12 novembro, 2007

 fotografiafalada


Silo-auto
(© Inês d`Orey)

Neste dia decidi fotografar não o parque de estacionamento mas um salão de baile que existe no último piso e que é surreal. Chama-se “Bate o pé”. Consegui entrar, mas acabei por não usar nenhuma fotografia, porque achei que não tinham ficado bem e apareciam muitas pessoas. À medida que fui descendo fui fotografando o parque de estacionamento que acho muito bonito.

(Inês d`Orey)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

11 novembro, 2007

Parr em Lisboa


O fotógrafo britânico Martin Parr, membro da agência Magnum e um dos nomes mais badalados da fotografia contemporânea, dá hoje uma conferência sobre o seu trabalho e a investigação que tem dedicado aos livros de fotografia. O encontro está marcado para as 16h30, na ArteLisboa, no Parque das Nações.

Adenda: Nem de propósito! Este retrato de Parr que escolhi por acaso foi tirado em Portugal num estúdio de fotografia onde coloriam as imagens à mão. O fotógrafo inglês adora esta técnica e diz que quer tirar mais um retrato assim. Parece que já encontrou o lugar e tudo...

10 novembro, 2007

Magnum, Magnum

Alex Majoli, Daria, Itália, 2005
(Alex Majoli © Magnum Photos)

Magnum, Magnum é o livro de comemoração dos 60 anos da agência de fotografia Magnum. A obra tem mais de 400 fotografias dos 69 membros da lendária cooperativa fundada em 1947 por Roberto Capa, David Seymour, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e Bill Vandivert.
Cada fotógrafo apresenta 6 imagens, que foram seleccionadas e comentadas por outro membro da agência.

09 novembro, 2007

Riefenstahl e Erwitt roubados


Leni Riefenstahl

A polícia alemã está a investigar o roubo de 250 fotografias de Leni Riefenstahl e 300 de Elliot Erwitt. As imagens despareceram de uma cave em Colónia que pertence ao Photo Estate GmbH, subsidiária da galeria berlinense Camera Work AG. O valor aproximado das obras desaparecidas ronda os 4 milhões de euros.
Riefenstahl morreu em 2003 com 101 anos. Os filmes que realizou ao serviço do partido nazi em Nuremberga em 1934 e 1936, no Jogos Olímpicos de Berlim, deram-lhe fama ainda antes da II Guerra Mundial.

(© Elliot Erwitt)

08 novembro, 2007

 fotografiafalada


Cooperativa dos Pedreiros
(© Inês d`Orey)

Este quarto pertence a uma hospedaria que existe numa das torres da Cooperativa dos Pedreiros que tem um restaurante lindíssimo lá em cima. Este quarto é muito alto. Fica talvez no12º andar. Tem vistas incríveis sobre o Porto. Apesar de ser um quarto de hotel, tem um ar de quarto de uma casa de habitação. Gosto muito destes quartos porque estão preservados e têm mobiliário de época.

(Inês d`Orey)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

privado»»público

Martin Parr, Last Resort, 1983
(© Martin Parr)

De vez em quando há surpresas assim – saltam cá para fora colecções de fotografia que estiveram escondidas de olhares alheios durante um certo tempo que se pode chamar de “gestação”. Nos últimos 5 anos, sob orientação de Victor Pires Vieira, Américo Marques dos Santos andou a comprar obras de alguns dos mais badalados fotógrafos contemporâneos e agora decidiu mostrar pela primeira vez em público esse conjunto de mais de cem obras de 31 autores nacionais e internacionais. A exposição está dividida pelo Museu da Cidade e pela Fundação Carmona e Costa. Entre os artistas representados contam-se Bernd & Hilla Becher, Rineke Dijkstra, Jorge Molder, António Júlio Duarte, Candida Höfer, Helmut Newton, Andreas Gursky, Martin Parr e Nobuyoshi Araki.

dignidade

Joseline Ingabire with her daughter Leah Batamuliza,
da série Intended Consequences: Mothers of Genocide, Children of Rape
( © Jonathan Torgovnik)

Este retrato valeu ao israelita Jonathan Torgovnik o prémio para melhor retrato da Nacional Portrait Gallery, de Londres, no valor de 12 mil libras (17 mil euros).
Joseline é uma mulher tutsi que foi violada sistematicamente por milicianos durante o genocídio ruandês, que ocorreu entre Abril e Junho de 1994 e causou pelo menos 800 mil mortos. Esta imagem faz parte de uma série dedicada a essas mulheres.
O segundo prémio distinguiu a argentina Julieta Sans pelo retrato Lucila a.m..
O júri do galardão, que vai na sua quinta edição, seleccionou 60 retratos dos 6900 apresentados por 2700 fotógrafos de todo o mundo, um recorde de acordo com a galeria.
Os 60 trabalhos estarão expostos até 24 de fevereiro na National Portrait Gallery, numa mostra apenas dedicada ao retrato nos vários géneros artísticos.

07 novembro, 2007

cinema+fotografia+cidade

Wim Wenders durante a rodagem de Lisbon Story
(© Cesário M. F. Alves)

O ciclo sobre fotografia e cinema documental Olhares sobre a cidade - Imagens do real imaginado a decorrer na Biblioteca Municipal Almeida Garrett e no cinema Passos Manuel, no Porto, convidou os fotógrafos Olívia da Silva, Luís Carvalho e Georges Dussaud para uma conversa à volta da tarefa de registar grandes urbes. O moderador é Eric Many. Até ao dia 10 será possível ver na biblioteca a exposição Fragmentos da rodagem de Lisbon Story (1994), de Cesário M. F. Alves.

O mote deste ciclo, segundo Jorge Campos:

(...) procurou-se abrir espaço a um olhar transversal fundado em saberes multidisciplinares, cujo denominador comum reside, porventura, nessa razão utópica de sonhar infinitamente o lugar da cidade e de quem a habita.

O programa completo está aqui.

16.118.035.591 píxeis

Pormenor da Última Ceia, de Leonardo da Vinci

Pode dizer-se que é uma fotografia abelhuda esta que tiraram recentemente à Última Ceia de Leonardo da Vinci. É que podem ver-se os mais ínfimos pormenores de uma das obras primas do mestre italiano. Este grau de aproximação à superfície pintada só é possível graças a uma mega fotografia de alta definição. Ou melhor, 1677 mega-fotografias de alta definição que, juntas, totalizam mais de 16 mil milhões de píxeis num trabalho de perfeito corte e costura digital.
Ana Gerschenfeld contou os detalhes desta nova maneira de partilhar a Última Ceia no P2 de sábado.

O texto pode ser lido aqui.
Podemos espreitar até ao tutano o falso fresco de Leonardo aqui.

06 novembro, 2007

Dussaud em livro


A exposição de George Dussaud no CPF terminou este fim-de-semana no Porto, mas a Assírio & Alvim decidiu perpetuar o olhar do fotógrafo francês para o Portugal que vem desde os 80 num álbum que adoptou o mesmo título da mostra, Crónicas Portuguesas. A mulher de Dussaud, Christine, assina o prefácio do livro.

 fotografiafalada


Hospital da Trindade
(© Inês d`Orey)

Acho que só me deixaram fotografar esta sala de espera porque o pedido foi acompanhado pela informação de que eu tinha sido operada neste hospital no ano anterior. Foi nesta sala que andei de um lado para o outro. Tem uma carga emotiva forte para mim e se calhar só eu percebo essa importância.

(Inês d`Orey)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

05 novembro, 2007

lusofonia

António Júlio Duarte, Goa, 2004
(© António Júlio Duarte)

Inaugura hoje em Bruxelas a exposição lusofonia do colectivo [kameraphoto] e de Pascal Aimar. A iniciativa pertence à presidência portuguesa da União Europeia. Pelo que é escrito no texto de introdução do catálogo quer encontrar-se através destas imagens "a essência de ser Portugal, na capacidade de ser europeu e mundial ao mesmo tempo". É uma tarefa nada simples à qual tentam responder, para além de Aimar, Alexandre Almeida, António Júlio Duarte, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, João Pina, Jordi Burch, Nelson d'Aires, Martim Ramos, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Letria, Rui Xavier, Sandra Rocha e Valter Vinagre.
O catálogo está à venda na [kgaleria].

João Pina, Brasil, 2007
(© João Pina)

lusofonia
Edifício Berlaymont, Rue de la Loi, 200
Bruxelas

02 novembro, 2007

*À conversa com...

...Sebastião Salgado

Mulher dinka. Kolkuei, Sudão, 2006
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

África
raspa cá dentro
(Ípsilon, 2.11.2007)

Sérgio B. Gomes

A sessão de lançamento de África tinha acabado há pouco. Sebastião Salgado, 63 anos, ainda respondia aos jornalistas quando a mesa do auditório da FNAC já era preparada para a apresentação de outro livro, desta vez relacionado com homeopatia. O fotógrafo olhou à sua volta e ficou espantado com a velocidade de transformação da plateia, com a forma como aconteciam coisas tão distintas num espaço tão pequeno. "Os pedreiros que fizeram isto jamais imaginam o que se passa aqui hoje", lançou.
Perante uma sala cheia, aquele que é considerado um dos maiores fotojornalistas vivos falou da sua relação com África, da primeira viagem ao imenso continente (ainda como economista), do dia em que acompanhou as tropas da Frelimo, em Moçambique, da amizade com Mia Couto. No fim deu autógrafos. Muitos autógrafos. Foram quase duas horas a escrever nas primeiras páginas do seu último álbum que reúne imagens de uma grande viagem por África que já dura mais de 30 anos.

Por que é que fotografa?
Primeiro porque a minha profissão é fotógrafo, adoro fotografar. Quando pego na minha câmara e vou trabalhar é de manhã à noite. É um prazer fotografar. Já levo trinta e tal anos a fotografar e ainda não encontrei um dia no meu trabalho que não fiz com prazer. Em segundo lugar, é a minha forma de vida é o que eu sei fazer. Enquanto tiver prazer vou continuar. Para mim não há limite de tempo ou de idade. Aliás, isso é uma característica de muitos fotógrafos. Em 2002, quando cheguei ao México à casa de Don Manuel Álvarez Bravo [mestre da fotografia do séc. XX que morreu nesse ano] para comemorar o seu 100º aniversário, ele disse-me: “Sebastião! Tenho de te mostrar as minhas últimas fotografias!”. E eu perguntei: “Mas, Don Manuel, você ainda fotografa?”. E ele respondeu: “Sim, claro!”. E quando vi as fotografias eram dos pés dele. Don Manuel já não podia andar. Eram uns pés machucados e ele fotografava esses pés o dia inteiro. Essa é uma característica dos fotógrafos, são pessoas que normalmente vivem muito no mundo deles. Desligam-se de outras coisas e fotografam até ao fim. Tive um amigo que morreu agora em Paris com 94 anos e ainda fotografava. É uma forma de vida.

Sente-se confortável com o rótulo de fotógrafo humanista que lhe é atribuído?
Não sou um fotógrafo humanista! Isso foi um rótulo que algum bobo me colocou e ficou assim. Sou simplesmente um fotógrafo. As pessoas não conhecem todo o meu trabalho. Faço muita fotografia industrial, faço muita fotografia de publicidade e faço uma quantidade de retratos para o “New York Times”. Hoje estou a fotografar a natureza. Esse rótulo de fotógrafo humanista é uma bobagem que me foi colocada em algum momento e todos repetiram.

Que papel ainda pode ter a fotografia no feroz jogo geo-político em que estamos mergulhados?
Tem um grande poder. Mais do que nunca. A fotografia tem uma capacidade muito forte de transmissão. É difícil, hoje, num sistema de transmissão como a Internet comunicar em várias línguas. Esse problema não acontece com a fotografia. A linguagem da imagem não precisa de tradução. É também por isso que a fotografia tem um papel mais importante do que tinha antes. É muito mais importante hoje na transmissão de ideologias, de pensamentos, de informação.

Ao longo do seu trabalho, sobretudo aquele em que está representada a figura humana, vemos que assume quase sempre um lado da barricada. Não tem receio que as histórias que nos conta sejam demasiado parciais?
Mas que bom! É isso mesmo, bem parciais. Alguém tem que fazer um lado. Outra pessoa vai fazer o outro e o conjunto vai fazer um todo. Por exemplo, tenho um amigo que só fotografa a comunidade judia. E eu fotografo determinadas coisas que para mim foram importantes. Vim de um país de problemas, de um país em desenvolvimento. Vim de uma formação ideológico-política de esquerda e essa tem sido a minha forma de vida. Tem de haver uma coerência com a minha maneira de pensar. É isso mesmo: a minha fotografia é bem parcial.

Criança himba. Kaokoland, Namíbia, 2005
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

Ao contrário do que acontecia nos primeiro trabalhos, parece que agora lhe interessam cada vez mais temas como a terra, o mar, os animais. Sentiu necessidade de dar descanso ao rosto humano?
Não, não é isso. Génesis é um projecto. Não me transformei num fotógrafo de animais ou num fotógrafo de paisagens. Resolvi trabalhar durante oito anos num projecto para mostrar que Génesis ainda existe. Nós vivemos num planeta onde 46 por cento ainda não foi destruído. Destruímos 54 por cento, mas 46 ainda não. Acho que temos de preservar essa parte. Temos de militar todos juntos para manter não só a nossa espécie, mas todas as outras espécies deste planeta. Temos um projecto ambiental no Brasil muito forte. Criamos uma fundação e através dela plantámos um pouco mais de um milhão de árvores de várias espécies que estão a reconstruir um ecossistema parecido com o que existia. Temos centros educacionais no Brasil e empregamos mais de 60 pessoas. É uma instituição ambientalista muito forte, talvez uma das mais importantes na recuperação ambiental no Brasil. Quando criamos o projecto Génesis, estavamos a pensar nesse objectivo: de fazer uma apresentação dessa parte desconhecida do planeta. Neste projecto eu não fotografo só as paisagens ou só os outros animais, também fotografo o Homem, que também faz parte da mega biodiversidade do planeta. Mas este Homem que fotografo é o Homem de há 3 mil anos, ou 5 mil anos. Ainda existimos assim. Há vários grupos dentro da floresta amazónica que nunca contactaram com mais ninguém. Génesis é a tentativa de mostar essa incrível mega biodiversidade do planeta com o intuito de a preservar. Depois de terminar este projecto posso voltar a fotografar um só animal, o Humano, tal como fotografei até agora.

Como é que correu esta experiência de casar as suas fotografias com a escrita de Mia Couto?
Foi uma maravilha. Telefonei ao Mia, falei-lhe da ideia e ele aceitou na hora. Mandamos cópias das fotografias e ele começou a trabalhar logo. Foi uma integração perfeita. Aqui a gente só olha para o Mia e para o meu trabalho, mas há um terceiro nome - o de Léila. Foi ela que organizou este livro desta forma que, para mim, é muito interessante.

Ela fez uma trabalho de edição?
Fez um trabalho de edição e criatividade. Ela é que criou o livro, ela que imaginou o formato, ela é que fez as sequências, ela é que imaginou que fotografia ficavam bem com outra fotografia e a forma como os textos entraram.

Era absolutamente necessário ser um escritor africano a assinar estes textos?
Sim, acho que era importante ser um escritor africano. Era importante estes textos serem de alguém que tenha vivido ou tenha passado muito tempo em África. Para mais alguém como o Mia, que conhece muito bem África e a Europa, uma pessoa que respeito demais. Tenho todos os livros do Mia. Tenho uma verdadeira relação com a escrita dele. Não foi só o facto de ser um africano, alguém que conhece África, mas foi o facto de ser o Mia.

Vulcão Bisoke, Parque do Virunga, Ruanda, 2004
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

Depois de mais de 30 anos a fotografar África o que é que lhe ficou no coração, para além do que lhe ficou na retina?
Essa é uma questão complicada. Na realidade, depois de se trabalhar tanto tempo num continente como este, já não se é a mesma pessoa. Você passa a ser a pessoa que você é, mais a pessoa que viu tudo aquilo – todas as modificações que surgiram, o trabalho que foi feito. Vi em África coisas maravilhosas, as paisagens mais incríveis, vi relações de vida de outras espécies colossais, vi coisas maravilhosas da nossa espécie. Vi as coisas mais cruéis da nossa espécie. Não é cruel no sentido das pessoas morreram, passarem mal... É pior. Cruel no sentido que lembra que a nossa espécie faz coisas horríveis. E isso fez-me lembrar tudo o que eu li e ouvi sobre a Idade Média. Tudo o que tem a ver com o mal e levar o mal mais além, a extremos. Senti tudo isso, e tudo isso trabalhou na minha alma. É muito forte o que eu pude ver, o que eu pude sentir, os riscos de vida por que passei em África. Quase fui morto umas três ou quatro vezes. Fiquei ferido. Tudo isso faz com que me sinta também um pouco africano. Essa relação ficou na carne. Vim de um país onde o africanismo é uma das principais componentes, nomeadamente na cultura, no sentido amplo do termo, que vai desde a escrita, à música, à alimentação, à forma de viver. África, para mim, raspa cá dentro.

Há uma imagem de África ligada à fome e à guerra que ficou colada ao nosso imaginário. África tem fome e armas mas tem outras coisas. É esse lado menos mediatizado que também nos tenta mostrar?
Fui para a Etiópia agora e disse isso a vários amigos que me perguntaram: “Como é que está o problema da fome?”. As pessoas quando pensam na Etiópia só pensam na fome. Porquê? Porque foi uma imagem recente que se criou no sistema de informação Ocidental e todas as pessoas ficaram com essa imagem. Mas ninguém imagina que a Etiópia foi o único país que não foi colonizado em África. A Etiópia foi um país que bateu o pé a uma potência europeia que era a Itália. Os etíopes têm uma cultura milenar. Quando os portugueses chegaram lá em 1500 a Etiópia já era um país cristão. A Etiópia tem uma história tão rica e tão forte e existem tantas etiópias dentro da Etiópia... Vivemos numa sociedade que vive de determinados chavões, determinados esteriótipos. A Etiópia não é só fome. As pessoas estão muito enganadas a respeito deste país. E estão muito enganadas a respeito de África. África é um continente de uma enorme força, poder, cultura e dignidade. É um continente que representa um quarto do planeta. Temos de levar isto em consideração e muitas vezes não levamos. Temos a pretensão, principalmente na Europa, de termos a melhor cultura e sabermos mais do que os outros, mas a gente ainda vive muito de estereótipos. Temos de nos libertar dessas ideias.

Há algum país que lhe tenha dado especial prazer fotografar?
Muitos. Na Etiópia, por exemplo, tive um enorme prazer a fotografar. Em Moçambique tive momentos de grande felicidade e de esperança. Na Namíbia também.

Imagino que durante este tempo todo a fotografar um continente se apercebeu das mudanças que foram surgindo. Consegue isolar um país onde essas alterações foram mais radicais?
É difícil dizer. Mas Moçambique teve uma alteração radical. Saiu de um sistema colonial onde existia um certo equilíbrio de vida e com a saída dos portugueses desequilibrou-se completamente. Encontravam-se populações jogadas à estrada sem se saber porquê. Convulsões internas que não tinham nada a ver com Moçambique, fruto da Guerra Fria. Mas, Moçambique transformou-se num país organizado. Podemos tirar o chapéu a [Joaquim] Chissano. Ele merece porque foi um grande presidente. Conseguiu trabalhar com as Nações Unidas, reunificar Moçambique e cumprir um fenomenal acordo de paz. Moçambique é hoje um país em vias de desenvolvimento. Existem uma quantidade de coisas que se passam hoje em África que são muito positivas.

Foi difícil juntar as fotografias mais antigas às mais recentes?
Não. São as mesmas. Na realidade só fiz talvez versões diferentes da mesma fotografia. Se você olhar para estas fotografias - você que talvez não esteja habituado a elas - não notará quais são as antigas e quais são as mais recentes.

No livro “Olhando o Sofrimento dos Outros” a ensaísta Susan Sontag escreve: “Para que as fotografias acusem, e eventualmente mudem as condutas, têm de chocar”. Que comentário lhe merece esta afirmação?
Acho que não. As fotografias não têm de chocar, as fotografias têm de transmitir um pouco da situação que o fotógrafo está a viver. Mas chocar... bom, pode haver interpretações diferentes de acordo com a formação das pessoas. Conheci muitos fotógrafos que tiveram a consciência de culpa porque fotografaram pessoas a morrer de fome, situações de guerra. Não tenho nenhuma consciência de culpa de nada disso. Acho que estes problemas têm de ser mostrados assim, têm de ser transmitidos. As crianças têm de ver isto, para tentar que estas coisas não aconteçam mais. Para compreenderem o sofrimento dos outros. Agora, se acho que têm de chocar? Não, não acho que tenham de chocar. O que têm é de mostrar. Nós temos de ser responsáveis e assumir os actos de maltrato da nossa espécie. E isso tem de ser discutido e difundido, o que é diferente de ser transformado em instrumento de choque.

Sontag escreve no mesmo livro que o problema das suas fotografias reside “na sua focagem nos fracos, reduzidos à sua fraqueza”. Quer comentar?
É o ponto de vista da Susan Sontag. Tem direito a ter opinião. Mas há uma coisa sobre os críticos de fotografia e os críticos de arte em geral que gostava de dizer: o facto de terem uma tribuna permite que se transformem em senhores da opinião, e querem que o seu ponto de vista passe a ser o correcto, mas muitas vezes eles não conhecem as realidades, nunca estiveram lá, não conhecem a situação sobre a qual estão a falar. O que fazem é simplesmente uma elaboração intelectual teórica. Uma coisa é dizer o que é bom, o que é mau, fazer um julgamento e dar um ponto de vista, outra é ir, ver, sentir, frequentar e transmitir. É o ponto de vista dela. Não sei... (encolher de ombros).

Não teme que com o estilo de composição das suas fotografias, que há quem classifique de “cinemáticas”, o foco daquilo que quer mostrar fuja apenas para a beleza das imagens?
Isso é culpa vossa! Vocês é que criaram o barroco das nossas casas. Eu venho do estado mais barroco do Brasil. Se calhar, tenho uma influência do barroco nas minhas fotografias, um pouco mais de luz... Isso tudo faz parte da minha cultura, de onde vim. Não lhes coloquei nada mais para dar um momento mais dramático, ou menos dramático. É assim que vejo as coisas, que vejo o mundo. Há pessoas que aceitam e outras que não. São pontos de vista. Encaixo uns e não encaixo outros.

Li numa entrevista que tem tido dificuldade em passar no aeroporto os 600 rolos que leva em cada viagem de trabalho que faz...
O problema é o raio X que destrói os meus filmes. Depois do 11 de Setembro é dificil convencer as pessoas que eu não tenho uma bomba ali dentro. É um drama. Se os filmes passarem neste sistema eu posso perder o meu trabalho.

Vai voltar a África para fotografar?
Vou. Estou a chegar da Etiópia e vou voltar em Janeiro.

E depois de Génesis?
Não sei. Se ainda estiver vivo vou pensar em outra coisa.

Floresta de Hagenia hypericum
(Sebastião Salgado © Amazonas Images)

01 novembro, 2007

luxúria

Queen Sophie Margot
(Finley MacKay © Lavazza)

Queen Bao
(Finley MacKay © Lavazza)

Já leva 16 anos a aposta na fotografia da marca de cafés Lavazza. O artista convidado para conceber o calendário 2008 foi o escocês Finlay MacKay. O universo escolhido gira à volta da mulher, poderosa, musa encantadora, sacerdotisa e aristocrata. Esta deusa é colocada num cenário exuberante, repleto de jóias, sedas, veludos, ricos arranjos florais, animais exóticos e todo o tipo de objectos luxuriantes. São cortes imaginárias que fazem lembrar o mise en scène de David Lachapelle, também já convidado pela Lavazza, ou o erotismo transbordante de Pierre et Gilles. As fotografias hiperproduzidas e super-pós-produzidas de MacKay misturam ainda os universos da pop, da street art e da banda desenhada com a mais refinada Arte Nova ou o imaginário das clássicas escolas pictóricas inglesas. Francesca Lavazza, ideóloga do projecto, explica que se procuraram fazer referências aos vestidos de Alfons Mucha, aos tecidos de Klimt e às atmosferas de Edward Burne-Jones numa perspectiva futurista. O resultado é muito interessante e um regalo para a vista.

Há mais pormenores do calendário Lavazza 2008 aqui.

Queen Kuk Grethel
(Finley MacKay © Lavazza)

Queen Yasmine
(Finley MacKay © Lavazza)

28 outubro, 2007

*Três perguntas a...


Sem título, 2007
(© Carlos M. Fernandes)

Carlos M. Fernandes. Nasceu em Luanda em 1973. Vive e trabalha em Lisboa. Estudou fotografia no Ar.Co, em Lisboa (1994-1996), e é mestre em Engenharia Electrotécnica e de computadores, pelo Instituto Superior Técnico. Nas exposições individuas destacam-se Kaluptein (Espaço à P`Arte, Lisboa, 2001), trabalho publicado em livro (IST Press), e Mittel/Europa (Ministério das Finanças, Lisboa, 2006). Ainda em 2006, inaugurou a colecção Reticências, da IST Press, com o ensaio de fotografia I-S-T 95-75-15. Este ano, foi um dos artistas que integrou a exposição colectiva INGenuidades, Fotografia e Engenharia 1846-2006, comissariada por Jorge Calado. O trabalho de Carlos M. Fernandes pode ver-se actualmente na colectiva Atlas, patente até 10 de Janeiro na recém-inaugurada Galeria P4.

¿Por que é que fotografas?
Como escrevi na introdução a um dos meus trabalhos, fotografa-se para contornar a finitude e para celebrar. Com a(s) fotografia(s) temos a ilusão de viver continuamente no presente. Como os animais. Sem sofrimento. Mas logo a condição humana nos afasta desta ilusão confortável, e a fotografia transforma-se em ferramenta de arqueologia. Nessa altura uso-a para investigar o passado colectivo.

¿O teu Atlas do Atlântico é dos que mais terra e cidade tem. Onde é que descobriste esse mar aqui?
Falando literalmente, encontramo-lo como refúgio de uma terra estéril. O solo islandês, feito de lava, é uma barreira para o fogo; este, no entanto, manifesta-se expelindo água para um ar saturado de enxofre. Terra, ar, água e fogo; os quatro elementos clássicos chocam com violência. O mar é o factor redentor deste cenário cruel, é a fonte de riqueza e de serenidade. Está sempre presente quando falamos da Islândia.
Mas o meu Atlas é mesmo um Atlas, talvez mais do que a génese da palavra Atlântico. É a criatura condenada a sustentar a sua própria existência sobre os ombros. É Sísifo. É o Homem. E é parte de uma trilogia que acolhe também a contemplação do Rui e o confronto entre os guerreiros do João e o ambiente.

¿As pessoas nas tuas fotografias aparecem quase sempre como sombras ou silhuetas longínquas. Queres dizer que somos assim tão indefinidos nos espaços que ocupamos?
Aparecem como sombras e raramente aparecem! Os espaços urbanos e os vestígios das pessoas interessam-me mais. Mas se te referes apenas a Atlas/Islândia, onde existe uma presença humana mais intensa do que o habitual, então podemos ir por outro caminho. A Natureza oprime(-me). Os meus lugares de Atlas são a Natureza em estado bruto, selvático. Perante a inclemência dos elementos e do tempo (e aqui uso o termo no seu sentido cronológico, e não meteorológico) somos, talvez, indefinidos. Mas entre o simples mortal e o herói (trágico), entre o guerreiro primitivo e o homem engenhoso, não há uma separação clara. (Por isso chamei, a Atlas, Uma História de Deuses e de Homens.) As minhas silhuetas ocupam os espaços vazios do Rui Fonseca. E o João Mariano dá-lhes uma forma mais palpável. O conjunto tenta lançar alguma luz sobre a indefinição.

26 outubro, 2007

Zidane


Acabei de ver no S. Jorge Zidane, un Portrait du XXIème siècle, concebido por dois manobradores da imagem: Douglas Gordon/Philippe Parreno.

Vemos ao longo desta meticulosa peça cinemática o vagabundear traiçoeiro do jogador francês em campo. Vemos quase só Zidane. Vêmo-lo de uma certa maneira que somos ele. E nem é por causa de o vermos tanto, tanto tempo e às vezes tão perto. Mas lá acabamos por respirar com ele. Por fintar, correr, suar e cuspir com ele. Acabamos por sofrer um golo. Marcar dois. Queremos a bola. E gritamos com ele: “ei!, ei!”. Assanhamo-nos. E depois desaparecemos na escuridão do balneário. Vemos quase só Zidane. Sabemos que há mais jogadores. Mas queremos ver só Zidane, sem o jogo mas no jogo.

Queremos sempre ver Zidane e ser ele naquele jogo e este poder de mimetismo inebriante a fotografia é capaz de não ter.

24 outubro, 2007

África

África (© Sebastião Salgado)

Sebastião Salgado apresenta hoje às 16h30 o seu novo álbum, África, na Fnac do centro comercial Colombo.

23 outubro, 2007

*Três perguntas a...

Vera Lúcia Carmo, auto-retrato, 2007

Vera Lúcia Carmo. Nasceu em Gaia em 1980. Vive e trabalha no Porto. Tem formação superior em Artes Plásticas/Escultura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Durante o curso descobriu a fotografia. Primeiro usou-a como meio de registo e documentação e, depois, como suporte de criação autónomo. Enquanto estudou Escultura concluiu pequenas formações na área da fotografia. Em 2002 fez a primeira exposição na iniciativa “Jovens Criadores de Aveiro”. Desde então participa em pequenas mostras colectivas. Actualmente frequenta o segundo ano do curso profissional do IPF - Instituto Português de Fotografia no Porto. O trabalho Still Moving Frames, que lhe valeu uma menção especial do júri na última edição do prémio Novos Talentos FNAC Fotografia, pode ser visto na loja de S. Catarina, no Porto, até 23 de Janeiro.

¿Por que é que fotografas?
Fotografar é uma forma de materializar realidades que não aconteceram. São passados e futuros paralelos.

¿Dizes que o teu trabalho teve origem na linguagem dos sonhos. Este sonho de Still Moving Frames aconteceu-te mesmo?
Não e sim... exploro sensações de sonhar... retiro as situações ou as pessoas dos sonhos e concentro-me apenas nas emoções que ficam. Ou seja, o significado destes lugares é simbólico, é sensorial. Há um lado pessoal, mas é referencial e não narrativo.

¿Afinal, de que linguagem te sentes mais próxima aqui: a do movimento do cinema ou a da quietude da fotografia?
Este projecto tem uma influência muito presente do cinema, mas vive sobretudo da intersecção entre o cinema e a fotografia, vive de um jogo de memória que fragmenta o movimento, mas não o congela. Penso que fiquei exactamente a meio caminho entre as duas linguagens.

20 outubro, 2007

bd+fotografia

Le photographe, 1º volume, Au Coeur de l´Afghanistan


No Ípsilon desta semana Alexandra Lucas Coelho conta-nos como nasceu Le Photographe, uma obra estranha e fascinante, meio caminho entre banda desenhada e fotografia com o Afeganistão como pano de fundo. O cunjunto de 3 livros foi premiado no último festival de Angoulême. Didier Lefèvre (1957-2007) é o homem da máquina fotográfica que acompanha uma missão dos Médicos Sem Fronteiras para lá de Feyzabad. Emmanuel Guilbert escreveu e desenhou. Fréderic Lemercier paginou e coloriu. Vale a pena ler o texto da Alexandra. Aguça a vontade de ver e ler esta viagem ao país dos homens de olhos pintados.

O site de Le Photographe, onde se podem folhear algumas páginas, está aqui.
O texto do Ípsilon está aqui.

Le photographe, 3º volume, Retour Solitaire

do mar

© Rui Fonseca

Nasceu em Lisboa um novo espaço inteiramente dedicado à fotografia.
Apesar de ter aberto as portas apenas há uns dias, o projecto da Galeria P4 não está a dar os primeiros passos. É mais um refresh e uma mudança geográfica do trabalho que Luís Trindade tem desenvolvido nesta área.
A Galeria P4, que na loja do CCB já mostrava pequenas exposições, instalou-se na R. dos Navegantes (Lapa) dentro de uma antiga casa de habitação. As fotografias da exposição que deu o tiro de partida, Atlas, espalham-se pelas divisões, onde se pode encontrar ainda uma pequena livraria. Todos os artigos de conservação e restauro comercializados pela loja passaram também a estar aqui disponíveis.
Atlas mostra o trabalho a preto e branco de três fotógrafos portugueses: Carlos M. Fernandes, Rui Fonseca e João Mariano. Entre eles, dois elos de ligação: a costa e o mar. O texto do catálogo, do qual se fizeram apenas 50 exemplares, é de Madalena Lello.
Boa sorte.

Atlas
De Carlos M. Fernandes, Rui Fonseca e João Mariano
Galeria P4, Rua dos Navegantes, 16
De seg. a sáb., das 15h00 às 20h00
Até 10 de Janeiro

17 outubro, 2007

da terra

Cristiano Ronaldo, 2007 (© Vik Muniz)

Inaugurou ontem ao público uma exposição de fotografia, A Terra e a Gente, que antes de ser um grupo de fotografias foi um grupo de esculturas esculpidas no chão. O artista brasileiro Vik Muniz descobriu uma nova maneira de fintar a forma como nos chega a realidade através da imagem fotográfica. Interessam-lhe, ao mesmo tempo, os materiais efémeros e os duráveis – a terra onde esculpe e o papel fotográfico onde a obra final renasce com outra linguagem, com outro códigos visuais.
O portfolio apresentado por Vik Muniz no Museu da Electricidade é formado por dez trabalhos originais, feitos a partir de fotografias de Amália Rodrigues, Fernando Pessoa, António Damásio, Siza Vieira, Cristiano Ronaldo e José Saramago e quatro paisagens.
“Fê-los com humildade e um grande fascínio por Portugal. É uma das primeiras encomendas que Vik Muniz faz a nível mundial. É um privilégio”, disse há dias Albano Silva Pereira na apresentação do projecto. “Quando ele me pediu terra portuguesa percebi o rigor do trabalho. Criou volumes e texturas à volta da terra. Depois devolveu os materiais à fotografia”, acrescentou.
O livro que acompanha a mostra tem textos de Clara Ferreira Alves, Delfim Sardo, Régis Durand e Shelley Rice.

Álvaro Siza, 2007 (© Vik Muniz)

A Terra e a Gente, Vik Muniz
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 16 de Dezembro

16 outubro, 2007


entre aspas


Milagre do Sol, 13-10-1917
(© Santuário de Fátima)

Não podemos conceber as aparições de Fátima num registo fotográfico

D. António Marto, bispo de Leiria, Público, 14-10-2007



Multidão de peregrinos, 13-08-1934
(© Santuário de Fátima)

14 outubro, 2007

Inês d`Orey

Inês d`Orey
(© Adriano Miranda/Público)

um olhar fotográfico
moldado pela arquitectura

Nas Finanças Inês d`Orey está inscrita em duas profissões: “actividades fotográficas” e “outros artistas”. É uma separação que a máquina de cobranças do Estado julga necessária existir entre o trabalho conceptual e o trabalho comercial de alguém que simplesmente quer fazer da fotografia... um trabalho.

Lá na repartição onde a fotógrafa do Porto entrega as declarações de rendimentos, as senhoras atrás do balcão, conta, também demoraram a encaixar este golpe burocrático entre duas abordagens da imagem vindas do mesmo obturador, mas no final sempre se chegou a uma conclusão.

Hoje, a distinção entre “uma” e “outra” fotografia existe de facto na papelada. Mas na cabeça de Inês nem por isso. Prefere misturá-las. E dizer que se complementam. Ou melhor: que sem “uma” (a comercial) se calhar não estaria a fazer a “outra” (a conceptual). E que sem as duas, bem juntas, não teria chegado ao Porto Interior, o projecto com que ganhou o prémio Novos Talentos FNAC Fotografia 2007.

Foi com este trabalho que saiu à procura de um certo tipo de espaços na cidade onde nasceu e cresceu. Saiu à rua. E entrou. Meteu-se em lugares urbanos talhados para o uso e usofruto, espaços públicos ou semi-públicos, habitualmente com gente dentro, mas que Inês preferiu registar sem vivalma. Lugares de um Porto intramuros pelos quais tenta encontrar explicações para sentimentos como a “solidão”, o “abandono” e a “nostalgia”.

Nessa busca - às vezes um reencontro com cenários que lhe eram “familiares”, às vezes uma descoberta de cenários que lhe eram “estranhos” — serviu-se da ferramenta mais importante para os fotógrafos para além da luz — o olhar.

O olhar com que viu este “Porto Interior” Inês afirma tê-lo encontrado há pouco tempo. E não foi em cursos, especializações, conferências, “workshops” ou seminários. Foi no trabalho dito “comercial” que esteve a fazer para um estúdio de fotografia de arquitectura durante ano e meio.

A partir daí começou a encontrar “interesse e beleza” em espaços que antes lhe passavam ao lado. Esta atenção especial para com as formas, os volumes e as linhas da arquitectura funcionou como uma verdadeira “formação” e moldou o tipo de fotografia que quer fazer nos próximos tempos.

O género de fotografia “vazia” que agora mais lhe interessa no campo conceptual, o gozo pela “sensação da ausência de pessoas”, parece muito distante das imagens de teatro, com muitas personagens, rostos e expressões, que formaram o seu primeiro interesse pela imagem fotográfica.

Quando entrou para Relações Internacionais, Culturais e Políticas da Universidade do Minho, em Braga, Inês imaginou-se, no final do curso, a trabalhar “numa organização internacional qualquer”, mas nunca pensou que estaria de malas feitas para Inglaterra rumo a um bacharelato em fotografia no London College of Printing.

A “revelação” para a fotografia começou de uma maneira clássica — com a revelação de
fotografias dentro de uma sala escura. As primeiras imagens que lhe foram surgindo no
papel sensibilizado causaram “entusiasmo” e uma “emoção enorme”. Começou então a seguir o trabalho do Teatro Universitário do Minho, e depois as peças de outras companhias que faziam espectáculos em Braga. Foram estas imagens que lhe deram a primeira exposição em Portugal, uma colectiva integrada nos Encontros da Imagem de Braga, em 1999.

Inês gosta do cénico e do encenado. Não se sente próxima da espontaneidade do acto fotográfico. Diz que prefere amadurecer as ideias, “pensar bem” naquilo que vai fazer a seguir. “Não gosto de apanhar o momento. Não é isso que me interessa. Nas, férias, por exemplo, não tiro fotografias”.

As imagens que concretizou na capital inglesa foram sobretudo projectos de longo prazo pedidos pela escola. Confessa-se “pouco produtiva”, mas garante que é rápida a executar uma imagem depois de reflectir sobre ela e de a ter isolada em abstracto na cabeça.

No fim do curso em Londres pediu a 12 mulheres portuguesas que escolhessem um objecto e que escrevessem um texto sobre ele. Fez um retrato de cada uma e juntou os três elementos num tríptico. Daqui nasceu a primeira exposição individual em Portugal, no Artes em Partes do Porto, em 2002.

Depois da experiência londrina, tentou assentar em Lisboa. O problema é que durante a meia dúzia de meses que viveu ao lado do Tejo “não se passou nada”. “Fiquei sem inspiração. Não aconteceu nada”, lembra com uma ponta de mágoa.

De regresso ao Norte, surgiu a oportunidade de trabalhar em fotografia de arquitectura. Agarrou o desafio e transformou-o no principal motor das duas abordagens com que leva a cabo o seu trabalho, agora já por conta própria.

Se houve anos marcantes para Inês d`Orey, 2007 foi um deles. E não foi só o prémio FNAC: nos primeiros meses do ano, um dos seus portfolios, Ditados Velhos São Evangelhos, ficou entre os 60 seleccionados para a fase final do prémio Descubrimientos do PhotoEspaña 2007, um galardão ao qual concorreram mais de 600 propostas. Na sequência da visibilidade que ganhou aí, já levou outros trabalhos, também este ano, para a Alemanha (Reality Crossings) e para a Lituânia (Segredos, Mistérios e Ilusões).

Para ano, vai dizendo a medo, pode haver uma surpresa num grande festival de fotografia em França. Aguardemos.

(Perfis do Futuro, in Pública, 14-10-2007)

Para ler a conversa completa com Inês d`Orey clique aqui.

Inês d`Orey
(© Adriano Miranda/Público)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

12 outubro, 2007

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Sharon Lockhart, Untitled, 1996
(© The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)

»»Mário Martins andou por Nova Iorque e fartou-se de ver exposições de fotografia. Aqui ficam as suas sugestões:

»» Aperture Gallery, Lisette Model & her successors, "com fotografias, além da própria Lisette, de Diane Arbus, Bruce Weber, Lynn Davis, Larry Fink, Elaine Elliman, Peter Hujar, Leon Levinstein, entre outros. Muito bem apresentada e com fotografias significativas. Além disso, a galeria tem uma excelente livraria".

»» International Center of Photography, This is WAR! Robert Capa at World e Gerda Taro, "duas excelentes exposições" acompanhadas de "cartazes e revistas sobre a fotografia e o papel da mulher na Guerra Civil de Espanha. Tem também uma óptima livraria".

»» Galeria Deborah Bell Photographs, Garry Winogrand

»» Metropolitan Museum, Depth of Field: Modern Photography at the Metropolitan

Gerda Taro, Marines playing musical instruments on board the battleship Jaime I, Almería, Espanha, 1937
(© International Center of Photography)

Garry Winogrand, Diane Arbus, Love-in, Central Park, Nova Iorque, 1969

partilhar

Pormenor de retrato do estúdio de Emílio Biel, Porto, ca. 1900
(© Colecção Particular)

Faltava partilhar convosco estes dois retratos do Porto, um da Photo Beleza e outro do mítico estúdio de Emílio Biel. Descobri-os durante as férias, no meio de muita papelada e material de filatelia.
Encontro nestes olhares uma inocência perdida em relação ao acto fotográfico. Encontro neles mais qualquer coisa que entretanto se perdeu. Nem sei bem o quê. Talvez sejam capazes de descobrir melhor do que eu.


Retrato do estúdio de Emílio Biel, Porto, ca. 1900
(© Colecção Particular)


Retrato Estúdio Photo Beleza, Porto
(© Colecção Particular)

11 outubro, 2007

Alexandra Boulat (1962 - 2007)

Alexandra Boulat

Morreu a fotojornalista francesa Alexandra Boulat, vítima de um aneurisma. Boulat, que tinha 45 anos, cobriu vários conflitos em todo o mundo (Médio Oriente, Afeganistão, Iraque e antiga Jugoslávia), mas nos últimos meses de trabalho focou a sua objectiva em Ramallah, na Faixa de Gaza. Publicou imagens em jornais e revistas como a “Time”, “Newsweek”, “New York Times Magazine”, “Guardian”, “National Geographic” ou “Paris Match”. Até 2000 esteve ao serviço da agência Sipa e depois ajudou a fundar a agência VII. A condição feminina no mundo islâmico foi um dos temas de eleição do seu trabalho.

Para ver galerias fotográficas com o trabalho de Alexandra Boulat clique aqui e aqui.

Refugiadas afegãs
(© Alexandra Boulat)


entre aspas

Manifestação anti-imperialista de 2 de Julho de 1954

Pela primeira vez na minha vida, pus um lenço na cabeça sem reparar que estava todo amarrotado.
Podia sentir com exactidão o meu rosto cavado pela dor, a chuva daquele dia cinzento insinuando-se nos sulcos. Nenhuma maquilhagem. Para quê? Não tenho coragem de me armar em
coquette. De qualquer maneira, não teria iludido ninguém sobre o meu estado. Já não tenho coragem para nada, nem mesmo para sofrer.
Diego empurrava a minha cadeira de rodas.
Quis ainda acreditar que há causas mais importantes do que a minha invalidez, do que os meus tormentos. Causas superiores, ao lado das quais os meus males são coisa de pouca monta. De qualquer modo, vendo bem, assim destroçado, o meu corpo já não é digno de interesse.
É preciso sacrificar o individual à grandeza de causas mais universais. Duvidar disto seria um crime contra a humanidade. Acredito nisto.
Olho para uma fotografia minha tirada durante a manifestação.
Tenho ar de quê? O desespero ambulante. A minha cara não traduz senão tristeza.
Não há senão sombras no quadro.
Dramatis personae.
Vou rasgar esta fotografia. Não. Não tenho força para o fazer.


Rauda Jamis, Frida Khalo, Quetzal

10 outubro, 2007

fora II

Momentos estelares. Las fotografia en el siglo XX
(© Sandy Skoglund)

Há cinco anos Hans-Michel Koetzle, escritor, crítico e redactor-chefe da revista Leica World, deu início a uma tarefa enciclopédica de selecção dos nomes de alguns dos mais importantes fotógrafos do século passado. O resultado dessa empreitada, com critérios sempre discutíveis, já foi publicado na Alemanha (Das Lexicon der Fotografen). O Círculo de Bellas Artes de Madrid decidiu agora editar o livro em castelhano e chamou-lhe La Fotografia en el Siglo XX. Em paralelo com a edição da obra, o CBA pediu a Koetzle e a Olivia María Rubio, antiga directora artística do PhotoEspaña e actual responsável pelas mostras da galeria La Fábrica, para comissariarem uma exposição onde estivessem representados os “momentos”, “correntes” e “movimentos” que marcaram os últimos cem anos do milénio que acabou.

O livro pode ser descarregado em formato pdf aqui.
Para fazer uma pequena visita virtual à exposição clique aqui.

Momentos estelares. Las fotografia en el siglo XX
Círculo de Bellas Artes, Madrid
Até 18 de Novembro

Momentos estelares. Las fotografia en el siglo XX

08 outubro, 2007

fora I

Timothy H. O’Sullivan, dunas de areia, Carson Desert (Nevada), 1868, albumina
(© BnF/Société de Géographie, Paris)

Parece muito interessante esta exposição sobre os fotógrafos que, na segunda metade do século XIX, deram início à exploração do Oeste norte-americano, cheio de paisagens imponentes, aqui e ali habitadas por índios. Era um território mal conhecido pela objectiva fotográfica por causa da guerra de Secessão americana. Dois anos depois do fim da disputa entre norte e sul (1861-1865), o governo federal envia várias expedições oficiais para explorar os estados do Oeste, missões que podem ser consideradas precursoras do célebre projecto fotográfico da Farm Security Administration. O equipamento de fotografia acompanha os expedicionários e traz imagens de uma terra virgem, rica em recursos naturais, que serão divulgadas por todo o país em grandes formatos e vistas estereoscópicas. Neste conjunto, que tem a particularidade de vir na totalidade de colecções públicas francesas, estão representados os parques de Yosemite, Yellowstone e o Grand Canyon. Aparecem também retratos menos conhecidos de nativos americanos.
Visions de l’Ouest:photographies de l’exploration américaine, 1860-1880 reúne uma centena de tiragens originais de fotografias da autoria de Carleton Emmons Watkins, Timothy H. O’Sullivan, William Henry Jackson, Antonio Zeno Shindler, Alexander Gardner, John Karl Hillers, Andrew Joseph Russell e William Bell. A exposição mostra ainda vistas estereoscópicas, gravuras feitas a partir de fotografias, relatórios oficiais e vários outros documentos da época.

Visions de l’Ouest: photographies de l’exploration américaine, 1860-1880
Museé d`art américain de Giverny
Rue Claude-Monet, 99, Giverny, França
Até 31 de Outubro

03 outubro, 2007

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

© David Gagnebin

»»Luís Maio andou por Genebra por estes dias e trouxe duas sugestões na mala, ambas do Centre de la Photographie.

De Bons de Mémoire, de David Gagnebin, é "uma exposição de fotografias que dão origem a textos que dão origem a imagens".

I Fell it All, de Guadalupe Ruiz, "demonstra uma implacável precisão na observação dos códigos sociais".

© Guadalupe Ruiz


Centre da la Photographie
Rue des Bains, 28, Genebra
Até 21 de Outubro

 
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