14 fevereiro, 2007

aprender

© Jeff Carter. Latoeiro a trabalhar, Narrandera, Austrália, 1955 (Cortesia do artista)

Em paralelo à exposição INGenuidades - Fotografia e Engenharia 1846-2006, a Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma série de visitas/conversas à hora do almoço e ao fim-de-semana. Aqui fica o programa:

» 15 de Fevereiro, Quinta, 13h00.
Arte e Documento: tensões, fronteiras e zonas de contacto, por Carla Mendes

» 18 de Fevereiro, Domingo, às 10h30.
Ingenuidades - das forças da natureza ao espaço sideral, por Carlos Carrilho

» 18 de Fevereiro, Domingo, às 16h00.
Do engenho à obra - o património das engenharias, por Maria Fernanda Rollo

» 22 de Fevereiro, Quinta, às 13h00.
Arte, ciência e técnica: uma breve história da fotografia

» 25 Fevereiro, Domingo, às 16h00.
Ética e Estética: documentar a tragédia, por Lígia Afonso

13 fevereiro, 2007

desconhecido

© Fernando Maqueira, gorila hembra, 2006

Ao vê-los assim – registados em suporte fotográfico – percebemos melhor o que está para além dos corpos. Apercebemo-nos da possibilidade de uma expressão. Pelo reflexo do outro damo-nos conta da imensidão do seu mundo. E questionamo-nos se algum dia chegaremos a um entendimento mínimo do que está para além deste olhar de doce melancolia.


fotoencuentros 07
Murcia e Cartagena, Espanha
(Sobre a representação do mundo animal e
a sua relação com a espécie humana)

12 fevereiro, 2007

*À conversa com...

Floresta afogada, Lago Argyle, formado pela barragem do Rio Ord, em Kununurra, Kimberley, Austrália Ocidental, 2003
(© Richard Woldendorp, cortesia do artista)


...Jorge Calado
É a exposição de fotografia do ano em Portugal. INGenuidadesFotografia e Engenharia 1846-2006 reúne 350 imagens vindas de museus, galerias e colecções privadas dos quatro cantos do mundo. Enquanto dava as últimas indicações na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian, o curador Jorge Calado, professor catedrático de Química do Instituto Superior Técnico, crítico de fotografia e ópera, falou da génese desta mega-exposição, das relações entre fotografia científica e arte e do elemento que lhe deu mais trabalho representar.

Que INGenuidades nos quer dar a ver com esta exposição?
As mensagens são várias. Isto é uma homenagem à capacidade criadora da Humanidade ao longo dos séculos, desde sempre. Por outro lado, quero também transmitir às pessoas que quando se cria alguma coisa está a destruir-se também. Embora exista esta imagem de que a terra é a nossa mãe, a terra é também a nossa filha. Estávamos habituados a chamar mãe à natureza, mas quem trata da natureza somos nós. Ela é da nossa responsabilidade. Temos de a conservar. Há aqui também uma mensagem ecológica e que se liga muito bem com a história que tento mostrar: a obra de arte de engenharia, nasce, cresce vive e morre. Há um ciclo e depois volta-se ao início, é a reciclagem.

Logo depois da apresentação genérica das forças da natureza aparecem imagens de obras grandiosas que envolvem a arte e o engenho do Homem. Porquê este contraponto?
As obras da engenharia são uma resposta às forças da natureza. Quando as forças da natureza são demasiado poderosas, nós temos de nos defender. A engenharia pode ser parte da solução. Por outro lado, a engenharia tira partido destas forças. Nesta secção [Grandes Maravilhas] quero dar também dois lados: o lado em que somos derrotados e o lado em que fomos capazes de mover rochedos para fazer obras grandiosas, como as pirâmides do Egipto ou as construções circulares de Stonehenge.

Não deve ter sido tarefa fácil organizar uma exposição com esta dimensão. Quanto tempo demorou a seleccionar as fotografias?
Já ando a pensar nisto há algum tempo. A ideia original nem foi minha. Foi dada por uma amiga da Austrália depois de ver a exposição À Prova de Água, no CCB [em 1998]. Conversámos algumas vezes sobre isto. Primeiro surgiu a ideia de fazer qualquer coisa relacionada com fotografia e ciência e só depois avancei para as engenharias.

Qual foi a maior dificuldade?
Não tive grandes dificuldades, para ser franco. Em termos de empréstimos até tive muita sorte, porque é muito raro numa exposição com esta dimensão – são 350 fotografias – pedir empréstimos e conseguir quase tudo, à excepção de uma imagem que até nem era fundamental.

Há aqui uma grande trabalho de memória...
Interesso-me muito por fotografia. Conheço bem a história e conheço bem a fotografia contemporânea. Vejo muita coisa. Isto está armazenado de alguma maneira dentro da minha cabeça. O difícil é arranjar um fio condutor, uma ideia para a exposição. Não andava a pensar nisto todos os dias, mas de repente pensei: mas porque é que não pego nos quatro elementos que é uma coisa que toda a gente percebe. É simples, é básico. Já anda na consciência colectiva há milhares de anos.

Que elemento foi mais difícil de tratar?
Para dar uma ideia forte do Ar, num certo sentido, foi difícil. Mas em termos de engenharia não. Há a engenharia aeronáutica, as pontes e o espaço.

Quis ser exaustivo na representação das diferentes áreas da engenharia?
Não. Há coisas que faltam aqui. Aquilo que falta pode ser sempre imaginado por quem vê. É um exercício.

Há na exposição alguma imagem que tenha sido comprada nos últimos leilões de fotografia que houve recentemente em Lisboa?
Sim, há uma fotografia. É de uma fábrica da Ford, em Inglaterra. É uma fotografia muito boa e de que gosto muito.

A partir de meados do século XIX o suporte fotográfico impôs uma nova maneira de fazer ciência e transmitir conhecimento científico. Esta exposição é também uma homenagem a essa nova maneira colectiva de ver e participar nas descobertas científicas e nos avanços das engenharias?
Sem dúvida. Isto é o resultado do progresso científico e técnico da altura. Dou-lhe dois exemplos que são ligeiramente diferentes, mas estão relacionados com isso. Há aqui muitas fotografias australianas e americanas porque o aconteceu foi que estes dois continentes foram desbravados e explorados durante o século XIX, numa altura em que já existia a fotografia. Portanto, todo o levantamente geológico, a construção do caminho de ferro, a construção do telégrafo, a exploração e a prospecção mineira foram sempre acompanhadas pela máquina fotográfica. As próprias dificuldades que a engenharia tinha impuseram melhoramentos na técnica fotográfica. As duas coisas estão ligadas.
Depois, há muitos exemplos históricos. Há aqui uma fotografia que foi das primeiras a ser transmitida via rádio.
A técnica quando se desenvolve permite ver outras coisas que não eram visíveis anteriormente e isso está aqui reflectido. A necessidade de ver cada vez mais e mais longe, que é uma ânsia natural do homem e da mulher impõe desenvolvimentos técnicos na fotografia, assim como no espaço. Temos aqui fotografias de galáxias que estão a milhões de anos-luz.

Acha que a perspectiva dos elementos – Água, Terra, Fogo e Ar – pelo suporte fotográfico mudou a forma do homem olhar para si e para a sua condição?
O Homem teve sempre tendência para pôr tudo à sua medida. Costuma-se dizer que Deus fez o Homem à sua imagem e semelhança. Eu acho que é o contrário – o Homem é que imagina Deus à sua imagem e semelhança. O Homem imagina tudo com as suas dimensões. Quando é confrontado com os elementos da natureza tem reacções de espanto e de medo que são as características do sublime. O sublime é, de certo modo, uma experiência nova que está para além do pitoresco e do belo que qualquer pessoa pode ter em circunstâncias normais. Ora, essa apreensão dos elementos em toda a sua energia, em toda a sua dimensão geram experiências sublimes. Mas é uma experiência subjectiva. Nem todos têm as mesmas reacções perante coisas que são sublimes.

É possível determinar o momento a partir do qual a imagem científica ganha valor estético? Que critérios são usados?
A ciência é toda avaliada esteticamente. Acho que é impossível fazer ciência sem critérios estéticos. Quando fazemos uma descoberta ou chegamos ao fim de uma experiência temos sempre um sentimento de grande alegria e de iluminação. Esses sentimentos são muito regulados pela estética, pelo sentido de proporção e de que as coisas batem certo. A simplicidade estética também é uma característica da ciência. A fotografia científica partilha isto tudo com a ciência.

Mas existe algum critério que possa ser usado para dizer “esta fotografia científica é uma obra de arte”?
Os critérios que uso para a fotografia são muito simples. Pergunto: “Isto sugere-me algo de novo? Isto interroga-me ou interroga a minha relação com o mundo? Isto perturba-me? Isto emociona-me?”. Se [a fotografia] me deixa completamente indiferente não é, para mim, uma obra de arte. Mas se me obriga a fazer perguntas, inclusive a pergunta “Isto é uma obra de arte?”, é um sinal.

A condição primeira da fotografia é técnica porque nos dá uma física e uma química das experiências. Será essa natureza fatal que dificulta o seu percurso rumo ao que é considerado arte?
A fotografia quando nasce é uma coisa curiosa, porque é o resultado de uma descoberta científica, feita por cientistas, mas também nasce para responder a algumas questões relacionadas com a arte. O Fox Talbot [Henry Fox Talbot, inventor do processo de negativo-positivo], por exemplo, parece que gostava de desenhar, mas não tinha jeito nenhum para o desenho. Quando ia de férias para a Itália e via paisagens lindíssimas começava a desenhá-las, mas olhava para aquilo e dizia “que coisa horrível, isto é mais bonito do que aquilo que eu estou aqui a fazer”. Não tinha jeito para pintar, nem para desenhar. E daí pensou que talvez fosse possível pôr a natureza a desenhar-se a si própria. O primeiro livro dele ilustrado com fotografias chamou-se “O Lápis da Natureza”.
Quando aparece, a fotografia é uma dádiva dos cientistas às pessoas que também se interessavam por arte.

A investigadora francesa Monique Sicard escreve num livro recentemente publicado em Portugal que “nada é menos científico do que uma imagem”. Concorda com esta afirmação?
Eu julgo que ela não sabe o que é a ciência. A curiosidade é essencialmente científica. Queremos perceber as coisas. Se uma imagem nos questiona, se começa um discurso, está a gerar em nós uma atitude científica, mesmo que seja a sua rejeição.

segunda vez

© João Silva/The New York Times. Um soldado americano atingido por um sniper é arrastado por outro militar, em Karmah, no Iraque, em 31 de Outubro de 2006

Nasceu em Lisboa, em 1966, viveu em Moçambique até 1976 e depois emigrou para a África do Sul. Na edição de 2005 do World Press Photo, João Silva, de 40 anos, ganhou o 2º prémio na categoria Temas Contemporâneos. Este ano foi reconhecido com uma menção honrosa na categoria Spot News, por um portfólio publicado no New York Times sobre o ataque de um sniper a uma patrulha do Exército norte-americano, em Karmah, no Iraque. É considerado pelos seus pares como um dos melhores fotógrafos de conflitos. Trabalhou para a Associated Press e está actualmente ao serviço do New York Times.
(Público, 10.02.2007)

O portfólio premiado de João Silva está aqui.

09 fevereiro, 2007

a escolhida

© Spencer Platt (Getty Images)


As bombas da aviação israelita tinham deixado de cair há 24 horas. Debaixo de tiroteio havia um mês, Beirute respirava de alívio com o cessar-fogo acordado entre Israel e o Hezbollah. Os milhares de libaneses que tinham sido obrigados a abandonar as suas casas regressavam em massa à capital libanesa. Boa parte da cidade que haviam deixado para trás alterara-se. Perante uma nova geografia urbana, muitos libaneses, de máquinas fotográficas em punho, transformaram-se em turistas dentro da sua cidade. A imagem de Spencer Platt, fotógrafo americano da agência Getty Images, que venceu o World Press Photo 2006, carrega esta e outras contradições. Reúne num instante a estranheza, a emoção e a surpresa de quem se vê perante a destruição que a guerra provoca. Mostra um quadro surrealista, com protagonistas que parecem saídos de uma noite de farra enquanto outros tentam perceber o que escapou às bombas.
“Não conseguimos parar de olhar para esta fotografia. Transmite a complexidade e as contradições da vida real no meio do caos. Esta imagem leva-nos para lá das evidências”, justificou a presidente do júri, Michele McNally, editora executiva adjunta do New York Times.
Numa entrevista ao site da agência Getty Images, publicada em 2003, Spencer Platt revela o que, na sua opinião, é o bom fotojornalismo: “Dar uma história de uma maneira que as pessoas a percebam e mostrar a verdade do que está a acontecer; (...) é jornalismo e é arte. É mostrar as duas coisas ao mesmo tempo: ser criativo, sem perder de vista a realidade.”
Por ter vencido na principal categoria do World Press Photo, Platt vai receber 10 mil euros numa cerimónia no dia 22 de Abril, em Amesterdão, Holanda. A edição deste ano recebeu portfolios de 4440 fotógrafos profissionais de 124 países. Entre 27 de Janeiro e 8 de Fevereiro, o júri viu um total de 78.083 fotografias.
Para além da Fotografia do Ano, o World Press Photo apresenta mais dez categorias, em que foram reconhecidos 53 fotógrafos de 23 países.
Os três dias que precedem a cerimónia de entrega dos prémios, em Oude Kerk, serão preenchidos com conferências, seminários e projecções de fotografia. Ali, além da exposição dos premiados, poderão ser vistas ainda outras duas mostras: uma selecção especial do trabalho de Spencer Platt e outra sobre as alterações climáticas em África, registadas por fotojornalistas locais. O calendário provisório da digressão das imagens do prémio inclui já dois locais para Portugal: Portimão (Passeio Ribeirinho de Portimão), entre 21 de Julho e 12 de Agosto, e Maia (Fórum da Maia), entre 4 e 25 de Novembro.
(Sérgio B. Gomes, Público, 10.02.2007)

A galeria das imagens vencedoras está aqui.
A entrevista a Spencer Platt está aqui.

natureza e engenho

© Dean Sewell (cortesia do artista)

Água,
Terra,
Fogo,
e Ar
são os elementos fundadores, o princípio de tudo, ou quase tudo.
Na exposição INGenuidades - Fotografia e Engenharia 1846-2006, que hoje abre ao público na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, o percurso pode começar aqui, mas também pode começar pelas imagens dos saberes da indústria espacial, no lado oposto da sala. Quem vê é quem decide por onde quer dar os primeiros passos nesta viagem pela fotografia, que presta homenagem às forças da natureza e aos diferentes engenhos que as desbravam, moldam e destroem.
A 24 horas da inauguração para visitantes, ainda há muito que fazer na Galeria de Exposições Temporárias da Gulbenkian, que recentemente recebeu multidões para ver o génio criativo de Amadeo. Molduras por pendurar, caixas de museus dos quatro cantos do mundo por abrir. Ouve-se o martelar e o frenesim dos berbequins. Ecoam as vozes de comando. A banda sonora escolhida por quem trabalha vai de Madredeus a Brian Adams.
O espaço foi distribuído por um longo corredor com entradas e saídas de ambos os lados. A ideia é criar um discurso expositivo que dê total liberdade de movimentos, sem se perder o fio condutor e as temáticas-chave da mostra. Uma solução engenhosa, claro está.
O curador Jorge Calado, crítico de fotografia e professor catedrático de Química, controla in loco todas as movimentações.
O momento da montagem da exposição é aquele de que mais gosta, confessa ao PÚBLICO. À chegada, encontrámo-lo sentado a olhar fixamente para uma parede com várias fotografias enroladas em plásticos ainda no chão. Antes de começar a falar sobre as imagens, pede cinco minutos: "Estou em meditação. Tenho aqui um dilema para resolver".
Se os dilemas para encontrar as melhores combinações nas paredes foram muitos, as dúvidas e as hesitações na escolha de imagens para uma tão grande empreitada não foram assim tantas. "Não tive grandes dificuldades, para ser franco. Em termos de empréstimos, até tive muita sorte, porque é muito raro numa exposição com esta dimensão pedir e conseguir quase tudo, à excepção de uma imagem que até nem era fundamental".
À pergunta fatal sobre a metáfora INGenuidades no título, Calado prefere responder com outras metáforas e evasivas como "as mensagens são várias". Percebe-se que um dos desafios desta exposição passa também por encontrar essa resposta na face de cada uma das 350 imagens que aqui se dão a ver.
Já os propósitos que estão na base desta grande reunião de fotografias saem de imediato. O objectivo é "homenagear a capacidade criadora da Humanidade, recriar a ideia de que, na natureza, nada se perde, nada se cria e tudo se transforma". E aqui entra o engenho do Homem: "A engenharia é um acto de transformação da própria natureza e, tal como as espécies animais e vegetais, as obras de engenharia crescem e morrem ou são destruídas". É a ideia de ciclo e de reciclagem que está presente em toda a exposição.
Ela própria nascida da conjugação de múltiplos saberes da ciência e da técnica, a fotografia tem aqui um duplo papel. Mostra, por um lado, os elementos e as aptidões humanas para transformar o mundo e as coisas. Ensaia, por outro, uma história dos seus usos. A opção é consciente e o curador sublinha a importância de se colocarem lado a lado as mais vulneráveis técnicas do século XIX e as mais sofisticadas impressões a laser.
Ao todo, há sete secções onde os ramos da Engenharia se revelam pelos quatro elementos. O curador conseguiu reunir 160 fotógrafos de 30 nacionalidades. António Júlio Duarte, José Manuel Rodrigues, Paulo Catrica e Paulo Nozolino estão entre o grupo de artistas portugueses. Edward Steichein, Ansel Adams, Bernd e Hilla Becher, Dorothea Lange e Joel Meyrowitz são outros nomes consagrados da fotografia. Em todos Jorge Calado encontrou a expressão que os unia. E com ela formou um percurso para ver o ciclo da vida, do mundo e das coisas.
(Sérgio B. Gomes, Público, 9.02.2007)


© Nick Moir. Um dragão barbudo é testemunha duma enorme tempestade no sul da Austrália. (cortesia do artista)


INGenuidades, Fotografia e Engenharia - 1846-2006
Galeria de Exposições Temporárias
Fundação Calouste Gulbenkian
Av. de Berna, 45 A
Tel: 217823000
Das 10h00 às 18h00;
até 29 de Abril
Entrada a 3 euros

05 fevereiro, 2007

encontrar


É raro, mas às vezes acontece. É preciso alguma paciência e olho de lince para perceber o que nos interessa no meio da confusão. E encontra-se. Encontram-se preciosidades como este catálogo daquela que foi a primeira grande exposição retrospectiva da fotografia em Portugal e sobre Portugal. A mostra foi organizada para a Europalia 91 sob a batuta sábia de António Sena e Jorge Calado. Portugal 1890-1990 foi dividida em cinco grandes temas: J. A. da Cunha Moraes e Francisco Rocchini; Joshua Benoliel; Anos da Transição; Olhares Estrangeiros; Olhares Inquietos. Este exemplar tem os textos em francês e flamengo. Não sei se existe uma tiragem com textos em português.

03 fevereiro, 2007

expectativa

© Thomas Wienberger, Cracker, Esso Raffinerie, 2003


Esta é a imagem escolhida para o convite da exposição INGenuidades Fotografia e Engenharia 1846-2006, que inaugura ao público na sexta-feira, dia 9, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. O comissário Jorge Calado promete um percurso pelo ciclo vital das engenharias – criação, destruição, reciclagem – visto e contado através dos quatro elementos: terra, água, fogo e ar. A expectativa cresce.

02 fevereiro, 2007

*Três perguntas a...

© Vasco Araújo, Trabalhos para Nada - O homen que confundiu a sua Mulher com um chapéu, 2007 (Pormenor da instalação, fotofrafia c-print, 70x50cm)

Vasco Araújo. Nasceu, vive e trabalha em Lisboa. Tem formação em Escultura (FBAL) e em Artes Plásticas (Maumaus). Expõe individualmente desde 2000. Em 2003 ganhou o prémio EDP Novos Artistas. Usa o suporte e a linguagem fotográficas regularmente no seu trabalho que se centra no ficcionamento de personagens e de vidas paralelas. Foi escolhido para integrar a fase final do BES Photo por várias exposições em que participou e/ou realizou, entre as quais, Densidade Relativa (CAMJAP da Fundação Calouste Gulbenkian) e O que eu fui (Galeria Filomena Soares).

¿O que é que te dá a linguagem fotográfica?
A fotografia é o registo do passado que te dá a hipótese de falar no presente e projectar no futuro. Ou seja, ao usar sobretudo imagens que fazem referência ao passado, mesmo que ele seja relativamente próximo, obtenho uma universalidade capaz de estabelecer contacto directo com o público que as vê, não colocando assim as imagens ou os conceitos em causa. O que provoca uma reacção directa nesse público, criando-lhe, desta forma, a possibilidade de construir uma posição crítica.

¿As obras onde usas a fotografia sugerem uma dupla paragem do tempo. É para sublinhar a finitude? De nós? Das coisas?
Sim, é o sublinhar de uma história, de um passado. Todas as imagens levam-nos para um fim, que pode ser variado, mas invariavelmente é o da morte, a nossa última existência. No projecto que fiz na galeria Filomena Soares no ano passado, O que eu fui, uma instalação com fotografias de estátuas de cidade eram acompanhadas de som, pelo qual podíamos ouvir um texto, onde uma mulher quase a morrer fazia a análise em retrospectiva da sua vida, ironizando e, ao mesmo tempo, julgando a sua felicidade, organização e inteligência. As estátuas são o último monumento à humanidade, elas estão sempre presentes entre nós e quase nunca as observamos. O facto de as ter fotografado, sobretudo de tão perto, obrigava o público a tê-las como corpo presente onde uma voz lhes dava vida.

¿Que projectos te ocupam agora? Continuam a envolver fotografia?
De momento estou a preparar um projecto em vídeo para o Baltic Art Center, em Newcastle, em Inglaterra. Este projecto não tem directamente a ver com fotografia mas baseia-se também neste mesmo princípio que falei, o uso do passado para falar no presente e projectar no futuro. Vai chamar-se, About being different.

escolher

Galardão concebido por Joana Vanconcelos

Já podem ser enviados os portfolios para a 7ª edição do Prémio Fotojornalismo Visão/BES. Há sete categorias a concurso: Reportagem; Vida Quotidiana; Espectáculo; Retrato; Notícias; Desporto; Natureza. A data limite para a entrega dos trabalhos é o dia 16 de Fevereiro. O júri, constituído apenas por personalidades estrangeiras, reunir-se-á em Lisboa no final de Março. Os prémios serão entregues no dia 30 de Março.
O regulamento e o formulário de inscrição estão aqui.

31 janeiro, 2007

luz

© Désirée Dolron, Xteriors VIII

Passava os olhos por entre imagens que fizeram a história do último Mois de La Photo de Paris e fixei-me neste corpo prostrado, espécie de anjo de cabelos de fogo que encontrou o fim. Há nele uma luz que mente. Em que não acreditamos. E ainda bem. É essa luz pastosa que sai do escuro e se apodera das formas tornando-as quase impossíveis. E ainda bem. É uma luz representada e é por ela que vive a figuração. É dada como quem pinta. E ainda bem.
Désirée Dolron mostrou esta e outras imagens no Institut Néerlandais no final do ano passado. Exaltation, Gaze, Xteriors são o resultado de mais 15 anos de trabalho. Em Exaltation há uma visão documental sobre o sagrado, o misticismo e experiências religiosas várias do continente asiático. Em Gaze, Dolron segue pela via conceptual explorando as possibilidades do retrato em ambientes etérios. Na série Xteriors, a mais recente, explora meticulosamente as possibilidades da luz, primeiro com a fotografia, depois com a manipulação digital. A inspiração vem do claro-escuro e do ambiente “segredo” da pintura de Johannes Vermeer.


© Désirée Dolron, Xteriors X

29 janeiro, 2007

Ce jour-là

Willy Ronis

As fotografias não são só imagem. Quer dizer, são sobretudo imagem, mas não só. São também as condicionantes, as situações, os contextos que lhes deram origem. Cansados que estamos de ver imagens, raramente pensamos quem está por trás delas, quem as fez nascer. É demasiado penoso, obriga a algum raciocínio suplementar. No limite, esquecemo-nos que para determinada fotografia existir foi preciso um fotógrafo. É por isso que sabe sempre bem ler/ouvir relatos de quem decide carregar no botão. E não é só para que nos lembremos do fotógrafo. É sobretudo para que nos lembremos que o fotográfico ainda é consequência de uma opção – disparar. Para que nos lembremos que essa opção tem o poder de provocar outros acontecimentos e emoções. Willy Ronis, “o mais parisiense dos fotógrafos vivos”, como os franceses carinhosamente o apelidam, decidiu, aos 96 anos, contar-nos num pequeno livro as histórias à volta de 54 fotografias suas, captadas entre 1950 e 1960. Os textos, na primeira pessoa, começam sempre por um Ce jour-là. Estão lá os passos, as datas, os acontecimentos que por vezes desvendam, por vezes escondem. Ronis fugiu às imagens estereótipo da sua obra. Preferiu as menos vistas, as menos conhecidas. Não é um livro nostálgico, é um livro crepuscular. (...) Um manual de vida, diz o crítico do Le Monde Michel Guerrin. O mosaico dos 54 textos e imagens formam um retrato de Ronis e fazem uma homenagem à mulher que o acompanhou, Marie-Anne.
No ano passado, mais de meio milhão de pessoas viu a exposição Paris dans l'oeil de Willy Ronis, no Hôtel de Ville, na capital francesa.
Para ler uma entrevista do L`Express a Ronis clique aqui.
Para ouvir e ver uma conversa com o mestre francês clique aqui.




J`ai lá mémoire de toutes mes photos. Elles forment le tissu de ma vie, et parfois, bien sûr, elles se font de signes pardessus les années. Elles se répondent, elles conversent, elles tissent de secrets.

Willy Ronis, Le Monde, Le Monde des Livres, 19.01.2007


Ce jour-là, Traits et Portraits, Willy Ronis
Mercure de France, 184 p., 22 €

26 janeiro, 2007

*Três perguntas a...

I Spy, da série Collected Short Stories, 2003 (160x120 cm, © Daniel Blaufuks)

Daniel Blaufuks. Fotógrafo lisboeta com um trabalho ligado à imagem conceptual. Começou a estudar fotografia no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), Lisboa, e continuou no Royal College of Art, Londres, e na Watermill Foundation, Nova Iorque. Para além do suporte fotográfico usa outros meios para apresentar as suas obras, como o vídeo e os livros. Tem também um trabalho paralelo como documentarista. No ano passado foi seleccionado para a recta final do prémio BES Photo. A série que expõe agora no Centro Cultural de Belém dá a ver imagens de Terezín (antes chamada Theresienstadt, República Checa), uma localidade transformada em campo de concentração pelos nazis alemães.
Nota: com este *Três perguntas a..., inaugura-se uma série de pequenas conversas com os artistas escolhidos para a edição deste ano do BES Photo.

¿Por que é que fotografas?
A fotografia é apenas uma desculpa para um outro segredo.

¿Na série Terezín, as fotografias estão impressas com grandes margens brancas. Quiseste transmitir serenidade, candura?
As margens correspondem à paginação do livro, que é a base final do projecto, isto é, as fotografias são páginas do livro ampliadas. Daí que algumas apareçam descentradas. Mas penso que desta forma demonstro também o meu respeito pelos locais e rostos fotografados, suavizando a sua apresentação neste formato.


¿O que é que pensas dos usos menos convencionais que se fazem hoje da fotografia?
Não sei exactamente ao que aqui te referes. Mas a fotografia não é já necessariamente o que Robert Frank uma vez descreveu como "apenas uma folha de papel". Pode sê-lo, mas pode também ser exactamente o contrário - uma fotografia pode ser pequena, pode ser grande, pode inserir-se numa arquitectura, ou apenas num postal, fazer parte de um jornal ou de uma página na net.
Passámos da folha de papel para uma selva de imagens, em que o nosso olhar é constantemente invadido por imagens na televisão, publicidade na rua, nos jornais e tudo é passível de ser fotografado. Uma floresta democrática, como lhe chamou William Eggleston.
Para que uma imagem faça alguma diferença nas nossas vidas, nem que seja por segundos, necessita de uma intenção clara e precisa por parte do seu criador. E uma imagem numa parede de uma galeria não é igual, mesmo sendo uma fotografia idêntica, a uma imagem no exterior de um prédio no centro de uma cidade. Daí que a minha fotografia seja também um trabalho sobre a relação da imagem com outras imagens, públicas ou privadas, e com o espaço em que se insere, sobre como e onde a imagem é apreendida e sobre as suas possíveis leituras.

Olhar



Não é novidade nenhuma. Mas não fica mal lembrar de vez em quando que a intensidade de um retrato está, sobretudo, nos olhos e no olhar.




Biswaranjan Rout (© Associated Press)

24 janeiro, 2007

à procura

© Stan Guigui, vencedor do Descubrimientos PHE 2006. Da série The Reign of the Thieves, Bogotá



A organização do PHOTOESPAÑA está a receber portfolios de fotógrafos, profissionais ou amadores, no âmbito do projecto Descubrimientos PHE, com inscrição gratuita. Podem ser enviadas um máximo de 15 fotografias de temática livre, até ao dia 2 de Fevereiro. De entre todos os trabalhos apresentados, serão escolhidos 60 finalistas. Depois, estes autores terão de fazer uma inscrição (com um custo de 200 euros) para que o seu portfolio seja mais uma vez analisado pelo júri. É deste grupo que sairá o prémio Descubrimientos Vueling Best Portfolio. O autor galardoado terá direito a uma exposição individual no PHOTOESPAÑA 2008. Os restantes portfolios serão mostrados colectivamente durante a edição deste ano do festival, que comemora 10 anos.
Todas as informações acerca da inscrição podem ser consultadas aqui.


Descubrimientos, PHOTOESPAÑA
X Festival Internacional de Fotografia y Artes Visuales
Madrid: 30 de Maio » 22 de Julho
Escolha de portfolios: 1 » 3 de Junho

23 janeiro, 2007

Investigar fotografia



A revista History of Photography é uma das poucas publicações internacionais dedicada à crítica e à história da “unidade semântica básica de todos os media modernos – a fotografia”. Através do site da editora Taylor & Francis é possível receber o último número de forma gratuita.
Aqui fica a lista dos artigos publicados:

» William Stirling and the Talbotype volume of the Annals of the artists of Spain (Hilary Macartney)

» Taken from Life: Post-Mortem Portraiture in Britain 1860-1910 (Andrey Linkman)

» The Subcontinent as Spectator Sport: The Photographs of Hariot Lady Dufferin, Vicereine of India (Eadaoin Agnew e Leon Litvack)

» The Gift of Form: Brassaï and the Crypt of Saint-Sulpice (Meg Melvin)

» “Composition by the Rules” (Christian A. Peterson)

» Pictoring Atrocity: Photography in Crisis, a Symposion Report (Allison Moore)


Uma página do artigo Taken from Life: Post-Mortem Portraiture in Britain 1860-1910



History of Photography
Director: Graham Smith
School of Art History, University of St. Andrews, Escócia

22 janeiro, 2007


Entre aspas

© Georges Pacheco, Alfama, 1999


Para funcionar como prova, a imagem tem de se apresentar como capaz de captar o imprevisto; tem de se impor numa dimensão situada fora do campo das intenções dos autores.

Monique Sicard, A Fábrica do Olhar – Imagens de Ciência e Aparelhos de Visão (século XV-XX), Edições 70

21 janeiro, 2007

Aprender a ver

Susanne Themlitz

O serviço educativo do Centro Cultural de Belém vai fazer visitas guiadas todos os domingos às quatro exposições seleccionadas para o BES Photo deste ano. A excepção será em três domingos em que caberá aos próprios artistas a apresentação dos seus trabalhos. Apenas Augusto Alves da Silva não falará sobre a sua fotografia que está na fase final do prémio.
Para além destas visitas, haverá também ateliers para famílias. O desafio é tentar responder à pergunta Quantas palavras vale uma imagem?.

Visita guiada geral:
Domingos, 16h00

Falar Alto (Conversas com os artistas):
21 Janeiro (Domingo, 16h00), visita com Susanne Themlitz
28 Janeiro (Domingo, 16h00), visita com Daniel Blaufuks
4 Fevereiro (Domingo, 16h00), visita com Vasco Araújo

Quantas palavras vale uma imagem?:
3 e 24 Fevereiro e 10 Março, 11h00
Crianças dos 8 aos 14 anos, acompanhadas de um adulto
Nº participantes: 25
Duração: 1h30

Marcações/Informações:
Tel.: 21 361 28 00
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19 janeiro, 2007

Do invisível

David Scull (Clinton Foundation)

João Lopes brinda-nos esta semana com mais um magnífico ensaio sobre o poder simbólico das imagens e a importância do que nelas não se diz, do que não se mostra. E não será ainda o poder de sugestão o principal responsável pelo encantamento?

(...) Podemos dizer que o amor pelas imagens nos inicia no paradoxal labirinto do invisível, quer dizer, naquilo que nunca será imagem. É bom saber que a ânsia de ver pressente as suas fronteiras.

João Lopes, Entre as Imagens, , Diário de Notícias, 19.1.2007

Para los angeles

Ras & Constanza Piaggio, Blue Picasso, Galeria Lisa Sette


Começou a photo los angeles, apresentada como a maior feira de fotografia dos Estados Unidos. O certame, a decorrer em Santa Monica, tem uma longa lista de galerias vindas de vários pontos do globo. De Portugal, não há nenhuma representação. As imagens apresentadas vão desde o início da fotografia até às mais recentes criações que usam a imagem fotográfica como suporte. Haverá ainda conferências e seminários com fotógrafos, consultores, curadores, historiadores e coleccionadores.


Irving Penn, Girl in Bed, Galeria Vintage Works


photo los angeles
Santa Monica Civic Auditorium, 1855 Main Street
Até 21 de Janeiro

18 janeiro, 2007

Fase final

Daniel Blaufuks, sem título, da série Terezín, 2006


Susanne Themlitz, Territórios e Estagnações Ambulatórias, 2006


É cada vez mais transversal o suporte fotográfico. É cada vez mais presente a sua linguagem nas várias expressões artísticas. O reconhecimento dessa capacidade mutante tem vindo ao de cima, colocando-se naturalmente lado-a-lado os meios convencionais de fazer fotografia e os que usam e se inspiram na sua lógica criativa. Na terceira edição do BES Photo, que amanhã abre ao público no Centro Cultural de Belém, estão presentes essas duas aproximações.
Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, Susanne Themlitz e Vasco Araújo, foram seleccionados por exposições realizadas entre Julho de 2005 e Junho de 2006. No dia 27 de Fevereiro vai saber-se quem é o vencedor. A escolha será feita por Kate Bush (directora da Barbican Art Gallery), Manuel Castro Caldas (directora executiva da Ar.Co), Olga Sviblova (directora e curadora do Moscow House of Photography), Pepe Font de Mora (director da Fundación Foto Colectania) e Tereza Siza (directora do Centro Português de Fotografia). Helena Almeida e José Luís Neto foram os vencedores das duas edições anteriores do galardão, o maior em valor pecuniário atribuído em Portugal (15 mil euros).


Augusto Alves da Silva, sem título, 2005-2006
(cortesia Galeria Fonseca Macedo, Ponta Delgada)



Vasco Araújo, Trabalhos para Nada, A Mulher que casou cinco vezes, 2007



BES Photo
Centro Cultural de Belém, Lisboa
Praça do Império
Tel.: 213612400
Até 28 de Março

17 janeiro, 2007

Pacífico Inédito em Lisboa

Grupo de expedicionários (© Instituto Cervantes)


A exposição Pacífico Inédito, 1862-1866 viaja do Porto para Lisboa. Antes da inauguração no Museu Nacional de História Natural, amanhã, haverá duas conferências, com início às 17h30, organizadas pelo Instituto Cervantes:
- A expedição e a exposição fotográfica, por Soraya Peña (coordenadora de exposições do Museu Nacional de Ciências Naturais, de Madrid);
- O legado cultural e científico da expedição, a sua conservação e recuperação, por Isabel Izquierdo (conservadora da mesma instituição).

Rafael Castro y Ordóñez foi o fotógrafo escolhido para acompanhar a chamada Expedição ao Pacífico, a última grande viagem científica espanhola às Américas. A decisão de enviar para o outro lado do globo, naquela época, alguém com capacidade para registar paisagens, costumes, tipos e cidades revela um modernismo perspicaz, uma grande visão estratégica de quem quer materializar uma nova abordagem do saber, cada vez mais alicerçada na imagem da realidade e já não apenas na realidade em si. Castro y Ordóñez terá conseguido trazer cerca de mil placas de vidro, das quais se salvaram apenas 300.
Boa parte dos negativos em vidro que deram origem a esta mostra, já vista em Nova Iorque, São Paulo e Rio de Janeiro, está em más condições. O espólio esteve na penumbra durante muito tempo. As cópias agora mostradas não escaparam às feridas desse esquecimento. Os riscos, a corrosão ou a quebra de objectos frágeis que eram as lamelas de vidro sensibilizadas não podem ser totalmente apagados das reproduções actuais. São danos irremediáveis. O que já não é irremediável é o trabalho de tradução dos textos que acompanham as imagens já expostas no Centro Português de Fotografia (da responsabilidade do Cervantes?). É pobre. Sobram nomes espanholados e algumas frases vertidas à letra perdem sentido. Fica a certeza de que podia ter sido feito bem melhor.

Grupo de expedicionários (© Instituto Cervantes)


Pacífico Inédito, 1862-1866
Museu Nacional de História Natural, Lisboa
R. da Escola Politécnica, nº 58
Tel.: 213 921 816
Até 29 de Março

16 janeiro, 2007

As escolhas de Lola

Dorothea Lange


Es mejor tener cinco buenas fotografias que 2000, porque lo que cuenta en una colección y lo que la distingue son lás imágenes, no el número o los nombres que tenga

Lola Garrido, El País, 2.1.2007

Que fotografias tem a colecção privada de quem se dedicou (e ainda dedica) a coleccionar fotografias para os outros? Que critérios usou? Quais foram os seus artistas de eleição? Que técnicas privilegiou? Que períodos preferiu?
Lola Garrido é directora artística da Fundación Foto Colectania, instituição catalã que possui um dos mais importantes espólios de fotografia da Península Ibérica. Durante as duas últimas dezenas de anos assessorou e construiu várias colecções de fotografia. À medida que foi dando corpo a esses espólios "por encomenda" foi reunindo também a sua própria colecção que conta hoje com mais de 700 fotografias.
É desta dupla postura de Garrido, no limite do conciliável, que resulta o maior interesse da exposição Sus ojos los delatan, uma selecção de 70 imagens que fornecem algumas pistas a quem quer (pode) dar os primeiros passos na colecta de uma memória visual fotográfica. Do gosto pessoal de Lola Garrido fazem parte várias imagens captadas por fotógrafos portugueses, entre os quais, Helena Almeida, Jorge Molder, José Luís Neto, António Júlio Duarte, Rita Magalhães e Augusto Alves da Silva.


La memoria no funciona como una película, sino que está hecha de fotografias, y por eso he decidido coleccionarlas. Mi colección es un estado de ánimo



P. Horst, Round the clock, 1987


Sus ojos los delatan, colecção de Lola Garrido
Fundación Foto Colectania, Barcelona
Calle Julián Romea, nº 6, D 2
Tel.: 93 217 16 26
Email: colectania@colectania.es
Até 28 de Março

15 janeiro, 2007

Mudar a história

Joe Rosenthal, Rising the Flag on Iwo Jima, 1945 (Associated Press)


No Y de sexta-feira, Alexandra Prado Coelho reconstrói as circunstâncias em que Joe Rosenthal (1911-2006) captou uma das imagens mais reproduzidas e vistas do século XX , ponto de partida para o filme As Bandeiras dos Nossos Pais, realizado por Clint Eastwood, actualmente em cartaz. Tal como Rising the Flag on Iwo Jima mudou o desenrolar da II Guerra Mundial, outras imagens estiveram na origem de derivações importantes em alguns dos mais significativos acontecimentos da história recente. Alexandra escolheu cinco: Guerra do Vietname (1968); manifestação na Praça de Tiananmen (1989); Guerra da Bósnia (1992); Mogadíscio (1993); Iraque (2004).


Eddie Adams, Vietname, 1968 (Associated Press)

11 janeiro, 2007

A Índia de Buainain

© Marcelo Buainain

Depois de anos a fazer retrato de celebridades, Marcelo Buainain voltou-se para a fotografia documental. Viajou. Passou pela Índia e voltou, uma vez, duas vezes. Voltou várias vezes para mostrar ao Ocidente um pouco de uma cultura milenar, cujos valores estão sedimentados na simplicidade, humildade, desapego, compaixão e amor. Com Índia: quantos olhos tem uma alma, que amanhã inaugura no Braga Parque, Buainain quer dar a alma de um país que dizem ter o maior património espiritual do planeta. Depois de ter sido publicado, em 1998, o projecto foi distinguido duas vezes: Prémio Máximo de Fotografia, da II Bienal Internacional de Curitiba (Brasil); Gold Medal, da Society for News Design (EUA), pelas reportagens publicadas no DNa, antigo suplemento do Diário de Notícias.


© Marcelo Buainain


Índia: quantos olhos tem uma alma, Marcelo Buainain
Braga Parque
R. dos Congregados
Tel: 253250360
Todos os dias, das 10h00 às 23h00
Entrada livre
Até 12 de Fevereiro

08 janeiro, 2007

Descubrir

Isabel Muñoz, Sergio e Barbie, 2002


A revista Descubrir el Arte, que é possível encontrar em muitas bancas portuguesas, está a oferecer duas cópias de fotografias de autores contemporâneos espanhóis. A iniciativa começou em Dezembro do ano passado com imagens de Ramón Masats e José Manuel Ballester. Seguiram-se Isabel Muñoz e Miquel Navarro. Para o próximo mês estão anunciadas cópias de fotografias de Chema Madoz e Carmen Calvo. Em cada número são publicadas entrevistas e trabalhos de fundo sobre os autores das imagens. A qualidade das reproduções é bastante aceitável face ao preço de capa da revista, que custa 3,60 euros.


Chema Madoz

*Três perguntas a...


Auto-retrato, 2002

Augusto Brázio. Fotógrafo alentejano a trabalhar em Lisboa, membro da agência [kameraphoto]. Ligado ao extinto suplemento DNa, do Diário de Notícias, desde a sua fundação, construiu aí uma forma muito particular de retrato, de grande capacidade narrativa. Continua a assinar no DN imagens da fisionomia humana, agora com um pendor mais sofisticado. Para o álbum Olha pra mim (Oficina do Livro), seleccionou dezenas de retratos que traçam um percurso marcado pela eficácia na hora de dar a ver o outro. Eduardo Prado Coelho assina os ensaios da obra.


¿Por que é que fotografas?
Tenho enorme curiosidade pelo que me rodeia. A imagem fotográfica é consequência.

¿O que é um bom retrato? O que é que procuras no retratado quando lhe apontas a objectiva?
Pode-se conhecer o outro com o que dele se mostra? A labuta não tem fim. Quanto ao bom retrato...

¿O retrato ocupou uma parte significativa do teu trabalho nos últimos anos. Continua a surpreender-te a figura humana?
Só faz sentido andar neste ofício se tiver toda a disponiblidade para a surpresa, positiva ou negativa, pequena ou grande... No final, é sempre olhar o outro.


António Ramos Rosa


Graça Moraes

05 janeiro, 2007

LisboaPhoto - o fim?

LisboaPhoto 2005, Hannah Starkey, The Dentist, 2003 (Cortesia de Maureen Plaley)


Parar para "repensar". Pelo menos é isso que garante a Câmara de Lisboa (CML), organizadora da Bienal LisboaPhoto, que em 2007 não vai ser realizada. A ideia do pelouro da Cultura da autarquia é fazer "um compasso de espera" para acertar o evento com o Mês Europeu da Fotografia, ao qual estão associadas sete capitais - Paris, Roma, Luxemburgo, Viena, Berlim, Moscovo e Bratislava. Ontem, a CML divulgou um comunicado sobre o assunto em resposta a uma notícia do Diário de Notícias que dava como certo o fim do certame por razões orçamentais. A autarquia reconhece "restrições", mas sublinha que "aquilo que define a LisboaPhoto - o seu modelo, o nome e a marca - é para manter". Confrontada pelo Público com a hipótese de uma ligação com Lisboa, a Maison Européenne de la Photographie, pela voz de Barbara Wolsser, mostra-se cautelosa, deixando no ar um "nim": "O Mês Europeu da Fotografia não é um festival é uma associação de sete festivais de fotografia que se federaram. No máximo podemos produzir uma ou duas exposições juntos, promover eventos, fazer comunicação, mas cada cidade faz a sua programação".
Antes do LisboaPhoto (2003 e 2005), os mais marcantes eventos de fotografia da cidade estavam quase todos nas mãos de promotores privados. O panorama era redutor. Estas bienais demonstraram como Lisboa ansiava por uma grande realização ligada à imagem fotográfica, promotora de espaços de reflexão alargada, divulgadora de espólios nunca vistos, reveladora de locais nunca visitados, potenciadora de talentos desconhecidos. É um erro grave pôr fim ao LisboaPhoto na expectativa de que os "outros" paguem aquilo que deveríamos ser nós a aprender a rentabilizar.


LisboaPhoto 2005, Corpo Diferenciado. Identificação fotográfica de um deliquente com perturbação mental, sem data (Instituto de Medicina Legal – Núcleo de Lisboa)

04 janeiro, 2007

Rir

Jan Grarup, politiken/RAPHO

Tinham passado já três semanas sobre o grande tremor de terra (7.6 na escala de Richter) que destruiu quase por completo Muzaffarabad, capital de província do lado paquistanês da região de Caxemira. Rahila, de cinco anos, foi uma das vítimas dos desmoronamentos que lhe esmagaram as pernas, mas não lhe roubaram a vontade de rir. O fotógrafo dinamarquês Jan Grarup fixou essa nesga de boa-disposição no meio do cataclismo. A imagem foi agora distinguida com o UNICEF Photo of the Year, um galardão que pretende alertar para as condições em que vivem as crianças. É a segunda vez que Grarup vence este prémio.
O sismo de 1o de Agosto de 2005 matou mais de 70 mil habitantes da região de Caxemira, 18 mil dos quais eram crianças, e deixou 3,3 milhões de pessoas sem casa. Um ano depois da catástrofe, 30 mil pessoas continuavam a viver em tendas.

31 dezembro, 2006

Da pornografia das imagens


João Lopes assina hoje um texto, no Diário de Notícias, sobre a utilização acrítica das imagens, partindo do exemplo dado ontem com a divulgação do vídeo de Saddam Hussein a caminho do enforcamento. Vale a pena ler.


(...) vivemos num regime pornográfico das imagens em que tudo, mas mesmo tudo (incluindo a morte premeditada de um homem), é tratado como acontecimento 'normal' no interior de um fluxo de imagens que tende para a indiferença.

 
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