01 junho, 2008

*À conversa com...

Sérgio Mah
(© Nuno Ferreira Santos/Público)

Sérgio Mah esteve nos bastidores das duas edições da bienal LisboaPhoto (2003/05). Até que a burocracia, a alternância política e um esquema de funcionamento kafkiano na câmara apagaram o festival que mal chegou a passar a fase do triciclo. Quando, no ano passado, se confirmou que a bienal de fotografia de Lisboa já nem trienal seria, em Madrid houve logo quem piscasse o olho a Mah para comissariar o PHotoEspaña - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais. O português de 38 anos, que se tornou no primeiro estrangeiro a programar o festival que vai já na 11.ª edição, disse sim a um namoro de três anos. E logo no primeiro encontro levou no bolso o tema genérico que marca as exposições deste ano: Lugar. Ironia das ironias, a primeira inauguração do festival espanhol aconteceu na última quarta-feira em... Lisboa. A romaria segue agora para Madrid, onde, dia 4, dezenas de museus e galerias abrem as portas à fotografia e a outras artes visuais.

É a primeira vez que o PHotoEspaña tem um comissário estrangeiro. Sente alguma responsabilidade acrescida por causa dessa condição?
Não, não há nenhuma responsabilidade extraordinária. O que há é a responsabilidade por um trabalho que envolve muitas coisas numa cidade que tem uma escala que não é a da minha cidade. Não sinto nenhum peso especial, até porque já levo a experiência de ter comissariado duas edições de um acontecimento parecido em Lisboa [LisboaPhoto]. Foi uma grande ajuda para o trabalho que fiz este ano em Espanha. E também não houve uma carga extraordinária por ser o mais novo de todos os comissários que o PHotoEspaña já teve.

Como é que funciona o processo de selecção e nomeação? Ficou surpreendido com a decisão final?
Não. Recordo que a minha relação com o PHotoEspaña começou em 2006, quando fui comissário de uma exposição antológica de Joel Sternfeld. Na altura, houve uma relação muito boa, foi uma exposição muito bem-sucedida em termos de público, em termos de crítica em Espanha e o processo de organização da exposição correu muito bem. A minha relação com os membros da equipa foi boa e tenho a ideia que deixei boa imagem. Fui contactado creio que em Fevereiro de 2007 e perguntaram-me se estaria interessado em ser candidato a comissário.

Então, primeiro há uma série de convites...
Calculo que o devam fazer. Acho que é inteligente. Eles tinham uma ideia mais ou menos clara [de quem devia ser o comissário], e começaram a olhar para as pessoas que conheciam e que obedeciam a uma série de critérios. Sei também que um dos objectivos era terem, pela primeira vez, um comissário estrangeiro. Devem ter criado uma shortlist e contactaram-me e na altura até lhes disse que ia ser difícil porque a minha vida profissional não ajudaria e teria de ser profundamente reorganizada. Para além disso, ainda havia resquícios da ressaca de ter feito o LisboaPhoto. Não só pela intensidade de trabalho, mas também por todo o lado kafkiano que envolve fazer um grande festival com uma câmara municipal. O processo foi difícil, houve situações menos boas e, perante o convite, não fiquei bestialmente entusiasmado, mas fui a Madrid, tivemos uma conversa, e perguntaram-me qual era a minha opinião sobre o festival, o que é que poderia ser interessante para o próximo. Um comissário quando trabalha para um programa pensa em 30 e depois de concretizar esse programa pensa em todos os outros que não conseguiu concretizar. Pensei que ainda me faltava fazer um projecto com determinado fotógrafo, que gostava de fazer uma exposição com determinadas características e, obviamente, o PHotoEspaña é um festival importante. Não o fiz por carreirismo, achei é que podia desenvolver projectos que gostava de desenvolver e também porque o panorama a curto ou a médio prazo em Portugal era muito limitado. Há também alguma curiosidade de ir fazer um projecto no estrangeiro.

O seu nome foi apresentado no ano passado pouco depois de se ficar a saber que o LisboaPhoto não iria continuar. O LisboaPhoto foi abandonado por quem e o que é que correu mal para que não continuasse?
Não sei responder à pergunta. Quando terminou a edição de 2005 já tinha ficado claramente definido que não continuaria. Ainda houve uma vaga hipótese de continuar mas para mim ficou completamente claro que não, por variadíssimas razões. A mais importante de todas é que é um projecto de uma câmara municipal. E depois, um festival com as características do LisboaPhoto não deve ter sempre o mesmo comissário. Os comissários devem mudar. Em termos organizacionais há uma grande vantagem em ser a mesma pessoa, porque já conhece os meandros, a forma de lidar com os aspectos burocráticos, com a logística com os orçamentos. Uma coisa pareceu-me clara: o modelo de organização do LisboaPHoto não podia ser o mesmo. Teria de criar-se uma associação à parte, claramente formada pela câmara com alguma autonomia formal ou então a burocracia, a irracionalidade dos processos tornava o nosso trabalho doloroso. E depois, queria ir-me embora da Câmara Municipal de Lisboa, literalmente. O LisboaPhoto chegou a um ponto de esgotamento e a pessoa pode relativizar um primeiro sobressalto, um segundo, mas quando chega ao décimo já está farta.

Acha que foi a burocratização que matou o LisboaPHoto? Não havia uma estrutura suficientemente ágil para que o festival funcionasse?
O festival funcionava. Mas como estava muito dependente da máquina burocrática da câmara tornava muito difícil o trabalho do comissário e da própria equipa de produção. Muitas vezes não sabíamos com o que contávamos. Mas o que eu sei de concreto sobre o fim do LisboaPhoto foi o que passou pelos jornais - que não tinham dinheiro.

Todos os festivais ou outros acontecimentos ligados à fotografia em Portugal estão ou estiveram ligados ao poder político. Acha que é por causa disso que não se consegue manter nenhum com regularidade?
Não sou especialista em política cultural, mas o assunto tem sido sobejamente discutido nos últimos anos. Neste momento, em Portugal não há uma política continuada e consolidada de apoio às estruturas e eventos culturais. E não é só através de financiamento central, mas também financiamento municipal. Ainda mais grave é o problema de volatilidade política - mudam-se os partidos que estão no governo central ou municipal e mudam-se radicalmente as apostas de apoio aos eventos culturais. Tenho pena e acho que não é um bom paradigma. Aliás, uma das grandes diferenças quando contacto com instituições no estrangeiro, com museus e com outros festivais é que, em primeiro lugar, não têm esta dependência do poder politico, não só em termos de liderança dos projectos, mas também do próprio financiamento. A PHotoEspaña tem 40 por cento de financiamento público. Foi uma coisa que eu defendi na LisboaPhoto, mas não consegui. Não conseguimos criar mecanismos e uma estrutura para poder autonomizar a LisboaPhoto da câmara.

A directora do PHotoEspaña, Claude Bussac, disse, no ano passado, que caso a Comunidade de Madrid retirasse o subsídio ao festival ele sobreviveria. É essa organização empresarial que procura a independência financeira que tem faltado aos festivais portugueses?
Não sei se em Portugal faltam empresas na área da gestão cultural. À partida parece-me que sim, mas, antes de chegarmos aí, os mecanismos e as estratégias de financiamento público às entidades culturais que desenvolvem projectos em Portugal têm de ser muito mais claras, muito mais rigorosas para que não se repitam todos os anos as polémicas com os apoios que aparecem nos jornais. Há uma permanente controvérsia em relação a estes domínios. É a eterna discussão em Portugal da subsídio-dependência. É um bocado como aquele jogo da cadeira: umas vezes sentam-se uns, outras vezes sentam-se outros, mas, no final, queixam-se todos do mesmo. É bizarro como os anos vão passando e os problemas vão permanecendo. É desconcertante.

O PHotoEspaña tem hoje uma marca que extravasa muito o domínio do festival. Como é que vê esta expansão do tipo “planeta PHotoEspaña” rumo a áreas como o ensino, a edição, a venda de livros e até mesmo uma espécie de franchising, com o PhotoGalicia e extensões além-fronteiras?
Foram os mecanismos que se encontraram para viabilizar o projecto. Muitas exposições envolvem uma logística administrativa e financeira brutal. A PHotoEspaña luta para que os projectos circulem para poder aumentar o retorno. O que o La Fabrica [organizador do festival] faz é uma coisa muito inteligente: olha para Madrid, percebe que tem um know-how extraordinário e que há áreas que não estão preenchidas. É uma cultura de projecto muito ambiciosa, muita atenta e inovadora.

Depois de uma edição onde houve uma espécie de “revisão da matéria dada”, o festival voltou a agrupar-se em torno de um tema genérico. Havia essa determinação antes dessa edição de pausa temática ou houve algum factor que implicasse esse regresso?
Houve nove edições que foram sequências de três comissários. Na 10ª edição decidiram que não haveria comissário, portanto se não havia comissário também não havia tema. Era um programa muito mais aberto com grandes nomes, e que seria sobretudo uma espécie de consagração, uma festa comunicacional do próprio festival, onde seria mais uma vez reforçado o estatuto da PHotoEspaña. Quando se volta a convidar um comissário para três edições, volta a haver um mote. Volta a haver um título para o programa oficial, ou pelo menos para uma parte do programa oficial.

Foi só isso, ou houve algum fracasso no PhotoEspaña do ano passado?
Não, não. Ficou claramente decidido que era um ano de interregno, de celebração e que, na 11ª edição, voltava-se ao mesmo formato.

E o tema? Foi proposto antes ou depois da sua nomeação para comissário?
Por acaso perguntaram-me que tipo de temas gostaria de desenvolver. E lembro-me que o Lugar foi um dos que apresentei logo. É um tema que tem toda a pertinência. Escolhi-o tendo em consideração o tipo de festival que é o PHotoEspaña. Foi preciso pensar um tema para um evento que é muito diversificado, que permitisse uma grande abertura. Tinha de ser um programa com uma forte matriz contemporânea, que fosse eclético, sobretudo porque a média da última edição foi de 600 mil visitantes, e esse número significa que houve centenas de tipologias de público. Tornou-se óbvio que tinha de ser um programa de que permitisse uma diversidade de exposições e de trabalhos e que permitisse várias portas de entrada para os vários tipos de público, essa foi logo o primeiro critério para a escolha do tema. Depois, era importante que fosse um tema relevante para a história da fotografia. E, se formos olhar para a história cultural moderna e contemporânea, a fotografia foi uma das práticas da imagem que deu atenção aos passos da experiência quotidiana, que reformulou ou reconfigurou a nossa percepção sobre os lugares onde vivemos, sobre a forma como percebemos a história através de realidades geográficas. Há muitos fotógrafos vinculados ao tema do Lugar. Podemos dar exemplos como o de Atget, em Paris, o de Victor Palla, no Lisboa, Cidade Triste e Alegre, em certos bairros de Lisboa, ou podemos pensar no Carlton Watkins, que é um fotógrafo que eu gosto muito, um fotógrafo que trabalha a descoberta do Oeste americano. Muitos dos fotógrafos mais importantes que nós conhecemos têm uma relação muito específica com os lugares porque tendencialmente os fotógrafos fotografam os lugares da sua experiência quotidiana. Esta recategorização da importância dos lugares é um fenómeno onde a fotografia teve um peso muito significativo. Por outro lado, o tema Lugar é um tema deste tempo. Não quero ter a pretensão de dizer que o tema permite repensar a vida contemporânea. Mas serve para reflectir sobre a globalização, o capitalismo pós-moderno, a homogeneização cultural, onde cada vez são menos perceptíveis as diferenças entre os lugares, e, ao mesmo tempo, a reacção a esse fenómeno com a afirmação das identidades locais. No fundo, mais do que um tema, o Lugar é um ponto de partida para discutir formas de praticar a fotografia hoje, extensões do fotográfico e grandes temas da actualidade.

Um dos statements do festival anuncia Lugar não como um conceito espacial e físico mas como um espaço vivido onde a experiência do fotógrafo tem uma importância fundamental. Pode aprofundar um pouco mais esta abordagem? Isto significa que a experiência de quem está por trás da câmara ganha mais protagonismo?
A noção de lugar tem sido muito debatida nas ciências sociais, na antropologia, na geografia e também na filosofia. Ela diferencia-se, por exemplo, da noção de espaço. O espaço, é uma noção que remete para dimensões muito mais abstractas - podemos medir um espaço, o espaço é mensurável, o lugar não. O lugar parte da ideia de espaços vividos, que têm história, que de alguma forma, enfatizam valores experienciais, emocionais, importantes. Ou seja, é uma geografia conotada em termos simbólicos, políticos e históricos. Por exemplo, acho que há um lugar - acho não, não tenho dúvida nenhuma - , que é paradigmático do século XX: Auschwitz. Podemos ir a Auschwitz e percebemos o espaço físico, mas a verdadeira percepção, o drama e a emotividade que podemos sentir ao visitar aquele lugar não decorre do reconhecimento das suas características físicas, mas sim da percepção que há uma história por detrás daquele espaço e que é tão mais pesada quanto a realidade física que está ali. O lugar é uma noção que permite um reencontro, um paradoxo e uma dialéctica entre uma imagem real e uma imagem mental. O Lugar fala destas contradições entre uma realidade física e uma realidade que é aparentemente invisível, mas que tem um peso muito significativo pela maneira como nós nos relacionamos com uma série de lugares.

Mas, o lugar do fotógrafo não é uma coisa que quisesse realçar?
O lugar do fotógrafo é importante porque muitas vezes percebemos que há lugares que decorrem de obsessões específicas dos fotógrafos. A exposição de Eugene Smith é uma homenagem a este programa. Ele não é propriamente conhecido como um fotógrafo do lugar, mas fala-nos de uma série de coisas muito importantes. Primeiro, criou a ideia de ensaio fotográfico, que acontece quando um fotógrafo decide trabalhar sobre um tema e concentra-se sobre esse tema durante um certo período. Há uma dimensão profundamente antropológica no método e na maneira como trabalhava. Outra noção muito importante em Eugene Smith parte desta premissa que é um truísmo: nós podemos dizer coisas melhores, mais justas sobre as coisas que conhecemos melhor. O relacionamento mais intenso que o fotógrafo tem com um lugar, com as pessoas, onde se sente a própria transpiração do lugar, é uma espécie de valor ético da prática fotográfica. A ideia de ensaio fotográfico neste programa do festival assinala outra coisa: em certo sentido, Eugene Smith foi praticamente o último dos fotorrepórteres. Hoje em dia, quase todos os jornais deixaram de publicar ensaios fotográficos, portfolios. Não há reportagens. E quando há, saem três fotografias, duas, uma, meia fotografia. Um trabalho onde predomina a fotografia é uma coisa muito rara hoje. Na imprensa portuguesa não existe. Havia algumas revistas que faziam isso, mas acabou. A ideia de ensaio fotográfico é um conceito que desapareceu do fotojornalismo e foi criado especificamente para pensar a relação, o valor informativo inerente a esta cumplicidade entre o fotógrafo e o seu assunto. Agora, os jornais não só não têm espaço para publicar portfolios, como nem têm dinheiro ou disposição para pagar a um fotógrafo para estar dois meses a fazer um trabalho. Desapareceu.

Foram feitas críticas em relação à pouca capacidade do PHotoEspaña de gerar exposições próprias e que isso transformaria o festival apenas num receptor de propostas que já tinham sido mostradas noutros sítios. Este ano, qual é a relação entre propostas já produzidas e propostas totalmente novas?
É muito simples: todas as exposições foram produzidas por nós. Não há uma única exposição que fosse recebida ou já produzida, nenhuma. Produzimos todas as exposições e em particular as exposições que têm um carácter histórico. Essas vêm de museus ou de fundações e foram feitas especificamente para o PHotoEspaña em função de objectivos curatoriais que eu defini e que outros comissários que eu também convidei também desenvolveram. Não há nenhuma “exposição-pacote”.

Acha que o PHotoEspaña já é um festival internacionalmente reconhecido como capaz de criar discurso e teoria sobre a imagem?
Acho que os festivais não são espaços para criar teoria sobre a imagem. Criam de uma forma pontual. A maneira como montei o programa não foi nesse sentido. Existem exposições concretas que tem uma leitura singular sobre determinado tipo de problemática da fotografia, mas, apesar disso, acho que as exposições não são espaços para a formulação teórica. Mas podem promover ou instigar esse contributo. Nos eventos em que estive envolvido, não quis que a teoria definisse a natureza do projecto. Isso seria transformar a exposição numa ilustração de uma teoria. Seria muito mais eficaz a desenvolver uma teoria se escrevesse um livro. Uma exposição baseia-se sobre aquilo que é a questão mais importante na produção no fenómeno artístico que é a relação emotiva do espectador perante uma obra. E aí a teoria por vezes vale, outras não vale, umas vezes ajuda, outras atrapalha. Ainda assim, a teoria está lá porque, se partirmos da ideia de Duchamp que diz que cada obra de arte é uma definição de arte, há artistas que têm obras tão singulares que, à sua medida, formulam uma teoria da imagem. Não acho que seja a função do comissário montar uma grande teoria sobre a imagem ou uma teoria sobre uma questão fundamental do nosso tempo. Pelo contrário, acho é que um programa tão eclético como o PHotoEspaña tem de ter a sensibilidade para mapear alguns desses contributos teóricos, algumas dessas direcções conceptuais. A função do programador é contextualizá-las e favorecer o seu entendimento.

O PHotoEspaña chama-se Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais. Há quem diga que as artes visuais nunca chegaram a entrar verdadeiramente na programação. Há outras artes visuais para além da fotografia na edição deste ano?
É difícil falar de uma crítica feita a edições anteriores. Nem sei quem a fez, nem sei a que edição em particular se estava a referir.

Mas posso dizer-lhe quem foi uma dessas pessoas: o crítico de fotografia do jornal El País, Alberto Martin. E referia-se a todas as outras edições do festival.
Temos um programa de artes visuais em que predomina o fotográfico. Há muitas exposições baseadas no vídeo, em produções de película, existem projecções, existe escultura...

Então há outras artes...
Há outras artes e há um ciclo de cinema que faz parte do meu programa, que é dedicado ao realizador de Taiwan Tsai Ming-Liang, escolhido especificamente para preencher uma área concreta do programa. O festival tem um historial relacionado com a fotografia, mas mais do que em fotografia estou interessado na ideia do fotográfico. E o fotográfico para mim tem a mesma relação com a fotografia que o teatral tem com o teatro, que o cinemático tem com o cinema ou que o escultórico tem com a escultura. O pictórico não cabe todo na pintura. Da mesma forma que na fotografia o fotográfico é praticado, pode ser praticado através da imagem em movimento, através de algum objecto escultórico. Acho que isso está presente no PHotoEspaña. Tive a preocupação de abranger um leque muito diversificado de tipologias de prática em vez de fazer uma espécie de enciclopédia, de descrever todas as categorias possíveis de prática fotográfica.

Concorda com a periodicidade anual ou preferia um festival de dois em dois anos como aconteceu enquanto esteve à frente do LisboaPHoto? Este periodicidade dá-lhe tempo para programar o que vem a seguir?
É possível. É tão possível que existe à onze anos. É óbvio que cria dificuldades, limita muito, por exemplo, projectos que requerem investigação. Uma dificuldade passa por desenvolver projectos com fotografia do século XIX porque tem de existir uma relação com as instituições. Os museus trabalham com calendários mais alargados e isso limita, mas não impede de maneira alguma que se elabore programas consistentes. A grande dificuldade - que eu e a organização sentimos na pele – é a intensidade de trabalho. Mas não cabe ao comissário dizer se é melhor num ano, dois anos ou três, o que é facto é que a forma de financiamento e de organização estão montadas para que seja anual.

E funciona...
...e funciona. Podemos dizer que, do ponto de vista do comissário, era preferível ser de dois em dois anos, mas para uma cidade como Madrid interessa que todos os anos haja um grande acontecimento dedicado à fotografia.

De quem foi a iniciativa de trazer o PHotoEspaña para Portugal?
A história é relativamente recente, tem alguns meses, mas eu confesso que já não nem me recordo quem foi a pessoa e o momento. Quando fui nomeado, algumas instituições
perguntaram se iríamos fazer exposições fora de Espanha, à semelhança do que aconteceu no ano passado em França, e se Portugal era uma hipótese. Ao mesmo tempo, pedimos ajuda às entidades portuguesas para apoiarem a participação de portugueses. É uma prática comum. Todos os grandes eventos fazem isso. Quando contactamos o Ministério da Economia e Inovação percebemos que havia disponibilidade para uma colaboração muito mais alargada. E inclui-se uma exposição dentro do projecto Allgarve. Falamos também com o director do Museu Colecção Berardo, Jean-François Chougnet, e houve abertura para colaborar. Quando começamos a discutir, a falar um pouco sobre as mútuas programações para este período, Maio e Junho, ele falou-me de uma exposição dedicada ao Le Corbusier. Dentro dos projectos que estava a desenvolver propus-lhe o projecto Utopia que foi a primeira inauguração do PHotoEspaña. Convidei o Paul Wombell para desenvolver esse projecto que se centra na herança da arquitectura modernista dos anos 50 e 60. Esta exposição estabelece um diálogo muito interessante com a retrospectiva do Corbusier. Este é um critério que me interessa muito desenvolver: fazer exposições que se enquadram. Surge mais uma vez a questão do lugar, com a natureza programática da instituição que vai receber o projecto.

De qualquer maneira estas exposições também servem para promover o festival cá...
Temos a participação de um artista espanhol, o Ignasi Aballí que estará no Algarve, e temos a participação de quatro portugueses no programa oficial em Espanha. O ministério ajuda a internacionalizar quatro artistas portugueses e ao mesmo tempo nós, a partir de Espanha, internacionalizamos um artista espanhol.

Não é estranho que não tenha havido aqui a mão do Ministério da Cultura? Nunca é referido...
O Instituto Camões também apoia uma parcela. Fomos ter com os institutos que normalmente são interlocutores para exposições exteriores e para a internacionalização de artistas portugueses. E o Instituto Camões é um desses interlocutores. Aliás, o que é normal é contactar a embaixada portuguesa que depois decide. Mas soube que o Ministério da Economia tinha apoiado uma exposição de um português no estrangeiro e fui imediatamente lá. Deduzi que o Ministério da Economia tivesse mais orçamento do que o Ministério da Cultura. Solicitamos um pedido, tivemos uma reunião e fomos discutindo formas de alargar a colaboração.

Houve algum tipo de pressão institucional, política ou corporativa para beneficiar este ou aquele artista durante o processo de escolha de exposições?
Não, nada. Houve propostas que me fizeram, recebemos imensas propostas. Aqui a pressão é relativa. Uns são mais insistentes, outros são mais subtis... Mas, não houve nenhum caso anormal.

Não houve nenhuma quota para a fotografia espanhola?
Não. Não utilizo o critério nacional como um critério válido de selecção de artistas. Não é um critério para mim. Como também não é critério o género. Estou interessado no trabalho fotográfico em si. É óbvio que ao trabalhar em Espanha uma das funções passa também por promover a produção fotográfica espanhola. Fiz o mesmo no LisboaPhoto. Mas não há quotas. Quando defini o programa pensei “como é que estão representados os fotógrafos espanhóis?”. Até porque temos de atrair público. Por exemplo, vamos expor Javier Vallhonrat, que é um fotógrafo muito conhecido em Espanha, é uma grande figura da fotografia espanhola, é óbvio que a exposição vai ter muito público, não só porque o trabalho tem qualidade, mas também porque há um imenso interesse sobre este fotógrafo. Sendo o festival em Madrid, faz todo o sentido promover a produção fotográfica de Espanha.

O facto de ser português beneficiou de alguma maneira a fotografia portuguesa no PHotoEspaña?
Beneficiou de uma maneira muito simples: as pessoas comissiariam a partir daquilo que conhecem e eu conheço melhor a fotografia portuguesa do que a fotografia finlandesa. Há inevitavelmente uma presença. Não sei se é muito forte, não fiz as contas. Tenho a ideia de que há mais fotógrafos americanos e alemães, por exemplo.

Mas, entre todas as edições esta é a que tem mais fotógrafos portugueses na secção oficial...
Sim. O que eu quero esclarecer é que não defini isso como um objectivo. Disse à PHotoEspaña que não seria uma espécie de embaixador da fotografia portuguesa. É normal que tivesse um interesse e uma certa propensão para privilegiar a fotografia portuguesa, sendo português e tendo estado envolvido com a fotografia portuguesa como tenho estado nos últimos anos. Até porque são fotógrafos que conheço bem, são fotógrafos que admiro.Tirando o Augusto, os outros são jovens artistas. A minha função também é promover jovens artistas no plano internacional e quer o Pedro Barateiro, quer o João Maria Gusmão e o Pedro Paiva cumpriam muito bem esse objectivo. Assim como o PHotoEspaña não convidou um comissário por ser português, também não convidei fotógrafos por serem portugueses. Convidei fotógrafos que são fotógrafos de qualidade e que preenchiam os requisitos e o perfil que eu tinha imaginado para o programa 2008.

Augusto Alves da Silva e Pedro Barateiro são dois dos fotógrafos portugueses na secção oficial. São de gerações diferentes e têm um percurso ligado à fotografia muito diferente. Por que é que os escolheu?
Estão na mesma colectiva que se chama Lugares Comprometidos. Topografia e Actualidade. É uma exposição que tem um carácter de tese dentro da estrutura do programa. Um dos géneros dentro da história da fotografia que mais próximo esteve da representação lugar foi obviamente a fotografia topográfica. É uma exposição que se molda dentro de géneros como a topografia, a paisagem, a arquitectura. E tenta desenvolver um olhar problematizador sobre a própria geografia e sobre a ideia de cartografia. Tenta trabalhar entre este paradoxo, esta dialéctica, que é muito real, dentro deste tipo de fotografia que que tanto documenta como, ao mesmo tempo, tenta denegar aquilo que documenta. O reconhecimento é apenas uma parcela de um trabalho de especulação sobre o assunto da imagem e onde, a partir de paisagens, dos temas mais variados, se podem questionar alguns dos fenómenos actuais. E isso é evidente na exposição em torno da guerra, dos problemas ecológicos. Por exemplo, a série do Augusto dos Açores, dos aviões, foi exposta no primeiro LisboaPhoto. Para além de ser uma, aquela fotografia é sobre um encontro e sobre uma base militar, mas que não está visível naquela paisagem idílica que é o que é mais evidente na série 3.16 do Augusto. O Pedro Barateiro utiliza um outro género de cartografia. Recorre a imagens aéreas da internet. Imprime-as, apropria-se delas e transforma-as em objectos que fazem lembrar os posters situacionistas do Maio de 68, em Paris. É uma série que se chama Psico-Geografias.

Vai ficar à frente do PHotoEspaña durante as próximas três edições. Não há o perigo de o festival se tornar demasiado monótono em torno de um projecto curatorial?
Não acho que haja esse perigo. Sempre dentro desta matriz eclética, vou querer que o programa de 2009 seja diferente. É natural que existam tonalidades que permanecem, porque é a mesma pessoa a fazer o programa. Não posso dizer que o programa de 2008 seja um programa de tendência, ele é bastante abrangente. Procurarei que haja pontos de interesse para todo o tipo de público, mas também há coisas que vou querer mudar.

Isso quer dizer que em 2009 e 2010 vamos ter programas mais de tendência e menos diversificados?
Não, não, eles vão continuar a ser programas diversificados estabelecendo como acontece em 2008 pontos que afirmam uma série de tendência. O modelo do PHotoEspaña está muito estabilizado, são muitas exposições. Para além disso, é muito difícil fazer uma exposição de tendência para 24 exposições, é muito difícil, e seria até um erro curatorial, seria aborrecido. Quando estava no início do trabalho no PHotoEspaña perguntei se o programa Off, das galerias, tinha alguma relação com o tema. E lembro-me que havia essa hipótese, mas acabou por não se impor. Pensei logo o que seriam 80 exposições sobre o tema lugar. Seria uma coisa entediante...

Foram traçados objectivos genéricos para a edição deste ano, como ultrapassar o número de visitantes do ano passado?
Não. A questão do público é importante, mas nunca me disseram para ter exposições populares no mau sentido. Um dos grandes desafios para um comissário passa por fazer exposições de muita qualidade para um público abrangente. Pensei também em termos geográficos e em termos de tipologia de exposições. Perguntei: onde é que posso e devo ter exposições que sejam mais atractivas para o público, e onde é que posso ter outras que são mais fechadas, mais complexas do ponto de vista do espectador? São muitas exposições e, a partir de determinada altura, uma pessoa começa a territoralizar. Quis que houvesse um contraste produtivo entre exposições, uma mais acessível e outra mais complexa.

Pensou numa geografia de exposições?
Claro, claro, tive isso muito em conta.

Qual é a exposição ideal para começar a ver o PHotoEspaña?
Depende do público.

Mas, em função do tema Lugar, qual seria a melhor exposição?
Vou sugerir duas grandes figuras, de dois tempos distintos: a exposição de Eugene Smith e a de Thomas Demand. Mas que fique claro que para mim não são necessariamente as duas melhores, as mais importantes ou exposições pelas quais tenho mais carinho. Quando se programa para diferentes tipos de espaços, tem-se estimas muito equivalentes entre exposições feitas para grandes museus, com grandes orçamentos, e exposições projectadas para espaços com muitas dificuldades logísticas, com jovens artistas. Tenho um prazer e uma satisfação imensa com exposições que têm um impacto público muito diferenciado.

(Público, P2, 1.06.2008)

31 maio, 2008

Berardo compra Palla

Victor Palla

Joe Berardo comprou seis fotografias de Victor Palla no último leilão da Potássio 4, realizado na quinta-feira à noite. Os lotes foram arrematados por telefone e, no total, o coleccionador madeirense desembolsou mais de 21 mil euros. O recorde do leilão foi para o álbum Lisboa, Cidade Triste e Alegre, vendido por 6500 euros. Para além desta, havia mais duas cópias em praça. Uma foi vendida na sala por 4000 euros e a outra foi vendida depois do leilão terminar.

30 maio, 2008

Topologies

(©Edgar Martins)


Edgar Martins lança hoje na Fnac do Chiado, em Lisboa, o seu último álbum Topologies, editado pela Aperture. A sessão começa às 18h30.

29 maio, 2008

inauguração II

(© Mathieu Pernot)

No ano passado, por esta altura, estavam todos ainda muito cautelosos, mas notava-se aqui e ali uma vontade de incluir Portugal no roteiro das exposições do PHotoEspaña. Hoje, o tiro de partida para a 11ª edição do festival é dado em Lisboa, no Museu Colecção Berardo, com a exposição colectiva Utopía. A uma semana da abertura do grosso das propostas do PHE08, em Madrid, o Centro Cultural de Belém recebe os trabalhos de 10 fotógrafos contemporâneos que representam a arquitectura racionalista dos anos 50 e 60 como eco das utopias políticas que correram na primeira metade do século XX.
Frédéric Chaubin, Gayle CHong Kwan, Tacita Dean, Arni Harldsson, Alex Hartley, Wiebke Loeper, Mathieu Pernot, John Riddy, Stuart Whipps e Amir Zaki dão-nos o seu olhar sobre os edifícios construídos para "tornar o mundo um lugar melhor, metáfora da preocupação pelo futuro da sociedade ocidental". O conjunto foi comissariado por Paul Wombell e foi pensado para fazer companhia e entrar em diálogo com a exposição Le Corbusier - Arte e Arquitectura que actualmente também se pode ver no CCB.

Para ouvir a apresentação feita hoje pelo comissário clique aqui.
O texto de Alexandra Prado Coelho sobre a exposição está no P2 de hoje aqui.

Gayle Chong Kwan, Babel
(
© Gayle Chong Kwan)

Utopía, de Frédéric Chaubin, Gayle CHong Kwan, Tacita Dean, Arni Harldsson, Alex Hartley, Wiebke Loeper, Mathieu Pernot, John Riddy, Stuart Whipps e Amir Zaki
PHotoEspaña 2008
Museu Colecção Berardo, CCB, Lisboa

28 maio, 2008

inauguração I

Da série Love Forbids Us To Love
(
© Miguel Santos)

Depois do arranque com um nome consagrado, José M. Rodrigues, a galeria de fotografia Pente 10 aposta agora no trabalho de Miguel Santos que se estreia no suporte fotográfico em Portugal. Love Forbids Us To Love é o título escolhido para o conjunto de 32 imagens captadas ao longo de uma longa viagem por lugares incertos e sempre ao volante de um carro que aqui é bem mais do que um invólucro que serve para nos levar de um sítio para o outro. Há nestas fotografias uma presença constante dessa máquina que vai pautando a velocidade, o percurso, os cenários, a luz, a quase escuridão, a vertigem e até a forma do que ficou registado, como que a imitar o widescreen do pára-brisas. Aqui, são-nos dadas as condições mínimas para a deslocação, a procura ou a fuga. Agora, embarque quem quiser.

Da série Love Forbids Us To Love
(
© Miguel Santos)

Love Forbids Us To Love, de Miguel Santos
Galeria Pente 10, Travessa da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa
(ao jardim das Amoreiras)
Até 27 de Junho

27 maio, 2008

/uma fotografia, um nome\


Virgílio Ferreira, da série Peregrinos do Quotidiano
(© Virgílio Ferreira)

Do baú dos mistérios Virgílio Ferreira retirou os Peregrinos do Quotidiano, série a que pertence esta imagem. Num contexto feérico, que sugere transparências e vidros na inversão das palavras, um jovem caminha para nós, alheio a tudo, mas talvez não à sua própria imagem. A série foi levantada em diversas cidades do Oriente, mas esta cena é-nos familiar, é bem nossa.

Como um executivo juvenilmente negligente, envolvido pela agitação de uma cor verde que cintila, atravessa sem ver uma cidade da nossa cultura da comunicação. Não a aldeia global de uma comunidade utópica, mas a desertificação do gregário: a cidade, qualquer cidade como esta, reduz-se a um imenso átrio de informação, o espaço público afirma-se para lá do fora, inquieta a noite dos seus utentes com a sua presença compulsivamente ligeira; a sua presença permanece subliminar nos desejos e determinações de cada um. É, ainda, uma cidade que se oferece como espectáculo onde os homens entram e saem em diferentes cenários devidamente esclarecidos. No espaço privado que o deve esperar, o jovem da imagem irá desencadear, voluntariamente, um sem número de canais que abrem a constância da rede de informação que nos parece tutelar.

É um contexto asfixiante, mas é o nosso e reverenciado. As imagens fotográficas renovaram a paisagem, que perdeu o bucolismo da beleza de contemplação, mas ganhou o esplendor da invasão dos sentidos. A festa, aqui e em qualquer lugar, é sempre uma manifestação do excesso, uma encomenda de cor e ruído imaginado, - adrenalina e uma viagem consigo mesmo.

Esta fotografia insinua que a festa dos sentidos nos absorve e nos deixa indiferentes. Talvez dê a ligeireza do passo daquele jovem, porque a festa dos sentidos é uma atmosfera que entra com passos leves, engole-nos a percepção, mas deixa marcas, cobra-nos o ritmo e o brilho nos olhos. Sabemos que matou a festa da fundação, onde cada um se pensa outro, no meio do grupo; sabemos que trouxe consigo a banalidade do sentir, a parede de vidro da habituação do corpo, sem imaginário fiável. É vista, ainda, como uma fábrica e solidões, quando sentimos que não nos pertence e a comunidade nos parece tão instável como um rebanho de linfócitos numa lamela de laboratório: recebe informação e dispersa para nenhures. Então, a festa dos sentidos é negra, é uma doença, uma febre.

O culto da efemeridade dá-se bem com estes anúncios, estes avisos e estas luzes coloridas no escuro. Virgílio Ferreira, tendo como simulação apenas o projecto, faz fotografia directa, controla o visível e o invisível, não usa o digital e o computador. Dá-nos pois a realidade envolvida pelo seu imaginário. O que passa necessariamente por estes efeitos bem reais, da globalização do mundo e dos homens. À noite, na indefinição dos equipamentos de apoio, rodeia-nos a floresta rude, imperativa, sem luvas brancas, da informação. Gostaríamos de passar por ela com a atrevida indiferença do jovem com a sua esvoaçante luz verde, tão irreal como um resplendor. Porque, afinal, este mundo é muito belo e pode transmitir ao homem a inefabilidade do existir num passo leve e ligeiro. Virgílio Ferreira colocou o seu personagem a passar ao lado de tudo, pois entendeu que o sujeito da imagem não é ele, mas o mundo que o rodeia. Não se alterou, ao que vemos, o tema da paisagem.

Maria do Carmo Serén

construir

Flags, 2008
(© Thomas Weinberger, cortesia Nusser Baumgart Contemporary, Munique)

O fotógrafo alemão Thomas Weinberger captou a imagem escolhida para a capa do catálogo da exposição Ingenuidades, que no ano passado fez as delícias de quem gosta de fotografia em Portugal. A galeria Nusser & Baumgart Contemporary, de Munique, inaugura no dia 30 uma nova exposição de Weinberger, um ex-arquitecto que tem uma técnica muito particular de construção fotográfica – capta em suporte analógico o mesmo espaço de dia e de noite e faz uma sobreposição digital dos dois negativos. A mostra chama-se Operational Reality, um título que, segundo o artista, se inspira nos actos provisórios dos físicos que adoptam modelos operativos como complemento matemático à compreensão de fenómenos da física quântica.
As fotografias de Weinberger captam sobretudo espaços urbanos e industriais sem pessoas, espaços que habitualmente consideramos desconfortáveis nos arrabaldes ou nas zonas menos nobres das grandes urbes. As imagens finais resultam em lugares-tempo indefinidos, uma realidade visual inventada de luminescência etérea.
Uma dessas construções fotográficas foi captada em Portugal e representa o campo de futebol do Atlético Clube de Portugal, clube da zona de Alcântara, em Lisboa.


Nr. 7, 2007
(© Thomas Weinberger, cortesia Nusser Baumgart Contemporary, Munique)

26 maio, 2008

secret names

(© Inês Gonçalves)

Há um rapaz equipado com o fato e o equipamento do Batman; outro empunha a pose e a convicção de caçador, enquanto outro ainda despe a máscara de um morto-vivo, mas mantém um olhar ao mesmo tempo malandro e atemorizador... Há a pequena cowgirl a olhar o horizonte, a menina que se disfarça de gata escondida dentro de um casaco da irmã mais velha ou da mãe, ou ainda a rapariga que à janela de um automóvel assume a maquilhagem e o olhar de uma Marilyn "inadaptada"...
São todos rostos com nome próprio, mas são secret names, o que significa dizer crianças anónimas captadas num intervalo da correria do Carnaval de Badajoz, no ano 2000.
Secret Names é o título da exposição que a fotógrafa Inês Gonçalves inaugurou este mês na galeria P4Photography, na Rua dos Navegantes, em Lisboa.
É a primeira apresentação pública deste trabalho resultante da participação da fotógrafa num projecto lançado pelo Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporánea (MEIAC), em Badajoz, com o objectivo de fotografar sucessivas edições do Carnaval da cidade, e que envolveu fotógrafos de várias nacionalidades.
Olhando, agora, com o recuo de oito anos, para este trabalho, Inês Gonçalves diz que ele se inscreve na sua atenção ao rosto humano e ao retrato. A artista recorda, contudo, que partiu para este projecto sem programa prévio. "O que mais me chamou a atenção foi a universalidade do imaginário que estas máscaras e estes fatos transparecem", diz, notando que nada neles inscreve o lugar onde estão. "Isto aconteceu em Badajoz, mas podia ser em Portugal ou na América. Todos vêem os mesmos filmes, a mesma televisão, todos participam do mesmo imaginário", acrescenta Inês Gonçalves, que ultimamente se tem interessado mais pela África, continente que diz ter ainda uma identidade que a distingue - está actualmente a trabalhar em S. Tomé e Príncipe, num projecto associado à companhia de teatro Formiguinha, e que inclui a realização de um documentário e de uma exposição.
De regresso a Secret Names, a exposição é apresentada por um texto - Nomes secretos à procura de uma máscara - do poeta João Miguel Fernandes Jorge que, a certa altura, escreve: "De certo modo, nenhum dos fotografados andará longe deste modo de "anjo caído" no espaço do tempo que Inês Gonçalves (con)firmou em fotografia. Eles são registo de silêncio. Um silêncio sem sombra." E foi, de certo modo, um trabalho de silêncio que a fotógrafa procurou na abordagem aos seus "modelos". "Não me interessei pela história particular de cada uma das crianças que fotografei. Limitei-me a pedir-lhes autorização para as fotografar. Quis, sobretudo, registar rostos sem identidade nem pátria. São máscaras universais."

Sérgio C. Andrade (P2, 19.05.2008)


(© Inês Gonçalves)


Secret Names, de Inês Gonçalves
P4Photography, Rua dos Navegantes, nº 16, Lisboa
Até 28 de Junho

Cornell Capa (1918 - 2008)

Cornell Capa, Nova Iorque, 1983
(© Petr Tausk)

Em Dezembro do ano passado, assim que a "mala mexicana" de Robert Capa aterrou nos EUA, a realizadora, comissária e fotógrafa britânica Trisha Ziff levou-a de imediato a casa de Cornell Capa, zeloso guardião do espólio do irmão. Cornell viu os rolos com 3500 negativos de fotografias inéditas da Guerra Civil de Espanha e pode ter cumprido um dos seus últimos desejos: garantir que o trabalho de Robert ficasse ao cuidado do International Center of Photography (ICP) para ser devidamente tratado e divulgado.
Cornell Capa, fotojornalista, editor e fundador do ICP, morreu na última sexta-feira em Nova Iorque. Foi um dos primeiros fotógrafos da revista Life e, em 1954, juntou-se à agência fundada pelo seu irmão, a Magnum, da qual foi presidente entre 1956 e 1960.
Cornell nasceu em Budapeste em 1918 e mudou-se para os EUA em 1937, depois de uma curta estadia em Paris. Como repórter trabalhou na União Soviética e cobriu a Guerra dos Seis Dias, em Israel. Os seus principais trabalhos focaram a política e a pobreza na América Latina, assim como as questões sociais da América. Nos EUA acompanhou ainda o percurso de vários presidentes, entre os quais JFK. Em 1966, fundou o International Fund for Concerned Photography em homenagem ao seu irmão e a outros fotojornalistas que perdem a vida em trabalho. Com esta iniciativa, Cornell ajudou a cunhar o termo "fotografia comprometida". Mais tarde, em 1974, o Fundo viria a dar origem ao ICP, com sede em Nova Iorque, do qual Cornell foi director durante 20 anos.

>>Post relacionado:
>(Os bombons de Capa)

Dissidentes detidos depois do assassínio de Anastasio Somoza, Managua, Nicaragua, 1956
(Cornell Capa/Magnum Photos, cortesia do International Center of Photography)

20 maio, 2008

edgar

Landscapes Beyond: The Burden of Proof
(© Edgar Martins)


Edgar Martins soma e segue. O fotógrafo português, actualmente a viver em Londres, ganhou um prémio na categoria Personal/Fine Art Series da primeira edição do New York Photo Festival. Edgar concorria com trabalhos de outros 19 fotógrafos de todo o mundo.

A lista completa dos premiados pode ser lida aqui.

19 maio, 2008

a bandeira de chaldej

Ievgueni Chaldej, Berlim, 1945
(© Sammlung Ernst Volland / Heinz Krimmer)

O cenário era perfeito, mas a bandeira não mostrava o que devia mostrar: a foice e o martelo no cume do Reichstag (Parlamento alemão), símbolo máximo da derrota nazi aos pés do Exército Vermelho em Berlim, em 1945. A manipulação da famosa imagem do soldado russo está longe de ser pioneira na história da fotografia. Antes de Ievgueni Chaldej, foram muitos os que não resistiram ao retoque, à sobreposição e ao apagamento de pormenores incómodos no negativo. Mas a importância histórica do desfraldar desta bandeira transforma esta mentira de Chaldej num "pecado" ainda maior. Porque era demasiado perfeita, imaculada. E por isso não merecia essa matriz intrujona a roçar o ilusionismo. Como se não bastasse, na mesma imagem foram apagados os dois relógios do pulso do valente soldado soviético, sinal de que teria havido pilhagens durante a tomada final da capital alemã e de que a queda do Terceiro Reich não teria sido uma operação tão bem comportada como o regime estalinista quereria fazer crer.

O museu alemão Martin Gropius organizou uma grande retrospectiva do fotógrafo ucraniano cujo génio vai, obviamente, muito para além das fotografias comprometidas com o regime soviético. Foram escolhidas 200 provas que dão, pela primeira vez, uma visão geral do seu trabalho e onde se nota, segundo a organização, a tensão entre a fotografia de propaganda e a fotografia documental. Todas as imagens vieram da colecção de Ernst Volland e Heinz Krimmer. A exposição é composta ainda por trabalhos dos fotógrafos russos Dimitri Baltermans e Georgi Petrussov.

Nascido em Donetsk, em 1917, Chaldej começou a fotografar para a agência TASS em 1936. Ao serviço dessa agência registou boa parte da Segunda Guerra Mundial, particularmente a partir do momento em que as tropas de Hitler invadem a ex-União Soviética. Depois do conflito trabalhou alternadamente, até 1970, para a TASS e para o jornal Pravda. Morreu em Outubro de 1997.

Ievgeny Chaldej – The Decisive Moment. A Retrospective
Martin-Gropius-Bau, Berlim
Até 28 Julho

16 maio, 2008

à venda 5

Victor Palla, sem título, c. 1952

A Potássio 4 já vai para o quinto. O quinto leilão de fotografia (e não só). Desta vez a casa leiloeira e galeria propõe uma venda monotemática baseada num espólio quase todo inédito do arquitecto Victor Palla, um dos autores do célebre álbum Lisboa, Cidade Triste e Alegre.
Na primeira série de lotes revela-se um fotógrafo surrealista (admirador de Fernando Lemos?) voltado para vários tipos de experimentalismos, como as sobreposições e os cortes. Depois vem outra grande surpresa: esboços de páginas de Lisboa, Cidade Triste e Alegre, material promocional da obra e três livros completos do mítico álbum. Há também vários livros com design assinado por Palla, desenhos a carvão, pintura, colagens e máquinas fotográficas do autor.
O leilão está agendado para o dia 29 de Maio, às 21h30, nas instalações da galeria, na rua dos Navegantes, 16.

O catálogo do leilão pode ser descarregado aqui.

>>Post relacionado:
>(Victor Palla (1922-2006))

Notas manuscritas em provas de página do álbum Lisboa, Cidade Triste e Alegre, c. 1958

15 maio, 2008

O IF volta ao Soares dos Reis

(© António Drumond)

No dia de S. João, em 1976, um grupo de fotógrafos do Porto fundou o IF, (Ideia e Forma) com a intenção, tão eufórica como o dia, de abanar os convencionalismos da fotografia portuguesa. Programa-se uma campanha indefinidamente definida de trazer a público exposições e instruções que divulguem um olhar livre, diverso e reflexivo sobre o tempo e o lugar. O Porto está muito presente. A sigla acabará por definir-se, na divulgação das mostras colectivas dos oito e depois nove amigos, Luís Abrunhosa, Henrique Araújo, Manuel Magalhães, José Marafona, José Carlos Príncipe, João Sotto Mayor, Manuel de Sousa, Mário Vilhena e António Drumond, que não participa nas primeiras actividades.

IF são várias formas de imprimir em ideias
IF não quer dizer “se”
IF é um polígono de lados iguais
IF não entra em competição
IF forma vai tentar ser IF ideia.

Há um eco surrealista no IF, que se manterá e que todos atribuem ao espírito de Manuel Sousa, responsável por fotografias que provocam pela forma ou pela ideia: Esperar por D. Sebastião, quer venha ou não ou a O IF vê estupefacto o Museu da Associação Fotográfica do Porto, verdadeiro cartão de visita do grupo. Manuel Sousa adoece e acabará por morrer, mas o IF sempre guardou a sua memória de olhar desmistificador.

(© Henrique Araújo)

Em Outubro desse ano surge a primeira mostra, Tema livre, aureolada de muitas explicações , (na Bertrand, Lisboa) e, ainda nesse ano, Convívio (Guimarães) e Vilarinho das Furnas, (AFP, APAF, Lisboa e Santo Tirso). No ano seguinte, 1977, três projectos: Comboios d’ontem, imagens d’hoje, Ponte Maria Pia e Imagens do Quotidiano.

Fotografia Experimental e de Vanguarda, em 1978, na Associação Fotográfica do Porto (AFP), divulga a imagem provocatória do grupo O IF vê estupefacto… o Museu da instituição que os acolhe e que sempre frequentaram; Formas, com desdobrável de João Machado, tem na imagem e na palavra uma perspectiva conceptual, incluindo definições retiradas do dicionário. Ou Exercício, coleccionando experiências pessoais, mostrado na Galeria do JN e na Galeria de Arte Moderna, em Belém e no Funchal, já em 1979. Dois anos depois, (1981) é a Nona e em 1982, no Museu Nacional de Soares dos Reis a carismática Esquinas do Tempo, que iria também ser vista em Lisboa.

(© José Marafona)

Esquinas do Tempo faz parte da memória fotográfica do Porto, teve três edições da C.M.P- e criou um género clássico na história da fotografia portuguesa. Imagens onde se comparam velhas tomadas de vista da cidade com tomadas de vista do momento actual, sem indicação de autoria, como uma revisitação da cidade e do seu eventual progresso. Em 1984 há ainda O Porto visto de perto, na Casa do Infante, mas o grupo acabaria por se dispersar. Mas não esquecido: em 2001 surge incluído no Porto 60/70: Os artistas e a Cidade (Museu de Serralves e galeria do Palácio) e em + de 20, Grupos e episódios no Porto do Século XX, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

(© João Sotto Mayor)

É tudo isto que se recupera agora, a partir do dia dos Museus, no sábado, precisamente no Museu Soares dos Reis, no Porto, que pediu ao IF que ainda permanece que fizesse um levantamento do espaço do edifício de forma a representar a instituição na comemoração do dia 17. A mostra que aí se inaugura, Um dia no Museu, tem ainda o espírito do IF, Ideia e Forma e, acima de tudo, a representação do caminho pessoal dos seus autores, bem representado nas imagens que se mostram.

(© Manuel Magalhães)

É um projecto múltiplo de autor, onde tudo que é contemporâneo na fotografia se reencontra, a nova horizontalidade, a simulação, a encenação da imagem, o novo social, os dípticos, o geometrismo, o paradoxo, a cor, a citação. Mas ainda o preto e branco. E continua a existir uma totalidade de partes distintas e autónomas, um IF que é mais ideia que forma, mas que a respeita. São imagens de Henrique de Araújo, António Drumond, João Paulo Sotto Mayor, Manuel Magalhães e Marafona a descobrir e a inventar um museu cheio de sentido e de vida. E descobrir o sentido, desconstruindo, desmistificando, estabelecendo o sentido plástico de inesperados objectos fotográficos, argumentando com as formas submetidas a ideias, é, afinal, toda a história do IF. Que não se submete a um olhar único, mas se conjuga.

Maria do Carmo Serén

Um dia no Museu
Grupo IF: Henrique de Araújo, António Drumond, João Paulo Sotto Mayor, Manuel Magalhães, Marafona
Museu Nacional Soares dos Reis, Porto
Inauguração: 17 de Maio, às 22h00
Até 31 de Julho

13 maio, 2008

vintage erotica




Danny Moynihan é artista, curador, fundador do Photo London, escritor e coleccionador de fotografia. Diz o Telegraph que tem um dos maiores espólios de fotografia vintage erótica. Andava Moynihan a comprar e vender fotografia mais ou menos contemporânea quando descobriu uma pequena colecção de fotografias eróticas de senhoras robustas austríacas a brincar com objectos sexuais. O espanto e a galhofa que esse conjunto provocou no seu grupo de amigos aguçou-lhe a curiosidade e foi juntando sempre mais. E juntou tantas que até fez um livro onde conta a história deste género fotográfico que, para si, pode ser dividido em cinco categorias: the sensual nude, ethnographic tribal nudes, medical photos, posed studio tableaux e straight pornography.

Para ler o artigo do Telegraph sobre Danny Moynihan e a sua colecção clique aqui.


Private Collection: A History of Erotic Photography 1850 to 1940
Danny Moynihan
Ed. Other Criteria

12 maio, 2008

NYPHOTOFest

Penelope Umbrico, Sunset from Flickr, da exposição The Ubiquitous Image
(Huw Porter)


São só quatro dias, mas prometem ser intensos. O New York Photo Festival (de 14 a 18) apresenta-se como o primeiro festival de nível internacional organizado nos EUA. A iniciativa partiu de Daniel Power, da PowerHouse Books, e Frank Evers, da agência VII, que prometem mostrar o melhor da fotografia contemporânea em todas as suas expressões.
Para a primeira edição, convidaram-se quatro curadores: Martin Parr (fotógrafo da Magnum), Kathy Ryan (editora de fotografia da New York Times Magazine), Lesley A. Martin (Aperture Foundation) e Tim Barber (www.tinyvices.com). Para além das exposições organizadas por este painel de curadores, o NYPF terá um vasto leque de actividades em Dumbo, uma zona industrial entre as pontes Brooklyn e Manhattan.

Para ver as principais exposições do NYPF clique aqui.

regressar

Spencer Tunick em Santa Maria da feira, em 2003
(Fernando Veludo/Público)

Durante o Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira de 2003 o fotógrafo americano Spencer Tunick cobriu algumas das praças mais emblemáticas da cidade com corpos humanos sem roupa. Na próxima quarta-feira regressa ao mesmo local para apresentar o resultado desse trabalho. Para além da exposição de fotografia, será também exibido um filme com o making off da sessão.

11 maio, 2008

Helena

sem título, 1996-97
(
© Helena Almeida)

Helena Almeida foi distinguida na semana passada com o Prémio Extremadura 2008. A importância do percurso da artista plástica, que desde muito cedo começou a usar a fotografia como suporte dos seus trabalhos, foi reconhecodo por um júri internacional de cinco elementos que incluia o português João Pinharanda, historiador de arte e crítico, a espanhola Maria del Corral, ex-directora do Cnetro de Arte Reina Sofia, e o argentino Joaquín Salvador Lavado, ou Quino, autor de BD, criador da Mafalda, e último galardoado com este prémio de âmbito ibero-americano. A distinção, no valor de 42 mil euros, será entregue em Novembro.

10 maio, 2008

Guy Le Querrec

Paris, Maio de 68
(Guy Le Querrec
© Magnum Photos)

Foi com ela que a minha vida começou verdadeiramente. Se eu pudesse encontrar esse homem, gostava de lhe agradecer.
Guy Le Querrec, P2, Público, 9.5.2008

A jornalista do Público Kathleen Gomes esteve em Paris a percorrer alguns caminhos por onde passaram as histórias do Maio de 68. No palco da rebelião estudantil, falou com Guy Le Querrec, fotógrafo da Magnum, que na altura começava a despontar para o fotojornalismo. Mais do que nas barricadas, distúrbios e confrontos desse mês agitado, a objectiva de Querrec andou sobretudo focada nas pessoas e nos seus rostos. Passados seis anos, o fotógrafo francês aterrou em Portugal e foi para o Alentejo fotografar o rescaldo do 25 de Abril.
Para ler o artigo sobre Le Querrec clique aqui.

08 maio, 2008

*À conversa com...


(© José Manuel Rodrigues, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa)

... José Manuel Rodrigues

Lisboa quase nunca fez parte do roteiro das exposições de José Manuel Rodrigues (Lisboa, 1951). E foi preciso esperar mais de duas dezenas de anos até que Jorge Calado organizasse aqui uma grande exposição individual (Ofertório, 1999), que foi, simultaneamente, a primeira em Portugal. Depois de mais um longo interregno na capital, o fotógrafo alentejano regressa com a exposição Elementos, que inaugura uma nova galeria exclusivamente dedicada à fotografia contemporânea, a Pente 10. A poucos dias da abertura, conversámos sobre o novo trabalho, a fotografia digital a cores e as relações entre o Homem e a Natureza. Aqui fica um resumo desse encontro:

Organizar a exposição
Organizar esta exposição foi um pouco complicado porque o espaço da galeria estava a ser construído e esta exposição tem algo de especial. Foi evoluindo também consoante as obras da galeria. Foi uma experiência nova, quase um diálogo entre arquitectura e fotografia. Tentei mostrar um determinado tipo de sedução para a natureza. Ela chama-se Elementos, porque eles estão presentes. Mas gostava que ela fosse um encontro entre a paixão que temos entre nós e a paixão em relação à Natureza.

Os Elementos na planície
Tenho um grande relacionamento com o Alentejo, claro. O Alentejo é uma zona do país que tem muito poucas pessoas, e isso dá uma oportunidade especial à natureza de, nalguns sítios, ainda estar mais ou menos virgem. Não era capaz de fotografar com grandes angulares, e desde que estou no Alentejo comecei a fotografar com angulares. Em sentido prático, estou muito interessado no problema de escala, da relação positivo/negativo. No Alentejo esse problema de escala - estamos a falar no infinito - coloca-se. E estou também interessado nessa relação do Homem com aquilo de que ele precisa para viver directamente, do contacto com a terra e também aquilo que a natureza nos dá, esse modo contemplativo e de encontro com nós próprios, com a vegetação ou com os animais.

Fotografar o quê?
Agora estou muito interessado no retrato, na presença humana, naquilo que é a felicidade, o que leva as pessoas a fazer determinado tipo de coisas, a relação do Homem com a Natureza, com os seus parceiros. Estou tentando associar a questão do trabalho com conhecimentos ancestrais, que é o conhecimento empírico ... E, neste momento, estou muito interessado no retrato.
(...)
Acho que o acto de fotografar é um tipo de arrumação, uma arrumação especial. Estou muito interessado em fotografar aquilo que não vejo, aquilo que está atrás de mim, atrás dos meus olhos, e, de certa medida, utilizo os meus modelos, utilizo até a própria natureza também para me encontrar a mim próprio.
(...)
Nesta exposição há uma certa geometria. Há uma coisa talvez nova que é este diálogo entre duas facetas, esse tipo de sedução entre um lado positivo e um lado negativo. É como se, na prática, estivesse a pôr a fotografia dentro da própria imagem e a imagem olhar para dentro da imagem. O olhar em si das pessoas talvez esteja a deixar de me interessar no retrato.
(...)
Esta exposição também é uma ode à natureza. Há aqui quatro ou cinco retratos porque nós pertencemos a este grupo que está em confronto com a Natureza e com os animais (...) Há um vitelo aqui nesta exposição que é a parte fulcral - representa fragilidade. É mais confronto do que harmonia, sobretudo também por causa desta oposição entre positivo e negativo e de ter virado algumas coisas ao contrário.
(...)
Sou obcecado pelo detalhe, mas é verdade que muitas das minhas fotografias escondem algo que está muito evidente, mas que, de vez em quando, à primeira não se nota na imagem. Eu tento mais excluir do que incluir, isso é seguro. Se consigo, não sei.

(© José Manuel Rodrigues, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa)

A água, o fogo
A água tem sido sempre ao longo do meu percurso o mais importante. Pela sua fluidez, pelo seu reflexo, é como a continuação da objectiva e é soft, tem esta coisa especial de reflectir e mudar continuamente. O fogo, claro, fascina-nos a todos, as mudanças de cores, a destruição e a transformação da massa. É quase, num sentido figurativo, um juízo final, e ao mesmo tempo é também um elemento como a água, que mexe, é volátil. E a fotografia congela determinado tipo de momentos, por exemplo da água e do fogo, de que nós não nos podemos aperceber totalmente... Isso fascina-me.

(© José Manuel Rodrigues, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa)

...e o mais difícil?
Talvez o ar... Só podemos senti-lo, não o podemos apalpar... Tenho uma fotografia em que tentei voar, que eu gosto muito, mas é mais uma sensação de sentir. Tenho tido problemas de respiração, por isso o ar... tenho tido quase um conflito com ele para o fotografar. É mais desafiante, mas até agora não tenho conseguido grandes resultados - ele tem-me vencido, até fisicamente.

Novas técnicas
Há pouco tempo a Madrid vi uma exposição do Velásquez no Prado e reparei que a lógica de algumas das técnicas modernas, por exemplo Photoshop, já era usada no final do séc. XVII. Sempre fizémos esse tipo de aproximação e de retoque. Na pintura nota-se mais. (...)
(...)
Comecei a fotografar com suporte digital há algum tempo e isso colocou-me um problema: ter de fotografar duas vezes. Ou seja, primeiro capto a imagem sempre a cores e depois tenho de "refotografá-la" a preto e branco. Isso foi um grande conflito que demorou quase dois anos a ultrapassar e durante esse tempo apercebi-me de que também havia fotografia a cores. Foi uma novidade para mim, a fotografia digital trouxe-me coisas positivas. (...) Apesar de as minhas fotografias a cores, a bem dizer, só terem dois tons, uma coisa que eu reparei há pouco tempo, continuo a fotografar a preto e branco, mas em vez de ser preto e branco pode ser um azul mais claro ou um azul mais escuro, é tudo dual tone. É esquisito. Mas a fotografia a cores está a ser como dantes. Agora consigo controlar todo o processo e isso está a impor-me uma certa disciplina que eu também tinha a preto e branco, na câmara escura, e está a mudar algo em mim. A maneira de fotografar e de... Quer dizer eu gosto muito da fotografia e de todo o processo fotográfico, vivo-o intensamente. Estas impressões também são minhas e isso, esse controle de cor tão preciso é uma novidade, dá-me um grande prazer controlar por zonas, acho isso muito interessante. Depois é um risco, é um crime que compensa porque eu gosto muito de perfeição, e de atingir o máximo dentro das minhas limitações, de conseguir o máximo. Acho que a aventura na minha vida também tem essa parte. Tento controlar todo o processo desde o princípio até ao fim. Esse controle dá-me um grande prazer.

Errância
(...) A minha fotografia está muito ligada directamente ao meu estado existencial e às minhas ligações, às minhas relações. Quando vim para Portugal vinha com uma ideia de fotografar profundamente o nosso país. E como emigrante seduzia-me muito a nossa cultura, as profundezas da nossa sociedade, e, passado algum tempo, já cá dentro, fiquei desiludido com o próprio país. E esta relação influenciou o meu trabalho. (...) A minha fotografia também é um espelho do caos da minha existência.

Sedução?
Não me apercebi de que a imagem que enviei no convite - que achei sedutora, um tipo de sedução ligado ao sexo, à idade, ao vermelho e a outro tipo de elementos - também tinha um conteúdo de uma grande tragédia. Algumas pessoas que receberam o convite disseram-me: "vou mandar-te o convite de volta, detesto a imagem". É violenta, e eu não me tinha apercebido de que era tão violenta.

Voltar
É uma grande honra, uma oportunidade e um desafio voltar a Lisboa para inaugurar um espaço novo. Acho que vai melhorar o meu trabalho. (...) Não tenho cuidado da minha imagem, dos meus contactos... e este ponto de partida talvez seja para mim um novo começo - por isso, dois começos.

(© José Manuel Rodrigues, cortesia Galeria Pente 10, Lisboa)

07 maio, 2008

conversar

António Júlio Duarte, do natural/from nature, 2007
(
© António Júlio Duarte)

O tiro de partida para a segunda edição do ciclo de conferências Conversas Objectivas, organizado pela Câmara de Matosinhos, foi dado por José Luís Neto no último sábado. Ao longo dos próximos sábados (até 12 de Julho) haverá outras conversas no auditório da
Biblioteca Municipal Florbela Espanca. Fui convidado para falar sobre a experiência de fazer este blogue. Lá estarei no dia 31 de Maio.

Aqui fica o calendário das próximas sessões, sempre às 17h30:

>>Dia 24 de Maio - Fotojornalismo e os mercados editoriais
Rui Xavier, fotógrafo, Grande Prémio de Fotojornalismo Visão/BES 2001
José Manuel Bacelar, fotógrafo, Grande Prémio de Fotojornalismo Visão/BES 2004
Apresentação: Cesário Alves

>>Dia 31 de Maio - Um blogue de fotografia: a experiência de fazer o Arte Photographica
Sérgio B. Gomes, autor do blogue Arte Photographica, jornalista do Público
Apresentação: Maria Carmo Serén

>>Dia 7 de Junho - Apresentação do álbum "Porto Leixões – Construção da Doca nº1"

>>Dia 14 de Junho - Os "olhares fotográficos" dos estrangeiros - De Charles Legrand e William Barklay a Man Ray
Ângela Camila Castelo-Branco, coleccionadora e sócia-fundadora da Associação Portuguesa de Photographia
Wolfgang Sievers, Henri Cartier-Bresson e Georges Dussaud. Sebastião Salgado e os "Mensageiros da Liberdade". Os olhares de Candida Hoffer, Bert Teunissen e Marta Sicurella
António Faria, coleccionador e sócio-fundador da Associação Portuguesa de Photographia
Apresentação: Tereza Siza

>>Dia 28 de Junho - Rodrigo Amado e António Júlio Duarte: Partilha e Identidade
Rodrigo Amado, músico, jornalista e fotógrafo
António Júlio Duarte, fotógrafo
Apresentação: Tereza Siza

>>Dia 12 de Julho - Viagem pela fotografia
José Manuel Rodrigues, fotógrafo, Prémio Pessoa 1999
Apresentação: Fernando Rocha

06 maio, 2008

Masats sem afición

Ramón Masats, Madrid, 1957
(
© Ramón Masats)

O jornalista do El Mundo Antonio Lucas e o fotógrafo catalão Ramón Masats (Caldes de Montbui, 1931) encontraram-se num café barulhento do bairro madrileno de Salamanca. Falaram sobre fotografia, passado, livros e desencanto. O essencial dessa conversa está aqui.

La realidad está ahí. No he visto más de lo que hayan podido observar otros. Una buena fotografía puede salir de cualquier cosa: de una boda, de un bautizo... No hace falta espectacularidad, sino profundidad... Pero yo ya me he cansado. He colgado las cámaras. Perdí la afición.

Ramón Masats, El Mundo, 27.4.2008

05 maio, 2008

navegar


A Photographers’ Gallery de Londres lançou no mês passado um novo site, um trabalho encomendado à empresa de webdesign Mind Unit. Creative. Para além da fidelização da comunidade ligada ao habitual circuito da fotografia, o novo portal quer ter uma palavra a dizer na formação de novos públicos, desenvolvendo materiais específicos (Exhibition Notes) para professores e outros líderes de grupos. Há também uma aposta grande na venda directa de provas fotográficas (Print Sales Section) com um grupo alargado de artistas que disponibilizaram o seu trabalho. Ainda na área do coleccionismo, a Photographers’ Gallery fornece aconselhamento sobre os melhores investimentos e a melhor maneira de começar a juntar imagens fotográficas.
O destaque da página passa sempre pelas exposições patentes e a navegação é muito intuitiva.

Para navegar pela Photographers’ Gallery clique aqui.

Membro da Pop in Upper School, Eton, 2006/2007
(© Ian Macdonald)

concorrer

Jessamyn Lovell, mommy with a gun, 2004
(© Jessamyn Lovell, vencedora do 2007 Aperture Portfolio Prize)

Estão abertas as inscrições para entrega de portfolios candidatos ao prémio Aperture. A casa-mãe de alguns dos melhores livros de fotografia do mundo explica o propósito do galardão assim: identify trends in contemporary photography and specific artists whom we can help by bringing their work to a wider audience. In choosing the first-prize winner and runners-up, we are looking for work that is fresh and that hasn’t been widely seen in major publications or exhibition venues.
Os trabalhos devem ser enviados até 11 Julho. Todas as informações e regras de candidatura estão aqui.

03 maio, 2008

descobrir

Família de emigrantes portugueses num "bidonville" nos arredores de Paris, 1964
(
© Gérald Bloncourt)

Últimos quinze dias para ver a exposição de Gérald Bloncourt (Haiti, 1926) Por Uma Vida Melhor, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa.
Bloncourt, amigo próximo dos mestres Cartier-Bresson e Willy Ronis, foi um dos poucos fotógrafos a fazer uma trabalho de reportagem aturado sobre o fenómeno da emigração portuguesa para França, desde meados dos anos 50 e ao longo dos anos 60.
Muitas das 50 fotografias reunidas em Por Uma Vida Melhor nunca tinham sido publicadas ou expostas. Este facto, só por si, dá à mostra comissariada por Bernadette Caille uma importância maior. Mas o mais extraordinário é que, quando se percorrem as salas do CCB, percebemos que praticamente não existia em Portugal "uma imagem" do que foi a deslocação de quase um milhão de pessoas de um país para o outro em condições extremas.

Na inauguração da exposição em Lisboa, o jornalista do Público José Vítor Malheiros entrevistou Gérald Bloncourt. A 1ª parte dessa conversa está aqui. E a 2ª aqui.

Para ver uma fotogaleria com algumas imagens da exposição clique aqui.

Por uma Vida Melhor, Gérald Bloncourt
Museu Colecção Berardo, CCB, Lisboa
Até 18 de Maio

chema de regresso

sem título, 2007
(
© Chema Madoz)

Desde a grande exposição na Fundación Telefónica, em 2006, que Chema Madoz não mostrava novos trabalhos em público. Volta agora à Galería Moriarty com um trabalho minimal, como é seu timbre, onde representa apenas letras soltas e relógios de sol. O tempo passou, ainda que pouco, mas o propósito continua o mesmo: converter objectos que nos rodeiam e que marcam o nosso quotidiano em metáforas, às vezes com humor, às vezes com sarcasmo, muitas vezes com poesia. É precisamente a poesia que marca também este regresso primaveril de Madoz com a reedição do esgotado Fotopoemario (La Fábrica), um livro editado em 1996 onde Joan Brossa (Barcelona, 1919-1998) escreveu um poema por cada 12 fotografias do artista madrileno.

"Mi encuentro con las imágenes es fortuito, me tropiezo con ellas. No surgen de un concepto o una idea preconcebida. Trabajo con mi entorno, con lo que me envuelve y me conmueve."

Chema Madoz, El País, 25.4.2008

etcétera, Chema Madoz
Galería Moriarty, libertad nº22, Madrid
Até 10 de Junho

01 maio, 2008

doces nadas

Vanessa Winship, Sweet Nothings
(© Vanessa Winship)

O trabalho Sweet Nothings valeu à inglesa Vanessa Winship o título de Fotógrafo do Ano na primeira edição do Prémio Internacional de Fotografia Sony (SWPA, na sigla em inglês). Sweet Nothings foi também premiado na categoria de Retrato.
O Prémio de Carreira foi atribuído ao americano Phil Stern que, no momento de receber o galardão, propôs um desafio: "elevar a fotografia ao nível mais alto das belas artes". Stern (1919) fotografou inúmeras estrelas de Hollywood dos anos 50 e 60. Acompanhou de muito perto o mundo do jazz e foi também repórter de guerra.

Os prémios nas categorias principais foram distribuídos assim:

#Abstracto: Anita Cruz-Eberhard (EUA), Target Series

#Publicidade: Fabrizio Cestari (Itália), Made in Japan

#Arquitectura: Livia Corona (México), Two millions homes for Mexico

#Moda: Valeska Achenbach (Alemanha) e Isabela Pacini (Brasil)

#Música e Espectáculo: Eduard Meltzer (Suíça)

#Natureza: Giacomo Brunelli (Itália)

#Nu: Natalie Bothur (Alemanha), Ruecksicht

#Fotojornalismo: Moises Saman (EUA), Las bandas de El Salvador

#Ciência: Thomas Deerinck (EUA)

#Desporto: Robin Utrecht (HOlanda), Soccer Team

Moises Saman, Las bandas de El Salvador
(© Moises Saman)

 fotografia europea

Bettina Rheims, Asia Argento, da série Heroines, estudo, Junho de 2005, Paris
(
© Bettina Rheims, cortesia Galerie Jérôme Noirmont, Paris)

Human, all too Human é o tema da terceira edição do festival Fotografia Europea a decorrer na cidade de Reggio Emilia, no norte da Itália. O crítico Elio Grazioli, curador, organizou um conjunto de exposições onde se abordam "conceitos controversos à volta do corpo humano", e onde ele é "explorado de formas radicalmente opostas".

Haverá exposições temporárias até ao dia 8 de Junho e dezenas de seminários, palestras, workshops e performances durante os próximos dias (até ao dia 4 de Maio) que envolverão artistas e críticos.

Jorge Molder é o único fotógrafo português representado e foi escolhido para uma das cinco grandes exposições individuais. As outras pertencem a Raoul Hausmann, Wols, Paolo Gioli e Pierre et Gilles. Há ainda mostras individuais de Erwin Olaf, Ann-Sofi Sidèn, Antoine D'Agata e Aneta Grzeszykowska e uma retrospectiva de Edward Steichen.

O sítio do Fotografia Europea - Reggio Emilia 2008 está aqui.


Jorge Molder, da série Nox, 1999
(© Jorge Molder, cortesia Museu Colecção Berardo, Lisboa)

30 abril, 2008

topologias



Edgar Martins lançou hoje na Aperture Gallery, em Nova Iorque, o seu último álbum: Topologies.

A sinopse do livro diz o seguinte:

"With artful composition and controlled framing—but no digital manipulation—Edgar Martins creates sublimely beautiful views of often un-beautiful sites. Minimalist nighttime beaches, forests ravaged by fires, and Iceland’s stark terrain have all served as subjects for his large-scale color photographs. He also explores the unexpected impact of modernism on the landscape, including startlingly graphic airport runways and colorful highway barriers that, at first glance, read like abstract murals.

Certain themes recur throughout Martins’s work. A sense of place and alienation from it. A sense of mystery—vividly embodied in scenes such as a woman with a bou­quet of balloons on a deserted shore. And a sense that something unsettling has just happened or is about to happen—a fire, an accident, a close encounter with some unspecified danger. As John Beardsley notes, 'Some images are what we habitually expect photography to be—evidence of the world as we think we know it—while others obscure their subjects through an illusionism that borders on magic.'"

/uma fotografia, um nome\

Da série Canada do Inferno, 2005
(© José Afonso Furtado)

Foi um deus menor que criou estes montes desabridos que se esboroam em lascas aguçadas, um deus menor que afundou o rio nas brechas das montanhas, que desenhou esta sequência mortífera de distâncias. A paisagem pode ser esta suspensão do sopro, este arrepio, o abespinhado das urzes secas, estas feridas paralelas de uma louca repetição fractal e desumana das rochas.

De um a outro lado do Douro, o homem construiu uma paisagem que dizem de sucesso, arredondou os montes e traçou simétricos socalcos de patamares de vinha. Há deles paisagens de apaziguamento, porque a mão do homem reconstrói-se também no que faz e aí, estabelece a ponte do domínio. Em José Afonso Furtado também houve tentativa de apropriação e a passagem de qualquer técnica branqueou a sua nudez com equipamentos que abandonou, tão inúteis agora como alheios ao território que infringem.

E por isso mesmo recuperamos teorias da paisagem fotográfica, evocamos a Land Art da American Land dos anos 70 e ecos dos New Topographics, (1975) e do Rephotografic Survey Project, (1977). Nomes como Lewis Baltz, Robert Adams, Mark Klett ou mesmo Misrach pousam naturalmente nesta paisagem sem limites e sem perspectiva, nesta inglória tentativa de afastar o sentimento do sublime que animava a fotografia dos pioneiros e refazer o olhar predador do homem que foi definindo o seu alarme ecológico.

Exemplarmente, Canada do Inferno desmistifica a paisagem mítica, essa exaltação da contingência que está presente no belo sublime de Kant. O que vemos, nesta e noutras imagens dessa série, é o desleixo contaminador da técnica, do construído no casco do planeta. Trata-se pois de uma fotografia conceptual, onde o pecado do mundo se manifesta pelas preocupações da Ecologia. Traz também os seus mitos, o contraste campo e cidade, a sublimação das culturas etnicamente relevantes no meio pastoril, a aceitação da salvaguarda do trilho do caçador. Porque afinal tudo se conluía, nesta saída dos anos da contracultura, em volta de um (re)negado regresso à Natureza.

Fica que desta selvajaria natural e humana, como num filme de quadros pioneiros acelerados ou uma fotografia estereoscópica, os fragmentos de xisto e os equipamentos desabados correm para nós e não para o rio Côa. É obviamente a paisagem que se impõe e sobrevive mal em alertadas imagens do já conhecido; sentimos o estalar da rocha sob os passos que não damos, esquecemos o sentido das ruínas de um progresso qualquer e é pelo trilho dos bichos que perseguimos os horizontes dos montes que se desdobram, apagando-se na distância.

Tal como acontece com esta imagem de José Afonso Furtado, os fotógrafos da Land Art não conseguiram erradicar o universo estético das suas produções. A Natureza continua para lá do fora de campo, bem o sabemos, e o enquadramento é, será sempre, um artifício do autor. Mas este sentimento da fragilidade e insolência da cultura humana, este pesar do mundo sobre as nossas precaridades nasce, é certo, mas está para lá do enquadramento. A teia de informação sobre o mundo e o homem é tecida com as teorias e as práticas, embrenhadas nessa luta desigual entre o consciente e o inconsciente. É com esta guerra que José Afonso Furtado nos lembra, numa imagem que não é politicamente correcta, mas desabridamente actual, que tropeçamos no mundo para nos lembrarmos o pouco que somos.

Maria do Carmo Serén

José Afonso Furtado é director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. É uma autoridade no campo da evolução do livro para o digital e um conhecido fotógrafo

26 abril, 2008

aprender

(Casa do Pinhole)

Para quem nunca teve muito jeito para trabalhos manuais e quiser mesmo aprender a construir uma câmara pinhole pode sempre seguir com atenção esta curta para crianças (Una má de contes). A narração é feita em catalão, mas é muito fácil chegar lá a partir de uma caixa de sapatos.

Fotografia pinhole? "Expliquem-me isso como se eu tivesse 4 anos":

 
free web page hit counter