27 março, 2008
“entre aspas”
“A Pop Art foi, por assim dizer, a tomada de consciência tardia de um fenómeno que a precedeu e vastamente ultrapassou: a cultura de massas de índole tecnológica. Terão sido a banal Kodak do senhor Eastman, o relato radiofónico de Orson Welles, o cinema ciclópico de Hollywood, o automóvel privado e as autoestradas de Henry Ford e, em geral, a cultura da mobilidade estética permanente, mais do que a crise das Belas Artes, que melhor carecterizam a chamada 'cultura contemporânea' ao longo dos últimos 80 anos.”
António Cerveira Pinto, Arte de base cognitiva - O Fim da Tecnologia, in Parq, 01.02.2008
20 março, 2008
Philip Jones Griffiths (1936 - 2008)
Um dos seus trabalhos mais marcantes foi publicado no livro Vietnam Inc. (1971), tido por muitos como a mais detalhada e importante obra sobre o conflito e uma das razões que levaram os americanos a voltarem-se contra a guerra. "Se alguém em Washington tivesse visto aquele livro, nós não teríamos guerras no Iraque ou no Afeganistão", disse Noam Chomsky sobre Vietnam Inc..
Jones Griffiths nasceu em Rhuddlan, no país de Gales, e estudou farmácia em Liverpool. O jornal inglês The Guardian estampou os seus primeiros trabalhos como fotojornalista free lancer. Mais tarde, decidiu dedicar-se a tempo inteiro à fotografia e arranjou trabalho no jornal The Observer. Cobriu conflitos na Argélia, na África Central, na Ásia e no Médio Oriente.
Griffiths, um pacifista apaixonado que se opunha aos conflitos armados, nunca se considerou um tradicional fotógrafo de guerra.
Para ver uma entrevista de Philip Jones Griffiths ao sítio Musarium clique aqui.
Para ver uma fotogaleria preparada pela Magnum In Motion clique aqui.
Reacções
"A giant passes away"
Jonas Bendiksen
"We mourn Philip, a great man of grand contradictions: a warrior against war a compassionate cynic a shooter with no guns a militant pacifist an agnostic believer a tender bully an amoral moralist a rough giant with a soft heart a man of love and sarcasm a fighter of invincible illness now dead but so very much alive"
Thomas and Christine Hoepker
"...a giant man and photographer..."
Paolo Pellegrin
"Philip enriched all our lives with his courage, his empathy, his passion, his wit and his wisdom; and for many he gave to photojournalism its moral soul."
Stuart Franklin
/uma fotografia, um nome\
Também a fotografia estabelece uma relação de substituição com o que já passou, suspendendo o tempo. Associa-se, assim, mais a uma comemoração do que a uma representação: fixa o tempo e celebra o efémero.
O tempo hoje tornou-se mais complicado; os cientistas separam a Óptica ondulatória da Óptica geométrica aquela em que vivemos, tempo de curtas durações, do electro-magnetismo e da gravidade. Mas a prática fotográfica mexe com as duas, porque a luz é o tempo e com a fotografia instantânea interrompe-se o fluxo – cosmogónico – de luz de longa duração.
O tempo fotográfico é um tempo que se expõe, um tempo de superfície, que é o do fotógrafo, na sua ânsia de capturar o tempo da sua vivência, (tempo vivo), que deixará a sua ferida, a sua marca, na imagem. Mas o tempo da tomada de vistas é o tempo-luz, com a frequência de onda portadora dos fotões. O fotógrafo reage com duas operações psicológicas ligadas ao corte/captura da imagem no tempo e com uma participação empática com o tempo do mundo. A explicação pode ser científica, mas o sentimento toca o sagrado, bem expresso nas palavras, comuns na disciplina, de “banho de revelação”, “placa sensível” e, nomeadamente, “revelação”.
A imagem fotográfica, - uma imagem fotográfica como esta de João Pinto de Sousa, - coloca-nos uma série de reflexões. A jovem, (que supomos ser jovem, porque apenas vemos uma fracção da realidade captada que enche o plano total da fotografia), em equilíbrio dinâmico, é mostrada sem estratégias fotográficas que sugiram o movimento. Mas no seu estaticismo de imagem parada é, na realidade, puro movimento: basta verificar o modo como a posição do pé e a relação do corpo com a figura o assegura. Não vemos, mas reconhecemos o movimento: a imagem capturou o tempo, que é, afinal, a forma da matéria em movimento.
E a língua latina, de novo: o pé calçado é o punctum que nos fere na imagem, e é o seu próprio pulsar. Punctum, (termo latino) e trauma, (termo grego) significam o mesmo, ferimento, rasgão na pele. Roland Barthes usou o acutilante do latim para traduzir a fulguração onde se inscreve a sedução de uma imagem que nos atinge e nos atrai. Pecando por uma aflitiva instabilidade funcional, o elegante pé calçado peca também por excesso: destoa da sobriedade rigorosa do conjunto de vestuário. O tacão, demasiado alto, demasiado estreito, é um desafio, o requinte da decoração é uma inconsequência, uma contradição: é um punctum.
O punctum é um detalhe, um objecto parcial, uma ferida que traz consigo uma carga emocional e surge numa dobra da percepção consciente, investindo-lhe um sentimento. Atribui-se-lhe, pois, um afecto. De resto, sabe-se bem como o olhar se estrutura no desejo, o olhar é um impulso, não apenas um receber. E quando não sabemos dar significado a detalhes enigmáticos tentamos entendê-los pelo imaginário. O punctum na imagem de João Pinto de Sousa pode representar um quiasma, que é também um termo médico e significa sempre aquele lugar interrogativo, que marcamos com uma cruz.
Também por tudo isto a fotografia é uma máquina do tempo. Na cultura tecnológica, que permite esta imagem online, o espaço é espaço de tempo. Por vezes, como nesta imagem, a dinâmica do espaço e do tempo, (e apenas porque receamos o desastre circunscrito naquele pedal em dia de festa) ultrapassa-nos mas infiltra-se. Nós somos tocados pelo tempo, o que as imagens fotográficas não deixam de nos lembrar. Por isso materializamos o tempo em relógios e fotografias.”
Maria do Carmo Serén
João Pinto de Sousa
Cirurgião, professor universitário e fotógrafo amador
18 março, 2008
dar

A revista Photographies, publicada pela Routledge, lançou um novo número e está a oferecê-lo aos leitores que enviarem um mail para jennifer.roberts@tandf.co.uk
O sumário dos ensaios oferecidos nesta edição é este:
#A Life More Photographic - Maping the networked image
(Daniel Rubinstein e Katrina Sluis)
#Remediations - Or, when a boring photograph not a boring photograph
(Gail Baylis)
#Archival Value - On photography, materialy and indexicality
(Nina Lager Vestberg)
#Blessed be the Photograph - Tourism choreographies
(Juha Suonpaa)
#Traumatic Images
(Jessica Catherine Lieberman)
#Digital Imaging Goes to War - The Abu Ghraib photographs
(André Gunthert)
17 março, 2008
sair do frigorífico
Moda Lisboa(© Rui Gaudêncio)
O fotojornalista do Público Rui Gaudêncio passou quatro dias nos bastidores da última Moda Lisboa a acompanhar duas estreantes da passerelle. Veio de lá com milhares de fotografias e este fim-de-semana brindou-nos com uma fotogaleria em stop motion onde usou cerca de mil imagens. É um "filme" em alta rotação que nos embala e nos faz lembrar a verdadeira matriz do cinema. É a imagem congelada a sair do frigorífico. E é a fotografia a dizer que encontrou no digital uma casa onde se sente confortável e onde tem possibilidades ínfimas.
Vale bem a pena assistir ao desfile por aqui.
16 março, 2008
Christie`s vende
#Livros de Fotografia (10 de Abril)
A Christie`s diz que é "provavelmente a melhor" colecção de livros de fotografia alguma vez colocada em leilão. Todas as obras vieram de uma colecção privada e estão em excelente estado de conservação. Para além disso, acrescenta a leiloeira, muitos deles estão autografados ou anotados pelos autores. Entre as obras mais relevantes há, por exemplo, The Decisive Moment, (Henri Cartier-Bresson, Nova Iorque, 1952, entre 20 e 30 mil dólares), uma primeira edição de Paris de nuit (Brassai, 1933, com dedicatória para Andre Kertesz, entre 30 e 50 mil) ou uma primeira edição de The Americans (Robert Frank, Nova Iorque, 1959, entre 10 e 15 mil).
#Fotografias da colecção de Bruce e Nancy Berman (10 de Abril)
Este leilão foi dividido em três sessões. A primeira terá apenas fotografias de Diane Arbus (51 lotes), onde estão incluídas, por exemplo, Boy with a straw hat waiting to march in pro-war parade (Nova Iorque, 1967, entre 25 e 35 mil) e Girl in a watch cap (Nova Iorque, 1965, entre 20 e 30 mil).
#Fotografias da colecção de Gert Elfering (10 de Abril)
É uma colecção que mostra um "olho único" e uma grande "sensibilidade", garante a Christie`s que chama também a atenção para a qualidade do catálogo que foi preparado para esta venda. Ao todo haverá 140 lotes à disposição dos compradores num venda que deverá render entre 2 e 3 milhões de dólares.
#Fotografias de Ansel Adams (11 de Abril)
Leilão integralmente dedicado a uma colecção de fotografias de Ansel Adams proveniente da Califórnia. Algumas impressões estão classificadas como "mural-size", como Clearing Winter Storm (Yosemite, 1944, entre 250 e 350 mil dólares). A leiloeira espera que os 122 lotes possam render entre 3 e 5 milhões de dólares.
#Fotografias de vários autores (11 de Abril)
Conjunto de fotografias desde o início do século XX até ao presente. Entre os autores representados destaque para Edward Weston, Irving Penn, Diane Arbus, Dorothea Lange, Robert Mapplethorpe, Henri Cartier-Bresson e Brassai. A Christie`s chama a atenção para duas obras-primas de Irving Penn que "mostram duas facetas distintas do seu trabalho": uma fotografia que foi capa da Vogue em 1950 e o trabalho Cuzco Children, 1948.
14 março, 2008
emendar
Menção Honrosa, Reportagem (edição 2007)(© Pedro Vilela)
No texto que assinala o número recorde de fotografias ("quase 7 mil") submetidas à edição deste ano do Prémio de Fotojornalismo Visão/BES tecem-se loas à independência do júri que vai apreciar os trabalhos do concurso. É sempre bom lembrar a nobreza de carácter e a isenção de quem foi escolhido para escolher, mas, que eu saiba, ninguém colocou essa condição em causa. As abundantes referências à impermeabilidade das "individualidades estrangeiras" convidadas soam a um emendar de mão depois da imprudência cometida num texto anterior onde se dava um "exemplo" que cabia na nova categoria do concurso deste ano.
nomeados
Daniel MalhãoFoi ontem inaugurada no Museu Colecção Berardo a exposição da 4ª edição do prémio BESPhoto que mostra trabalhos recentes de Eurico Lino do Vale, Daniel Malhão e Miguel Soares.
Estes três artistas foram seleccionados para a fase final do galardão por um júri composto por Albano da Silva Pereira, José Luís Neto, Leonor Nazaré, Nuno Crespo e Ricardo Nicolau. O vencedor será anunciado no dia 7 de Abril.
Eurico Lino do Vale
Miguel Soares13 março, 2008
12 março, 2008
»vejamos»» [as sugestões dos leitores]
Simone Veil, ministra da Saúde, 1974(© Martine Franck/Magnum Photos)
A revista Slate decidiu assinalar o Dia da Mulher (8 de Março) com um ensaio da Magnum onde aparecem algumas personalidades femininas que se destacaram na política e assumiram o poder durante os últimos 50 anos de História.
A sugestão é de Joana Amaral Cardoso.
Para ver todas as imagens desta fotogaleria clique aqui.
11 março, 2008
{photoarquia}

...until you hear a click...
Andei a limpar o pó à meia-dúzia de máquinas antigas que fui juntando ao longo dos últimos anos. Encontrei este folheto dentro da caixa carcomida de uma Kodak Baby Brownie em baquelite preta.
Não resisto a transcrever uma parte das explicações técnicas sobre o funcionamento deste "bebé" da Kodak. Mostra-nos a enorme distância a que já estamos deste mundo...
Este post inaugura também uma nova secção aqui no Arte Photographica - {photoarquia} - que falará da arqueologia e da história da fotografia.
“Instantaneous snapshots
You can take snapshots in bright sun, or when the sun is obscure by light cloud, during the hours between two hours after sunrise and two hours before sunset.
Firs lift up the front frame of the viewfinder and set both frames upright. Hold and aim the camera as shown in the illustrations. Keep your hand well away from the lens.
Hold the camera level and perfectly still when photographing. Push the Shutter Lever slowly and evenly to the left until you hear a click - this indicates that the exposure has been made. When the shutter is released, another click will be heard - this is the shutter returning to the set position and not another exposure being made. Do not jerk he shutter lever, otherwise the picture will be blurred. It is always safer to take snapshots with the sun behind you or slightly to one side - if you expose with the sun in front of you it may shine into the lens and spoil the picture.
To photograph a moving subject, choose a viewpoint where any movement is toward or away from the camera - never across it.”
10 março, 2008
NAF ameaçado
Carlos M. Fernandes, Kaluptein, 2001(© Carlos M. Fernandes)
O Conselho Directivo e a Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico preparam-se para atirar o Núcleo de Arte Fotográfica (NAF) deste universidade para fora do espaço onde funcionou nos últimos 30 anos. A ideia é transferir o NAF para o Tagus Park,em Oeiras, onde funciona o segundo e novo pólo do IST. Se a mudança se concretizar, o NAF perde dois dos seus principais trunfos na já difícil afirmação das técnicas tradicionais de fotografia - a centralidade na cidade e a presença no maior pólo do IST. O NAF lutava por uma complementariedade entre os velhos modos de criar fotografia e a avalanche do digital. Agora, com esta situação, luta tão simplesmente pela sua existência.
"O NAF (Núcleo de Arte Fotográfica) do Instituto Superior Técnico é um sigla mágica de grandes tradições. Por ele passaram todos os estudantes do Técnico (e doutras escolas) com veleidades fotográficas. Alguns tornaram-se grandes profissionais da arte e engenho da fotografia. Foi também no NAF (então Secção Fotográfica da AEIST) que nos meus tempos de estudante - já lá vão quatro décadas - aprendi os rudimentos da revelação e vi nascer a minha primeira imagem latente. Nessa altura, os meus interesses eram químicos, não fotográficos. Como de propósito, aquela Secção Fotográfica estava cravada na ilharga do Pavilhão de Química. Já havia olhares cobiçosos sobre espaços alheios, mas fotógrafos e químicos coexistiam em serena harmonia. Lembro-me de descer a escada lateral do Laboratório de Química Analítica (que Deus tenha!) e de voltar à direita para entrar pela portinha mágica que dava acesso à câmara escura."
06 março, 2008
photo london adiada
Lisa Kereszi, Gael dressing, State Palace Theater, New Orleans, 2000(© cortesia da Yansey Richardson Gallery, Nova Iorque)
A edição deste ano da Photo London, agendada para este mês, foi cancelada por causa da demissão de Valérie Fougeirol, directora da Paris Photo que, desde o ano passado, tomou conta da organização do festival da capital inglesa.
Os organizadores franceses prometem o regresso do Photo London para 2009. O Paris Photo não sofrerá qualquer alteração e acontecerá em Novembro.
05 março, 2008
/uma fotografia, um nome\
Xangai, 2002(© António Júlio Duarte)
Esta imagem de uma Xangai, que podia ser ali à esquina, é relativamente recente e já perdeu decisivamente a agudeza da cor, mas manteve essa exploração miudinha dos gestos, que é uma das glórias deste fotógrafo. António Júlio Duarte é um dos grandes fotógrafos nacionais, um daqueles de que nos apropriamos para vitoriar o país. Mas quem gosta de classificações a partir de correntes, tem sérias dificuldades em situá-lo, o que, na realidade, é de bem menor importância no seu trabalho.
Margarida Medeiros parece ter intuído o nó da diferença, usa mesmo o conceito freudiano de heimlich, na sua caracterização mais labiríntica, quando, pela forma positiva de entendimento domesticado, (porque unheimelich, o seu contrário, significa mesmo estranheza), heimlich, paradoxalmente, associa familiaridade a estranheza e ocultação. Como se, naquelas coisas que julgamos reconhecer, um elemento repentinamente perturbador nos desencaminhe. O que faz enigmáticas as suas imagens.
Eu acho mesmo que António Júlio Duarte, que traz sempre a sua câmara a tiracolo, presumindo-se que pesquisa a poesia ou o desvario do acontecer, não é, verdadeiramente, um fotógrafo flâneur. Vagabundeia em trilhos interiores que alucinam a imagem fotográfica, como se procurasse um palco para os seus fantasmas depressivos. E aí, nesse cenário, se conjugam os segredos de um real visível e de um “real” psicanalítico, que é a febre de viver na falta, sabe-se lá de quê. A contingência, como sabemos, fabrica as polaridades da vida, perversas ou sadias, insuspeitadas ou deliberadamente reprimidas, os anjos do bem e do mal em contínua oposição, um olhar que alberga transparência e inquietação. E são essas pequenas percepções que perpassam nas suas imagens, que nos falam de um olhar inquieto, dentro e fora, dum descobrir e descobrir-se que, naturalmente, segue de argumento em argumento.
Talvez por isso, os personagens de António Júlio mostram-se frequentemente em retirada, de costas voltadas; mas não há deficit de avaliação porque a clareza dos gestos do corpo supre outra qualquer informação: ombros que se esgotam de cansaço, desajustes de troncos que ferem de desânimo ou se endireitam com entusiasmo, o perfil da sedução num volteio de roupa, o refechamento duns pés encolhidos. Nesta imagem, o corpo todo que podemos ver fala da expectativa da jovem ao telefone: os ombros direitos – excessivamente tensos no brilho neo-clássico da camisa,- a ligeiríssima inclinação da atenção na nuca perfeita, o comedido afastamento do dispositivo mecânico para garantir a unidade do corpo e do sentir, enfim, o decidido apoio da mão direita no suporte do varão. À sua volta sabemos que a vida circula, alheia e impensada, em segundo plano. O cenário é a parede verde da cabine que recorta o desenho onde o gesto se inscreve. A suspensão do olhar faz-se no centro. O real capta-se por fascinação, é certo, mas pode tornar-se possessão. Do fotógrafo e nossa. O sentimento da arte é afim do real, insinua-se nele o sentido oculto, mas não fica percepção, só fulguração e arrepio. Por isso mesmo é incómodo, não termina no studium, não fala, não se anuncia. É só um clarão, uma passagem. A falta, que está associada ao objecto parcial, a um objecto de substituição como a imagem fotográfica, apela ao desejo.
É bom saber que se trata, afinal, de um registo de experiência. Onde se passa qualquer coisa para lá do que se vê e nos perturba.
É só assim que se passa, guardamos no corpo, num afloramento de toque, a rapariga da blusa de cetim.”
Maria do Carmo Serén
António Júlio Duarte (Lisboa, 1965)
Dezenas de publicações e trabalhos bibliográficos;
Presente em colecções nacionais/internacionais.
Vive e trabalha em Lisboa
01 março, 2008
bombons de Capa
Robert Capa, Teruel, Espanha, Janeiro de 1938(© Cornell Capa/Magnum Photos)
Há uma verde, uma vermelha e uma bege.
Diz quem já esteve perto delas que bem podiam ter sido caixas de bombons. Talvez por causa dos quadradinhos como que a separar formas e sabores.
São três caixas, mas são uma - juntas formam “a mala mexicana” que antes de ser mexicana foi a mala que o fotógrafo de guerra Robert Capa deixou para trás quando, em 1939, abandonou Paris rumo a Nova Iorque, logo depois dos primeiros disparos que marcaram o início da II Guerra Mundial.
E os quadradinhos não guardam doces. Guardam rolos de negativos de quase 3500 fotografias – quase todas serão inéditas - tomadas durante a Guerra Civil de Espanha, entre 1936 e 1939, não só por Capa, mas também por Gerda Taro, sua companheira de trabalho, de aventura e romance, e David Seymour “Chim”, o trio que contribuiu de forma decisiva para uma nova maneira de dar a ver a guerra, estando dentro dela e não apenas a observá-la.
(...)
O artigo completo publicado na Pública está aqui.
Robert Capa, telefonema para o comando militar, Rio Segre, na frente de Aragão, 7 de Novembro de 1938(© Cornell Capa/Magnum Photos)
29 fevereiro, 2008
3 nomes mais 1
(© Bruno Castanheira/Público)28 fevereiro, 2008
“entre aspas”
Alfred Stieglitz, Barn, Lake George, 1920(©George Eastman House, Rochester, Nova Iorque)
“O telefone despertou-me numa fria manhã de Junho. Sentei-me na cama. A luz, lá fora, inerte e alheia, morria numa lenta gradação de cinzentos. Era triste como uma fotografia antiga.”
21 fevereiro, 2008
O Arquivo
Daniel Blaufuks lança o livro inspirado na exposição O Arquivo no dia 23 de Fevereiro, último dia da mostra, na Galeria Vera Cortês, em Lisboa.
"Este livro recolhe alguns textos espalhados, aos quais decidi dar a importância que merecem. Outros são textos pedidos propositadamente a autores, com os quais sinto afinidades e partilho alguns universos. Também decidi incluir palavras mais antigas, que não perderam o seu interesse e que se relacionam, de certa forma, com o contexto em que insiro meu trabalho. Ainda um ou outro texto da minha autoria, que acompanham as imagens aqui publicadas. Claro que, como todos os outros, também este é um arquivo incompleto.”
Daniel Blaufuks
A próposito de livros, o Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa agendou para o dia 28 de Fevereiro, às 17 horas, uma conversa entre o crítico Nuno Crespo e o autor.
20 fevereiro, 2008
*Três perguntas a...
(Pedro Cunha-Público)
Miguel Barreira, 33 anos, fotógrafo do diário desportivo Record, vencedor da 3º prémio da categoria Desporto do World Press Photo 2008.
¿O que te levou a submeter esta fotografia a concurso?
Pelo ângulo invulgar esta fotografia torna-se especial. Foi por causa disso que a mandei para o World Press Photo. Foi tirada de uma fortaleza com vista para a Praia do Norte, na Nazaré. Deu-me uma perspectiva de pássaro desta tentativa de sair da onda. No momento do caos ele [Jaime Jesus], quer sair dali mas não pode. Na areia, onde se costuma fotografar, era impossível consegui-la.
¿Pensaste que poderias ter alguma hipótese com esta fotografia no concurso deste ano?
Achei que era especial. Mas comecei a acreditar mais quando o director da melhor revista de "bodyboard" do mundo, a Movement, da Austrália, para onde também a mandei, me respondeu a dizer que tinha gostado muito e que a considerava “a trippy shot”, uma foto louca. Se consegui que o director desta revista e de um país de grandes ondas achasse isto.... Ele perguntou-me se a tinha conseguido a partir de um helicóptero e eu ri.
¿O que achas da fotografia vencedora do World Press Photo deste ano, o soldado “no fim da linha” do britânico Tim Hetherington, tirada nas trincheiras do Afeganistão?
É mais uma foto de guerra, mas num ano que não foi um ano de guerra. O ano de 2007 não foi o ano da guerra no Iraque, nem da guerra no Afeganistão.
(Depoimento recolhido por Ana Machado)
Para ler a crónica de Eduardo Cintra Torres sobre duas das fotografias vencedoras na categoria Desporto clique aqui.
Para ver uma fotogaleria com algumas fotografias premiadas clique aqui.
“entre aspas”
John BaldessariNoses & Ears, Etc. (Part Four): One Altered Person with Two Paintings, 2007
“Uma fotografia e uma pintura são a mesma coisa: informação visual. O que se pode ver nas minhas obras não é nem fotografia nem pintura, mas sim um híbrido.”
John Baldessari18 fevereiro, 2008
/uma fotografia, um nome\
“Fotograficamente, aqui celebra-se o corte e a distorção. Mas, antes, no olhar total, celebra-se o corpo. Danilo Pavone, que se licenciou em Belas Artes em Bolonha, chama ao conjunto onde se insere esta imagem, “Corpo Grego”, lembrando talvez aquelas figurinhas de terracota que já encantaram Eça de Queirós, - couros e core que nos ensinaram mais sobre harmonia do que os módulos humanos da escultura grega clássica.
E então o fotógrafo distorceu a harmonia do corpo, cindiu-a em pedaços e, em segunda instância, dividiu o corpo horizontalmente. Porque se trata de uma opção fotográfica, que em si mesma encerra já esse momento fundamental, o “cut”. Porque é essa a lei da fotografia, que nos habituou a ver o mundo não em síntese, mas em fragmentos, com fora de campo inteligíveis, porque um dos papéis da arte é precisamente ser uma metáfora do entendimento.
O gesto do corte é uma forma de violência contra o espaço e o tempo que parecem constituir a nossa forma de estar no mundo. A imagem fotográfica instaura uma catástrofe no devir inevitável do tempo, interrompe, suspende o tempo e fracciona, isola, uma pequeníssima parte da extensão. O fotógrafo, insiste Philippe Dubois, trabalha sempre com a faca. Aqui, nesta imagem de Danilo Pavone, o tempo não tem qualquer arrimo, pois o fundo neutro não nos dá um só elemento simbólico que nos permita situá-la no tempo. E o tempo da tomada de vista morreu em si mesmo, escapou-se para lá dela um outro tempo de um fluir contínuo; a fotografia é sempre uma imagem singular.
Mas é uma fotografia refeita, performativa. Deixa-nos uma série de pistas: esta insistência no fraccionamento do homem que vivemos desde o “homem demolido”, dos anos sessenta, e se agrava comos novos fantasmas do virtual. E, também por isso mesmo, a força agónica da separação, da perda, onde, a mal, se recupera o corpo depois da falta. Há um traço demoníaco na diluição da orelha de fauno, no estreitamento do braço, no seio quase clonado no feminino, na reconstituição de mau laboratório. E nesse uso da faca digital que arrisca destruir a beleza clássica, transparente na codificação negada, impõe-se uma outra estética que se insinua na descodificação do belo como excesso de composição, abrindo o abismo da perversidade. A teoria fotográfica contemporânea inventou o jogo da clarificação: a fotografia é índice de qualquer coisa, não é a coisa; é presente eterno, é sempre pretérito, é a cinza que ficou de um teletransporte granulado. A fotografia é a brecha, bem o sabemos. Do pensar e do sentir.
E é, naturalmente, um olhar. Um olhar informado, que argumenta, que descarrega no corte do mundo, todo o invisível que a formação do fotógrafo assim revela. Clandestinas, seguem as contradições da alma que criam a diferença, nesta dobra mal sustentada que é a nossa vida: a fotografia é sempre um corte, a faca inteligível no abismo, acorda em nós a certeza de que todas as nossas convicções caminham no fio do arame.”
Maria do Carmo Serén
Danilo Pavone (Catânia, 1971),
Foi fotógrafo militar do Exército italiano,
fez levantamentos fotográficos de Arqueologia,
é habilitado em conservação e restauro fotográfico.
Com fotografia de autor esteve na Arte Lisboa 2005 e 2006, no Centro Português
de Fotografia, em 2007, nas Bienais de V. N. de Cerveira e V. F. de Xira (1º Prémio em 2003).
Trabalha em Condeixa.
17 fevereiro, 2008
olhar de Johnny
15 fevereiro, 2008
“entre aspas”
“445. Uma fotografia não necessita de ser um documento, pode ser uma canção. Não necessita de ser matéria, pode aspirar a ser orgânica.”
Daniel Blaufuks, Setembro
13 fevereiro, 2008
»vejamos»» [as sugestões dos leitores]
Robert Capa (© Cornell Capa/Magnum Photos)
David Clifford chama-nos a atenção para esta história que já tem uns dias, mas é de ler e chorar por mais. Encontraram um dos Santos Graais da fotografia: a "mala mexicana" de Robert Capa com milhares de fotografias captadas durante a Guerra Civil de Espanha.
Está tudo contado no New York Times aqui.
Robert Capa (© Cornell Capa/Magnum Photos)
11 fevereiro, 2008
+WPP
Platon para a Time, Vladimir Putin, Rússia(1º Prémio na Categoria Retrato)
Não é de invejar nem um bocadinho a tarefa dos membros do júri que todos os anos elegem a fotografia vencedora do concurso World Press Photo. Deve ser angustiante. Escolher uma fotografia. A melhor. A que condensa numa superfície o máximo de emotividade, expressividade, dramatismo, rigor técnico, criatividade ou a mais simples feição de desespero, cansaço, aflição. Isolar uma fotografia. Torná-la só no meio da orgia das imagens. Tão-só como o soldado que ficou na objectiva do britânico Tim Hetherington, o grande vencedor da edição deste ano de um dos mais conceituados galardões de fotojornalismo do mundo.
Na verdade, este militar só não ficou para sempre sozinho nesta fotografia de Hetherington porque há um olhar fugaz que o liga a quem o vê. É pouco definida essa ligação, como pouco definida é a textura que chegou até nós. Mas é suficiente para o acompanharmos na sua solidão, para partilharmos o seu drama no atoleiro em que os Estados Unidos se meteram no Afeganistão. O soldado do 2º Batalhão Aerotransportado do Exército americano está sozinho e não está. Nós estamos com ele e a fotografia que o fixou está acompanhada por outras do mesmo autor que ganharam o 2º prémio na categoria de Notícias.
Tim Hetherington para a Vanity FairNuma apreciação imediata nota-se uma presença assinalável do preto e branco na edição deste ano do concurso. E há alguns prémios para fotografias neste suporte em categorias onde não é tradicional o seu uso, como o Desporto (o caso da fotografia do português Miguel Barreira).
Na galeria de premiados salta também à vista o retrato de Vladimir Putin feito pela agência britânica Platon e que foi capa da revista Time na tradicional votação para a personalidade do ano. Putin tem um olhar gélido, implacável. Não é um simples retrato, claro. Revela bem a frieza com que nos habituámos a olhar para o Presidente russo. É um retrato psicológico, que tem de ser lido para lá da pele de Putin.
Os olhos e o olhar são muitas vezes importantes na fotografia. Dão-nos o contacto. Dão-nos a "química". Outras nem por isso. É preferível imaginá-los. Como quis que fizéssemos Ariana Lindquist com esta figura esbranquiçada de cara cortada, sem olhar, mas com glamour e muito mistério.
(P2, 09.02.2008)
Ariana Lindquist, rapariga mascarada de boneco animado, Xangai(1º Prémio na Categoria Arte e Entertenimento)
10 fevereiro, 2008
dupla pose
Amélia Rey Colaço (1898-1990), s/d, Photographia Londres, LisboaHá dias alguém deixou em cima da minha mesa de trabalho um álbum de fotografias de antigas glórias do teatro português editado no final do ano passado. Parei mais tempo nestes dois retratos de dupla pose, de dupla actuação.
Rostos e poses
Museu Nacional do Teatro
Dezembro, 2007
Esther Leão (1897-1971), s/a, s/d08 fevereiro, 2008
Miguel Barreira
Miguel Barreira, 3º prémio da categoria Desporto A jornalista do Público Online Ana Machado falou hoje com Miguel Barreira e o resultado dessa troca de impressões está aqui.
Para ver uma galeria com todas as imagens vencedoras clique aqui.
07 fevereiro, 2008
»vejamos»» [as sugestões dos leitores]
Tragédia de Bhopal III, Bhopal, 1984(© Raghu Rai)
Em 1971, Henri Cartier-Bresson viu uma exposição de Ranghu Rai em Paris. Essas imagens ficaram-lhe na memória e em 1977 convidou Rai para se juntar à agência Magnum.
O jornal El Mundo dá-nos uma amostra do que podemos encontrar em Madrid e Barcelona aqui.
Nova Deli, 1988(© Raghu Rai)
01 fevereiro, 2008
/uma fotografia, um nome\
The Diminishing Present(© Edgar Martins)
“Esta cultura que vivemos, onde se juntam a sociedade de massas e da multimédia a pecados velhos, despertou medos arquétipos e fez deles as banalidades que desfrutamos com comunitária ligeireza em filmes de Carpenter, Tim Burton, Cronenberg, Ridley Scott ou Wes Craven; permite-nos ainda aclimatarmo-nos a figuras de reconhecimento como qualquer Alien, a Matrix de Morpheus e Neo ou Constantine ou a renovados vampiros e mortos-vivos. Este tema de abominação paredes meias com o de contaminação é comum na Fotografia e em qualquer outra arte contemporânea, mas amalgama-se, como efeito perverso, com a inquietação solitária e o desespero miudinho que nos atravessam em lugares de estranheza.
A própria civilização mediática e electrónica vai criando os seus sítios estranhos, como os não-lugares da sobremodernidade de Marc Augé, que é tudo o que nos rodeia para nos fazer livres e felizes: as temíveis estações de metro fora de horas, os aparcamentos vazios com a sua aparelhagem expectante, as arriscadas caixas de multibanco, as indicações, a sinalética, os cartazes que nos dizem como conversar com os nossos fantasmas.
Outro efeito da ordenação da cultura mediática é o desprazer que nos causam as periferias. Temática de reflexão social e montra de desregulamento cívico, a periferia tem deficit de equipamentos básicos, desertifica-se nas horas de trabalho, é marcada pela incompletitude. É o sítio bárbaro por excelência, porque muito próximo e tentacular: não é já o arrabalde simpático e de lazer, mas um caos sorrateiro que cresce de fora contra a cidade.
Tornou-se, naturalmente, um tema fotográfico, mais, um tema da arte do visual, seja no conceptualismo, seja nos humanistas. A ideia de periferia mexe-se no espaço ético e a sobremodernidade.
Edgar Martins, que desenvolveu o seu mérito académico na Grã-Bretanha, assumiu este tema conceptualmente e acabou por desenvolver um tipo de olhar que nos remete tanto às concepções de Axel Hütte, como aos justos devaneios ecológicos e etnológico dos americanos New Topographics, nomeadamente na sua série Buracos Negros e Outras Inconsistências.
Esta fotografia pertence à série seguinte, The Diminishing Present, o que já diz tudo sobre a evolução do seu imaginário. Porque, afinal, esta paisagem molhada pelo nevoeiro, cabe no nosso museu imaginário fotográfico; estamos habituados a estes caminhos de bichos traçados no terreno, a um qualquer renque de árvores indecisas num horizonte qualquer, apesar da dimensão e da cor digitalizada, apesar do céu vazio que apontam a pós-modernidade. Mas aqui há qualquer coisa de novo e perturbador: pela geometria ajardinada das árvores? Pela opacidade do ar? Pela luz espectral?
A tentação é não relevar a imagem do referente natural que traz consigo, mas associá-la a outros lugares que conhecemos de filmes ou de vídeo-clips, já que se trata de um esvaziamento e de um não-tema. A informação que presta é obviamente conceptual, mas o todo, olhando-nos, afirma o que bem reconhecemos, a solidão, o incómodo da névoa, a humidade do chão, o corte com a transparência do futuro: o que está para lá no espaço e, necessariamente no tempo, e não vemos, não adivinhamos. E que a opacidade brumosa nos esconde. Edgar Martins não nos oferece uma paisagem, mas o padrão processual para a sintetizar. Tudo o que se mostra e o que se oculta, o que sabemos e o que sentimos perverte a informação. E inquieta, desestabiliza.”
Maria do Carmo Serén
Edgar Martins (1977-), vive e trabalha, como fotógrafo e editor (The Moth House) na Grã-Bretanha, onde foi premiado (2003, 2005) e considerado “um dos mais influentes jovens artistas que usam o medium fotográfico”. Expõe habitualmente na China, Inglaterra e Portugal

















