20 outubro, 2007

do mar

© Rui Fonseca

Nasceu em Lisboa um novo espaço inteiramente dedicado à fotografia.
Apesar de ter aberto as portas apenas há uns dias, o projecto da Galeria P4 não está a dar os primeiros passos. É mais um refresh e uma mudança geográfica do trabalho que Luís Trindade tem desenvolvido nesta área.
A Galeria P4, que na loja do CCB já mostrava pequenas exposições, instalou-se na R. dos Navegantes (Lapa) dentro de uma antiga casa de habitação. As fotografias da exposição que deu o tiro de partida, Atlas, espalham-se pelas divisões, onde se pode encontrar ainda uma pequena livraria. Todos os artigos de conservação e restauro comercializados pela loja passaram também a estar aqui disponíveis.
Atlas mostra o trabalho a preto e branco de três fotógrafos portugueses: Carlos M. Fernandes, Rui Fonseca e João Mariano. Entre eles, dois elos de ligação: a costa e o mar. O texto do catálogo, do qual se fizeram apenas 50 exemplares, é de Madalena Lello.
Boa sorte.

Atlas
De Carlos M. Fernandes, Rui Fonseca e João Mariano
Galeria P4, Rua dos Navegantes, 16
De seg. a sáb., das 15h00 às 20h00
Até 10 de Janeiro

17 outubro, 2007

da terra

Cristiano Ronaldo, 2007 (© Vik Muniz)

Inaugurou ontem ao público uma exposição de fotografia, A Terra e a Gente, que antes de ser um grupo de fotografias foi um grupo de esculturas esculpidas no chão. O artista brasileiro Vik Muniz descobriu uma nova maneira de fintar a forma como nos chega a realidade através da imagem fotográfica. Interessam-lhe, ao mesmo tempo, os materiais efémeros e os duráveis – a terra onde esculpe e o papel fotográfico onde a obra final renasce com outra linguagem, com outro códigos visuais.
O portfolio apresentado por Vik Muniz no Museu da Electricidade é formado por dez trabalhos originais, feitos a partir de fotografias de Amália Rodrigues, Fernando Pessoa, António Damásio, Siza Vieira, Cristiano Ronaldo e José Saramago e quatro paisagens.
“Fê-los com humildade e um grande fascínio por Portugal. É uma das primeiras encomendas que Vik Muniz faz a nível mundial. É um privilégio”, disse há dias Albano Silva Pereira na apresentação do projecto. “Quando ele me pediu terra portuguesa percebi o rigor do trabalho. Criou volumes e texturas à volta da terra. Depois devolveu os materiais à fotografia”, acrescentou.
O livro que acompanha a mostra tem textos de Clara Ferreira Alves, Delfim Sardo, Régis Durand e Shelley Rice.

Álvaro Siza, 2007 (© Vik Muniz)

A Terra e a Gente, Vik Muniz
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 16 de Dezembro

16 outubro, 2007


entre aspas


Milagre do Sol, 13-10-1917
(© Santuário de Fátima)

Não podemos conceber as aparições de Fátima num registo fotográfico

D. António Marto, bispo de Leiria, Público, 14-10-2007



Multidão de peregrinos, 13-08-1934
(© Santuário de Fátima)

14 outubro, 2007

Inês d`Orey

Inês d`Orey
(© Adriano Miranda/Público)

um olhar fotográfico
moldado pela arquitectura

Nas Finanças Inês d`Orey está inscrita em duas profissões: “actividades fotográficas” e “outros artistas”. É uma separação que a máquina de cobranças do Estado julga necessária existir entre o trabalho conceptual e o trabalho comercial de alguém que simplesmente quer fazer da fotografia... um trabalho.

Lá na repartição onde a fotógrafa do Porto entrega as declarações de rendimentos, as senhoras atrás do balcão, conta, também demoraram a encaixar este golpe burocrático entre duas abordagens da imagem vindas do mesmo obturador, mas no final sempre se chegou a uma conclusão.

Hoje, a distinção entre “uma” e “outra” fotografia existe de facto na papelada. Mas na cabeça de Inês nem por isso. Prefere misturá-las. E dizer que se complementam. Ou melhor: que sem “uma” (a comercial) se calhar não estaria a fazer a “outra” (a conceptual). E que sem as duas, bem juntas, não teria chegado ao Porto Interior, o projecto com que ganhou o prémio Novos Talentos FNAC Fotografia 2007.

Foi com este trabalho que saiu à procura de um certo tipo de espaços na cidade onde nasceu e cresceu. Saiu à rua. E entrou. Meteu-se em lugares urbanos talhados para o uso e usofruto, espaços públicos ou semi-públicos, habitualmente com gente dentro, mas que Inês preferiu registar sem vivalma. Lugares de um Porto intramuros pelos quais tenta encontrar explicações para sentimentos como a “solidão”, o “abandono” e a “nostalgia”.

Nessa busca - às vezes um reencontro com cenários que lhe eram “familiares”, às vezes uma descoberta de cenários que lhe eram “estranhos” — serviu-se da ferramenta mais importante para os fotógrafos para além da luz — o olhar.

O olhar com que viu este “Porto Interior” Inês afirma tê-lo encontrado há pouco tempo. E não foi em cursos, especializações, conferências, “workshops” ou seminários. Foi no trabalho dito “comercial” que esteve a fazer para um estúdio de fotografia de arquitectura durante ano e meio.

A partir daí começou a encontrar “interesse e beleza” em espaços que antes lhe passavam ao lado. Esta atenção especial para com as formas, os volumes e as linhas da arquitectura funcionou como uma verdadeira “formação” e moldou o tipo de fotografia que quer fazer nos próximos tempos.

O género de fotografia “vazia” que agora mais lhe interessa no campo conceptual, o gozo pela “sensação da ausência de pessoas”, parece muito distante das imagens de teatro, com muitas personagens, rostos e expressões, que formaram o seu primeiro interesse pela imagem fotográfica.

Quando entrou para Relações Internacionais, Culturais e Políticas da Universidade do Minho, em Braga, Inês imaginou-se, no final do curso, a trabalhar “numa organização internacional qualquer”, mas nunca pensou que estaria de malas feitas para Inglaterra rumo a um bacharelato em fotografia no London College of Printing.

A “revelação” para a fotografia começou de uma maneira clássica — com a revelação de
fotografias dentro de uma sala escura. As primeiras imagens que lhe foram surgindo no
papel sensibilizado causaram “entusiasmo” e uma “emoção enorme”. Começou então a seguir o trabalho do Teatro Universitário do Minho, e depois as peças de outras companhias que faziam espectáculos em Braga. Foram estas imagens que lhe deram a primeira exposição em Portugal, uma colectiva integrada nos Encontros da Imagem de Braga, em 1999.

Inês gosta do cénico e do encenado. Não se sente próxima da espontaneidade do acto fotográfico. Diz que prefere amadurecer as ideias, “pensar bem” naquilo que vai fazer a seguir. “Não gosto de apanhar o momento. Não é isso que me interessa. Nas, férias, por exemplo, não tiro fotografias”.

As imagens que concretizou na capital inglesa foram sobretudo projectos de longo prazo pedidos pela escola. Confessa-se “pouco produtiva”, mas garante que é rápida a executar uma imagem depois de reflectir sobre ela e de a ter isolada em abstracto na cabeça.

No fim do curso em Londres pediu a 12 mulheres portuguesas que escolhessem um objecto e que escrevessem um texto sobre ele. Fez um retrato de cada uma e juntou os três elementos num tríptico. Daqui nasceu a primeira exposição individual em Portugal, no Artes em Partes do Porto, em 2002.

Depois da experiência londrina, tentou assentar em Lisboa. O problema é que durante a meia dúzia de meses que viveu ao lado do Tejo “não se passou nada”. “Fiquei sem inspiração. Não aconteceu nada”, lembra com uma ponta de mágoa.

De regresso ao Norte, surgiu a oportunidade de trabalhar em fotografia de arquitectura. Agarrou o desafio e transformou-o no principal motor das duas abordagens com que leva a cabo o seu trabalho, agora já por conta própria.

Se houve anos marcantes para Inês d`Orey, 2007 foi um deles. E não foi só o prémio FNAC: nos primeiros meses do ano, um dos seus portfolios, Ditados Velhos São Evangelhos, ficou entre os 60 seleccionados para a fase final do prémio Descubrimientos do PhotoEspaña 2007, um galardão ao qual concorreram mais de 600 propostas. Na sequência da visibilidade que ganhou aí, já levou outros trabalhos, também este ano, para a Alemanha (Reality Crossings) e para a Lituânia (Segredos, Mistérios e Ilusões).

Para ano, vai dizendo a medo, pode haver uma surpresa num grande festival de fotografia em França. Aguardemos.

(Perfis do Futuro, in Pública, 14-10-2007)

Para ler a conversa completa com Inês d`Orey clique aqui.

Inês d`Orey
(© Adriano Miranda/Público)

Porto interior
FNAC NorteShopping, Porto

Até 4 de Janeiro

12 outubro, 2007

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Sharon Lockhart, Untitled, 1996
(© The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)

»»Mário Martins andou por Nova Iorque e fartou-se de ver exposições de fotografia. Aqui ficam as suas sugestões:

»» Aperture Gallery, Lisette Model & her successors, "com fotografias, além da própria Lisette, de Diane Arbus, Bruce Weber, Lynn Davis, Larry Fink, Elaine Elliman, Peter Hujar, Leon Levinstein, entre outros. Muito bem apresentada e com fotografias significativas. Além disso, a galeria tem uma excelente livraria".

»» International Center of Photography, This is WAR! Robert Capa at World e Gerda Taro, "duas excelentes exposições" acompanhadas de "cartazes e revistas sobre a fotografia e o papel da mulher na Guerra Civil de Espanha. Tem também uma óptima livraria".

»» Galeria Deborah Bell Photographs, Garry Winogrand

»» Metropolitan Museum, Depth of Field: Modern Photography at the Metropolitan

Gerda Taro, Marines playing musical instruments on board the battleship Jaime I, Almería, Espanha, 1937
(© International Center of Photography)

Garry Winogrand, Diane Arbus, Love-in, Central Park, Nova Iorque, 1969

partilhar

Pormenor de retrato do estúdio de Emílio Biel, Porto, ca. 1900
(© Colecção Particular)

Faltava partilhar convosco estes dois retratos do Porto, um da Photo Beleza e outro do mítico estúdio de Emílio Biel. Descobri-os durante as férias, no meio de muita papelada e material de filatelia.
Encontro nestes olhares uma inocência perdida em relação ao acto fotográfico. Encontro neles mais qualquer coisa que entretanto se perdeu. Nem sei bem o quê. Talvez sejam capazes de descobrir melhor do que eu.


Retrato do estúdio de Emílio Biel, Porto, ca. 1900
(© Colecção Particular)


Retrato Estúdio Photo Beleza, Porto
(© Colecção Particular)

11 outubro, 2007

Alexandra Boulat (1962 - 2007)

Alexandra Boulat

Morreu a fotojornalista francesa Alexandra Boulat, vítima de um aneurisma. Boulat, que tinha 45 anos, cobriu vários conflitos em todo o mundo (Médio Oriente, Afeganistão, Iraque e antiga Jugoslávia), mas nos últimos meses de trabalho focou a sua objectiva em Ramallah, na Faixa de Gaza. Publicou imagens em jornais e revistas como a “Time”, “Newsweek”, “New York Times Magazine”, “Guardian”, “National Geographic” ou “Paris Match”. Até 2000 esteve ao serviço da agência Sipa e depois ajudou a fundar a agência VII. A condição feminina no mundo islâmico foi um dos temas de eleição do seu trabalho.

Para ver galerias fotográficas com o trabalho de Alexandra Boulat clique aqui e aqui.

Refugiadas afegãs
(© Alexandra Boulat)


entre aspas

Manifestação anti-imperialista de 2 de Julho de 1954

Pela primeira vez na minha vida, pus um lenço na cabeça sem reparar que estava todo amarrotado.
Podia sentir com exactidão o meu rosto cavado pela dor, a chuva daquele dia cinzento insinuando-se nos sulcos. Nenhuma maquilhagem. Para quê? Não tenho coragem de me armar em
coquette. De qualquer maneira, não teria iludido ninguém sobre o meu estado. Já não tenho coragem para nada, nem mesmo para sofrer.
Diego empurrava a minha cadeira de rodas.
Quis ainda acreditar que há causas mais importantes do que a minha invalidez, do que os meus tormentos. Causas superiores, ao lado das quais os meus males são coisa de pouca monta. De qualquer modo, vendo bem, assim destroçado, o meu corpo já não é digno de interesse.
É preciso sacrificar o individual à grandeza de causas mais universais. Duvidar disto seria um crime contra a humanidade. Acredito nisto.
Olho para uma fotografia minha tirada durante a manifestação.
Tenho ar de quê? O desespero ambulante. A minha cara não traduz senão tristeza.
Não há senão sombras no quadro.
Dramatis personae.
Vou rasgar esta fotografia. Não. Não tenho força para o fazer.


Rauda Jamis, Frida Khalo, Quetzal

10 outubro, 2007

fora II

Momentos estelares. Las fotografia en el siglo XX
(© Sandy Skoglund)

Há cinco anos Hans-Michel Koetzle, escritor, crítico e redactor-chefe da revista Leica World, deu início a uma tarefa enciclopédica de selecção dos nomes de alguns dos mais importantes fotógrafos do século passado. O resultado dessa empreitada, com critérios sempre discutíveis, já foi publicado na Alemanha (Das Lexicon der Fotografen). O Círculo de Bellas Artes de Madrid decidiu agora editar o livro em castelhano e chamou-lhe La Fotografia en el Siglo XX. Em paralelo com a edição da obra, o CBA pediu a Koetzle e a Olivia María Rubio, antiga directora artística do PhotoEspaña e actual responsável pelas mostras da galeria La Fábrica, para comissariarem uma exposição onde estivessem representados os “momentos”, “correntes” e “movimentos” que marcaram os últimos cem anos do milénio que acabou.

O livro pode ser descarregado em formato pdf aqui.
Para fazer uma pequena visita virtual à exposição clique aqui.

Momentos estelares. Las fotografia en el siglo XX
Círculo de Bellas Artes, Madrid
Até 18 de Novembro

Momentos estelares. Las fotografia en el siglo XX

08 outubro, 2007

fora I

Timothy H. O’Sullivan, dunas de areia, Carson Desert (Nevada), 1868, albumina
(© BnF/Société de Géographie, Paris)

Parece muito interessante esta exposição sobre os fotógrafos que, na segunda metade do século XIX, deram início à exploração do Oeste norte-americano, cheio de paisagens imponentes, aqui e ali habitadas por índios. Era um território mal conhecido pela objectiva fotográfica por causa da guerra de Secessão americana. Dois anos depois do fim da disputa entre norte e sul (1861-1865), o governo federal envia várias expedições oficiais para explorar os estados do Oeste, missões que podem ser consideradas precursoras do célebre projecto fotográfico da Farm Security Administration. O equipamento de fotografia acompanha os expedicionários e traz imagens de uma terra virgem, rica em recursos naturais, que serão divulgadas por todo o país em grandes formatos e vistas estereoscópicas. Neste conjunto, que tem a particularidade de vir na totalidade de colecções públicas francesas, estão representados os parques de Yosemite, Yellowstone e o Grand Canyon. Aparecem também retratos menos conhecidos de nativos americanos.
Visions de l’Ouest:photographies de l’exploration américaine, 1860-1880 reúne uma centena de tiragens originais de fotografias da autoria de Carleton Emmons Watkins, Timothy H. O’Sullivan, William Henry Jackson, Antonio Zeno Shindler, Alexander Gardner, John Karl Hillers, Andrew Joseph Russell e William Bell. A exposição mostra ainda vistas estereoscópicas, gravuras feitas a partir de fotografias, relatórios oficiais e vários outros documentos da época.

Visions de l’Ouest: photographies de l’exploration américaine, 1860-1880
Museé d`art américain de Giverny
Rue Claude-Monet, 99, Giverny, França
Até 31 de Outubro

03 outubro, 2007

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

© David Gagnebin

»»Luís Maio andou por Genebra por estes dias e trouxe duas sugestões na mala, ambas do Centre de la Photographie.

De Bons de Mémoire, de David Gagnebin, é "uma exposição de fotografias que dão origem a textos que dão origem a imagens".

I Fell it All, de Guadalupe Ruiz, "demonstra uma implacável precisão na observação dos códigos sociais".

© Guadalupe Ruiz


Centre da la Photographie
Rue des Bains, 28, Genebra
Até 21 de Outubro

02 outubro, 2007

aprender II


Centro Português de Fotografia
(© Paulo Pimenta/PÚBLICO)

Mais uma boa iniciativa do Centro Português de fotografia, desta vez voltada para a formação na área dos arquivos de fotografia e reflexão sobre os problemas aliados à vida das fotografias na internet. Há dois workshops agendados, um dos quais em Lisboa e Porto.

»» Organização e disponibilização de informação em arquivos fotográficos

Porto (sede do CPF): 18 de Outubro de 2007 (10h00-12h30h/14h30 - 17h30)

Lisboa (sede da DGARQ): 25 de Outubro de 2007 (10h00-12h30/14h30 - 17h30)


»» Disponibilizar informação na Web: problemática e desafios

Porto (Sede do CPF): 30 de Outubro de 2007 (10h00 - 12h30/14h30 - 17h30)


Toda a informação sobre os programas e o boletim de inscrição estão disponíveis no site do CPF aqui

01 outubro, 2007

aprender

(© Bárbara Assis Pacheco, 1º Curso de Fotografia FCG)


Estão abertas até 15 de Outubro as inscrições para o 2º Curso de Fotografia promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian. As aulas decorrerão entre 11 de Fevereiro e 18 de Abril do próximo ano. A organização dividiu o plano de estudos em três núcleos principais, a saber: “produção fotográfica, discussão crítica e sistemática sobre as questões relevantes da fotografia contemporânea e a produção dos projectos individuais". O curso destina-se "a todos aqueles já com alguma experiência na prática artística da fotografia e, preferencialmente, com uma idade mínima de 22 anos e máxima de 35 anos". A coordenação está a cargo do professor, investigador e comissário Sérgio Mah. A equipa de formação incluirá ainda Carol Squiers (escritora, editora e curadora), Horacio Fernández (professor, comissário, curador e crítico), Lynne Cohen (fotógrafa e professora), Oliver Richon (fotógrafo e professor), Rosangela Rennó (artista visual) e Timm Rautert (fotógrafo).
Informações mais completas sobre o curso estão aqui.

29 setembro, 2007

aumentar

(© Andrees Latif/ Reuters)

Não é claro, nem nas fotografias nem no vídeo divulgados pelas agências internacionais, se foi o soldado birmanês mais próximo do jornalista Kenji Nagai a fazer o disparo que lhe tirou a vida quando trabalhava a cobrir as manifestações pro-democracia em Rangum. Acontece que a fotografia da Reuters que mostra o repórter nipónico estendido no chão com um militar de metralhadora em punho era demasiado apetecível para não se fazerem todo o tipo de adornos à sua volta.
Em todas as guerras, em todos os conflitos e em todas as revoluções os media esfalfam-se para encontrar uma imagem que condense o turbilhão de acontecimentos, uma imagem que fique como ícone desse lapso na marcha do tempo. Essa busca é de tal maneira voraz que muitas vezes se cometem todo o tipo de atropelos, principalmente o da falta à verdade. E não é só a dúvida em relação ao autor do disparo mortal que muitos atribuíram ao militar que corre de chinelos mesmo ali ao lado. Títulos bem respeitados (El País, Corriere della Sera) não hesitaram em escrever que Kenji Nagai mesmo no chão, em agonia, não parou de tirar fotografias ou filmar o que se passava à sua volta. Pelo que se consegue perceber do vídeo, o impacto do disparo fez com que Nagai tombasse de costas. O jornalista esbraceja depois instintivamente como quem pede ajuda. Daí a dizer que estava a tirar fotografias milésimos de segundo antes de morrer vai uma enorme distância.

27 setembro, 2007


entre aspas

Casamento de Frida e Diego, 1929
(Victor Reyes © Throckmorton Fine Art, Nova Iorque)

É impressionante o contraste entre as duas personagens. Frida, ao lado de Diego, tem um rosto quase infantil, com aquele olhar directo, impudente, que fixará sempre as objectivas dos fotógrafos sem pestanejar, tal como fixará os espectadores dos seus quadros. Diego, ao lado de Frida, parece ainda mais velho do que é, as feições pesadas, marcadas. Matilde tinha razão: uma pomba e um elefante.

Rauda Jamis, Frida Khalo, Quetzal

para a Galiza

Alberto García-Alix, El portero del cielo, 2001
(Alberto García-Alix © VEGAP)

As últimas exposições do PhotoEspaña já fecharam as portas em Madrid. Mas a organização encontrou uma forma de as abrir noutras paragens - na Galiza. Pontevedra, A Coruña, Lugo, Ourense e Santiago de Compostela recebem uma selecção de mostras do grande festival madrileno, numa louvável iniciativa descentralizadora. Cada cidade tem uma exposição individual que passou pelo PHE07 e todas acolhem um conjunto de projecções de fotografia organizadas em dois núcleos principais: Nuevas Propuestas (jovens artistas) e Nombres Proprios (nomes reconhecidos da fotografia espanhola e internacional).

»» Alberto García-Alix
Tres vídeos tristes
Sede da Fundación Caixa Galicia - Pontevedra
Até 2 de Dezembro

»» Sylvia Plachy
De reojo
Sede da Fundación Caixa Galicia - Lugo
Até 6 de Janeiro

»» Sebastião Salgado
África
Sede da Fundación Caixa Galicia - Santiago de Compostela
Até 2 de Dezembro

»» Man Ray
Despreocupado pero no indiferente
Sede da Fundación Caixa Galicia - A Coruña
Até 6 de Janeiro

»» Manuel Vázquez
Inverso urbán
Centro Cultural da Deputación de Ourense - Ourense
Até 2 de Dezembro

01 setembro, 2007

Gandy, a sereia - (férias)



Este homem em pose de lânguido veraneio a navegar sob as águas "azul-luz" da ilha de Capri marcou o ano do sempre irrequieto mundo da produção publicitária.

Por mais que nos pareça banal, nada nesta imagem foi deixado ao acaso. Salta à vista a pele bronzeada de um “macho latino” e com ele todos os estereótipos que lhe estão associados. Mas há também em toda envolvência desta figura apolínea uma carga de símbolos que fazem transbordar os campos da sedução, do erotismo e da luxúria.
O principal, que não é explícito, passa pelo cenário escolhido para a fotografia, a ilha de Capri. O local onde, de acordo com a mitologia greco-romana, viviam belas e ardilosas sereias, sempre à espera de marinheiros menos avisados para os seus dotes de encantamento fatal. E eram muitas estas filhas de Aquelos e da Musa Caliope. Algumas tinham dotes excepcionais, como Partenope, Leocósia e Lígia, nomenclatura grega que aponta para “candura”, “brancura” e “harmonia”. Foram atributos como estes que hipnotizaram muitos navegantes. E é talvez por causa deles, e de muitos outros associados ao prazer, ou à miragem do prazer, que Capri ficou conhecida como a ilha do amor.
A DOLCE & GABBANA quer vender-nos um perfume, o light-blue, e com ele um ideário associado à capacidade de conquistar e seduzir, de encantar até à cegueira como cega o azul deste mar. Parece que nos querem dizer que com este aroma no corpo se ganha a benção do deslumbramento e do amor a que dificilmente alguém resiste. A menos que se tomem medidas drásticas como fez Ulisses quando regressava da guerra de Tróia que, com medo de sucumbir à tentação do canto das sereias, mandou que o prendessem ao mastro do navio.

Não se sabe bem se este homem de tanga branca se deixou seduzir em Capri pelo canto de alguma sereia. Pelo que vemos, parece que não houve necessidade de se amarrar a nenhum mastro. E pelo frisson que causou, David Gandy, o modelo da fotografia, conseguiu ser mais sedutor do que seduzido.

Mal o anúncio saltou para as páginas dos jornais e para os outdoors, não faltaram perfis aprofundados sobre este “macho latino”, que afinal é um inglês do Essex. O jornal italiano La Repubblica classificou-o como o “mais desejado do Verão”. Uma das coisas que se diz é que o corpo de Gandy - musculado, bronzeado e com pêlos q.b. - marca uma nova viragem na maneira de mostrar o homem na moda, que até aqui andava mais colada ao dandy escanzelado, de olheiras marcadas e tuberculosa palidez.
Músculos ou falta deles à parte, a perspectiva e o enquadramento escolhidos para a fotografia deste anúncio são muito eficazes. A ideia, que já tem barbas e continua a funcionar não só na publicidade mas em outras áreas da fotografia, é fazer com que nos sintamos dentro da imagem. Neste caso, querem que nos sintamos dentro daquele barco e, de preferência, a tirar esta fotografia a David Gandy. Os cortes do braço, mão e pernas dão um ar de atabalhoamento amador e revelam a dificuldade do enquadramento, muito por culpa da falta equilíbrio que o comum dos mortais teria naquele insuflável no momento de carregar no botão.
E quanto mais olhamos, mais temos a sensação de que somos nós que estamos de pé, de máquina em punho. É uma típica fotografia de férias. É uma grande fotografia de Verão. Meio mundo gostava de a ter tirado. Parece que toda a gente a podia ter tirado. Mas não.

Quem não vai tirar fotografias para a ilha de Capri sou eu. De férias vou. Regresso lá para o fim de Setembro. Até logo.

30 agosto, 2007

Laden+Cristo+Bush

Bush, 2007, Jonathan Yeo
(Lazarides Gallery © Jonathan Yeo)

Há dois retratos com sopreposição de imagens a causar graves crises de urticária a mentes mais sensíveis. Um deles, concebido pela australiana Priscilla Bracks, funde os bustos de Ossama bin Laden e Jesus Cristo para criar um só rosto. O outro recria a cara de George W. Bush a partir de dezenas de recortes de revistas pornográficas e foi feito pelo inglês Jonathan Yeo.

Priscilla Bracks explica o seu trabalho aqui.
O site de Jonathan Yeo está aqui.
O Publico de ontem tem uma notícia sobre a polémica em torno da exposição do Blake Prize for Religious Art, onde está incluída a obra de Priscilla Bracks.

Bearded Orientals: Making the Empire Cross, Priscilla Bracks
(© Priscilla Bracks)

 fotografiafalada

Telhado, Serra do Barroso, Fevereiro de 1983
(© Georges Dussaud)

Havia uma casa com uma porta em ferro entreaberta. E como os fotógrafos são muito curiosos, espreitámos. Havia esta mulher, a quem pedimos para entrar. Ele preparava-se para peneirar a farinha de milho para fazer pão. Ela continuou o seu trabalho, com a cara coberta de farinha, e a sua filha veio contra ele. É uma cena que me faz lembrar a pintura holandesa, com a luz rasante, que desenha os utensílios, e a mulher curvada. É um quadro que me toca. A relação humana e a beleza da luz contêm algo que é pictural.

(Georges Dussaud)

Depoimento recolhido por Sérgio C. Andrade, Público, 23.07.2007

Retrospectiva de Georges Dussaud
Centro Português de Fotografia

Campo Mártires da Pátria, Porto
De ter. a sex., das 10h00 às 12h30 e das 15h00 às 18h00
.
Sáb., dom. e feriados das 15h00 às 19h00
Entrada livre
Até 16 de Setembro

ressacar

Ressaca
(© António Júlio Duarte)

Em resposta à bebedeira de cor que andou à solta pelo país durante o Euro 2004, António Júlio Duarte mostra-nos o dia depois, a Ressaca, em tons de cinza flashados. É a imagem de um país eufórico, desregrado, em transe futebolísco. É, logo ali, pouco depois, a imagem de um país desolado, atarantado, sujo e vazio, a chorar baba e ranho, pelo que podia ter sido e não foi.
António Júlio Duarte andou muito perto de quem e do que quis fotografar, como é seu timbre. Muito perto e de flash ligado, para contornar com uma auréola de luz branca aquilo que mais quis revelar – a expressão de sentimentos contraditórios em perenes lapsos de tempo.
Ressaca é a segunda parte de um projecto iniciado com Uma Cidade de Futebol, exposição mostrada na Cordoaria, em 2004, também com trabalhos de Paulo Catrica, comissário, e Pedro Letria.

Ressaca, de António Júlio Duarte
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Rua da Palma, 246
De ter. a sáb., das 10h00 às 19h00
Até 13 de Setembro

29 agosto, 2007

 fotografia guiada

Centro Português de Fotografia
(© Paulo Pimenta)
E eis que, de repente, parece que o Centro Português de fotografia acordou de um certo entorpecimento. As tais “reorganização dos serviços” e “rentabilização de efectivos”, anunciadas há duas semanas, não páram de nos surpreender. Depois de um horário ligeiramente alargado, agora, o CPf propõe visitas guiadas ao edifício da Cadeia da Relação e às exposições, no terceiro sábado de cada mês. Nada mal.
O CPf avisa que os interessados em ver fotografia com guias implica uma pré-inscrição até às 12h30 do dia anterior à visita.

Nas datas propostas haverá sempre dois horários para esta iniciativa:
»»Das 15h00 às 16h30
»»Das 17h00 às 18h30

As próximas visitas, sujeitas a um número máximo de 25 participantes, são a:
»»22 de Setembro
»»20 de Outubro
»»17 de Novembro
»»15 de Dezembro


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28 agosto, 2007

rever o nu

Spencer Tunick fotografa no glaciar de Aletsch
(© AFP)

Parte da última crónica de Eduardo Cintra Torres no Público (Imagens a nu) fala do mais recente happening fotográfico idealizado por Spencer Tunick no glaciar de Aletsch, na Suíça.

O crítico de televisão denuncia a falta de novidade destas grandes esculturas humanas sem roupa e refere a inexistência de fotografias do próprio Tunick sempre que as notícias nos diversos suportes falam de alguma das suas criações artísticas. Ou seja, as imagens que acompanham o noticiário sobre as movimentações do fotógrafo americano pelo mundo são da autoria de fotojornalistas e operadores de câmara de agências internacionais e nunca de quem concebeu, preparou e concretizou a imagem primeira que esteve na origem desse noticiário.

Cintra Torres acha isto "curioso". Eu acho normal.

Normal porque a notícia, para a esmagadora maioria dos media, é a conjungação simultânea dos factores "multidão", "nu" e "espaço público", como o próprio Eduardo enumera no texto e aos quais eu acrescento os factores "insólito" e "desconforto". Tudo dentro do saco da arte, caso contrário dificilmente a mega concentração de pêlos púbicos entraria na televisão à hora de jantar.

A notícia não é a fotografia ou as fotografias de Tunick como processo criativo ou como objecto de arte, até porque aí, goste-se mais ou menos, não há grande novidade, como o crítico também nota e documenta. A notícia não é a fotografia de Tunick - eventualmente vendida em galerias de Nova Iorque ou Londres sem que antes alguém lhe ponha a vista em cima -, mas a concretização de uma ideia bizarra que tem como um dos ingrediente a nudez colectiva.

Parece-me claro que é esta mole de carne em pose estudada que espicaça os media e não o génio criativo de Tunick. Ou alguém está a ver os pivôs do Jornal da Noite da TVI a lançarem uma peça sobre o conceito de nudez na tradição judaico-cristã e sua influência na dessacralização do corpo em Spencer Tunick?

(A crónica de Eduardo Cintra Torres está aqui.)

Spencer Tunick fotografa no glaciar de Aletsch
(© Laurent Gillieron/EFE)

27 agosto, 2007

fora II

Jindřich Štyrský (1899–1942), Souvenir, 1924
(© Národní galerie v Praze, Praga)

Entre guerras mundiais, a modernidade na fotografia instalou-se na Europa Central como em nenhuma outra parte do globo. Suporte de experimentação por excelência para uma legião de amadores recém promovidos aos salões, símbolo de modernidade para os artistas "progressistas", a fotografia conheceu neste período um protagonismo inusitado também muito por culpa da forma como se alojou em revistas, jornais, cartazes de publicidade e propaganda e livros.
A exposição Foto: Modernity in Central Europe, 1918-1945 (National Gallery of Art, Washington) propõe-se recuperar "o papel preponderante desempenhado pela fotografia" neste período e explicar "o seu contributo para delinear o modelo de modernidade da Europa Central".
A mostra está dividida em oito núcleos temáticos, a saber:

»»The cut-and-paste world: recovering from war
»»Laboratories and classrooms
»»Modern living
»»New women - new men
»»The spread of surrealism
»»Activist documents
»»Land without a name
»»The cut-and-paste world: war returns

Sasha Stone (1929 – ), Erwin Piscator Entering the Nollendorf Theater, Berlin (detalhe)
(© Sasha Stone)

Karel Kašpařík, Why?, ca. 1935
(© Moravská galerie, Brno)

Foto: Modernity in Central Europe, 1918-1945
»»National Gallery of Art, Washington, até 3 de Setembro
»»Solomon R. Guggenheim Museum, Nova Iorque. De 12 de Outubro a 13 de Janeiro (2008);
»»The Milwaukee Art Museum. De 9 de Fevereiro a 4 de Maio (2008);
»»The Scottish National Gallery of Modern Art, Edimburgo. De 7 de Junho a 31 de Agosto (2008)

O catálogo desta exposição está à venda na Fnac.


entre aspas

Retrato, Photo Chic, Porto, ca. 1913
(© colecção particular)

Tudo poderia ter resultado, tudo poderia ter sido de outra maneira, mas há uma abominável sensatez que manda reorganizar o mundo a partir do que ele é e não a partir do que ele poderia ter sido. Conservo retratos, evidentemente, mas pertencem àquela categoria de objectos que não cabem em nenhum catálogo nem servem para reconstruir uma biografia. Os amores passados são sempre amores de Verão.

António de Sousa Homem, Ventos de Agosto, Notícias Sábado

24 agosto, 2007

fora

Roger Mayne, Girl Jiving in Southam Street, 1957
(V&A Images/Victoria and Albert Museum, © Roger Mayne)

How We Are – Photographing Britain é a maior exposição de fotografia alguma vez organizada na Tate Britain, em Londres. A partir de um pressuposto identitário faz-se um percurso pelos processos e impressões pioneiros até aos mais recentes suportes e formas de criação fotográficas. O objectivo é reflectir sobre o que foi e o que é ser britânico. A Tate garante que foi buscar documentos e obras a todos os pontos do Reino Unido. Para além dos nomes históricos e consagrados, como William Henry Fox Talbot, Lewis Carroll, Julia Margaret Cameron, Angus McBean, Bill Brandt, David Bailey ou Martin Parr, a Tate seleccionou também nomes menos conhecidos “e que nunca aparecem nas histórias da fotografia britânicas”. Para complementar esta viagem pela “identidade britânica”, a Tate destaca ainda o trabalho das mulheres fotógrafas e memorabilia diversa que inclui postais, álbuns de fotografia, fotografias médicas, cartazes publicitários, propaganda e documentos sociais.
Uma das novidades interessantes desta exposição é que ela não acaba nas paredes da Tate – continua na net através do Flickr, o sítio da comunidade de fotografia mais popular da rede. How We Are Now convida todos os visitantes a darem o seu contributo para o conteúdo da mostra enviando os seus trabalhos para este espaço.
O jornal da Tate pediu a uma série de escritores, curadores e fotógrafos a reflectirem sobre algumas imagens da exposição. O resultado desse exercício está aqui.

Para folhear álbuns de fotografia antigos da exposição clique aqui.
Para ver exemplos de trabalhos enviados para o Flickr clique aqui.


Homer Sykes, Caking Night Dungworth, Yorkshire, 1974
(© homer@homersykes.com)

Elaine Constantine, Mosh, 1997
(© Elaine Constantine)

23 agosto, 2007

saldos

Eyes of Memory,
Photographs from the Archives of Herbert & Leni Sonnenfeld

O site americano da Yale University Press está a fazer descontos de 50 por cento em alguns livros de fotografia do seu catálogo. Há obras de grande qualidade a preços muito convidativos. O único senão é que a editora não faz envios para a Europa. Uma maneira de contornar este problema é encomendar via alguém de confiança nos EUA ou em qualquer um dos países listados no site. É o que eu vou fazer.

Os livros em saldo estão aqui.


Stieglitz,
A Beginning Light, de Katherine Hoffman

22 agosto, 2007

ficar

Rui Costa
(© Miguel Vidal/Reuters)

Impressionou-me muito esta fotografia de Rui Costa.

O momento captado mostra o médio do Benfica no Estádio da Luz depois de ter marcado o segundo golo contra o FC Copenhaga. A expressão de Rui Costa é enigmática. De certa forma, também é reveladora de uma maneira particular de estar no futebol, íntegra e apaixonada. Não consigo recordar com rigor o antes e o depois deste instantâneo. Vi os golos em repetição televisiva. Vi o jogo a espaços. Ainda assim arrisco uma leitura deste rosto de grito contido, de herói carismático.

Rui Costa não é um jogador novo (muitos com a sua idade já penduraram as botas). Já não é um jogador rápido. E aguenta com dificuldade os 90 minutos de uma partida. Mas tem, dos pés à cabeça, duas características que o transformam num jogador raro nos relvados portugueses: experiência e inteligência.

Durante a pré-época, e até antes de assinar de novo pelo clube que o lançou, soaram daqui e dali críticas à aposta na sua continuidade como um dos pivôs do jogo do Benfica do meio campo para a frente. No primeiro jogo oficial do clube da Luz esta época, parece que Rui Costa foi um dos poucos a remar contra a maré, ou seja, a remar contra a mediocridade em que está mergulhada a sua equipa. A tal ponto que vi escrito em algum lado que não foi o Benfica que ganhou o jogo contra o Copenhaga, mas sim Rui Costa. Dois remates certeiros de fora da área no mesmo jogo não acontecem muitas vezes. Aconteceram a Rui Costa nesta partida porque, creio, ele era um jogador acossado na sua dignidade. Os golos de longe não são uma novidade nos seus pés. Mas estes revestiram-se de uma importância particular, porque significaram não só uma esperança, ainda que vaga, da continuidade da sua equipa na Liga dos Campeões, mas também o reafirmar da sua classe como jogador e a reposição da sua honra no relvado.

Esta expressão grave, de dentes cerrados, revela um jogador ferido que foi obrigado a recuperar o brilho fazendo extraordinariamente bem aquilo que sempre soube fazer bem, ultrapassando-se.
Este rosto ainda queimado pelo sol das férias relembra a parangona que diz “quem sabe nunca esquece”, ainda que nos pés venha ainda colada alguma areia fina das praias do Algarve.
Esta cara de alegria travada, de alegria que parou antes de chegar à garganta, mostra um jogador renascido e de novo amado por aquilo que é e por aquilo que sabe fazer, sem grandes piruetas nem mortais à retaguarda.
Esta cara tem um olhar incerto, abstracto, para lá do círculo do estádio. É um olhar perdido de alguém que foi reencontrado por milhares em êxtase à sua volta, por milhões a olhar para si.
Esta cara é quase a ausência de emoção no meio do turbilhão de emoções que rebentam depois da bola entrar na baliza. É também uma cara de pequena vingança para quem menosprezou, espezinhou e foi malcriado. É a cara de um homem que, num momento de comunhão e adrenalina total, quis ficar só. Como quem enfrenta a besta sem gritar pela 7ª Companhia.

E, contudo, não é a primeira vez que Rui Costa remata de muito longe um tiro certeiro para repor o seu brio, para nos mostrar a entrega com que veste a camisola. Aconteceu nos quartos-de-final do Euro 2004 contra a Inglaterra, quando era um dos mal-amados da selecção. Aconteceu quando marcou o terceiro golo de Portugal, um golo decisivo numa vitória histórica. Aí, lembro-me bem, Rui Costa abriu os braços, fechou os punhos e gritou.

Foi só uma forma diferente de dizer: “contem comigo, estou aqui!”.


20 agosto, 2007

culpar

(Imagem TVI)

Ao ler uma crónica recente do Miguel Gaspar sobre a relação dos media com o caso Madeleine lembrei-me de uma imagem que o Jornal de Notícias decidiu, em má hora, estampar na primeira página de 7 de Agosto, numa altura em que surgiram pistas novas a propósito do desaparecimento da menina inglesa. O texto do Miguel reflecte sobre a tentação geral dos media de transformarem “notícias em narrativas” manipulando e ligando de forma irresponsável “elementos de verosimilhança a crenças inconscientes ou a preconceitos”. E fala também da facilidade com que se transformaram os pais de Madeleine McCann em eventuais criminosos, quando, muito pouco antes, eram heróis de escala mundial.
É claro que, para além do que se escreve, a forma e o conteúdo do que se vê contribuem, muitas vezes de uma maneira implícita, para a construção de juízos individuais que se vão moldando de acordo com vários condicionantes, neste particular, o tempo que já leva o caso, a informação disponível e a informação diponibilizada (imagem fotográfica, televisiva ou outras, incluídas).
Numa altura em que se falava de novas pistas vindas do quarto onde dormia Maddie e se procuravam outras nos carros usados pelos pais e amigos do casal McCann, o JN decidiu usar na capa uma captura de ecrã de uma filmagem da TVI. Vemos Kate McCann de criança ao colo, cabisbaixa, face encostada ao ombro, cabelo em desalinho, olhar escondido por óculos de sol e atitude de quem não quer ser vista ou interpelada. Na mesma imagem há ainda o aspecto pixelizado e uma particular falta de nitidez, características típicas de uma captura de ecrã de televisão impressa em papel de jornal que dão à cena um élan de urgência, dramatismo e velocidade.
Apesar do pós-título afirmar que os pais de Maddie se tentavam refugiar da “exposição mediática”, a decisão de publicar esta imagem é altamente questionável. É questionável porque estão nela todos os condimentos de um grande sentimento de culpa e comprometimento que, neste momento particular, atiravam Kate para o grupo dos principais suspeitos pelo desaparecimento da própria filha. Isto sem que, à data, tivessem sido tornadas públicas quaiquer provas oficiais que apontassem nesse sentido. É pena que um jornal com a responsabilidade do JN tenha publicado esta imagem neste contexto. É pena que o director de fecho do JN nesse dia não tenha parado para pensar um pouco sobre o alcance da sua decisão. Miguel termina a sua crónica dizendo que o “povo português pode ficar feliz” porque “a hipermediatização tablóide” é “uma matéria em que somos mais aprendizes do que feiticeiros”. Bom, o certo é que, passo a passo, lá vamos saindo dos bancos da escola rumo ao púlpito do professorado.

Não vale a pena discutir a objectividade ou a subjectividade do jornalismo, quando o jogo assenta em desvalorizar que se sabe muito pouco e a construir um sentido, eventualmente forçá-lo, a partir do pouco que se sabe.

Miguel Gaspar


Primeira página do Jornal de Notícias de 7 de Agosto

19 agosto, 2007

 fotografiafalada


Lamacha, Serra do Barroso, Agosto de 1983
(© Georges Dussaud)

Foi num casamento de emigrantes. Fomos convidados. Isto aconteceu depois da boda, à tarde: havia um baile numa eira, e estas tinham sido as meninas das alianças. Isto foi uma espécie de prenda caída do céu para o fotógrafo: aquelas mulheres lá ao fundo – há um lado quase de quadro bíblico, com a apresentação do bebé, e o burro... Atrás decorria o baile popular.

(Georges Dussaud)

Depoimento recolhido por Sérgio C. Andrade, Público, 23.07.2007

Retrospectiva de Georges Dussaud
Centro Português de Fotografia

Campo Mártires da Pátria, Porto
De ter. a sex., das 15h00 às 18h00. Sáb., dom. e feriados das 15h00 às 19h00
Entrada livre
Até 16 de Setembro

17 agosto, 2007

WPP

Clint Eastwood, Damon Winter, EUA, Los Angeles Times
(3º prémio, categoria Retrato)
A romaria para ver as fotografias dos concursos World Press Photo e Prémio Fotojornalismo Visão/BES desloca-se este ano do CCB para o Museu da Electricidade, também em Belém. Alexandra Prado Coelho escreve hoje no P2 sobre algumas imagens que fazem parte da mostra e conta como os fotógrafos estão a abandonar a corrida do mostrar primeiro e andam cada vez mais à procura de ideias. Que é como quem diz, andam à procura de um olhar. Pode não ser diferente do resto, mas é preciso é que seja o seu.

A galeria com os vencedores deste ano está aqui.
Os textos do P2 de hoje estão aqui e aqui.

Saparmurat Niazov, o "Pai de Todos os Turquemenhos", Nicolas Righetti, Suíça, Rezo
(1º prémio, categoria Histórias)

 
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