06 maio, 2008

Masats sem afición

Ramón Masats, Madrid, 1957
(
© Ramón Masats)

O jornalista do El Mundo Antonio Lucas e o fotógrafo catalão Ramón Masats (Caldes de Montbui, 1931) encontraram-se num café barulhento do bairro madrileno de Salamanca. Falaram sobre fotografia, passado, livros e desencanto. O essencial dessa conversa está aqui.

La realidad está ahí. No he visto más de lo que hayan podido observar otros. Una buena fotografía puede salir de cualquier cosa: de una boda, de un bautizo... No hace falta espectacularidad, sino profundidad... Pero yo ya me he cansado. He colgado las cámaras. Perdí la afición.

Ramón Masats, El Mundo, 27.4.2008

05 maio, 2008

navegar


A Photographers’ Gallery de Londres lançou no mês passado um novo site, um trabalho encomendado à empresa de webdesign Mind Unit. Creative. Para além da fidelização da comunidade ligada ao habitual circuito da fotografia, o novo portal quer ter uma palavra a dizer na formação de novos públicos, desenvolvendo materiais específicos (Exhibition Notes) para professores e outros líderes de grupos. Há também uma aposta grande na venda directa de provas fotográficas (Print Sales Section) com um grupo alargado de artistas que disponibilizaram o seu trabalho. Ainda na área do coleccionismo, a Photographers’ Gallery fornece aconselhamento sobre os melhores investimentos e a melhor maneira de começar a juntar imagens fotográficas.
O destaque da página passa sempre pelas exposições patentes e a navegação é muito intuitiva.

Para navegar pela Photographers’ Gallery clique aqui.

Membro da Pop in Upper School, Eton, 2006/2007
(© Ian Macdonald)

concorrer

Jessamyn Lovell, mommy with a gun, 2004
(© Jessamyn Lovell, vencedora do 2007 Aperture Portfolio Prize)

Estão abertas as inscrições para entrega de portfolios candidatos ao prémio Aperture. A casa-mãe de alguns dos melhores livros de fotografia do mundo explica o propósito do galardão assim: identify trends in contemporary photography and specific artists whom we can help by bringing their work to a wider audience. In choosing the first-prize winner and runners-up, we are looking for work that is fresh and that hasn’t been widely seen in major publications or exhibition venues.
Os trabalhos devem ser enviados até 11 Julho. Todas as informações e regras de candidatura estão aqui.

03 maio, 2008

descobrir

Família de emigrantes portugueses num "bidonville" nos arredores de Paris, 1964
(
© Gérald Bloncourt)

Últimos quinze dias para ver a exposição de Gérald Bloncourt (Haiti, 1926) Por Uma Vida Melhor, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa.
Bloncourt, amigo próximo dos mestres Cartier-Bresson e Willy Ronis, foi um dos poucos fotógrafos a fazer uma trabalho de reportagem aturado sobre o fenómeno da emigração portuguesa para França, desde meados dos anos 50 e ao longo dos anos 60.
Muitas das 50 fotografias reunidas em Por Uma Vida Melhor nunca tinham sido publicadas ou expostas. Este facto, só por si, dá à mostra comissariada por Bernadette Caille uma importância maior. Mas o mais extraordinário é que, quando se percorrem as salas do CCB, percebemos que praticamente não existia em Portugal "uma imagem" do que foi a deslocação de quase um milhão de pessoas de um país para o outro em condições extremas.

Na inauguração da exposição em Lisboa, o jornalista do Público José Vítor Malheiros entrevistou Gérald Bloncourt. A 1ª parte dessa conversa está aqui. E a 2ª aqui.

Para ver uma fotogaleria com algumas imagens da exposição clique aqui.

Por uma Vida Melhor, Gérald Bloncourt
Museu Colecção Berardo, CCB, Lisboa
Até 18 de Maio

chema de regresso

sem título, 2007
(
© Chema Madoz)

Desde a grande exposição na Fundación Telefónica, em 2006, que Chema Madoz não mostrava novos trabalhos em público. Volta agora à Galería Moriarty com um trabalho minimal, como é seu timbre, onde representa apenas letras soltas e relógios de sol. O tempo passou, ainda que pouco, mas o propósito continua o mesmo: converter objectos que nos rodeiam e que marcam o nosso quotidiano em metáforas, às vezes com humor, às vezes com sarcasmo, muitas vezes com poesia. É precisamente a poesia que marca também este regresso primaveril de Madoz com a reedição do esgotado Fotopoemario (La Fábrica), um livro editado em 1996 onde Joan Brossa (Barcelona, 1919-1998) escreveu um poema por cada 12 fotografias do artista madrileno.

"Mi encuentro con las imágenes es fortuito, me tropiezo con ellas. No surgen de un concepto o una idea preconcebida. Trabajo con mi entorno, con lo que me envuelve y me conmueve."

Chema Madoz, El País, 25.4.2008

etcétera, Chema Madoz
Galería Moriarty, libertad nº22, Madrid
Até 10 de Junho

01 maio, 2008

doces nadas

Vanessa Winship, Sweet Nothings
(© Vanessa Winship)

O trabalho Sweet Nothings valeu à inglesa Vanessa Winship o título de Fotógrafo do Ano na primeira edição do Prémio Internacional de Fotografia Sony (SWPA, na sigla em inglês). Sweet Nothings foi também premiado na categoria de Retrato.
O Prémio de Carreira foi atribuído ao americano Phil Stern que, no momento de receber o galardão, propôs um desafio: "elevar a fotografia ao nível mais alto das belas artes". Stern (1919) fotografou inúmeras estrelas de Hollywood dos anos 50 e 60. Acompanhou de muito perto o mundo do jazz e foi também repórter de guerra.

Os prémios nas categorias principais foram distribuídos assim:

#Abstracto: Anita Cruz-Eberhard (EUA), Target Series

#Publicidade: Fabrizio Cestari (Itália), Made in Japan

#Arquitectura: Livia Corona (México), Two millions homes for Mexico

#Moda: Valeska Achenbach (Alemanha) e Isabela Pacini (Brasil)

#Música e Espectáculo: Eduard Meltzer (Suíça)

#Natureza: Giacomo Brunelli (Itália)

#Nu: Natalie Bothur (Alemanha), Ruecksicht

#Fotojornalismo: Moises Saman (EUA), Las bandas de El Salvador

#Ciência: Thomas Deerinck (EUA)

#Desporto: Robin Utrecht (HOlanda), Soccer Team

Moises Saman, Las bandas de El Salvador
(© Moises Saman)

 fotografia europea

Bettina Rheims, Asia Argento, da série Heroines, estudo, Junho de 2005, Paris
(
© Bettina Rheims, cortesia Galerie Jérôme Noirmont, Paris)

Human, all too Human é o tema da terceira edição do festival Fotografia Europea a decorrer na cidade de Reggio Emilia, no norte da Itália. O crítico Elio Grazioli, curador, organizou um conjunto de exposições onde se abordam "conceitos controversos à volta do corpo humano", e onde ele é "explorado de formas radicalmente opostas".

Haverá exposições temporárias até ao dia 8 de Junho e dezenas de seminários, palestras, workshops e performances durante os próximos dias (até ao dia 4 de Maio) que envolverão artistas e críticos.

Jorge Molder é o único fotógrafo português representado e foi escolhido para uma das cinco grandes exposições individuais. As outras pertencem a Raoul Hausmann, Wols, Paolo Gioli e Pierre et Gilles. Há ainda mostras individuais de Erwin Olaf, Ann-Sofi Sidèn, Antoine D'Agata e Aneta Grzeszykowska e uma retrospectiva de Edward Steichen.

O sítio do Fotografia Europea - Reggio Emilia 2008 está aqui.


Jorge Molder, da série Nox, 1999
(© Jorge Molder, cortesia Museu Colecção Berardo, Lisboa)

30 abril, 2008

topologias



Edgar Martins lançou hoje na Aperture Gallery, em Nova Iorque, o seu último álbum: Topologies.

A sinopse do livro diz o seguinte:

"With artful composition and controlled framing—but no digital manipulation—Edgar Martins creates sublimely beautiful views of often un-beautiful sites. Minimalist nighttime beaches, forests ravaged by fires, and Iceland’s stark terrain have all served as subjects for his large-scale color photographs. He also explores the unexpected impact of modernism on the landscape, including startlingly graphic airport runways and colorful highway barriers that, at first glance, read like abstract murals.

Certain themes recur throughout Martins’s work. A sense of place and alienation from it. A sense of mystery—vividly embodied in scenes such as a woman with a bou­quet of balloons on a deserted shore. And a sense that something unsettling has just happened or is about to happen—a fire, an accident, a close encounter with some unspecified danger. As John Beardsley notes, 'Some images are what we habitually expect photography to be—evidence of the world as we think we know it—while others obscure their subjects through an illusionism that borders on magic.'"

/uma fotografia, um nome\

Da série Canada do Inferno, 2005
(© José Afonso Furtado)

Foi um deus menor que criou estes montes desabridos que se esboroam em lascas aguçadas, um deus menor que afundou o rio nas brechas das montanhas, que desenhou esta sequência mortífera de distâncias. A paisagem pode ser esta suspensão do sopro, este arrepio, o abespinhado das urzes secas, estas feridas paralelas de uma louca repetição fractal e desumana das rochas.

De um a outro lado do Douro, o homem construiu uma paisagem que dizem de sucesso, arredondou os montes e traçou simétricos socalcos de patamares de vinha. Há deles paisagens de apaziguamento, porque a mão do homem reconstrói-se também no que faz e aí, estabelece a ponte do domínio. Em José Afonso Furtado também houve tentativa de apropriação e a passagem de qualquer técnica branqueou a sua nudez com equipamentos que abandonou, tão inúteis agora como alheios ao território que infringem.

E por isso mesmo recuperamos teorias da paisagem fotográfica, evocamos a Land Art da American Land dos anos 70 e ecos dos New Topographics, (1975) e do Rephotografic Survey Project, (1977). Nomes como Lewis Baltz, Robert Adams, Mark Klett ou mesmo Misrach pousam naturalmente nesta paisagem sem limites e sem perspectiva, nesta inglória tentativa de afastar o sentimento do sublime que animava a fotografia dos pioneiros e refazer o olhar predador do homem que foi definindo o seu alarme ecológico.

Exemplarmente, Canada do Inferno desmistifica a paisagem mítica, essa exaltação da contingência que está presente no belo sublime de Kant. O que vemos, nesta e noutras imagens dessa série, é o desleixo contaminador da técnica, do construído no casco do planeta. Trata-se pois de uma fotografia conceptual, onde o pecado do mundo se manifesta pelas preocupações da Ecologia. Traz também os seus mitos, o contraste campo e cidade, a sublimação das culturas etnicamente relevantes no meio pastoril, a aceitação da salvaguarda do trilho do caçador. Porque afinal tudo se conluía, nesta saída dos anos da contracultura, em volta de um (re)negado regresso à Natureza.

Fica que desta selvajaria natural e humana, como num filme de quadros pioneiros acelerados ou uma fotografia estereoscópica, os fragmentos de xisto e os equipamentos desabados correm para nós e não para o rio Côa. É obviamente a paisagem que se impõe e sobrevive mal em alertadas imagens do já conhecido; sentimos o estalar da rocha sob os passos que não damos, esquecemos o sentido das ruínas de um progresso qualquer e é pelo trilho dos bichos que perseguimos os horizontes dos montes que se desdobram, apagando-se na distância.

Tal como acontece com esta imagem de José Afonso Furtado, os fotógrafos da Land Art não conseguiram erradicar o universo estético das suas produções. A Natureza continua para lá do fora de campo, bem o sabemos, e o enquadramento é, será sempre, um artifício do autor. Mas este sentimento da fragilidade e insolência da cultura humana, este pesar do mundo sobre as nossas precaridades nasce, é certo, mas está para lá do enquadramento. A teia de informação sobre o mundo e o homem é tecida com as teorias e as práticas, embrenhadas nessa luta desigual entre o consciente e o inconsciente. É com esta guerra que José Afonso Furtado nos lembra, numa imagem que não é politicamente correcta, mas desabridamente actual, que tropeçamos no mundo para nos lembrarmos o pouco que somos.

Maria do Carmo Serén

José Afonso Furtado é director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. É uma autoridade no campo da evolução do livro para o digital e um conhecido fotógrafo

26 abril, 2008

aprender

(Casa do Pinhole)

Para quem nunca teve muito jeito para trabalhos manuais e quiser mesmo aprender a construir uma câmara pinhole pode sempre seguir com atenção esta curta para crianças (Una má de contes). A narração é feita em catalão, mas é muito fácil chegar lá a partir de uma caixa de sapatos.

Fotografia pinhole? "Expliquem-me isso como se eu tivesse 4 anos":

24 abril, 2008

pinhole

Estação do Pinhão, Douro
(© Augusto Lemos)


É já no domingo que se comemora o Dia Mundial da Fotografia Pinhole. Em Lisboa, o Clube Buraco da Agulha organizou no Instituto Português de Fotografia várias palestras sobre este tipo de fotografia. No Porto, a pinhole, ou estenopeica, será também celebrada no Centro Português de Fotografia com as "Conversas Estenopeicas" e a exposição Imagens Anunciadas de Augusto de Souza Lemos. Maria do Carmo Serén dá-nos as coordenadas das actividades no CPF:

Às fotografas estenopeicas basta-lhes uma câmara elementar, que lembra a câmara escura; apenas precisam desse espaço e de um orifício (pinhole) para entrar o desenho de luz. E, naturalmente, de bastante paciência para vigiar a exposição longa. A técnica, a sua história, a insistência dos seus movimentos modais até à actual difusão na Internet serão explicadas e desenvolvidas pelo professor e fotógrafo Augusto de Souza Lemos, no dia 26 de Abril, (15h00), no CPF.
Ao mesmo tempo, inaugura-se a sua exposição Imagens Anunciadas, selecção de um trabalho maior que é também o fulcro da sua tese de doutoramento. São, obviamente, imagens estenopeicas e o projecto partir do conhecimento de uma obra editada em 1927, De terra em terra, do médico, arqueólogo e fundador do Museu Etnológico de Belém, José Leite de Vasconcelos reproduz as imagens reais descritas em pormenor por Leite de Vasconcelos, numa obra que praticamente não tem fotografias.
Foi esta lacuna, que é habitual em obras arqueológicas do género, que preferem o desenho, que definiu essas imagens anunciadas e elaboradas nos últimos anos pelo fotógrafo. Porque é, ainda, arqueólogo, Augusto Souza Lemos percorreu trilhos conhecidos e a descobrir, acompanhando as referências escritas e seleccionou em cada trajecto, o que melhor se adaptava à descrição – o que permanecia com pouca alteração.
Fê-lo em imagens estenopeicas, quer por uma questão de sensibilidade estética, quer pelo facto da obra De terra em terra se ter desenvolvido, em artigos para a imprensa entre 1884 e 1916, ou seja, quando o naturalismo e o pictorialismo frequentemente as utilizavam nas suas tomadas de vista e produções.
Apenas aqui e ali verificamos que o progresso invadiu estes lugares - fios de electricidade, renovação de fachadas e pavimentos… Na generalidade é quase, quase, o levantamento que Leite de Vasconcelos poderia ter feito. Mas que levanta problemas diversos, que é estimulante analisar.

Dia Mundial da Fotografia Pinhole
No IFP:
Palestras do Clube Buraco da Agulha sobre a técnica e construção de câmaras estenopeicas nos dias 28, 29 e 30.
Sessões entre as 10 e as 13, entre as 14 e as 18 e entre as 19 e as 23.
IPF, Rua da Ilha Terceira, 31, Lisboa

No CPF:
Inauguração da exposição Imagens Anunciadas, de Augusto de Souza Lemos.
Conferência "Conversas Estenopeicas", por Augusto de Souza Lemos com o seguinte alinhamento: A magia da câmara obscura; David Brewster e a invenção da fotografia estenopeica; A utilização desta técnica fotográfica no pictorialismo; O reaparecer no último quartel do séc. XX; A difusão através da internet
Centro Português de Fotografia
Campo Mártires da Pátria, Porto

começar

(© José Manuel Rodrigues)

Está agendada para o dia 29 a abertura de mais uma galeria em Lisboa exclusivamente dedicada à fotografia contemporânea. As portas da Pente 10 abrem com a exposição Elementos de José Manuel Rodrigues.

Pente 10
Travessa da Fábrica dos Pentes, 10, Lisboa
(ao Jardim das Amoreiras)

23 abril, 2008


entre aspas

Culto a S. Lázaro, Santuario del Rincon, Santiago de la Vega, Cuba, 2007
(
© Pep Bonet)

Nós, fotógrafos, já arriscamos muito, física, psicológica e até financeiramente. A tarefa de salvar o mundo deve ser daqueles que realmente têm o poder
Pep Bonet, Público, 22.04.2008

Para ver mais fotografias de Pep Bonet clique aqui.

hutongs

Pequim, 2006
(© Júlio de Matos)

Esta exposição que ocupa 5 salas no Centro Português de Fotografia (a Sala das Colunas/A.P.R. e as salas que rodeiam o Pátio dos Presos) é a versão maior do projecto que Júlio de Matos começou há anos em visita a Pequim.
Sendo arquitecto, o autor ficou impressionado com o abate anunciado dos bairros populares que se vinham mantendo quase inalteráveis, na estrutura e na função, há cerca de 700 anos. Hutongs são os caminhos e ruazinhas que envolvem as casas que se erguem em volta de pátios, onde uma árvore obrigatória nos evoca os ramos torturados das gravuras chinesas, mas é comum chamar hutong a todo conjunto, a casa e os seus acessos. Porque se avizinhavam os Jogos Olímpicos, o novo plano urbanístico da cidade começou a aniquilar os hutong, construindo no espaço os prédios de arrendamento em altura que, em algumas imagens vemos ameaçar os últimos arruamentos comunitários.
Trata-se de um projecto de autor, uma concepção nostálgica, bem ao modo ocidental, que tenta traduzir nas diversas estratégias que utiliza, (a redução das fotografias ao tom das velhas albuminas que, no século XIX, nos chegavam da China, mas também a selecção de afloramentos de uma cor adequada à memória das imagens chinesas a nanquim e aguarela, as perspectivas, os retratos…) a interpretação do fim de um património e de um ideal de comunidade.
O livro que acompanha a exposição, e donde são retiradas estas imagens responde ainda mais a esse sentir de desastre: os retratos conservam a dignidade de estar que atribuímos à China tradicional, os hutong, perspectivados no conjunto labiríntico ou no pormenor de ornamentação e social, (os belíssimos telhados e os beirais, os defensores tutelares da casa, em pedra, diversos pormenores de museu, o altar dos antepassados e, naturalmente, convivendo na rua ou no interior das habitações, os ícones da sociedade ocidental, desde a bicicleta ao cartaz de propaganda); em hutongs condenados pela proximidade da renovação, circula ainda uma vida que parece calma, um homem brinca com um pássaro de gaiola, uma mulher jaz doente na cama de um quarto que condensa a sua vida, em cenas de neve caminha-se para qualquer lugar, por entre motivos onde acode a tradição mongol. Uma viagem que se anuncia sem regresso.

Maria do Carmo Serén

Pequim, 2006
(© Júlio de Matos)

Fading Hutongs, de Júlio de Matos
Centro Português de Fotografia, Porto
Campo Mártires da Pátria
Tel.: 22 207 63 10
Email: email@cpf.pt
De ter. a sex., das 10h00 às 12h30, e das 15h00 às 18h00.
Sáb., dom. e fer. das 15h00 às 19h00
Entrada Livre
Até 29 de Junho

22 abril, 2008

perto do aço

Homens de aço
(
© Monica Richter)

A Nikon F5 suportou. O corpo da fotógrafa brasileira Mónica Richter não suportaria. Por isso mesmo vestiu um fato especial (espacial) para aguentar os mais de 50 graus que se fazem sentir junto aos fornos onde andou a registar, durante um mês, a rotina da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), em Cubatão, no Brasil. A ideia era experimentar as mesmas condições em que se moviam os trabalhadores para chegar ao que pretendia: "encontrar grafismos dentro de um ambiente muito pesado, muito caótico, muito denso”, transformar a siderurgia "num universo plástico, mas sem esquecer o trabalhador no meio do grafismo”.

(citações recolhidas por Inês Nadais)

Homens de Aço, de Monica Richter
Galeria Bernardo Marques
Rua D.Pedro V, 81, Lisboa
Tel.: +351 91 270 0421
Até 23 de Maio


entre aspas

Santo Sepulcro
(American Colony Studio, Jerusalém)
O pachorrento relogio do corredor começou a gemer as dez; eu devia madrugar; e o dr. Margaride, commovido, agasalhava já o pescoço no seu lenço de sêda. Então antes dos abraços, perguntei aos meus leaes amigos que "lembrançasinha" desejavam d`essas terras remotas onde vivera o senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho d`agua do Jordão. Justino (que já me pedira do vão da janella um pacote de tabaco turco) diante da titi só appetecia um raminho de oliveira, do Monte Olivete. O dr. Margaride contentava-se com uma boa photographia do sepulchro de Jesus Christo para encaixilhar...

Eça de Queirós, A Relíquia, 12ª edição, 1935

20 abril, 2008

desilusão?

© Daniel Malhão

Ainda a propósito dos três finalistas do prémio BESPhoto deste ano, vale a pena ler a crítica que Luísa Soares Oliveira escreveu recentemente no Ípsilon. A fotografia em Portugal é bem mais do que isto, felizmente (...), afirma.

O texto está aqui.

>>Posts relacionados
>1. (4-1=3)
>2. (pensar)
>3. (BESPhoto é photo?)

18 abril, 2008

Penn

Giorgio de Chirico, Roma, 1944
(
© Irving Penn)

Sim, o mestre Irving Penn está vivo. Aos 91 anos continua a trabalhar e ainda fotografa. Na mais recente exposição, organizada pela Morgan Library de Nova Iorque, mostrou 67 retratos de personalidades do mundo artístico. Chamou-lhe Close Encouters, como que a sublinhar a ideia de uma íntima partilha no momento fotográfico. Muitos destes retratos foram feitos ao serviço da revista Vogue, onde começou a trabalhar no início dos anos 40. É o caso desta fotografia temperada com louro de Giorgio De Chirico, a mais antiga da mostra (1944). O ciclo fechava-se com o pintor Jasper Johns, um dos pais da "pop art", retratado há apenas dois anos em Nova Iorque.

Jasper Johns, Nova Iorque, 2006,
(© Irving Penn)

livros 2


As candidaturas ao prémio de Melhor Livro de Fotografia do PHOTOEspaña 2008 estão abertas até ao dia 1 de Maio. As obras devem ter uma data de edição situada entre 1 de Maio de 2007 e 1 de Maio de 2008. Por ano são entregues 3 distinções - melhor livro nacional, melhor livro internacional e melhor editora. Um júri de seis pessoas do mundo da fotografia vai escolher um conjunto de 100 livros que será objecto de uma exposição autónoma no programa do PHE08.

As inscrições podem ser feitas aqui.

>>Post relacionado
>(o livro)

17 abril, 2008

livros 1


O Pictures of the Year International é um prémio alargado de fotografia organizado pelo Donald W. Reynolds Journalism Institute, da Missouri School of Journalism, dos EUA. Da longa lista de prémios, recentemente divulgada, destaco apenas as distinções atribuídas aos álbuns de fotografia, que são, confesso, uma das minhas grandes perdições.
Aqui estão premiados na categoria Best Use Books:

Vencedor: Double Blind: War in Lebanon 2006
Fotografias: Paolo Pellegrin
Texto: Scott Anderson
Publisher: Trolley Books

Menção honrosa: Darfur: Twenty Yers of War and Genocide in Sudan
Fotografias: Lynsey Addario, Pep Bonnet, Colin Finlay, Ron Haviv, Olivier Jobard, Kadir vanLohuizen, Chris Steele-Perkins, and Sven Torfinn
Editora: Leora Kahn
Publisher: Powerhouse Books

Menção honrosa: Surf Club
Fotografias: Craig Golding
Publisher: GB Press

Pela primeira vez, o júri decidiu atribuir ainda o Distinguished Leadership in Photojournalism Award à obra Magnum Founders: In Celebration of Sixty Years, em sinal de reconhecimento pelo papel de "guia" no desenvolvimento do fotojornalismo da cooperativa desde a sua fundação. O livro, limitado a 75 cópias numeradas, contém impressões originais de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e David Seymour.
Pequenos pormenores com importância: só para fazer a reserva é preciso pagar 2500 dólares e para ter o livro na estante lá de casa é preciso desembolsar 14 500.
Quem quiser perder a cabeça pode fazê-lo aqui.
A lista final de vencedores está aqui.

15 abril, 2008

Christie`s vende - o que foi

Carla Bruni
(Michel Comte)

Durante o fim-de-semana as notícias centraram-se sobretudo na fotografia em pele desnuda da actual primeira-dama francesa, Carla Bruni. Os leilões da Christie`s, que decorreram em Nova Iorque nos dias 10 e 11 do corrente, foram obviamente muito mais do que as sessões fotográficas dos tempos em que Bruni era modelo. A venda de uma colecção que incluía imagens muito variadas - entre autores, estilos e épocas - acabou por ser a mais rentável com um total de 4,6 milhões de dólares. Foi neste conjunto que se vendeu também a fotografia mais cara dos dois dias de leilão - uma imagem de Irving Penn, por 529 mil dólares.
Aqui ficam os lotes mais caros de cada leilão:
(valores em dólares)

#Livros de Fotografia (10 de Abril)
>Jindrich Styrsky, Emilie prichazi ka mne ve snu -- Emily Comes to Me in a Dream. Texto de Bohuslav Brouk. Praga, Edice 69, 1933.
>>193.000


#Fotografias da colecção de Bruce e Nancy Berman (10 de Abril)
>Diane Arbus (1923-1971), Child selling plastic orchids at night, Nova Iorque, 1963.
>>115.000



#Fotografias da colecção de Gert Elfering (10 de Abril)
>Helmut Newton (1920-2004), Sie Kommen ("Nuas e Vestidas"), Paris, 1981.
>>241.000


#Fotografias de Ansel Adams (11 de Abril)
>Ansel Adams (1902-1984), Clearing Winter Storm, Yosemite Valley, 1944.
>>481.000


#Fotografias de vários autores (11 de Abril)
>Irving Penn (1917-), Cuzco Children, 1948.
>>529.000


>>Post relacionado:
>(Christie`s vende)

14 abril, 2008

Burt Glinn (1925-2008)

(© Burt Glinn/Magnum Photos)

Morreu outro grande nome da cooperativa de fotogafia Magnum - Burt Glinn.
Glinn fotografou momentos-chave da Guerra Fria como a marcha de Fidel Castro rumo a Havana, em 1959, e a visita do presidente russo Nikita Khrushchev aos EUA, no mesmo ano.
Entrou para a Magnum em 1951, ao mesmo tempo que Eve Arnold e Dennis Stock - os primeiros americanos a juntarem-se à agência. Os primeiros trabalhos que assinou para a cooperativa retratavam acontecimentos ocorridos no Japão, Rússia, México e Médio Oriente.
Burt Glinn nasceu em Pittsburgh, em 1925, estudou literatura na Universidade de Harvard e trabalhou para revista Life. Ganhou vários prémios e o seu trabalho foi exposto por todo o mundo. Foi presidente da Magnum por duas vezes.

12 abril, 2008

litorais

(Danilo Pavone)

O fotógrafo italiano Danilo Pavone, a trabalhar e a residir em Portugal, acaba de inaugurar no Centro Cultural de Cascais a exposição Litorais, uma viagem nocturna pelos locais onde o mar beija os areais.
Maria do Carmo Serén escreveu este texto de apresentação:

Nada como um litoral de areia para se recuperar a observação repetida de António Machado, o caminho se faz, caminhando. Do litoral não se parte nem se chega, apenas se faz caminhando. Pode ver-se ou adivinhar-se da auto-estrada que avança para lá dos sítios, pode procura-se quando já outros, muitos outros, no Verão o procuraram. Mas o litoral está lá sempre, é um património, um chamamento. Uma espera.
É também uma memória renovada com estas imagens de Danilo Pavone. Quase, quase minimal spaces, se procuramos definições: a figuração destaca-se como escultura errática de ficção científica no espectral luminescente de luz radiante, nas transparências do mar, nas brumas de livro de poesia. Há uma actualização no conceito de paisagem, um criticismo da sociedade do espectáculo, um despojamento muito claro. Um Deadpan, uma angústia e uma solidão maior. Mas também um deslumbramento.
As imagens encharcam-nos de céu e o areal torna-se muito continente, estamos nele. Entramos nos cenários surrealistas, com os seus esqueletos de equipamentos. Sentimos, sentimos sempre, o peso dos céus, o enigma de pertencer.
E então, ali, num entardecer qualquer, com os carros distantes de tão próximos, a percepção de um crime a haver.

Maria do Carmo Serén

>>Post relacionado:
>(uma fotografia, um nome)

Litorais, de Danilo Pavone
Centro Cultural de Cascais
Avª Rei Humberto II de Itália, Cascais
Até 1 de Junho

BESPhoto é photo?

Miguel Soares, retarC, 2008
(© Miguel Soares)

Causa sempre algumas interrogações a escolha dos candidatos e a atribuição do prémio BESPhoto. A edição deste ano, que reconheceu o trabalho de Miguel Soares, não foi excepção. Foi para tentar perceber melhor os parâmetros que regem o galardão e os caminhos que trilha a fotografia contemporânea que Inês Nadais escreveu no P2 o texto O "photo" em BESPhoto está a mais?. A procura de respostas foi feita com a ajuda de depoimentos de Maria do Carmo Serén (investigadora e historiadora) e Ricardo Nicolau (adjunto do director do Museu de Serralves e júri de selecção da edição deste ano do prémio).

O texto pode ser lido aqui.

10 abril, 2008


entre aspas

(J. Pascal Sébah)

-Dize lá, Alpedrinha! Tem-la visto, a Maricoquinhas? Que tal está? hein? Rechonchudinha?
Elle baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivára duas rosas.
-Já não está... Foi para o Tebas!
-Para o Tebas? Onde há umas ruinas?... Mas isso é no alto Egypto! Isso é em cascos de Nubia! Ora essa!...Que foi ella lá fazer?
-Alindar as vistas, murmurou Alpedrinha com desolação.
Alindar as vistas! Só comprehendi quando o patricio me contou que a ingrata rosa d`York, adorno d`Alexandria, fôra levada por um italiano de cabelos compridos, que ia a Tebas photographar as ruinas d`esses palacios onde viviam face a face Raméses, rei dos homens, e Ammon, rei dos Deuses... E Maricoquinhas ia amenisar "as vistas", apparecendo n`ellas á sombra austera dos granitos sacerdotaes, com a graça moderna do seu guardasolinho fechado e do seu chapeu de papoilas...

-Que descarada! gritei eu, varado. Então com um italiano? E gostando d`elle? Ou só negocio?... Hein, gostando?
-Babadinha, balbuciou Alpedrinha.


Eça de Queirós, A Relíquia, 12ª edição, 1935

09 abril, 2008

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Hiroshi Sugimoto, Hyena JackalVulture, 1976
(
© Hiroshi Sugimoto)

»»Luís Maio andou pelas terras que vão receber os jogos do Euro 2008, na Áustria e na Suíça, e veio de lá com duas sugestões para os leitores do Arte Photographica. No Museum der Moderne, em Monchsberg (Salsburgo), viu uma grande exposição do japonês Hiroshi Sugimoto, onde são mostradas várias facetas do seu trabalho: Conceptual Forms; Portraits; Lightning Fields; Photogenic Drawning; Sculpture; Seascapes; Architecture; Dioramas; Pine Trees; Theaters; Colors of Shadow. E no Museum Fur Gestaltung, de Zurique, viu a exposição A Fareweell to Movies de Chris Marker, cineasta, fotógrafo, jornalista, viajante, crítico, activista e "bricoleur", como o próprio gosta de se catalogar.

Há mais informações sobre a exposição de Sugimoto aqui.
E para saber mais sobre a mostra de Marker clique aqui.

Chris Marker, Cabo Verde, 1981, "still" de "Staring Back", 2007
(© Chris Marker)

k print

Pauliana Valente Pimentel
(© kameraphoto)

Na K Galeria podemos ver fotografia, conversar com fotógrafos e, desde há uns meses para cá, imprimir fotografia. Na comemoração do 3º aniversário, a K dá um desconto de 15 por cento em todos os trabalhos feitos até 18 de Abril. As fotografias são impressas em jacto de tinta pigmentada e os homens das máquinas da K prometem "controlo absoluto sobre as provas finais".

K Print
R. da Vinha, 43 A (Bairro Alto)
De seg. a sáb., das 11h00 às 18h00
kprint@kameraphoto.com

08 abril, 2008

dominar

Abdullahi Mohammed com Mainasara, Ogere-Remo, Nigéria 2007
(© Pieter Hugo)


Era uma imagem que não conhecíamos. Ou pelo menos a que não estávamos habituados. A imagem das hienas como animais de estimação, como bichos orquestrados (orquestráveis!) para fazer gracinhas e malabarismos circenses. Tínhamos delas a lembrança da boca esfomeada a salivar. Da matreirice inteligente. Do riso mentiroso. Do sentido de oportunidade. Da besta indomável. E agora Pieter Hugo vem-nos mostrar outra coisa - a imagem desse animal indefinido, que nem é cão nem é leão, subjugado aos Gadawan Kura, os guardiões de hienas em língua Huasa. É uma imagem que nos causa desconforto e espanto. E que nos cativa, mais pela agressividade latente do que pela novidade do número. Os Kura usam estas criaturas de pêlo espetado como trampolim social - quem as domina é forte - e como engodo para atrair multidões nas ruas de Lagos, onde, depois da exibição do poder das vergastas e das correntes, vendem remédios manhosos e curandices várias.
Pieter Hugo viajou por duas vezes à Nigéria para retratar esta realidade. O resultado desse trabalho, que foi reconhecido no World Press Photo do ano passado, foi agora editado no álbum The Hyena & Other Man.

Para ler a explicação de Hugo sobre a concretização deste projecto clique aqui.

Mallam Mantari Lamal com Mainasara, Nigéria 2005
(© Pieter Hugo)

/uma fotografia, um nome\

André Príncipe, Smell of tiger

Imaginemos que a mulher não existe. É o título, bem lacaniano, da análise de ética e sublimação, da investigadora americana Joan Copjec. Imaginemos, mesmo, que a mulher, esse ícone ataviado com o desejo masculino, não existe. E confrontemos então esta imagem directa de André Príncipe, uma rapariga onde o excesso desestruturante da mensagem, simplesmente destrói dois atributos clássicos da mulher-objecto, a maquilhagem reparadora e o toucado, velho avatar de sedução. Uma jovem que é, antes de tudo, um olhar sobre nós.

É difícil olhar o desencanto, mais ainda quando nos devolve o desencanto das nossas convicções.

André Príncipe é um puro fotógrafo vagabundo, persegue o mundo todo enquanto se persegue a si mesmo. O que nos mostra é, necessariamente, e quase invariavelmente, um mundo jovem em conflito radical de gerações. Ao usar a fotografia faz ficção com a ficção de ser mas, mercê desta abertura que a fotografia multiplicou, varre o olhar omnisciente do divino que ainda nos afastava, como criaturas dependentes, dos jardins do Paraíso. O mundo da fotografia directa é definitivamente profano e aberto. E, cada vez mais, guarda uma ausência ignorada. Nesse mundo, o homem é visto por todos, no seu contexto, nas suas acções, nas interpretações que o fotógrafo nos propõe.

E talvez por isso mesmo a fotografia vive o seu momento de crise, que o conceptualismo e o pós-modernismo, actuando formalmente e sem auto-crítica, não resolveram. Há quem diga que a imagem da fotografia directa, química ou digital, precisa de actualizar os conteúdos, mostrar o que se passa para quem o vive na superfície das coisas. Porque essa forma de pensar intuitivamente com o choque da imagem, traz consigo o testemunho do tempo que vivemos e é garantia do autêntico. Ficcionado ou não, sentimos com ideias, imagens e fantasias.

A imagem fotográfica, nos seus diversos suportes, tornou-se a paisagem que melhor conhecemos. E, com isso, perdemos os valores em que assentava a nossa cultura de herança grega. Porque mergulhamos, no multiculturalismo da globalização, a diferença tornou-se irrelevante, perdeu-se a identidade e, desse modo, as regras da lógica clássica. Sem o princípio da não-contradição e do terceiro excluído, que a nossa gramática latina e os programas de computadores continuam a usar, a irrealidade e a alteridade, (ser uma e outra coisa, ao mesmo tempo) do mito, organizam o nosso conhecimento e a nossa fruição. É, necessariamente, o fim dos paradoxos e a dificuldade da diferença. Seja no virtual, seja na constatação diária de que 'o que é' nem sempre 'é'. Como uma fotografia nos explica, como o mundo fantasmático de sucedâneos multimédia com que fazemos a vida, nos assegura de segundo a segundo.

Na fotografia de André Príncipe o mundo transforma-se num imenso não-lugar, onde enquadramos homens e coisas em permanentes periferias de uma ideia de cidade, de uma ideia de campo, de praia, de civilizações que aprendemos codificadas em outro tempo e outro espaço. E é nesses lugares inóspitos e quase malditos, por entre luzes dos novos néones da publicidade e da contrição cívica, onde vicejam equipamentos de estruturação do trânsito, que encontramos a poesia e o esplendor desta cultura nova. Aqui e ali há o reencontro com a inevitável solidão do rebanho de sujeitos desligados, o transe maior de uma incapacidade de reagir. No seu mundo de turbulência de luzes e movimento, de agitação não estratificada, a diferença não é provocação nem é aviso. Está ali, simplesmente, desafia um olhar, uma classificação. Esquece-se ou não se esquece. Depois de a ver, de a sentir, afastamo-nos deste olhar cansado da rapariga do autocarro, que nem é interrogativo nem sedutor. Mas é um olhar que diz que é, 'tropeçamos nele como um excedente do mundo'. Disse-o Sartre.

E como o livro de Joan Copjec me foi oferecido incompleto, nunca saberei se o olhar do outro implica ética ou sublimação. Mas sei, sem o ler, que revolve o sentir.

Maria do Carmo Serén

André Príncipe (1976)
Tem formação em fotografia (Curso de Fotografia na Faxx Akademie, Holanda) e em cinema, (curso na área de montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema, Lisboa, 1998-2001; Curso de Realização Avançada da FCG/London Film School, 2005). Mostrou o seu trabalho de fotografia nos Encontros de Imagem de Braga, CPF, e Silo. É fundador da editora de livros de fotografia, Pierre von Kleist Editions.

07 abril, 2008

Miguel Soares vence BESPhoto

Miguel Soares, da série Liine, 2007
(Miguel Soares)

Miguel Soares ganhou IV Prémio BESPhoto, um galardão patrocinado pelo Banco Espírito Santo e pelo Museu Colecção Berardo. Os outros participantes da fase final do prémio eram Daniel Malhão e Eurico Lino do Vale. Luísa Cunha, também seleccionada, preferiu ficar de fora. O vencedor vai receber 25 mil euros. Miguel Soares concorreu com três séries de fotografias (planetas, crateras e carros).

"A nossa vontade de aceitar a ilusão, mesmo em casos inverosímeis e tecnicamente imperfeitos, a chamada teoria da Suspension of Disbelief interessa-me imenso. Há coisas que víamos há vinte anos atrás e pareciam altamente verosímeis e realistas e que hoje em dia parecem muito mal feitas", disse o artista sobre os trabalhos enviados a concurso.

O júri de selecção falou numa "reflexão sobre o real, uma ligação estreita entre a música e as imagens e uma análise dos mecanismos que regulam e determinam a percepção. (...)"

Miguel Soares (1970, Braga) tem formação em fotografia (Estudos de Fotografia no Ar.Co, Centro de Arte e Comunicação Visual, Lisboa) e uma licenciatura em design de equipamento (Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa).

Para ver mais fotografias da série Liine clique aqui.
Para ler uma conversa entre o artista e Filipa Ramos clique aqui.

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