“O documental é um caso grave na significação fotográfica contemporânea. Até aos anos 50 era tudo fácil, arrastava-se com gosto a interpretação positivista: uma perspectiva que olha para fora, de reportagem, partidária mas colectiva. Perdera-se a reflexão sobre a não coincidência do olho humano com a câmara que punha em causa o naturalismo e passara-se a aceitar alegremente a verosimilhança da imagem.
A fenomenologia, dando predomínio no conhecer à consciência e, de certo modo, o uso vulgar da teoria psicológica do Gestalt, com o seu jogo de interpenetração de forma e fundo, abalaram a dualidade sujeito-objecto e trouxeram a primeiro plano o papel do sujeito. É um sujeito que revela o outro nas suas percepções, antagoniza o mundo e o que observa, expressando-o simbolicamente. O “eu” artista que se vai definindo é solitário, condensa em si a aprendizagem, mostra-se na obra. Passa-se da metonímia à metáfora. A Arte Pop é já um processo em desenvolvimento sobre a significação, anunciando o neo-documentalismo.
Torna-se então evidente que esta fotografia de Orlando de Azevedo não se expressa como um documento, o que a síntese interpretativa que é Movido a pés, bem explica. E, se a expressão do condutor nos apela ao expressionismo duro, o sentido da imagem é outro. Tudo aí, neste contemporâneo Robinson Crusoé se conjuga para o símbolo: a imitação eficaz da carrinha de transporte, (é um 2º carro, é uma empresa, há outro veículo em circulação), o farol protegido pelo plástico, as tábuas mal ajustadas de restos de armário de cozinha, as janelas de plástico transparente, o espelho reflector com a imponência devida, as rodas de refugo e, virado para nós, o firmamento das estrelas do glamour da moda. Sendo e não sendo materialmente uma carrinha de transporte, é uma ideia de veículo, como são aquelas associações primárias que nos dão o indeciso mas eficaz conhecimento do mundo. Esta imagem mostra-nos a incompatibilidade da ideia com a medida, a impossibilidade de ser reduzida ao seu conteúdo material. E isto é, no mínimo, uma das definições da arte.
Orlando Azevedo é um fotógrafo de coisas belas, paisagens poderosas, sensibilidades muitas, retratos do acontecer e do quase, quase ser. Entende que a haver estética, se trata afinal de um momento subjectivo da objectividade que é própria do estético que o objecto parece desencadear no fotógrafo. E assim as suas imagens são literatura, enrolam a sua dose de poesia.
Naturalmente não aceita que interpretem as suas imagens como metáforas. Mas eu vejo aqui a alegoria da criatividade, o que é decididamente bom nesta nossa época em que dominam o pessimismo cultural e o optimismo tecnológico. E por isso mesmo não é um momento decisivo nem essa recessão infantil, mais erótica do que estética onde se inscreve muita da arte contemporânea. Nada disto se resume a um acontecer, está mais do lado do ir sendo e é isso que sentimos. Fez capa de um livro de Eduardo Galeano e foi seleccionada na América Latina quando da comemoração dos 500 anos de domínio português. O que também é uma alegoria, doa ou não doa a nós, portugueses.
De forma irrazoável uma alegoria desperta-nos um sentimento de utopia. Este condutor que faz carretos e descansa no intervalo do percurso pedonal não criou uma utopia, porque a sua ideia se realiza. Mas suscita as muitas utopias que ainda nos ligam o cérebro e a mão e que são para nós, no deserto da vida, as pequenas glórias do quotidiano.”
Maria do Carmo Serén
Orlando Azevedo, açoriano no Brasil, é escritor, fotógrafo, editor.
Criou a Bienal Internacional de Fotografia e o Museu de Fotografia Cidade de Curitiba.
22 outubro, 2008
/uma fotografia, um nome\
21 outubro, 2008
“entre aspas”
“Quem está aí para morrer?
Quem está aí para a travessia dos vastos oceanos?
Resíduos de luas quebradas. O mar, é tão tarde sobre o mar. E na mesma morte somos a lua e o mar. O zinabre das sílabas que, a pouco e pouco, corrói o pensamento.
(A janela aberta, o copo de cerveja, a noite - sempre a noite ecoando passos, vozes, silêncios.
A mão, a tua mão quase líquida cercando o sexo. A língua na humidade doutra língua. O corpo celebrando a vida doutro corpo.)
Estremece o ar, a caneta, a tinta, os astros e o receio de quem parte sem dizer adeus.
Quem chegará depois de ti?
Quem nunca esteve aqui? - no resplendor do plâncton, por baixo da pele...
Quem regressou? - nesta imagem que aprisionou o firmamento do teu rosto, e com o tempo se desfaz...”
InSight America
Contagem decrescente para as eleições americanas (4 de Novembro).
A Magnum arregaçou as mangas e meteu 14 fotógrafos na rua (salvo seja) a tentar responder a estas perguntas: Who are the people of America? What are we thinking? What makes us angry and frustrated? What gives us hope? Are some of us really all blue and some all red? Or are we mostly shades of purple?
O resultado está a ser mostrado em permanência na web através do projecto InSight America aqui
19 outubro, 2008
photo docs
Nacional 206
Catarina Alves Costa, 53’, Portugal, 2008
24 OUT. 18.00 - Londres (sala 2)
Fábrica de têxteis. Estrada Nacional 206, entre Guimarães e Famalicão, no Vale do Ave. À procura de testemunhos sobre os percursos escolares, encontramos o quotidiano e a rotina de uma fábrica que nunca pára, dia e noite, e dos que nela trabalham. O filme mostra uma empresa com oitenta anos, ainda nas mãos da terceira geração de familiares do Sr. Oliveira, o fundador. Com 1200 trabalhadores, exporta 80% da sua produção para a Alemanha, os EUA e o Japão produzindo tecido de grande qualidade para marcas como Armani e Hugo Boss. Dentro dos seus corredores e maquinaria, seguimos o quotidiano e rotina dos trabalhadores que nos falam da escola, e do seu percurso profissional e pessoal.
(Documentário que faz parte do projecto Testemunhos que inclui uma exposição colectiva de fotografia)
Standard Operating Procedure
Errol Morris,111´, EUA, 2008
22 OUT. 20.30 – Londres (sala 1) 20 OUT. 21.00 – Culturgest (grande auditório)
As fotografias tiradas por soldados na prisão de Abu Ghraib mudaram a imagem que a América tinha de si mesma. Mas um mistério fica por desvendar: serão estas a prova evidente do abuso sistemático dos militares americanos ou apenas documentam o comportamento aberrante de alguns soldados? Através do depoimento dos oficiais que tiraram as fotografias e daqueles que estavam nas fotografias, o documentário examina detalhadamente o contexto das imagens. O espectador arrisca-se a ficar perplexo: como é que actos abjectos de humilhação e de tortura (na maior parte dos casos sobre inocentes presos ao acaso) podem ser classificados pela jurisdição norte-americana como “Standard Operating Procedures” (Procedimentos de rotina)?
Conversations in Vermont
Robert Frank, 26´, EUA, 1969
23 OUT. 22.45 – Culturgest (pequeno auditório)
Considerado o primeiro filme autobiográfico de Robert Frank, reconhecido fotógrafo e cineasta suíço radicado nos Estados Unidos desde os anos 1950, Conversations in Vermont é citado pelo autor como uma obra “sobre o passado e o presente”, resgatada ao tempo em que casou com a sua mulher, Mary, e construída como “uma espécie de álbum de família”. No centro desta viagem pessoal e familiar está a relação de Frank, como pai, com os seus dois filhos, Pablo e Andrea, numa tentativa frágil e sincera de comunicar com eles a história de uma vida.
Les Années Déclic
Raymond Depardon, 65´, França, 1983
Retrato autobiográfico de Raymond Depardon onde o fotógrafo sobrepõe a voz ao seu rosto, recorrendo a uma série de fotografias suas captadas entre 1957 e 1977. Este documentário retrata o percurso do artista ao longo de vinte anos de fotos e recupera excertos de alguns dos seus filmes. No rosto de Depardon encontramos ainda o ponto de partida para uma reflexão sobre a imagem, já que o realizador não pode deixar de referir-se a si próprio sem deixar de referir os seus objectos de criação. Ambos estão ligados, pois são as imagens que permitem o fotógrafo interrogar o seu mundo e trajecto.
I'll be your Mirror
Nan Goldin e Edmund Coulthard, 50´, França/EUA, 1996
21 OUT. 21.00 - Londres (sala 2)
Em I’ll Be Your Mirror, Nan Goldin, símbolo vivo do meio artístico, evoca a sua vida extraordinária e um dos legados criativos mais exemplares na história da fotografia. O seu trabalho, conhecido por retratar a ascensão da classe média norte-americana e por ter captado o lado mais selvagem e livre da comunidade underground nova-iorquina durante os anos 1970, encontra neste filme um novo modo de olhar a sua carreira. Recorrendo a entrevistas com alguns dos seus amigos mais íntimos, gravações vídeo e fotografias da sua autoria, Goldin recorda o tempo de uma geração.
Let’s Get Lost
Bruce Weber, 120´, EUA, 1989
20 OUT. 23.30 – São Jorge (sala 3)
Quando Bruce Weber (o célebre fotógrafo de moda), conseguiu chegar perto do seu ídolo Chet Baker, um dos mais geniais trompetistas da história do jazz, a vida do músico era já um mundo em queda marcado pelo alcoolismo e pela dependência às drogas. Let’s Get Lost é uma viagem feita de contrastes entre duas épocas distintas no percurso do artista: dos auspícios da sua carreira nos anos 1950 à decadência dos seus últimos anos na década de 1980. Um filme que nos oferece imagens raras das suas primeiras actuações e juventude, entrevistas com amigos, familiares e amantes.
Profils Paysans: L’Approche; Le Quotidien; La Vie Moderne
Raymond Depardon, 90´, 85´, 88´, França, 2000
26 OUT. 11.30 – São Jorge (sala 1)
Trilogia sobre o mundo rural em França.
(sinopses dos filmes: doclisboa)
natureza
A [Kgaleria] inaugurou uma nova exposição, Trabalho de Campo, de Dora Nogueira, sobre as inconstâncias do espaço e das coisas que nele crescem ou que nele são implantadas.
Trabalho de Campo, de Dora Nogueira
[Kgaleria]
de 4ª a sáb. das 15h00 às 20h00
Rua da Vinha (Bairro Alto) 43 A
Até 22 de Novembro
15 outubro, 2008
Jerónimo
“
[...]
A noite é mais escura no mar, porque não é só o céu que está apagado. Há sempre terra à vista, nem que seja um fio de luzes. Por vezes parece que a perdemos mas ela limitou-se a mudar de flanco. O barco roda.
«Pronto. Querias a terra, já está do teu lado.»
É sempre de noite que o Portugal Novo e a sua tripulação deixam a doca de Leixões. Tem de ser de noite, para o polvo não fugir. As bóias sinalizam as zonas de boas largadas, onde estão os alcatruzes ou potes, que foram deixados uma semana, quinze dias ou um mês antes. Para dar tempo ao polvo de entrar. O que os homens fazem agora a estibordo, impermeáveis ao frio, é, na linguagem do mar, a alagem. A recolha dos potes, com o polvo lá dentro. Quando vem lá dentro. Para o fisgar de dia há outras manhas: gaiolas. E ainda há a rede para a faneca, o congro, a pescada.
[...] ”
Kathleen Gomes, Jerónimo
Nota: O catálogo Testemunhos vai ser lançado amanhã na livraria Byblos, em Lisboa, às 18h30.
Testemunhos — Trajectos de Qualificação
Vários autores
Centro de Congressos da Alfândega, Porto
Até 30 de Novembro
14 outubro, 2008
William Claxton, 1927-2008
Morreu William Claxton, o fotógrafo que imortalizou vários músicos de jazz, como Stan Getz, Duke Ellington, Charlie Parker, Thelonious Monk e Chet Baker, que ajudou a catapultar para a fama, em 1952.
Para além de fotógrafo de personalidades (captou Bob Dylan, Frank Sinatra, Steve McQueen...) Claxton, que tinha 80 anos, assinou muitas capas de discos e notabilizou-se também no mundo da moda. Em 1960, com a mulher Peggy Moffit a servir como modelo, fotografou as peças do controverso estilista Rudy Gernreich.
Entre os álbuns publicados destacam-se Jazz: William Claxton, Young Chet, Claxography, Steve McQueen e Jazzlife.
Costumava dizer que a fotografia era como “jazz para os olhos”.
O obituário do Los Angeles Times está aqui e o do New York Times aqui
Para ver o site oficial de William Claxton clique aqui
>>post relacionado:
>Chet
da fotografia
Siempre tengo la duda y nunca me lo han aclarado del todo. Tengo varias páginas personales, con 30.000 visitas mensuales, y en ellas cuelgo fotos de actos sociales públicos, fiestas, toros, carnavales, etc. ¿Debo de tener algún cuidado en publicar dichas fotos en Internet?
...e a resposta.
13 outubro, 2008
crónica visual
Miguel Madeira, fotojornalista e editor de fotografia do Público, inaugurou no sábado uma crónica visual no P2 que terá periodicidade semanal. O conceito agrada-me muito. É atraente e difícil porque enquanto a crónica textual se constrói segundo regras e signos mais ou menos estáveis e estabelecidos, a crónica visual joga-se num campo de leitura escorregadio e muito mais subjectivo. As imagens são acompanhadas por um brevíssimo apontamento, ora de seca localização, ora de encantamento pessoal. Boa sorte.
Outro Korda
Korda queria conhecer as mulheres mais bonitas de Cuba
Sérgio C. Andrade
(Público, P2, 13.10.2008)
Acabar de vez com a ideia de que Alberto Korda (Havana, 1928-Paris, 2001) foi o autor de uma só fotografia - a de Che Guevara, Guerrilheiro Heróico, que o tempo transformou num ícone da Revolução - ou que foi o fotógrafo oficial da revolução cubana. É esta a principal virtude da exposição Korda conhecido, desconhecido, na Fonoteca de Havana, e que tem registado um êxito sem precedentes junto do público da capital cubana.
"Só dez por cento da sua obra tem a ver com o tema da revolução", diz a sua filha, Diana Díaz (o pai chamava-se Alberto Díaz Gutiérrez, e corre que escolheu o apelido Korda por causa da sua parecença fonética com Kodak!). No próximo mês de Dezembro, a exposição de Korda vai ser mostrada em Madrid, na Casa da América, e é a pretexto disso que o jornal El País ouviu a filha do fotógrafo e também Cristina Vives, comissária da exposição em parceria com o jornalista Marck Sanders (os dois são igualmente autores do livro-catálogo homónimo já editado em Espanha).
"Korda não só foi uma testemunha de excepção dos anos épicos da revolução cubana, foi um artista incrivelmente moderno", diz Cristina Vives ao El País. "As fotografias de mulheres que ele fez no seu estúdio nos anos 50 são verdadeiramente revolucionárias. E esse trabalho de composição com modelos, ele iria mais tarde aplicá-lo aos líderes guerrilheiros."
A exposição, subdividida em cinco capítulos - Estúdios Korda, Os líderes, O povo, A mulher e O mar -, revela uma vertente marcante, e até agora desconhecida, da produção de Korda na década de 1950. Foram os anos em que ele decidiu virar-se para a fotografia de moda e montar um estúdio com o seu nome em Havana, "para poder conhecer as mulheres mais bonitas de Cuba", confidenciou o artista a Marck Sanders, na última entrevista que deu antes de morrer, de ataque cardíaco, em 2001, em Paris, onde se deslocara para acompanhar uma exposição individual.
Nas fotografias dessa época, Korda retratava os corpos e os perfis de modelos belas e exuberantes, como Norka ou Julia, que mais tarde viriam a tornar-se suas mulheres. Remonta a esse tempo "um espírito Estúdios Korda", que Cristina Vives reclama como sendo "arte de vanguarda".Foi no final dos anos 50 que o fotógrafo se envolveu com os ideais e com o movimento revolucionário - um dia, fotografou A menina com a boneca de palha e viu aí a metáfora de um povo explorado e empobrecido num país a precisar de mudança.
Guerrilheiros e modelos
Durante uma década, dedicou-se à causa da revolução, que divulgou e celebrou em fotografias que correram o mundo e se tornaram célebres, como a do Guerrilheiro Heróico ou a Entrada de Camilo Cienfuegos e Fidel Castro em Havana. "Mas ele não foi o fotógrafo oficial do regime, foi antes um electrão livre", reclama a sua filha Diana, explicando que foi a sua amizade com Fidel que lhe permitiu captar instantâneos que ninguém mais conseguiu. Isso é agora visível na exposição (e no livro), em fotos inéditas ou pouco conhecidas do líder da revolução a comer um gelado com Che Guevara, em pijama, ou então rodeado por um grupo de excitadas "rainhas da rádio de Nova Iorque".
Mas até as suas fotos mais conhecidas dos protagonistas da revolução "têm um ângulo distinto" e manifestam "o seu meticuloso trabalho de edição, que convertia as imagens originais em algo diferente", nota Cristina Vives, acrescentando que Korda "retratou os guerrilheiros como se eles fossem modelos".
Há uma justificação histórica para o facto de a obra "pré-revolucão" e exterior a esta dimensão mais política ser a menos conhecida de Korda. Em 1968, e como aconteceu à maioria dos negócios privados, o seu estúdio em Havana foi nacionalizado e as chapas que retratavam o movimento de Fidel (cerca de 50 mil) foram depositadas no Arquivo Histórico do Conselho de Estado. O restante trabalho desapareceu - houve, na altura, quem achasse as fotografias "pornográficas".
Na década seguinte, Korda virou-se para a fotografia submarina (fundou mesmo o Departamento Subaquático da Academia das Ciências) e chegou a ganhar prémios internacionais, em Itália e no Japão, com as suas fotografias, mas também estas viriam a desaparecer.
Parte delas foi agora recuperada por Cristina Vives e Marck Sanders em velhas revistas - como a Carteles, onde Korda fotografava as beldades do cinema, que eram comentadas pela pena do escritor Guillermo Cabrera Infante, sob o pseudónimo de G. Caín, conta o El País -, e em arquivos privados.
Korda numa sessão de moda
»vejamos»» [as sugestões dos leitores]
»»Pedro Mendes está em Nova Iorque e, para os que forem para o lado de lá do Atlântico, sugere uma visita à exposição Invasion 68 Prague, de Josef Koudelka. A mostra está aberta até dia 30 de Outubro na galeria da Aperture Foundation.
A crítica de Roberta Smith no New York Times está aqui
Mais informações sobre a exposição aqui
11 outubro, 2008
para a Golegã
A partir de segunda-feira decorre a Semana da Fotografia da Golegã promovida pelo Centro de Estudos em Fotografia da mesma localidade ribatejana. A inicitiva vai ser acolhida na Casa/Estúdio Carlos Relvas e estará focada nos processos fotográficos históricos que fogem aos materiais sensíveis de produção industrial e à fotografia digital.
O programa é o seguinte:
Dia 13 - Workshop e conferência sobre impressão em albumina orientados por Luís Pavão
Dia 14 - visita guiada por Luís Pavão à exposição Processos Históricos Alternativos – Uma Experiência Pedagógica.
Dias 15, 16 e 17 - Seminário e workshop sobre impressão em colódio húmido, orientados por Mark Oosterman e France Scully, historiadores e considerados os actuais mestres deste processo fotográfico.
Dia 18 - Conferência A Época de Carlos Relvas ou um Passeio pelo Álbum de Família, orientada por José Soudo. Dois workshops destinados a crianças dos 8 aos 12 anos. A Máquina Fotográfica Sem Lente dá o nome ao workshop da manhã promovido por Paula Lourenço. O objectivo é que cada criança construa a sua pinhole e se aproxime do suporte fotográfico. À tarde, Laura Guerreiro falará sobre A Fotografia Azul onde o processo de cianotipia estará em destaque.
As inscrições podem ser feitas aqui
10 outubro, 2008
“entre aspas”
“Mas não é nada disto que hoje te quero confiar, querido diário. Quero é contar-te o que aconteceu no outro dia. Esteve por aqui uma rapariga a fotografar-nos. Alinhámo-nos rapidamente. Aprumados, como se deve estar, e deixámos que ela - parece que se chama Luísa - nos tirasse o retrato.”
Al Berto, Dispersos, Assírio & Alvim
Nota: a "rapariga" que tirou o retrato é Luísa Ferreira que teve a amabilidade e a paciência de remexer no seu arquivo para encontrar esta fotografia de Al Berto. Faz parte de uma sessão com o poeta, no Verão de 1996, para captar um retrato que figurasse numa exposição na Maison de la Poésie, em Paris. Acabou por ser escolhida uma fotografia 6x6, embora Luísa tenha utilizado também filme de 35mm, como é o caso da imagem que nos mostra aqui. Obrigado.
09 outubro, 2008
“Che” morto

São duas as fotografias mais conhecidas de “Che” Guevara. Uma é a de Alberto Korda, conhecida por Guerrilheiro Heróico, tirada no dia 5 de Março de 1960. É a das t-shirts, de que o artista plástico Jim Fitzpatrick foi o primeiro a criar uma estampa. O guerrilheiro participava num memorial às vítimas de uma explosão. Atrai desde então pelo seu olhar perdido no mundo com que sonhava. Outra é esta, tirada no dia 9 de Outubro de 1967, um dia depois de ser ferido numa perna, detido e morto em La Higuera, na Bolívia do Presidente René Barrientos.
Atrai porque choca, porque é o fim do sonho, a tiro, pela mão do soldado Terán, por ordem do coronel Anaya, que por sua vez a recebeu do alto. Não se conhece o autor. Nas imagens filmadas que na altura se fizeram do cadáver, circulam repórteres e militares. O corpo foi enterrado clandestinamente, para ser descoberto por investigadores forenses, em 1997, numa vala comum em Vallegrande, a cerca de 50 quilómetros do lugar onde foi morto.
Ernesto “Che” Guevara, de nascimento argentino e do mundo por escolha, com a revolução cubana pelo meio, já era um mito. O seu enterro às escondidas não evitou a glorificação, que teve a sua expressão máxima nos funerais de Estado a que Fidel Castro presidiu em Outubro desse mesmo ano. Todos os dias desfilam pessoas pelo mausoléu em Santa Clara, de pedra e de silêncio. Gustavo Villoldo, 72 anos, o agente da CIA que levou os restos mortais do guerrilheiro para os enterrar, de noite, fundo na terra e na memória, hoje exilado em Miami, com oito filhos e 17 netos, queixou-se no ano passado de tanta homenagem. “Não compreendo os jovens que crêem que 'Che' merece admiração”, disse. Pois não.
Fernando Sousa
(Público, P2, No Passado, 9 de Outubro de 1967)
testemunhos
Inaugura hoje no Centro de Congressos da Alfândega, no Porto, a exposição colectiva Testemunhos — Trajectos de Qualificação que envolve várias áreas da criação artística (fotografia, documentário e escrita). A qualificação, na escola e no trabalho, é o referente geral para o qual trabalharam dez autores. Na fotografia há trabalhos de Patrícia Almeida, Augusto Brázio, António Júlio Duarte, Sandra Rocha, André Cepeda, Pedro Letria, Augusto Alves da Silva e João Serra. O documentário Nacional 206 foi realizado por Catarina Alves Costa e mostra uma fábrica de têxteis situada no Vale do Ave. A escrita dos vários perfis retratados esteve a cargo de Kathleen Gomes. A iniciativa partiu do Instituto do Emprego e Formação Profissional.
O comissário Sérgio Mah explica o projecto assim:
“Procurou-se (...) potenciar uma representação actualizada e empiricamente sensível sobre o quotidiano de pessoas e perfis sócio-profissionais, sobre contextos de formação e sobre condições sociais e ambientes laborais em que o desafio da qualificação tem vindo a adquirir especial oportunidade e relevância pública.
(...)
Testemunhos — Trajectos de Qualificação propõe uma incursão sobre experiências reais nos domínios do trabalho e da formação, mas também sobre modos e percursos de vida que inevitavelmente nos faz pensar sobre a relação entre trajectos educativos e trajectos profissionais.”
Testemunhos — Trajectos de Qualificação, vários autores
Centro de Congressos da Alfândega, Porto
Até 30 de Novembro
06 outubro, 2008
Goldin+D' Agata
Há duas presenças de relevo do universo da fotografia no DocLisboa 2008 - VI Festival Internacional de Cinema Documental: a norte-americana Nan Goldin fará parte do júri da competição internacional e o francês Antoine D`Agata mostrará o filme Aka Ana (60'), objecto híbrido entre a fotografia e a imagem em movimento inspirado n`O Império dos Sentidos (Nagisa Oshima, 1976). Aka Ana foi rodado durante uma estadia do fotógrafo em Kujoyama, Japão, entre Setembro e Dezembro de 2006, onde um grupo de prostitutas se mostra em devaneio e transgressão.
Aka Ana, Antoine D`Agata (60', França, 2008)
17 Outubro, 22h30, Cinema Londres (sala1)
25 Outubro, 23h00, Cinema Londres (sala 2)
o fantasma de Borrell
Robert Capa, A Morte de um Miliciano, 1936A dúvida. Sempre a dúvida. Cada vez que surge uma exposição da obra de Robert Capa, o fantasma de Frederico Borrell, o protagonista da célebre fotografia Morte de um Miliciano, reaparece para questionar a "verdade" da imagem e lançar a discussão sobre a manipulação do instante-chave que atingiu a escala máxima da iconografia da Guerra Civil de Espanha.
A propósito da exposição This is War! Robert Capa at Work, na Barbican Art Gallery, em Londres, o El País fez ontem um bom retrato da discussão acerca do mistério que rodeia a fotografia da morte de Borrell, captada no dia 5 de Setembro de 1936, em Cerro de la Coja, localidade andaluza de Cerro Muriano.
O artigo do El País está aqui
This is War! Robert Capa at Work e Gerda Taro, On the Subject of War
Barbican Art Gallery, Londres
Enre 17 de Outubro e 25 de Janeiro
05 outubro, 2008
Carlos Afonso Dias
Depois de um consagrado (José M. Rodrigues), de uma aposta (Miguel Santos) e de um olhar de fora (Flor Garduño) a Galeria Pente 10 presta homenagem a um histórico da fotografia portuguesa que teve, durante anos, a sua obra voltada ao esquecimento - Carlos Afonso Dias (Lisboa, 1930).
Em actividade desde meados da década 50, contemporâneo de Gérard Castello Lopes, Costa Martins/Vítor Palla, Carlos Afonso Dias foi um dos poucos que nos anos de penumbra criativa do Estado Novo desviaram caminho da fotografia salonista e académica que então se praticava. Sem referências internas para seguir, os que escolheram a fotografia livre do jugo ideológico procuraram noutras paragens o seu modelo de fotografia. Henri Cartier-Bresson foi um desses faróis. E com ele a fotografia preocupada com os valores e a dignidade do ser humano que Carlos Afonso Dias também praticou.
O percurso de Carlos Afonso Dias na fotografia portuguesa é discreto e foram raras as vezes que mostrou o seu trabalho em público. O primeiro grande raio de luz que se projectou sobre as imagens que tirou em Portugal e no estrangeiro foi dado pela Galeria Ether, Vale Tudo Menos Tirar Olhos, em 1989, com a exposição Fotografias 1954-1969.
A exposição que agora se mostra na Pente 10 recupera boa parte das imagens mais significativas dos primeiros anos de actividade de Carlos Afonso Dias, engenheiro geógrafo de profissão, e revela também um pequeno conjunto (6 fotografias) captadas nos últimos anos.
“Carlos Afonso Dias é um grande fotógrafo português e, como todos nós, é um fotógrafo 'estrangeirado'. Seria bom que o público que se interessa pela fotografia soubesse que os fotógrafos portugueses só se servem de um ingrediente nacional: a água. Tudo o resto: a máquina, a objectiva, o filme, os filtros, o flash, os produtos químicos, o ampliador, as lâmpadas, o papel vem de fora. Como de fora vem a moda, um estilo, as preocupações, as revistas e os livros; numa palavra: os paradigmas.”
Gérard Castello Lopes, prefácio a Carlos Afonso Dias, Lisboa, 1989

(© Carlos Afonso Dias)
Fotografias 1956-2008, Carlos Afonso Dias
Galeria Pente 10
Trav. da Fábrica dos Pentes (ao Jardim das Amoreiras), 10, Lisboa
Até 7 de Novembro
04 outubro, 2008
XDR-TB
Em 2007, o fotojornalista James Nachtwey foi galardoado com o TED Prize. Com os 100 mil dólares que recebeu, Nachtwey andou por várias zonas do globo para fotografar a luta contra uma nova mutação do bacilo da tuberculose que está a fazer milhares de vítimas, a XDR-TB (extremely drug-resistant tuberculosis). Parte desse trabalho foi revelado hoje através de um slideshow na página XDRTB.org e vai ser publicado num especial de oito páginas da revista Time. O slideshow será também projectado em várias cidades do mundo incluindo Nova Iorque, Paris, Los Angeles, Melbourne, Seul, Hong Kong e Londres.
“Photographers go to the extreme edges of human experience to show people what's going on. They aim their pictures at your best instincts: generosity, a sense of right and wrong, the ability and the willingness to identify with others, the refusal to accept the unacceptable.”
O slideshow sobre a XDR-TB está aqui
02 outubro, 2008
Cutileiro inédito
Em parte, a culpa foi da rebarbadora que ao moldar a pedra mármore atirou para o ar milhões de partículas de pó. Mesmo quando se mudou para uma casa maior, em Évora, o escultor João Cutileiro não se conseguiu livrar do pó. E não havia maneira de fazer a “necessária desinfecção” para entrar na câmara escura livre da nuvem de poeira branca e fina que se entranhava na mais ínfima ranhura. Cobria-lhe o corpo e a roupa. Nessa altura, para Cutileiro tirar fotografias era “fácil”, “revelar e imprimir” é que era “um horror” porque no papel fotográfico vinham sempre impressas as marcas do escultor e da escultura na pedra – os minúsculos grãos de pó.
O corpo coberto de pó é a imagem que temos do mestre. O pó ganhou a batalha. E a fotografia foi ficando pelo caminho. Os líquidos a apodrecerem nos tanques da câmara escura. O pó ganhou a batalha, mas João Cutileiro escultor nunca deixou de ser fotógrafo – de esculturas e de retratos dos que o rodearam ao longo dos últimos 60 anos.
Ainda que de forma intermitente, o resultado desse labor dedicado à imagem fotográfica foi sendo mostrado em público, pelo menos desde o início dos anos 60. Às vezes em complemento de exposições de escultura, outras como criação solitária sempre voltada para o rosto e para o corpo. Desafiado pelo crítico de arte Alexandre Pomar, João Cutileiro decidiu agora revelar um conjunto de fotografias vintage, boa parte das quais inéditas e provas únicas (alguns negativos perderam-se num armazém em Londres), na galeria de fotografia e casa de leilões Potássio 4, em Lisboa. A mostra, que será inaugurada no dia 9, antecede um leilão de 30 lotes, agendado para o dia 23, cuja receita reverterá a favor da Abraço, a associação de apoio a pessoas infectadas com VIH/Sida.
O género que mais fascina Cutileiro na fotografia é o retrato, com rosto ou sem ele, com roupa ou sem ela. Na exposição que vai abrir portas, que recupera imagens captadas em Inglaterra e em Portugal durante os anos 50, 60 e 70 e impressas pelo autor, não há grandes derivações. Revelam-se corpos ora em pose assumida e ambientes íntimos, ora em flirt a espreitar pelo buraco da fechadura. Em Blow Up (Hampstead Heath, 1965), Cutileiro lembra esse papel do fotógrafo como um caçador implacável a “roubar” imagens a casais incógnitos que rebolam abraçados pelos jardins. Na longa sequência La Grande Stripteaseuse (Londres, 1966) revela-se a cumplicidade entre retratista e retratado e mistura-se sensualidade com uma certa joie de vivre.
Para Alexandre Pomar, a exposição da Potássio 4 vai surpreender porque esta faceta de João Cutileiro fotógrafo “não é conhecida ou foi esquecida”. Em declarações ao P2, o crítico sublinha a qualidade dos retratos do escultor, muito “originais e frescos” para a época em que foram captados. Pomar salienta ainda uma forte presença do corpo feminino nestas imagens, consequência directa da bagagem que traz da escultura, onde as curvas da mulher são presença constante. “Estas fotografias de corpos são esculturas. Ele fez estas imagens com um olhar de escultor.”
Se por um lado, a escultura foi uma das razões que fizeram com que o trabalho de João Cutileiro na fotografia não fosse mais “regular”, por outro foi muito por causa dela que começou a pegar em máquinas fotográficas, quando era estudante na Slade School of Arts de Londres. “As esculturas não viajam. Convinha fotografá-las, fosse para os relatórios de fim de ano, fosse para o que fosse eu precisava de tirar fotografias”, disse ao P2 por telefone.
Podiam ser só simples registos documentais de peças esculpidas para trabalhos académicos, mas o certo é que essas imagens geraram cobiça entre os outros estudantes. Já havia quem fizesse esse trabalho, mas Cutileiro baixou o preço e tornou-se no fotógrafo oficial dos aspirantes a escultores. Com o dinheiro veio uma Rolleiflex em segunda mão que “uns belos anos” mais tarde foi emprestada ao neurologista António Damásio e nunca mais foi devolvida (“espero que ele leia isto”, ri-se Cutileiro). “Nos primórdios, em Londres, por causa da minha necessidade de sobrevivência, a fotografia foi uma muleta enorme, direi mesmo uma cadeirinha de rodas”, revela o escultor.
Depois dessa fase em que se serviu da fotografia de uma forma “utilitária”, e quando ainda faltavam alguns frames para acabar os rolos de 12 exposições, o escultor começou a fotografar os filhos dos amigos, muito mais velhos, que lhe pediam várias cópias para mandar para a família. Foram as últimas imagens com as quais ganhou dinheiro, no princípio da década de 70. A partir daí, passou a convidar amigos a posarem para sua câmara, apenas por prazer.
A propósito desta exposição, Alexandre Pomar escreve no seu blogue: "Cutileiro é um dos nomes certos da revolução fotográfica dos anos 50 e um dos poucos, um dos primeiros, que nesse tempo mostrou publicamente as suas fotografias”. Para além do escultor, apenas Fernando Lemos e a dupla Victor Palla/Costa Martins tinham mostrado fotografias em exposições individuais de galeria, lembra Pomar. Contudo, João Cutileiro não se sente parte desse grupo, não tanto pelo estilo mas mais pela distância geográfica: “eu estava em Londres e eles estavam cá e isso fazia com que eu estivesse muito à margem das preocupações deles”.
Durante anos a fio ligado à fotografia analógica, Cutileiro é hoje um defensor acérrimo da imagem digital e vai tirando partido de uma ou outra brincadeira técnica. “Como eu estou velho, podre e perro, em vez de me baixar, rodo o visor e tenho a imagem do que os meus joelhos vêem. Sinto-me à vontade no universo da fotografia digital”. O aviso não podia ser mais claro: “no futuro, nunca mais ninguém vai querer fotografar em suporte analógico. Está morto e enterrado”.
Sérgio B. Gomes
(P2, Público, 1.10.2008)
Alexandre Pomar fala sobre a exposição e sobre o percurso de João Cutileiro na fotografia aqui
João Cutileiro, Vintage nudes from the 60s and the 70s
Galeria Potássio 4, R. dos Navegantes, 16, Lisboa
Exposição: de 9 a 23 de Outubro
Leilão: 23 de Outubro, às 09h00
01 outubro, 2008
30 setembro, 2008
mulheres
Nasceu um novo espaço na internet para se mostrar fotografia contemporânea feita por mulheres: Women in Photography. O projecto, apoiado pela britânica Humble Arts Foundation e liderado por Amy Elkins e Cara Phillips, pretende ser uma montra alargada para fotógrafos, editores, curadores e galeristas que pretendam seguir a recente criação fotográfica feita por mulheres. Haverá trabalhos de artistas emergentes e consagradas cada terça-feira de cada mês. É possível enviar um máximo de 5 trabalhos através do site para apreciação das curadoras.
O último portfolio disponível mostra imagens de Robin Schwartz que retrata o relacionamento burlesco-encantatório de Amelia, a filha da artista, com animais exóticos.
O site da Women in Photography está aqui
A Humble Arts Foundation aqui
29 setembro, 2008
da violência
A Finlândia não tinha uma imagem da violência
Há quem pense que falar e mostrar violência leva a mais violência. E há quem pense que falar e mostrar violência ajuda a perceber e a reduzir os episódios de violência.
Em Novembro do ano passado, um aluno matou oito pessoas numa escola de Tuusula e a Finlândia ficou estarrecida. O país deitou-se no divã para tentar descobrir onde é que falhou e para tentar perceber o que é que levou Pekka-Eric, de 18 anos, a abrir fogo sobre outros alunos e professores e sobre si naquele dia. Os media finlandeses já eram muito selectivos no noticiário sobre criminalidade, mas depois do massacre de Tuusula, que até foi muito dissecado, reduziram ao essencial os factos sobre violência com receio de um efeito mimético. Uma precaução que surtiu efeito apenas até anteontem, porque o ex-aluno Matti Saari protagonizou um massacre em tudo parecido com o de Pekka-Eric. Morreram dez pessoas, mas os factos tiveram uma cobertura minimal.
Os media finlandeses estão cheios de pudor em mostrar o fenómeno da violência, mas Harri Pälviranta não. O fotógrafo sentiu que o debate social acerca do problema estava ligeiramente coxo. Porque lhe faltava imagem, um testemunho gráfico que mostrasse frontalmente as querelas físicas que se vão multiplicando nos fins-de-semana muito regados com drogas e álcool. A Finlândia tem dos mais baixos índices de criminalidade do mundo e o país não estava habituado a ver violência real intramuros. O certo é que a violência existe, até na Finlândia. Pälviranta quis dar-lhe um corpo gráfico seguindo uma abordagem muito própria que não deve ser confundida com as normas por que se rege o fotojornalismo. Apesar de o resultado estar muito próximo das imagens repentistas do mítico fotojornalista americano Weegee – conhecido por registar topo o tipo de crimes e acidentes em Nova Iorque pouco tempo depois de terem acontecido –, este trabalho de Pälviranta (Battered, especificamente sobre cenas de pugilato) procura uma postura mais metafórica e artística que ajude a perceber as razões desta tensão que leva os finlandeses a espancarem-se uns aos outros. É uma imagem da Finlândia que não conhecíamos e que os finlandeses, se calhar preferiam não conhecer.
A originalidade deste projecto valeu a Harri Pälviranta o prémio Descubrimientos do PHotoEspaña 2007. Não foi a primeira vez que o fotógrafo finlandês tratou o tema. Entre 1999 e 2001 concretizou On Violence, que mostra a interacção humana com as armas (a Finlândia é um dos países com mais armas entre a população), e Badscapes que capta paisagens bucólicas onde outrora se travaram violentas batalhas. Prepara actualmente um trabalho sobre a quantidade colossal de armas registadas na Finlândia em relação ao reduzido número de habitantes do país.
Sérgio B. Gomes
(P2, 25.09.2008)
28 setembro, 2008
leilão 2
A Potássio 4 agendou para o dia 23 de Outubro, em Lisboa, um leilão de fotografias da autoria de João Cutileiro. As imagens que vão à praça foram captadas pelo escultor entre finais dos anos 50 e meados dos anos 70. O lucro da venda reverterá a favor da Abraço, a associação de apoio a pessoas afectadas pelo VIH/Sida.
26 setembro, 2008
/uma fotografia, um nome\
“Habitualmente realço em José Manuel Rodrigues a especificidade simbólica e alegórica das suas fotografias: aquele iniciático enredamento do feminino-masculino, os signos dos quatro elementos, a imponderabilidade temporal das suas imagens sempre marcadas pela transfiguração.
Esta imagem é relativamente recente e vejo nela uma síntese do que a fotografia representa hoje e das polémicas que tem suscitado. Porque afinal o fotógrafo, que foi fundador e determinante na Perspectief holandesa, sempre se mostrou como um experimentador fotográfico, precisamente naquela linha que Jeff Wall determinava para a fotografia actual, como reveladora da consciência histórica do meio técnico e, naturalmente, do autor.
Nesta produção, as máscaras são o motivo. O que revela logo o nó górdio que é a aparência fotográfica. Diz quem sabe que imago é o duplo do vivente, mas a sua máscara funerária de cera, obtida post-mortem é, e já não é. Só representa. Em todo o caso, como duplo é também a figura tutelar, suficientemente apaziguadora quando, ao que diz a religião romana, se tornar um terrível espírito severo e infernal.
A imagem fotográfica, nomeadamente o retrato, ganhou essa capacidade de apropriação, guardamo-la com a posse que não conseguimos obter de quem a representa. Aqui, nesta imagem, o fotógrafo, fiel ao seu estilo, resguarda a geometria da sua concepção do real, utilizando o plano que o divide equatorialmente; consegue assim dar dessa realidade a confluência do ser e do não ser, do equilíbrio e do caos, do uno e do múltiplo, aquilo a que chamamos harmonia.
Mas no primeiro plano vemos um guiador de bicicleta que se enleia com o seu reflexo, entrosando-se com o que parece uma cadeira de jardim e uma das duas figuras reflectidas no vidro do que parece ser uma montra. Num plano atrás de nós, uma fila de bicicletas estacionam no passeio que antecede a série de casas truncadas. Tudo cria uma sucessão de planos impossíveis do dentro e do fora. Nós estamos no lugar da câmara, talvez se vejam detalhes do saco do fotógrafo, no passeio, um outro passeio que não vemos; estamos provavelmente bem perto da bicicleta que reflecte o seu guiador no vidro. É um dos efeitos da reflexão teórica que Wall introduziu com a sua imagem Retrato para Mulheres, onde produz a versão fotográfica e, por isso, contemporânea, remake de Bar nas Folies-Bergère, de Manet.
Temos aqui o vidro que permite esta concepção de herança e actualização da perspectiva pictórica, que as câmaras reproduzem. A transparência da fotografia, porque dizem os realistas, a imagem se cola ao real, desaparece: olhamos, no vidro, o que está por trás de nós e é com esforço que entendemos o que se passa e com esforço que compreendemos que ficou anulado o plano pictórico binocular que o meio, (a câmara) foi industriado para nos dar, bem ao modo da perspectiva do Renascimento, onde caminhamos pelo seu interior.
Aqui reflecte-se o exterior, sobrepondo-se ao interior, sabendo que tudo se passa por trás de nós, estamos fora. A materialidade mais realista, as máscaras, são máscaras, aparência. A imagem fotográfica poderia ser transparente, mas as convenções da prática fotográfica e a utilização da câmara, tornam-na opaca. O que aqui se desmonta é a convenção da foto como janela aberta sobre o mundo, o desengano sobre a transparência da fotografia.
Mas um olhar estético deixa-se cativar pelo plano pictórico. Deixamo-nos seduzir pelo que na imagem é convocado. A sedução da imagem, interrompendo-nos, faz-nos debruçar sobre as contradições da transparência da fotografia, poderia ser um bordão pedagógico. Os brancos luminosos dão-lhe a força da caixa de luz, a linha horizontal impede a anomia, o desequilíbrio; mas passamos logo à inquirição, ao problema da sua transparência. Sabemos, hoje, que a imagem artística é válida, quando revela a consciência histórica do meio utilizado. O olhar estético não é fruidor de forma passiva.
Mas o que fica desta imagem, quando a esquecemos, são as máscaras, iguais e diferentes, aterradoras se as vemos e intuímos a força desestabilizadora da sua presença sequencial.
São elas que ficam, que voltam, que prometem. As convenções da prática fotográfica fazem a opacidade da fotografia, os conceitos de arte e de belo tornaram-se, ao que se diz, uma convenção. Mas guardo na memória esta imagem pela evocação das máscaras, chamei-a por pulsão. A desmistificação do nosso modo de olhar é, naturalmente, um corolário perceptivo, um prazer menor.”
Maria do Carmo Serén
25 setembro, 2008
Encontros adiados
A edição deste ano dos Encontros da Imagem de Braga foi adiada por causa da falta de apoio financeiro do Ministério da Cultura. Previsto para arrancar no dia 27, o único festival de fotografia de âmbito nacional e internacional ainda em actividade em Portugal não conseguiu reunir as condições mínimas necessárias para concretizar a programação em torno do tema "Fronteiras do Género", que pretendia desencadear o debate sobre as práticas artísticas femininas.
Um comunicado divulgado ontem à noite pela organização dos Encontros afirma que a Tutela da Cultura alimentou durante "vários" meses "expectativas positivas" sobre o apoio que, em meados de Agosto, acabou por negar. Em declarações ao PÚBLICO, Rui Prata, um dos principais rostos do festival, classifica como "escandaloso" este volte-face e lamenta que "haja dinheiro para acontecimentos como a Experimenta (a bienal de design)" e não exista orçamento para os Encontros de Fotografia. "Sentimo-nos marginalizados. Olham para os Encontros como um acontecimento de província", protesta.
Com este adiamento "frustam-se expectativas dos artistas participantes, instituições envolvidas e, naturalmente, do público", reforça o comunicado.
Apesar deste desfecho, Rui Prata ainda pretende concretizar a programação que foi publicamente anunciada em Junho. A organização pediu uma audiência ao ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, para lhe entregar "um dossier com os artigos sobre os Encontros publicados ao longo de 20 anos em jornais nacionais e internacionais" e para tentar convencê-lo a repor o apoio financeiro ao festival. Se essa ajuda se concretizar, o objectivo é inaugurar os Encontros no dia 8 de Março de 2009, Dia Internacional da Mulher.
A intenção de continuar sem a verba do Ministério chegou a ser manifestada, mas o festival ficaria limitado às exposições produzidas por artistas portugueses, um cenário que agora significa "um desvirtuar profundo do espírito dos Encontros: a ausência de partilha internacional, de acções lúdicas, formativas e reflectivas". "Achámos por bem não fazer apenas pelo fazer e continuamos a acreditar que ainda é possível um retrocesso por parte do Ministério, confiantes que a programação desejada venha a acontecer mais tarde", refere o texto do comunicado. No sábado, dia previsto para a inauguração, será lançada uma petição online a favor do apoio aos Encontros de Braga que este ano cumpriam a sua 19ª edição. A programação deste ano previa exposições em nove espaços da cidade.
Sérgio B. Gomes
(Público Online, 24.09.2008)
23 setembro, 2008
GomesMartinsPalma
Foram hoje divulgados os artistas seleccionados para a fase final do prémio BES Photo. André Gomes, Edgar Martins e Luís Palma vão disputar o maior galardão de fotografia (25 mil euros) atribuído em Portugal. O júri de selecção foi composto pelos críticos de arte Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo que decidiram por unanimidade escolher estes três artistas por exposições apresentadas em 2007.
André Gomes foi escolhido pela exposição Macha, no Teatro Municipal de Almada (5 a 27 de Maio de 2007) e no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro de 2007), Edgar Martins pela exposição Topologies, no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro - 28 de Fevereiro de 2007) e Luís Palma pela exposição Territorialidade, Galeria Presença, Porto (7 de Janeiro a 23 de Fevereiro 2008).
O júri justificou as suas escolhas assim:
André Gomes pela "consistência de um longo percurso no qual a qualidade narrativa, a relação com a literatura e a teatralidade, bem como um raro sentido de relação com a transcendência, conferem uma marcante originalidade ao conjunto da obra";
Edgar Martins pelo "rigor da sua obra e o entendimento da fotografia como um meio artístico complexo que o artista tem vinculado a uma compreensão da paisagem nas suas mais diversas acepções";
Luís Palma pela "solidez do seu entendimento da relação entre fotografia e arquitectura, bem como a forma como a paisagem urbana tem vindo a encontrar no seu trabalho um mapeamento exemplar".
A exposição BES Photo será apresentada em Março de 2009 no Museu Colecção Berardo, que, desde o ano passado, organiza o prémio com o Banco Espírito Santo. O júri que escolherá o vencedor terá uma composição de âmbito internacional que ainda não foi divulgada.
Os vencedores das edições anteriores foram:
Helena Almeida (2004)
José Luís Neto (2005)
Daniel Blaufuks (2006)
Miguel Soares (2007)
sem máquina
O fotógrafo Mário Pires organizou em Lisboa um workshop sobre estética fotográfica onde se pretende "fomentar a criação de hábitos de reflexão e crítica, e o enriquecimento das perspectivas criativas" de quem se dedica ao labor fotográfico numa fase inicial ("fotógrafos amadores, estudantes e todos os adultos com interesse na expressão fotográfica"). Para participar, não é preciso ter máquina. As inscrições podem ser feitas até ao dia 3 de Outubro.
As informações práticas, programa e módulos estão aqui.

































