Blow Up, Hampstead Heath, 1965(© João Cutileiro) Em parte, a culpa foi da rebarbadora que ao moldar a pedra mármore atirou para o ar milhões de partículas de pó. Mesmo quando se mudou para uma casa maior, em Évora, o escultor
João Cutileiro não se conseguiu livrar do pó. E não havia maneira de fazer a “necessária desinfecção” para entrar na câmara escura livre da nuvem de poeira branca e fina que se entranhava na mais ínfima ranhura. Cobria-lhe o corpo e a roupa. Nessa altura, para Cutileiro tirar fotografias era “fácil”, “revelar e imprimir” é que era “um horror” porque no papel fotográfico vinham sempre impressas as marcas do escultor e da escultura na pedra – os minúsculos grãos de pó.
O corpo coberto de pó é a imagem que temos do mestre. O pó ganhou a batalha. E a fotografia foi ficando pelo caminho. Os líquidos a apodrecerem nos tanques da câmara escura. O pó ganhou a batalha, mas João Cutileiro escultor nunca deixou de ser fotógrafo – de esculturas e de retratos dos que o rodearam ao longo dos últimos 60 anos.
Ainda que de forma intermitente, o resultado desse labor dedicado à imagem fotográfica foi sendo mostrado em público, pelo menos desde o início dos anos 60. Às vezes em complemento de exposições de escultura, outras como criação solitária sempre voltada para o rosto e para o corpo. Desafiado pelo crítico de arte Alexandre Pomar, João Cutileiro decidiu agora revelar um conjunto de fotografias
vintage, boa parte das quais inéditas e provas únicas (alguns negativos perderam-se num armazém em Londres), na galeria de fotografia e casa de leilões Potássio 4, em Lisboa. A mostra, que será inaugurada no dia 9, antecede um leilão de 30 lotes, agendado para o dia 23, cuja receita reverterá a favor da Abraço, a associação de apoio a pessoas infectadas com VIH/Sida.
O género que mais fascina Cutileiro na fotografia é o retrato, com rosto ou sem ele, com roupa ou sem ela. Na exposição que vai abrir portas, que recupera imagens captadas em Inglaterra e em Portugal durante os anos 50, 60 e 70 e impressas pelo autor, não há grandes derivações. Revelam-se corpos ora em pose assumida e ambientes íntimos, ora em
flirt a espreitar pelo buraco da fechadura. Em
Blow Up (Hampstead Heath, 1965), Cutileiro lembra esse papel do fotógrafo como um caçador implacável a “roubar” imagens a casais incógnitos que rebolam abraçados pelos jardins. Na longa sequência
La Grande Stripteaseuse (Londres, 1966) revela-se a cumplicidade entre retratista e retratado e mistura-se sensualidade com uma certa
joie de vivre.
Para Alexandre Pomar, a exposição da Potássio 4 vai surpreender porque esta faceta de João Cutileiro fotógrafo “não é conhecida ou foi esquecida”. Em declarações ao P2, o crítico sublinha a qualidade dos retratos do escultor, muito “originais e frescos” para a época em que foram captados. Pomar salienta ainda uma forte presença do corpo feminino nestas imagens, consequência directa da bagagem que traz da escultura, onde as curvas da mulher são presença constante. “Estas fotografias de corpos são esculturas. Ele fez estas imagens com um olhar de escultor.”
Se por um lado, a escultura foi uma das razões que fizeram com que o trabalho de João Cutileiro na fotografia não fosse mais “regular”, por outro foi muito por causa dela que começou a pegar em máquinas fotográficas, quando era estudante na Slade School of Arts de Londres. “As esculturas não viajam. Convinha fotografá-las, fosse para os relatórios de fim de ano, fosse para o que fosse eu precisava de tirar fotografias”, disse ao P2 por telefone.
Podiam ser só simples registos documentais de peças esculpidas para trabalhos académicos, mas o certo é que essas imagens geraram cobiça entre os outros estudantes. Já havia quem fizesse esse trabalho, mas Cutileiro baixou o preço e tornou-se no fotógrafo oficial dos aspirantes a escultores. Com o dinheiro veio uma Rolleiflex em segunda mão que “uns belos anos” mais tarde foi emprestada ao neurologista António Damásio e nunca mais foi devolvida (“espero que ele leia isto”, ri-se Cutileiro). “Nos primórdios, em Londres, por causa da minha necessidade de sobrevivência, a fotografia foi uma muleta enorme, direi mesmo uma cadeirinha de rodas”, revela o escultor.
Depois dessa fase em que se serviu da fotografia de uma forma “utilitária”, e quando ainda faltavam alguns frames para acabar os rolos de 12 exposições, o escultor começou a fotografar os filhos dos amigos, muito mais velhos, que lhe pediam várias cópias para mandar para a família. Foram as últimas imagens com as quais ganhou dinheiro, no princípio da década de 70. A partir daí, passou a convidar amigos a posarem para sua câmara, apenas por prazer.
A propósito desta exposição, Alexandre Pomar escreve no seu blogue: "Cutileiro é um dos nomes certos da revolução fotográfica dos anos 50 e um dos poucos, um dos primeiros, que nesse tempo mostrou publicamente as suas fotografias”. Para além do escultor, apenas Fernando Lemos e a dupla Victor Palla/Costa Martins tinham mostrado fotografias em exposições individuais de galeria, lembra Pomar. Contudo, João Cutileiro não se sente parte desse grupo, não tanto pelo estilo mas mais pela distância geográfica: “eu estava em Londres e eles estavam cá e isso fazia com que eu estivesse muito à margem das preocupações deles”.
Durante anos a fio ligado à fotografia analógica, Cutileiro é hoje um defensor acérrimo da imagem digital e vai tirando partido de uma ou outra brincadeira técnica. “Como eu estou velho, podre e perro, em vez de me baixar, rodo o visor e tenho a imagem do que os meus joelhos vêem. Sinto-me à vontade no universo da fotografia digital”. O aviso não podia ser mais claro: “no futuro, nunca mais ninguém vai querer fotografar em suporte analógico. Está morto e enterrado”.
Sérgio B. Gomes(P2, Público, 1.10.2008
)Alexandre Pomar fala sobre a exposição e sobre o percurso de
João Cutileiro na fotografia
aquiJoão Cutileiro, Vintage nudes from the 60s and the 70sGaleria Potássio 4, R. dos Navegantes, 16, Lisboa
Exposição: de
9 a
23 de Outubro
Leilão:
23 de Outubro, às 09h00