06 outubro, 2008

o fantasma de Borrell

Robert Capa, A Morte de um Miliciano, 1936

A dúvida. Sempre a dúvida. Cada vez que surge uma exposição da obra de Robert Capa, o fantasma de Frederico Borrell, o protagonista da célebre fotografia Morte de um Miliciano, reaparece para questionar a "verdade" da imagem e lançar a discussão sobre a manipulação do instante-chave que atingiu a escala máxima da iconografia da Guerra Civil de Espanha.
A propósito da exposição This is War! Robert Capa at Work, na Barbican Art Gallery, em Londres, o El País fez ontem um bom retrato da discussão acerca do mistério que rodeia a fotografia da morte de Borrell, captada no dia 5 de Setembro de 1936, em Cerro de la Coja, localidade andaluza de Cerro Muriano.

O artigo do El País está aqui

This is War! Robert Capa at Work e Gerda Taro, On the Subject of War
Barbican Art Gallery, Londres
Enre 17 de Outubro e 25 de Janeiro

05 outubro, 2008

Carlos Afonso Dias

Miradouro de Sta. Luzia, Lisboa, 1957
(© Carlos Afonso Dias)

Depois de um consagrado (José M. Rodrigues), de uma aposta (Miguel Santos) e de um olhar de fora (Flor Garduño) a Galeria Pente 10 presta homenagem a um histórico da fotografia portuguesa que teve, durante anos, a sua obra voltada ao esquecimento - Carlos Afonso Dias (Lisboa, 1930).
Em actividade desde meados da década 50, contemporâneo de Gérard Castello Lopes, Costa Martins/Vítor Palla, Carlos Afonso Dias foi um dos poucos que nos anos de penumbra criativa do Estado Novo desviaram caminho da fotografia salonista e académica que então se praticava. Sem referências internas para seguir, os que escolheram a fotografia livre do jugo ideológico procuraram noutras paragens o seu modelo de fotografia. Henri Cartier-Bresson foi um desses faróis. E com ele a fotografia preocupada com os valores e a dignidade do ser humano que Carlos Afonso Dias também praticou.
O percurso de Carlos Afonso Dias na fotografia portuguesa é discreto e foram raras as vezes que mostrou o seu trabalho em público. O primeiro grande raio de luz que se projectou sobre as imagens que tirou em Portugal e no estrangeiro foi dado pela Galeria Ether, Vale Tudo Menos Tirar Olhos, em 1989, com a exposição Fotografias 1954-1969.
A exposição que agora se mostra na Pente 10 recupera boa parte das imagens mais significativas dos primeiros anos de actividade de Carlos Afonso Dias, engenheiro geógrafo de profissão, e revela também um pequeno conjunto (6 fotografias) captadas nos últimos anos.

Carlos Afonso Dias é um grande fotógrafo português e, como todos nós, é um fotógrafo 'estrangeirado'. Seria bom que o público que se interessa pela fotografia soubesse que os fotógrafos portugueses só se servem de um ingrediente nacional: a água. Tudo o resto: a máquina, a objectiva, o filme, os filtros, o flash, os produtos químicos, o ampliador, as lâmpadas, o papel vem de fora. Como de fora vem a moda, um estilo, as preocupações, as revistas e os livros; numa palavra: os paradigmas.

Gérard Castello Lopes
, prefácio a Carlos Afonso Dias, Lisboa, 1989



Avenida da Liberdade, Lisboa, 1957
(© Carlos Afonso Dias)

Fotografias 1956-2008, Carlos Afonso Dias
Galeria Pente 10
Trav. da Fábrica dos Pentes (ao Jardim das Amoreiras), 10, Lisboa
Até 7 de Novembro

04 outubro, 2008

XDR-TB

(© James Nachtwey)

Em 2007, o fotojornalista James Nachtwey foi galardoado com o TED Prize. Com os 100 mil dólares que recebeu, Nachtwey andou por várias zonas do globo para fotografar a luta contra uma nova mutação do bacilo da tuberculose que está a fazer milhares de vítimas, a XDR-TB (extremely drug-resistant tuberculosis). Parte desse trabalho foi revelado hoje através de um slideshow na página XDRTB.org e vai ser publicado num especial de oito páginas da revista Time. O slideshow será também projectado em várias cidades do mundo incluindo Nova Iorque, Paris, Los Angeles, Melbourne, Seul, Hong Kong e Londres.

Photographers go to the extreme edges of human experience to show people what's going on. They aim their pictures at your best instincts: generosity, a sense of right and wrong, the ability and the willingness to identify with others, the refusal to accept the unacceptable.
James Nachtwey

O slideshow sobre a XDR-TB está aqui

02 outubro, 2008

Cutileiro inédito

Blow Up, Hampstead Heath, 1965
(© João Cutileiro)

Em parte, a culpa foi da rebarbadora que ao moldar a pedra mármore atirou para o ar milhões de partículas de pó. Mesmo quando se mudou para uma casa maior, em Évora, o escultor João Cutileiro não se conseguiu livrar do pó. E não havia maneira de fazer a “necessária desinfecção” para entrar na câmara escura livre da nuvem de poeira branca e fina que se entranhava na mais ínfima ranhura. Cobria-lhe o corpo e a roupa. Nessa altura, para Cutileiro tirar fotografias era “fácil”, “revelar e imprimir” é que era “um horror” porque no papel fotográfico vinham sempre impressas as marcas do escultor e da escultura na pedra – os minúsculos grãos de pó.

O corpo coberto de pó é a imagem que temos do mestre. O pó ganhou a batalha. E a fotografia foi ficando pelo caminho. Os líquidos a apodrecerem nos tanques da câmara escura. O pó ganhou a batalha, mas João Cutileiro escultor nunca deixou de ser fotógrafo – de esculturas e de retratos dos que o rodearam ao longo dos últimos 60 anos.

Ainda que de forma intermitente, o resultado desse labor dedicado à imagem fotográfica foi sendo mostrado em público, pelo menos desde o início dos anos 60. Às vezes em complemento de exposições de escultura, outras como criação solitária sempre voltada para o rosto e para o corpo. Desafiado pelo crítico de arte Alexandre Pomar, João Cutileiro decidiu agora revelar um conjunto de fotografias vintage, boa parte das quais inéditas e provas únicas (alguns negativos perderam-se num armazém em Londres), na galeria de fotografia e casa de leilões Potássio 4, em Lisboa. A mostra, que será inaugurada no dia 9, antecede um leilão de 30 lotes, agendado para o dia 23, cuja receita reverterá a favor da Abraço, a associação de apoio a pessoas infectadas com VIH/Sida.

O género que mais fascina Cutileiro na fotografia é o retrato, com rosto ou sem ele, com roupa ou sem ela. Na exposição que vai abrir portas, que recupera imagens captadas em Inglaterra e em Portugal durante os anos 50, 60 e 70 e impressas pelo autor, não há grandes derivações. Revelam-se corpos ora em pose assumida e ambientes íntimos, ora em flirt a espreitar pelo buraco da fechadura. Em Blow Up (Hampstead Heath, 1965), Cutileiro lembra esse papel do fotógrafo como um caçador implacável a “roubar” imagens a casais incógnitos que rebolam abraçados pelos jardins. Na longa sequência La Grande Stripteaseuse (Londres, 1966) revela-se a cumplicidade entre retratista e retratado e mistura-se sensualidade com uma certa joie de vivre.

Para Alexandre Pomar, a exposição da Potássio 4 vai surpreender porque esta faceta de João Cutileiro fotógrafo “não é conhecida ou foi esquecida”. Em declarações ao P2, o crítico sublinha a qualidade dos retratos do escultor, muito “originais e frescos” para a época em que foram captados. Pomar salienta ainda uma forte presença do corpo feminino nestas imagens, consequência directa da bagagem que traz da escultura, onde as curvas da mulher são presença constante. “Estas fotografias de corpos são esculturas. Ele fez estas imagens com um olhar de escultor.”

Se por um lado, a escultura foi uma das razões que fizeram com que o trabalho de João Cutileiro na fotografia não fosse mais “regular”, por outro foi muito por causa dela que começou a pegar em máquinas fotográficas, quando era estudante na Slade School of Arts de Londres. “As esculturas não viajam. Convinha fotografá-las, fosse para os relatórios de fim de ano, fosse para o que fosse eu precisava de tirar fotografias”, disse ao P2 por telefone.

Podiam ser só simples registos documentais de peças esculpidas para trabalhos académicos, mas o certo é que essas imagens geraram cobiça entre os outros estudantes. Já havia quem fizesse esse trabalho, mas Cutileiro baixou o preço e tornou-se no fotógrafo oficial dos aspirantes a escultores. Com o dinheiro veio uma Rolleiflex em segunda mão que “uns belos anos” mais tarde foi emprestada ao neurologista António Damásio e nunca mais foi devolvida (“espero que ele leia isto”, ri-se Cutileiro). “Nos primórdios, em Londres, por causa da minha necessidade de sobrevivência, a fotografia foi uma muleta enorme, direi mesmo uma cadeirinha de rodas”, revela o escultor.

Depois dessa fase em que se serviu da fotografia de uma forma “utilitária”, e quando ainda faltavam alguns frames para acabar os rolos de 12 exposições, o escultor começou a fotografar os filhos dos amigos, muito mais velhos, que lhe pediam várias cópias para mandar para a família. Foram as últimas imagens com as quais ganhou dinheiro, no princípio da década de 70. A partir daí, passou a convidar amigos a posarem para sua câmara, apenas por prazer.

A propósito desta exposição, Alexandre Pomar escreve no seu blogue: "Cutileiro é um dos nomes certos da revolução fotográfica dos anos 50 e um dos poucos, um dos primeiros, que nesse tempo mostrou publicamente as suas fotografias”. Para além do escultor, apenas Fernando Lemos e a dupla Victor Palla/Costa Martins tinham mostrado fotografias em exposições individuais de galeria, lembra Pomar. Contudo, João Cutileiro não se sente parte desse grupo, não tanto pelo estilo mas mais pela distância geográfica: “eu estava em Londres e eles estavam cá e isso fazia com que eu estivesse muito à margem das preocupações deles”.

Durante anos a fio ligado à fotografia analógica, Cutileiro é hoje um defensor acérrimo da imagem digital e vai tirando partido de uma ou outra brincadeira técnica. “Como eu estou velho, podre e perro, em vez de me baixar, rodo o visor e tenho a imagem do que os meus joelhos vêem. Sinto-me à vontade no universo da fotografia digital”. O aviso não podia ser mais claro: “no futuro, nunca mais ninguém vai querer fotografar em suporte analógico. Está morto e enterrado”.

Sérgio B. Gomes
(P2, Público, 1.10.2008)

Alexandre Pomar fala sobre a exposição e sobre o percurso de João Cutileiro na fotografia aqui

João Cutileiro, Vintage nudes from the 60s and the 70s
Galeria Potássio 4, R. dos Navegantes, 16, Lisboa
Exposição: de 9 a 23 de Outubro
Leilão: 23 de Outubro, às 09h00

01 outubro, 2008

newman


Apagou-se mais um olhar magnético de Hollywood.
Vamos ter saudades dele.

30 setembro, 2008

mulheres

Tower, 2006
(© Robin Schwartz)

Nasceu um novo espaço na internet para se mostrar fotografia contemporânea feita por mulheres: Women in Photography. O projecto, apoiado pela britânica Humble Arts Foundation e liderado por Amy Elkins e Cara Phillips, pretende ser uma montra alargada para fotógrafos, editores, curadores e galeristas que pretendam seguir a recente criação fotográfica feita por mulheres. Haverá trabalhos de artistas emergentes e consagradas cada terça-feira de cada mês. É possível enviar um máximo de 5 trabalhos através do site para apreciação das curadoras.
O último portfolio disponível mostra imagens de Robin Schwartz que retrata o relacionamento burlesco-encantatório de Amelia, a filha da artista, com animais exóticos.

O site da Women in Photography está aqui
A Humble Arts Foundation aqui

29 setembro, 2008

da violência

Battered, A finn hit by a finnish-swede
(
© Harri Pälviranta)

A Finlândia não tinha uma imagem da violência

Há quem pense que falar e mostrar violência leva a mais violência. E há quem pense que falar e mostrar violência ajuda a perceber e a reduzir os episódios de violência.
Em Novembro do ano passado, um aluno matou oito pessoas numa escola de Tuusula e a Finlândia ficou estarrecida. O país deitou-se no divã para tentar descobrir onde é que falhou e para tentar perceber o que é que levou Pekka-Eric, de 18 anos, a abrir fogo sobre outros alunos e professores e sobre si naquele dia. Os media finlandeses já eram muito selectivos no noticiário sobre criminalidade, mas depois do massacre de Tuusula, que até foi muito dissecado, reduziram ao essencial os factos sobre violência com receio de um efeito mimético. Uma precaução que surtiu efeito apenas até anteontem, porque o ex-aluno Matti Saari protagonizou um massacre em tudo parecido com o de Pekka-Eric. Morreram dez pessoas, mas os factos tiveram uma cobertura minimal.
Os media finlandeses estão cheios de pudor em mostrar o fenómeno da violência, mas Harri Pälviranta não. O fotógrafo sentiu que o debate social acerca do problema estava ligeiramente coxo. Porque lhe faltava imagem, um testemunho gráfico que mostrasse frontalmente as querelas físicas que se vão multiplicando nos fins-de-semana muito regados com drogas e álcool. A Finlândia tem dos mais baixos índices de criminalidade do mundo e o país não estava habituado a ver violência real intramuros. O certo é que a violência existe, até na Finlândia. Pälviranta quis dar-lhe um corpo gráfico seguindo uma abordagem muito própria que não deve ser confundida com as normas por que se rege o fotojornalismo. Apesar de o resultado estar muito próximo das imagens repentistas do mítico fotojornalista americano Weegee – conhecido por registar topo o tipo de crimes e acidentes em Nova Iorque pouco tempo depois de terem acontecido –, este trabalho de Pälviranta (Battered, especificamente sobre cenas de pugilato) procura uma postura mais metafórica e artística que ajude a perceber as razões desta tensão que leva os finlandeses a espancarem-se uns aos outros. É uma imagem da Finlândia que não conhecíamos e que os finlandeses, se calhar preferiam não conhecer.
A originalidade deste projecto valeu a Harri Pälviranta o prémio Descubrimientos do PHotoEspaña 2007. Não foi a primeira vez que o fotógrafo finlandês tratou o tema. Entre 1999 e 2001 concretizou On Violence, que mostra a interacção humana com as armas (a Finlândia é um dos países com mais armas entre a população), e Badscapes que capta paisagens bucólicas onde outrora se travaram violentas batalhas. Prepara actualmente um trabalho sobre a quantidade colossal de armas registadas na Finlândia em relação ao reduzido número de habitantes do país.

Sérgio B. Gomes
(P2, 25.09.2008)

Battered, Outside a grill
(© Harri Pälviranta)

28 setembro, 2008

leilão 2

Blow Up, Hampstead Heath, 1965
(© João Cutileiro)


A Potássio 4 agendou para o dia 23 de Outubro, em Lisboa, um leilão de fotografias da autoria de João Cutileiro. As imagens que vão à praça foram captadas pelo escultor entre finais dos anos 50 e meados dos anos 70. O lucro da venda reverterá a favor da Abraço, a associação de apoio a pessoas afectadas pelo VIH/Sida.

leilão 1

Edward Steichen, Heavy Roses, Voulangis, França, 1914

A editora Aperture está a leiloar algumas fotografias e livros do seu espólio.
A venda, via eBay, pode ser seguida aqui.

26 setembro, 2008

/uma fotografia, um nome\

José Manuel Rodrigues, Máscaras

Habitualmente realço em José Manuel Rodrigues a especificidade simbólica e alegórica das suas fotografias: aquele iniciático enredamento do feminino-masculino, os signos dos quatro elementos, a imponderabilidade temporal das suas imagens sempre marcadas pela transfiguração.

Esta imagem é relativamente recente e vejo nela uma síntese do que a fotografia representa hoje e das polémicas que tem suscitado. Porque afinal o fotógrafo, que foi fundador e determinante na Perspectief holandesa, sempre se mostrou como um experimentador fotográfico, precisamente naquela linha que Jeff Wall determinava para a fotografia actual, como reveladora da consciência histórica do meio técnico e, naturalmente, do autor.

Nesta produção, as máscaras são o motivo. O que revela logo o nó górdio que é a aparência fotográfica. Diz quem sabe que imago é o duplo do vivente, mas a sua máscara funerária de cera, obtida post-mortem é, e já não é. Só representa. Em todo o caso, como duplo é também a figura tutelar, suficientemente apaziguadora quando, ao que diz a religião romana, se tornar um terrível espírito severo e infernal.

A imagem fotográfica, nomeadamente o retrato, ganhou essa capacidade de apropriação, guardamo-la com a posse que não conseguimos obter de quem a representa. Aqui, nesta imagem, o fotógrafo, fiel ao seu estilo, resguarda a geometria da sua concepção do real, utilizando o plano que o divide equatorialmente; consegue assim dar dessa realidade a confluência do ser e do não ser, do equilíbrio e do caos, do uno e do múltiplo, aquilo a que chamamos harmonia.

Mas no primeiro plano vemos um guiador de bicicleta que se enleia com o seu reflexo, entrosando-se com o que parece uma cadeira de jardim e uma das duas figuras reflectidas no vidro do que parece ser uma montra. Num plano atrás de nós, uma fila de bicicletas estacionam no passeio que antecede a série de casas truncadas. Tudo cria uma sucessão de planos impossíveis do dentro e do fora. Nós estamos no lugar da câmara, talvez se vejam detalhes do saco do fotógrafo, no passeio, um outro passeio que não vemos; estamos provavelmente bem perto da bicicleta que reflecte o seu guiador no vidro. É um dos efeitos da reflexão teórica que Wall introduziu com a sua imagem Retrato para Mulheres, onde produz a versão fotográfica e, por isso, contemporânea, remake de Bar nas Folies-Bergère, de Manet.

Temos aqui o vidro que permite esta concepção de herança e actualização da perspectiva pictórica, que as câmaras reproduzem. A transparência da fotografia, porque dizem os realistas, a imagem se cola ao real, desaparece: olhamos, no vidro, o que está por trás de nós e é com esforço que entendemos o que se passa e com esforço que compreendemos que ficou anulado o plano pictórico binocular que o meio, (a câmara) foi industriado para nos dar, bem ao modo da perspectiva do Renascimento, onde caminhamos pelo seu interior.

Aqui reflecte-se o exterior, sobrepondo-se ao interior, sabendo que tudo se passa por trás de nós, estamos fora. A materialidade mais realista, as máscaras, são máscaras, aparência. A imagem fotográfica poderia ser transparente, mas as convenções da prática fotográfica e a utilização da câmara, tornam-na opaca. O que aqui se desmonta é a convenção da foto como janela aberta sobre o mundo, o desengano sobre a transparência da fotografia.

Mas um olhar estético deixa-se cativar pelo plano pictórico. Deixamo-nos seduzir pelo que na imagem é convocado. A sedução da imagem, interrompendo-nos, faz-nos debruçar sobre as contradições da transparência da fotografia, poderia ser um bordão pedagógico. Os brancos luminosos dão-lhe a força da caixa de luz, a linha horizontal impede a anomia, o desequilíbrio; mas passamos logo à inquirição, ao problema da sua transparência. Sabemos, hoje, que a imagem artística é válida, quando revela a consciência histórica do meio utilizado. O olhar estético não é fruidor de forma passiva.

Mas o que fica desta imagem, quando a esquecemos, são as máscaras, iguais e diferentes, aterradoras se as vemos e intuímos a força desestabilizadora da sua presença sequencial.
São elas que ficam, que voltam, que prometem. As convenções da prática fotográfica fazem a opacidade da fotografia, os conceitos de arte e de belo tornaram-se, ao que se diz, uma convenção. Mas guardo na memória esta imagem pela evocação das máscaras, chamei-a por pulsão. A desmistificação do nosso modo de olhar é, naturalmente, um corolário perceptivo, um prazer menor.

Maria do Carmo Serén

25 setembro, 2008

Encontros adiados

Cheng Bao Cheng, Encontros da Imagem de Braga 2006

A edição deste ano dos Encontros da Imagem de Braga foi adiada por causa da falta de apoio financeiro do Ministério da Cultura. Previsto para arrancar no dia 27, o único festival de fotografia de âmbito nacional e internacional ainda em actividade em Portugal não conseguiu reunir as condições mínimas necessárias para concretizar a programação em torno do tema "Fronteiras do Género", que pretendia desencadear o debate sobre as práticas artísticas femininas.

Um comunicado divulgado ontem à noite pela organização dos Encontros afirma que a Tutela da Cultura alimentou durante "vários" meses "expectativas positivas" sobre o apoio que, em meados de Agosto, acabou por negar. Em declarações ao PÚBLICO, Rui Prata, um dos principais rostos do festival, classifica como "escandaloso" este volte-face e lamenta que "haja dinheiro para acontecimentos como a Experimenta (a bienal de design)" e não exista orçamento para os Encontros de Fotografia. "Sentimo-nos marginalizados. Olham para os Encontros como um acontecimento de província", protesta.

Com este adiamento "frustam-se expectativas dos artistas participantes, instituições envolvidas e, naturalmente, do público", reforça o comunicado.

Apesar deste desfecho, Rui Prata ainda pretende concretizar a programação que foi publicamente anunciada em Junho. A organização pediu uma audiência ao ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro, para lhe entregar "um dossier com os artigos sobre os Encontros publicados ao longo de 20 anos em jornais nacionais e internacionais" e para tentar convencê-lo a repor o apoio financeiro ao festival. Se essa ajuda se concretizar, o objectivo é inaugurar os Encontros no dia 8 de Março de 2009, Dia Internacional da Mulher.

A intenção de continuar sem a verba do Ministério chegou a ser manifestada, mas o festival ficaria limitado às exposições produzidas por artistas portugueses, um cenário que agora significa "um desvirtuar profundo do espírito dos Encontros: a ausência de partilha internacional, de acções lúdicas, formativas e reflectivas". "Achámos por bem não fazer apenas pelo fazer e continuamos a acreditar que ainda é possível um retrocesso por parte do Ministério, confiantes que a programação desejada venha a acontecer mais tarde", refere o texto do comunicado. No sábado, dia previsto para a inauguração, será lançada uma petição online a favor do apoio aos Encontros de Braga que este ano cumpriam a sua 19ª edição. A programação deste ano previa exposições em nove espaços da cidade.

Sérgio B. Gomes
(Público Online, 24.09.2008)

23 setembro, 2008

GomesMartinsPalma

Edgar Martins, Topologies

Foram hoje divulgados os artistas seleccionados para a fase final do prémio BES Photo. André Gomes, Edgar Martins e Luís Palma vão disputar o maior galardão de fotografia (25 mil euros) atribuído em Portugal. O júri de selecção foi composto pelos críticos de arte Delfim Sardo, Miguel von Hafe Pérez e Nuno Crespo que decidiram por unanimidade escolher estes três artistas por exposições apresentadas em 2007.
André Gomes foi escolhido pela exposição Macha, no Teatro Municipal de Almada (5 a 27 de Maio de 2007) e no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro de 2007), Edgar Martins pela exposição Topologies, no Centro de Artes Visuais, Coimbra (3 de Novembro - 28 de Fevereiro de 2007) e Luís Palma pela exposição Territorialidade, Galeria Presença, Porto (7 de Janeiro a 23 de Fevereiro 2008).
O júri justificou as suas escolhas assim:
André Gomes pela "consistência de um longo percurso no qual a qualidade narrativa, a relação com a literatura e a teatralidade, bem como um raro sentido de relação com a transcendência, conferem uma marcante originalidade ao conjunto da obra";
Edgar Martins pelo "rigor da sua obra e o entendimento da fotografia como um meio artístico complexo que o artista tem vinculado a uma compreensão da paisagem nas suas mais diversas acepções";
Luís Palma pela "solidez do seu entendimento da relação entre fotografia e arquitectura, bem como a forma como a paisagem urbana tem vindo a encontrar no seu trabalho um mapeamento exemplar".
A exposição BES Photo será apresentada em Março de 2009 no Museu Colecção Berardo, que, desde o ano passado, organiza o prémio com o Banco Espírito Santo. O júri que escolherá o vencedor terá uma composição de âmbito internacional que ainda não foi divulgada.
Os vencedores das edições anteriores foram:
Helena Almeida (2004)
José Luís Neto (2005)
Daniel Blaufuks (2006)
Miguel Soares (2007)

sem máquina

André Kertész, Hungria, 1924

O fotógrafo Mário Pires organizou em Lisboa um workshop sobre estética fotográfica onde se pretende "fomentar a criação de hábitos de reflexão e crítica, e o enriquecimento das perspectivas criativas" de quem se dedica ao labor fotográfico numa fase inicial ("fotógrafos amadores, estudantes e todos os adultos com interesse na expressão fotográfica"). Para participar, não é preciso ter máquina. As inscrições podem ser feitas até ao dia 3 de Outubro.
As informações práticas, programa e módulos estão aqui.

01 setembro, 2008

férias

(© Martin Parr/Magnum Photos)

Vou de férias. E este blogue também. Voltamos lá para meados de Setembro.

31 agosto, 2008

valores humanos

In the kitchen during a house-party in Tehran
(© Olivia Arthur)


Os trabalhos dos 10 fotógrafos finalistas do Prémio PHotoEspaña OjodePez Volkswagen de Valores Humanos 2008 vão passar por várias lojas Fnac em Portugal. A primeira exposição é inaugurada no dia 11 de Setembro na Fnac Cascais Shopping. A inglesa Olivia Arthur venceu a primeira edição com o projecto Iran: Beyond the Veil. O júri foi composto por Tina Ahrens (editora gráfica), Gigi Gianuzzi (editor), Alberto García (responsável de publicidade da Volkswagen Espanha), Arianna Rinaldo (chefe de redacção da OjodePez) e Sérgio Mah (comissário PHotoEspaña). O espanhol Matias Costa foi reconhecido com uma menção honrosa com o trabalho Cargo. Os outros fotógrafos finalistas foram Daniel Stier, Frank Rohe, Johann Rousselot, Juergen Stein, Krisanne Johnson, Maziar Moradi, Rena Efendi e Stefano De Luigi.
Olivia Arthur, que foi recentemente nomeada para fotógrafa da agência Magnum, recebeu um prémio de 6 mil euros e vai ter uma exposição individual no PHotoEspaña 2009. Tanto o trabalho vencedor como os finalistas terão os seus trabalhos publicados no número extra de Outono de 2008 da revista OjodePez.
Para além do Cascais Shopping, a exposição poderá ser vista nas lojas do Norte Shopping (Porto), Braga, Vasco da Gama (Lisboa) e Viseu.

no chão

(© Kim Kyung-Hoon/Reuters)

É tão diferente o chão que estes dois corpos beijam. É tão desigual a causa que os deitou por terra. Usain Bolt olha para o céu em êxtase, coberto de glória. O monge tibetano esfrega a cara no alcatrão húmido em desespero, coberto de humilhação. É sempre comovente e extraordinária a multiplicidade de emoções que o mesmo acontecimento pode gerar.


(© Manpreet Romana/AFP)

30 agosto, 2008

C



A Fnac vai distribuir em Portugal a C, uma das mais exclusivas revistas de fotografia da actualidade. O lançamento oficial está agendado para 25 de Setembro (Fnac Colombo), dia em que será apresentado o número 7 da revista e uma exposição de 26 fotografias de 14 artistas que passaram por todas as edições anteriores: Amy Stein (EUA), Aniu (China), António Girbés (Espanha), Duarte Amaral Netto (Portugal), Flore-Aël Surun (França), Juan Manuel Castro Prieto (Espanha), Julia Fullerton-Batten (Alemanha), Kyungwood Chun (Coreia do Sul), Marcos López (Argentina), Marie Taillefer (França), Mitra Tabrizian (Irão), Sun Hongbin (China), Wang Qingsong (China) e Yasumasa Morimura (Japão).

Para folhear os últimos seis números da c clique aqui

(© Flore-Aël Surun)

Perpignan - 20 anos

(© Alexandra Boulat/VII)

Fotografia artística não entra, é isso que o Visa Pour L’Image diz, curto e grosso, no regulamento: “Gostaríamos de lembrar que somos um festival internacional de fotojornalismo. Lidamos com acontecimentos actuais e não estamos interessados em fotografia artística.”
Não é assim tão simples, claro – Paolo Pellegrin, por exemplo, está aqui como está nos Rencontres d’Arles, outro festival francês, consagrado à fotografia artística por excelência –, mas a fotógrafa portuguesa Sandra Rocha, do colectivo Kameraphoto (que desde 2003 está presente na Semana Profissional do Visa Pour L’Image, uma espécie de FIL com 250 agências e associações de fotógrafos de mais de 60 países), garante que o espírito é “fotojornalismo puro e duro”.
Jean-François Leroy, o director deste Festival Internacional de Fotojornalismo que anualmente se realiza em Perpignan, no sul de França, costuma dizer que programa o Visa Pour L’Image como se editasse um grande jornal, por isso é um filtro privilegiado para olhar o mundo e, em particular, para as suas convulsões mais recentes. Nas 30 exposições desta edição é inevitável encontrar o Iraque ou o mortífero terramoto que abalou a China em Maio, mas também há trabalhos de fôlego sobre acontecimentos e casos menos conhecidos ou ignorados – histórias como a da humanitária do Burundi, Marguerite Barankitse, que criou um oásis no inferno para milhares de crianças órfãs, ou os gangs de São Salvador.
Perpignan é também um lugar onde os fotojornalistas podem pendurar as suas imagens na parede sem meter a mão na consciência – a migração do fotojornalismo para as galerias, face ao desinteresse ou constrangimentos da imprensa, é uma realidade cada vez maior, mas isso constitui um problema ético para muitos profissionais.
Faz 20 anos o festival – o tempo voa, diz Jean-François Leroy, mas nota-se que foi há muito, muito tempo. “Parece que foi ontem que dissemos pela primeira vez: 'Vamos montar um festival só de fotojornalismo.’ As pessoas riram e gozaram: 'Estão malucos! Quem pensam que são?” Não queriam acreditar: 'Vai ser um desastre’.”

(P2, Público, 30.08.2008)

O programa do festival está aqui
A jornalista do Público Kathleen Gomes falou com Paolo Pellegrin, um dos fotógrafos em destaque no festival. Para ler essa entrevista clique aqui
Se quiser descarregar uma entrevista com o director, Jean-François Leroy, clique aqui

La Vida Loca
(© Christian Poveda/Distribution Vu)


20º Visa pour L’Image
Perpignan
De 30 de Agosto a 14 de Setembro

29 agosto, 2008

peregrinação

Xangai, China, 2006
(© Virgílio Ferreira)


Desde Julho que Virgílio Ferreira mostra Daily Pilgrims (Peregrinos do Quotidiano) no Centro Português de Fotografia. O conjunto revela paisagens urbanas asiáticas habitadas por personagens em trânsito fantasmagóricas, paradoxalmente sempre muito presentes. O catálogo da exposição, a cargo do autor, ficará como um dos melhores livros de fotografia do ano no escasso mercado editorial português. O design responde acertadamente ao formato das imagens e ao espírito intimista e ao mesmo tempo grandiloquente do trabalho.

Maria do Carmo Serén escreveu este texto para a apresentação da mostra:

Peregrinos do Quotidiano é um dos últimos projectos de Virgílio Ferreira que o levou a percorrer as cidades globalizadas asiáticas como Pequim, Xangai, Hong-Kong, Macau, Tóquio e Bangkok. O objectivo declarado liga-se com essa figura da Sociologia que lhe dá o título: o universo que se adivinha nos gestos e actividades dos habitantes urbanos do mundo em rede mediática.
Tudo nos surge numa perspectiva fotográfica muito actual, exuberância de cor em imagens directas, sem trabalho digital, debitando as alegorias contemporâneas do olhar fotográfico, como o desfocado a sobre-exposição e os 'timings' dessa mesma exposição, o objecto fotográfico fragmentário e ocultado, os contrastes entre a nitidez do fundo ou do primeiro plano e, acima de tudo, a composição que procura representar o que fica no olhar errante. Trata-se, pois, de um trabalho de autor que tem o mérito de deixar uma forte impressão sobre essas duas realidades coincidentes: a globalização patente no vasto continente asiático, (cidades pós-modernas, preenchidas pela informação) e a emergência multicultural de características orientais que não deixam perder o espírito da festa e da fundação: a ornamentação, um certo excesso da cor, a profusão do dourado, um ou outro traço cultural.
E, naturalmente, a solidão que matiza as metrópoles da contemporaneidade, mais nítida ainda porque temos de a identificar num rosto na penumbra, no alheamento dos gestos, sem velhas estratégias de abandono e melancolia.

>>post relacionado:
>/uma fotografia, um nome\

Xangai, China, 2006
(© Virgílio Ferreira)

28 agosto, 2008

da guerra



Memory of Fire: the War of Images and Images of War é o tema da Brighton Photo Biennial 2008 que, entre 3 de Outubro e 16 de Novembro, discutirá a criação, uso, circulação e estatuto das imagens fotográficas de guerra nas sociedades contemporâneas. Dez exposições da bienal serão comissariadas pelo escritor e crítico Julian Stallabrass que analisará a maneira como, desde o conflito do Vietname até aos nossos dias, as fotografias de guerra foram condicionadas pelas mudanças sociais e políticas. Entre fotografia, vídeo e material distribuído online, estarão representados fotojornalistas, artistas plásticos e fotógrafos amadores.
O site da Brighton Photo Biennial 2008 funciona numa lógica de blogue e permite debater o tema e os trabalhos propostos. Aqui

27 agosto, 2008

férias com Martin



Está indeciso entre o Pulo do Lobo e Benidorm? Águas bravas ou águas calmas? Areia fina ou areia grossa? Não sabe que rumo tomar nas suas férias? Sugestão: vá para a Ilha de Wight com Martin Parr aprender a encontrar a fealdade na beleza e o horror no lazer.
A empresa de turismo cultural The School of Life convenceu o fotógrafo da Magnum a explicar o que é que o atraiu tanto num dos grandes destinos de férias dos ingleses. Entre 19 e 21 de Setembro, os participantes ficarão alojados num dos hoteis preferidos de Parr e farão com ele visitas aos principais pontos turísticos da ilha. Pelo caminho, o fotógrafo inglês falará do seu trabalho e das suas famosas colecções de postais chatos.
Para saber mais sobre as férias com Martin Parr clique aqui

The Isle of Wight is a living theme park, like stepping back into an England of 20 or 30 years ago.

Martin Parr

Goldblatt

David Goldblatt em Serralves
(Paulo Pimenta/Público)


E comecei a gostar da língua. Isto colocou-me num conflito: vinha uma pessoa à loja que queria comprar um fato, uma camisa, meias, sapatos e eu tinha de a atender. E sabia que ela era racista, mas contudo, não conseguia deixar de gostar dela. Tinha necessidade de saber as razões disto e assim comecei a tirar fotografias de algumas destas pessoas.

O crítico do Público Óscar Faria falou com o fotógrafo sul-africano David Goldblatt a propósito da exposição Intersecções Intersectadas, inaugurada recentemente no Museu de Serralves, no Porto.
O resultado dessa conversa está aqui

Intersecções Intersectadas, de David Goldblatt
Museu de Serralves, Porto
Até
12 de Outubro

pelo bairro

(© João Santa Rita)

Esta é a fotografia vencedora da II Maratona de Fotografia Digital de Alfama. O concurso, organizado pela Associação do Património e População de Alfama, segue uma lógica temática à volta de vários aspectos do bairro. Foram submetidas a apreciação mais de 1100 fotografias captadas por 94 participantes que chegaram à fase final. A imagem de João Santa Rita, vencedora na categoria de Melhor Fotografia Individual, foi tirada dentro da colectividade Magalhães Lima e sublinha dois adjectivos em fricção que se podem colar a Alfama: folclórico; lânguido.

26 agosto, 2008

para Évora

(© José Manuel Rodrigues)


Conhecíamos mal o trabalho de José Manuel Rodrigues. Desconfiávamos disso, mas agora temos a certeza. Sobretudo depois de ver a exposição antológica que lhe é dedicada e que se pode visitar no Palácio da Inquisição na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora. Revelam-se quase quatro décadas de labor fotográfico cruzado com doses generosas de criações experimentais e performativas realizadas maioritariamente durante os anos de Amesterdão.
Conhecíamos mal o trabalho de José Manuel Rodrigues e se calhar ainda não conhecemos bem. Ou melhor, conhecíamos mal mas queremos conhecer ainda mais. É essa uma das sensações com que se sai do belíssimo e austero Palácio da Inquisição, um espaço escolhido a dedo para dar abrigo a uma das melhores exposições de fotografia que este ano já viu.
À medida que as salas vão ficando para trás, descobrimos que José Manuel Rodrigues não gosta de sacralizar o negativo, a fotografia e o fotográfico. Pelo contrário, procura neles uma linguagem e um modo de expressão que usa para criar narrativas fotográficas, não necessariamente em fotografia (ou não apenas em fotografia). Há jogos sensoriais, de identidade, de matéria e de cor. Há ironia e desconstrução da ideia de espaço. Há intimidade e experiência (mãe do saber). E há um encontro perfeito - cada vez mais raro - entre um lugar e uma obra artística. A mão de Rui Oliveira, comissário de Antologia Experimental, soube guiar na perfeição cada trabalho para cada parede, cada corredor, cada sala. São memoráveis os diálogos entre imagem fotográfica e projecto museológico criados na Sala do Templo (In Situ), na Sala da Catedral (Vista) e na Sala do Tribunal (Lugar).
O que se pode ver em Évora não é só o percurso pessoal de José Manuel Rodrigues rumo à maturidade enquanto fotógrafo. É também a expressão de um artista que soube beber de um tempo e de um lugar particulares, em agitação criativa e em desalinho institucional. No fim, percebemos que José Manuel Rodrigues é um fotógrafo que só agora começamos a conhecer.
Notícia de última hora: a exposição foi prolongada até final de Outubro.
Aviso: por esta altura o calor aperta na planície. É melhor ir pela fresquinha.

A crítica que Luísa Soares Oliveira escreveu no Ípsilon desta semana está aqui
O Arte Photographica revela em primeira mão o texto de introdução do catálogo (ainda no prelo) assinado por Rui Oliveira. Aqui

Lugar, Sala do Tribunal

Antologia Experimental, de José Manuel Rodrigues
Palácio da Inquisição, Fundação Eugénio de Almeida, Évora
Todos os dias, das 9h30 às 18h30
Até 30 de Outubro

25 agosto, 2008

HCB 2

Henri Cartier-Bresson
(Charles Platiau/Reuters)


Pedro Mexia escreveu no P2 sobre Henri Cartier-Bresson à boleia do centenário do mestre que se cumpriu na sexta-feira. Em o Príncipe Incógnito Mexia traça um breve percurso profissional de HCB e manifesta um fascínio pelos retratos bressonianos.

O texto de Pedro Mexia está aqui

23 agosto, 2008


entre aspas

Miguel Santos, da série Love Forbids us to Love, 2007
(
© Miguel Santos, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa)

tous les voyages sont le début d`un retour aux sources.
un retour aux sources est le début de tous les voyages.


Al Berto, Dispersos, Assírio & Alvim

22 agosto, 2008

HCB

Henri Cartier-Bresson

Henri Cartier-Bresson nasceu há 100 anos. O mestre detestava comemorações e, se fosse vivo, era capaz de não achar grande piada à data, com dezenas de pessoas a lembrá-lo que tinha uma idade com três dígitos. Quem também hoje foi muito discreta foi a Fundação Henri Cartier-Bresson, criada pelo fotógrafo em 2003, em Paris. Mas, a partir de Setembro, promete uma homenagem "adequada". A começar pela exposição Henri Cartier-Bresson - Walker Evans, que recordará o trabalho que os dois mestres desenvolveram lado-a-lado nos Estados Unidos, entre 1929 e 1947. Em Outubro começa um colóquio internacional sobre a figura e obra de um dos homens que moldou boa parte da imagem que temos do século XX. O fotógrafo francês morreu no dia 3 de Agosto de 2004, com 95 anos.

Há mais informações sobre a exposição do centenário aqui
O programa completo do colóquio internacional HCB está aqui

Henri Cartier-Bresson, Itália

20 agosto, 2008

Portfolio



Geórgia antes das bombas ' Guillaume Pazat

Era um conflito em estado latente até que alguém ordenasse uns disparos de artilharia mais pesada, como aconteceu no dia 8 de Agosto, quando o Governo da Geórgia decidiu lançar uma operação militar para recuperar o controlo da região separatista da Ossétia do Sul, a começar pela cidade de Tskhinvali. No dia seguinte combatia-se também no vale de Kodori, na Abkházia, outro território georgiano com ambições independentistas apoiado por Moscovo. Moscovo que, dois dias depois, entrou na história desta guerra com bombardeamentos pesados nas cidades de Gori e Poti. Mais tarde, as bombas voaram também sobre Tbilissi e os tanques russos chegaram a rumar à capital. Até que a diplomacia veio deitar um pouco de água na fervura e agora, depois de demonstrar que chega ao coração do poder georgiano num abrir e fechar de olhos, o Exército russo promete sair do país. É uma declaração necessária para os diplomatas tentarem mostrar algum serviço, mas o certo é que as lagartas dos tanques russos parecem muito mais enferrujadas a sair da Geórgia do que a entrar. Um cenário que deixa antever o pior para a região do Cáucaso que precisa de muitas coisas, menos de mais uma guerra.
O fotógrafo Guillaume Pazat (kameraPhoto) andou por várias cidades da Geórgia em Novembro do ano passado e decidiu partilhar com os leitores do Arte Photographica uma parte desse trabalho. Temos a imagem de um país ora nebuloso, ora de céu aberto, mas sempre sem grandes sorrisos. De Gori, a cidade mais fustigada pela aviação e pela artilharia russas, vem o espectro de Estaline. De Gori vem Estaline, porque foi Gori que o viu nascer. Pelo caminho, rebanhos de ovelhas e um cão que as guarda e se confunde com elas. Depois há sempre a bandeira a espicaçar o nacionalismo. Às vezes é levada em ombros, esticada no ar, em procissão, mesmo que as vozes em massa já nem se ouçam. Outras, nem sabemos bem se está lá. O que vemos é um mastro despido a furar a terra e a dividir o céu.

19 agosto, 2008

polaróides até ao fim

31.03.79

Há pessoas determinadas. Jamie Livingstone era uma delas. Um belo dia fixou duas amigas numa polaróide e depois desse momento decidiu que haveria de fazer uma fotografia por dia. E fez. Até morrer de cancro, em Outubro de 1997. A totalidade desse puzzle de vida foi parar ao despretensioso site http://photooftheday.hughcrawford.com/ organizado por dois amigos de Livingstone com o objectivo de poderem escolher fotografias para uma exposição onde quer que se encontrassem. Quando se está na Internet o mais provável é ser encontrado. Um blogger australiano encontrou a página com as fotografias de Livingstone e os retalhos da vida deste fotógrafo e realizador nova-iorquino espalharam-se pela Rede.

Inês Nadais escreveu sobre a história de Jamie Livingstone aqui
Estes pedaços de 18 anos da vida de Livingstone são públicos.
Se quiser vê-los pode espreitar por aqui

25.10.97

100

Julia Margaret Cameron, Mrs. Herbert Duckworth, 1867
(The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)


Uma visita à exposição Framing a Century: Master Photographers, 1840-1940, patente no Metropolitan Museum de Nova Iorque, motivou uma crónica de António Muñoz Molina no El País (Babelia) que vale muito a pena ler.
A exposição do Met conta os primeiros 100 anos da história da fotografia através de trabalhos de figuras obrigatórias como Gustave le Gray, Roger Fenton, Carleton Watkins, William Henry Fox Talbot, Julia Margaret Cameron, Nadar, Édouard Baldus, Charles Marville, Eugène Atget, Walker Evans, Man Ray, Henri Cartier-Bresson e Brassaï.

O texto Una línea de sombra pode ser lido aqui
As informações sobre a exposição estão aqui

 
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