24 junho, 2008
alfama
A Associação do Património e População de Alfama agendou para sábado, dia 28, a II edição da Maratona de Fotografia Digital que este ano será dedicada ao tema genérico: Alfama, Ponto de Encontro.
O regulamento pode ser consultado aqui.
E as inscrições podem ser feitas aqui.
ícones domésticos

Há dias, durante uma entrevista ao Público, o historiador de fotografia Geoffrey Batchen defendia que a fotografia vernacular, a snapshot caseira, devia entrar nas histórias de fotografia clássicas porque essas imagens "condensam alguns dos nossos valores mais preciosos: as nossas noções de identidade, de relação com os outros". Para Batchen, as relações familiares, por exemplo, podem ser melhor compreendidas se se olhar de outra maneira para esta prática fotográfica que é quase sempre ignorada pelos grandes tratados da imagem fotográfica. E no entanto é a mais praticada.
Com propósitos diferentes dos do investigador australiano, o Museu de Arte Contemporânea de Estrasburgo, na França, abriu a porta às fotografias que estiveram coladas em velhos álbuns de cartão, que se espalharam pelo chão de feiras da ladra ou que andaram escondidas em caixas de sapatos. Instants Anonymes reúne 800 imagens captadas por amadores naquela que é, segundo o comissário Sylvain Morand, a primeira exposição de fotografia vernacular num museu de arte contemporânea. "Toda a gente pode fazer fotografia. Talvez seja essa a especificidade deste meio", disse Morand ao Le Monde. O comissário justifica a iniciativa da exposição com a ideia de que este género popular "mostra a fotografia na sua primeira natureza". As imagens foram reunidas a partir de arquivos de família, colecções privadas e institucionais. Não estão identificadas com data, local, autor ou qualquer outro dado. O conjunto convoca a ideia de um grande álbum de família e pretende-se que "o observador faça um investimento sentimental" no momento em que estiver a "folhear" estas páginas de "ícones domésticos".
Instants Anonymes
Musée d`Art Moderne et Contemporain, Estrasburgo
Até 14 de Setembro
23 junho, 2008
explicar

A soldado Sabrina Harman é a autora e a protagonista de algumas das mais icónicas fotografias do século que ainda agora começou. São as fotografias do escândalo da prisão iraquiana de Abu Ghraib que, para além de ícones, ficarão para a história como prova das contradições de um país que tentou - e ainda tenta - impor sistemas políticos e moralidade à força das armas.
O documentarista Errol Morris e o editor da The Paris Review Philip Gourevitch pegaram em algumas destas imagens que nos entraram pelos olhos dentro para tentarem perceber o que está na sua origem.
No início, Standard Operating Procedure era para ser um filme, mas depois transformou-se num livro que tenta chegar à génese deste exercício carnavalesco de relativização da condição humana. Alexandra Prado Coelho escreveu sobre as histórias por detrás dos sorrisos e dos cadáveres.
Para ler esse texto do Ípsilon clique aqui.
22 junho, 2008
negócio

O grupo Impresa, de Pinto Balsemão, comprou 51 por cento da 7Graus que detém os sites de partilha de fotografia Olhares e Zyeuter. O controlo da maior comunidade de fotografia online em Portugal custou à Impresa 408 mil euros. O Zyeuter, em tudo semelhante ao Olhares, é o site que tenta fazer a expansão internacional através da zona de influência francófona.
O Olhares registou em Abril, segundo dados do barómetro NetScope da Marktest, 34,4 milhões de pagewiews, apenas suplantado pelo site do jornal A Bola. Tem 115 mil fotógrafos registados e 1,3 milhões de fotografias online. Todos os dias fazem-se 2500 novos uploads.
O site foi criado no Porto em 2003 e, à semelhança do Flickr, permite fazer upload de fotografias, criar galerias, comentar fotografias, entre outras funcionalidades.
20 junho, 2008
leibovitz II
(Público, P2, 20.6.2008)
A imagem da rainha de Inglaterra, captada numa sessão conduzida por Annie Leibovitz, que foi utilizada num documentário sobre Isabel II para a BBC, editada de forma a parecer que a rainha tinha abandonado abruptamente o estúdio, vai ser exposta pela primeira vez numa galeria. A National Portrait Gallery de Londres mostra a foto que foi usada numa apresentação à imprensa do documentário e que, depois de desmentida a suposta zanga da rainha, custou o emprego a Peter Fincham, da BBC One, responsável pela continuação do engodo.
Um ano depois da polémica, a fotógrafa norte-americana diz que o assunto a diverte e comenta que os autores do programa "se enganaram redondamente" quando montaram as imagens. Na verdade, a foto é do momento em que Isabel II chegava à sessão, um pouco agastada por ter de envergar toda a vestimenta real.
Mas a exposição Annie Leibovitz: A Photographer's Life, 1990 - 2005 mostra muito mais: passa em revista as imagens mais carismáticas da sua carreira, tanto profissional quanto pessoal. Como a capa da Vanity Fair com uma Demi Moore muito grávida, a eleição de Hillary Clinton para o Senado ou Sarajevo no início da década de 1990. Ou ainda a vida de Leibovitz com Susan Sontag até à morte da escritora e imagens icónicas, como a capa de Born in the USA de Bruce Springsteen ou a foto de John Lennon a beijar Yoko Ono cinco horas antes de ser assassinado. Cerca de 150 retratos estarão em exposição entre 16 de Outubro e 1 de Fevereiro de 2009.
O resumo das sessões de retrato com a rainha estão aqui.
19 junho, 2008
leibovitz
A RTP2 passa hoje, às 23h30, um documentário sobre a fotógrafa americana Annie Leibovitz. O filme, realizado pela irmã de Annie, Barbara Leibovitz, relata o dia a dia da fotógrafa no trabalho e na família.
Annie Leibovitz: Life Through a Lens
RTP2, 23h30, 90'
18 junho, 2008
além-fotografia
O inglês Craig Wylie andou a pintar retratos a óleo da namorada, Katherine Raw, durante seis anos. Agora, a National Portrait Gallery de Londres atribuiu-lhe o BP Portrait Award, entre 1726 candidaturas de todo mundo. A descrição sobre o que é transmitido pelo quadro varia conforme se lê o depoimento do retratista ou da retratada. O primeiro diz que conseguiu representar bem a "tensão" deste momento. A segunda diz que não saiu muito favorecida, mas confessa a sua admiração pelo paradoxo entre um olhar "fulminante" e ao mesmo tempo "vulnerável".
O retrato de Graig Wylie foi baseado numa fotografia tirada em casa depois de um dia de trabalho igual a tantos outros. "Estava com fome e com frio", lembra Katherine.
Não conhecemos o grau de fiabilidade que o quadro a óleo tem em relação à fotografia que lhe serviu de matriz. Reconhecemos que passou da objectiva para a tela muito do realismo e do posar fotográficos, aqui carregados de dramatismo. Mas tudo isso é secundário porque ficamos muito mais emocionados com a intensidade da expressão do que com o pormenor das dobras do casaquinho de malha cor-de-rosa.
E é Wylie o primeiro a defender essa representação "além-fotográfica" ao afirmar que o quadro não é só uma amálgama de fotografias, mas o resultado de "experiências" e "memórias" que resultam tão simplesmente do facto de viver com a pessoa que decidiu retratar.
16 junho, 2008
access to life
O uso das drogas antiretrovirais, no início dos anos 90, marca um antes e um depois na luta contra a sida. Antes havia uma sentença de morte mais ou menos rápida. Depois houve uma forma de domar uma doença crónica. Mas este balão de oxigénio está longe, muito longe, de chegar a todos os que precisam dele. O preço dos comprimidos antiretrovirais e as dificuldades de os distribuir com eficácia nas zonas do globo mais complicadas fazem com que 95 por cento dos infectados com HIV fiquem de fora deste "cheque-oportunidade-de-vida-mais-alargada".
Para tentar anular estas desigualdades foi criado, em 2002, o Global Fund to Fight AIDS, Tuberculosis and Malaria, que já tem programas em mais de 100 países. A iniciativa não está só a salvar vidas, mas a prevenir que a doença se espalhe ainda mais.
A partir do mote accesstolife, oito fotógrafos da Magnum (Paolo Pellegrin, Alex Majoli, Larry Towell, Jim Goldberg, Gilles Peress, Jonas Bendiksen, Steve McCurry, Eli Reed) foram convidados para registar casos de pessoas infectadas que passaram a ter acesso a antiretrovirais para controlar a doença. Em nove países, os fotógrafos da agência captaram o dia-a-dia do "antes" e o resultado do tratamento quatro meses depois. Em muitos casos, conseguiram recuperar-se as rotinas do trabalho, a convivência da família e, claro, a alegria de estar vivo. Noutros casos a ajuda chegou tarde demais.
Desde o início dos anos 80 já morreram perto de 30 milhões de pessoas por causa da sida.
Para ver os trabalhos dos oito fotógrafos da Magnum clique aqui.
/uma fotografia, um nome\
“Este século XX, tão próximo, foi palco de indescritível violência e desprezo pela vida. Pela vida de tudo o que é vida.
Mas foi então que mais se afirmou este inconsequente pudor pela morte que hoje consentimos.
Tudo indica que este é um apontamento compensador do excesso do sentir que ligamos ao corpo que vive. E o desconforto que sentimos com esta Cave de Inês d’ Orey, insere-nos nesse universo de ocultamento do que é refractário ao mundo do sentir.
A cave mortuária insinua o arrepio da humidade, a capa miúda e escorregadia das plantas sem luz e a falta de ar, mas é também e, talvez por isso mesmo, a quieta mansidão do respeito e da dignidade do que não mexe. O que fica nos vivos é a humidade da alma, a recusa, a vitória do medo e a incredibilidade. E é isto que Inês d’Orey aqui nos sugere, a inóspita convivência dos vivos com o mundo dos mortos.
Não porque a fotografia seja a sua alegoria, que não é. A fotografia resulta dum exaltante momento de vida, faz uma imagem-objecto com outro objecto que assim se torna referente, mas nada, quase nada os identifica. Não porque o passado se revive com nostalgia: nada aqui nos ensombra a alma. Nem sequer porque aquela luz que indica a saída do subterrâneo nos desafie para o Sol, fugindo desta estratificação social que aqui se repete.
Mas porque a fotógrafa fez cintilar na penumbra as sempre-vivas flores de plástico que esclarecem, como sentinelas do nosso dever para com os mortos, que o nosso sentir se recusa à sua convocação repetida.
A fotografia tem-nos mostrado que somos dominados pela cultura do corpo, da desconstrução e do simulacro. Banimos os duplos que faziam de estátuas de honra e bons costumes mas, ao que se diz, produzimos por segundo, nesta sociedade globalizada, 550 fotografias. O retorno ao real, esse real concebido como quase ficção, este olhar múltiplo que assentamos sobre uma realidade também múltipla e heterogénea, traz-nos, na experimentação fotográfica os territórios conflituosos do corpo – o nosso campo de batalha com o sentido da vida. O tema, o grande tema que é também o da fotografia é a realidade como um acontecimento de trauma.
E é isto que aqui nos diz Inês d’Orey. Não um olhar sentido, nostálgico, mas um discurso de desterritorialização, de desapego pela memória e pela ideia de saudade. A falta, a ausência, neste mundo onde a arte deixou de ser um lenitivo, mas um investimento plural para o agir, bloqueiam a ânsia de estar, de ser um lugar de interactividade, que substituiu a ânsia de ser.
Talvez seja por isso que a sociologia abandonou o estudo dos sistemas sociais e se centrou na acção, procurando saber como se formam os actores vagamente sociais onde se perdeu a distinção entre vida pública e privada e pesquise, nas margens, a interacção entre a unidade social e a diversidade cultural.
Esta fotografia diz-nos que não há história sem sujeito e é no sujeito vivo que tudo se passa. As flores de plástico são o duplo artificial e duradoiro de uma devoção, a alegoria do que significa a memória do pretérito.
A morte como uma patologia do sentir?”
Maria do Carmo Serén
13 junho, 2008
“entre aspas”
11 junho, 2008
incluir
Vale a pena ler a entrevista que Kathleen Gomes fez ao historiador de fotografia australiano Geoffrey Batchen. Autor de livros como Burning with Desire (1997) ou Each Wild Idea (2001), Batchen faz uma defesa acérrima da inclusão metódica da fotografia vernacular nas histórias de fotografia. Antes de partir para o PHotoEspaña, o historiador esteve em Lisboa para duas conferências, a convite do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens da Universidade Nova.
Para ler a entrevista a Geoffrey Batchen clique aqui.
“Acho que chegou o momento de começar a escrever histórias da fotografia que sejam mais sintomáticas das especificidades locais, histórias de alcance global, que incluam África, Ásia ou a América Latina. E que lidem com os géneros que tradicionalmente têm sido excluídos desse modelo: fotografia comercial, industrial, instantâneos, objectos híbridos...”
10 junho, 2008
Horacio na K
O espanhol Horacio Fernández é o orador convidado para a primeira sessão dos Domingos na Kgaleria, que decorrerá no dia 29, das 14h00 às 18h00. A conferência de Fernández abordará o tema As Linguagens Actuais da Fotografia Documental e parte deste enquadramento:
Durante os anos da chamada pós-modernidade, foi comum criticar e desapreciar a fotografia documental e até mesmo o conceito de documento. Sem dúvida que haveriam razões para tal mas a crítica foi exagerada e suficientemente dogmática. O certo é que a fotografia documental não desapareceu, pelo contrário: hoje, uma das características das artes visuais é precisamente o gosto por este modelo, revisto e modernizado.
As inscrições podem ser feitas até ao dia 20 de Junho e custam 15 euros. A palestra tem um número de inscrições limitado.
Horacio Fernández
Professor de fotografia na Faculdade de Belas Artes de Cuenca e comissário de várias exposições de fotografia e artes visuais, entre as quais Mexicana, Fotografia Moderna do México 1923-1949 (IVAM, Valência, 1998), Fotografia Pública (MNCARS, Madrid, 1999), Variaciones en España, Arte y Fotografia 1900-1980 (MARCO, Vigo, e outros museus, 2004). Escreveu crítica de arte para o jornal El Mundo, Buades, El Europeo e Kalias. Escreveu vários ensaios sobre arte contemporânea e fotografia. Entre 2004 e 2006 foi comissário geral do PHotoEspaña.
Kgaleria
Rua da Vinha, 43 A, Lisboa
tel: 21 343 16 76
e-mail: kgaleria@kameraphoto.com
PHE08 - de cima
Lá de cima vemos mais, mais longe, talvez até melhor. Certeza, certeza é que, lá de cima, do ar, vemos de maneira diferente. A perspectiva não é nova, longe disso, mas a invenção da fotografia deu-lhe usos novos, primeiro a quem simplesmente se espantou com a junção das duas e depois a quem quis ver muito mais, muito mais longe, da melhor maneira possível e, claro, de maneira diferente, de uma maneira que estava – e está - ao alcance de poucos. Ora, se há perspectiva que pauta boa parte do PHotoEspaña – Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais deste ano, essa perspectiva é a aérea, a vista de cima para baixo, a fazer lembrar a tradicional topografia, a ciência que faz precisamente a descrição dos lugares.
Em muitas exposições do festival, onde as vistas do alto marcam presença, o que ficou da topografia ou da geodesia (utilizada para vistas ainda mais largas) foi mesmo só a linguagem. Em vez de estudos minuciosos de terrenos, localização de acidentes geográficos ou marcação de obras públicas, o que encontrámos muitas vezes foi o contrário – uma tendência para aumentar a ambiguidade do documento fotográfico, desconstruindo-o, jogando com os usos que habitualmente lhe atribuímos.
Através de trabalhos que representam tendências contemporâneas quis dar-se “algo mais do que a capacidade descritiva e informativa” da fotografia, explica o comissário Sérgio Mah no catálogo da exposição Lugares Comprometidos. Topografia e Actualidade, a mostra que tenta questionar mais directamente o tema Lugar e uma das que mais utilizou a perspectiva aérea para o fazer (Pedro Barateiro, Walter Niedermayr, Peter Piller, Patricia Dauder). Para o crítico do jornal El País, Alberto Martín, que não ficou particularmente surpreendido com a programação deste ano do PHotoEspaña, é uma das melhores do todo o festival.
Questionado sobre esta linha de força das vistas aéreas pouco depois de ter apresentado mais duas exposições da secção oficial do PHotoEspaña em Madrid, Mah explicou que esta tendêndia para o “aéreo” não foi intencional, mas reconheceu que era “inevitável”. “Desde o século XIX que a ideia topográfica está ligada à fotografia, a ideia de descrever um território e, muitas vezes descrever o território em diferentes momentos do tempo para perceber as suas nuances, as suas transformações”. E avançou uma explicação para este nosso fascínio pelo que é captado lá de cima: “A ideia de fotogenia tem muito a ver com uma relação de espanto em relação à imagem. São aquelas imagens que nós não vemos normalmente. E há de facto uma fotogenia aos vermos a terra do ar. Ficamos fascinados quando chegamos a uma cidade de avião. E, mesmo que seja a nossa cidade, há sempre um encanto novo ao olhar pela janela do avião e tentar ver as coisas, as ruas, ter outra outra imagem do espaço”.
(Público, P2, 9.06.2008)
mandar postais
O americano Walter H. Horne andava um bocado ao sabor da corrente até que assentou junto à fronteira mexicana, em El Paso, Texas, e lembrou-se de pegar numa das recentes máquinas da Kodak com rolos de filme para fazer postais da revolução, que acontecia mesmo ali ao lado. É difícil perceber o que levava alguém a mandar um postal com a imagem de um fuzilamento, mas o certo é que Horne chegou a El Paso com os bolsos vazios e morreu rico à conta dos postais mexicanos tirados durante os anos sangrentos da guerra civil. A história de Walter H. Horne está resumida no site project b, mantido pela curadora, artista e coleccionadora Barbara Levine, onde se podem comprar também fotografias vernaculares e fotografias vintage.
Para saber mais sobre Walter H. Horne clique aqui.
09 junho, 2008
Descubrimientos PHE08 - Yann Gross
O prémio Descubrimientos PHE08 foi atribuído ao fotógrafo suíço Yann Gross. Ou seja, nenhum dos meus candidatos saiu vencedor. Na verdade, depois de ver os 70 trabalhos expostos no Complejo el Águila, em Madrid, o nome de Gross ficou escrito numa primeira lista que incluía 19 nomes. Quando decidi encurtá-la para 11 aquele que foi agora escolhido como novo talento do PHE08 "saltou".
Yann Gross estudou arte e design na Universidade de Lausanne, na Suíça. Em 2008, integrou o colectivo de fotógrafos Piece of Cake (PoC), do qual faz parte a fotógrafa portuguesa Patrícia Almeida. A série com que decidiu candidatar-se ao prémio chama-se Horizonville e retrata os habitantes desta localidade industrial, situada no vale do Rhone, aos pés de uma das zonas mais turísticas dos Alpes suíços. Horizonville é atravessada por uma estrada que segue exactamente para o cimo das montanhas, o que faz com que poucos forasteiros decidam visitá-la. Uma das particularidades que Gross encontrou neste local, foi a maneira "americanada" com que os seus habitantes levam o dia-a-dia. Para muitos deles é a tentativa de concretização de uma espécie de "sonho americano" sem nunca terem posto os pés nos EUA.
Para ver mais fotografias de Horizonville clique aqui.
07 junho, 2008
PHE08 - livros
Já são conhecidos os prémios para os melhores livros de fotografia do ano do PHE08.
Categoria Nacional:
>Marín, VVAA, Fundacion Telefónica (Vencedor)
>Vidas Minadas - Diez Años, Gervasio Sanchez, Art Blume (Menção Honrosa)
>En Ruta Solidaria a Mauritania, Eduardo del Fraile, Consejaría de Medio Ambiente + Ruta Motor Murcia (Menção Honrosa)
Categoria Internacional:
>A Maysles Scrapbook Photographs, Albert Maysles, ed. Steven Kasher Gallery/Steidl Publisher`s (vencedor).
>Snowbound, Lisa M. Robinson, Kehrer publisher (Menção Honrosa);
>Fifteen Photographs, San Francisco, White Sands, New York, 4 vols., Brett Weston, Lodimapress (Menção Honrosa).
Prémio Editorial:
Twin Palms, Santa Fe, Novo Mexico, EUA (Vencedor)
>The Adventures of Constantine Cavafy, Duane Michals;
>Exercise at Home, Luke Smalley.
Os candidatos portugueses seleccionados foram estes:
>Álbum, Daniel Blaufuks, edição de autor;
>The Diminishing Present, Edgar Martins, The Moth House;
>Territorialidades, Luís Palma, Multitema;
>Procurar Portugal, 2 vols., Candida Hofer, Hannah Collins, Rineke Dijkstra e Colecção Centro de Artes Visuais, Centro de Artes Visuais, Coimbra.
O júri era composto por:
#Milagros de Corral, directora da Biblioteca Nacional de Espanha;
#Hans-Michael Koetzle, historiador, jornalista e comissário;
#Óscar Mariné, desenhador gráfico;
#Alberto Anaut, presidente do PHotoEspaña 2008
PHE08 - Descubrimientos
Vai ser conhecido hoje o nome do vencedor do projecto Descubrimientos do PHE. Os 70 trabalhos candidatos ao prémio, onde estao dois portugueses (Pedro Medeiros e Pedro Guimarães) foram ontem mostrados pela primeira vez. Estive no complexo El Águila e fiz a minha lista de 11 candidatos:
#Yo Imae: retrato
#Birth Piontek: conceptual
#Pedro Guimarães: conceptual, paisagem urbana
#Enrico Abrate: conceptual
#Ferit Kuyas: paisagem urbana
#Hee Seung Chung: retrato
#Manuel Capurso: retrato
#Pepe Cañanate: retrato
#Ana Belén Jarrin: retrato
#Monica Menez: retrato
#Claudio Rasano: documental
experimentações
06 junho, 2008
Thomas Demand - realidade reconstruída
Em bom rigor são imagens que documentam esculturas que reproduzem imagens preexistentes que representam lugares. Ou seja, são imagens das imagens das imagens. Confuso? É assim que o alemão Thomas Demand gosta de se colocar na fotografia: do lado menos imediato, para fazer perguntas aparentemente inocentes como: O que vemos?; Como é que permitimos que o que vemos tenha um lugar tão importante nas nossas vidas?
Ontem, na Fundação Telefónica, em Madrid, durante a cerimónia de apresentação da exposição Camera, uma das grandes apostas da edição deste ano do PHotoEspaña no campo da fotografia conceptual, Demand foi muito parco em palavras e apontou amiúde para as imagens projectadas e penduradas nas paredes, como quem diz "elas falam por si". E falarão? Não é fácil chegar ao que o move na fotografia. Aliás, a fotografia é mais ou menos um acidente de percurso no seu trabalho de criação artística que passa essencialmente pela escultura. Ele próprio se considera um amateur na arte de fotografar e confessou sem grandes complexos existenciais perante umas três dezenas de jornalistas que, "a nível técnico", até está a precisar de umas aulas.
Quem vê as fotografias do artista alemão nas salas com pouca luz da Fundação Telefónica não sente muito esse "amadorismo" fotográfico, talvez porque o conceito que está na base destes trabalhos apele a um raciocínio complexo que nos transporta para lá do aspecto técnico da fotografia como suporte. Por outro lado, esse conhecimento rudimentar da prática fotográfica também passa despercebido muito por culpa do rigor formal com que tudo é arrumado e construído dentro de cada imagem.
Os bocados de realidade milimetricamente compostos nas fotografias de Thomas Demand não deixam de causar uma estranha sensação de mundo asséptico e impessoal. Parece que falta sempre alguma coisa. Em alguns casos, há faltas que incomodam, tal é a constância com que habitualmente se apresentam à frente dos nossos olhos: as letras e os símbolos. E fomos perguntar-lhe por que é que tinha escolhido não nos dar esse tipo de informação. A resposta surgiu sussurrante e rápida, em duas frases e quatro palavras: "[quero dar] protótipos da realidade, [quero] reduzir a realidade."
Ainda a propósito deste sentido de depuração, um jornalista na sala perguntou se o pintor Piet Mondrian, conhecido pela paleta limitada de cores que usava nos seus quadros, podia considerar-se uma fonte de inspiração. A resposta surgiu mais uma vez vaga: "Não consigo imaginar a arte sem referências".
Quem entra nas salas onde se apresenta Camera, título de um dos vídeos da mostra, tem a sensação de que está no sítio errado ou nas traseiras de alguma coisa, escuridão incluída. As paredes amovíveis que separam os vários núcleos de fotografia e vídeo foram deixadas com grandes suportes em madeira à vista, como se ainda se estivesse a acabar um ou outro pormenor de última hora. É-nos dada a ideia de realidade em construção, um pouco à imagem do que acontece com as "realidades construídas", com as representações de histórias muito particulares que aparecem nas fotografias de Camera.
A simplificação do mundo através da imagem fotográfica segundo Thomas Demand é-nos dada nesta exposição através de três trabalhos. Na série Poll, de 2001, é reconstruído um dos centros de votação na Florida onde foram recontados os votos durante as eleições americanas de 2000 que deram a vitória a George W. Bush. Em Yellowcake (2007), nove fotografias representam a embaixada do Níger, em Roma, o local onde alegadamente os serviços secretos italianos esconderam documentos que provavam a compra de grandes quantidades de urânio enriquecido por parte do regime de Saddam Hussein. Documentos esses que serviram para George W. Bush justificar a invasão do Iraque. Na série Tavern (2006) são recriados vários espaços de um bar da localidade alemã de Burbach onde uma criança de cinco anos foi assassinada por um grupo de pederastas. Para além destas séries, há ainda um vídeo de alta definição, Camera, e dois filmes de 35 milímetros, Recorder (2002) e Tunel (1999).
Na apresentação o comissário fez questão de dizer que estes dois núcleos apresentam uma autonomia muito própria, mas, no essencial, comungam do mesmo objectivo artístico - produzir uma visão alternativa dos acontecimentos. "Thomas Demand coloca-nos perante uma reflexão fundamental sobre o estatuto da imagem como algo que oscila entre a verdade e a ficção, entre o documento e a construção, entre o reconhecimento e a projecção imaginária. É um mundo umas vezes artificial e outras real, uma fantasmagoria estranhamente desprovida de presença humana, ainda que se tratem de espaços reconhecíveis e aparentemente habitados", explica Sérgio Mah, comissário, no catálogo oficial da exposição.
Demand começou por utilizar o suporte fotográfico apenas para registar grandes peças escultóricas feitas de materiais perecíveis como o papel e o cartão. Mas, em 1993, deu conta do potencial fotográfico para despojar a informação visual que recebemos de parte do seu conteúdo anedótico. Para isso tenta representar os objectos da forma mais certeira possível, concentrando a fotografia no que ela tem de essencial e excluindo tudo o que se possa tornar ruído. O resultado final pode ser lido através de três camadas distintas - a da imagem original, a da imagem construída e da imagem representada.
Tudo começa com uma imagem preexistente de lugares ou acontecimentos importantes e polémicos da nossa história política e social. Depois, são feitas maquetas em tamanho real em papel, cartão e outros materiais degradáveis. A maqueta (posteriomente destruída) é depois fotografada de uma maneira que Sérgio Mah classifica como "provocadoramente elegante", onde a atenção se centra "na interpretação da história" e não apenas na sua beleza formal.
Esta aptidão para a construção de objectos vem da escultura, que é a formação-base do artista alemão (Akademie der Bildenden, Munique). Thomas Demand passou depois para a Kunstakademie de Düsseldorf, escola onde os pais da fotografia contemporânea alemã, Bernd e Hilla Becher, deram aulas e de onde saíram ao longo dos anos 80 e 90 alguns dos mais reputados nomes da fotografia contemporânea mundial, como Candida Hofer, Andreas Gursky e Thomas Struth. Apesar desta "escola" da fotografia e de todo o burburinho que tem causado os nomes a ela ligados, Demand não se mostra particularmente entusiasmado com a ideia de ser associado a este grupo de artistas e, numa recente entrevista ao suplemento El Cultural do diário El Mundo, confessa mesmo que a discussão à volta da fotografia o "aborrece". Mas, em contrapartida, já se mostra "muito satisfeito" com o crescente estatuto alcançado como fotógrafo, e não como escultor-fotógrafo. E dá uma das razões pelas quais o seu trabalho deve ser olhado com o mesmo critério utilizado para outro fotógrafo-artista qualquer: "Construo o que fotografo e acho que o processo é tão importante como a sua documentação." No mesmo texto, as fotografias do artista alemão foram classificadas como "frias" e puramente "descritivas". E ele disse que sim, que não são feitas para "comover", mas, ao mesmo tempo, confessou ter "pena" se elas não provocarem essa reacção.
(Público, P2, 07.06.2008)
PHE08 - a bênção
Roni Horn, s/t, No. 15, da série Bird Pairs(© Roni Horn, cortesia da artista e da Galeria Hauser & Wirth, Zurique, Londres)
Lançamento do PHotoEspaña 2008 abençoado com champanhe
A infanta dona Elena, da casa real espanhola, não cortou fitas, mas houve quem entornasse meia dúzia de flutes de champanhe por cima de uma máquina fotográfica. Não foi intencional. Foi só um tropeção, uma bênção simbólica ou talvez um bom presságio na abertura da 11.ª edição do PHotoEspaña - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, que ontem juntou centenas de pessoas à sombra dos plátanos do Real Jardim Botânico, em Madrid.
Pouco antes, Claude Bussac, directora do festival, e o português Sérgio Mah, comissário-geral, fizeram as honras da casa no Círculo de Belas-Artes, onde se mostram duas exposições da secção oficial - Roni Horn e David Claerbout, programadas pela alemã Ute Eskildsen. Para Mah, esta sua estreia num grande acontecimento cultural internacional não contribuirá, a curto prazo, para que outros exemplos de comissariado português no estrangeiro se sigam. “Tive a sorte de ser o primeiro comissário estrangeiro do PHotoEspaña, mas não acho que isso possa significar agora um movimento de comissariados portugueses em outros países. Portugal deve é estar atento aos contributos exteriores”, disse ao PÚBLICO.
Por mais que se queira actual e que esteja muito virado para pensar a produção fotográfica contemporânea, o PHotoEspaña inclui sempre nomes clássicos da história da fotografia. A edição deste ano não fugiu à regra. Na secção oficial foram programadas exposições de dois "grandes" da fotografia mundial, o americano W. Eugene Smith e o inglês Bill Brandt.
Se tivesse que escolher um autor para começar a ver o festival, o comissário seleccionaria W. Eugene Smith.
Más real que la realidad reúne cerca de 200 fotografias dos mais marcantes trabalhos realizados para a revista LIFE, nos anos 1940 e 1950, e os longos e estudados ensaios Pittsburgh e Minamata. Ao longo das fotografias de Smith, percebe-se a importância do lugar (vivia anos a fio nos locais onde fotografava). E também a obsessão com o real e com as estratégias para dar a ver os seus trabalhos da maneira mais "realista" possível. Eugene Smith, arrumado no grupo de fotógrafos humanistas, é considerado um dos criadores do ensaio fotográfico, o genéro onde se tentam estabelecer cumplicidades entre o fotógrafo e o seu assunto e onde se gasta o tempo que for necessário para assegurar que o que foi registado corresponde à realidade máxima dos acontecimentos e das coisas. “O relacionamento mais intenso que o fotógrafo tem com um lugar, com as pessoas, onde se sente a própria transpiração do lugar, é uma espécie de valor ético da prática fotográfica. A ideia de ensaio fotográfico neste programa do festival assinala outra coisa: Em certo sentido, Eugene Smith foi o último dos fotorepórteres”, explicou Mah em entrevista ao PÚBLICO, antes da inauguração do festival.
Para o comissário, os trabalhos publicados na imprensa onde predomina a fotografia são cada vez mais raros e podem estar condenados à extinção. “Agora, os jornais não só não têm espaço para publicar portfolios, como não têm dinheiro ou disposição para pagar a um fotógrafo para estar dois meses a fazer um trabalho. Isso desapareceu”. E é por isso que esta exposição de Smith pode ser considerada arqueologia fotográfica.
(Público, 5.6.2008)
PHE08 - notas II
>O finlandês Harri Pälviranta, vencedor do prémio Descubrimientos do ano passado do PHotoEspaña, apresentou a sua exposição individual, uma das distinções atribuídas ao vencedor pela organização do festival. "A PHotoEspaña tem-me tratado muito bem. Cheguei aqui como um entusiasta da fotografia, mas agora estou a desenvolver novos trabalhos", disse Pälviranta. O fotógrafo garantiu, sem ninguém lhe perguntar nada, que as fotografias do projecto Battered não foram feitas para vender. E confessou que durante a realização deste projecto sobre a violência nas ruas, sentiu-se, pela primeira vez, "comprometido" com um projecto fotográfico.
>Thomas Demand é um artista de poucas palavras. Na sessão de inauguração da exposição Camera, o presidente da Telefónica (a mostra está na Fundaçao Telefónica) falou mais deste trabalho do que o próprio. Valeu o comissário, Sérgio Mah, para descodificar as imagens duplamente construídas do escultor alemão que diz ser um "amador" na fotografia.
>>Post relacionado
>(Thomas Demand)
>Do trabalho ultra-conceptual de Demand passamos, num abrir e fechar de olhos, para o longo ensaio fotográfico de Cristina Garcia Rodero, María Lionza, la diosa de los ojos de agua. A fotógrafa da Magnum passou dez anos num vaivém para a Venezuela para captar os rituais místicos praticados no culto a Lionza, na Montanha da Sorte. Durante a visita guiada à exposição, Rodero explicou como se conseguiu integrar no seio dos vários grupos que praticamente vivem na floresta e como encontrou as categorias cénicas e plásticas nos rituais. A design do espaço feito de propósito para María Lionza é um dos mais elegantes e inteligentes que já vi neste PHotoEspaña.
>Ao fim da tarde, o Institute Français recebeu a festa de lançamento da Vu Mag, a nova revista da conceituada agência francesa com o mesmo nome. O primeiro número faz capa com um retrato de Désirée Dolron e todo o conteúdo editorial e gráfico é muito bem tratado. Voltarei a ela.
Para folhear a VU Mag clique aqui.
Para ler o editorial clique aqui.
05 junho, 2008
PHE08 - notas I
Está calor em Madrid. Está sempre calor em Madrid. E ainda querem eles cortar a sombra das árvores do Paseo del Prado... O calor sabe sempre bem, sobretudo se for suportado à sombra. E, já agora, à sombra de árvores.
Não é que a temperatura seja propriamente uma categoria estética da fotografia, mas, numa altura em que a camisa já se colava ao corpo, soube bem começar o dia na Islândia de Roni Horn. Não se viu neve, mas sentiu-se frio. Seguem-se algumas notas soltas do dia:
> no Círculo de Belas Artes, Sérgio Mah fez a sua primeira apresentação para a imprensa internacional. Num dos espaços culturais mais emblemáticos da cidade, há duas exposições do PHE para ver: Roni Horn, comissariada por Ute Eskildsen, e David Claerbout, comissariada por Sérgio Mah. Em Horn percebe-se a obsessão pelo lugar - a Islândia. Há séries de fotografias dispostas no espaço de maneira muito diferente e todas sugerem essa descoberta e posterior aproximação apaixonada. Assim que são isolados motivos vem ao de cima uma necessidade quase enciclopédica de registar. Há títulos poéticos como Her, Her, Her and Her ou You Are the Weather. Este aspecto foi aliás um dos temas de conversa na conferência. Ute Eskildsen explicou que muitas vezes as séries de Horn surgem apenas depois da descoberta de um título que não tem necessariamente uma ligação literal com o tema fotografado. E acrescentou que estes títulos deviam ser vistos também como obras separadas das fotografias. Foi ainda apresentada uma ideia muito curiosa de Horn sobre a impossibilidade de fotografar a água, um elemento que, para a artista, é demasiado volátil para ser fotografado. E mesmo quando é fotografada, a água transforma-se noutra coisa qualquer. Um das séries da exposição é exactamente sobre a água e este paradoxo tenta resolver-se pela aproximação máxima.
Na instalação de vídeo de David Claerbout, Secciones de un momento feliz, feito a partir de sequências de fotografias sobre o mesmo assunto, há uma reflexão sobre a ideia de movimento e uma crítica à velocidade em que corre o mundo actual.
> No Real Jardim Botânico, esperamos pela infanta dona Elena que foi muito pontual. Coisas da Casa Real. Elena, de fato claro e bouquet de rosas colado ao peito, lá foi seguindo as fotografias de Ignasi Aballí instaladas no recinto. As impressões feitas em chapas de aço são uma provocação ao verde que por ali abunda e que faz esquecer a buzinadelas mesmo ali ao lado, em faixas de não sei quantas vias para cada lado. O verde da Fotografia para jardines de Aballí, o mesmo artista que vai estar no Museu de Portimão, já é pouco. Mas com o cinzento do aço por trás quase desaparece e faz-nos quase virar a cara à procura de... verde.
> W. Eugene Smith - Mas Real Que la Realidad é uma das grandes exposições do PHE. Grande no tamanho, grande na qualidade e grande nos propósitos. Todas as provas são vintage e foram impressas por Smith.
> A um passo dali, e já com a barriga a pedir um bocadillo, ainda passei pelo Museu Thyssen Bornemiza para apreciar as fotografias dramáticas e espectaculares de Florian Maier-Aichen, um nome a seguir com atenção. A primeira coisa que Florian disse aos jornalistas reunidos à sua volta foi que, até há bem pouco tempo, não fazia ideia do que era o PHotoEspaña. Porque não gosta de festivais e porque tem a ideia que o que lá se passa só tem a ver com fotojornalismo.
> Para terminar um dia de calor, uma viagem até à fotografia "quente" da colectiva De Viaje, onde se destaca o trabalho de Pablo López e Juan Valbuena.
04 junho, 2008
PHE08 - de cá
Nos próximos dias vou estar com a cabeça no PHotoEspaña. Vou fazendo actualizações sempre que possível.
concorrer
Piscina de Campanhã
Estão abertas as inscrições para o concurso Novo Talento FNAC de Fotografia. A organização recebe portfolios até ao dia 15 de Julho. Os trabalhos apresentados têm de ser inéditos.
Fui convidado para fazer parte do júri da edição deste ano e aceitei. Os outros membros do júri são: Fátima Marques Pereira (professora universitária), António Pedro Ferreira (fotojornalista), António Júlio Duarte (fotógrafo, membro do colectivo kameraphoto) e Miguel von Hafe Pérez (crítico de arte e comissário de exposições).
Os vencedores das edições anteriores foram: Pedro Guimarães, Francisco Kessler, António Lucas Soares, Virgílio Ferreira, João Margalha, Nelson d’Aires e Inês d’Orey.
Os premiados terão os seus trabalhos expostos nas Galerias FNAC Portugal e FNAC Internacional. O vencedor receberá uma câmara digital Canon EOS 40D, um flash 580EX e um MacBook Pro. Os participantes que receberem menções honrosas terão direito a um vale de 500 euros em compras de produtos Canon nas lojas Fnac.
01 junho, 2008
*À conversa com...
Sérgio Mah
(© Nuno Ferreira Santos/Público)
É a primeira vez que o PHotoEspaña tem um comissário estrangeiro. Sente alguma responsabilidade acrescida por causa dessa condição?
Não, não há nenhuma responsabilidade extraordinária. O que há é a responsabilidade por um trabalho que envolve muitas coisas numa cidade que tem uma escala que não é a da minha cidade. Não sinto nenhum peso especial, até porque já levo a experiência de ter comissariado duas edições de um acontecimento parecido em Lisboa [LisboaPhoto]. Foi uma grande ajuda para o trabalho que fiz este ano em Espanha. E também não houve uma carga extraordinária por ser o mais novo de todos os comissários que o PHotoEspaña já teve.
Como é que funciona o processo de selecção e nomeação? Ficou surpreendido com a decisão final?
Não. Recordo que a minha relação com o PHotoEspaña começou em 2006, quando fui comissário de uma exposição antológica de Joel Sternfeld. Na altura, houve uma relação muito boa, foi uma exposição muito bem-sucedida em termos de público, em termos de crítica em Espanha e o processo de organização da exposição correu muito bem. A minha relação com os membros da equipa foi boa e tenho a ideia que deixei boa imagem. Fui contactado creio que em Fevereiro de 2007 e perguntaram-me se estaria interessado em ser candidato a comissário.
Então, primeiro há uma série de convites...
Calculo que o devam fazer. Acho que é inteligente. Eles tinham uma ideia mais ou menos clara [de quem devia ser o comissário], e começaram a olhar para as pessoas que conheciam e que obedeciam a uma série de critérios. Sei também que um dos objectivos era terem, pela primeira vez, um comissário estrangeiro. Devem ter criado uma shortlist e contactaram-me e na altura até lhes disse que ia ser difícil porque a minha vida profissional não ajudaria e teria de ser profundamente reorganizada. Para além disso, ainda havia resquícios da ressaca de ter feito o LisboaPhoto. Não só pela intensidade de trabalho, mas também por todo o lado kafkiano que envolve fazer um grande festival com uma câmara municipal. O processo foi difícil, houve situações menos boas e, perante o convite, não fiquei bestialmente entusiasmado, mas fui a Madrid, tivemos uma conversa, e perguntaram-me qual era a minha opinião sobre o festival, o que é que poderia ser interessante para o próximo. Um comissário quando trabalha para um programa pensa em 30 e depois de concretizar esse programa pensa em todos os outros que não conseguiu concretizar. Pensei que ainda me faltava fazer um projecto com determinado fotógrafo, que gostava de fazer uma exposição com determinadas características e, obviamente, o PHotoEspaña é um festival importante. Não o fiz por carreirismo, achei é que podia desenvolver projectos que gostava de desenvolver e também porque o panorama a curto ou a médio prazo em Portugal era muito limitado. Há também alguma curiosidade de ir fazer um projecto no estrangeiro.
O seu nome foi apresentado no ano passado pouco depois de se ficar a saber que o LisboaPhoto não iria continuar. O LisboaPhoto foi abandonado por quem e o que é que correu mal para que não continuasse?
Não sei responder à pergunta. Quando terminou a edição de 2005 já tinha ficado claramente definido que não continuaria. Ainda houve uma vaga hipótese de continuar mas para mim ficou completamente claro que não, por variadíssimas razões. A mais importante de todas é que é um projecto de uma câmara municipal. E depois, um festival com as características do LisboaPhoto não deve ter sempre o mesmo comissário. Os comissários devem mudar. Em termos organizacionais há uma grande vantagem em ser a mesma pessoa, porque já conhece os meandros, a forma de lidar com os aspectos burocráticos, com a logística com os orçamentos. Uma coisa pareceu-me clara: o modelo de organização do LisboaPHoto não podia ser o mesmo. Teria de criar-se uma associação à parte, claramente formada pela câmara com alguma autonomia formal ou então a burocracia, a irracionalidade dos processos tornava o nosso trabalho doloroso. E depois, queria ir-me embora da Câmara Municipal de Lisboa, literalmente. O LisboaPhoto chegou a um ponto de esgotamento e a pessoa pode relativizar um primeiro sobressalto, um segundo, mas quando chega ao décimo já está farta.
Acha que foi a burocratização que matou o LisboaPHoto? Não havia uma estrutura suficientemente ágil para que o festival funcionasse?
O festival funcionava. Mas como estava muito dependente da máquina burocrática da câmara tornava muito difícil o trabalho do comissário e da própria equipa de produção. Muitas vezes não sabíamos com o que contávamos. Mas o que eu sei de concreto sobre o fim do LisboaPhoto foi o que passou pelos jornais - que não tinham dinheiro.
Todos os festivais ou outros acontecimentos ligados à fotografia em Portugal estão ou estiveram ligados ao poder político. Acha que é por causa disso que não se consegue manter nenhum com regularidade?
Não sou especialista em política cultural, mas o assunto tem sido sobejamente discutido nos últimos anos. Neste momento, em Portugal não há uma política continuada e consolidada de apoio às estruturas e eventos culturais. E não é só através de financiamento central, mas também financiamento municipal. Ainda mais grave é o problema de volatilidade política - mudam-se os partidos que estão no governo central ou municipal e mudam-se radicalmente as apostas de apoio aos eventos culturais. Tenho pena e acho que não é um bom paradigma. Aliás, uma das grandes diferenças quando contacto com instituições no estrangeiro, com museus e com outros festivais é que, em primeiro lugar, não têm esta dependência do poder politico, não só em termos de liderança dos projectos, mas também do próprio financiamento. A PHotoEspaña tem 40 por cento de financiamento público. Foi uma coisa que eu defendi na LisboaPhoto, mas não consegui. Não conseguimos criar mecanismos e uma estrutura para poder autonomizar a LisboaPhoto da câmara.
A directora do PHotoEspaña, Claude Bussac, disse, no ano passado, que caso a Comunidade de Madrid retirasse o subsídio ao festival ele sobreviveria. É essa organização empresarial que procura a independência financeira que tem faltado aos festivais portugueses?
Não sei se em Portugal faltam empresas na área da gestão cultural. À partida parece-me que sim, mas, antes de chegarmos aí, os mecanismos e as estratégias de financiamento público às entidades culturais que desenvolvem projectos em Portugal têm de ser muito mais claras, muito mais rigorosas para que não se repitam todos os anos as polémicas com os apoios que aparecem nos jornais. Há uma permanente controvérsia em relação a estes domínios. É a eterna discussão em Portugal da subsídio-dependência. É um bocado como aquele jogo da cadeira: umas vezes sentam-se uns, outras vezes sentam-se outros, mas, no final, queixam-se todos do mesmo. É bizarro como os anos vão passando e os problemas vão permanecendo. É desconcertante.
O PHotoEspaña tem hoje uma marca que extravasa muito o domínio do festival. Como é que vê esta expansão do tipo “planeta PHotoEspaña” rumo a áreas como o ensino, a edição, a venda de livros e até mesmo uma espécie de franchising, com o PhotoGalicia e extensões além-fronteiras?
Foram os mecanismos que se encontraram para viabilizar o projecto. Muitas exposições envolvem uma logística administrativa e financeira brutal. A PHotoEspaña luta para que os projectos circulem para poder aumentar o retorno. O que o La Fabrica [organizador do festival] faz é uma coisa muito inteligente: olha para Madrid, percebe que tem um know-how extraordinário e que há áreas que não estão preenchidas. É uma cultura de projecto muito ambiciosa, muita atenta e inovadora.
Depois de uma edição onde houve uma espécie de “revisão da matéria dada”, o festival voltou a agrupar-se em torno de um tema genérico. Havia essa determinação antes dessa edição de pausa temática ou houve algum factor que implicasse esse regresso?
Houve nove edições que foram sequências de três comissários. Na 10ª edição decidiram que não haveria comissário, portanto se não havia comissário também não havia tema. Era um programa muito mais aberto com grandes nomes, e que seria sobretudo uma espécie de consagração, uma festa comunicacional do próprio festival, onde seria mais uma vez reforçado o estatuto da PHotoEspaña. Quando se volta a convidar um comissário para três edições, volta a haver um mote. Volta a haver um título para o programa oficial, ou pelo menos para uma parte do programa oficial.
Foi só isso, ou houve algum fracasso no PhotoEspaña do ano passado?
Não, não. Ficou claramente decidido que era um ano de interregno, de celebração e que, na 11ª edição, voltava-se ao mesmo formato.
E o tema? Foi proposto antes ou depois da sua nomeação para comissário?
Por acaso perguntaram-me que tipo de temas gostaria de desenvolver. E lembro-me que o Lugar foi um dos que apresentei logo. É um tema que tem toda a pertinência. Escolhi-o tendo em consideração o tipo de festival que é o PHotoEspaña. Foi preciso pensar um tema para um evento que é muito diversificado, que permitisse uma grande abertura. Tinha de ser um programa com uma forte matriz contemporânea, que fosse eclético, sobretudo porque a média da última edição foi de 600 mil visitantes, e esse número significa que houve centenas de tipologias de público. Tornou-se óbvio que tinha de ser um programa de que permitisse uma diversidade de exposições e de trabalhos e que permitisse várias portas de entrada para os vários tipos de público, essa foi logo o primeiro critério para a escolha do tema. Depois, era importante que fosse um tema relevante para a história da fotografia. E, se formos olhar para a história cultural moderna e contemporânea, a fotografia foi uma das práticas da imagem que deu atenção aos passos da experiência quotidiana, que reformulou ou reconfigurou a nossa percepção sobre os lugares onde vivemos, sobre a forma como percebemos a história através de realidades geográficas. Há muitos fotógrafos vinculados ao tema do Lugar. Podemos dar exemplos como o de Atget, em Paris, o de Victor Palla, no Lisboa, Cidade Triste e Alegre, em certos bairros de Lisboa, ou podemos pensar no Carlton Watkins, que é um fotógrafo que eu gosto muito, um fotógrafo que trabalha a descoberta do Oeste americano. Muitos dos fotógrafos mais importantes que nós conhecemos têm uma relação muito específica com os lugares porque tendencialmente os fotógrafos fotografam os lugares da sua experiência quotidiana. Esta recategorização da importância dos lugares é um fenómeno onde a fotografia teve um peso muito significativo. Por outro lado, o tema Lugar é um tema deste tempo. Não quero ter a pretensão de dizer que o tema permite repensar a vida contemporânea. Mas serve para reflectir sobre a globalização, o capitalismo pós-moderno, a homogeneização cultural, onde cada vez são menos perceptíveis as diferenças entre os lugares, e, ao mesmo tempo, a reacção a esse fenómeno com a afirmação das identidades locais. No fundo, mais do que um tema, o Lugar é um ponto de partida para discutir formas de praticar a fotografia hoje, extensões do fotográfico e grandes temas da actualidade.
Um dos statements do festival anuncia Lugar não como um conceito espacial e físico mas como um espaço vivido onde a experiência do fotógrafo tem uma importância fundamental. Pode aprofundar um pouco mais esta abordagem? Isto significa que a experiência de quem está por trás da câmara ganha mais protagonismo?
A noção de lugar tem sido muito debatida nas ciências sociais, na antropologia, na geografia e também na filosofia. Ela diferencia-se, por exemplo, da noção de espaço. O espaço, é uma noção que remete para dimensões muito mais abstractas - podemos medir um espaço, o espaço é mensurável, o lugar não. O lugar parte da ideia de espaços vividos, que têm história, que de alguma forma, enfatizam valores experienciais, emocionais, importantes. Ou seja, é uma geografia conotada em termos simbólicos, políticos e históricos. Por exemplo, acho que há um lugar - acho não, não tenho dúvida nenhuma - , que é paradigmático do século XX: Auschwitz. Podemos ir a Auschwitz e percebemos o espaço físico, mas a verdadeira percepção, o drama e a emotividade que podemos sentir ao visitar aquele lugar não decorre do reconhecimento das suas características físicas, mas sim da percepção que há uma história por detrás daquele espaço e que é tão mais pesada quanto a realidade física que está ali. O lugar é uma noção que permite um reencontro, um paradoxo e uma dialéctica entre uma imagem real e uma imagem mental. O Lugar fala destas contradições entre uma realidade física e uma realidade que é aparentemente invisível, mas que tem um peso muito significativo pela maneira como nós nos relacionamos com uma série de lugares.
Mas, o lugar do fotógrafo não é uma coisa que quisesse realçar?
O lugar do fotógrafo é importante porque muitas vezes percebemos que há lugares que decorrem de obsessões específicas dos fotógrafos. A exposição de Eugene Smith é uma homenagem a este programa. Ele não é propriamente conhecido como um fotógrafo do lugar, mas fala-nos de uma série de coisas muito importantes. Primeiro, criou a ideia de ensaio fotográfico, que acontece quando um fotógrafo decide trabalhar sobre um tema e concentra-se sobre esse tema durante um certo período. Há uma dimensão profundamente antropológica no método e na maneira como trabalhava. Outra noção muito importante em Eugene Smith parte desta premissa que é um truísmo: nós podemos dizer coisas melhores, mais justas sobre as coisas que conhecemos melhor. O relacionamento mais intenso que o fotógrafo tem com um lugar, com as pessoas, onde se sente a própria transpiração do lugar, é uma espécie de valor ético da prática fotográfica. A ideia de ensaio fotográfico neste programa do festival assinala outra coisa: em certo sentido, Eugene Smith foi praticamente o último dos fotorrepórteres. Hoje em dia, quase todos os jornais deixaram de publicar ensaios fotográficos, portfolios. Não há reportagens. E quando há, saem três fotografias, duas, uma, meia fotografia. Um trabalho onde predomina a fotografia é uma coisa muito rara hoje. Na imprensa portuguesa não existe. Havia algumas revistas que faziam isso, mas acabou. A ideia de ensaio fotográfico é um conceito que desapareceu do fotojornalismo e foi criado especificamente para pensar a relação, o valor informativo inerente a esta cumplicidade entre o fotógrafo e o seu assunto. Agora, os jornais não só não têm espaço para publicar portfolios, como nem têm dinheiro ou disposição para pagar a um fotógrafo para estar dois meses a fazer um trabalho. Desapareceu.
Foram feitas críticas em relação à pouca capacidade do PHotoEspaña de gerar exposições próprias e que isso transformaria o festival apenas num receptor de propostas que já tinham sido mostradas noutros sítios. Este ano, qual é a relação entre propostas já produzidas e propostas totalmente novas?
É muito simples: todas as exposições foram produzidas por nós. Não há uma única exposição que fosse recebida ou já produzida, nenhuma. Produzimos todas as exposições e em particular as exposições que têm um carácter histórico. Essas vêm de museus ou de fundações e foram feitas especificamente para o PHotoEspaña em função de objectivos curatoriais que eu defini e que outros comissários que eu também convidei também desenvolveram. Não há nenhuma “exposição-pacote”.
Acha que o PHotoEspaña já é um festival internacionalmente reconhecido como capaz de criar discurso e teoria sobre a imagem?
Acho que os festivais não são espaços para criar teoria sobre a imagem. Criam de uma forma pontual. A maneira como montei o programa não foi nesse sentido. Existem exposições concretas que tem uma leitura singular sobre determinado tipo de problemática da fotografia, mas, apesar disso, acho que as exposições não são espaços para a formulação teórica. Mas podem promover ou instigar esse contributo. Nos eventos em que estive envolvido, não quis que a teoria definisse a natureza do projecto. Isso seria transformar a exposição numa ilustração de uma teoria. Seria muito mais eficaz a desenvolver uma teoria se escrevesse um livro. Uma exposição baseia-se sobre aquilo que é a questão mais importante na produção no fenómeno artístico que é a relação emotiva do espectador perante uma obra. E aí a teoria por vezes vale, outras não vale, umas vezes ajuda, outras atrapalha. Ainda assim, a teoria está lá porque, se partirmos da ideia de Duchamp que diz que cada obra de arte é uma definição de arte, há artistas que têm obras tão singulares que, à sua medida, formulam uma teoria da imagem. Não acho que seja a função do comissário montar uma grande teoria sobre a imagem ou uma teoria sobre uma questão fundamental do nosso tempo. Pelo contrário, acho é que um programa tão eclético como o PHotoEspaña tem de ter a sensibilidade para mapear alguns desses contributos teóricos, algumas dessas direcções conceptuais. A função do programador é contextualizá-las e favorecer o seu entendimento.
O PHotoEspaña chama-se Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais. Há quem diga que as artes visuais nunca chegaram a entrar verdadeiramente na programação. Há outras artes visuais para além da fotografia na edição deste ano?
É difícil falar de uma crítica feita a edições anteriores. Nem sei quem a fez, nem sei a que edição em particular se estava a referir.
Mas posso dizer-lhe quem foi uma dessas pessoas: o crítico de fotografia do jornal El País, Alberto Martin. E referia-se a todas as outras edições do festival.
Temos um programa de artes visuais em que predomina o fotográfico. Há muitas exposições baseadas no vídeo, em produções de película, existem projecções, existe escultura...
Então há outras artes...
Há outras artes e há um ciclo de cinema que faz parte do meu programa, que é dedicado ao realizador de Taiwan Tsai Ming-Liang, escolhido especificamente para preencher uma área concreta do programa. O festival tem um historial relacionado com a fotografia, mas mais do que em fotografia estou interessado na ideia do fotográfico. E o fotográfico para mim tem a mesma relação com a fotografia que o teatral tem com o teatro, que o cinemático tem com o cinema ou que o escultórico tem com a escultura. O pictórico não cabe todo na pintura. Da mesma forma que na fotografia o fotográfico é praticado, pode ser praticado através da imagem em movimento, através de algum objecto escultórico. Acho que isso está presente no PHotoEspaña. Tive a preocupação de abranger um leque muito diversificado de tipologias de prática em vez de fazer uma espécie de enciclopédia, de descrever todas as categorias possíveis de prática fotográfica.
Concorda com a periodicidade anual ou preferia um festival de dois em dois anos como aconteceu enquanto esteve à frente do LisboaPHoto? Este periodicidade dá-lhe tempo para programar o que vem a seguir?
É possível. É tão possível que existe à onze anos. É óbvio que cria dificuldades, limita muito, por exemplo, projectos que requerem investigação. Uma dificuldade passa por desenvolver projectos com fotografia do século XIX porque tem de existir uma relação com as instituições. Os museus trabalham com calendários mais alargados e isso limita, mas não impede de maneira alguma que se elabore programas consistentes. A grande dificuldade - que eu e a organização sentimos na pele – é a intensidade de trabalho. Mas não cabe ao comissário dizer se é melhor num ano, dois anos ou três, o que é facto é que a forma de financiamento e de organização estão montadas para que seja anual.
E funciona...
...e funciona. Podemos dizer que, do ponto de vista do comissário, era preferível ser de dois em dois anos, mas para uma cidade como Madrid interessa que todos os anos haja um grande acontecimento dedicado à fotografia.
De quem foi a iniciativa de trazer o PHotoEspaña para Portugal?
A história é relativamente recente, tem alguns meses, mas eu confesso que já não nem me recordo quem foi a pessoa e o momento. Quando fui nomeado, algumas instituições
perguntaram se iríamos fazer exposições fora de Espanha, à semelhança do que aconteceu no ano passado em França, e se Portugal era uma hipótese. Ao mesmo tempo, pedimos ajuda às entidades portuguesas para apoiarem a participação de portugueses. É uma prática comum. Todos os grandes eventos fazem isso. Quando contactamos o Ministério da Economia e Inovação percebemos que havia disponibilidade para uma colaboração muito mais alargada. E inclui-se uma exposição dentro do projecto Allgarve. Falamos também com o director do Museu Colecção Berardo, Jean-François Chougnet, e houve abertura para colaborar. Quando começamos a discutir, a falar um pouco sobre as mútuas programações para este período, Maio e Junho, ele falou-me de uma exposição dedicada ao Le Corbusier. Dentro dos projectos que estava a desenvolver propus-lhe o projecto Utopia que foi a primeira inauguração do PHotoEspaña. Convidei o Paul Wombell para desenvolver esse projecto que se centra na herança da arquitectura modernista dos anos 50 e 60. Esta exposição estabelece um diálogo muito interessante com a retrospectiva do Corbusier. Este é um critério que me interessa muito desenvolver: fazer exposições que se enquadram. Surge mais uma vez a questão do lugar, com a natureza programática da instituição que vai receber o projecto.
De qualquer maneira estas exposições também servem para promover o festival cá...
Temos a participação de um artista espanhol, o Ignasi Aballí que estará no Algarve, e temos a participação de quatro portugueses no programa oficial em Espanha. O ministério ajuda a internacionalizar quatro artistas portugueses e ao mesmo tempo nós, a partir de Espanha, internacionalizamos um artista espanhol.
Não é estranho que não tenha havido aqui a mão do Ministério da Cultura? Nunca é referido...
O Instituto Camões também apoia uma parcela. Fomos ter com os institutos que normalmente são interlocutores para exposições exteriores e para a internacionalização de artistas portugueses. E o Instituto Camões é um desses interlocutores. Aliás, o que é normal é contactar a embaixada portuguesa que depois decide. Mas soube que o Ministério da Economia tinha apoiado uma exposição de um português no estrangeiro e fui imediatamente lá. Deduzi que o Ministério da Economia tivesse mais orçamento do que o Ministério da Cultura. Solicitamos um pedido, tivemos uma reunião e fomos discutindo formas de alargar a colaboração.
Houve algum tipo de pressão institucional, política ou corporativa para beneficiar este ou aquele artista durante o processo de escolha de exposições?
Não, nada. Houve propostas que me fizeram, recebemos imensas propostas. Aqui a pressão é relativa. Uns são mais insistentes, outros são mais subtis... Mas, não houve nenhum caso anormal.
Não houve nenhuma quota para a fotografia espanhola?
Não. Não utilizo o critério nacional como um critério válido de selecção de artistas. Não é um critério para mim. Como também não é critério o género. Estou interessado no trabalho fotográfico em si. É óbvio que ao trabalhar em Espanha uma das funções passa também por promover a produção fotográfica espanhola. Fiz o mesmo no LisboaPhoto. Mas não há quotas. Quando defini o programa pensei “como é que estão representados os fotógrafos espanhóis?”. Até porque temos de atrair público. Por exemplo, vamos expor Javier Vallhonrat, que é um fotógrafo muito conhecido em Espanha, é uma grande figura da fotografia espanhola, é óbvio que a exposição vai ter muito público, não só porque o trabalho tem qualidade, mas também porque há um imenso interesse sobre este fotógrafo. Sendo o festival em Madrid, faz todo o sentido promover a produção fotográfica de Espanha.
O facto de ser português beneficiou de alguma maneira a fotografia portuguesa no PHotoEspaña?
Beneficiou de uma maneira muito simples: as pessoas comissiariam a partir daquilo que conhecem e eu conheço melhor a fotografia portuguesa do que a fotografia finlandesa. Há inevitavelmente uma presença. Não sei se é muito forte, não fiz as contas. Tenho a ideia de que há mais fotógrafos americanos e alemães, por exemplo.
Mas, entre todas as edições esta é a que tem mais fotógrafos portugueses na secção oficial...
Sim. O que eu quero esclarecer é que não defini isso como um objectivo. Disse à PHotoEspaña que não seria uma espécie de embaixador da fotografia portuguesa. É normal que tivesse um interesse e uma certa propensão para privilegiar a fotografia portuguesa, sendo português e tendo estado envolvido com a fotografia portuguesa como tenho estado nos últimos anos. Até porque são fotógrafos que conheço bem, são fotógrafos que admiro.Tirando o Augusto, os outros são jovens artistas. A minha função também é promover jovens artistas no plano internacional e quer o Pedro Barateiro, quer o João Maria Gusmão e o Pedro Paiva cumpriam muito bem esse objectivo. Assim como o PHotoEspaña não convidou um comissário por ser português, também não convidei fotógrafos por serem portugueses. Convidei fotógrafos que são fotógrafos de qualidade e que preenchiam os requisitos e o perfil que eu tinha imaginado para o programa 2008.
Augusto Alves da Silva e Pedro Barateiro são dois dos fotógrafos portugueses na secção oficial. São de gerações diferentes e têm um percurso ligado à fotografia muito diferente. Por que é que os escolheu?
Estão na mesma colectiva que se chama Lugares Comprometidos. Topografia e Actualidade. É uma exposição que tem um carácter de tese dentro da estrutura do programa. Um dos géneros dentro da história da fotografia que mais próximo esteve da representação lugar foi obviamente a fotografia topográfica. É uma exposição que se molda dentro de géneros como a topografia, a paisagem, a arquitectura. E tenta desenvolver um olhar problematizador sobre a própria geografia e sobre a ideia de cartografia. Tenta trabalhar entre este paradoxo, esta dialéctica, que é muito real, dentro deste tipo de fotografia que que tanto documenta como, ao mesmo tempo, tenta denegar aquilo que documenta. O reconhecimento é apenas uma parcela de um trabalho de especulação sobre o assunto da imagem e onde, a partir de paisagens, dos temas mais variados, se podem questionar alguns dos fenómenos actuais. E isso é evidente na exposição em torno da guerra, dos problemas ecológicos. Por exemplo, a série do Augusto dos Açores, dos aviões, foi exposta no primeiro LisboaPhoto. Para além de ser uma, aquela fotografia é sobre um encontro e sobre uma base militar, mas que não está visível naquela paisagem idílica que é o que é mais evidente na série 3.16 do Augusto. O Pedro Barateiro utiliza um outro género de cartografia. Recorre a imagens aéreas da internet. Imprime-as, apropria-se delas e transforma-as em objectos que fazem lembrar os posters situacionistas do Maio de 68, em Paris. É uma série que se chama Psico-Geografias.
Vai ficar à frente do PHotoEspaña durante as próximas três edições. Não há o perigo de o festival se tornar demasiado monótono em torno de um projecto curatorial?
Não acho que haja esse perigo. Sempre dentro desta matriz eclética, vou querer que o programa de 2009 seja diferente. É natural que existam tonalidades que permanecem, porque é a mesma pessoa a fazer o programa. Não posso dizer que o programa de 2008 seja um programa de tendência, ele é bastante abrangente. Procurarei que haja pontos de interesse para todo o tipo de público, mas também há coisas que vou querer mudar.
Isso quer dizer que em 2009 e 2010 vamos ter programas mais de tendência e menos diversificados?
Não, não, eles vão continuar a ser programas diversificados estabelecendo como acontece em 2008 pontos que afirmam uma série de tendência. O modelo do PHotoEspaña está muito estabilizado, são muitas exposições. Para além disso, é muito difícil fazer uma exposição de tendência para 24 exposições, é muito difícil, e seria até um erro curatorial, seria aborrecido. Quando estava no início do trabalho no PHotoEspaña perguntei se o programa Off, das galerias, tinha alguma relação com o tema. E lembro-me que havia essa hipótese, mas acabou por não se impor. Pensei logo o que seriam 80 exposições sobre o tema lugar. Seria uma coisa entediante...
Foram traçados objectivos genéricos para a edição deste ano, como ultrapassar o número de visitantes do ano passado?
Não. A questão do público é importante, mas nunca me disseram para ter exposições populares no mau sentido. Um dos grandes desafios para um comissário passa por fazer exposições de muita qualidade para um público abrangente. Pensei também em termos geográficos e em termos de tipologia de exposições. Perguntei: onde é que posso e devo ter exposições que sejam mais atractivas para o público, e onde é que posso ter outras que são mais fechadas, mais complexas do ponto de vista do espectador? São muitas exposições e, a partir de determinada altura, uma pessoa começa a territoralizar. Quis que houvesse um contraste produtivo entre exposições, uma mais acessível e outra mais complexa.
Pensou numa geografia de exposições?
Claro, claro, tive isso muito em conta.
Qual é a exposição ideal para começar a ver o PHotoEspaña?
Depende do público.
Mas, em função do tema Lugar, qual seria a melhor exposição?
Vou sugerir duas grandes figuras, de dois tempos distintos: a exposição de Eugene Smith e a de Thomas Demand. Mas que fique claro que para mim não são necessariamente as duas melhores, as mais importantes ou exposições pelas quais tenho mais carinho. Quando se programa para diferentes tipos de espaços, tem-se estimas muito equivalentes entre exposições feitas para grandes museus, com grandes orçamentos, e exposições projectadas para espaços com muitas dificuldades logísticas, com jovens artistas. Tenho um prazer e uma satisfação imensa com exposições que têm um impacto público muito diferenciado.
(Público, P2, 1.06.2008)
























