17 julho, 2008

Pesadelo

Soldado americano atingido por um sniper em Karmah, Iraque, em Outubro de 2006
(© João Silva/The New York Times)


A Galeria Diário de Notícias, em Lisboa, inaugura hoje a exposição Pesadelo, do fotojornalista João Silva que trabalha habitualmente para o New York Times.
João Silva nasceu em Lisboa, em 1966, viveu em Moçambique até 1976 e depois emigrou para a África do Sul. Em 2005, ganhou o 2º prémio na categoria Temas Contemporâneos do World Press Photo. No ano passado, foi reconhecido com uma menção honrosa na categoria Spot News, por um portfólio publicado no New York Times sobre o ataque de um sniper a uma patrulha do Exército norte-americano, em Karmah, no Iraque. É considerado pelos seus pares como um dos melhores fotógrafos de conflitos.

16 julho, 2008

Prix Pictet

Edward Burtynksky, Nickel Tailings #36, da série Tailings, Sudbury, Ontario
(
© Edward Burtynksky)

O banco suíço Pictet & Cie e o diário Financial Times lançaram um prémio de fotografia que dará ao vencedor uma soma considerável: cem mil francos suíços (cerca de 60 mil euros), talvez a maior recompensa do mundo no campo da fotografia.
O Prix Pictet apresenta-se como o "o primeiro prémio de fotografia mundial centrado no tema da sustentabilidade", onde a temática ligada à água será protagonista. No último fim-de-semana foi revelada uma shortlist de 18 fotógrafos, entre mais de 200 candidatos. A selecção foi feita por um painel global de 49 pessoas, entre as quais Jorge Molder, fotógrafo e director do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Os nomes escolhidos para a fase final foram estes:
Benoit Aquin, Edward Burtynksky, Jesus Abad Colorado, Thomas Joshua Cooper, Sebastian Copeland, Christian Cravo, Lynn Davis, Reza Deghati, Susan Derges, Malcolm Hutcheson, Chris Jordan, Carl De Keyzer, David Maisel, Mary Mattingly, Robert Polidori, Roman Signer, Jules Spinatsch, Munem Wasif.

Deste grupo sairá um grande vencedor e um segundo premiado com uma bolsa de 40 mil francos suíços (cerca de 25 mil euros) para o aprofundamento de um trabalho relacionado com o tema água. O anúncio será feito no dia 30 de Outubro, no Palais de Tokyo, em Paris, onde as obras dos finalistas estarão em exposição até 8 de Novembro. O prémio Nobel da Paz e antigo secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan foi escolhido como presidente honorário da primeira edição do Prix Pictet.

O júri de selecção é composto por:

>>Francis Hodgson - presidente, responsável da secção de fotografia da leiloeira Sotheby’s
>>Peter Aspden - jornalista de arte do Financial Times
>>Régis Durand - consultor, crítico de arte, e antigo director do centro de arte Jeu de Paume
>>Leo Johnson - co-fundador da Sustainable Finance
>>Abbas Kiarostami - realizador e fotógrafo
>>Richard Misrach - fotógrafo
>>Loa Haagen Pictet - consultor de arte e curador do Pictet & Cie

(...) we didn't want to favour journalism over art, and we didn't really mind whether the authors thought of themselves as documentary photographers, autobiographers, landscape artists or anything else. We wanted powerful messages with the ring of truth.

Francis Hodgson, Financial Times (o texto completo está aqui)

Para ver o trabalho de cada um dos artistas clique aqui.


Christin Cravo, da série Waters of Hope, Haiti, Sodo, 2001
(
© Christian Cravo)

Shahab-3 + 1


Iran missile

Imagem editada AFP/HO/Sepah News
Imagem "original"
AFP/HO/Jamejam Online

Na semana passada, os Guardas da Revolução do Exército iraniano quiseram mostrar ao mundo que os seus mísseis Shahab-3 podem chegar longe, muito longe. Uma lonjura tamanha que pode ir até Israel. Como convém, estas demonstrações de força do tipo "os nossos vão tão longe quanto os vossos" são sempre acompanhadas por uma campanha de propaganda de imagem. No caso das imagens fotográficas, parece que o resultado final não foi bem aquilo que os Guardas da Revolução desejavam. Os projécteis disparados não eram suficientes. Havia ali um que tinha ficado em terra, ou seja ficou mal na fotografia. E como repetir uma brincadeira daquelas ainda deve custar alguma coisa, recorreu-se ao virtuosismo do Photoshop para fazer aparecer e desaparecer pormenores de composição. O embuste foi descoberto pela agência de notícias francesa AFP que falou com especialistas habituados a ligar com imagens falsas. A brincadeira do "criativo" do Exército iraniano espalhou-se pela Net e fez nascer uma onda de imagens que parodia esta manobra manhosa "à la Hollywood" do disparo dos Shahab-3.

As minhas preferidas são estas:


15 julho, 2008

/uma fotografia, um nome\

In The Idea of South
(© Bruno Santos)

É um patamar qualquer, de um prédio qualquer com rés-do-chão e três andares de apartamentos. À esquerda, afirma-se um interruptor com restos de tinta. Mas o que dá o sentido periférico ao fragmento fotográfico são as caixas de correio erodidas, deixando ver a publicidade personalizada: uma lanterna de atenção, com a sua numeração de pintura caseira e irregular.

É isto. Uma parte decisiva da cidade não é representável pela imagem e, por isso mesmo, mantém-se imperceptível. Não vemos o feixe de complexos múltiplos, fluidos e metafóricos que definem uma cidade, que resistem a uma interpretação total no campo do visível. Porque, antes do mais, da cidade vemos apenas a sua pele, a superfície das coisas; na fotografia e na vida as formas que se desenham e contornamos com o olhar são apenas um limite, uma frágil exterioridade, a orla de qualquer coisa que se recorta no caos do que é. A cidade, porque se transmuta, se altera, porque o tempo, os homens e os acontecimentos fluem num vaivém do quotidiano, é essa agitação opaca de que falava o filósofo De Certeau.

Porque o interior destes burgos que perderam a muralha não pode ser apreendido na sua intimidade, no que ele tem de realidade. Só há intimidade nos dispositivos simbólicos, nos rituais das tribos urbanas, nas mitologias que explicam o quotidiano; a cidade é, decisivamente, esse conjunto de universos regrados ou anómicos dos seus habitantes. E essa complexidade de regras, gestos e saberes, as práticas e os olhares, entretece e caracteriza os significados das coisas e dos aconteceres e todas essas práticas não se registam nas imagens, são o seu lado opaco.

E, por tudo isso, se diz que a cidade é uma máquina de perda de sentido. Por tudo isso não podemos dar significados à amálgama indecisa e mutante da sua multiplicação semiótica.

Frente ao paradoxo do conhecer só ser possível pela união do visível e do invisível, o fotógrafo empresta sentido, usa os signos ou as metáforas. Tem de identificar e isolar os signos mais ricos que lhe são mais expressivos no seu catálogo de referências e transforma essa fragmentação sem sentido num quadro homogéneo. Então Bruno Santos dá-nos o prédio de cimento armado de que não vemos mais do que um apontamento da estrutura de base, usando o apelativo sortilégio das caixas do correio. As famílias alinham-se na nossa evocação vazia, o desleixo e a publicidade sugerem-nos, (impõem-nos?) a ideia que temos de lugar periférico e sentimos que há uma caixa que nos olha na sua ausência de significado imediato, o R/C B: podemos imaginar conflitos de vizinhança, destemperanças juvenis ou de bando, rivalidades muitas. E, porque Bruno Santos nos tem habituado às suas pesquisas de lugares periféricos do Sul europeu, aceitamos o sistema ordenador que é a noção de periferia . É como habitação periférica, desertificada nas suas horas diurnas, que a imagem nos olha.

E, no entanto, também sabemos que há em cada imagem uma zona cega: cada olhar leva consigo outras imagens, outras cidades, (Van der Elsken a fotografar Paris como se fora Amesterdão, Klein ou Frank fazendo europeias as suas cidades americanas, Plossu fotografando uma cidade que já não existe…) Na sua solidão de flâneur, o fotógrafo constitui em cada imagem um contexto que o ultrapassa. Não damos sentido ao modernismo das estruturas, que não joga com o empedrado do pavimento, é o invisível sugerido pelas caixas do correio que constitui o enigma da cidade: os pontos cegos que a cidade produz e Bruno Santos soube recriar.

Maria do Carmo Serén

Bruno Santos é fotojornalista em Lisboa; as suas séries de fotografia de autor abordam habitualmente a identidade periférica.

14 julho, 2008

saldos Aperture

Invasion 68: Prague, fotografias de Josef Koudelka

A Aperture está a fazer saldos de Verão. E não são só tamanhos grandes. Há uma boa selecção de livros com 30 por cento de desconto e edições limitadas de fotografias com 15 por cento.

Está tudo aqui.

Things as They Are: Photojournalism in Context Since 1955 (Paperback)
com ensaios de Mary Panzer e Christian Caujolle

11 julho, 2008

*À conversa com...



...Flor Garduño

Quando ainda estavam frescas na memória as imagens apresentadas no Porto (Testemunhos do Tempo) no início deste ano, Flor Garduño volta a dar-nos pistas para conhecermos melhor o seu universo onírico, feito de representações que tentam ultrapassar a fatalidade do tempo histórico e do mundo terreno. A Galeria Pente 10 recebe até ao fim de Agosto a exposição Mujeres Fantasticas, um trabalho sobre as representações que a feminilidade foi ganhando ao longo dos tempos. É um projecto que vem sendo construído praticamente desde o início da sua carreira como fotógrafa.
Flor Garduño nasceu e cresceu na Cidade do México. Assim que acabou os estudos na Academia de São Carlos, começou a trabalhar ao lado do mestre Manuel Álvarez Bravo. A Magia do Jogo Eterno foi o seu livro de estreia, em 1985. Dois anos depois, lançou Bestiarium. Testemunhos do Tempo, a obra que mais reconhecimento lhe deu, foi publicada em 1992 e teve 6 edições. Em 2000, a editora Aperture republicou a obra. As fotografias deste trabalho passaram por mais de 40 museus e galerias de todo o mundo. Flor/Inner Light (2002, Bulfinch Press, Nova Iorque) reproduz naturezas mortas, nus e retratos. Naturezas Silenciosas (2005, Gabriele Editore, Suíça) é o seu último álbum.

Em que sentido as mulheres são mais fantásticas nesta exposição: no sentido terreno ou mitológico?
Deixo a interpretação a cargo de cada um, para que sejam fantásticas ou tenham o significado que cada um lhe queira atribuir. São fantásticas porque são imagens que projecto dentro das minhas fantasias. São fantásticas porque dentro de mim são fantásticas. Através de exposições, de livros, da literatura vou imaginando como poderia ser uma imagem de um símbolo. Não sei se estas imagens são terrenas ou se são fantásticas como ideias. Na realidade, isso para mim não tem muito significado. Acredito - e espero - que quando o observador as encarar faça delas o seu próprio sonho.

O que é que lhe interessa destacar na condição feminina?
Quando trabalho num projecto não começo a pensar, a estipular ou a criar uma directiva muito precisa. Desde há muitos anos que trabalho com a temática do nu feminino, não porque seja minha intenção provar algo especial. Não tenho o intuito de demonstrar nada. É simplesmente uma maneira de dar corpo a uma ideia e a poder revelar um mundo lírico muito pessoal.

Na maior parte destas imagens, o nu feminino colocou-se lado a lado com a alegoria mitológica em torno da mulher. Não teme que a sedução erótica se sobreponha ao entendimento filosófico?
Isso é uma visão muito masculina. O nu tem estado presente desde o início da minha carreira, há 30 anos. Mas comecei a trabalhar o tema de uma forma mais sistemática depois de terminar um outro trabalho, na América Latina, do qual nasceu um livro, Testigos del Tiempo. Um amigo de Zurique perguntou-me uma vez em que é que estava a trabalhar e eu contei-lhe que estava a produzir uma série muito íntima, muito descontraída, muito suave sobre o feminino. Ele disse-me que não conseguia imaginar que tipo de trabalho sobre o nu eu estaria a preparar depois de algo como Testigos del Tiempo. Encontrámo-nos e comecei a mostrar-lhe aquilo que viria a ser Inner Light ou Flor. Fiquei muito surpreendida com a reacção porque ele disse-me que este trabalho de suave não tinha nada! Pelo contrário sentia uma carga muito forte, muito erótica, de um feminino tão intenso que não entendia porque lhe tinha falado em suave. Mas é assim que as vejo. E continuei sempre a ouvir o mesmo tipo de opiniões, vindas sobretudo de observadores masculinos.

Nestas fotografias de Mujeres Fantasticas vemos o rosto escondido, cortado ou num plano secundário. Há alguma razão especial para esta opção?
Quando trabalho o corpo, muitas vezes o rosto passa para um plano secundário. Ao trabalhar nestas imagens, que são um todo, senti que se retirasse a algumas o rosto ou o olhar, o corpo sobressairia mais. Isto porque não há um olhar a cruzar-se com o observador, deixando que a interpretação e aceitação do corpo em si seja mais geral, mais universal. Mujeres Fantasticas é de alguma forma uma continuação, não sei se lógica, mas uma continuação, a outro nível, do que foi Flor, onde, acima de tudo, quis mostrar o feminino, a maternidade, e onde me revelei mais intimamente enquanto mulher e não enquanto fotógrafa. Agora, com Mujeres Fantasticas, tento mostrar todas as possibilidades que o corpo e a própria mulher podem dar. Quando decido fazer um retrato com o olhar é porque esse olhar me dá algo mais sobre a pessoa fotografada. Quando não há olhar a fotografia ganha um sentido mais universal e deixa mais espaço para a interpretação.

Há aqui representações de contos, conceitos e mitos. Esta escolha de temas que viajam através da História é uma tentativa de fugir à temporalidade finita a que associamos a fotografia?
Como já disse não trabalho com conceitos a priori. A minha vida não é só a fotografia. Tenho muitos outros interesses, como a literatura, a música, a pintura. Sou apaixonada pela arte em geral e pelos mitos que através dessas artes se representam. Creio que são temas arquétipos que regressam. Por exemplo: na história da pintura, quantas Ofélias se fizeram? Ou quantas Ledas se fizeram? São mitos que continuam vivos, presentes e actuais no nosso imaginário, dentro de um mundo onírico, dentro da psique. É importante ir unificando todos estes interesses que fazem parte de mim e não ficar presa à imagem como tal.

No conjunto há imagens que remontam aos anos 80 e outras muito recentes. Diria que este trabalho em torno das representações da mulher é um eixo central na sua obra?
Tenho trabalhado este tipo de imagens desde o início da minha carreira. E, a par das mulheres, tenho cultivado, ao longo destes 30 anos, o género das naturezas mortas, a que chamo naturezas silenciosas. São recorrências que nunca hei-de deixar porque fazem parte de mim. Sempre andaram na minha cabeça e foram-se transformando. Provavelmente, quando as pessoas virem o trabalho anterior e o de agora dirão que é o mesmo. Outras dirão que é um processo e que primeiro havia mulheres e que em Mujeres Fantasticas há paisagem. Agora, há também um mundo exterior. Nos outros trabalhos havia um mundo mais interior, mais psicológico. Este é mais fantasioso e exterior. Na grande maioria, estas imagens foram captadas no exterior e isso, para mim, tem um significado - é um símbolo.

Durante os últimos 50 anos, o México deu à história da fotografia vários nomes importantes. Manuel Álvarez Bravo parece estar na origem de muitos deles. Que papel tem hoje o mestre na produção fotográfica mexicana?
É muito actual. Sempre foi muito actual. Continua vivo e, como os grandes mestres, continua a ter uma visão muito a posteriori. Penso que foi fundamental, abriu portas, internacionalmente, à fotografia mexicana. Mas não foi só ele, houve muitos outros. E agora há também várias mulheres, como por exemplo Lola Álvarez Bravo, que foi sua mulher, que apesar de menos conhecida também tem muito valor.


Em La Columna vemos uma mulher coberta de espinhos e um rosto que lembra Frida Khalo. É uma alusão ao sofrimento?
Não, de todo. É uma alusão às cariátides, as imagens gregas que tinham a cabeça coberta de objectos, vegetais ou animais. [Quando fiz este retrato] não pensei na Frida. Foi uma questão física casual. E não é uma questão de sofrimento, mas sim de vida. Porque em La Columna há precisamente uma planta que é uma suculenta. O grupo das suculentas está cheio de vida e de água. E também foi um jogo com a ideia de ser suculenta, como a mulher, com um porte digno, um porte fantástico... porque não?

Mujeres Fantasticas, de Flor Garduño
Galeria Pente 10
Trav. da Fábrica dos Pentes, 10 (ao Jardim das Amoreiras), Lisboa
Tel.: 212369569
Até 31 de Agosto

10 julho, 2008

membros+nomeados

India, In The name of God
(
© Olivia Arthur)

O processo de selecção para integrar a cooperativa de fotógrafos Magnum não é coisa simples. E a progressão na carreira dentro da agência também não. Para atingir o estatuto de membro é preciso ter passado primeiro pela categoria de nomeado e depois pela de associado, período que se estende pelo menos durante quatro anos. A cada salto, é preciso também conquistar a admiração da maioria dos 60 efectivos que hoje compõe o colectivo de fotojornalismo mais reputado do mundo.
Depois de ter reunido para analisar mais de 200 portfolios candidatos, a agência, actualmente presidida por Stuart Franklin, decidiu tornar membros da Magnum Antoine d’Agata, Jonas Bendiksen e Alec Soth. Foram também admitidos como nomeados o americano Peter van Agtmael, de 27 anos, e a inglesa Olivia Arthur, de 28.

O site de Peter van Agtmael está aqui.
E o de Olivia Arthur aqui.

China, barragem das três gargantas
(© Peter van Agtmael)

09 julho, 2008

verão

Mário Cravo Neto, Luciana, 1994
(
© Mário Cravo Neto)

Já tínhamos ouvido falar da semana da fotografia, da quinzena da fotografia e do mês da fotografia. A Bélgica inventou (?) agora o Verão da Fotografia, que decorrerá em várias cidades entre 27 de Junho e 14 de Setembro. Ao todo, serão apresentadas 43 exposições, em 29 instituições espalhadas por todo o país.
Entre as várias mostras, destaque para Le dessous des cartes (Mapas Abiertos), Photographie Contemporaine en Amerique Latine (Palais des Beaux-Arts, até 21 de Setembro) que promete o panorama mais completo jamais realizado na Europa sobre a fotografia contemporânea da América Central, do Sul e das Caraíbas. O comissariado está a cargo do espanhol Alejandro Castellote, responsável pelas primeiras edições do festival PHotoEspaña. As 200 fotografias apresentadas mostram muitos temas habituais na arte latino-americana, mas tentam relacionar-se com três linhas de força essenciais: rituais de identidade, cenários e histórias alternativas.
A Bélgica está a comemorar o 50º aniversário da Expo'58, a primeira exposição mundial pós-guerra que deixou para a posteridade o emblemático Atomium. Acabado de dobrar a casa dos 30, o português Gérard Castello-Lopes visitou a exposição e fotografou os edifícios e as principais instalações modernistas rodeadas de um público muito heterogéneo. O resultado desse trabalho ainda como "amador" pode ser visto agora no Musées royaux d'Art et d'Histoire (até 21 de Setembro).

Para ver toda a programação do Été de la Photographie clique aqui.

(© Gérard Castello-Lopes)

08 julho, 2008

cpf

Centro Português de Fotografia
(Paulo Pimenta/Público)

Bernardino Castro é o novo director do Centro Português de Fotografia. Um comunicado divulgado hoje pelo CPF informa apenas que o mandato de Castro começou no dia 23 de Junho.

07 julho, 2008

guardar


Há quanto tempo é que não vemos em Portugal uma capa e um trabalho de reportagem que nos faça guardar páginas e páginas de papel? Guardei esta grande reportagem de Ángeles Espinosa (texto) e Álvaro Ybarra Zavala (fotografia) publicada já há alguns meses no El País Semanal (Afganistán, Desde la Línea de Fuego, 2.03.2008). A qualidade do que aqui vem escrito e fotografado torna muito difícil o dever cívico de contribuir para a transformação do papel.

Aballí

Da série Manipulaciones
(© Ignasi Aballí)

O catalão Ignasi Aballí gosta de jogar com os materiais e os processos de criação artística para construir discurso em torno da imagem. E essa opção não é de agora: a sua obra convoca questões relativas à simulação, à especificidade dos modos de representação, às convenções da ilusão material e aos aspectos do social, subjacentes a todo o processo produtivo, como há também uma significativa acuidade sobre a ideia do tempo como agente construtor da materialidade do discurso artístico.
Na exposição Sem Actividade, que faz parte do programa oficial da PHotoEspaña 2008 em Portugal, este malabarismo estilístico vai mais longe envolvendo o espaço onde as obras são expostas: um edifício que albergou uma fábrica de conservas, um espaço com actividade, mas sem a actividade que esteve na sua origem. Para sublinhar ainda mais o imobilismo que invadiu as salas de exposição, o autor decidiu expor a sua máquina fotográfica transformando-a em objecto museológico que simboliza a incapacidade de produzir. A par da sua câmara, Aballí mostra as séries Luz (Ventanas), de 1993, e Manipulaciones, de 2008. Na primeira apresenta painéis de cartão que imitam as janelas da casa onde vive em Barcelona. A cada vez que se apresentam em exposição, estas peças desvanecem. Em Manipulaciones, há imagens reenquadradas de um manual de fotografia dos anos 80. A intenção é criar a ilusão de que estamos a ser informados de alguma coisa. A desconstrução do carácter didáctico das imagens é justamente um dos caminhos que tem marcado o percurso de Aballí, mostrando que afinal hiper-visibilidade e absoluta miopia se podem equivaler.
A exposição foi comissariada por Sérgio Mah.

A propósito de uma exposição na Galeria Pedro Oliveira, no Porto, Aballí falou com o crítico Óscar Faria. O resultado dessa conversa está aqui.


Sem Actividade, de Ignasi Aballí
Secção Oficial PHotoEspaña08
Museu de Portimão, Rua D. Carlos I (Antiga Fábrica Feu), Portimão
Até 7 de Setembro

06 julho, 2008

Buñuel fotógrafo

Luis Buñuel, Cidade do México, Nonoalco
Luis Buñuel (1900–1983) não dava grande importância às fotografias que ia fazendo. Não as identificava, não as catalogava, não as guardava nas melhores condições. Mas estas fotografias e negativos acabaram por ir parar à Filmoteca espanhola dentro de uma caixa que pertencia ao seu arquivo familiar, conta o jornal El País. Desde a semana passada, cerca de 100 dessas fotografias podem ser vistas na exposição México fotografiado por Luis Buñuel, no Palácio de Perales, em Madrid.
São fotografias feitas durante a preparação das rodagens dos seus filmes. O realizador espanhol fez 20 filmes no México (onde morreu) e existem imagens da preparação de uma dúzia de rodagens. Na exposição, ao lado de cada fotografia, pode ver-se um fotograma do filme em que aparece a mesma imagem. Esta fotografia foi feita durante a preparação do filme Los olvidados e captada nos arredores da Cidade do México, em Nonoalco. Quanto preparava este filme, Buñuel percorreu sozinho os subúrbios muito pobres durante cinco meses.

(Público, 4.7. 2008)

Para ler o artigo do El País clique aqui.

05 julho, 2008

Eyemazing

(© Joachim Lippoth)

A revista holandesa Eyemazing tem um olhar muito atento para com a fotografia contemporânea. O site disponibiliza os textos integrais dos artigos publicados na edição em papel. E, este mês, há até uma edição especial Dubai.

Está aqui.

04 julho, 2008

  flor

Ofelia, Suíça, 2006
(
© Flor Garduño)

A galeria de fotografia Pente 10 inaugurou esta semana a exposição Mujeres Fantasticas da mexicana Flor Garduño. Ao longo de 16 imagens a preto e branco, Flor deambula por algumas das mais importantes representações da feminilidade que marcaram a história da cultura.

Tereza Siza escreveu este texto para o catálogo:

Habituamo-nos a reconhecer em Flor Garduño séries de imagens recolhidas, de flaneuse atenta ao maravilhoso do mundo e dos mitos dos homens e a outras elaboradas, imagens construídas em torno de um sentido. Nisto Flor soube actualizar a transformação que a fotografia sofreu com o impacto de um forte conceptualismo. Não cedendo, naturalmente, ao registo modal, mantendo o dramatismo do contraste a preto e branco ou uma diversa gama de cinzentos e deixando, inteiro, o seu manual mitológico e de espanto.
Talvez por isso mesmo aqui se encontrem elementos étnicos, que deciframos não apenas numa perspectiva das Américas, mas de um código universal dessa mitologia que se revela como uma diversidade de coincidências, uma tentativa pertinaz do homem em representar-se como fazendo parte do todo.
E quem diz mito diz sempre poesia, de desleixo pelo racional e organizado, de invenção de um outro mundo – tão labiríntico e caótico como o mundo natural.
E, porque é difícil esquecer mitologias lapidares como as que conhecemos de Testemunhos do tempo, reencontramo-los aqui, nesta construção de entendimentos sobre a mulher, nas variadas asserções em que a cultura a tem vindo a representar.
O que há de comum entre a
Ofélia romanticamente morta, ainda ligada ao trágico do destino desmancha-prazeres e a mulher tartaruga que se esconde sob a sua carapaça emprestada ou a mulher-leopardo, reiterado ícone de um masoquismo pan-americano e europeu? Fala-se claramente de um conjunto de medos masculinos que parece terem saído da velha constatação da mulher-feita-para-a-vida e do homem-feito-para-a-morte.
Trata-se, pois, de um conjunto de ideias sobre a mulher, um repositório, por vezes milenário, de construções culturais que transitam nos dois géneros e apenas se distinguem quando alguém, como Flor, faz com estes
aiku em imagem, a percepção da diferença dos géneros através dos tempos e através dos sentidos.
Diz Flor Garduño que os homens olham estas imagens com muito mais erotismo do que as mulheres. As mulheres, amigas de Flor, que posam para estes encantamentos interiores, assim exteriorizados na nudez, na ausência de todo o código de sedução, porque esclarecidas pela simbólica que Flor lhes empresta, assumem assim, qualquer coisa de um sagrado quase primordial porque é esse precisamente o universo de entendimento que a fotógrafa aqui materializa de forma quase alegórica. Algumas imagens, carregadas de percepção cultural, como
Argos, Purificação, ou mesmo a mulher com a sua própria representação, o fruto, parecem-nos actualizações de diversas composições que atravessam a história.
Outras, como a simbiose que se encontra em
Repouso e Coluna, (na perspectiva clássica da coluna ou na subentendida “alma” das colunas sacrificiais gregas) exigem o conhecimento da mitologia europeia e da sua tradução greco-romana. Ou da serpente-emplumada a atravessar o corpo das virgens sacrificadas.
Mas a
Lua Crescente, que nos confronta com um mundo feminino atento e, de certo modo irónico ou aquela espantosa Anémona, tão fatal como um campo de flores, estão para lá da interpretação. Introduzem-nos no indizível, no enigma. E essa é, por certo a cultura feminina na sua mais vasta indeterminação, na sua perversidade e no seu segredo.

Tereza Siza

Mujeres Fantasticas, de Flor Garduño
Galeria Pente 10
Trav. da Fábrica dos Pentes, 10 (ao Jardim das Amoreiras), Lisboa
Tel.: 212369569
Até 31 de Agosto

03 julho, 2008

encontros de regresso

(© Margarida Correia)

Os Encontros da Imagem de Braga já têm data marcada: decorrem entre 27 de Setembro e 26 de Outubro. Fronteiras do Género é o tema escolhido para a edição deste ano que contará com exposições de: Guerrila Girls, Mary Kelly, Mireille Loup, Ana Leão, Ana Perez Quiroga, Ana Vidigal, Annette Frick, Aurore de Sousa, Blanca, Casa Brullet, Catarina Botelho, Celeste Cerqueira, Corinne Noordenbos, Frederique Aguillon, Joana Consiglieri, Laura Medler, Margarida Correia, Margarida Paiva, Maria Lusitano, Maria Ruído, Marina Núñez, Martinha Maia, Paulo Mendes, Pipilotti Rist, Rita Castro Neves, Roberta Lima, Sandra Rocha, Shirin Neshat, Slavica Perkovic, Soledad Córdoba, Susana Mendes Silva, Tatiana Parcero, Valter Vinagre, Vitoria Dihel e Vanessa Beecroft.
Rui Prata, director artístico dos EI, apresenta o tema assim:

(...)
Fronteiras do Género, não pretende revisitar as lutas feministas dos finais dos anos 60, mas reflectir, a partir dessa génese, na multiplicidade de linguagens e representações artísticas da contemporaneidade. Para o efeito, o projecto delineado, embora remeta para as raízes dos anos 60, evolui rapidamente para a diversidade actual, procurando verificar se efectivamente existe, ou não, uma expressividade mais característica do género feminino. Assim, para além da já tradicional representação do corpo, encontramos propostas que vão desde a evidência dos problemas actuais da sociedade, ao uso e forma de materiais mais tradicionalmente femininos, até conceitos mais abstractos.
(...)

Em paralelo, haverá outras actividades:

>>Ciclo de Cinema (Auditório do Theatro Circo)
Cinema no Feminino
>10, 11, 12 de Out.

>>Ciclo de Conferências e Palestras (auditório BLCS)
Guerrilla Girls
>28 de Set.

Mulher Artista/Mulher Comissária

>11, 12, 18, 19 de Out.
Ana Gabriela Macedo
Fátima Séneca
Isabel Carlos
Maria Ruído
Margarita Aizpuru
Amélia Jones

O Livro de Autor
>24 de Out.
Irene Atinger
Patrick Le Bescont

>>EI Emergentes 08 - Leitura crítica de portfolios
>3 e 4 de Out.
Críticos, directores de museus, editores e galeristas analisam, criticam e seleccionam novos autores.

02 julho, 2008

à la minuta

Teatro à la minuta
(© Câmara Municipal de Évora)

O próximo Serão em Torno da Fotografia em Évora será dedicado à fotografia à la minuta. A palestra, organizada pelo Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal, partirá de uma imagem captada por Gama Freixo, em 1920, para explicar esta técnica. O investigador José Borges, autor do livro Fotógrafos à La Minuta, será um dos oradores da noite que contará ainda com a estreia da peça Teatro à la Minuta, da autoria do grupo Trulé.

Serão em Torno da Fotografia
Pátio do Arquivo Fotográfico, Rua Diogo Cão, 19, Évora
Dia 4 de Julho, a partir das 21h00

01 julho, 2008

ainda Parr

Martin Parr em Fortaleza, Brasil
(© Luiz Marinho)

Depois de ter vencido o prémio carreira no PHotoEspaña, Martin Parr deu uma pequena entrevista ao El País onde volta a questionar a verdade em muitas das imagens que nos rodeiam.
Para ler a entrevista clique aqui.

29 junho, 2008

Polaroid - o fim?

(© Nuno Ferreira Santos/Público)

(Pública, 29-06-2008)

Não é bem um click. É mais um longo e sonoro tchackkkk-tchackkkk.
E depois do trabalho da óptica e da mecânica, vem o engenho e a química fazer o resto.
A Polaroid deita cá para fora uma língua de papel e acontece fotografia instantânea. Devagar, mas não demasiado. O tempo certo (acreditam os mais românticos) para nos deliciarmos a ver aparecer realidade num quase-quadrado emoldurado de branco.
Hoje, o tempo é mais do que nunca o da fotografia instantânea. E isto até podia ser um
boa notícia para os Polaroid-fanáticos, mas não é. Porque a instantaneidade fotográfica de agora meteu uma mudança que a caixa de velocidades das velhas polaróides não tem.
É a velocidade do píxel da fotografi a digital. Aquela que muitos apontam como a principal culpada pela morte dos cartuchos Polaroid, anunciada em Fevereiro. No ano passado, já se tinha cantado o requiem pelas máquinas responsáveis por fabricar incontáveis quase-quadrados de papel que ora se colam no frigorífico e no álbum de família, ora se penduram em galerias e museus... (ler artigo completo)

26 junho, 2008

Aglaia Konrad



A austríaca Aglaia Konrad vai estar hoje na Faculdade de Belas-Artes da Faculdade de Lisboa, às 18h30, para uma conferência sobre o uso da fotografia no seu trabalho.
O texto de divulgação da palestra apresenta a abordagem conceptual da artista assim:

Elegendo a fotografia como medium privilegiado, Aglaia Konrad analisa o fenómeno do espaço urbano com um entusiasmo infeccioso. Exemplos de utopias locais, modernismo programático e pragmatismo eufórico são encadeados em ensaios visuais acerca de uma forma de vida inconfundivelmente contemporânea – a cidade.

antes de obama

John Mercer Langstone
(
Library Of Congress)

John Mercer Langston foi o primeiro congressista negro pelo estado americano da Virgínia, o primeiro negro elevado a um gabinete público através do voto popular, o fundador do que viria a tornar-se a Faculdade de Direito da Universidade de Howard e um dos homens que, em meados do século XIX, mais lutou pelos direitos dos negros nos EUA. Anda toda a gente a dizer que Mercer "foi Obama antes de Obama".
Dizem os politólogos e os historiadores que entre o antigo congressista e o aspirante a presidente pelo partido democrata há ligações e semelhanças que nunca mais acabam. É como se tivessem encontrado uma espécie de fixador para as peças de um puzzle que parecia demasiado desconchavado, demasiado solto para fazer sentido. Vindo agora à baila, este relato soa a enquadramento histórico-paternalista - muito típico da América - para uma figura política que ainda parece um rookie, mas que pode muito bem sentar-se na cadeira do poder. Há uma necessidade de o encaixar em qualquer lado, de o arrumar numa categoria, digo eu.
As relações entre as carreiras e as histórias de vida destes dois personagens até podem ligar-se na perfeição. Mas se há coisa que os distingue é a forma como a imagem fotográfica os apanhou num e noutro tempo. E não é só por causa das colossais diferenças entre os suportes e as técnicas usadas. Parece-me que a grande diferença está na propaganda e marketing político que hoje atingiu níveis de sofisticação e delírio nunca vistos.
É difícil saber se Mercer, depois de sair do estúdio, andou a mostrar estas fotografias para ganhar votos. É mais do que provável que não. Mas, ainda assim, ao olhar para estas imagens (feitas a partir de negativos de vidro em colódio húmido) do "avô político" de Obama não podemos deixar de nos interrogar sobre a transformação dos usos do fotográfico na política.

(© Bob Daemmrich/Polaris)

24 junho, 2008

Martin Parr

Martin Parr
(
© PHE)

Martin Parr anda preocupado com o mundo e o PHotoEspaña deu-lhe um prémio

Mordaz. Irónica. Exagerada. Crítica. Há adjectivos que andam sempre colados às fotografias do inglês Martin Parr que hoje foi distinguido com o Prémio PHotoEspaña Baume & Mercier 2008, o maior galardão do festival que serve para reconhecer o seu percurso profissional e a sua influência na fotografia contemporânea. Na cerimónia de atribuição do prémio, em Madrid, Parr, fotógrafo da agência Magnum desde 1994, afirmou-se “muito preocupado com os problemas do mundo” e explicou que tem tentado “dar a volta à linguagem publicitária, tão colorida e viva” para tratar temas como a globalização.

A organização do festival destacou a influência da obra do artista “na estética da fotografia que hoje se pratica”. “O seu olhar excêntrico e satírico, os projectos cinematográficos e os livros que assinou convertem-no num dos fotógrafos mais conceituados da segunda metade do século XX”, refere o comunicado.

Martin Parr, considerado uma das eminências pardas da Magnum, é autor, em conjunto com Gerry Badger, de uma história de livros de fotografia (Photobook: A History, Phaidon, 2004/2006) que tem influenciado o mercado de compra e venda de álbuns de fotografia.

Na entrevista que deu ao PÚBLICO, em Novembro do ano passado, Parr mostrou-se muito crítico em relação ao estilo de vida “espampanante” do mundo Ocidental e vaticinou um futuro pouco radioso, mas sempre com o sarcasmo na ponta da língua: “Estamos a caminho do fim, porque o mundo não consegue sustentar este tipo de crescimento. E, já que vamos por aí abaixo, ao menos que o façamos de forma divertida. A gastar todo o dinheiro possível”.

Martin Parr fotografou durante muitos anos a preto e branco, mas a faceta mais conhecida do seu trabalho é aquela que mostra muitos dos vícios e comportamentos das sociedades contemporâneas em cores garridas e flashadas de perto.

No ano passado, o PHotoEspaña distinguiu o suíço-americano Robert Frank, uma das lendas vivas da fotografia mundial. A artista plástica Helena Almeida foi a única portuguesa a receber o prémio, em 2003.

Para além do prémio a Parr foram divulgados outros galardões do festival espanhol que decorre até finais de Julho:

>>Prémio Bartolomé Ros para o melhor percurso artístico na fotografia espanhola: Ricard Terré

>>Prémio Festival Off Saab: Galeria Moriarty, pela exposição Línea de Sombra, de Nicolás Combarro

>>Prémio do público M2-El Mundo: Teatro Fernán-Gómez. Centro de Arte/Fundación Banco Santander, pela exposição W. Eugene Smith. Más Real que la Realidad

>>Prémio Descubrimientos PHE08 Epson: Yann Gross

>>Prémio revelação Room Mate Hotels: Germán Gómez

>>Prémio PHotoEspaña OjodePez Volkswagen de Valores Humanos: Olivia Arthur


>>Post relacionado
>(*À conversa com... Martin Parr)

alfama

Francisco Falcão, 2º prémio de fotografia individual, 2007
(
© Francisco Falcão)

A Associação do Património e População de Alfama agendou para sábado, dia 28, a II edição da Maratona de Fotografia Digital que este ano será dedicada ao tema genérico: Alfama, Ponto de Encontro.

O regulamento pode ser consultado aqui.
E as inscrições podem ser feitas aqui.

ícones domésticos



Há dias, durante uma entrevista ao Público, o historiador de fotografia Geoffrey Batchen defendia que a fotografia vernacular, a snapshot caseira, devia entrar nas histórias de fotografia clássicas porque essas imagens "condensam alguns dos nossos valores mais preciosos: as nossas noções de identidade, de relação com os outros". Para Batchen, as relações familiares, por exemplo, podem ser melhor compreendidas se se olhar de outra maneira para esta prática fotográfica que é quase sempre ignorada pelos grandes tratados da imagem fotográfica. E no entanto é a mais praticada.
Com propósitos diferentes dos do investigador australiano, o Museu de Arte Contemporânea de Estrasburgo, na França, abriu a porta às fotografias que estiveram coladas em velhos álbuns de cartão, que se espalharam pelo chão de feiras da ladra ou que andaram escondidas em caixas de sapatos. Instants Anonymes reúne 800 imagens captadas por amadores naquela que é, segundo o comissário Sylvain Morand, a primeira exposição de fotografia vernacular num museu de arte contemporânea. "Toda a gente pode fazer fotografia. Talvez seja essa a especificidade deste meio", disse Morand ao Le Monde. O comissário justifica a iniciativa da exposição com a ideia de que este género popular "mostra a fotografia na sua primeira natureza". As imagens foram reunidas a partir de arquivos de família, colecções privadas e institucionais. Não estão identificadas com data, local, autor ou qualquer outro dado. O conjunto convoca a ideia de um grande álbum de família e pretende-se que "o observador faça um investimento sentimental" no momento em que estiver a "folhear" estas páginas de "ícones domésticos".


Instants Anonymes
Musée d`Art Moderne et Contemporain, Estrasburgo
Até 14 de Setembro

23 junho, 2008

explicar


A soldado Sabrina Harman é a autora e a protagonista de algumas das mais icónicas fotografias do século que ainda agora começou. São as fotografias do escândalo da prisão iraquiana de Abu Ghraib que, para além de ícones, ficarão para a história como prova das contradições de um país que tentou - e ainda tenta - impor sistemas políticos e moralidade à força das armas.
O documentarista Errol Morris e o editor da The Paris Review Philip Gourevitch pegaram em algumas destas imagens que nos entraram pelos olhos dentro para tentarem perceber o que está na sua origem.
No início, Standard Operating Procedure era para ser um filme, mas depois transformou-se num livro que tenta chegar à génese deste exercício carnavalesco de relativização da condição humana. Alexandra Prado Coelho escreveu sobre as histórias por detrás dos sorrisos e dos cadáveres.

Para ler esse texto do Ípsilon clique aqui.

22 junho, 2008

negócio


O grupo Impresa, de Pinto Balsemão, comprou 51 por cento da 7Graus que detém os sites de partilha de fotografia Olhares e Zyeuter. O controlo da maior comunidade de fotografia online em Portugal custou à Impresa 408 mil euros. O Zyeuter, em tudo semelhante ao Olhares, é o site que tenta fazer a expansão internacional através da zona de influência francófona.
O Olhares registou em Abril, segundo dados do barómetro NetScope da Marktest, 34,4 milhões de pagewiews, apenas suplantado pelo site do jornal A Bola. Tem 115 mil fotógrafos registados e 1,3 milhões de fotografias online. Todos os dias fazem-se 2500 novos uploads.
O site foi criado no Porto em 2003 e, à semelhança do Flickr, permite fazer upload de fotografias, criar galerias, comentar fotografias, entre outras funcionalidades.

20 junho, 2008

leibovitz II

Isabel II
(© Annie Leibovitz. De Annie Leibovitz: A Photographer's Life, 1990–2005)


(Público, P2, 20.6.2008)

A imagem da rainha de Inglaterra, captada numa sessão conduzida por Annie Leibovitz, que foi utilizada num documentário sobre Isabel II para a BBC, editada de forma a parecer que a rainha tinha abandonado abruptamente o estúdio, vai ser exposta pela primeira vez numa galeria. A National Portrait Gallery de Londres mostra a foto que foi usada numa apresentação à imprensa do documentário e que, depois de desmentida a suposta zanga da rainha, custou o emprego a Peter Fincham, da BBC One, responsável pela continuação do engodo.
Um ano depois da polémica, a fotógrafa norte-americana diz que o assunto a diverte e comenta que os autores do programa "se enganaram redondamente" quando montaram as imagens. Na verdade, a foto é do momento em que Isabel II chegava à sessão, um pouco agastada por ter de envergar toda a vestimenta real.
Mas a exposição Annie Leibovitz: A Photographer's Life, 1990 - 2005 mostra muito mais: passa em revista as imagens mais carismáticas da sua carreira, tanto profissional quanto pessoal. Como a capa da Vanity Fair com uma Demi Moore muito grávida, a eleição de Hillary Clinton para o Senado ou Sarajevo no início da década de 1990. Ou ainda a vida de Leibovitz com Susan Sontag até à morte da escritora e imagens icónicas, como a capa de Born in the USA de Bruce Springsteen ou a foto de John Lennon a beijar Yoko Ono cinco horas antes de ser assassinado. Cerca de 150 retratos estarão em exposição entre 16 de Outubro e 1 de Fevereiro de 2009.

O resumo das sessões de retrato com a rainha estão aqui.


Annie Leibovitz, Susan at the House on Hedges Lane, 1988
(© Annie Leibovitz. De Annie Leibovitz: A Photographer's Life, 1990–2005)

19 junho, 2008

leibovitz

Annie Leibovitz

A RTP2 passa hoje, às 23h30, um documentário sobre a fotógrafa americana Annie Leibovitz. O filme, realizado pela irmã de Annie, Barbara Leibovitz, relata o dia a dia da fotógrafa no trabalho e na família.

Annie Leibovitz: Life Through a Lens
RTP2, 23h30, 90'

18 junho, 2008

além-fotografia

Craig Wylie, K

O inglês Craig Wylie andou a pintar retratos a óleo da namorada, Katherine Raw, durante seis anos. Agora, a National Portrait Gallery de Londres atribuiu-lhe o BP Portrait Award, entre 1726 candidaturas de todo mundo. A descrição sobre o que é transmitido pelo quadro varia conforme se lê o depoimento do retratista ou da retratada. O primeiro diz que conseguiu representar bem a "tensão" deste momento. A segunda diz que não saiu muito favorecida, mas confessa a sua admiração pelo paradoxo entre um olhar "fulminante" e ao mesmo tempo "vulnerável".
O retrato de Graig Wylie foi baseado numa fotografia tirada em casa depois de um dia de trabalho igual a tantos outros. "Estava com fome e com frio", lembra Katherine.
Não conhecemos o grau de fiabilidade que o quadro a óleo tem em relação à fotografia que lhe serviu de matriz. Reconhecemos que passou da objectiva para a tela muito do realismo e do posar fotográficos, aqui carregados de dramatismo. Mas tudo isso é secundário porque ficamos muito mais emocionados com a intensidade da expressão do que com o pormenor das dobras do casaquinho de malha cor-de-rosa.
E é Wylie o primeiro a defender essa representação "além-fotográfica" ao afirmar que o quadro não é só uma amálgama de fotografias, mas o resultado de "experiências" e "memórias" que resultam tão simplesmente do facto de viver com a pessoa que decidiu retratar.

16 junho, 2008

access to life

Access To Life/Russia
(© Alex Majoli/Magnum Photos)


O uso das drogas antiretrovirais, no início dos anos 90, marca um antes e um depois na luta contra a sida. Antes havia uma sentença de morte mais ou menos rápida. Depois houve uma forma de domar uma doença crónica. Mas este balão de oxigénio está longe, muito longe, de chegar a todos os que precisam dele. O preço dos comprimidos antiretrovirais e as dificuldades de os distribuir com eficácia nas zonas do globo mais complicadas fazem com que 95 por cento dos infectados com HIV fiquem de fora deste "cheque-oportunidade-de-vida-mais-alargada".
Para tentar anular estas desigualdades foi criado, em 2002, o Global Fund to Fight AIDS, Tuberculosis and Malaria, que já tem programas em mais de 100 países. A iniciativa não está só a salvar vidas, mas a prevenir que a doença se espalhe ainda mais.

A partir do mote accesstolife, oito fotógrafos da Magnum (Paolo Pellegrin, Alex Majoli, Larry Towell, Jim Goldberg, Gilles Peress, Jonas Bendiksen, Steve McCurry, Eli Reed) foram convidados para registar casos de pessoas infectadas que passaram a ter acesso a antiretrovirais para controlar a doença. Em nove países, os fotógrafos da agência captaram o dia-a-dia do "antes" e o resultado do tratamento quatro meses depois. Em muitos casos, conseguiram recuperar-se as rotinas do trabalho, a convivência da família e, claro, a alegria de estar vivo. Noutros casos a ajuda chegou tarde demais.

Desde o início dos anos 80 já morreram perto de 30 milhões de pessoas por causa da sida.

Para ver os trabalhos dos oito fotógrafos da Magnum clique aqui.


Access To Life/India
(© Jim Goldberg/Magnum Photos)

/uma fotografia, um nome\

Inês d´Orey, Cave
(© Inês d`Orey)

Este século XX, tão próximo, foi palco de indescritível violência e desprezo pela vida. Pela vida de tudo o que é vida.

Mas foi então que mais se afirmou este inconsequente pudor pela morte que hoje consentimos.
Tudo indica que este é um apontamento compensador do excesso do sentir que ligamos ao corpo que vive. E o desconforto que sentimos com esta Cave de Inês d’ Orey, insere-nos nesse universo de ocultamento do que é refractário ao mundo do sentir.

A cave mortuária insinua o arrepio da humidade, a capa miúda e escorregadia das plantas sem luz e a falta de ar, mas é também e, talvez por isso mesmo, a quieta mansidão do respeito e da dignidade do que não mexe. O que fica nos vivos é a humidade da alma, a recusa, a vitória do medo e a incredibilidade. E é isto que Inês d’Orey aqui nos sugere, a inóspita convivência dos vivos com o mundo dos mortos.

Não porque a fotografia seja a sua alegoria, que não é. A fotografia resulta dum exaltante momento de vida, faz uma imagem-objecto com outro objecto que assim se torna referente, mas nada, quase nada os identifica. Não porque o passado se revive com nostalgia: nada aqui nos ensombra a alma. Nem sequer porque aquela luz que indica a saída do subterrâneo nos desafie para o Sol, fugindo desta estratificação social que aqui se repete.

Mas porque a fotógrafa fez cintilar na penumbra as sempre-vivas flores de plástico que esclarecem, como sentinelas do nosso dever para com os mortos, que o nosso sentir se recusa à sua convocação repetida.

A fotografia tem-nos mostrado que somos dominados pela cultura do corpo, da desconstrução e do simulacro. Banimos os duplos que faziam de estátuas de honra e bons costumes mas, ao que se diz, produzimos por segundo, nesta sociedade globalizada, 550 fotografias. O retorno ao real, esse real concebido como quase ficção, este olhar múltiplo que assentamos sobre uma realidade também múltipla e heterogénea, traz-nos, na experimentação fotográfica os territórios conflituosos do corpo – o nosso campo de batalha com o sentido da vida. O tema, o grande tema que é também o da fotografia é a realidade como um acontecimento de trauma.

E é isto que aqui nos diz Inês d’Orey. Não um olhar sentido, nostálgico, mas um discurso de desterritorialização, de desapego pela memória e pela ideia de saudade. A falta, a ausência, neste mundo onde a arte deixou de ser um lenitivo, mas um investimento plural para o agir, bloqueiam a ânsia de estar, de ser um lugar de interactividade, que substituiu a ânsia de ser.

Talvez seja por isso que a sociologia abandonou o estudo dos sistemas sociais e se centrou na acção, procurando saber como se formam os actores vagamente sociais onde se perdeu a distinção entre vida pública e privada e pesquise, nas margens, a interacção entre a unidade social e a diversidade cultural.

Esta fotografia diz-nos que não há história sem sujeito e é no sujeito vivo que tudo se passa. As flores de plástico são o duplo artificial e duradoiro de uma devoção, a alegoria do que significa a memória do pretérito.

A morte como uma patologia do sentir?

Maria do Carmo Serén

 
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