Lee Miller, Women with Fire Masks, Downshire Hill, Londres, 1941
© Lee Miller Archives **É possível ir a Paris sem tirar uma única fotografia? É.
**Há quem duvide da existência de uma "escola de Düsseldorf" da fotografia. As catalogações são sempre redutoras e formadoras de equívocos, mas o certo é que um grupo alargado de artistas que a frequentaram, guiados pela nova objectividade, se destacou no panorama artístico contemporâneo formando um corpo de trabalho que, apesar de muito diversificado na forma e no conteúdo, partilha a mesma filiação estética, as mesmas orientações criativas - a do arquivo e a da tipificação. E isto é capaz de ser uma "escola". A exposição
Objectivités, que junta professores e alunos da Kunstakademie de Düsseldorf, é uma das propostas mais interessantes da programação do
Mois de la Photo. Foi publicado um catálogo que se reveste de particular importância para compreender a produção fotográfica actual.
**Uma rapariga fotografava outra rapariga de ar acabrunhado e cabelo colado à cara pela chuva miudinha. Cenário escolhido: uma fotografia de publicidade a um perfume francês. Aposto que ela não gostou de se ver. O ficheiro deve ter sido apagado.
**Nos 70` americanos fotografou-se com despudor, criatividade e ilusão. Já vimos muitas das imagens que foram escolhidas para a exposição sobre fotografia americana deste período, patente na Biblioteca Nacional de França. Mas o que emociona nunca cansa. E para lá da emoção do reencontro, há a emoção da descoberta pessoal, como a que fiz de
Louis Faurer e
Bruce Gilden.
**Garry Winogrand:
I photograph to find out what something looks like when photographed.
**Parecia uma barata tonta ali para os lados da Bastilha à procura da rua Jules-Cousin. Perguntei a um farmacêutico, a um jornaleiro e a mais meia dúzia de pessoas com cara de quem fosse capaz de me apontar o dedo da direcção certa. Nada, nem um. Depois de meia hora à deriva, desisti. Ou quase: no metro espreitei o mapa outra vez. Zero. Arrisquei mais uma pergunta, a última. A mulher, que notou o sotaque estrangeirado, sorriu, sacou um guia de ruas da mala, seguiu as coordenadas e com um sotaque britânico carregado deu-me as indicações que me levariam à
Galeria Vu (uma inglesa a orientar-me em Paris!). Subi à superfície outra vez, andei os quarteirões que precisava e… bati com o nariz na porta quando o programa garantia o contrário. Atrás de mim, duas italianas que vinham ao mesmo entoaram de rajada 10 palavras por segundo. Aí umas 9 deviam ser asneiras, pragas e amaldiçoamentos. À minha conta, os senhores da Vu também devem ter ficado com as orelhas a arder.
**Na
Maison Européenne de la Photographie a bicha para entrar chegava à rua.
Sabine Weiss apresenta um trabalho de fotojornalismo clássico que inclui uma dúzia de fotografias de Portugal dos anos 50 e 80. Parei algum tempo à frente de uma imagem da Baixa de Lisboa onde uma mulher com um cesto de flores à cabeça corre para o outro lado da estrada, talvez em direcção à Praça do Rossio, onde as rosas e os malmequeres já reinaram.
MacDermott & MacGough andam fascinados pelos antigos processos fotográficos (cianotipia, papel salgado...) mas não se deixaram enredar pela armadilha arqueológica.
An Experience of Amusing Chemistry é um olhar delicado, actual e criativo para as antigas maneiras de ver. No fotojornalismo, destaque também para a obra do turco
Göksin Sipahioglu, mítico fundador da agência Sipa.
**Na rua Gosciny as indicações aparecem em balões de banda de desenhada e letra de brincar. Nos postes e no chão. Parece que estamos dentro dos quadradinhos a disparar mais rápido do que
Lucky Luke. Pum! Morri.
**Alguém me pode explicar por que é que o Metro de Lisboa nos obriga a sacar do bilhete sempre que queremos sair de uma estação? Em Paris, e na generalidade das cidades com metro, as portas abrem-se e já está.
**Desilusão máxima:
Expérimentations Photographiques en Europe des Anées 20 à Nos Jours. Não há aqui um retrato das experimentações fotográficas coisa nenhuma. O que há é um percurso metido à pressão por meia dúzia de salas onde aparecem artistas
avant-garde que usaram a fotografia como suporte.
**Desilusão mínima:
Gabriele Basilico, Moscou Verticale. Esta aposta na vertigem pela monumentalidade pode não resultar muito bem e pode até transformar-se na visão de um turista embriagado.
Basilico deslumbrou-se até à miopia com a grandeza dos mastodontes arquitectónicos do antigo império russo ou então bebeu uns copitos de vodka a mais.
**O melhor, ao vivo e a preto e branco:
Philip Jones Griffiths,
Recollections.
**A surpresa, ao vivo e a cores:
Reiner Riedler,
Fake Holidays.
**O que não vi e gostava de ter visto:
John Bulmer,
Hard Sixties, l´Angleterre post-industrielle;
Nathan Lerner,
L`héritage du Bauhaus à Chicago;
Xavier Lambours,
XElles27;
Werner Bischof,
Images d`Après-guerre;
Jackie Nickerson,
Faith;
Joakim Eskildsen,
Voyages chez les Roms;
Miguel Rio Branco,
Photos Volées;
Pierre Verger,
L`Espagne Prémonitoire;
Sarah Moon,
1-2-3-4-5;
Henri Cartier-Bresson e Walker Evans,
Photographier l`Amérique, 1929-1947.
**No
Jeu de paume, logo de manhã, há casa cheia.
Lee Miller é rainha - pelas fotografias que tirou, pelas fotografias que lhe tiraram.
**Em frente ao Centro Cultural Sueco, onde vi fotografias de
Lars Tunbjörk, há um pequeno jardim onde apetece ficar muito tempo. As folhas começaram a cair e os tons de castanho parecem infinitos. O trabalho de Tunbjörk é uma imitação esforçada da crítica consumista de Martin Parr, mas não passa disso. É das heras a ganhar terreno às paredes que me vou lembrar.