um livro podem transmitir. Não é que alguma vez tivesse duvidado do que me foram segredando. O certo é que hoje pude confirmar a delícia e o privilégio que é ficar, por exemplo, com o livro de Tamotsu Fuji (Araki, luz) nas mãos, ou o de Yasumasa Morimura que ainda vou descobrir por que é que se chama Barco Negro na Mesa, assim mesmo, em português.
Não há muitos países no mundo onde as revistas e os livros joguem um papel tão importante para a fotografia. No catálogo, Mariko Takeuchi, comissária da representação nipónica, relaciona este enamoramento com a falta de um esquema de galerias ou um mercado organizado de venda de fotografia. E fala também na longa tradição japonesa nos métodos de impressão em papel que conheceu a sua época dourada durante o período Edo (1603-1867).

As editoras e livrarias japonesas no Paris Photo são estas:
»»Akaaka Art Publishing
»»Little More
»»Book Shop M
»»Seigensha Art Publishing
»»Tosei-Sha

Paris#3 (notas)

Asako Narahashi, Kawaguchiko, da série half awake and half asleep in the water, 2003
© Asako Narahashi, Cortesia galeria Priska Pasquer, Colónia


** Quem anda pela cidade não sente que este é o mês em que Paris se torna o centro do mundo na fotografia. A constelação trazida pelas galerias mais destacadas e a maior armada fotográfica japonesa alguma vez vista na Europa mereciam outra visibilidade para lá dos andares subterrâneos do Louvre.*

** As revistas fotográficas digitais quase não têm representação na feira. A honra do convento é salva pelo portal de fotografia berlinense Photography Now. Em contrapartida, as revistas de fotografia em papel tem uma representação de peso e parecem que não param de aparecer novos títulos.*

** No espaço da Simon Finch Rare Books (Reino Unido) a distinção para o livro mais caro pertencia a Les Joux de la Poupe, com fotografias de Hans Bellmer e textos de Paul Éluard (62,500 euros); a primeira edição de The Americans, de Robert Frank, estava a seguir (15,000).*

Paris#2 (abertura)

Kim Joon, Bird Land – Swarovski, 2008
© Cortesia Keumsan Gallery, Seul


A festa de apresentação da Paris Photo aconteceu na quarta à noite no Carrousel du Louvre. Enquanto uns festejavam outros davam os últimos retoques nos trabalhos a expor (por que raio é que nestas ocasiões arranjam sempre uns “happenings” manhosos…).
O resumo em vídeo da festa está aqui

13 novembro, 2008

Paris#1

Keisuke Shirota, A Sense of Distace #33, 2008
© Keisuke Shirota, cortesia Base Gallery, Tóquio


Em japonês fotografia diz-se shashin - reproduzir (sha) a verdade (shin).
Do pouco que vi hoje, a verdade está longe, se é que alguma vez se conseguiu chegar perto dela.




 
free web page hit counter