29 fevereiro, 2008

3 nomes mais 1

(© Bruno Castanheira/Público)

Foram hoje revelados os nomes de três membros do júri do Prémio de Fotojornalismo Visão/BES: Philip Blenkinsop fotógrafo freelancer, Jean-François Leroy, presidente do festival de Perpignan, e Susan Smith, directora-adjunta de fotografia da National Geographic.

O texto de apresentação do júri, da responsabilidade da direcção da revista, comete a indelicadeza de citar um trabalho de João Carvalho Pina como um "exemplo" para concorrer à nova categoria desta edição, Reportagem Quotidiana. Esta estranha inclinação a priori por um eventual participante não é só injusta para com os outros concorrentes. É, em primeiro lugar, injusta para com o próprio. Imagine-se que João Carvalho Pina até ganha um prémio. E imagine-se que até ganha um prémio naquela categoria...

28 fevereiro, 2008


entre aspas

Alfred Stieglitz, Barn, Lake George, 1920
(©George Eastman House, Rochester, Nova Iorque)

O telefone despertou-me numa fria manhã de Junho. Sentei-me na cama. A luz, lá fora, inerte e alheia, morria numa lenta gradação de cinzentos. Era triste como uma fotografia antiga.

José Eduardo Agualusa, Pública

21 fevereiro, 2008

O Arquivo

Daniel Blaufuks lança o livro inspirado na exposição O Arquivo no dia 23 de Fevereiro, último dia da mostra, na Galeria Vera Cortês, em Lisboa.

"Este livro recolhe alguns textos espalhados, aos quais decidi dar a importância que merecem. Outros são textos pedidos propositadamente a autores, com os quais sinto afinidades e partilho alguns universos. Também decidi incluir palavras mais antigas, que não perderam o seu interesse e que se relacionam, de certa forma, com o contexto em que insiro meu trabalho. Ainda um ou outro texto da minha autoria, que acompanham as imagens aqui publicadas. Claro que, como todos os outros, também este é um arquivo incompleto.
Daniel Blaufuks

A próposito de livros, o Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa agendou para o dia 28 de Fevereiro, às 17 horas, uma conversa entre o crítico Nuno Crespo e o autor.

20 fevereiro, 2008

*Três perguntas a...


Miguel Barreira
(Pedro Cunha-Público)

Miguel Barreira, 33 anos, fotógrafo do diário desportivo Record, vencedor da 3º prémio da categoria Desporto do World Press Photo 2008.

¿O que te levou a submeter esta fotografia a concurso?
Pelo ângulo invulgar esta fotografia torna-se especial. Foi por causa disso que a mandei para o World Press Photo. Foi tirada de uma fortaleza com vista para a Praia do Norte, na Nazaré. Deu-me uma perspectiva de pássaro desta tentativa de sair da onda. No momento do caos ele [Jaime Jesus], quer sair dali mas não pode. Na areia, onde se costuma fotografar, era impossível consegui-la.

¿Pensaste que poderias ter alguma hipótese com esta fotografia no concurso deste ano?
Achei que era especial. Mas comecei a acreditar mais quando o director da melhor revista de "bodyboard" do mundo, a Movement, da Austrália, para onde também a mandei, me respondeu a dizer que tinha gostado muito e que a considerava “a trippy shot”, uma foto louca. Se consegui que o director desta revista e de um país de grandes ondas achasse isto.... Ele perguntou-me se a tinha conseguido a partir de um helicóptero e eu ri.

¿O que achas da fotografia vencedora do World Press Photo deste ano, o soldado “no fim da linha” do britânico Tim Hetherington, tirada nas trincheiras do Afeganistão?
É mais uma foto de guerra, mas num ano que não foi um ano de guerra. O ano de 2007 não foi o ano da guerra no Iraque, nem da guerra no Afeganistão.

(Depoimento recolhido por Ana Machado)

Para ler a crónica de Eduardo Cintra Torres sobre duas das fotografias vencedoras na categoria Desporto clique aqui.

Para ver uma fotogaleria com algumas fotografias premiadas clique aqui.

Miguel Barreira, 3º prémio da categoria Desporto


entre aspas


John Baldessari
Noses & Ears, Etc. (Part Four): One Altered Person with Two Paintings, 2007

Uma fotografia e uma pintura são a mesma coisa: informação visual. O que se pode ver nas minhas obras não é nem fotografia nem pintura, mas sim um híbrido.

John Baldessari, El País, 4.02.2008

John Baldessari

18 fevereiro, 2008

/uma fotografia, um nome\

Corpo Grego
(© Danilo Pavone)


Fotograficamente, aqui celebra-se o corte e a distorção. Mas, antes, no olhar total, celebra-se o corpo. Danilo Pavone, que se licenciou em Belas Artes em Bolonha, chama ao conjunto onde se insere esta imagem, “Corpo Grego”, lembrando talvez aquelas figurinhas de terracota que já encantaram Eça de Queirós, - couros e core que nos ensinaram mais sobre harmonia do que os módulos humanos da escultura grega clássica.

E então o fotógrafo distorceu a harmonia do corpo, cindiu-a em pedaços e, em segunda instância, dividiu o corpo horizontalmente. Porque se trata de uma opção fotográfica, que em si mesma encerra já esse momento fundamental, o “cut”. Porque é essa a lei da fotografia, que nos habituou a ver o mundo não em síntese, mas em fragmentos, com fora de campo inteligíveis, porque um dos papéis da arte é precisamente ser uma metáfora do entendimento.

O gesto do corte é uma forma de violência contra o espaço e o tempo que parecem constituir a nossa forma de estar no mundo. A imagem fotográfica instaura uma catástrofe no devir inevitável do tempo, interrompe, suspende o tempo e fracciona, isola, uma pequeníssima parte da extensão. O fotógrafo, insiste Philippe Dubois, trabalha sempre com a faca. Aqui, nesta imagem de Danilo Pavone, o tempo não tem qualquer arrimo, pois o fundo neutro não nos dá um só elemento simbólico que nos permita situá-la no tempo. E o tempo da tomada de vista morreu em si mesmo, escapou-se para lá dela um outro tempo de um fluir contínuo; a fotografia é sempre uma imagem singular.

Mas é uma fotografia refeita, performativa. Deixa-nos uma série de pistas: esta insistência no fraccionamento do homem que vivemos desde o “homem demolido”, dos anos sessenta, e se agrava comos novos fantasmas do virtual. E, também por isso mesmo, a força agónica da separação, da perda, onde, a mal, se recupera o corpo depois da falta. Há um traço demoníaco na diluição da orelha de fauno, no estreitamento do braço, no seio quase clonado no feminino, na reconstituição de mau laboratório. E nesse uso da faca digital que arrisca destruir a beleza clássica, transparente na codificação negada, impõe-se uma outra estética que se insinua na descodificação do belo como excesso de composição, abrindo o abismo da perversidade. A teoria fotográfica contemporânea inventou o jogo da clarificação: a fotografia é índice de qualquer coisa, não é a coisa; é presente eterno, é sempre pretérito, é a cinza que ficou de um teletransporte granulado. A fotografia é a brecha, bem o sabemos. Do pensar e do sentir.
E é, naturalmente, um olhar. Um olhar informado, que argumenta, que descarrega no corte do mundo, todo o invisível que a formação do fotógrafo assim revela. Clandestinas, seguem as contradições da alma que criam a diferença, nesta dobra mal sustentada que é a nossa vida: a fotografia é sempre um corte, a faca inteligível no abismo, acorda em nós a certeza de que todas as nossas convicções caminham no fio do arame.

Maria do Carmo Serén

Danilo Pavone (Catânia, 1971),
Foi fotógrafo militar do Exército italiano,
fez levantamentos fotográficos de Arqueologia,
é habilitado em conservação e restauro fotográfico.
Com fotografia de autor esteve na Arte Lisboa 2005 e 2006, no Centro Português
de Fotografia, em 2007, nas Bienais de V. N. de Cerveira e V. F. de Xira (1º Prémio em 2003).
Trabalha em Condeixa.

17 fevereiro, 2008

olhar de Johnny


Johnny Deep é um dos actores vivos que melhor sabe olhar para as câmaras. Este mês com a estreia de Sweeney Todd, o seu quinto filme com Tim Burton, inundou as capas das revistas de todo mundo. Esta fotografia que fez a primeira página da Esquire, versão espanhola, foi das que mais me impressionou.

15 fevereiro, 2008


entre aspas

(© Daniel Blaufuks)

445. Uma fotografia não necessita de ser um documento, pode ser uma canção. Não necessita de ser matéria, pode aspirar a ser orgânica.

Daniel Blaufuks, Setembro

13 fevereiro, 2008

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Robert Capa
(© Cornell Capa/Magnum Photos)

David Clifford chama-nos a atenção para esta história que já tem uns dias, mas é de ler e chorar por mais. Encontraram um dos Santos Graais da fotografia: a "mala mexicana" de Robert Capa com milhares de fotografias captadas durante a Guerra Civil de Espanha.

Está tudo contado no New York Times aqui.

Robert Capa
(© Cornell Capa/Magnum Photos)

11 fevereiro, 2008

+WPP

Platon para a Time, Vladimir Putin, Rússia
(1º Prémio na Categoria Retrato)

Não é de invejar nem um bocadinho a tarefa dos membros do júri que todos os anos elegem a fotografia vencedora do concurso World Press Photo. Deve ser angustiante. Escolher uma fotografia. A melhor. A que condensa numa superfície o máximo de emotividade, expressividade, dramatismo, rigor técnico, criatividade ou a mais simples feição de desespero, cansaço, aflição. Isolar uma fotografia. Torná-la só no meio da orgia das imagens. Tão-só como o soldado que ficou na objectiva do britânico Tim Hetherington, o grande vencedor da edição deste ano de um dos mais conceituados galardões de fotojornalismo do mundo.
Na verdade, este militar só não ficou para sempre sozinho nesta fotografia de Hetherington porque há um olhar fugaz que o liga a quem o vê. É pouco definida essa ligação, como pouco definida é a textura que chegou até nós. Mas é suficiente para o acompanharmos na sua solidão, para partilharmos o seu drama no atoleiro em que os Estados Unidos se meteram no Afeganistão. O soldado do 2º Batalhão Aerotransportado do Exército americano está sozinho e não está. Nós estamos com ele e a fotografia que o fixou está acompanhada por outras do mesmo autor que ganharam o 2º prémio na categoria de Notícias.

Tim Hetherington para a Vanity Fair
Não deixa de ser surpreendente que a imagem vencedora venha do Afeganistão que, a par do Iraque, foi um dos cenários mais recalcados visualmente dos últimos anos. Era difícil trazer dali um momento que contasse uma história diferente da que todos os dias nos entram pelos olhos dentro. Para o júri deste ano, Hetherington conseguiu-o. Não só com uma, mas várias fotografias feitas para um trabalho encomendado pela revista Vanity Fair.
Numa apreciação imediata nota-se uma presença assinalável do preto e branco na edição deste ano do concurso. E há alguns prémios para fotografias neste suporte em categorias onde não é tradicional o seu uso, como o Desporto (o caso da fotografia do português Miguel Barreira).
Na galeria de premiados salta também à vista o retrato de Vladimir Putin feito pela agência britânica Platon e que foi capa da revista Time na tradicional votação para a personalidade do ano. Putin tem um olhar gélido, implacável. Não é um simples retrato, claro. Revela bem a frieza com que nos habituámos a olhar para o Presidente russo. É um retrato psicológico, que tem de ser lido para lá da pele de Putin.
Os olhos e o olhar são muitas vezes importantes na fotografia. Dão-nos o contacto. Dão-nos a "química". Outras nem por isso. É preferível imaginá-los. Como quis que fizéssemos Ariana Lindquist com esta figura esbranquiçada de cara cortada, sem olhar, mas com glamour e muito mistério.

(P2, 09.02.2008)

Ariana Lindquist, rapariga mascarada de boneco animado, Xangai
(1º Prémio na Categoria Arte e Entertenimento)

10 fevereiro, 2008

dupla pose

Amélia Rey Colaço (1898-1990), s/d, Photographia Londres, Lisboa

Há dias alguém deixou em cima da minha mesa de trabalho um álbum de fotografias de antigas glórias do teatro português editado no final do ano passado. Parei mais tempo nestes dois retratos de dupla pose, de dupla actuação.

Rostos e poses
Museu Nacional do Teatro

Dezembro, 2007

Esther Leão (1897-1971), s/a, s/d

08 fevereiro, 2008

Miguel Barreira

Miguel Barreira, 3º prémio da categoria Desporto

Há 34 anos que um fotógrafo a trabalhar em Portugal não recebia um prémio do World Press Photo. Miguel Barreira, fotógrafo do jornal Record, quebrou o enguiço e conquistou um terceiro lugar na categoria de Desporto. O primeiro português a conseguir um reconhecimento semelhante foi Eduardo Gageiro, em 1974, com uma fotografia do general Spínola.
A jornalista do Público Online Ana Machado falou hoje com Miguel Barreira e o resultado dessa troca de impressões está aqui.
Para ver uma galeria com todas as imagens vencedoras clique aqui.

vencedora

Tim Hetherington para a Vanity Fair

Esta foi a fotografia que o júri do World Press Photo considerou a World Press Photo of the Year 2007. Foi captada pelo britânico Tim Hetherington no Afeganistão.

07 fevereiro, 2008

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Tragédia de Bhopal III, Bhopal, 1984
(© Raghu Rai)
»»Susana Ribeiro, de Coimbra, diz-nos que convém não perder as exposições de Raghu Rai (Retratos da Índia), em Madrid e em Barcelona. As mostras antológicas traçam o percurso do fotógrafo entre 1964 e 2007. Madrid ficou com as imagens a preto e branco e Barcelona com o fotografias a cores.
Em 1971, Henri Cartier-Bresson viu uma exposição de Ranghu Rai em Paris. Essas imagens ficaram-lhe na memória e em 1977 convidou Rai para se juntar à agência Magnum.

O jornal El Mundo dá-nos uma amostra do que podemos encontrar em Madrid e Barcelona aqui.

Nova Deli, 1988
(© Raghu Rai)

01 fevereiro, 2008

/uma fotografia, um nome\

The Diminishing Present
(© Edgar Martins)

Esta cultura que vivemos, onde se juntam a sociedade de massas e da multimédia a pecados velhos, despertou medos arquétipos e fez deles as banalidades que desfrutamos com comunitária ligeireza em filmes de Carpenter, Tim Burton, Cronenberg, Ridley Scott ou Wes Craven; permite-nos ainda aclimatarmo-nos a figuras de reconhecimento como qualquer Alien, a Matrix de Morpheus e Neo ou Constantine ou a renovados vampiros e mortos-vivos. Este tema de abominação paredes meias com o de contaminação é comum na Fotografia e em qualquer outra arte contemporânea, mas amalgama-se, como efeito perverso, com a inquietação solitária e o desespero miudinho que nos atravessam em lugares de estranheza.

A própria civilização mediática e electrónica vai criando os seus sítios estranhos, como os não-lugares da sobremodernidade de Marc Augé, que é tudo o que nos rodeia para nos fazer livres e felizes: as temíveis estações de metro fora de horas, os aparcamentos vazios com a sua aparelhagem expectante, as arriscadas caixas de multibanco, as indicações, a sinalética, os cartazes que nos dizem como conversar com os nossos fantasmas.

Outro efeito da ordenação da cultura mediática é o desprazer que nos causam as periferias. Temática de reflexão social e montra de desregulamento cívico, a periferia tem deficit de equipamentos básicos, desertifica-se nas horas de trabalho, é marcada pela incompletitude. É o sítio bárbaro por excelência, porque muito próximo e tentacular: não é já o arrabalde simpático e de lazer, mas um caos sorrateiro que cresce de fora contra a cidade.

Tornou-se, naturalmente, um tema fotográfico, mais, um tema da arte do visual, seja no conceptualismo, seja nos humanistas. A ideia de periferia mexe-se no espaço ético e a sobremodernidade.

Edgar Martins, que desenvolveu o seu mérito académico na Grã-Bretanha, assumiu este tema conceptualmente e acabou por desenvolver um tipo de olhar que nos remete tanto às concepções de Axel Hütte, como aos justos devaneios ecológicos e etnológico dos americanos New Topographics, nomeadamente na sua série Buracos Negros e Outras Inconsistências.

Esta fotografia pertence à série seguinte, The Diminishing Present, o que já diz tudo sobre a evolução do seu imaginário. Porque, afinal, esta paisagem molhada pelo nevoeiro, cabe no nosso museu imaginário fotográfico; estamos habituados a estes caminhos de bichos traçados no terreno, a um qualquer renque de árvores indecisas num horizonte qualquer, apesar da dimensão e da cor digitalizada, apesar do céu vazio que apontam a pós-modernidade. Mas aqui há qualquer coisa de novo e perturbador: pela geometria ajardinada das árvores? Pela opacidade do ar? Pela luz espectral?

A tentação é não relevar a imagem do referente natural que traz consigo, mas associá-la a outros lugares que conhecemos de filmes ou de vídeo-clips, já que se trata de um esvaziamento e de um não-tema. A informação que presta é obviamente conceptual, mas o todo, olhando-nos, afirma o que bem reconhecemos, a solidão, o incómodo da névoa, a humidade do chão, o corte com a transparência do futuro: o que está para lá no espaço e, necessariamente no tempo, e não vemos, não adivinhamos. E que a opacidade brumosa nos esconde. Edgar Martins não nos oferece uma paisagem, mas o padrão processual para a sintetizar. Tudo o que se mostra e o que se oculta, o que sabemos e o que sentimos perverte a informação. E inquieta, desestabiliza.

Maria do Carmo Serén

Edgar Martins (1977-), vive e trabalha, como fotógrafo e editor (The Moth House) na Grã-Bretanha, onde foi premiado (2003, 2005) e considerado “um dos mais influentes jovens artistas que usam o medium fotográfico”. Expõe habitualmente na China, Inglaterra e Portugal

31 janeiro, 2008

remexer


(© Daniel Blaufuks)

Daniel Blaufuks inaugurou na galeria Vera Cortês a sua primeira exposição depois de ter sido reconhecido com o Prémio BES Photo 2006. O conjunto de fotografias e instalações agora apresentado, intitulado O Arquivo, retoma os temas da memória, da apropriação e da efemeridade dos suportes. Em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor, o fotógrafo inaugurou Álbum, uma mostra com as mesmas propostas conceptuais, mas independente de O Arquivo.

450. Um arquivo não é uma colecção, porque um coleccionador escolhe e um arquivista não tem escolha possível.
[...]
493. Os críticos de arte e o público em geral têm dificuldade em compreender exposições de fotografia, cujo tema não seja facilmente reduzido a uma frase só: esta exposição é sobre esta zona, é sobre a auto-representação, é sobre este grupo de pessoas, é sobre esta indústria. A fotografia torna-se assim importante pela sua agenda e não pelo que possa representar ou inspirar.

Setembro, Daniel Blaufuks

Margarida Medeiros escreveu uma crítica à exposição O Arquivo no ípsilon que pode ser lida aqui.


(© Daniel Blaufuks)

O Arquivo
Vera Cortês Agência de Arte, Lisboa
Av. 24 de Julho, 54, 1º Esq.
Até 23 de Fevereiro

Álbum
Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
Avenida D. Afonso Henriques, 701
Até 6 de Abril

tornar vivo

John A. Coffer
(© Fred D. Conrad/The New York Times)

Andava a rever uns posts antigos ainda em estado de latência (draft) e encontrei esta reportagem do fotógrafo do New York Times Fred R. Conrad sobre John Coffer, um personagem que faz questão em viver à século XIX e que encontrou na ferrotipia (tintype) um modo de subsistência e uma forma de nos lembrar que os primitivos processos fotográficos ainda são executáveis e podem continuar vivos.
Conrad participou numa das sessões anuais gratuitas sobre ferrotipia (tintype) organizadas por Coffer e ficou apaixonado por este antigo suporte em que a emulsão é feita com colódio húmido sobre ferro.

Para ver mais fotografias de Fred R. Conrad tiradas durante esse "jamboree" clique aqui.
O artigo sobre John Coffer está aqui.

John A. Coffer na sua quinta, em Dundee, Nova Iorque
(© Fred D. Conrad/The New York Times)

30 janeiro, 2008

david vs david


O mercado da imagem publicitária anda sempre muito atento aos sinais e aos símbolos que marcam tendências, ao mínimo frou frou sobre esta ou aquela pose que ultrapassa a tentativa de nos vender alguma coisa e se instala na discussão pública ou na simples conversa de café. Não é fácil surpreender neste universo. E é por isso que, de vez em quando, as marcas espreitam por cima do ombro à procura de "inspiração" na concorrência. Como neste caso, onde, convenhamos, a cor da tanga de David Beckham não foi a única coisa copiada do anúncio que trouxe David Gandy para a ribalta.

28 janeiro, 2008

tornar comum

Alfred T. Palmer, balão, Parris Island, Maio de 1942
(No known restrictions on publication)

Metro (?), Bain News Service, entre 1910 e 1915
(No known restrictions on publication)

O flickr e a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos juntaram-se para um grande projecto, o Commons, que disponibiliza duas grandes colecções de fotografia histórica sobre as quais a biblioteca não possui propriedade intelectual. Ou seja, são imagens "sem restrições conhecidas de direitos de autor", que entraram no domínio público e podem ser utilizadas por qualquer pessoa ou instituição. A designação em inglês é no known copyright restrictions.
Os espólios agora publicados no flickr, um de fotografia a cores dos anos 30 e 40 (1615 imagens) e outro de fotografia a preto e branco dos anos 10 (1500 imagens), não estavam propriamente escondidos. A Biblioteca do Congresso, um das primeiras instituições públicas americanas a perceber a importância da Internet, já as tinha digitalizadas e prontas para serem apreciadas através do seu sítio. Mas esta parceria com o flickr dá outra visibilidade a estas duas colecções.
A ideia é que os utilizadores do popular portal de troca de imagens façam comentários e apontem pormenores que enriqueçam o valor histórico das fotografias e contribuam também para sua valorização enquanto objecto estético. Quem estiver registado no flickr pode, por exemplo, dar o seu contributo (tags) sobre o tipo de estampado da camisa da trabalhadora que aparece na fotografia aqui publicada. Para além destas informações, os internautas podem fazer simples comentários às imagens. Só esta já levava 70, da última vez que passei por lá.
A colecção de fotografias a cores engloba imagens tiradas por fotógrafos que trabalharam entre 1939 e 1944 para o projecto governamental encomendado pela Farm Security Administration (FSA), mais tarde Office of War Information (OWI), que pretendia captar os vários aspectos da vida social, as áreas rurais e a mobilização para a II Guerra Mundial nos EUA.
As imagens a preto e branco foram captadas por fotógrafos que trabalharam para o Bain News Service. Aqui há uma grande diversidade de temas entre os quais competições desportivas, retrato de celebridades, crime, desastres, actividade política e o quotidiano de Nova Iorque.
No lançamento deste projecto piloto, o flickr anunciou que pretende alargar este modelo de publicação a outras instituições culturais de todo o mundo que estejam interessadas em partilhar as suas colecções.

Para consultar, gravar ou comentar as imagens destes dois espólios clique aqui. Sirvam-se. Vale a pena.

David Bransby, trabalhadora da Vega Aircraft Corporation, Burbank, Califórnia, Junho de 1942
(No known restrictions on publication)


Germany Schaefer, Washington AL, Bain News Service, 1911
(No known restrictions on publication)

25 janeiro, 2008

conhecer lee

Lee Miller Wearing Yraide Sailcloth Overalls, 1930
(© George Hoyningen Huene)

A RTP2 passa hoje à noite, às 23h25, o documentário Lee Miller, the Mirror Crossing (1995, 55’), um filme de produção francesa sobre a vida e obra da fotógrafa e modelo americana. Miller (Poughkeepsie, 1907 – Sussex, 1977), que foi uma das musas de Man Ray, é-nos apresentada pelo seu filho David Scherman, também fotógrafo.

Posts relacionados: Lee

24 janeiro, 2008

matança à vista

(© Nelson Garrido)

O mais certo é que Nelson Garrido (fotografias) e Alexandra Lucas Coelho (texto) tenham ficado com frieiras nas orelhas e na ponta do nariz lá para cima, em Montalegre. Se foi assim, valeu bem a pena a coceira porque o trabalho que nos ofereceram na última edição da revista Pública é do melhor que temos visto no casamento da palavra escrita com a imagem fixa.

Para ver e ler a reportagem Abre o Porco clique aqui.

(© Nelson Garrido)

22 janeiro, 2008

premiar

José Luís Neto, Irgendwo

O fotógrafo José Luís Neto vai fazer parte do júri da primeira edição do Sony World Photography Awards, um concurso aberto à participação de “profissionais” e “amadores”. Entre o painel de jurados há vários fotógrafos de renome, editores, galeristas e críticos. Os trabalhos podem ser enviados até ao dia 31 de Janeiro e os vencedores serão conhecidos no dia 24 de Abril, em Cannes, França.
Os galardões estão distribuídos por várias categorias e haverá também um grande prémio individual, L`Iris d`Or Prize, para o melhor conjunto de fotografias.

Para concorrer ou saber mais sobre este novo prémio clique aqui.

21 janeiro, 2008

Simone agita

Simone de Beauvoir, Chicago, 1952
(© Art Shay)

Ooh la-la! Tem dado que falar em França a fotografia que o Nouvel Observateur estampou na primeira capa de 2008 por ocasião do centenário de Simone de Beauvoir. A escolha do Nouvel Obs recaiu sobre uma imagem captada por Art Shay (seu amante) que mostra a pensadora feminista nua, de costas e a arranjar o cabelo ao espelho de uma casa de banho. É Simone de Beauvoir, a escandalosa, diz a chamada de primeira.
Mal o rabo de Simone saltou para as bancas houve troca de galhardetes entre editorialistas e excitação total da blogosfera francesa. E não só: duas associações feministas (Choisir la Cause des Femmes - que foi fundada e presidida por Beauvoir - e Les Chiennes de Garde) manifestaram-se em frente à sede do Nouvel Obs exigindo um pedido de desculpas do director, Jean Daniel. O protesto condenou a utilização da nudez da escritora e pediu o mesmo tratamento para homens filósofos: “Queremos ver as nádegas de Sartre (...)!”.
Diz ao Le Monde a Choisir la Cause des Femmes, que cette photo, volée à son intimité, n'illustre en rien les écrits, la philosophie, le féminisme et la personnalité de Simone de Beauvoir. Elle choque à cet égard et démontre la volonté d'instrumentaliser à des fins purement commerciales le corps des femmes contrairement aux photos consacrées aux personnalités masculines.
Para além da polémica em torno da oportunidade da publicação desta fotografia discutem-se também os retoques digitais que foram dados à imagem.
Escreveu Daniel Schneidermann no Libération: Et pour la fête, la photo a même été retouchée. Maquillé, le cul de Beauvoir, pour lui faire perdre quelques kilos, quelques bourrelets, et le rajeunir de dix ans. Sortie du cadre, la cuvette des toilettes de la salle de bains. Estompés, le décor de salle de bains, le rouleau de papier toilette.(...) On n’a pas le droit de faire n’importe quoi avec une photo, simplement pour contenter voyeurs et rieurs.

O dossier do Nouvel Obs sobre o centenário de Simone Beauvoir está aqui.

O texto completo de Daniel Schneidermann está aqui.

Para ver uma galeria de fotografias de Art Shay clique aqui.

17 janeiro, 2008

Maria do Carmo Serén - aqui

O Arte Photographica abre hoje o seu espaço à pena de Maria do Carmo Serén, historiadora, investigadora e teórica da imagem fotográfica como não há muitas em Portugal.

Maria do Carmo esteve desde a primeira hora ligada a quase tudo o que se escreveu no Centro Português de Fotografia. Foi coordenadora do Departamento de Comunicação e Informação da mesma casa, onde dirigiu também a revista Ersatz, entretanto extinta. Escreveu vários livros de história da fotografia, especialmente relacionados com o Porto, mas tem também obra publicada na área da fotografia contemporânea. E, claro, são dela todos os textos de apresentação das exposições que vemos no CPF.

Maria do Carmo Serén orientou o meu trabalho de licenciatura na Escola Superior de Jornalismo do Porto sobre a Exposição Internacional de Fotografia, organizada no antigo Palácio de Cristal do Porto, em 1886. Lembro-me bem do dia em que foi discutida essa monografia de fim de curso. E da sua imensa descontracção. Passei com boa nota. Fomos comer uma francesinha à Foz e depois corei de vergonha, porque me ofereci para pagar o almoço e tinha o dinheiro mesmo à continha.

Foi sempre inspirador reencontrá-la na prosa apaixonada que foi deixando no papel. Agora, é um prazer reencontrá-la aqui. Uma fotografia, um nome é a rubrica que decidiu oferecer-nos. Terá um regularidade quinzenal, mais coisa menos coisa, e estes textos não impedirão que nos faça outras visitas com comentários sobre exposições ou outras reflexões afins.
Bem-vinda!


(© Mariano Piçarra)


/uma fotografia, um nome\

Porto:Mariano Piçarra

Eu gosto destas cidades-mistério, que se desagregam sob os nossos olhos distraídos, espaços-desastre como este, ferido e tão fraccionado como a Fotografia nos ensinou a ver. As brechas e os rasgões, o corte e as sombras alheias são o desiquilíbrio e a fragilidade do papel ou do píxel, da imagem e do seu inconsolável demiurgo que nos oferece, antes de tudo uma ausência, repautando o pecado capital da análise psiquiátrica.
A composição assegura-nos o fotógrafo vagabundo, flanando pelo labirinto que a cidade ocidental nunca deixou de ser. E acreditando, acreditando ainda, que esse corpo urbano sempre em transformação, pode revelar as pulsões que sublima e não sublima, os seus segredos.
E, porque é a imagem da cidade, também mostra a erosão que a corrói, o desleixo que a mutila, a memória da falta e do absoluto – esse apontamento estético e perturbador de um marketing qualquer.
E, é evidente, a opacidade.
Porque o céu é uma esquadria geométrica, o horizonte, uma sucessão e volumes úteis, porque o ar serpenteia entre micro-climas urbanos; porque a câmara também espartilha e determina o enquadramento do que vemos. Não há leitura transparente, cada esquina é uma desconstrucção que recusa a síntese.
A cidade transporta consigo, como a imagem fotográfica, a perversidade de simular o mundo. Por isso a estranheza, a insegurança, o conviver do puro-impuro, do bem e do mal, o labirinto que recria, o mal de vivre. Um olhar light, muito contemporâneo, vê nela a infracção de todos os conceitos da novíssima Ecologia. Mariano Piçarra junta aí a sabedoria da Natureza como mestra, que contraria a Gnose moderna da impureza do Mundo. O cartaz, que habita a composição como senhor-da-casa, num preto e branco da memória fraca mas lúcida, transfigura o cenário de fim dos tempos. Reconhecemos a pose de sedução que o jovem copia de um manual de fotografia de moda, mas o erotismo perde-se na direcção do olhar; não nos olha, apenas nos seduz em segunda-mão.
É um faz-de-conta eficaz, como os contos de fadas, de aliens e das imagens fotográficas. E assim seguimos a simulação errática dos diversos planos que o afastamento do cartaz do muro que o sustenta, nos define: as sombras que se refractam na ondulação do pano e seguem constituindo veredas e caminhos na cartografia da parede, que se desloca para uma versão de perspectiva triangular.
Mariano Piçarra, com a câmara e o imaginário, reconstrói a aparência das coisas, dá-nos a inquietação de um reconhecimento nas formas que apenas se inscrevem, muito nítidas, sem jogos de luz e sombra, porque tudo se concentra num olhar desviado.
Já conhecíamos isto tudo em fotografias suas: as texturas que recriam mundos, volumes que fabricam teoremas, disposições que falam de ensaios-e-erros do nosso modo de ver, do nosso modo de sentir.
O muito que cabe numa imagem fotográfica.

Maria do Carmo Serén

Mariano Piçarra (1960-)
Designer da Fundação Calouste Gulbenkian,
professor de design na Fac. Belas Artes de Lisboa,
Professor de Museografia, fotógrafo
Expõe individualmente desde 1983

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A carícia
(© Giovanni Marrozzini)

Esta imagem do italiano Giovanni Marrozzini sobre a cegueira infantil na Etiópia venceu o prémio internacional de fotografia Luis Valtueña, concedido pela secção espanhola da organização Médicos do Mundo. Marrozzini vai receber uma bolsa de 8000 mil euros para fotografar projectos da ONG.
O segundo prémio foi atribuido a Abir Abdullah, do Bangladesh, que concorreu com um portfolio sobre sobreviventes de ataques com ácido. O mexicano Daniel Aguillar arrecadou o terceiro lugar com imagens sobre a revolta popular de Oaxaca. Katy Gómez recebeu o prémio especial Imigração e Direitos Humanos na Europa com um trabalho sobre imigrantes ilegais em Espanha que vivem em situação de exclusão social.
As 29 imagens finalistas vão ser mostradas numa exposição itinerante que vai andar por várias cidades espanholas. O viagem já começou em Sevilha (Las Naves del Barranco, Arjona, 28).

Para saber mais sobre o prémio Luis Valtueña clique aqui.
Para ver um slideshow com mais imagens de Marrozzini clique aqui.


(© Abir Abdullah)

15 janeiro, 2008

 juntos

Fotografia de estúdio do início do século XX
(© colecção particular)

Foram eleitos no domingo os órgãos sociais da Associação Portuguesa de Photographia (APPh), associação da qual fui um dos fundadores e da qual faço parte.

A estrutura da APPh ficou distribuida assim:

Direcção
»»presidente: António Barreto (sociólogo, coleccionador, fotógrafo)
»»vice-presidente: Vitória Mesquita (chefe da Divisão Documental Fotográfica do Instituto Português de Museus)
»»secretário-geral: Ângela Camila Castelo-Branco (documentalista da RTP, coleccionadora)

Assembleia-Geral
»»presidente: José Pessoa (funcionário da Divisão Documental Fotográfica do Instituto Português de Museus)
»»vice-presidente: Alexandre Ramires (professor, coleccionador, investigador)
»»secretário: António Faria (coleccionador)

Conselho Fiscal
»»presidente: João Clode (médico, coleccionador)
»»vice-presidente: Madalena Lello (gestora, divulgadora)
»»vogal: Carlos M. Fernandes (professor, fotógrafo)

António Pedro Vicente (historiador, professor e investigador) e João Loureiro (jurista) são os restantes sócios-fundadores.
Os primeiros projectos a realizar pela APPh estão ainda em plena ebulição, mas aqui fica parte da letra aprovada nos estatutos que pretende muitas coisas, menos ser letra morta:

Art. 2.º
A APPh., sem propósitos de especulação comercial nem fins lucrativos, tem como objectivos o estudo histórico e o progresso científico e artístico da fotografia nas suas implicações técnicas, históricas e sociológicas e aplicações científicas e artísticas, designadamente:

a) A investigação sociológica e histórica da imagem fotográfica; a memória fotográfica e a sua preservação, tendo também em conta as novas tecnologias (digitais) e o que tal implica; a aplicação de métodos de inventariação e catalogação com base nas ciências documentais; a investigação estética e artística inclusivamente na fotografia contemporânea.

b) Contribuir para o esclarecimento da importância da fotografia na memória colectiva, nomeadamente a sua componente sociológica e o seu lugar nas ciências documentais.

c) Dignificar o património fotográfico nacional, apoiando iniciativas com o mesmo fim e combatendo energicamente as arbitrariedades, o desleixo e o abandono do património fotográfico nacional.

d) Estimular organização de uma biblioteca e centro de documentação que se proponha a execução de biografias e a recolha de documentação actual dos agentes da fotografia em Portugal (fotógrafos, investigadores, historiadores, etc.), com preocupações futuras.

e) Organizar exposições, cursos, conferências, colóquios e consultoria.

f) Contribuir para o fomento do ensino da fotografia em todos os níveis e graus de ensino.

Da série Sob a Pele, 1996-2007
(© Valter Vinagre)

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s/d, s/l
(© Rodrigo Amado)

Close/Closer é a primeira exposição de Rodrigo Amado, músico de jazz contemporâneo e crítico do Público que abraça agora outro percurso artístico na área da criação fotográfica. Amado já fotografa há algum tempo (todos fotografamos), mas só em 2006, depois de um workshop na [Kgaleria], decidiu procurar um fio condutor, uma orientação que lhe permitisse isolar ideias, conceitos e projectos como o que está agora nas paredes do 43A da Rua da Vinha. Para este trabalho de refinamento conceptual e para evitar as “armadilhas” da imagem, Rodrigo Amado procurou a ajuda de outro fotógrafo, António Júlio Duarte, com quem, ao longo dos últimos dois anos, aprendeu a dar corpo a uma estrutura narrativa pela fotografia.
O estofo que acumulou a concretizar ideias no campo da música e porque acredita na transversalidade desse exercício metodológico nos vários campos de criação artística deram-lhe confiança para dar o passo fundamental - mostrar publicamente o seu trabalho.
Entre as centenas de fotografias que estiveram no primeiro grupo, os dois fotógrafos chegaram até um pequeno conjunto de imagens onde se revela um universo íntimo, intimista e ambíguo, porque nela se decidiu expor a proximidade do que nos é distante. É uma aposta arriscada que está ali mesmo na fronteira do registo fotográfico lúdico-familiar e que tem de ser tratada, pensada e editada com pinças para não cair na banalidade pura e simples.
Nestas figuras dispersas de Close/Closer Amado conseguiu fugir ao que era mais fácil obter, escapou a uma “armadilha” – a confiança mansa de quem se dá à objectiva de um grande amigo, de um velho conhecido ou de um familiar que está perto, muito perto. Nesta proximidade fingida conseguimos encontrar o registo de expressões que, sem dramas excessivos ou grandes piruetas, nos dão a dose certa de emotividade.
Por outro lado, perante estas imagens ficamos num limbo - que é sempre incómodo - porque somos convidados a participar e a estar “dentro” de momentos que, nitidamente, não nos pertencem. Agrada-me esta pequena provocação. É corajosa e deixa-nos com vontade de perceber para onde se dirige agora este olhar de quem acredita que o “acto de fotografar aproxima as pessoas”.

Para saber mais sobre o trabalho de Rodrigo Amado clique aqui.

Close/Closer, de Rodrigo Amado
[Kgaleria], Rua da Vinha, 43A
Bairro Alto, Lisboa
Até 26 de Janeiro

s/d, s/l
(© Rodrigo Amado)

11 janeiro, 2008

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Imagem da exposição de 2005, Diane Arbus Revelations, organizada pelo Met, de Nova Iorque
(© The Metropolitan Museum of Art)

É uma doação com um valor que nem os peritos conseguem avaliar. No final do ano passado, as filhas de Diane Arbus, Amy e Doon, depositaram no Metropolitan Museum of Art (Met) de Nova Iorque todo o arquivo pessoal da fotógrafa. É um espólio essencial para se perceber melhor o que foi a vida e como se construiu obra de uma das mais marcantes artistas da segunda metade do século XX. Foi a partir destes documentos que, há dois anos, o Met apresentou uma grande retrospectiva do trabalho de Arbus que juntou as imagens que lhe deram fama com objectos e documentos do seu dia-a-dia. Agora, parte do que foi exposto por empréstimo transformou-se em legado público, pronto para ser conservado, classificado, organizado e disponibilizado a quem quiser ficar mais próximo de Diane Arbus. São centenas de fotografias dos primeiros passos na fotografia, notas pessoais, equipamento fotográfico, livros, diários, correspondência, fotografias de estúdio e da família, negativos e provas de contacto de cerca de 7500 rolos de película.
A mesmo tempo que recebe esta doação, o Met resolveu comprar à Fraenkel Gallery, de São Francisco, 20 importantes fotografias de Diane Arbus, que se suicidou em Julho de 1971, contava 48 anos. A instituição não quis revelar o preço da compra, mas os especialistas apontam um valor que pode rondar os 5 milhões de dólares. Jeff Rosenheim, curador do departamento de fotografia do Met, prevê um grande sucesso do futuro Diane Arbus Archive. Estas fotografias [de Diane Arbus] fornecem mais perguntas do que respostas, disse ao International Herald Tribune. Quando olhamos para elas, quase nos sentimos a interagir simultaneamente com o sujeito fotografado e com o fotógrafo. Ficamos numa posição em que existe uma enorme partilha de intimidade.

10 janeiro, 2008

Eve

Richard Burton e Elizabeth Taylor num bar durante a rodagem de Becket, Shepperton, Inglaterra, 1963
Eve Arnold/Magnum Photos)

A Magnum está a comemorar o seu 60º aniversário. Uma das iniciativas que marca a efeméride da maior agência de fotojornalismo do mundo passa pela publicação do livro Magnum, Magnum, onde estão representados 69 fotógrafos da cooperativa. As 6 imagens de cada um foram seleccionadas e comentadas por outro membro da agência.

Elliott Erwitt escreveu sobre Eve Arnold. O texto é este:

If you were asked to conjure up a seasoned journalist-photographer who has travelled extensively, worked in the most difficult and remote parts of our globe, managed to penetrate and be accepted in exotic cultures at one time, and then average or even banal, familiar ones right afterward, all the while observing and recording with great heart and sympathy the manifestations of our human condition, you would surely come up with the legendary Eve Arnold ... a very big person in a very compact package.

Eve Arnold is the quintessential journalist. Or better, she is what the quintessential photojournalist should be. That is, a curious, visual person, the inconspicuous fly on the wall observing situations without participating in them or attracting attention, opinionated but not judgmental.

I have known Eve as a suburban wife and doting mother in the Long Island exurbs fifty miles from New York City, where she lived years ago, and as a literary person and author of many fine works, now based in her sublime, book-lined London apartment. But I know her especially as the intrepid, highly energetic photographer and colleague, producing picture story after picture story, and picture book after picture book, and as a pillar of our Magnum Photos cooperative. In all of Eve's work, as with her person, the special ability has been getting close to her subjects - often becoming a trusted friend, regardless of their caste or fame, while always maintaining the dignity that permeates her character.

Eve Arnold's legacy is as varied as it is fascinating. It is hard to fathom how one person's work can be so diverse. It covers the humblest to the most exalted, the meanest to the kindest, and everything in between. The subjects are all there in Eve Arnold's photographs and they are treated with intelligence, consideration and sympathy. Most important is Eve's ability to visually communicate her concerns directly, without fanfare or pretence, in the best humanistic tradition.

Elliott Erwitt

09 janeiro, 2008

desnorte à vista?

(© Paulo Ricca/Público)

Está a demorar mais do que é desejável o lançamento do concurso público para a direcção do Centro Português de Fotografia. Esta semana, Natália Gravato, até aqui directora interina, desde a saída de Tereza Siza em Abril do ano passado, abandonou o cargo para regressar ao seu lugar de jurista na CCDR-N. Inês Rodrigues, gestora de recursos humanos do CPF, passa agora a assumir a direcção interina da instituição.
É no mínimo lamentável assistir a este desnorte do principal organismo de fotografia do país. Até aqui, este "Deus dará" até não se tem notado muito porque a antiga directora assegurou um calendário de exposições a longo prazo.
Quanto tempo mais durará a deriva?

 
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