22 novembro, 2007

à venda 4

Fernando Pessoa no Chiado com o jornalista Ferreira Gomes, K - lda (Studio) Portugal

Já tem data marcada o próximo leilão de fotografia da Potássio Quatro: 6 de Dezembro.

Os lotes que vão à praça podem ser vistos aqui.

lembrar a beat

Project On the Road: Remembering Kerouac
(© João Paulo Serafim)

Inspirados nas deambulações pelo alcatrão e pela terra batida da beat generation um grupo de 13 artistas portugueses de várias áreas juntou-se para dar expressão ao Project On the Road: Remembering Kerouac.
A ideia surgiu num encontro a propósito dos 50 anos da publicação da obra seminal de Jack Kerouac, On the Road, no dia 5 de Setembro. Cada autor contribuiu com “a sua leitura sobre o livro, o universo de Kerouac e/ou de toda a beat generation, deixando em aberto possíveis leituras para outras zonas da criação”.
André Almeida e Sousa, Bruno Sequeira, Eduardo Salavisa, João Grama, João Paulo Serafim, José António Leitão, José Pedro Cortes, Margarida Gouveia, Manuel Duarte, Mariana Viegas, Martim Dias Ramos, Paulo Brighenti, Paulo Pascoal formam o conjunto que decidiu não deixar passar em claro a efeméride de On the Road. Na fotografia, há vários trabalhos.
Para além da exposição estão a decorrer um ciclo de cinema na Cinemateca (Road Movie, até 30 de Novembro) e leituras de textos da beat generation no espaço da exposição. No dia 1 de Dezembro, Tó Trips (Dead Combo) dá um concerto de encerramento.

Project On the Road: Remembering Kerouac
(© Mariana Viegas)

Project On the Road: Remembering Kerouac
Avenida da Liberdade, n.º 211, 2º Andar, Lisboa
Até 1 de Dezembro

21 novembro, 2007


entre aspas

Ian Curtis, Anton Corbijn
(© Anton Corbijn)

Comecei a fotografar sem saber nada sobre fotografia e isso não significava que não me conseguisse expressar através dela. Só não sabia onde a enquadrar

Anton Corbijn, Público, 16.11.2007

Anton Corbijn, A. Curtis, autoretrato
(© Anton Corbijn)

20 novembro, 2007

mais Parr

Autoretrato, Martin Parr
(Martin Parr © Magnum Photos)

Ufff... Estava a ver que não! Foi uma tarefa um tanto ao quanto complicada fazer upload deste registo vídeo. O tamanho e, em consequência, o peso do ficheiro não ajuduram muito. Ainda tentei alojar o documento aqui no blogger, mas não funcionou. Gritei então pela ajuda dos servidores do Público para que a coisa funcionasse.
Um grande obrigado à Joana, à Sandra e ao Alexandre pela ajuda na edição da gravação e por terem disfarçado tão bem a minha mediocridade enquanto operador de imagem. Um abraço também ao Mário e ao Hugo por me aturarem com uma paciência infinita nas questões técnicas da coisa.
Não vale a pena sequer falar da maneira tosca como está registada a conferência de Parr (isto é mais difícil do que eu pensava), mas acho que o documento vale sobretudo pelo que é dito, mais do que pela forma como isso é transmitido.

Para ver a conferência de Martin Parr em Lisboa clique aqui.

19 novembro, 2007

*À conversa com...

...Martin Parr

Supermercado Auchan, Calais, França, da série One Day Trip, 1988
(Martin Parr © Magnum Photos)

Eu sou parte do problema e você também

(P2, 20.11.2007)

De vez em quando, Martin Parr gosta de surpreender. De vez em quando o fotógrafo da Magnum gosta de saltar fora do slideshow rotineiro, da muito british camisa aos quadradinhos e deslizar para o puro entretenimento. Basta provocá-lo. Ainda este ano, nos Encontros de Fotografia de Arles, em França, Parr protagonizou um dos momentos do festival quando, depois da conferência, alguém lhe pediu para posar em tronco nu, tal qual o autoretrato digital em que aparece num corpo musculado que – nota-se logo – não é o seu. A pelica esbranquiçada ao léu provocou a gargalhada geral, o fotógrafo inglês incluído.
Durante a apresentação do seu trabalho na ArteLisboa, na semana passada, a convite da Fundação Carmona e Costa, Martin Parr, 55 anos, não foi assim tão espontâneo, mas surpreendeu uma sala meio vazia que muitas vezes não conteve o riso perante as imagens projectadas. E isso, na obra de Parr, pode ser um bom sinal. Porque é pelo humor, a par da sedução e do excesso, que nos mostra os rituais sociais de massa, a forma como vive o Ocidente e a forma como gostamos de nos mostrar aos outros.
Este inglês de ironia refinada não está interessado em denunciar o “lado pobre” e a miséria em que está atolada uma parte do mundo. Prefere fazer a crítica mordaz ao “lado rico”, ao “Ocidente saudável” e à “vida espampanante do século XXI”.
Encontrámo-nos num hotel do Parque das Nações, em Lisboa, às 8h em ponto. Martin queria aproveitar o resto da manhã para saber mais acerca dos livros de fotografia publicados durante a ditadura salazarista, um dos temas que tem movido a sua curiosidade ultimamente.

Por que é que decidiu incluir Lisboa, Cidade Triste e Alegre na sua história dos livros de fotografia? Como é que o livro lhe chegou às mãos?
Inclui-o porque é um livro maravilhoso. Chegou até mim pelo Rui Prata [organizador dos Encontros da Imagem de Braga], uma pessoa que conheço em Portugal há mais de 20 anos. O Rui falou-me deste livro, descobriu uma cópia e deu-ma. E claro, foi muito fácil inclui-lo.

Houve mais algum livro português na short-list?
Não, basicamente olhei para alguns livros de fotografia contemporânea mas nada me despertou a atenção, não houve nada de extraordinário. A fotografia portuguesa é interessante mas tem sido muito convencional. Nos últimos anos tem mudado, mas acho que tem sido dominada por uma maneira antiquada de fotografar. Mas uma coisa é ser um bom fotógrafo, outra é fazer um bom livro de fotografia.

Conhece o trabalho dos fotógrafos portugueses?
Não, não posso dizer que conheça muita coisa. Conheço o trabalho do [Paulo] Nozolino, que é mundialmente conhecido, mas também não sou muito bom a lembrar-me dos nomes. Ando por 50 países e vou tentando perceber alguma coisa da cultura fotográfica desses países. Portugal faz parte de uma cultura fotográfica europeia.
Não pretendo ser um perito em História da Fotografia, mas fico surpreendido com algumas coisas. Por exemplo, não conhecia, até muito recentemente, os livros [portugueses] de propaganda fascista dos anos 30 e 40. São livros muito, muito fortes.

Diz que os livros de fotografia são uma das suas grandes obsessões. Até que ponto prefere ter um livro de fotografia nas mãos do que ir ver essas imagens numa exposição?
Continuo a gostar de exposições, mas através dos livros conseguimos viajar e confirmar como as fotografias são fortes. É uma experiência total, uma forma de ver o trabalho no seu conjunto. É uma forma extraordinária de ver fotografia. Claro que gosto de ver exposições, mas se tivesse que escolher entre uma e outra coisa escolhia os livros.

Não resisto à tentação de lhe perguntar, como autor de uma história dos livros de fotografia: se tivesse que salvar um livro de fotografia de um cataclismo mundial qual salvaria?
Meu Deus! Quer dizer o melhor livro do mundo? Mas, refere-se aos meus livros ou aos de outros autores?

Aos de outros...
É difícil. Talvez um livro de Daido Moriyama [fotógrafo japonês] que tem obras fantásticas.

E um dos seus...
Não consigo responder.

Os suportes digitais da imagem, como os telemóveis, iPods e a Internet, podem matar o livro de fotografia ou transformá-lo num objecto de luxo?
Não, de todo. O que se está a passar é que cada vez mais pessoas estão a ver e a partilhar fotografia através de ferramentas como o Flickr, telemóveis, jornalismo participativo... A cada ano que passa a fotografia está a ficar maior, e isso significa que vai haver mais livros de fotografia.
Hoje há mais livros de fotografia a serem publicados do que alguma vez foram. Por causa da Internet, de ano para ano, a audiência da fotografia está a ficar cada vez maior. E isto são boas notícias para a edição de livros de fotografia.

Entraram recentemente mais três fotógrafos para a Magnum: Alessandra Sanguinetti, Jacob Aue Sobol e Mikhael Subotzky. Participou no processo de escolha? Que conselho daria a alguém que quer mandar um portfolio para a agência?
Estive envolvido nessa escolha. Já os conhecia antes. São todos grandes fotógrafos que precisamos ter a bordo para ajudar a Magnum a sobreviver.
Que conselho daria? Que nos enviem alguma coisa forte. Mas isso não é uma coisa fácil de fazer. A maioria dos fotógrafos copia o trabalho que os outros estão a fazer. E isto acontece em Portugal, na Inglaterra, na América, acontece em todo o mundo. Conseguimos perceber bem as influências nos trabalhos das pessoas. É muito difícil encontrar identidade no trabalho de um fotógrafo.

A Magnum é uma das poucas grandes agências que não pertence a um grande grupo de media. Continua a fazer sentido a lógica cooperativista em que assenta o seu funcionamento?
Muito, faz muito sentido. A ideia de ter um grupo de pessoas a gerir o seu próprio trabalho, a sua própria estrutura, é mais apelativa agora do que alguma vez foi. Com o domínio da Corbis [que pertence a Bill Gates] e da Getty [grupo que controla sete empresas da área], precisamos da voz única de indivíduos e de uma agência independente que não seja controlada por mais ninguém.

Qual foi a última fotografia que tirou?
Foi na semana passada em Tenerife durante uma campanha de publicidade... Não, não! Depois disso fiz outra coisa para um trabalho pessoal. Estava na América e durante um dia tive tempo para fotografar para mim. Foi o último trabalho que fiz.

(Martin Parr © Magnum Photos)

As imagens que procura estão normalmente associadas a rituais sociais de massa ligados ao consumismo. Usa a fotografia como uma crítica a essa voragem despesista?
Muitas vezes é uma crítica à sociedade, mas não é só isso, porque também me estou a criticar a mim. O mundo tem muito dinheiro a rodar e ultimamtente isso tem sido um grande problema. Eu sou parte do problema e você também. Você pode não pensar muito nisso, faz parte do Ocidente saudável. E todas as pessoas que vão ler isto também são parte do problema.
Está toda a gente a dizer que a culpa é dos outros, mas o que é certo é que a culpa é nossa. Mas ninguém vai abandonar o estilo de vida espampanante do século XXI. Estamos a caminho do fim, porque o mundo não consegue sustentar este tipo de crescimento. E já que vamos por aí abaixo, ao menos que o façamos de uma forma divertida. A gastar todo o dinheiro possível.
Este centro comercial que há aqui em frente [aponta para o Centro Comercial Vasco da Gama] é uma coisa de doidos. Ontem à noite fui lá e mal me podia mexer. É suposto Portugal ser um dos países mais pobres da Europa, mas olhamos à nossa volta e só vemos carros.

O uso que faz do flash faz pensar numa caneta de feltro fluorescente a sublinhar um texto. É mais complicado trabalhar assim, com um instrumento que sublinha a realidade?
Uso flash porque torna a fotografia mais forte, realça a cor. Não quero dar nenhum tipo de pôr-do-sol sentimentalista. Procuro apenas cores claras e objectivas.

É só um apoio técnico?
Sim, se lhe quiser chamar assim.

Ultimamente tem-se interessado pela realização cinematográfica. Sente-se mais entusiasmado hoje com a imagem em movimento?
Gostava de fazer mais filmes, mas é muito difícil encontrar tempo e todas as condições técnicas necessárias. Há sempre muitas coisas para fazer.

No seu site conta que foi um avô que lhe deu os primeiros empurrões para a fotografia. Que género de imagens fazia ele? O trabalho que faz hoje tem alguma relação com esse antepassado?
Não, não propriamente. O trabalho que ele fazia era muito pictoralista e eu não sou nada pictoralista. Sempre respeitei muito o facto de ter sido ele a iniciar-me na fotografia, mas apenas nesse sentido.

Tem também uma paixão por “postais chatos” de vários países. Comprou algum “postal chato” durante a estadia em Portugal?
Os que tenho de Portugal são postais com motivos religiosos que mostram casais e famílias. Comprei-os há uns 20 anos. Provavelmente já nem se fazem. Desta vez não comprei nada, não tive tempo.

O que é que o move na fotografia?
É o suporte com o qual me sinto mais confortável, com o qual consigo transmitir ideias. Através da fotografia, consigo exprimir-me.

Nota: um problema técnico impediu que o vídeo com a conferência de Martin Parr em Lisboa fosse disponibilizado hoje de manhã. Conto lançá-lo ao longo do dia de hoje.

gente

Vimaranenses, Miguel Oliveira
(© Miguel Oliveira)

Vimaranenses é uma tentativa de tirar uma radiografia social actual às gentes que habitam a cidade e que fazem dela um corpo vivo e dinâmico. A exposição faz parte o lançamento do projecto Cadernos da Imagem que junta o Cineclube de Guimarães e o Museu de Alberto Sampaio. Com esta e outras mostras prometidas querem mostrar-se “imagens de Guimarães, da sua gente, da sua paisagem, do seu património construído, da sua actividade comercial e industrial”, para reflectir “sobre diversos traços caracterizadores de uma identidade da cidade neste início de século”.
No Museu de Alberto Sampaio há fotografias de Carlos Mesquita, Eduardo Brito, Miguel Oliveira, Pedro Almeida e Ricardo Rodrigues.

Vimaranenses, Ricardo Rodrigues
(© Ricardo Rodrigues)


VI
MA
RA
NEN
SES.

Museu de Alberto Sampaio
Rua de Alfredo Guimarães
4800-407 Guimarães
Tel.: 253423910
Até 26 de Novembro

para Barcelona

Annika Von Hausswolff, Untitled, 2003
( Annika Von Hausswolff © Cortesia Andréhn-Schiptjanko, Stockholm)

O conjunto de 60 fotografias que a Fundação Foto Colectania apresenta actualmente em Barcelona é apenas uma pequena parte da vasta Colecção H+F pertencente ao holandês Han Nefkens. O artista catalão Ignasi Aballí foi chamado para escolher fotografias deste espólio e chamou à exposição As Partes e o Todo, uma referência “à dualidade entre visões fragmentadas sobre a realidade e visões que pretendem mostrar esta realidade desde um ponto de vista mais global”.

Atraem-me as imagens que não são evidentes à primeira vista, que deixam um espaço para a interpretação na nossa mente, para completá-las

Han Nefkens

Las partes y el todo, Colección H+F
Fundació Foto Colectania
Julián Romea, 6 D2 – 08006 Barcelona
Tel.: 93 217 16 26
De seg. a sáb., das 11h00 às 14h e das 17 às 20h30
Entrada gratuita
Até 26 de Abril de 2008

18 novembro, 2007

 fotografiafalada


Teatro Sá da Bandeira
(© Inês d`Orey)
O Sá da Bandeira é um teatro do Porto que ainda não foi transformado numa coisa horrível, como muitos sítios estão a ser transformados no Porto. Está meio decandente. Eu sei que vão fazer obras e por isso fiquei mesmo contente por ter conseguido fotografar antes da mudança acontecer. Tenho alguma nostalgia dos espaços, principalmente dos cafés que estão a perder-se.

(Inês d`Orey)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

16 novembro, 2007

::crítica::

Lisboa, Vladimir Grevi
(© Vladimir Grevi)

Europa por um canudo

(Ípsilon, 16.11.2007)

Se é esta a visão que os fotógrafos russos têm da Europa, é uma visão muito pobre e redutora. O desafio lançado pelo Museu da Casa da Fotografia de Moscovo a treze fotógrafos russos era que partissem à descoberta de uma parte do Velho Continente que esteve longe do seu olhar durante muito tempo e que, através da sua objectiva, dessem uma imagem sobre o que é este espaço geográfico que hoje lhe morde os calcanhares. Convidaram-se então artistas de diferentes gerações que se lançaram na tarefa de dar um corpo imagético a este puzzle cultural, social e geográfico em que assenta a realidade europeia Ocidental.
O resultado geral é pífio e, salvo um ou outro portfolio no meio de mais de uma centena de fotografias, não há uma proposta mais ousada, um ângulo desconhecido ou um olhar com o qual nos sintamos minimamente afectados, que nos estremeça. Não sentimos quase nada. Ou melhor, o que sentimos é vontade de ir embora quando a exposição ainda nem vai a meio.
Sobram os lugares-comuns, os clichés turísticos, os geometrismos académicos as silhuetas recortadas e até algumas fotografias em que duvidamos se não terá sido um engano a sua selecção, como é o caso de algumas imagens sobre Portugal (Vladimir Grevi), talvez as piores de toda a mostra.
No meio de tanta banalidade, salvam-se as propostas a preto e branco de Vladimir Mishukov e de Igor Mukin, ambas sobre Paris, que ainda assim conseguem fugir do facilitismo com que se pode fotografar a capital francesa. Quer um quer outro, conseguem apanhar com alguma sensibilidade as ruas e os rostos das pessoas que lhe dão vida.
Para lá do deserto de ideias no que nos é mostrado, e da sensação de déjà vu que sentimos ao percorrer estas fotografias, existe uma concentração excessiva de trabalhos nas grandes cidades (Paris, Roma, Veneza, Londres), como se não existisse nada à sua volta.
Esta Europa é uma Europa vista por um canudo com um buraco muito, mas muito estreitinho.

14 novembro, 2007

Soth

Do livro Dog Days Bogotá, 2007
(Alec Soth © Magnum Photos)

Vale a pena ler a entrevista a Alec Soth publicada no blog da Magnum. Entre outras coisas, Alec fala da sua mais recente exposição, Dog Days Bogotá, um relato intimista dos dois meses que o fotógrafo passou com a sua mulher na Colômbia à espera do fim de todos os trâmites legais para a adopção de uma criança.

A entrevista pode ser lida aqui.

Dussaud no Porto

Georges Dussaud no Porto
(Adriano Miranda © Público)

Sérgio C. Andrade acompanhou Georges Dussaud na sua última viagem fotográfica ao Porto. O relato dessa deriva exploratória pela cidade, onde o jornalista do Público acabou por se sentir mais guiado do que guia, foi contada no P2 de sábado. A acompanhar o texto, foi publicado um portfolio onde Dussaud comenta as suas fotografias mais recentes.

Para ler a reportagem clique aqui.

12 novembro, 2007

 fotografiafalada


Silo-auto
(© Inês d`Orey)

Neste dia decidi fotografar não o parque de estacionamento mas um salão de baile que existe no último piso e que é surreal. Chama-se “Bate o pé”. Consegui entrar, mas acabei por não usar nenhuma fotografia, porque achei que não tinham ficado bem e apareciam muitas pessoas. À medida que fui descendo fui fotografando o parque de estacionamento que acho muito bonito.

(Inês d`Orey)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

11 novembro, 2007

Parr em Lisboa


O fotógrafo britânico Martin Parr, membro da agência Magnum e um dos nomes mais badalados da fotografia contemporânea, dá hoje uma conferência sobre o seu trabalho e a investigação que tem dedicado aos livros de fotografia. O encontro está marcado para as 16h30, na ArteLisboa, no Parque das Nações.

Adenda: Nem de propósito! Este retrato de Parr que escolhi por acaso foi tirado em Portugal num estúdio de fotografia onde coloriam as imagens à mão. O fotógrafo inglês adora esta técnica e diz que quer tirar mais um retrato assim. Parece que já encontrou o lugar e tudo...

10 novembro, 2007

Magnum, Magnum

Alex Majoli, Daria, Itália, 2005
(Alex Majoli © Magnum Photos)

Magnum, Magnum é o livro de comemoração dos 60 anos da agência de fotografia Magnum. A obra tem mais de 400 fotografias dos 69 membros da lendária cooperativa fundada em 1947 por Roberto Capa, David Seymour, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e Bill Vandivert.
Cada fotógrafo apresenta 6 imagens, que foram seleccionadas e comentadas por outro membro da agência.

09 novembro, 2007

Riefenstahl e Erwitt roubados


Leni Riefenstahl

A polícia alemã está a investigar o roubo de 250 fotografias de Leni Riefenstahl e 300 de Elliot Erwitt. As imagens despareceram de uma cave em Colónia que pertence ao Photo Estate GmbH, subsidiária da galeria berlinense Camera Work AG. O valor aproximado das obras desaparecidas ronda os 4 milhões de euros.
Riefenstahl morreu em 2003 com 101 anos. Os filmes que realizou ao serviço do partido nazi em Nuremberga em 1934 e 1936, no Jogos Olímpicos de Berlim, deram-lhe fama ainda antes da II Guerra Mundial.

(© Elliot Erwitt)

08 novembro, 2007

 fotografiafalada


Cooperativa dos Pedreiros
(© Inês d`Orey)

Este quarto pertence a uma hospedaria que existe numa das torres da Cooperativa dos Pedreiros que tem um restaurante lindíssimo lá em cima. Este quarto é muito alto. Fica talvez no12º andar. Tem vistas incríveis sobre o Porto. Apesar de ser um quarto de hotel, tem um ar de quarto de uma casa de habitação. Gosto muito destes quartos porque estão preservados e têm mobiliário de época.

(Inês d`Orey)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

privado»»público

Martin Parr, Last Resort, 1983
(© Martin Parr)

De vez em quando há surpresas assim – saltam cá para fora colecções de fotografia que estiveram escondidas de olhares alheios durante um certo tempo que se pode chamar de “gestação”. Nos últimos 5 anos, sob orientação de Victor Pires Vieira, Américo Marques dos Santos andou a comprar obras de alguns dos mais badalados fotógrafos contemporâneos e agora decidiu mostrar pela primeira vez em público esse conjunto de mais de cem obras de 31 autores nacionais e internacionais. A exposição está dividida pelo Museu da Cidade e pela Fundação Carmona e Costa. Entre os artistas representados contam-se Bernd & Hilla Becher, Rineke Dijkstra, Jorge Molder, António Júlio Duarte, Candida Höfer, Helmut Newton, Andreas Gursky, Martin Parr e Nobuyoshi Araki.

dignidade

Joseline Ingabire with her daughter Leah Batamuliza,
da série Intended Consequences: Mothers of Genocide, Children of Rape
( © Jonathan Torgovnik)

Este retrato valeu ao israelita Jonathan Torgovnik o prémio para melhor retrato da Nacional Portrait Gallery, de Londres, no valor de 12 mil libras (17 mil euros).
Joseline é uma mulher tutsi que foi violada sistematicamente por milicianos durante o genocídio ruandês, que ocorreu entre Abril e Junho de 1994 e causou pelo menos 800 mil mortos. Esta imagem faz parte de uma série dedicada a essas mulheres.
O segundo prémio distinguiu a argentina Julieta Sans pelo retrato Lucila a.m..
O júri do galardão, que vai na sua quinta edição, seleccionou 60 retratos dos 6900 apresentados por 2700 fotógrafos de todo o mundo, um recorde de acordo com a galeria.
Os 60 trabalhos estarão expostos até 24 de fevereiro na National Portrait Gallery, numa mostra apenas dedicada ao retrato nos vários géneros artísticos.

07 novembro, 2007

cinema+fotografia+cidade

Wim Wenders durante a rodagem de Lisbon Story
(© Cesário M. F. Alves)

O ciclo sobre fotografia e cinema documental Olhares sobre a cidade - Imagens do real imaginado a decorrer na Biblioteca Municipal Almeida Garrett e no cinema Passos Manuel, no Porto, convidou os fotógrafos Olívia da Silva, Luís Carvalho e Georges Dussaud para uma conversa à volta da tarefa de registar grandes urbes. O moderador é Eric Many. Até ao dia 10 será possível ver na biblioteca a exposição Fragmentos da rodagem de Lisbon Story (1994), de Cesário M. F. Alves.

O mote deste ciclo, segundo Jorge Campos:

(...) procurou-se abrir espaço a um olhar transversal fundado em saberes multidisciplinares, cujo denominador comum reside, porventura, nessa razão utópica de sonhar infinitamente o lugar da cidade e de quem a habita.

O programa completo está aqui.

16.118.035.591 píxeis

Pormenor da Última Ceia, de Leonardo da Vinci

Pode dizer-se que é uma fotografia abelhuda esta que tiraram recentemente à Última Ceia de Leonardo da Vinci. É que podem ver-se os mais ínfimos pormenores de uma das obras primas do mestre italiano. Este grau de aproximação à superfície pintada só é possível graças a uma mega fotografia de alta definição. Ou melhor, 1677 mega-fotografias de alta definição que, juntas, totalizam mais de 16 mil milhões de píxeis num trabalho de perfeito corte e costura digital.
Ana Gerschenfeld contou os detalhes desta nova maneira de partilhar a Última Ceia no P2 de sábado.

O texto pode ser lido aqui.
Podemos espreitar até ao tutano o falso fresco de Leonardo aqui.

06 novembro, 2007

Dussaud em livro


A exposição de George Dussaud no CPF terminou este fim-de-semana no Porto, mas a Assírio & Alvim decidiu perpetuar o olhar do fotógrafo francês para o Portugal que vem desde os 80 num álbum que adoptou o mesmo título da mostra, Crónicas Portuguesas. A mulher de Dussaud, Christine, assina o prefácio do livro.

 fotografiafalada


Hospital da Trindade
(© Inês d`Orey)

Acho que só me deixaram fotografar esta sala de espera porque o pedido foi acompanhado pela informação de que eu tinha sido operada neste hospital no ano anterior. Foi nesta sala que andei de um lado para o outro. Tem uma carga emotiva forte para mim e se calhar só eu percebo essa importância.

(Inês d`Orey)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

05 novembro, 2007

lusofonia

António Júlio Duarte, Goa, 2004
(© António Júlio Duarte)

Inaugura hoje em Bruxelas a exposição lusofonia do colectivo [kameraphoto] e de Pascal Aimar. A iniciativa pertence à presidência portuguesa da União Europeia. Pelo que é escrito no texto de introdução do catálogo quer encontrar-se através destas imagens "a essência de ser Portugal, na capacidade de ser europeu e mundial ao mesmo tempo". É uma tarefa nada simples à qual tentam responder, para além de Aimar, Alexandre Almeida, António Júlio Duarte, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, João Pina, Jordi Burch, Nelson d'Aires, Martim Ramos, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Letria, Rui Xavier, Sandra Rocha e Valter Vinagre.
O catálogo está à venda na [kgaleria].

João Pina, Brasil, 2007
(© João Pina)

lusofonia
Edifício Berlaymont, Rue de la Loi, 200
Bruxelas

02 novembro, 2007

*À conversa com...

...Sebastião Salgado

Mulher dinka. Kolkuei, Sudão, 2006
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

África
raspa cá dentro
(Ípsilon, 2.11.2007)

Sérgio B. Gomes

A sessão de lançamento de África tinha acabado há pouco. Sebastião Salgado, 63 anos, ainda respondia aos jornalistas quando a mesa do auditório da FNAC já era preparada para a apresentação de outro livro, desta vez relacionado com homeopatia. O fotógrafo olhou à sua volta e ficou espantado com a velocidade de transformação da plateia, com a forma como aconteciam coisas tão distintas num espaço tão pequeno. "Os pedreiros que fizeram isto jamais imaginam o que se passa aqui hoje", lançou.
Perante uma sala cheia, aquele que é considerado um dos maiores fotojornalistas vivos falou da sua relação com África, da primeira viagem ao imenso continente (ainda como economista), do dia em que acompanhou as tropas da Frelimo, em Moçambique, da amizade com Mia Couto. No fim deu autógrafos. Muitos autógrafos. Foram quase duas horas a escrever nas primeiras páginas do seu último álbum que reúne imagens de uma grande viagem por África que já dura mais de 30 anos.

Por que é que fotografa?
Primeiro porque a minha profissão é fotógrafo, adoro fotografar. Quando pego na minha câmara e vou trabalhar é de manhã à noite. É um prazer fotografar. Já levo trinta e tal anos a fotografar e ainda não encontrei um dia no meu trabalho que não fiz com prazer. Em segundo lugar, é a minha forma de vida é o que eu sei fazer. Enquanto tiver prazer vou continuar. Para mim não há limite de tempo ou de idade. Aliás, isso é uma característica de muitos fotógrafos. Em 2002, quando cheguei ao México à casa de Don Manuel Álvarez Bravo [mestre da fotografia do séc. XX que morreu nesse ano] para comemorar o seu 100º aniversário, ele disse-me: “Sebastião! Tenho de te mostrar as minhas últimas fotografias!”. E eu perguntei: “Mas, Don Manuel, você ainda fotografa?”. E ele respondeu: “Sim, claro!”. E quando vi as fotografias eram dos pés dele. Don Manuel já não podia andar. Eram uns pés machucados e ele fotografava esses pés o dia inteiro. Essa é uma característica dos fotógrafos, são pessoas que normalmente vivem muito no mundo deles. Desligam-se de outras coisas e fotografam até ao fim. Tive um amigo que morreu agora em Paris com 94 anos e ainda fotografava. É uma forma de vida.

Sente-se confortável com o rótulo de fotógrafo humanista que lhe é atribuído?
Não sou um fotógrafo humanista! Isso foi um rótulo que algum bobo me colocou e ficou assim. Sou simplesmente um fotógrafo. As pessoas não conhecem todo o meu trabalho. Faço muita fotografia industrial, faço muita fotografia de publicidade e faço uma quantidade de retratos para o “New York Times”. Hoje estou a fotografar a natureza. Esse rótulo de fotógrafo humanista é uma bobagem que me foi colocada em algum momento e todos repetiram.

Que papel ainda pode ter a fotografia no feroz jogo geo-político em que estamos mergulhados?
Tem um grande poder. Mais do que nunca. A fotografia tem uma capacidade muito forte de transmissão. É difícil, hoje, num sistema de transmissão como a Internet comunicar em várias línguas. Esse problema não acontece com a fotografia. A linguagem da imagem não precisa de tradução. É também por isso que a fotografia tem um papel mais importante do que tinha antes. É muito mais importante hoje na transmissão de ideologias, de pensamentos, de informação.

Ao longo do seu trabalho, sobretudo aquele em que está representada a figura humana, vemos que assume quase sempre um lado da barricada. Não tem receio que as histórias que nos conta sejam demasiado parciais?
Mas que bom! É isso mesmo, bem parciais. Alguém tem que fazer um lado. Outra pessoa vai fazer o outro e o conjunto vai fazer um todo. Por exemplo, tenho um amigo que só fotografa a comunidade judia. E eu fotografo determinadas coisas que para mim foram importantes. Vim de um país de problemas, de um país em desenvolvimento. Vim de uma formação ideológico-política de esquerda e essa tem sido a minha forma de vida. Tem de haver uma coerência com a minha maneira de pensar. É isso mesmo: a minha fotografia é bem parcial.

Criança himba. Kaokoland, Namíbia, 2005
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

Ao contrário do que acontecia nos primeiro trabalhos, parece que agora lhe interessam cada vez mais temas como a terra, o mar, os animais. Sentiu necessidade de dar descanso ao rosto humano?
Não, não é isso. Génesis é um projecto. Não me transformei num fotógrafo de animais ou num fotógrafo de paisagens. Resolvi trabalhar durante oito anos num projecto para mostrar que Génesis ainda existe. Nós vivemos num planeta onde 46 por cento ainda não foi destruído. Destruímos 54 por cento, mas 46 ainda não. Acho que temos de preservar essa parte. Temos de militar todos juntos para manter não só a nossa espécie, mas todas as outras espécies deste planeta. Temos um projecto ambiental no Brasil muito forte. Criamos uma fundação e através dela plantámos um pouco mais de um milhão de árvores de várias espécies que estão a reconstruir um ecossistema parecido com o que existia. Temos centros educacionais no Brasil e empregamos mais de 60 pessoas. É uma instituição ambientalista muito forte, talvez uma das mais importantes na recuperação ambiental no Brasil. Quando criamos o projecto Génesis, estavamos a pensar nesse objectivo: de fazer uma apresentação dessa parte desconhecida do planeta. Neste projecto eu não fotografo só as paisagens ou só os outros animais, também fotografo o Homem, que também faz parte da mega biodiversidade do planeta. Mas este Homem que fotografo é o Homem de há 3 mil anos, ou 5 mil anos. Ainda existimos assim. Há vários grupos dentro da floresta amazónica que nunca contactaram com mais ninguém. Génesis é a tentativa de mostar essa incrível mega biodiversidade do planeta com o intuito de a preservar. Depois de terminar este projecto posso voltar a fotografar um só animal, o Humano, tal como fotografei até agora.

Como é que correu esta experiência de casar as suas fotografias com a escrita de Mia Couto?
Foi uma maravilha. Telefonei ao Mia, falei-lhe da ideia e ele aceitou na hora. Mandamos cópias das fotografias e ele começou a trabalhar logo. Foi uma integração perfeita. Aqui a gente só olha para o Mia e para o meu trabalho, mas há um terceiro nome - o de Léila. Foi ela que organizou este livro desta forma que, para mim, é muito interessante.

Ela fez uma trabalho de edição?
Fez um trabalho de edição e criatividade. Ela é que criou o livro, ela que imaginou o formato, ela é que fez as sequências, ela é que imaginou que fotografia ficavam bem com outra fotografia e a forma como os textos entraram.

Era absolutamente necessário ser um escritor africano a assinar estes textos?
Sim, acho que era importante ser um escritor africano. Era importante estes textos serem de alguém que tenha vivido ou tenha passado muito tempo em África. Para mais alguém como o Mia, que conhece muito bem África e a Europa, uma pessoa que respeito demais. Tenho todos os livros do Mia. Tenho uma verdadeira relação com a escrita dele. Não foi só o facto de ser um africano, alguém que conhece África, mas foi o facto de ser o Mia.

Vulcão Bisoke, Parque do Virunga, Ruanda, 2004
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

Depois de mais de 30 anos a fotografar África o que é que lhe ficou no coração, para além do que lhe ficou na retina?
Essa é uma questão complicada. Na realidade, depois de se trabalhar tanto tempo num continente como este, já não se é a mesma pessoa. Você passa a ser a pessoa que você é, mais a pessoa que viu tudo aquilo – todas as modificações que surgiram, o trabalho que foi feito. Vi em África coisas maravilhosas, as paisagens mais incríveis, vi relações de vida de outras espécies colossais, vi coisas maravilhosas da nossa espécie. Vi as coisas mais cruéis da nossa espécie. Não é cruel no sentido das pessoas morreram, passarem mal... É pior. Cruel no sentido que lembra que a nossa espécie faz coisas horríveis. E isso fez-me lembrar tudo o que eu li e ouvi sobre a Idade Média. Tudo o que tem a ver com o mal e levar o mal mais além, a extremos. Senti tudo isso, e tudo isso trabalhou na minha alma. É muito forte o que eu pude ver, o que eu pude sentir, os riscos de vida por que passei em África. Quase fui morto umas três ou quatro vezes. Fiquei ferido. Tudo isso faz com que me sinta também um pouco africano. Essa relação ficou na carne. Vim de um país onde o africanismo é uma das principais componentes, nomeadamente na cultura, no sentido amplo do termo, que vai desde a escrita, à música, à alimentação, à forma de viver. África, para mim, raspa cá dentro.

Há uma imagem de África ligada à fome e à guerra que ficou colada ao nosso imaginário. África tem fome e armas mas tem outras coisas. É esse lado menos mediatizado que também nos tenta mostrar?
Fui para a Etiópia agora e disse isso a vários amigos que me perguntaram: “Como é que está o problema da fome?”. As pessoas quando pensam na Etiópia só pensam na fome. Porquê? Porque foi uma imagem recente que se criou no sistema de informação Ocidental e todas as pessoas ficaram com essa imagem. Mas ninguém imagina que a Etiópia foi o único país que não foi colonizado em África. A Etiópia foi um país que bateu o pé a uma potência europeia que era a Itália. Os etíopes têm uma cultura milenar. Quando os portugueses chegaram lá em 1500 a Etiópia já era um país cristão. A Etiópia tem uma história tão rica e tão forte e existem tantas etiópias dentro da Etiópia... Vivemos numa sociedade que vive de determinados chavões, determinados esteriótipos. A Etiópia não é só fome. As pessoas estão muito enganadas a respeito deste país. E estão muito enganadas a respeito de África. África é um continente de uma enorme força, poder, cultura e dignidade. É um continente que representa um quarto do planeta. Temos de levar isto em consideração e muitas vezes não levamos. Temos a pretensão, principalmente na Europa, de termos a melhor cultura e sabermos mais do que os outros, mas a gente ainda vive muito de estereótipos. Temos de nos libertar dessas ideias.

Há algum país que lhe tenha dado especial prazer fotografar?
Muitos. Na Etiópia, por exemplo, tive um enorme prazer a fotografar. Em Moçambique tive momentos de grande felicidade e de esperança. Na Namíbia também.

Imagino que durante este tempo todo a fotografar um continente se apercebeu das mudanças que foram surgindo. Consegue isolar um país onde essas alterações foram mais radicais?
É difícil dizer. Mas Moçambique teve uma alteração radical. Saiu de um sistema colonial onde existia um certo equilíbrio de vida e com a saída dos portugueses desequilibrou-se completamente. Encontravam-se populações jogadas à estrada sem se saber porquê. Convulsões internas que não tinham nada a ver com Moçambique, fruto da Guerra Fria. Mas, Moçambique transformou-se num país organizado. Podemos tirar o chapéu a [Joaquim] Chissano. Ele merece porque foi um grande presidente. Conseguiu trabalhar com as Nações Unidas, reunificar Moçambique e cumprir um fenomenal acordo de paz. Moçambique é hoje um país em vias de desenvolvimento. Existem uma quantidade de coisas que se passam hoje em África que são muito positivas.

Foi difícil juntar as fotografias mais antigas às mais recentes?
Não. São as mesmas. Na realidade só fiz talvez versões diferentes da mesma fotografia. Se você olhar para estas fotografias - você que talvez não esteja habituado a elas - não notará quais são as antigas e quais são as mais recentes.

No livro “Olhando o Sofrimento dos Outros” a ensaísta Susan Sontag escreve: “Para que as fotografias acusem, e eventualmente mudem as condutas, têm de chocar”. Que comentário lhe merece esta afirmação?
Acho que não. As fotografias não têm de chocar, as fotografias têm de transmitir um pouco da situação que o fotógrafo está a viver. Mas chocar... bom, pode haver interpretações diferentes de acordo com a formação das pessoas. Conheci muitos fotógrafos que tiveram a consciência de culpa porque fotografaram pessoas a morrer de fome, situações de guerra. Não tenho nenhuma consciência de culpa de nada disso. Acho que estes problemas têm de ser mostrados assim, têm de ser transmitidos. As crianças têm de ver isto, para tentar que estas coisas não aconteçam mais. Para compreenderem o sofrimento dos outros. Agora, se acho que têm de chocar? Não, não acho que tenham de chocar. O que têm é de mostrar. Nós temos de ser responsáveis e assumir os actos de maltrato da nossa espécie. E isso tem de ser discutido e difundido, o que é diferente de ser transformado em instrumento de choque.

Sontag escreve no mesmo livro que o problema das suas fotografias reside “na sua focagem nos fracos, reduzidos à sua fraqueza”. Quer comentar?
É o ponto de vista da Susan Sontag. Tem direito a ter opinião. Mas há uma coisa sobre os críticos de fotografia e os críticos de arte em geral que gostava de dizer: o facto de terem uma tribuna permite que se transformem em senhores da opinião, e querem que o seu ponto de vista passe a ser o correcto, mas muitas vezes eles não conhecem as realidades, nunca estiveram lá, não conhecem a situação sobre a qual estão a falar. O que fazem é simplesmente uma elaboração intelectual teórica. Uma coisa é dizer o que é bom, o que é mau, fazer um julgamento e dar um ponto de vista, outra é ir, ver, sentir, frequentar e transmitir. É o ponto de vista dela. Não sei... (encolher de ombros).

Não teme que com o estilo de composição das suas fotografias, que há quem classifique de “cinemáticas”, o foco daquilo que quer mostrar fuja apenas para a beleza das imagens?
Isso é culpa vossa! Vocês é que criaram o barroco das nossas casas. Eu venho do estado mais barroco do Brasil. Se calhar, tenho uma influência do barroco nas minhas fotografias, um pouco mais de luz... Isso tudo faz parte da minha cultura, de onde vim. Não lhes coloquei nada mais para dar um momento mais dramático, ou menos dramático. É assim que vejo as coisas, que vejo o mundo. Há pessoas que aceitam e outras que não. São pontos de vista. Encaixo uns e não encaixo outros.

Li numa entrevista que tem tido dificuldade em passar no aeroporto os 600 rolos que leva em cada viagem de trabalho que faz...
O problema é o raio X que destrói os meus filmes. Depois do 11 de Setembro é dificil convencer as pessoas que eu não tenho uma bomba ali dentro. É um drama. Se os filmes passarem neste sistema eu posso perder o meu trabalho.

Vai voltar a África para fotografar?
Vou. Estou a chegar da Etiópia e vou voltar em Janeiro.

E depois de Génesis?
Não sei. Se ainda estiver vivo vou pensar em outra coisa.

Floresta de Hagenia hypericum
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

01 novembro, 2007

luxúria

Queen Sophie Margot
(Finley MacKay © Lavazza)

Queen Bao
(Finley MacKay © Lavazza)

Já leva 16 anos a aposta na fotografia da marca de cafés Lavazza. O artista convidado para conceber o calendário 2008 foi o escocês Finlay MacKay. O universo escolhido gira à volta da mulher, poderosa, musa encantadora, sacerdotisa e aristocrata. Esta deusa é colocada num cenário exuberante, repleto de jóias, sedas, veludos, ricos arranjos florais, animais exóticos e todo o tipo de objectos luxuriantes. São cortes imaginárias que fazem lembrar o mise en scène de David Lachapelle, também já convidado pela Lavazza, ou o erotismo transbordante de Pierre et Gilles. As fotografias hiperproduzidas e super-pós-produzidas de MacKay misturam ainda os universos da pop, da street art e da banda desenhada com a mais refinada Arte Nova ou o imaginário das clássicas escolas pictóricas inglesas. Francesca Lavazza, ideóloga do projecto, explica que se procuraram fazer referências aos vestidos de Alfons Mucha, aos tecidos de Klimt e às atmosferas de Edward Burne-Jones numa perspectiva futurista. O resultado é muito interessante e um regalo para a vista.

Há mais pormenores do calendário Lavazza 2008 aqui.

Queen Kuk Grethel
(Finley MacKay © Lavazza)

Queen Yasmine
(Finley MacKay © Lavazza)

28 outubro, 2007

*Três perguntas a...


Sem título, 2007
(© Carlos M. Fernandes)

Carlos M. Fernandes. Nasceu em Luanda em 1973. Vive e trabalha em Lisboa. Estudou fotografia no Ar.Co, em Lisboa (1994-1996), e é mestre em Engenharia Electrotécnica e de computadores, pelo Instituto Superior Técnico. Nas exposições individuas destacam-se Kaluptein (Espaço à P`Arte, Lisboa, 2001), trabalho publicado em livro (IST Press), e Mittel/Europa (Ministério das Finanças, Lisboa, 2006). Ainda em 2006, inaugurou a colecção Reticências, da IST Press, com o ensaio de fotografia I-S-T 95-75-15. Este ano, foi um dos artistas que integrou a exposição colectiva INGenuidades, Fotografia e Engenharia 1846-2006, comissariada por Jorge Calado. O trabalho de Carlos M. Fernandes pode ver-se actualmente na colectiva Atlas, patente até 10 de Janeiro na recém-inaugurada Galeria P4.

¿Por que é que fotografas?
Como escrevi na introdução a um dos meus trabalhos, fotografa-se para contornar a finitude e para celebrar. Com a(s) fotografia(s) temos a ilusão de viver continuamente no presente. Como os animais. Sem sofrimento. Mas logo a condição humana nos afasta desta ilusão confortável, e a fotografia transforma-se em ferramenta de arqueologia. Nessa altura uso-a para investigar o passado colectivo.

¿O teu Atlas do Atlântico é dos que mais terra e cidade tem. Onde é que descobriste esse mar aqui?
Falando literalmente, encontramo-lo como refúgio de uma terra estéril. O solo islandês, feito de lava, é uma barreira para o fogo; este, no entanto, manifesta-se expelindo água para um ar saturado de enxofre. Terra, ar, água e fogo; os quatro elementos clássicos chocam com violência. O mar é o factor redentor deste cenário cruel, é a fonte de riqueza e de serenidade. Está sempre presente quando falamos da Islândia.
Mas o meu Atlas é mesmo um Atlas, talvez mais do que a génese da palavra Atlântico. É a criatura condenada a sustentar a sua própria existência sobre os ombros. É Sísifo. É o Homem. E é parte de uma trilogia que acolhe também a contemplação do Rui e o confronto entre os guerreiros do João e o ambiente.

¿As pessoas nas tuas fotografias aparecem quase sempre como sombras ou silhuetas longínquas. Queres dizer que somos assim tão indefinidos nos espaços que ocupamos?
Aparecem como sombras e raramente aparecem! Os espaços urbanos e os vestígios das pessoas interessam-me mais. Mas se te referes apenas a Atlas/Islândia, onde existe uma presença humana mais intensa do que o habitual, então podemos ir por outro caminho. A Natureza oprime(-me). Os meus lugares de Atlas são a Natureza em estado bruto, selvático. Perante a inclemência dos elementos e do tempo (e aqui uso o termo no seu sentido cronológico, e não meteorológico) somos, talvez, indefinidos. Mas entre o simples mortal e o herói (trágico), entre o guerreiro primitivo e o homem engenhoso, não há uma separação clara. (Por isso chamei, a Atlas, Uma História de Deuses e de Homens.) As minhas silhuetas ocupam os espaços vazios do Rui Fonseca. E o João Mariano dá-lhes uma forma mais palpável. O conjunto tenta lançar alguma luz sobre a indefinição.

26 outubro, 2007

Zidane


Acabei de ver no S. Jorge Zidane, un Portrait du XXIème siècle, concebido por dois manobradores da imagem: Douglas Gordon/Philippe Parreno.

Vemos ao longo desta meticulosa peça cinemática o vagabundear traiçoeiro do jogador francês em campo. Vemos quase só Zidane. Vêmo-lo de uma certa maneira que somos ele. E nem é por causa de o vermos tanto, tanto tempo e às vezes tão perto. Mas lá acabamos por respirar com ele. Por fintar, correr, suar e cuspir com ele. Acabamos por sofrer um golo. Marcar dois. Queremos a bola. E gritamos com ele: “ei!, ei!”. Assanhamo-nos. E depois desaparecemos na escuridão do balneário. Vemos quase só Zidane. Sabemos que há mais jogadores. Mas queremos ver só Zidane, sem o jogo mas no jogo.

Queremos sempre ver Zidane e ser ele naquele jogo e este poder de mimetismo inebriante a fotografia é capaz de não ter.

24 outubro, 2007

África

África (© Sebastião Salgado)

Sebastião Salgado apresenta hoje às 16h30 o seu novo álbum, África, na Fnac do centro comercial Colombo.

23 outubro, 2007

*Três perguntas a...

Vera Lúcia Carmo, auto-retrato, 2007

Vera Lúcia Carmo. Nasceu em Gaia em 1980. Vive e trabalha no Porto. Tem formação superior em Artes Plásticas/Escultura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Durante o curso descobriu a fotografia. Primeiro usou-a como meio de registo e documentação e, depois, como suporte de criação autónomo. Enquanto estudou Escultura concluiu pequenas formações na área da fotografia. Em 2002 fez a primeira exposição na iniciativa “Jovens Criadores de Aveiro”. Desde então participa em pequenas mostras colectivas. Actualmente frequenta o segundo ano do curso profissional do IPF - Instituto Português de Fotografia no Porto. O trabalho Still Moving Frames, que lhe valeu uma menção especial do júri na última edição do prémio Novos Talentos FNAC Fotografia, pode ser visto na loja de S. Catarina, no Porto, até 23 de Janeiro.

¿Por que é que fotografas?
Fotografar é uma forma de materializar realidades que não aconteceram. São passados e futuros paralelos.

¿Dizes que o teu trabalho teve origem na linguagem dos sonhos. Este sonho de Still Moving Frames aconteceu-te mesmo?
Não e sim... exploro sensações de sonhar... retiro as situações ou as pessoas dos sonhos e concentro-me apenas nas emoções que ficam. Ou seja, o significado destes lugares é simbólico, é sensorial. Há um lado pessoal, mas é referencial e não narrativo.

¿Afinal, de que linguagem te sentes mais próxima aqui: a do movimento do cinema ou a da quietude da fotografia?
Este projecto tem uma influência muito presente do cinema, mas vive sobretudo da intersecção entre o cinema e a fotografia, vive de um jogo de memória que fragmenta o movimento, mas não o congela. Penso que fiquei exactamente a meio caminho entre as duas linguagens.

20 outubro, 2007

bd+fotografia

Le photographe, 1º volume, Au Coeur de l´Afghanistan


No Ípsilon desta semana Alexandra Lucas Coelho conta-nos como nasceu Le Photographe, uma obra estranha e fascinante, meio caminho entre banda desenhada e fotografia com o Afeganistão como pano de fundo. O cunjunto de 3 livros foi premiado no último festival de Angoulême. Didier Lefèvre (1957-2007) é o homem da máquina fotográfica que acompanha uma missão dos Médicos Sem Fronteiras para lá de Feyzabad. Emmanuel Guilbert escreveu e desenhou. Fréderic Lemercier paginou e coloriu. Vale a pena ler o texto da Alexandra. Aguça a vontade de ver e ler esta viagem ao país dos homens de olhos pintados.

O site de Le Photographe, onde se podem folhear algumas páginas, está aqui.
O texto do Ípsilon está aqui.

Le photographe, 3º volume, Retour Solitaire

 
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