22 março, 2007

recta final

Foi hoje divulgada a composição do júri do Prémio Fotojornalismo Visão 2007: MaryAnne Golon, Kadir van Lohuizen, Stanley Greene, Moises Saman.
O vencedor da sétima edição do galardão vai ser conhecido no dia 30 de Março, durante uma cerimónia no Centro Cultural de Belém. Um dia depois, às 16h00, no mesmo espaço, haverá uma conferência subordinada ao tema Fotojornalismo Hoje. O painel de conferencistas é o mesmo do júri do concurso.
O Prémio Fotojornalismo Visão é a maior distinção portuguesa na área da fotografia de imprensa. A edição deste ano recebeu um número de candidaturas recorde: 215 fotógrafos; mais de 6000 fotografias. Há sete categorias a concurso: Reportagem, Vida Quotidiana, Notícias, Retrato, Desporto, Espectáculo e Natureza. O prémio e de 2500 euros. O júri escolhe ainda a fotografia merecedora do Grande Prémio, no valor de 15 000 euros.

A organização do concurso fez um resumo da actividade de cada um dos elementos do júri:



MaryAnne Golon
Directora de fotografia da revista Time desde este ano. Trabalhou na mesma publicação como editora desde 1983. Liderou a equipa de fotógrafos que produziu as edições especiais do 11 de Setembro de 2001 e do furacão Katrina, ambas vencedoras do National Magazine Award para edições sobre um único tema. Individualmente, Golon já levou para casa vários prémios de fotografia da Pictures of the Year International (POYi) e da National Press Photographer’s Association (NPPA’s). Fez parte do júri do World Press Photo várias vezes, assim como de outros prémios internacionais de fotografia. Participa pela terceira vez no Prémio Fotojornalismo Visão. Este ano aceitou ser presidente do júri.


Jean-François Leroy
Jean-François Leroy é director-geral do Visa Pour l’Image, um dos mais importantes e conhecidos festivais internacionais de fotojornalismo que todos os verões se realiza em Perpignan, no sul de França. Enquanto fotojornalista, foi repórter da agência Sipa e colaborou com as revistas Photo-Reporter, Le Photographe, Photo-Revue. Foi editor da revista Photo entre 1984 e 1987. Em 1989, no ano em que se comemoraram os 150 anos do anúncio da descoberta do daguerreótipo, produziu, com Yann Arthus-Bertrand, um retrato fotográfico da França, projecto a que chamaram 3 Jours en France. No mesmo ano, fundou o Visa Pour l’Image. Hoje, além de director do festival de Perpignan, Jean-François Leroy é presidente do Institut des Images e gere a empresa Images-Evidence, do grupo Hachette Filipacchi. Já recebeu o grau de Cavaleiro das Artes e das Letras.


Kadir van Lohuizen
Fotografou vários conflitos internacionais e assuntos ambientais. Um dos seus projectos mais recentes chama-se Diamond Matters e deu-lhe fama mundial. Trata-se de uma série de fotografias que revelam as condições de trabalho e conflitos que rodeiam o negócio altamente lucrativo dos diamantes. Diamond Matters é também uma exposição que tem percorrido galerias de todo mundo, e um livro, que retrata o caminho das pedras preciosas, das paisagens lunares e aluviais das minas da África Ocidental até às joalharias da 5ª Avenida em Nova Iorque. Ganhou vários prémios, incluindo o maior prémio holandês de fotojornalismo, de Zilveren Camera, e dois prémios no World Press Photo. Ganhou o prémio Dick Scherpenzeel por imagens tiradas na Serra Leoa em 2000. O projecto sobre os diamantes já lhe valeu também um prémio para jornalismo de investigação na Holanda e na Bélgica. No livro Rivers, reuniu o resultado de sete anos de trabalho ao longo de sete rios de vários continentes.


Stanley Greene
Desde a queda do muro de Berlim, em 1989, quando fotografou uma rapariga no alto do muro com uma saia verde, um blusão de cabedal e um capacete da polícia da Alemanha de Leste, que as imagens de Stanley Greene correm mundo. Mali, Mauritânia, a guerra e a fome no sul do Sudão, o rescaldo do acidente de gás em Bhopal, na Índia, as operações de assistência dos médicos sem fronteiras no Ruanda e no Zaire foram algumas das suas reportagens. Em 1993, Greene foi premiado no World Press Photo por fotografias do ataque ao parlamento de Moscovo. Envolveu-se num projecto fotográfico sobre a rebelião da Tchetchénia, para onde viajou mais de 20 vezes entre 1994 e 2003. Daí resultou o livro Open Wound: Tchetchenia 1994 to 2003 e o prémio Picture of the Year pela história Tchetchénia, publicada na revista do New York Times. Stanley Greene, membro da agência Vu desde 1991, ganhou vários prémios de fotografia, entre os quais o W. Eugene Smith Award em fotografia humanística, que lhe permitiu continuar o seu trabalho sobre a região do Cáucaso. Em Junho, publicará um novo livro, Chalk Lines: The Caucasus.


Moises Saman
Fotógrafo do jornal nova-iorquino New York Newsday, foi notícia em Março de 2003, enquanto Bagdad estava a ser bombardeada. Ele e mais quatro ocidentais foram presos pela polícia secreta de Saddam Hussein, acusados de espionagem e levados para a prisão de Abu Ghraib. Viveram oito dias com outros civis iraquianos presos pelo regime. Moises Saman tem fotografado vários conflitos dos últimos anos. Esses trabalhos já deram origem a dois livros, Just War (2006) e This is War: Witness to Man’s Destruction (2004), testemunhos da dor e destruição causadas pela guerra e a realidade vivida na Palestina, Afeganistão e Iraque. O seu trabalho tem sido exposto em galerias na Europa e EUA. Nascido no Peru e com apenas 33 anos, Moises Saman já recebeu importantes galardões de fotojornalismo. Só este ano, ganhou prémios de duas instituições diferentes. Recebeu quatro distinções do New York Press Photographers Association e duas do World Press Photo, com reportagens sobre as eleições presidenciais no Haiti e a vida quotidiana no Afeganistão.

21 março, 2007

desafinado (para X.)

Karl Blossfeldt, Laserpitum siler (© Estate of Karl Blossfeldt)

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo mentindo devo argumentar
Que isso é bossa nova, que isso é muito natural
O que você não sabe, nem sequer pressente
É que os desafinados também tem coração

Fotografei você na minha Rolleiflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar, viu!
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados,
No fundo do peito, bate calado...
No peito dos desafinados
Também bate um coração!

Tom Jobim

(hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia)

20 março, 2007

o pesadelo de Carter

Kevin Carter, Sudão, 1 de Março de 1993 (© CORBIS/Sygma)

O abutre espera pacientemente o momento para atacar o corpo em agonia de uma criança sudanesa. O fotógrafo, também predador, espera um momento certo para o disparo que garanta o maior dramatismo, o maior impacto à imagem.
Esperam.
Esperam ambos.
No impasse, o fotógrafo desiste, capta a espera do outro e vai-se embora.
Esta fotografia valeu ao sul-africano Kevin Carter um prémio Pulitzer em 1994. Desde que foi publicada na capa do New York Times, transformou-se no seu maior pesadelo. Para onde quer que se voltasse soava a pergunta: e depois, o que é que fizeste para ajudar a criança?”. Carter não fez nada e essa decisão acabou por lhe toldar a lucidez e levá-lo ao suicídio, no mesmo ano em que foi galardoado.
Kevin Carter começou a carreira como fotojornalista em 1984 no The Johannesburg Star. Retratou o apartheid a partir dos locais mais violentos e perigosos dos arredores da capital sul-africana. Desde a libertação de Mandela, em 1990, até à paz e democracia, em 1994, testemunhou a demência assassina que se instalou em bairros como o Soweto, Tokoza e Katlehong, a lado de outros três fotojornalistas, a saber Ken Oosterbroek, Greg Marinovich e João Silva, um grupo que ficou conhecido por “Bang Bang Club”.
John Carlin, jornalista inglês destacado pelo The Independent para cobrir o conflito sul-africano, traça no El Pais o percurso de Carter e explica como, nestes cenários, se perde a compaixão.

O espanhol Canal + transmite o documentário The Death of Kevin Carter: Casualty of the Bang Bang Club (Dan Krauss, 2004) no sábado, dia 24, às 21h30.
O site oficial do filme, produzido pela HBO, está aqui.
A entrevista com Dan Krauss pode ser lida aqui.


Kevin Carter

17 março, 2007


entre aspas

Diane Arbus, Girl with a Watch Cap, Nova Iorque, 1965
(© Cook Fine Art )

Acho que tiro fotografias porque existem coisas que ninguém seria capaz de ver a menos que eu as fotografasse.
Diane Arbus

Double Exposure, A Moment With Diane Arbus Created A Lasting Impression. Artigo de David Segal, Washington Post, sobre Diane Arbus.



Diane Arbus, Teenager with a baseball bat, Nova Iorque, 1962
(© Silverstein Photography)

16 março, 2007

lisboa

Lisboa, Rua do Arsenal, 1858, Colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior
(© CNF 2705_26, CPF/MC)

O Centro Português de Fotografia inaugurou recentemente uma nova exposição no seu edifício sede, a Cadeia da Relação. O conjunto de imagens que agora se mostra faz parte do espólio Alcídia e Luís Viegas Belchior, comprado em Julho do ano passado pelo CPF por 230 mil euros. Esta colecção tem mais de 4800 imagens e enriquece de forma significativa a Colecção Nacional de Fotografia. Entre vários nomes importantes da fotografia portuguesa do século XIX, há ainda neste rico espólio vários núcleos de imagens de fotógrafos estrangeiros que passaram por Portugal, como é o caso do francês Amédée Lemaire de Ternante. São dele estas fotografias raras de Lisboa. Maria do Carmo Serén explica a exposição assim:

Em finais de Abril de 1858, D.Pedro V casa com a brevíssima rainha D.Estefânia. Tinham ambos 21 anos e o casamento duraria pouco mais de um ano. Em 1859 a rainha morre de difteria e o rei dois anos depois. Com D. Estefânia, que já aprendera português, desloca-se uma pequena corte e artistas diversos, que inclui o já então conhecido pintor e fotógrafo francês Amédée Lemaire de Ternante. Esta é, pois, a Lisboa desse ano ainda feliz e representa, ao que se sabe, um dos mais antigos e mais ricos conjuntos de imagens da capital e, pela diversidade dos temas abordados, um dos mais esclarecedores do país.
Trata-se de albuminas originais, respondendo ao objectivo de descoberta e de registo da capital do reino, apontando aspectos do património monumental, (os Jerónimos com a sua patine e erosão antes do restauro, a Torre de Belém, com as velhas galés de passeio ao fundo e, em primeiro plano, a seca das redes dos pescadores, a igreja da Estrela, o Aqueduto das Águas Livres, o Paço das Necessidades, o Chafariz d`El Rei, em Alfama), mas também vistas gerais da cidade. Não apenas o litoral obrigatório avistado do casario mais elevado, mas também S. Pedro de Alcântara e as muitas aldeias que permaneciam incólumes no interior da cidade e a panorâmica que se desfruta nos acontecimentos: as tribunas de recepção frente ao Cais das Colunas.
Já em estúdio, (um interior bastante elementar e um jardim onde uma cadeira permite o indispensável apoio) reencontramos a sociedade colunável, homens de canecão ou chapéu mole, suíças e bandós, mulheres com saias de balão à Imperatriz Eugénia, tão crispados, afinal, como os grupos populares que Ternante capta no quotidiano. Nos instantâneos, os rostos em movimento provam-nos a dificuldade da fotografia sem pose, mas também a sua ainda relativa novidade para o público comum.
E aquele retrato de Castilho, entre o solene e o 'habitué'. Afinal Castilho cedo se deixara fotografar em daguerreótipo, tornando bem conhecida, em artigo de imprensa, a estranha relação que se estabelece entre o fotógrafo e o fotografado.
A mostra suscitará olhares diversos, do historiador, do urbanista ou do curioso dessa já velha identidade que desbaratamos. Mas também do esteta, pois aqui e ali, certas composições falam bem da intenção do seu autor e deste nosso inabalável compromisso estético com tudo o que é reconhecido e traz consigo pergaminhos de antiguidade.

D. Maria Ana, irmã de D. Pedro V (?), 1858, Colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior
(© CNF 2705_02, CPF/MC)

Fur

Nicole Kidman e Robert Downey Jr. em Fur

Passaram quase 40 anos sobre o momento em que Diane Arbus tomou uma dose demasiado generosa de comprimidos e cortou os pulsos numa banheira. Há quem veja neste suicídio o culminar de um percurso errático, a atitude derradeira e desesperada que confunde autor e obra. Porque Arbus (inadaptada?) se coloca (inadvertidamente?) dentro dela, junto de uma galeria de retratados que vivem ou decidiram viver à margem, como ela.
Fur - An Imaginary Portrait of Diane Arbus, de Steven Shainberg, estreou-se ontem em Portugal. Nicole Kidman foi a actriz escolhida para interpretar Arbus. Apesar de ter na mão a única biografia da fotógrafa escrita até hoje, da autoria de Patricia Bosworth, Shainberg não arriscou um retrato histórico. Preferiu o "retrato imaginário", epíteto que cauciona todas as derivações que quis introduzir no filme. Ainda assim, Bosworth, que chegou a ser modelo de Arbus, aparece como co-produtora da longa-metragem, como uma espécie de eminência parda da obra.
Em Fur..., Arbus é retratada como uma dedicada e "tímida" dona-de-casa que se transforma numa artista cheia da originalidade e talento. A rotina burguesa que vive na Nova Iorque de 1958 rompe-se a partir do momento em que começa a privar com Lionel, um enigmático vizinho (Robert Downey Jr.) que a conduz para o caminho que sempre quis seguir - o da criação artística.
Kathleen Gomes já viu o filme e explica hoje no Ípsilon por que é que Diane Arbus ainda assusta.
O site oficial do filme está aqui.


Nicole Kidman em Fur

15 março, 2007


entre aspas

Os actores Clifton Collins Jr. (Perry Smith, esq.) e Mark Pellegrino (Dick Hickock, dir.), em Capote (2005)

Andava um velho fotógrafo a rondar o porto de Acapulco com a sua antiga máquina de madeira e quando o Estrellita entrou na doca Otto encomendou-lhe seis retratos de Perry junto da sua presa. Do ponto de vista técnico, o trabalho do velhote era um desastre, tudo escuro e manchado. Mas, no entanto, nem por isso deixava de ser uma fotografia notável e isso devia-se à expressão de Perry, ao seu ar de triunfo completo, de beatude plena, como se finalmente, tal como no sonho, o grande pássaro amarelo o tivesse vindo buscar para o levar ao Paraíso.

A Sangue-Frio, Truman Capote

14 março, 2007

*Três perguntas a...

Auto-retrato, 2007

Maria Carapeto. Nasceu em S. Pedro do Corval, no Alentejo. Tem 46 anos. Estudou fotografia na Cooperativa Árvore, no Porto, na Aula do Risco, em Lisboa, e na Universidade de Brighton, na Inglaterra, onde viveu dez anos. Regressou a Portugal e trabalha como fotógrafa freelance. Tem uma paixão por roupas antigas e pelos mistérios que carregam. Na série The poetics of clothes adensa o imaginário sobre este tema concentrando a objectiva em pequenos pormenores do vestuário feminino. Em Junho de 2006, publicou na Egoísta, dedicada ao Renascimento, um conjunto de fotografias a que chamou Desencontros. Recentemente, no número especial da mesma revista, dedicada a Agustina Bessa-Luís, mostrou imagens que remetem para o imaginário ligado aos colares de pérolas na obra e na figura da escritora. Prepara o livro Ausência, com texto de Paulo Barriga.

¿Por que é que fotografas?
Quantas vezes me pergunto a mim mesma!

¿O que é que te dá o desfoque que não te dá a nitidez?
Para além da estética visual, a ideia de memória.

¿Que projectos te ocupam agora?
O projecto de um livro de fotografia e escrita, em colaboração com Paulo Barriga, que se chamará Ausência. Vai ser publicado pela 100Luz, de Castro Verde, no final da Primavera. Para além disso, tento dar seguimento a mais uns quantos work in progress.


The poetics of clothes, 2002 (© Maria Carapeto)

13 março, 2007

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Lou Reed, 1999 (© Robert Wilson, 82 x 56 cm, prova única)

Lou Reed, 1999 (© Robert Wilson, 82 x 56 cm, prova única)


Estou à procura do mistério de cada um.

Robert Wilson, Ípsilon, 9.03.2007

As polaróides de famosos tiradas por Robert Wilson estiveram escondidas durante muito tempo. Agora saíram do escuro para serem vistas em público pela primeira vez na Galeria Luís Serpa, em Lisboa.
Um dos exercícios que se pode fazer ao percorrermos estas imagens é o da comparação entre retratos da mesma pessoa feitos a cores e a preto e branco. É interessante, mas não surpreendente, notar, por exemplo, a diferença da carga dramática entre uma e outra técnica. Descobrir como uma pessoa se transforma em duas pessoas apenas pelo tipo de luz que nela incide ou a coloração com que nos é dada a ver. Wilson gosta da luz. Percebe-se isso nestas imagens onde ela é usada com parcimónia e em doses q.b..
A história destas fotografias resume-se a isto: em 1999, a Polaroid decidiu colocar nas mãos de Robert Wilson uma nova máquina de instantâneos de grande formato; o "artista total", como é conhecido, começa a experimentar o novo brinquedo com os amigos famosos que frequentam ou colaboram com o Watermill Centre, o centro de artes que fundou em 1992, em Long Island; primeiro posaram, entre outros, Philip Glass, Lou Reed, Isabella Rossellini, Cindy Sherman e Susan Sontag; depois vieram mais amigos, uns convidados, outros não, como Hillary Clinton que pediu para ser fotografada.
No auto-retrato que ofereceu ao galerista Luís Serpa, Wilson quase desaparece na escuridão. "É para conquistar um espaço", explicou ao Ípsilon.

Nan Goldin, 1999 (© Robert Wilson, 82 x 56 cm, prova única)

Nan Goldin, 1999 (© Robert Wilson, 82 x 56 cm, prova única)


Polaroids Portraits
Galeria Luís Serpa, R. Tenente Raul Cascais 1B, Lisboa
Tel.: 213977794
e-mail: info@galerialuisserpa.com
De terça a sábado, das 15h00 às 19h30, excepto feriados.
Até 28 de Abril

12 março, 2007

ir ver

ÁGUA. Iceberg IV, baía Disko, Gronelândia, 2004
(Lynn Davis, cortesia Edwynn Houk Gallery, Nova Iorque )


Para quem ainda está na dúvida sobre se deve ir até à Gulbenkian ver a exposição INGenuidades, aqui fica uma galeria com uma pequena amostra do extraordinário trabalho de Jorge Calado que, através da representação fotográfica, nos coloca perante o poder dos Elementos e a grandeza do engenho do Homem.




INGenuidades, Fotografia e Engenharia - 1846-2006
Galeria de Exposições Temporárias
Fundação Calouste Gulbenkian
Av. de Berna, 45 A
Tel: 217823000
Das 10h00 às 18h00;
até 29 de Abril
Entrada a 3 euros

10 março, 2007

artivistas

Face 2 Face Project (© JR)

Regresso ao Face 2 Face. O site do projecto de JR e Marco tem um vídeo, imagens e textos que ajudam a perceber melhor como é que estas fotografias gigantes podem contribuir para a aproximação de israelitas e palestinianos.
JR usa as ruas como galeria desde 2001. No ano passado, fotografias da sua autoria, do projecto Portrait d'une Génération, foram coladas nas paredes da Maison Européenne de la Photographie e da câmara de Paris.
O Face 2 Face nasceu em 2005. Com ele, estes “artivistas” querem confrontar comunidades de ambos os lados com o seu semelhante, separado por fronteiras, barricadas, check points e muros. Querem mostrar como são próximos na expressão da alegria, descontracção e humor. Querem que vizinhos conheçam outra imagem que não aquela que aparece diariamente nas notícias em manifestações de ódio, vingança, radicalismo e barbárie. Como uma criança que puxa o vestido da mãe para se fazer notar, este exagero de pose funciona como um grito de quem diz "Nós aqui sabemos rir! E também sabemos fazer rir!".

Today, ‘face to face’ is necessary. Within a few years, we will come back for ‘hand in hand’

Face 2 Face Project (© JR)

09 março, 2007

salvar

Ernst Leitz II


Ernst Leitz II (1871-1956) era filho de Ernst Leitz (1843 - 1925), fundador da mítica fábrica que esteve na origem de uma maravilha técnica a que chamaram Leica, lançada em 1925. Pouco depois de Hitler subir ao poder na Alemanha, em 1933, o patrão da Leitz, sediada em Wetzlar, a norte de Frankfurt, apercebe-se do início da perseguição movida aos judeus. Entre esse ano e o dia 1 de Setembro de 1939, data do bloqueio das fronteiras alemãs depois da invasão da Polónia, Leitz II evitou que cerca de seis dezenas de funcionários de origem judaica da sua fábrica sofressem as consequências da debilidade mental de quem acreditou na pureza e supremacia de uma raça. O modesto patrão de Wetzlar repetiu os mesmos passos até ao limite do possível. Primeiro empregava um jovem judeu a quem dava formação. Algum tempo depois, o aprendiz recebia da empresa, sob um qualquer pretexto profissional, um bilhete e um visto para Nova Iorque. A acompanhá-lo ia uma carta de recomendação e uma Leica. Com a reputação da marca em alta nos EUA, estes trabalhadores especializados da Leitz não tinham problemas em arranjar trabalho numa qualquer sucursal da empresa.
Em vida, Ernst Leitz II apenas uma vez referiu esta estratégia para salvar judeus de uma morte anunciada, quando em 1947 se viu perante um tribunal encarregado de fazer uma "desnazificação".
Este episódio da vida de Ernst Leitz II é uma das histórias da tese do rabino e fotógrafo de origem americana Frank Dabba Smith intitulada A fotografia e o Holocausto.
Mark Honigsbaum, do Financial Times, tem um longo texto acerca das proezas humanitárias de Ernst Leitz II aqui.
Jean-Pierre Langellier escreveu também recentemente sobre o assunto no Le Monde. O artigo está aqui.

Nova Iorque, 1914. Fotografia captada por Ernst Leitz II

08 março, 2007

mulheres

Ele andava a distribuir propaganda clandestina e foi preso.
Deu-me para ir tirar um retrato

(© Colecção particular)

A Magnum presta hoje homenagem às mulheres no dia criado para que nos lembremos delas (ainda é preciso?). O ensaio editado por Tia Dunn inclui imagens de Martine Franck, Inge Morath, Susan Meiselas, Lise Sarfati e Marilyn Silverstone.
Deixo também a minha muito modesta homenagem às mulheres através deste retrato, cujo sorriso resgatei das solas dos sapatos ali para os lados da Rua de S. Nicolau.


Woman`s day (© Magnum Group)

07 março, 2007

debater

Coimbra (© Colecção Alexandre Ramires)

A livraria Almedina Estádio de Coimbra apresenta um ciclo de conferências em torno da fotografia. Amanhã, às 21h00, o historiador e coleccionador Alexandre Ramires fala da história da fotografia vista a partir de Coimbra. Durante a palestra serão mostradas imagens inéditas da cidade e máquinas de outros tempos na tentativa de perceber melhor a forma como Coimbra recebeu e acompanhou os primórdios da fotografia.
No dia 22 de Março, o tema é Fotografia de Arte. Para a discussão foram convidados Pedro Medeiros, freelancer, e Nuno Patinho, fotógrafo e videasta que trabalha também em iluminação no teatro.

06 março, 2007

passar o muro

© Oleg Popov/Reuters

De um lado chamam-lhe o “muro da vergonha”, do outro “barreira de segurança”. O projecto Face to Face quer atenuar o peso das toneladas de betão que separam Israel e a Cisjordânia com caras bem dispostas de ambos os lados.
O muro suporta as imagens. Estamos a olhar para ele.
Por trás das imagens há muro. É certo.
O muro é de um material concreto. Inultrapassável.
Estamos a olhar para eles e sentimos que afinal é possível passar para lá - pela imaginação.
Em Belém, os rostos de israelitas e palestinianos estão do mesmo lado, para que se olhem e se compreendam.


© Oleg Popov/Reuters

dez



Mais uma volta, mais uma preciosidade. Reflections by ten Portuguese photographers é o catálogo da primeira grande exposição de fotografia portuguesa organizada na Inglaterra. O objectivo era dar uma imagem de Portugal que não fosse a do estereotipado postal turístico das praias do sul.
A comissária Amanda Hopkinson seleccionou trabalhos de Gérard Castello Lopes, Paulo Nozolino, Luísa Ferreira, Clara Azevedo, Lúcia Vasconcelos, Mariano Piçarra, Carlos Guarita, Margarida Dias, Pedro Baptista e Henrique Seruca.
Na introdução, Jorge Calado faz uma resenha de alguns dos momentos mais marcantes da nossa história da fotografia. Destaque ainda para os textos de cada um dos fotógrafos que abrem os portfólios.


Gérard Castello Lopes


Reflections by ten Portuguese photographers
Amanda Hopkinson, Frontline/Portugal 600, Londres, 1996

04 março, 2007

ler, ver e ouvir

A Day Saved, da série Collected Short Stories, 2003 (© Daniel Blaufuks)

Ler o texto do Jornal de Notícias de hoje onde Jorge Molder fala sobre a forma como dá corpo à sua obra.
Ver e ouvir Daniel Blaufuks a falar com Ana Sousa Dias sobre si e sobre o que o move na fotografia (terça-feira, na 2:, às 23h30).


Da série Anatomia & Boxe, Jorge Molder. (colecção particular)

03 março, 2007

davidson

Uma das imagens da série Time of Change (© Bruce Davidson/Magnum Photos)

Bruce Davidson, um dos históricos da Magnum, expõe dois ensaios na Fondation Henri Cartier-Bresson. Tido como um fotógrafo "profundamente humanista", Davidson (n.1933), não se considera documentarista, condição que, para si, o alheia do processo de criação fotográfico.
Time of Change e East 100th St. reúnem uma centena de imagens a preto e branco originalmente publicadas na revista DU.
Time of Change revela episódios da emancipação dos negros americanos no início da década de 60. East 100th St. é um retrato da cultura hispânica no bairro de Harlem da mesma altura.
Influenciado pela fotografia de Cartier-Bresson, Davidson vai expor entre Junho e Setembro de 2007, na Maison Européenne de la Photographie, o seu mais recente projecto em torno dos jardins de Paris.
O International Herald Tribune publica um texto sobre Bruce Davidson aqui.


Time of Change - East 100th St., de Bruce Davidson
Fundation Henri Cartier-Bresson
2, Impasse Lebouis, Paris
Tel.: 33156802700.
De 4ª a Dom. das 13h às 18h30, sáb. das 11h00 às 18h45.
Até 22 de Abril.

de cima


A sonda Cassini dá-nos novos pontos de vista de Saturno (NASA)

E Saturno aqui tão perto, agora visto de cima. São impressionantes as imagens com cores reais da sonda Cassini divulgadas recentemente pela NASA. Dão-nos novas perspectivas de um dos mais surpreendentes e belos corpos celestes. De um lado a luz. De outro a escuridão e a sombra que corta o círculo perfeito dos anéis. Para compor a imagem de cima, a sonda, na órbitra de Saturno desde Julho de 2004, precisou de tirar 36 fotografias – 12 conjuntos de vermelho, verde e azul – durante cerca de duas horas e meia. Foi preciso subir até aos 1,23 milhões de quilómetros para apanhar a totalidade dos círculos que envolvem o segundo maior planeta do sistema solar. A escala real das imagens é de 70 quilómetros por pixel.

O site da NASA tem mais imagens de Saturno aqui.


Pormenor dos anéis de Saturno. Clique na fotografia para vê-la na totalidade

02 março, 2007

câmara clara

Monserrate (© Eduardo Veloso)

O magazine cultural da 2: Câmara Clara - que foi buscar o nome à obra seminal de Roland Barthes - dedica o programa de hoje (22h30) à fotografia. Paula Moura Pinheiro convidou Delfim Sardo, curador, ensaísta, crítico de arte e criador do BES Photo, e Eduardo Veloso, matemático e fotógrafo amador há 50 anos. O mote do programa é: "explicar o que é que distingue um repórter fotográfico de um fotógrafo-autor". A edição de hoje promete ainda "muitas imagens e muitas histórias da arte e da vida da fotografia – das fotografias de cadastro aos paparazzi, dos pioneiros portugueses da fotografia às fotobiografias, dos grandes clássicos aos maiores valores da contemporaneidade".

casa do mundo

© Miguel Silva (Público, arquivo)

Tem sido uma espera longa, demasiado longa. Não há meio de a Casa-Estúdio Carlos Relvas, na Golegã, abrir ao público para mostrar todo o seu esplendor. As obras do IPPAR já terminaram há mais de um ano. A autarquia anuncia agora a inauguração para o dia 31 deste mês.
Ao lado desta boa notícia, há outra novidade divulgada hoje no Público: o presidente da câmara da Golegã, José Veiga Maltez, vai candidatar o singular edifício a Património da Humanidade. “Mais que pertinente, é uma obrigação nossa candidatar esta maravilha arquitectónica e cultural a Património da Humanidade. É um edifício extraordinário, que pela sua própria natureza não pertence à Golegã nem ao próprio país, mas que é, sobretudo, uma casa do mundo, em relação à qual iniciámos já os preparativos para o processo de candidatura a património mundial”, diz o autarca que promete ainda recuperar o jardim que envolve a nossa casa da fotografia.
O texto de Manuel Fernandes Vicente dá alguns pormenores sobre o que vai ser a futura Casa-Estúdio Carlos Relvas.

mentiras?

© Vasco Araújo, da série O que Eu Fui

Todas as imagens são uma mentira? Alexandra Prado Coelho ensaia uma resposta no ípsilon de hoje partindo das quatro exposições do Bes Photo (Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, Susanne S. D. Themlitz, Vasco Araújo), no CCB até ao dia 18 de Março.


© Daniel Blaufuks, sem título, 2005

01 março, 2007

edgar

Da série Diminishing Present, 2005 (© Edgar Martins)

A última edição da revista de fotografia contemporânea Portfolio publica um conjunto de imagens de Edgar Martins sobre matas por onde passaram os incêndios do Verão de 2005. Não é a primeira vez que o fotógrafo português vê as suas imagens divulgadas na Portfolio. Depois de ter sido premiado com o Jerwood Photography Award, em 2003, a revista inglesa publicou imagens de Black Holes & Other Inconsistencies, em 2004.


entre aspas

O actor Clifton Collins Jr. na pele do assassino Perry Smith em Capote (2005)


No dia seguinte lá lhe fiz o arroz mas ele não lhe tocou. Mal me falava. Odiava toda a gente. Contudo, na manhã em que vieram buscá-lo para ir para a penitenciária, agradeceu-me e ofereceu-me o retrato. Um retrato tirado aos dezasseis anos. Disse-me que queria ficar assim na minha lembrança, como aquele rapazinho do retrato.

A Sangue-Frio, Truman Capote


Perry Smith

28 fevereiro, 2007

 fotografiafalada


Sacavém, Lisboa. (© Patrícia Almeida)

Gosto de fotografar de um ponto alto. De cima para baixo. E gosto desta composição da figura no espaço e mesmo da posição dele. Interessa-me fotografar pessoas num estádio intermédio, quando estão à espera de alguma coisa, a entrar, a sair, a observar. Tento captá-las quando estão numa acção não muito concreta, que pode vir a acontecer, mas que ainda não está lá, ainda está fora da imagem. Essa acção vai acontecer a seguir, numa fase que já não vemos.
Aqui não estamos perante um personagem, mas uma figura. Tento encontrar espaços onde exista alguém, uma pessoa. Isso faz com que o espaço ou a paisagem sejam activados e se criem relações através de determinada acção. O espaço passa a ter outra leitura. Com pessoas o espaço deixa de ser apenas topográfico, é já o sítio onde acontece ou pode acontecer qualquer coisa. Isso tem a ver também com o título
Locations, uma ideia difusa de lugar, a posição de qualquer coisa em relação ao espaço.
(Patrícia Almeida)


Locations, de Patrícia Almeida
[Kgaleria]
Rua da Vinha, 43A
Tel.: 21 343 16 76
Email: kgaleria@kameraphoto.com
De quarta a sábado, entre as 15h00 e as 20h00.
Até 24 de Março

27 fevereiro, 2007

Blaufuks vence Bes Photo


I Spy, da série Collected Short Stories, 2003 ( © Daniel Blaufuks)


Daniel Blaufuks venceu a edição deste ano do Bes Photo, o maior prémio de fotografia atribuído em Portugal. O nome escolhido pelo júri foi anunciado esta noite. Para além de Blaufuks, chegaram à fase final do galardão Vasco Araújo, Susanne S. D. Themlitz e Augusto Alves da Silva. Do júri de premiação fizeram parte Kate Bush (directora da Barbican Art Gallery), Manuel Castro Caldas (director do Ar.Co), Olga Sviblova (directora e curadora do Moscow House of Photography), Pepe Font de Mora (director da Fundación Foto Colectania) e Tereza Siza (directora do Centro Português de Fotografia).
Daniel Blaufuks junta-se a Helena Almeida e a José Luís Neto, vencedores das duas edições anteriores.
Fotógrafo lisboeta descendente de judeus polacos e alemães, Blaufuks (n.1963), começou a estudar fotografia no Ar.Co (Lisboa), continuou no Royal College of Art (Londres) e na Watermill Foundation (Nova Iorque). No final dos anos 80, os jornais Blitz e Independente publicaram as suas primeiras imagens. Em 1991, colabora com o escritor americano Paul Bowles em My Tangier, projecto a partir do qual a sua fotografia fica ligada à literatura, paixão antiga à qual nunca se entregou "por falta de confiança" nos seus talentos. Para além do suporte fotográfico usa outros meios para apresentar as suas obras, como o vídeo e os diários fac-similados. Em 1994 publica os London Diaries e, um ano depois, apresenta Ein Tag in Mostar. Uma Viagem a São Petersburgo surge em 1998. Mais recentemente, em 2003, publicou Collected Short Stories, um conjunto de dípticos fotográficos que se apresentam como "uma escrita de instantâneos" para cruzar público e privado.
Tem também um trabalho paralelo como documentarista. O primeiro filme nesse registo, Sob Céus Estranhos (2002), aborda a passagem de refugiados judeus por Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial. Paisagens Invertidas (2002) reflecte sobre a arquitectura portuguesa e Um Pouco Mais Pequeno que o Indiana (2006) problematiza a paisagem e a memória colectiva em Portugal.
A série que mostrou no Centro Cultural de Belém deu a ver imagens de Terezín (antes chamada Theresienstadt, República Checa), uma localidade transformada em campo de concentração pelos nazis alemães.
As respostas de Daniel Blaufuks ao *Três perguntas a... estão aqui.

paris+londres

© Lisa Kereszi, Gael dressing, State Palace Theater, New Orleans, 2000
(cortesia da Yansey Richardson Gallery, Nova Iorque)

A Reed Exhibitions, proprietária e organizadora da Paris Photo, a maior feira de fotografia do mundo, comprou, em Novembro do ano passado, a photo-london, que se realiza durante a Primavera há três anos. Daniel Newburg, fundador do encontro da capital inglesa, permanecerá como director criativo.
Ao contrário da Paris Photo, que abarca um período muito alargado da fotografia, a photo-london vai centrar-se apenas na fotografia contemporânea desde 1970. A carta de intenções é ambiciosa: "mostrar a diversidade de temas, conceitos, estilos e técnicas exploradas por artistas desde o documental à fotografia conceptual, assim como a imagem combinada com outras formas de expressão artística como o áudio, o vídeo e a instalação".
Para mostrar os novos rumos da fotografia, a organização escolheu um espaço erguido no século XIX: Old Billingsgate, um renovado mercado que fica perto da City.

photo-london
entre 31 de Maio e 3 de Junho
Old Billingsgate
1 Old Billingsgate Walk, 16 Lower Thames Street, Londres

*Três perguntas a...


Augusto Alves da Silva, sem título, 2005-2006
(cortesia Galeria Fonseca Macedo, Ponta Delgada)

Na volta do correio ao *Três perguntas a..., Augusto Alves da Silva, um dos finalistas do Bes Photo, remete para as respostas que deu a Ricardo Nicolau publicadas no catálogo da exposição. Ficam algumas passagens dessa conversa:

Para mim, que gosto de clareza, o negócio da venda de obras de arte, o mundo galerístico, é o sistema mais turvo que conheço. O que eu valorizo nas encomendas institucionais é não ter de pensar em vendas.

A fotografia suscita sempre um grande equívoco, que sempre me fascinou: toda a gente tira fotografias, toda a gente tem máquinas fotográficas. As pessoas que me estão a encomendar um trabalho julgam que sabem exactamente o que é e para que serve a fotografia e já têm um modelo na cabeça do que pretendem, que normalmente é o modelo standard de reportagem que melhor lhes pode publicitar a instituição.

Aquele pressuposto de que a fotografia é um gerador de estereótipos, e que a forma como as imagens são contextualizadas modifica o que se vê, coloca a pessoa que trabalha com esse medium numa posição delicada, em que tem sempre de pensar nas implicações éticas de gerar determinado tipo de imagens e de as fazer circular.

Tento construir uma espécie de universo fotográfico em que não abdico da sofisticação, mas em que qualquer pessoa pode, à partida, ver alguma coisa com que se identifique. Depois ensaio formas de interferência entre as imagens que possam criar uma espécie de curto-circuito que, idealmente, deveria fazer rebentar a instalação dentro da cabeça, fazer saltar os disjuntores do quadro (...).

Quero que as minhas imagens, porque aparentemente cristalinas, possam cativar quaisquer pessoas, para depois confundi-las. Se se sentirem confusas é porque estão a raciocinar. Talvez comecem a não tomar como garantido aquilo que está à frente delas. Isto de que estou a falar, por mais perigosa que seja a palavra, é claramente da ordem da ideologia.

O enquadramento é o primeiro acto de manipulação. Não há forma mais imediata de mostrar o que é uma fotografia que mostrar alguém a fotografar.

 
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