12 março, 2007

ir ver

ÁGUA. Iceberg IV, baía Disko, Gronelândia, 2004
(Lynn Davis, cortesia Edwynn Houk Gallery, Nova Iorque )


Para quem ainda está na dúvida sobre se deve ir até à Gulbenkian ver a exposição INGenuidades, aqui fica uma galeria com uma pequena amostra do extraordinário trabalho de Jorge Calado que, através da representação fotográfica, nos coloca perante o poder dos Elementos e a grandeza do engenho do Homem.




INGenuidades, Fotografia e Engenharia - 1846-2006
Galeria de Exposições Temporárias
Fundação Calouste Gulbenkian
Av. de Berna, 45 A
Tel: 217823000
Das 10h00 às 18h00;
até 29 de Abril
Entrada a 3 euros

10 março, 2007

artivistas

Face 2 Face Project (© JR)

Regresso ao Face 2 Face. O site do projecto de JR e Marco tem um vídeo, imagens e textos que ajudam a perceber melhor como é que estas fotografias gigantes podem contribuir para a aproximação de israelitas e palestinianos.
JR usa as ruas como galeria desde 2001. No ano passado, fotografias da sua autoria, do projecto Portrait d'une Génération, foram coladas nas paredes da Maison Européenne de la Photographie e da câmara de Paris.
O Face 2 Face nasceu em 2005. Com ele, estes “artivistas” querem confrontar comunidades de ambos os lados com o seu semelhante, separado por fronteiras, barricadas, check points e muros. Querem mostrar como são próximos na expressão da alegria, descontracção e humor. Querem que vizinhos conheçam outra imagem que não aquela que aparece diariamente nas notícias em manifestações de ódio, vingança, radicalismo e barbárie. Como uma criança que puxa o vestido da mãe para se fazer notar, este exagero de pose funciona como um grito de quem diz "Nós aqui sabemos rir! E também sabemos fazer rir!".

Today, ‘face to face’ is necessary. Within a few years, we will come back for ‘hand in hand’

Face 2 Face Project (© JR)

09 março, 2007

salvar

Ernst Leitz II


Ernst Leitz II (1871-1956) era filho de Ernst Leitz (1843 - 1925), fundador da mítica fábrica que esteve na origem de uma maravilha técnica a que chamaram Leica, lançada em 1925. Pouco depois de Hitler subir ao poder na Alemanha, em 1933, o patrão da Leitz, sediada em Wetzlar, a norte de Frankfurt, apercebe-se do início da perseguição movida aos judeus. Entre esse ano e o dia 1 de Setembro de 1939, data do bloqueio das fronteiras alemãs depois da invasão da Polónia, Leitz II evitou que cerca de seis dezenas de funcionários de origem judaica da sua fábrica sofressem as consequências da debilidade mental de quem acreditou na pureza e supremacia de uma raça. O modesto patrão de Wetzlar repetiu os mesmos passos até ao limite do possível. Primeiro empregava um jovem judeu a quem dava formação. Algum tempo depois, o aprendiz recebia da empresa, sob um qualquer pretexto profissional, um bilhete e um visto para Nova Iorque. A acompanhá-lo ia uma carta de recomendação e uma Leica. Com a reputação da marca em alta nos EUA, estes trabalhadores especializados da Leitz não tinham problemas em arranjar trabalho numa qualquer sucursal da empresa.
Em vida, Ernst Leitz II apenas uma vez referiu esta estratégia para salvar judeus de uma morte anunciada, quando em 1947 se viu perante um tribunal encarregado de fazer uma "desnazificação".
Este episódio da vida de Ernst Leitz II é uma das histórias da tese do rabino e fotógrafo de origem americana Frank Dabba Smith intitulada A fotografia e o Holocausto.
Mark Honigsbaum, do Financial Times, tem um longo texto acerca das proezas humanitárias de Ernst Leitz II aqui.
Jean-Pierre Langellier escreveu também recentemente sobre o assunto no Le Monde. O artigo está aqui.

Nova Iorque, 1914. Fotografia captada por Ernst Leitz II

08 março, 2007

mulheres

Ele andava a distribuir propaganda clandestina e foi preso.
Deu-me para ir tirar um retrato

(© Colecção particular)

A Magnum presta hoje homenagem às mulheres no dia criado para que nos lembremos delas (ainda é preciso?). O ensaio editado por Tia Dunn inclui imagens de Martine Franck, Inge Morath, Susan Meiselas, Lise Sarfati e Marilyn Silverstone.
Deixo também a minha muito modesta homenagem às mulheres através deste retrato, cujo sorriso resgatei das solas dos sapatos ali para os lados da Rua de S. Nicolau.


Woman`s day (© Magnum Group)

07 março, 2007

debater

Coimbra (© Colecção Alexandre Ramires)

A livraria Almedina Estádio de Coimbra apresenta um ciclo de conferências em torno da fotografia. Amanhã, às 21h00, o historiador e coleccionador Alexandre Ramires fala da história da fotografia vista a partir de Coimbra. Durante a palestra serão mostradas imagens inéditas da cidade e máquinas de outros tempos na tentativa de perceber melhor a forma como Coimbra recebeu e acompanhou os primórdios da fotografia.
No dia 22 de Março, o tema é Fotografia de Arte. Para a discussão foram convidados Pedro Medeiros, freelancer, e Nuno Patinho, fotógrafo e videasta que trabalha também em iluminação no teatro.

06 março, 2007

passar o muro

© Oleg Popov/Reuters

De um lado chamam-lhe o “muro da vergonha”, do outro “barreira de segurança”. O projecto Face to Face quer atenuar o peso das toneladas de betão que separam Israel e a Cisjordânia com caras bem dispostas de ambos os lados.
O muro suporta as imagens. Estamos a olhar para ele.
Por trás das imagens há muro. É certo.
O muro é de um material concreto. Inultrapassável.
Estamos a olhar para eles e sentimos que afinal é possível passar para lá - pela imaginação.
Em Belém, os rostos de israelitas e palestinianos estão do mesmo lado, para que se olhem e se compreendam.


© Oleg Popov/Reuters

dez



Mais uma volta, mais uma preciosidade. Reflections by ten Portuguese photographers é o catálogo da primeira grande exposição de fotografia portuguesa organizada na Inglaterra. O objectivo era dar uma imagem de Portugal que não fosse a do estereotipado postal turístico das praias do sul.
A comissária Amanda Hopkinson seleccionou trabalhos de Gérard Castello Lopes, Paulo Nozolino, Luísa Ferreira, Clara Azevedo, Lúcia Vasconcelos, Mariano Piçarra, Carlos Guarita, Margarida Dias, Pedro Baptista e Henrique Seruca.
Na introdução, Jorge Calado faz uma resenha de alguns dos momentos mais marcantes da nossa história da fotografia. Destaque ainda para os textos de cada um dos fotógrafos que abrem os portfólios.


Gérard Castello Lopes


Reflections by ten Portuguese photographers
Amanda Hopkinson, Frontline/Portugal 600, Londres, 1996

04 março, 2007

ler, ver e ouvir

A Day Saved, da série Collected Short Stories, 2003 (© Daniel Blaufuks)

Ler o texto do Jornal de Notícias de hoje onde Jorge Molder fala sobre a forma como dá corpo à sua obra.
Ver e ouvir Daniel Blaufuks a falar com Ana Sousa Dias sobre si e sobre o que o move na fotografia (terça-feira, na 2:, às 23h30).


Da série Anatomia & Boxe, Jorge Molder. (colecção particular)

03 março, 2007

davidson

Uma das imagens da série Time of Change (© Bruce Davidson/Magnum Photos)

Bruce Davidson, um dos históricos da Magnum, expõe dois ensaios na Fondation Henri Cartier-Bresson. Tido como um fotógrafo "profundamente humanista", Davidson (n.1933), não se considera documentarista, condição que, para si, o alheia do processo de criação fotográfico.
Time of Change e East 100th St. reúnem uma centena de imagens a preto e branco originalmente publicadas na revista DU.
Time of Change revela episódios da emancipação dos negros americanos no início da década de 60. East 100th St. é um retrato da cultura hispânica no bairro de Harlem da mesma altura.
Influenciado pela fotografia de Cartier-Bresson, Davidson vai expor entre Junho e Setembro de 2007, na Maison Européenne de la Photographie, o seu mais recente projecto em torno dos jardins de Paris.
O International Herald Tribune publica um texto sobre Bruce Davidson aqui.


Time of Change - East 100th St., de Bruce Davidson
Fundation Henri Cartier-Bresson
2, Impasse Lebouis, Paris
Tel.: 33156802700.
De 4ª a Dom. das 13h às 18h30, sáb. das 11h00 às 18h45.
Até 22 de Abril.

de cima


A sonda Cassini dá-nos novos pontos de vista de Saturno (NASA)

E Saturno aqui tão perto, agora visto de cima. São impressionantes as imagens com cores reais da sonda Cassini divulgadas recentemente pela NASA. Dão-nos novas perspectivas de um dos mais surpreendentes e belos corpos celestes. De um lado a luz. De outro a escuridão e a sombra que corta o círculo perfeito dos anéis. Para compor a imagem de cima, a sonda, na órbitra de Saturno desde Julho de 2004, precisou de tirar 36 fotografias – 12 conjuntos de vermelho, verde e azul – durante cerca de duas horas e meia. Foi preciso subir até aos 1,23 milhões de quilómetros para apanhar a totalidade dos círculos que envolvem o segundo maior planeta do sistema solar. A escala real das imagens é de 70 quilómetros por pixel.

O site da NASA tem mais imagens de Saturno aqui.


Pormenor dos anéis de Saturno. Clique na fotografia para vê-la na totalidade

02 março, 2007

câmara clara

Monserrate (© Eduardo Veloso)

O magazine cultural da 2: Câmara Clara - que foi buscar o nome à obra seminal de Roland Barthes - dedica o programa de hoje (22h30) à fotografia. Paula Moura Pinheiro convidou Delfim Sardo, curador, ensaísta, crítico de arte e criador do BES Photo, e Eduardo Veloso, matemático e fotógrafo amador há 50 anos. O mote do programa é: "explicar o que é que distingue um repórter fotográfico de um fotógrafo-autor". A edição de hoje promete ainda "muitas imagens e muitas histórias da arte e da vida da fotografia – das fotografias de cadastro aos paparazzi, dos pioneiros portugueses da fotografia às fotobiografias, dos grandes clássicos aos maiores valores da contemporaneidade".

casa do mundo

© Miguel Silva (Público, arquivo)

Tem sido uma espera longa, demasiado longa. Não há meio de a Casa-Estúdio Carlos Relvas, na Golegã, abrir ao público para mostrar todo o seu esplendor. As obras do IPPAR já terminaram há mais de um ano. A autarquia anuncia agora a inauguração para o dia 31 deste mês.
Ao lado desta boa notícia, há outra novidade divulgada hoje no Público: o presidente da câmara da Golegã, José Veiga Maltez, vai candidatar o singular edifício a Património da Humanidade. “Mais que pertinente, é uma obrigação nossa candidatar esta maravilha arquitectónica e cultural a Património da Humanidade. É um edifício extraordinário, que pela sua própria natureza não pertence à Golegã nem ao próprio país, mas que é, sobretudo, uma casa do mundo, em relação à qual iniciámos já os preparativos para o processo de candidatura a património mundial”, diz o autarca que promete ainda recuperar o jardim que envolve a nossa casa da fotografia.
O texto de Manuel Fernandes Vicente dá alguns pormenores sobre o que vai ser a futura Casa-Estúdio Carlos Relvas.

mentiras?

© Vasco Araújo, da série O que Eu Fui

Todas as imagens são uma mentira? Alexandra Prado Coelho ensaia uma resposta no ípsilon de hoje partindo das quatro exposições do Bes Photo (Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, Susanne S. D. Themlitz, Vasco Araújo), no CCB até ao dia 18 de Março.


© Daniel Blaufuks, sem título, 2005

01 março, 2007

edgar

Da série Diminishing Present, 2005 (© Edgar Martins)

A última edição da revista de fotografia contemporânea Portfolio publica um conjunto de imagens de Edgar Martins sobre matas por onde passaram os incêndios do Verão de 2005. Não é a primeira vez que o fotógrafo português vê as suas imagens divulgadas na Portfolio. Depois de ter sido premiado com o Jerwood Photography Award, em 2003, a revista inglesa publicou imagens de Black Holes & Other Inconsistencies, em 2004.


entre aspas

O actor Clifton Collins Jr. na pele do assassino Perry Smith em Capote (2005)


No dia seguinte lá lhe fiz o arroz mas ele não lhe tocou. Mal me falava. Odiava toda a gente. Contudo, na manhã em que vieram buscá-lo para ir para a penitenciária, agradeceu-me e ofereceu-me o retrato. Um retrato tirado aos dezasseis anos. Disse-me que queria ficar assim na minha lembrança, como aquele rapazinho do retrato.

A Sangue-Frio, Truman Capote


Perry Smith

28 fevereiro, 2007

 fotografiafalada


Sacavém, Lisboa. (© Patrícia Almeida)

Gosto de fotografar de um ponto alto. De cima para baixo. E gosto desta composição da figura no espaço e mesmo da posição dele. Interessa-me fotografar pessoas num estádio intermédio, quando estão à espera de alguma coisa, a entrar, a sair, a observar. Tento captá-las quando estão numa acção não muito concreta, que pode vir a acontecer, mas que ainda não está lá, ainda está fora da imagem. Essa acção vai acontecer a seguir, numa fase que já não vemos.
Aqui não estamos perante um personagem, mas uma figura. Tento encontrar espaços onde exista alguém, uma pessoa. Isso faz com que o espaço ou a paisagem sejam activados e se criem relações através de determinada acção. O espaço passa a ter outra leitura. Com pessoas o espaço deixa de ser apenas topográfico, é já o sítio onde acontece ou pode acontecer qualquer coisa. Isso tem a ver também com o título
Locations, uma ideia difusa de lugar, a posição de qualquer coisa em relação ao espaço.
(Patrícia Almeida)


Locations, de Patrícia Almeida
[Kgaleria]
Rua da Vinha, 43A
Tel.: 21 343 16 76
Email: kgaleria@kameraphoto.com
De quarta a sábado, entre as 15h00 e as 20h00.
Até 24 de Março

27 fevereiro, 2007

Blaufuks vence Bes Photo


I Spy, da série Collected Short Stories, 2003 ( © Daniel Blaufuks)


Daniel Blaufuks venceu a edição deste ano do Bes Photo, o maior prémio de fotografia atribuído em Portugal. O nome escolhido pelo júri foi anunciado esta noite. Para além de Blaufuks, chegaram à fase final do galardão Vasco Araújo, Susanne S. D. Themlitz e Augusto Alves da Silva. Do júri de premiação fizeram parte Kate Bush (directora da Barbican Art Gallery), Manuel Castro Caldas (director do Ar.Co), Olga Sviblova (directora e curadora do Moscow House of Photography), Pepe Font de Mora (director da Fundación Foto Colectania) e Tereza Siza (directora do Centro Português de Fotografia).
Daniel Blaufuks junta-se a Helena Almeida e a José Luís Neto, vencedores das duas edições anteriores.
Fotógrafo lisboeta descendente de judeus polacos e alemães, Blaufuks (n.1963), começou a estudar fotografia no Ar.Co (Lisboa), continuou no Royal College of Art (Londres) e na Watermill Foundation (Nova Iorque). No final dos anos 80, os jornais Blitz e Independente publicaram as suas primeiras imagens. Em 1991, colabora com o escritor americano Paul Bowles em My Tangier, projecto a partir do qual a sua fotografia fica ligada à literatura, paixão antiga à qual nunca se entregou "por falta de confiança" nos seus talentos. Para além do suporte fotográfico usa outros meios para apresentar as suas obras, como o vídeo e os diários fac-similados. Em 1994 publica os London Diaries e, um ano depois, apresenta Ein Tag in Mostar. Uma Viagem a São Petersburgo surge em 1998. Mais recentemente, em 2003, publicou Collected Short Stories, um conjunto de dípticos fotográficos que se apresentam como "uma escrita de instantâneos" para cruzar público e privado.
Tem também um trabalho paralelo como documentarista. O primeiro filme nesse registo, Sob Céus Estranhos (2002), aborda a passagem de refugiados judeus por Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial. Paisagens Invertidas (2002) reflecte sobre a arquitectura portuguesa e Um Pouco Mais Pequeno que o Indiana (2006) problematiza a paisagem e a memória colectiva em Portugal.
A série que mostrou no Centro Cultural de Belém deu a ver imagens de Terezín (antes chamada Theresienstadt, República Checa), uma localidade transformada em campo de concentração pelos nazis alemães.
As respostas de Daniel Blaufuks ao *Três perguntas a... estão aqui.

paris+londres

© Lisa Kereszi, Gael dressing, State Palace Theater, New Orleans, 2000
(cortesia da Yansey Richardson Gallery, Nova Iorque)

A Reed Exhibitions, proprietária e organizadora da Paris Photo, a maior feira de fotografia do mundo, comprou, em Novembro do ano passado, a photo-london, que se realiza durante a Primavera há três anos. Daniel Newburg, fundador do encontro da capital inglesa, permanecerá como director criativo.
Ao contrário da Paris Photo, que abarca um período muito alargado da fotografia, a photo-london vai centrar-se apenas na fotografia contemporânea desde 1970. A carta de intenções é ambiciosa: "mostrar a diversidade de temas, conceitos, estilos e técnicas exploradas por artistas desde o documental à fotografia conceptual, assim como a imagem combinada com outras formas de expressão artística como o áudio, o vídeo e a instalação".
Para mostrar os novos rumos da fotografia, a organização escolheu um espaço erguido no século XIX: Old Billingsgate, um renovado mercado que fica perto da City.

photo-london
entre 31 de Maio e 3 de Junho
Old Billingsgate
1 Old Billingsgate Walk, 16 Lower Thames Street, Londres

*Três perguntas a...


Augusto Alves da Silva, sem título, 2005-2006
(cortesia Galeria Fonseca Macedo, Ponta Delgada)

Na volta do correio ao *Três perguntas a..., Augusto Alves da Silva, um dos finalistas do Bes Photo, remete para as respostas que deu a Ricardo Nicolau publicadas no catálogo da exposição. Ficam algumas passagens dessa conversa:

Para mim, que gosto de clareza, o negócio da venda de obras de arte, o mundo galerístico, é o sistema mais turvo que conheço. O que eu valorizo nas encomendas institucionais é não ter de pensar em vendas.

A fotografia suscita sempre um grande equívoco, que sempre me fascinou: toda a gente tira fotografias, toda a gente tem máquinas fotográficas. As pessoas que me estão a encomendar um trabalho julgam que sabem exactamente o que é e para que serve a fotografia e já têm um modelo na cabeça do que pretendem, que normalmente é o modelo standard de reportagem que melhor lhes pode publicitar a instituição.

Aquele pressuposto de que a fotografia é um gerador de estereótipos, e que a forma como as imagens são contextualizadas modifica o que se vê, coloca a pessoa que trabalha com esse medium numa posição delicada, em que tem sempre de pensar nas implicações éticas de gerar determinado tipo de imagens e de as fazer circular.

Tento construir uma espécie de universo fotográfico em que não abdico da sofisticação, mas em que qualquer pessoa pode, à partida, ver alguma coisa com que se identifique. Depois ensaio formas de interferência entre as imagens que possam criar uma espécie de curto-circuito que, idealmente, deveria fazer rebentar a instalação dentro da cabeça, fazer saltar os disjuntores do quadro (...).

Quero que as minhas imagens, porque aparentemente cristalinas, possam cativar quaisquer pessoas, para depois confundi-las. Se se sentirem confusas é porque estão a raciocinar. Talvez comecem a não tomar como garantido aquilo que está à frente delas. Isto de que estou a falar, por mais perigosa que seja a palavra, é claramente da ordem da ideologia.

O enquadramento é o primeiro acto de manipulação. Não há forma mais imediata de mostrar o que é uma fotografia que mostrar alguém a fotografar.

25 fevereiro, 2007

reinventar

Print screen do ensaio The Oscar

É por sites como o da Magnum que damos graças por existir uma ferramenta como a internet. Por aqui percebe-se bem porque é que a agência de fotografia mais reputada do mundo continua viva e de boa saúde. Por aqui percebe-se que está atenta ao que de melhor se faz na net reinventando formas de divulgar o trabalho dos seus artistas.
Entre várias secções onde apetece ficar muito tempo, destaque para o longo portfolio de Raymond Depardon e a página In Motion, onde é possível encontrar ensaios temáticos organizados em exclusivo para o site e descarregar vídeo podcasts. No blog da Magnum, o último post retoma a "má" experiência que Martin Parr teve ao fotografar no Brasil e a discussão acerca do direito à imagem e a fotografia de rua.


Os vídeo podcasts podem ser descarregados de forma gratuita

24 fevereiro, 2007

viajar


Para quem, como eu, não pode ir a Washington ver a exposição Paris in Transition... pode contentar-se com este livro da Taschen, que faz, à sua maneira, uma viagem pela iconografia da capital francesa. A escolha recai sobretudo em imagens do século XX, mas há também muitas fotografias do século XIX. Jean-Claude Gautrand, fotógrafo, jornalista e historiador da fotografia, assina o ensaio Paris e a fotografia.



Paris, mon amour
Jean-Claude Gautrand, Taschen, 2004.
249 pgs, 9,99 euros

23 fevereiro, 2007

Warhol, 20 anos

Andy Warhol, Artist, Nova Iorque, 1969, Richard Avedon
(© National Gallery of Australia)

Andy Warhol morreu há 20 anos.

Richard Avedon mostra-nos o corpo mutilado, parte das feridas que sararam.
Helmut Newton revela-nos a transcendência, a pose altiva que nunca perdeu.

(Óscar Faria escreve no P2 de ontem sobre a efémeride)


Andy Warhol, Paris, 1974, Helmut Newton


entre aspas


Menina (© Colecção Particular)

Não se pode crescer? Pode. Mas já não se é mais o mesmo. Qualquer de nós, ao olhar para uma foto antiga, de chucha e fralda, dificilmente reconhecerá no estranho o seu eu. Pode adorar, enternecer-se, mas na verdade é outra criatura que sorri na foto. As etapas do crescimento geram vários ‘eus’ na voragem dos anos. A sorte, ou o azar, também se repartem de modo desigual por essas fases. Só as fotografias fixam, para a eternidade, esses seres que a vida desfigurou noutros, revolvendo-lhes os hábitos, as vestes, os pensamentos.


Nuno Pacheco, Metamorfoses, Público, 22.02.2007

21 fevereiro, 2007

samba e fotografia

As baianas com a vista do Rio de Janeiro estampada (© Agência FotoBR)

E hoje quem não é fotógrafo? (© Jorge Silva/Reuters)

E o tema dos Unidos da Tijuca deste ano foi... a fotografia.
O movimento frenético do samba tentou retratar o que é, por natureza, estático. O paradoxo é total. Só a imaginação carnavalesca do Brasil para tentar um exercício estilístico com este grau de dificuldade. Não vi o que se passou ao vivo, mas posso dizer que o resultado final é, pelo menos, muito fotogénico.
O desfile na Marquês de Sapucaí encenou momentos históricos e recordou algumas imagens emblemáticas.
Pode ouvir o samba dos Unidos da Tijuca aqui e lê-lo aqui.

O refrão da música composta por Jorge Remédio, Ivinho do Cavaco, Totonho e Silvão reza assim:

Em preto e branco ganhei a vida
O amarelo em mistério; ilusão
O azul no tom divinal
Nas fotos do carnaval
Sou a Tijuca nesta tela digital



A famosa fotografia de Steve McCurry que fez capa da National Geographic foi uma das protagonistas do desfile (© Jorge Silva/Reuters)

Embalada pelo filme de Clint Eastwood, a foto emblemática da batalha de Iwo Jima também passou pelo sambódromo (© Jorge Silva/Reuters)

19 fevereiro, 2007

 fotografiafalada

© Dean Sewell

Trabalho notável de um fotojornalista australiano que foi das primeiras pessoas a estar presente em Aceh, na Indónesia, uma das províncias que mais sofreu com o tsunami, em Dezembro de 2004. Quando se fala da fotografia de grandes catástrofes põe-se logo o problema da estetização da dor. Por um lado o fotojornalismo, que é extremamente imediato, responde logo à desgraça alheia, não dá tempo para as pessoas começarem a pensar em termos estéticos de composição da imagem. Há nesta exposição [INGenuidades...] imagens do furacão Katrina em que o ponto de vista é completamente diferente. Aqui não houve o pudor de evitar pessoas. Pelo contrário, a objectiva procura-as para dar ideia do drama desta familia que perdeu tudo e que anda por ali à procura dos restos que possam aproveitar da sua casa, todas as recordações.
(Jorge Calado)

*Três perguntas a...

© Susanne Themlitz, da série
Territórios e Estagnações Ambulatórias, 2006

Susanne S. D. Themlitz. Artista plástica lisboeta, de 38 anos. Vive e trabalha entre Lisboa e Colónia, na Alemanha. Tem formação de base de escultura e desenho (Ar.Co). À semelhança de Vasco Araújo, é uma das artistas seleccionadas para a fase final do Prémio Bes Photo que usa o suporte fotográfico em projectos não exclusivamente fotográficos (instalação, pintura). Extroversão (Agência Vera Cortês) foi a mostra que convenceu o júri a incluí-la na edição deste ano do prémio.

¿Por que é que misturas tintas com sais de prata?
Uma pergunta culinária... Metemos farinha nos crepes, alho nos bifes e sal nas batatas. Mas para chegar à resposta, o assunto parece-me menos culinário e mais existencial. Terra para o trigo, vacas para os bifes e água para as batatas, e muita outra coisa... para a série dos Errantes (entre também muita outra coisa) - tinta.

¿Dizes: Quando me vejo nos espelhos à volta, o tempo não anda, enquanto a imagem reflectida continua a crescer. A imagem do real já ultrapassou definitivamente a percepção que temos do real?
Não sou eu quem fala nos espelhos e na imagem reflectida. Escrevi sim o texto para o catálogo que funciona como peça: No Laboratório Introspectivo há duas pessoas a conversarem - Uma e Outrem. Acho que nem Uma nem Outrem se referem à ideia que a realidade é um carro na auto-estrada que pode ser ultrapassado (para usar a tua expressão) ou que ultrapassa outros que vão a passo de caracol. Trata-se menos de uma corrida, mas mais de raciocínios e de ligações sinápticas.

¿Os lugares-fábula oníricos e desconcertantes que nos dás a ver continuam a interessar-te? Para onde nos leva a seguir a tua imaginação?
Não faço ideia.

17 fevereiro, 2007

à venda 3

Álbum Salazar vendido no primeiro leilão (© David Clifford/Público)

O terceiro leilão de fotografia em Portugal já tem data marcada: 12 de Maio. Vai chamar-se Amadeo, uma referência ao pintor português que há bem pouco tempo arrastou multidões para a Gulbenkian. O local escolhido para a venda volta a ser o Centro de Convenções do Centro Cultural de Belém. Os lotes estarão disponíveis para consulta no espaço de um dos organizadores, a Potássio 4, entre os dias 9 e 10 de Maio.

16 fevereiro, 2007

molder

Jorge Molder, série Nox, 1999 (colecção particular)

O Prémio AICA/MC (Associação Internacional de Críticos de Arte/Ministério da Cultura), na categoria de artes visuais, foi este ano atribuído, por unanimidade, ao fotógrafo Jorge Molder. O júri, constituído por Ana Tostões, João Pinharanda, Nuno Crespo, Ricardo Carvalho e Rui Mário Gonçalves, afirma que Molder foi um dos artistas que “mais contribuiu para a importância alcançada por esse meio de expressão no contexto actual”. Por outro lado, “a sua coerência programática e conceptual ficou bem patente na sucessão de exposições de 2006 (Santiago de Compostela, Madrid, Coimbra e Lisboa)”.
Avesso à ideia de concursos, Jorge Molder confirma no Público de hoje que este é o primeiro prémio da sua já longa carreira. “É bom sentir que o nosso trabalho foi reconhecido pelas pessoas que estimamos”, disse congratulando-se com a sintonia entre os membros do júri.
Paulo David foi também reconhecido com o mesmo prémio na categoria de arquitectura. Os galardoados vão receber 10 mil euros cada.
No âmbito das comemorações dos 25 anos do Prémio AICA/MC, a organização prepara uma grande exposição retrospectiva que faz um balanço não só dos premiados, mas também da arte e da arquitectura portuguesa deste período.

höfer

Candida Höffer, Casa da Música Porto, 2006

No domingo, às 16h00, o sociólogo José Luis Garcia analisa as diferentes dimensões sociais, culturais e civilizacionais dos espaços intimistas fotografados por Candida Höfer. A exposição ainda pode ser vista até ao dia 25 de Fevereiro.


Local: Sala Polivalente do Centro de Exposições do CCB
Preço: entrada na exposição

15 fevereiro, 2007

como um flâneur

Charles Nègre (1820 - 1880), Tuileries Statue: Boreas Abducting Orithyia, 1859, albumina (National Gallery of Art, Washington)

Paris é a cidade da arqueologia da fotografia. As primeiras chapas de metal não foram lá sensibilizadas, mas foi lá que o daguerreótipo - o processo fundador que ficou para a história - se estreou no registo do real com a ajuda da luz.
A exposição Paris in Transition: Photographs from the National Gallery of Art foi inaugurada recentemente em Washington para mostrar as transformações da cidade e a evolução dos processos fotográficos desde as primeiras imagens conhecidas até aos anos 30. A ideia é sublinhar também a importância de Paris como cidade fotografada e como porto de abrigo de muitos pioneiros.
A National Gallery of Art afirma que o percurso foi organizado na perspectiva de um flâneur, ou aquele que vagabundeia sem destino pelas ruas e praças. A viagem começa com imagens de ruas e arquitectura, ainda de olhar extasiado, de Henry Fox Talbot, Gustave Le Gray, Auguste Mestral e Charles Nègre. A seguir, a partir de fotografias de Charles Marville, Louis-Émile Durandelle e Hippolyte-Auguste Collard, mostram-se as profundas mudanças urbanas que o barão de Haussmann, sob as ordens de Napoleão III, introduziu na capital francesa. Vem depois Eugène Atget, o fotógrafo que viu a cidade para lá da sua identidade abstracta captando o que lhe é peculiar e individual – a vida do dia-a-dia. É aqui que estão também as imagens de Alfred Stieglitz. Para a última parte, as imagens da uma cidade dividida entre a “nostalgia do passado” e a “vertigem da modernidade” captadas por fotógrafos que assentaram arraiais em Paris: André Kertész, Germaine Krull, Brassaï, Ilse Bing e Jaroslav Rössler.
Mais imagens da exposição aqui.


Brassaï (1899 - 1984), Couple at the Four Seasons Ball, Rue de Lappe, Paris, c. 1932 (National Gallery of Art, Washington)


Paris in Transition: Photographs from the National Gallery of Art
The National Gallery of Art, Washington

Até 6 de Maio

 
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