08 dezembro, 2006

Tirar do escuro

Murmúrios do Tempo, Centro Português de Fotografia


Os catálogos de exposições e os (poucos) livros de fotografia editados em Portugal são, regra geral, caros. Quem os manda fazer prefere-os empilhados em armazéns a ganhar pó do que vendê-los a preços acessíveis. É uma espécie de cura do sono, até que alguém decide trazê-los à vida, que é como quem diz trazê-los à vista para deleite dos que decidem ficar com eles. Quando começam a brilhar as luzinhas em homenagem ao Menino, eis que várias instituições do país têm a feliz ideia de poupar uns metros quadrados de espaço reduzindo de forma significativa o preço das suas edições.

Estas foram as minhas últimas compras:

*Revelar Coimbra, Os Inícios da Imagem Fotográfica em Coimbra, 1842-1900. Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra, 2001. 7,50 euros (Museu Nacional Soares dos Reis);
*Os Putos, Fotografias de João Martins. Instituto Português de Museus, 1999. 5,00 euros (Museu Nacional Soares dos Reis);
*Paulo Nozolino, 1989-1990. FotoPorto-Bienal de Fotografia, Fundação de Serralves, Porto, 1990. 5,00 euros. (Fundação de Serralves);
*Neal Slavin, Portugal, 1968. FotoPorto-Bienal de Fotografia, Fundação de Serralves, Porto, 1990. 10,00 euros. (Fundação de Serralves);
*Murmúrios do Tempo. Centro Português de Fotografia, Porto, 1997. 5,00 euros (Centro Português de Fotografia);
*Gerhard Richter, Uma Colecção Privada. Museu do Chiado, Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa, 2004. 7,50 euros. (Museu Nacional Soares dos Reis).

Gerhard Richter, Museu do Chiado

04 dezembro, 2006

Guia de ver


As Edições 70 inauguraram uma nova colecção sobre imagem intitulada Construção do Olhar. O primeiro ensaio da nova série, coordenada por José Carlos Abrantes, chama-se A Fábrica do Olhar – Imagens de Ciência e Aparelhos de Visão (século XV-XX), de Monique Sicard. Este texto foi publicado originalmente pela editora francesa Odile Jacob, na colecção Champ Médiologique que reuniu vários ensaios em torno da ideia de mediologia, conceito construído por Régis Debray, na obra Pouvoir Intelectuel en France (1979), que pretende fazer uma análise transversal de todos os media retirando protagonismo aos media de actualidade. Nest’ A Fábrica do Olhar, Sicard debruça-se sobre tempos idos, mas dá constantemente relevo à modernidade. Dá importância às técnicas que fabricam imagens sem esquecer a dimensão social que, em cada momento histórico, tais imagens assumem. (...) Mostra como certas imagens surgiram e esclarece os seus processos de fabrico e difusão. O livro está dividido em três núcleos fundamentais. O primeiro (A Gravura) vai do Olhar Nu de Leonardo da Vinci e Bernard Palissy até ao Realismo dos Corpos de Jacques Fabien Gautier d´Agoty. O segundo (A Fotografia) vai desde as Legitimações de François Arago às vistas aéreas tiradas entre 1914 a 1944. O terceiro (A Imagiologia) começa nas Radiografias de Antoine Béclère à Globalização do Olhar com a sonda Pathfinder.
Monique Sicard é investigadora do Centre National de Recherche Scientifique e publicou vários livros sobre imagem e fotografia. Fez também documentários para televisão.

(...) publicar palavras sobre as imagens, os olhares, os ecrãs, os modos de as fabricar, de as ler e usar. Palavras que possam ser contributos para construir o olhar, para nos revelar modos de ver. Palavras que se ambiciona nos ajudem a não perecer num tsunami de imagens: as imagens, sem palavras e sem outras formas de apropriação e expressão, podem ter efeitos devastadores.

José Carlos Abrantes



A Fábrica do Olhar – Imagens de Ciência e Aparelhos de Visão (século XV-XX), Monique Sicard.
Colecção Construção do Olhar, Edições 70, Lisboa, 2006.

29 novembro, 2006


Entre aspas

Candida Höfer, Grémio Literário Lisboa, 2005 (© Candida Höfer/VG Bild-Kunst Bonn)

O homem que levantou quatro paredes e sobre elas colocou um tecto, criou o vazio. Para existir (existir?), o vazio necessita que alguma coisa o limite, pela óbvia razão de que são os limites que dão forma ao vazio, que o encerram, que não o deixam escapar-se. Por outras palavras ainda: derrubem-se as paredes e o tecto de uma casa, de um teatro, de uma igreja, e o vazio desaparecerá. O mundo, poroso pela sua estrutura molecular, é-o também na sequência interminável dessa outra espécie de células que são os edifícios, onde a estabilidade do vazio é constantemente perturbada e interrompida pelas presenças humanas. Ao vazio não lhe importam móveis, objectos ou decorações, quaisquer que sejam. Assimila-os e neutraliza-os no mesmo instante em que são colocados no espaço que ocupa. Mas que uma só pessoa se vá sentar, por exemplo, na cadeira de um cinema, e já passa a ser impossível falar de vazio.
Não haverá ali mais que um espectador, mas o cinema deixou de estar vazio. E não teria qualquer sentido dizer que está “quase vazio” porque um estado de “quase vazio” é coisa que, em rigor, não existe. O vazio não contemporiza: ou é, ou não é. E, tanto num caso como
no outro, absolutamente.
Ao decidir fotografar interiores de alguns dos nossos edifícios mais conhecidos e emblemáticos, Candida Höfer não pretendeu juntar umas quantas imagens à colecção de milhares de bilhetes postais de que já dispomos. Queria, sim, capturar o vazio, imobilizá-lo, torná-lo visível. Tarefa impossível numa fotografia de dimensões habituais, por assim dizer domésticas, em que somente seríamos capazes de perceber o que se encontrava no espaço fotografado, e nunca o ambicionado vazio. Como fazê-lo então aparecer?
Só haveria uma maneira, e Candida Höfer descobriu-a ampliando a imagem, provavelmente por meio de ensaios sucessivos, mais, mais, mais, até encontrar o que procurava. E, de repente, aí estava ele, o vazio. Um vazio de que o observador terá o cuidado de não se aproximar demasiado, sob pena de fazê-lo desaparecer (já sabemos que vazio e presença humana são inconciliáveis…). Um vazio que, se é permitida uma contribuição da minha parte, se nos apresenta acompanhado por algo em que Candida Höfer talvez não haja pensado (ela o dirá): o silêncio. Não há novidade nenhuma em dizer que toda a fotografia é silenciosa, mas nestas imagens gigantescas o silêncio serve-se do vazio para se tornar mais profundo, do mesmo passo que o vazio se serve do silêncio para se tornar, agora sim, absoluto. O vazio, o silêncio.


José Saramago, catálogo da exposição Em Portugal, de Candida Höfer


Shelley Rice, autora de um dos textos do catálogo da primeira grande exposição de Candida Höfer em Portugal, dá hoje (às 17h00) uma conferência sobre a obra da fotógrafa alemã na sala polivalente do Centro de exposições do CCB (entrada livre).
Rice é Professora Associada de Arte na Universidade de Nova Iorque, curadora de Deconstruction/Reconstruction (The New Museum, 1980) e Inverted Odysseys (University Grey Art Gallery, 1999-2000), e autora de várias publicações sobre fotografia como Inverted Odysseys: Claude Cahun, Maya Deren and Cindy Sherman ou Parisian Views ou co-autora de obras de referência como A New History of Photography, Álbum De Franca e Sandi Felldman: Sometimes with Shadows. O texto publicado no catálogo da exposição Candida Höfer chama-se Depth, Contained (Profundidade, Contida).

27 novembro, 2006

À venda 2 - o que foi



Já lá vão alguns dias sobre o segundo leilão de fotografia em Portugal, mas, ainda assim, julgo que vale a pena fazer um apanhado do que se passou no CCB.

Depois do efeito novidade e do entusiasmo gerados à volta do primeiro leilão de fotografia (1 de Junho), a segunda venda, apenas cinco meses depois, serviria, sobretudo, para perceber se existem de facto compradores para imagens antigas em Portugal. O leilão de 9 de Novembro mostrou que sim, mas deixou alguns sinais que devem ser considerados pela organização, a cargo da Potássio 4 e da Livraria Campos Trindade: os compradores sabem o que estão a comprar; alguns lotes apresentados como estrelas do leilão foram retirados de praça porque tinham preços demasiado elevados; a exigência com o estado de conservação dos lotes - havia algumas imagens em mau estado ou em muito mau estado - deverá ser cada vez maior; a quantidade de lotes envolvidos neste leilão fez com que a venda se transformasse numa maratona demasiado longa e por vezes demasiado frenética, prejudicando raciocínios mais lentos, sobretudo por parte daqueles que não tiveram oportunidade de ver os lotes antes do leilão; o fraco interesse manifestado pelos poucos lotes de fotografia contemporânea na praça mostra que um eventual leilão centrado em imagens mais recentes deve ter um elevado grau de exigência em relação à qualidade estética ou à importância histórica dessas imagens.
A percentagem de lotes vendidos, 62 por cento, é um sinal, ainda que tímido, de que afinal existe um grupo de interessados disposto a comprar fotografia de forma sistemática. Em 400 lotes foram retirados 149, o que não deixa de ser um bom indicador para vendas futuras.
Quanto à organização, este segundo leilão revelou nítidos progressos, como a projecção em tela gigante das imagens em praça, que só por uma ou duas vezes falhou, ou a entrega mais eficaz e organizada dos lotes vendidos.



Uma surpresa: Portugal 1934


Surpresas

ESTEREOSCOPIA
Lote 11
(vista da Rua Augusta, Lisboa, cerca de 1900)
Preço: 15 euros (preço de venda 55 euros)
Lote 12 (desfile militar em Lisboa, cerca de 1890)
Preço: 15 euros (preço de venda 45 euros)
Os preços iniciais destas duas vistas estereoscópicas foram largamente ultrapassados por um motivo óbvio: todas as imagens de ruas que sofreram mudanças significativas no decorrer dos anos ganham um duplo valor histórico.

ÁLBUNS DE VIAGENS E OUTROS
Lote 49 (álbum de África com o monograma do rei D. Carlos (RCA, ?), cerca de 1890)
Preço: 750 euros (preço de venda 1100 euros)
As fotografias de África do século XIX são sempre imagens a ter conta. O facto de existir a possibilidade deste álbum ter pertencido ao rei D. Carlos dava-lhe um valor acrescido que se veio a confirmar na altura de levantar as placas na sala.

MONARQUIA
Lote 57 (desembarque da rainha D. Maria Pia no terreiro do Paço a 6 de Outubro de 1862)
Preço: 90 euros (preço de venda 260 euros)
É o caso de uma imagem valorizada essencialmente pelo seu carácter histórico, em contraponto com o mau estado de conservação em que se encontra. Foi a protagonista da primeira grande série de licitações da noite.

ARTES E ARTISTAS
Lote 265 (Fernando Pessoa aos 10 anos, 1898)
Preço: 800 euros (preço de venda 8500 euros)
Foi a fotografia que animou o leilão que até este lote não tinha tido ainda uma disputa tão surpreendente. O preço final desta carte-de-visite, arrematada por um alfarrabista de Lisboa, constitui um recorde para venda de fotografias em Portugal.

LIVROS E EDIÇÕES
Lote 376 (Portugal 1934)
Preço: 300 euros (preço de venda: 1375 euros)
É uma obra essencial para se perceber o uso da fotografia e da fotomontagem pela máquina do Estado Novo que, à data de publicação desta folhetim de propaganda nacionalista e imperialista, tinha acabado de contratar o antigo jornalista do Diário de Notícias António Ferro para liderar o Secretariado de Propaganda Nacional.

Lote 380 (Images Portugaises)
Preço: 30 euros (preço de venda: 140 euros)
Outra edição do período do Estado Novo alvo de grande interesse. A maior parte das imagens reproduzidas no livro são da autoria de Horácio Novais, um dos colaboradores mais assíduos do SPN e mais tarde do SNI.




Uma desilusão: álbum dos Jogos Olímpicos de Berlim, 1936


Desilusões

DAGUERREÓTIPOS, AMBRÓTIPOS E FERRÓTIPOS
Lotes de 1 a 10 (retratos, várias datas)
Preço: (vários preços)
O leilão começou com a venda de daguerreótipos e começou mal. Seguiram-se outros processos da infância da fotografia, mas os lotes foram sendo devolvidos à procedência. As peças que foram levadas à praça tinham de facto pouco interesse para os coleccionadores portugueses. Apenas o lote 1, que foi vendido à posteriori, retratava portugueses.

ÁLBUNS DE VIAGEM E OUTROS
Lote 45 (álbum dos Jogos Olímpicos de Berlim, 1936)
Preço: 400 euros (preço de venda 220 euros)
Foi apresentado como uma das estrelas do leilão, mas o interesse na sala acabou por não se verificar. O pregoeiro viu-se obrigado a baixar o preço-base para metade para que alguém levantasse a placa.

Lote 50 (álbum com várias vistas de cidades europeias, cerca de 1880)
Preço: 1000 euros (retirado)
É um lote que reunia várias condições para que os compradores fizessem as suas propostas, não fosse um pormenor a eclipsar essas mais-valias: o preço. Foi o primeiro lote de vulto a ser retirado de praça.

MONARQUIA
Lote 64
(rainha D. Amélia com os príncipes D. Luís Filipe, D. Manuel e respectiva comitiva no Egipto)
Preço: 1500 euros (retirada)
O pregoeiro até baixou 500 euros ao preço inicial, mas o registo da viagem da rainha e do seu séquito ao Egipto não suscitou a mínima reacção por parte dos compradores. Para além de bem documentada, a fotografia apresentava um estado de conservação excepcional. Argumentos que não convenceram.

CARLOS RELVAS E MARIANA RELVAS
Lote 70 (retrato de Mariana Relvas e Carlos Relvas)
Preço: 600 euros (retirada)
O que se passou no primeiro leilão com uma fotografia de Carlos Relvas (escolhida para capa do catálogo do leilão) fazia antever o pior para o conjunto de imagens do fotógrafo da Golegã apresentadas nesta venda. No dia 1 de Junho, a paisagem ribatejana levada à praça foi vendida a custo. Neste leilão, nem os saldos oferecidos pelo pregoeiro salvaram o "amador" da lezíria que dos seis lotes em disputa (da sua autoria e de Mariana Relvas) só três foram vendidos por metade do preço-base.

PERSONALIDADES
Lote 123 (Oliveira Salazar, 1931)
Preço: 200 euros (retirada)
Era uma daquelas fotografias que à partida estaria vendida, quer pela excepcionalidade do momento captado pelo fotojornalista Ferreira da Cunha, quer pela importância histórica da imagem. Só que quando se apresentou o lote 123, ninguém disse nada. A imagem haveria de ser vendida à posteriori por 230 euros.

DESPORTO
Lotes 213 a 224
Preço: vários preços
Foi uma das apostas perdidas neste leilão. As fotografias relacionadas com temas de desporto suscitaram pouco interesse na sala. O pregoeiro tentou, outra vez, preços mais baixos do que estava estipulado no catálogo, mas nem assim os compradores decidiram levar para casa figuras como Eusébio, Coluna ou Torres.

FOTOGRAFIA DE AUTOR
Lote 295 (Saudades do Mar, de Constantino Varela Cid, 1940)
Preço: 600 euros (retirada)
Era uma das melhores fotografias do leilão. Ficou sem comprador, tal como os restantes lotes de Varela Cid.

LIVROS E EDIÇÕES
Lote 377 (álbum com várias vistas da região de Sintra)
Preço: 2000 euros (retirada)
O lote mais caro do leilão não despertou a mínima curiosidade na sala.

A Potássio 4 colocou os resultados globais deste leilão aqui.

Por dentro

Candida Höfer, Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, 2006 (© Candida Höfer/VG Bild-Kunst Bonn)


Não tenho nenhuma visão dogmática sobre o que quero que os observadores vejam nas imagens: tenho interesses, sinto atracções, fotografo. O que significa que faço imagens. Nestas imagens o meu interesse reside nas – por assim dizer –camadas geológicas visíveis do tempo, nos vestígios das intenções iniciais e nas posteriores utilizações de espaços, de vestígios de utilizações passadas e de luz em locais construídos.
Candida Höfer, photo.síntese (BES), Novembro de 2006


Em 2005, o Centro Cultural de Belém pediu à fotógrafa alemã Candida Höfer para captar imagens de interiores de edifícios públicos e privados portugueses. A revelação desse percurso pelo que está intramuros pode ser vista a partir do dia 1 de Dezembro, no CCB. O último número da newsletter photo.síntese, do Banco Espírito Santo, patrocinador da exposição, publica uma pequena entrevista com uma das discípulas Bern e Hilla Becher.


Candida Höfer, Coliseu do Porto, 2006 (© Candida Höfer/VG Bild-Kunst Bonn)


Em Portugal, Candida Höfer
Centro Cultural de Belém, Lisboa
A partir de 1 de Dezembro

24 novembro, 2006

Objectivas nos Objectivos

António Valente, produção de hortícolas com rega gota-a-gota do programa de micro-crédito da Associação Sol di Fogo, Patim

As objectivas de António Valente e Leão Lopes captaram imagens a partir de Cabo Verde sobre os Objectivos do Milénio, um conjunto de oito metas de desenvolvimento específicos, a serem atingidas até 2015, fixadas na Cimeira do Milénio da ONU, que teve lugar em Setembro de 2000. Às fotografias juntaram-se os textos de Mário Lúcio, Fátima Bettencourt, Ana Paula Tavares, Teresa Montenegro, Alexandra Lucas Coelho, Carlos Narciso, Pedro Rosa Mendes, David Gakunzi. O desenho da exposição e o grafismo do livro são da autoria de Levina Valentim.

Os Objectivos do Milénio
1 - Reduzir para metade a pobreza extrema e a fome
2 - Alcançar o ensino primário universal
3 - Promover a igualdade entre os sexos
4 - Reduzir em dois terços a mortalidade infantil
5 - Reduzir em três quartos a taxa de mortalidade materna
6 - Combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças graves
7 - Garantir a sustentabilidade ambiental
8 - Criar uma parceria mundial para o desenvolvimento

Uma exposição fotográfica e um livro também para relembrar a responsabilidade
comum de estancar a violação insuportável da dignidade: o direito a um mínimo
de bem-estar, à educação, à igualdade de oportunidades, à maternidade e
nascimento saudáveis, ao tratamento de doenças como o Sida ou a malária, ao
acesso à água e ao equilíbrio ambiental, às tecnologias e ao trabalho digno para
os jovens. Sem discriminações. Sem fronteiras.



Leão Lopes, construção de diques, Associação
Valverde e Organização das Associações de Desenvolvimento da Ilhas de Santo Antão, Ribeira da Torre



A Partilha do Indivisível
Imagens dos Objectivos do Milénio a partir de Cabo Verde

Iniciativa da ACEP (Associação para a Cooperação entre os Povos) com a colaboração do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
R. da Palma, 246
Tel: 218 844 060
E-mail: arqmun.fotografico@cm-lisboa.pt
De seg. a sex., das 10h00 às 19h00 (última entrada às 18. 30h)

Krassowski na K

Witold Krassowski, after-images of Poland


Para além da experiência no workshop Contar Histórias Através de Imagens (1 e 2 de Dezembro), o polaco Witold Krassowski traz à [Kgaleria] uma amostra do seu trabalho.
Witold Krassowski Nasceu na Polónia em 1956. Trabalha como freelancer e é representado pela agência EK Pictures. Em Novembro deste ano foi um dos masters da World Press Photo Joop Swart Master Class.


Witold Krassowski, after-images of Poland


Witold Krassowski, After-images of Poland
[Kgaleria]
Rua da Vinha, 43 A (Bairro Alto)
Tel.: 213 431 676/969 590 169
E-mail: kgaleria@kameraphoto.com
Até 27 de Janeiro

23 novembro, 2006

*Três perguntas a...

Daniel Barroca, fotografia anónima encontrada na rua, sem data

Daniel Barroca. Artista plástico de Lisboa. Expõe actualmente na Galeria Baginski a série de vídeos Vazio e um conjunto de desenhos. Os três vídeos apresentados foram captados em locais distintos e privilegiam a saturação digital criada pelo zoom, pelo desfoque e pela manipulação de cor e velocidade.

Texto de apresentação da exposição em pdf.

¿Acredita na capacidade das imagens para “invocar” o que “não tem nome e que é vital”?
É uma coisa muito religiosa. Há uma necessidade de que isso seja possível. Continuamos a ter necessidade de ter uma vida espiritual.

¿Que critérios usa para perceber que as imagens lhe estão a mostrar aquilo que nunca se viu?
Não sei se nunca se viram. Eu é que nunca as vi. Tem a ver com a utilização da imagem para ir percebendo como é que se formou a minha sensibilidade, como a influência da fotografia, ou das coisas exteriores a nós, aquelas que nos vão ensinando a olhar para o mundo (e a fotografia é importante quando falamos sobre isso, porque é um suporte que nos vai enquadrando o olhar, nos vai formando a sensibilidade, tal como a televisão e o cinema o fazem). No meu trabalho uso as imagens para perceber como é que isso funciona sobre mim e para encontrar uma espécie de vias de escape, uma brecha nesse cenário. Agarro nas imagens para perceber como é que elas se posicionam, como é que elas são. Para perceber como é que elas agem sobre mim e como é que eu posso agir sobre elas. Uma imagem que me satisfaz é aquela que tem a capacidade de me revelar alguma coisa que eu não sabia. E aí estou a dar e receber ao mesmo tempo.

¿Que suporte melhor se adapta a esta tentativa de mostrar “as coisas concretas da vida”?
É pelo desenho. Muito contaminado pelo olhar da fotografia. Não procuro uma forma de lidar com isso muito racional. O desenho é uma coisa que acontece muito naquele momento não é uma coisa muito planeada. Não tem a ver com fazer imagens ou vídeo e depois editá-las e conviver com elas muito tempo. O desenho é uma coisa muito mais imediata. Tem um imediatismo muito diferente da fotografia, mas quando falo do imediatismo no desenho estou a considerar a fotografia nessa relação.


Daniel Barroca, Vazio #3 (film still), dv, cor, stereo, 6`40, 2006


Vazio, Daniel Barroca
Galeria Baginski, R. da Imprensa Nacional, nº 41, c/v esq.
De ter. a sáb., das 14h00 às 18h00
Até 21 de Dezembro

22 novembro, 2006

Remexer

Annie Leibovitz, Susan at the house on Hedges Lane, Wainscott, Long Island, 1988


Going through my pictures to put this book together was like being on an archaeological dig.

Annie Leibovitz, A Photographer`s Life 1990-2005, 2006

Logo depois da morte de Susan Sontag, em Dezembro de 2004, Annie Leibovitz começou a organizar uma série de imagens da sua companheira feitas por outros fotógrafos com o objectivo de imprimir um pequeno portfolio para entregar durante o funeral. Primeiro eram para ser apenas imagens de outros, mas acabaram por entrar também imagens que Annie captou de Susan nos 15 anos que as duas viveram juntas. Esse exercício, que a fotógrafa americana chamou de escavação arqueológica, foi mais fundo do que previra e acabou por conduzi-la a um filão a que ela própria nunca tinha dado muita atenção: o seu arquivo íntimo. Nele, para além de muitas fotografias de Susan - uma das pensadoras da imagem, da política e da literatura mais importantes do último quartel do século XX - deparou-se com fotografias de toda a família em momentos de alegria e euforia, de tristeza e consternação. Registou o nascimento e deu conta do crescimento. Estava lá na morte a testemunhar o definhamento. A essas imagens de uma íntima proximidade acrescentou outras que traçaram o seu percurso como fotógrafa profissional, tanto em produções sofisticadas de retrato (Rolling Stone, Vanity Fair) como em reportagens mais cruas, como a que a levou a Sarajevo, em 2003. O resultado desse remexer no passado, que mistura o público e o privado, está em A Photographer`s Life 1990-2005, publicado recentemente pela Random House. Paralelamente ao lançamento do livro, o Brooklyn Museum organizou uma exposição onde podem ser vistas mais de 200 fotografias impressas na obra.

Annie Leibovitz, Brad Pitt, Las Vegas, 1994


Brooklyn Museum
200 Eastern Parkway, Brooklyn, Nova Iorque
E-mail: information@brooklynmuseum.org
Até 21 de Janeiro de de 2007




A Photographer`s Life 1990-2005,
Annie Leibovitz

Random House, 2006.
Capa dura, 472 páginas, 58 euros.

21 novembro, 2006


Entre aspas

Araki Nobuyoshi, in Araki, Taschen


(...)Não se sabe de onde surgiu uma fotografia a preto e branco do japonês Araki. Era uma cara contorcida de mulher que parecia chorar. O que nela a atraía era não conseguir decifrar se era de sofrimento ou de êxtase o espectáculo revelado, porque ambos nele se confundiam. O preço não era elevado. Licitou uma e depois outra vez e outra ainda. O preço parecia decidido quando, de um canto da sala, de pé, um homem de fato de linho claro, levantou de novo a tabuleta. Ela sentiu-se ferida. Já queria a fotografia de verdade. Licitou outra vez com alguma raiva contida. O desconhecido respondeu. Entraram num despique absurdo e a certa altura Eugénia Maria levantou-se e saiu da sala devagar. Nessa noite mal conseguiu dormir a pensar na fotografia, na convulsão do prazer, no homem de fato impecável que permaneceria para sempre nada mais do que uma marioneta no seu teatro imaginado. No dia seguinte, pelas onze da manhã, o velho criado trouxe-lhe um embrulho enorme. Era a fotografia. Todas as paixões começam antes de começarem, pensou Eugénia ao recordar vivamente o acontecido. Levantou-se de um pulo e dirigiu-se para a janela por onde o mar entrava.(...)

Pedro Paixão, A Última Duquesa, in Asfixia, Quetzal Editores, Lisboa, 2006

20 novembro, 2006

Revelações em Serralves

Bruno Ramos, Percurso (prova de cor cromogénea, 100x100 cm)


Os trabalhos dos vencedores da segunda edição do BES Revelação já podem ser vistos na Casa de Serralves (Porto). Para além das obras com que foram premiados, João Serra, Nuno Maya, Bruno Ramos e Frederico Fazenda mostram outros projectos para um melhor enquadramento do seu percurso artístico até à atribuição deste galardão.


João Serra, sem título, (fotografia a cor, impressão lambda, 120x156 cm)


BES Revelação
Casa de Serralves, Porto
De ter. a dom., das 10h00 às 19h00
Até 14 de Janeiro

Os limites

Samuel Kubani/EPA

Ana Machado escreve um texto no Público de sábado sobre algumas das conclusões do debate Direito à Imagem organizado no dia anterior na livraria Almedina. Pode ser lido aqui.

17 novembro, 2006

Contar histórias

Witold Krassowski, Winter Tales

A [Kgaleria] convidou o fotógrafo polaco Witold Krassowski para orientar o workshop Contar Histórias Através de Imagens, agendado para os dias 1 e 2 de Dezembro. O primeiro dia servirá para apresentar o trabalho de Krassowski e explicar aos participantes os métodos e princípios do ensaio fotográfico. A sessão terminará com a análise de histórias fotográficas. O segundo dia de trabalho está reservado para os exercícios práticos e análise de histórias. Haverá depois uma discussão de grupo sobre as propostas apresentadas. Os participantes podem levar trabalhos antigos para exercícios práticos.

O extraordinário no trabalho de Witold Krassowski é a sua simplicidade, uma espécie de impacto depurado. Krassowski apresenta-nos aquilo que nos é familiar de uma forma fresca e surpreendente. Procurando não colocar o seu ego entre o espectador e aquilo que está a ser mostrado dá a aparência de que o seu trabalho é muito fácil...

Colin Jacobson, editor de fotografia do The Independent e do The Economist


Contar Histórias Através de Imagens, workshop (em inglês, sem tradução) com Witold Krassowski
1 e 2 de Dezembro, das 09h00 às 13h00
[Kgaleria]
Rua da Vinha, 43 A (Bairro Alto)
Tel.: 213 431 676/969 590 169
Email: kgaleria@kameraphoto.com

16 novembro, 2006

Para Paris

Vasco Araújo, da instalação O Que Eu Fui (2006)

Vista da exposição O Que Eu Fui, de Vasco Araújo, Galeria Filomena Soares, Lisboa (fotografia de Lúcia Conceição)



Arranca hoje a 10ª edição do Paris Photo, a feira internacional de fotografia antiga e contemporânea, uma das maiores montras mundiais da imagem fotográfica. Entre os participantes há 88 galerias e 18 editores, de 21 países. Portugal está representado apenas pela Galeria Filomena Soares que se estreia este ano no Paris Photo.
As propostas dos expositores são muito variadas e vão desde as mostras monográficas ou colectivas às imagens raras ou inéditas. Ao todo haverá fotografias de mais 500 artistas para apreciar. As casas livreiras ligadas à fotografia, como a Phaidon, a Hatje Cantz, a Stidl ou a Taschen, são outra das apostas do certame.
Para a edição deste ano, a organização decidiu fazer um convite de honra aos países nórdicos – Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia – pela sua contribuição para a renovação da fotografia contemporânea. A viagem pela criação imagética nórdica pode ser feita de 3 formas: pelas 8 galerias do sector Novos Talentos que exibem trabalhos de artistas emergentes; pela exposição principal que presta homenagem a cinco mulheres fotógrafas com credenciais firmadas - Charlotte Gyllenhammar (Suécia); Ulla Jokisalo (Finlândia); Astrid Kruse Jensen (Dinamarca); Ruri (Islândia); Mette Tronvoll (Noruega); e pelo Project-Room que propõe um olhar sobre a actual criação vídeo dos países nórdicos.
A Galeria Filomena Soares optou por exibir dois artistas que representam gerações muito diferentes na contemporaneidade artística portuguesa na área da fotografia. Vasco Araújo (Lisboa, 1975) tem conhecido uma carreira fulgurante, com uma exposição individual em Gand (2005), participações nas duas últimas Bienais de Veneza e de Moscovo e obras na exposição Densidade Relativa (CAMJAP, Fundação Calouste Gulbenkian – Lisboa). Mistura vídeo, fotografia e objectos vários em instalações barrocas e sofisticadas para uma reflexão dramática sobre o teatro de vaidades que são a arte e a vida. Na instalação sonora O Que Eu Fui (2006), as fotografias de estátuas de monumentos públicos misturam-se com a voz de uma mulher que, à beira da morte, discorre de forma crítica e irónica acerca da sua vida. Helena Almeida (Lisboa, 1934) mostra uma Pintura Habitada (1976) composta por 14 fotografias onde moram alguns dos movimentos artísticos pelos quais a artista orienta a sua obra – conceptualismo, performance, body-art.
Entre os galeristas, destaque para a exposição Photo libris, livres de photographes da Galerie Howard Greenberg (Nova Iorque) onde se podem apreciar livros raros de fotografia, cuja edição marcou a história deste suporte como são os casos de Tokyo (1960), de William Klein, Embrace (1971), de Eiko Hosoe, A dialogue wiht solitude (1965), de Dave Heath, East 100 th Street (1966), de Bruce Davidson, ou ainda Telex: Iran: In the name of the revolution (1983), de Gilles Peres.


Helena Almeida, segunda fotografia de uma série de 14 da instalação Pintura Habitada (1976), Galeria Filomena Soares


Paris Photo
Salon International pour la Photographie XIXe, Moderne et Contemporaine
Carrousel du Louvre, Paris
De 16 a 19 de Novembro

15 novembro, 2006

Debater

Imagem retirada de um perfil do site Hi5 e posteriormente usada num blog satírico


A Livraria Almedina (Saldanha, Lisboa) tem agendado para amanhã, às 19h00, um debate sobre o Direito à Imagem, integrado no ciclo Falar de Imagens organizado por José Carlos Abrantes, actual provedor do leitor do Diário de Notícias. O encontro contará com a participação do fotojornalista Adriano Miranda (Público), do advogado Francisco Teixeira da Mota e do jornalista Pedro Ornelas. As perguntas a que o debate se propõe responder são:

¿O que está consagrado na lei portuguesa sobre imagens?
¿Teremos direito e possibilidade de nos opormos a que outros nos transformem em imagens?
¿Em que condições temos o direito de registar e difundir as imagens do que ocorre na nossa proximidade?

14 novembro, 2006

Natureza vs Humanidade

Yannick Demmerle, da série Les Nuits Étranges, 2004 (Courtesy of Arndt & Partner)

A fotografia tem sempre a opção de manter um pé firme na realidade, mesmo que tenha o outro onde lhe apeteça.

Blake Gopnik (Pública/Los Angeles Times)


O International Center of Photography exibe actualmente a segunda trienal de fotografia em Nova Iorque. O tema proposto para esta edição é Ecotopia. Através de imagens fotográficas, vídeos e imagens web, umas mais realistas e directas, outras ficcionais e lúdicas, 40 artistas tentam mostrar as feridas abertas pela humanidade na natureza. A última edição da revista Pública traz um ensaio de Blake Gopnik (Los Angeles Times) acerca de alguns trabalhos mostrados.

Mitch Epstein, Amos Power Plant, Raymond, West Virginia, 2004 (Courtesy of Sikkema Jenkins & Co.)

Ecotopia
International Center of Photography
Avenue of the Americas, 43rd Street, Nova Iorque
Tel.: 212-857-0000
Email: exhibitions@icp.org
Até 7 de Janeiro

13 novembro, 2006

Para lá do mar

(© Instituto Cervantes)

O século XIX foi pródigo em grandes expedições político-científicas aos confins do globo. Os portugueses enviaram-nas sobretudo para África, os espanhóis para a América, do Sul e do Norte. Ao lado de instrumentos hidrográficos, físicos, meteorológicos, as máquinas fotográficas começaram também a viajar. A exposição Pacífico Inédito, 1862-1866, que actualmente pode ser vista no Centro Português de Fotografia (Porto), mostra um conjunto de imagens e objectos que estiveram na génese e constituem uma parte do resultado da chamada Expedição ao Pacífico, a derradeira expedição enviada por Espanha à América. As principais forças políticas que a promoveram queriam-na iluminista, à maneira do século XVIII. Mas os ideários românticos e nacionalistas que marcaram os Oitocentos impuseram-se. O movimento pan-hispânico pretendia garantir a manutenção da influência económica, política e cultural de Espanha não só nas antigas colónias, mas também nas regiões vizinhas sob domínio de outras forças coloniais. O itinerário que o general Pinzón levou consigo incluía passagens pelas ilhas Canárias, Cabo Verde, Brasil, Rio da Prata, Costa Patagónica, ilhas Maldivas, cabo de Fornos, Chiloé, costas chilenas e peruanas e Califórnia. Para além de quase uma centena de fotografias, Pacífico Inédito dá a ver instrumentos científicos, insectos dissecados, documentos, litografias de animais e publicações da época e actuais.




Pacífico Inédito, 1862-1866
Centro Português de Fotografia
Campo Mártires da Pátria, Porto
Tel.: 222076310
Email: email@cpf.pt
De Ter. a Sex., das 15h00 às 18h00. Sáb. Dom. e Fer., das 15h00 às 19h00
Até 29 de Dezembro
Entrada Livre

10 novembro, 2006

Recorde para Pessoa

W. B. Sherwood, Durban. Papel directo, formato carte-de-visite(frente)

Foi a imagem da noite.
A fotografia que Fernando Pessoa tirou em Durban, na África do Sul, quando tinha 10 anos, foi vendida a um alfarrabista por 8500 euros, tornando-se na imagem mais cara alguma vez vendida num leilão em Portugal. O lote 265 tinha um preço-base de 800 euros, mas o pregoeiro começou com uma proposta que chegou à mesa de 5000 euros. A partir daí foi sempre a subir. A outra carte-de-visite de Pessoa colocada em praça (um retrato do atelier Camacho, de Lisboa), captada quando o poeta tinha cerca de 3 anos, foi arrematada por 460 euros (o preço-base era de 300). Fica prometido um post com o balanço do segundo leilão de fotografia para os próximos dias.

W. B. Sherwood, Durban. Papel directo, formato carte-de-visite (verso)

09 novembro, 2006

Discutir

Galeria Baginski, dedicada à fotografia (Gabinete de Imprensa da FIL)


A ArteLisboa em colaboração com a revista online Arte Capital organizou uma série de debates para os dias em que vai durar a feira. Amanhã, às 19h45, o tema proposto é Fotografia: políticas e práticas.
A discussão vai ser coordenada por José Maçãs de Carvalho e conta com os depoimentos de Alexandre Pomar, Delfim Sardo, Horacio Fernández, João Mário Grilo, Pedro Letria e Rui Prata.

ArteLisboa, Feira de Arte Contemporânea
FIL, Parque das Nações
Das 16h00 às 22h00
Até 13 de Novembro

08 novembro, 2006

*Três perguntas a...

Lote 339. Rica mulher Gentia, fotógrafo não identificado, Goa, finais do séc. XIX, albumina (14x18 cm.)

Luís Trindade e Bernardo Trindade. Os primos Trindade têm o negócio das antiguidades no sangue. Luís abriu a Potássio 4, dedicada à conservação e restauro, Bernardo segue as pisadas do pai na livraria Campos Trindade, especializada em obras antigas, mapas e gravuras. Os dois assumiram em Junho deste ano a responsabilidade de organizar pela primeira vez um leilão de fotografia em Portugal. O segundo está marcado para amanhã.

¿Por que é que decidiram fazer este leilão agora quando passaram apenas 4 meses da primeira venda de fotografia organizada em Portugal?
Luís Trindade - Este leilão já estava a ser organizado antes do 1º leilão de Junho. Sempre acreditamos que era um projecto para ficar. Achamos que era importante melhorar rapidamente alguns aspectos que tinham ficado aquém do que pretendíamos.
Bernardo Trindade - Vimo-nos a braços com a recepção de muitos lotes e espólios particulares para futuros leilões, talvez devido à grande visibilidade que o leilão teve por parte da imprensa. Nota-se também um capital de confiança, que penso termos conquistado com a boa organização do leilão (não renegando alguns aspectos a melhorar) e também com a boa percentagem de lotes vendidos.

¿Acreditam que se podem consolidar os leilões de fotografia em Portugal?
LT - Sim. Além destes leilões estamos já a explorar outras áreas. É esperar para ver…
BT - Não só acredito, como tenho a certeza que este caminho que nós tomámos veio fazer renascer o interesse já existente na área da fotografia com que todos os dias deparo na minha livraria alfarrabista. Foi também curioso ver no primeiro leilão o aparecimento de potenciais futuros coleccionadores, pessoas esclarecidas, que sabiam exactamente aquilo que queriam comprar, e que não tinham ainda aparecido no percurso “tradicional” do comércio de fotografia antiga dos alfarrabistas e antiquários. É perfeitamente possível realizar 3 leilões de fotografia por ano no nosso país.

¿O catálogo do próximo leilão já está a ser organizado? Haverá mais fotografia contemporânea?
LT - Sim, já está a ser organizado. Já temos confirmados alguns fotógrafos contemporâneos e fotojornalistas para os próximos leilões. Continuamos a receber propostas até Dezembro.
BT - Temos recebido muitos lotes nestes últimos tempos e o que posso dizer é que estamos a ser muito mais exigentes na qualidade dos lotes a ir à praça. A fotografia contemporânea vai estar bem representada no 3º leilão, a realizar no próximo ano.

07 novembro, 2006

À venda 2

Aproxima-se a data (quinta-feira) do 2º leilão exclusivamente dedicado à fotografia organizado pela Potássio 4. Depois de um olhar mais atento pelo catálogo nota-se que houve mais esforço na descrição, identificação e enquadramento histórico dos lotes em relação ao primeiro leilão. É um trabalho louvável que dá outro interesse à venda e fornece ao comprador pistas seguras sobre os lotes que lhe interessam. Para além da habitual divisão por suportes fotográficos, há também agora uma muito útil divisão por temas (monarquia, militária, desporto, etc.) para facilitar a vida aos coleccionadores mais metódicos. No conjunto, este leilão é mais fraco do que a venda realizada a 1 de Junho. A quantidade (há mais 100 lotes) não acrescentou valor qualitativo ao leilão. Mas há, como seria de esperar, muitos lotes (ou conjunto de lotes) que se destacam dos demais. Como prometido, aqui fica uma selecção das peças mais interessantes baseada essencialmente em dois critérios: gosto pessoal; importância para a história da fotografia em Portugal.


Secção: daguerreótipos, ambrótipos e ferrótipos

Fotógrafo não identificado, daguerreótipos (15 x 12,5 cm. aprox.)

Lote 1
Preço: 300 €

Os daguerreótipos com pessoas ou paisagens de Portugal são sempre imagens interessantes. Os retratos de pessoas, ainda que raros, vão aparecendo. Já as paisagens nacionais em daguerreótipo são verdadeiras preciosidades. Para além de terem inscrito o ano em que foram tomados, estes dois daguerreótipos têm a particularidade de identificarem os retratados: “Joaquina Emília de Campos Rodrigues em 1856” e “(...) Augusto de Campos Rodrigues em 1855”. A imagem da mulher está retocada à mão, como era hábito fazer em muitos daguerreótipos daquela época.


Secção: álbuns de viagem e outros

264 fotografias, em papel de revelação (álbum: 25,5 x 35,5)

Lote 45
Preço: 400 €

Este álbum mostra instantes dos Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936, nos quais o ditador Adolf Hitler tentou provar as suas teorias da superioridade racial ariana. A provar exactamente o contrário, o velocista afro-americano Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro e tornou-se num dos heróis da competição. São dele algumas fotografias que aparecem neste álbum assim como de outros campeões olímpicos como Ismayr, Salminen, C.C. Johnson, T. Valla, H. Machata. Há também imagens do ditador alemão. Os Jogos Olímpicos de Berlim foram os primeiros a terem transmissão televisiva.


Álbum com 40 folhas com 1 prova albuminada por página. Cada imagem tem 19,5 x 26 cm aprox.

Lote 50
Preço: 1000 €

Fotografias de G.B. Brusa, C. Henaggio, Mosehacke, J.V., N.D., Francesco Rocchini e outros fotógrafos não identificados. 70 instantâneos de cidades europeias Veneza, Milão, Lago di Como, Estocolmo, Cannes, Monte-Carlo, Lisboa, Sintra. Numa das imagens de monumentos de Lisboa, vê-se a derrocada que sofreu uma parte do Mosteiro dos Jerónimos, actualmente a entrada do Museu de Arqueologia.


Secção: monarquia

Fotografia atribuída a Enrique Casanova (1850-1913), captada em Abril de 1903 (papel de revelação).

Lote 64
Preço: 1500 €

Fotografia de viagem ao Egipto onde aparecem a rainha D. Amélia, os príncipes D. Luís Filipe, D. Manuel e respectiva comitiva. A imagem está assinada por D. Amélia, D. Luís Filipe, D. Manuel, Visconde da Asseca, Gabriel Kerauch, Fernando Serpa e a Condessa de Figueiró (Pepita).
Este é um dos lotes muito bem documentados. O texto diz o seguinte: “A 28 de Fevereiro de 1903, D. Amélia, tomando o título de Marquesa de Vila Viçosa, partiu com os seus filhos para o Mediterrâneo e Oriente, a bordo do Iate Real ‘Amélia’. Visitaram Jerusalém, Cairo, Port Said entre outras regiões, levando na sua comitiva os Condes de Figueiró; o Visconde da Asseca; o doutor Kerauch - perceptor dos príncipes; D. António de Lencastre - médico; o reverendo Damasceno Fiadeiro, o pintor Enrique Casanova, entre outros. Enrique Casanova foi figura de destaque na côrte portuguesa, como pintor da Real Câmara e professor de aguarela dos príncipes reais, tendo acompanhado a Rainha nesta viagem artística ao Egipto. Sabe-se que levou máquina fotográfica para esta viagem, com a qual obteve vários clichés, alguns deles publicados na revista Brasil - Portugal.”


Secção: carlos relvas e mariana relvas

Auto-retrato de Carlos Relvas acompanhado por Mariana Relvas (prova de albumina)

Lote 70
Preço: 600 €

O photographo amador português do século XIX mais famoso regressa a este leilão com um conjunto imagens albuminadas significativo. No primeiro leilão da Potássio 4, a fotografia de Carlos Relvas colocada à venda suscitou algum suspense (era a capa do catálogo), mas quando subiu à praça acabou por não confirmar o interesse que se formou à sua volta. Foi vendida praticamente pelo preço-base (620 euros). A imagem deste lote (um auto-retrato de estúdio de Carlos Relvas e Mariana Relvas), foi oferecida a Carlos Zepherino, fundador do Grémio Cartaginense na Sertã, em 1888. O cartão onde está colada esta albumina exibe (como era hábito em muitas imagens de Relvas) a colecção de medalhas e condecorações que o fotógrafo foi coleccionando ao longo dos anos. Há ainda uma dedicatória e a assinatura de Carlos Relvas.


Secção: monumentos e edificações

Mário Novais. Sé Velha de Coimbra (papel de revelação)

Lote 114
Preço: 25 €

Esta imagem faz parte de um conjunto de 8 fotografias de Mário Novais, fotógrafo que manteve uma relação estreita e longa com a ditadura de Salazar. Participou em vários livros de propaganda nacionalista do Estado Novo e foi o único fotógrafo com acesso a todos os pavilhões da Exposição do Mundo Português, em 1940. As imagens apresentadas a leilão seguem a mesma lógica estética das imagens impressas na obra Paisagem e Monumentos de Portugal (de Reis Santos e Carlos Queiroz, publicada em 1938).


Secção: personalidades

Ferreira da Cunha. Oliveira Salazar (papel de revelação, 38,5 x 26 cm.)

Lote 123
Preço: 200 €

É uma das melhores imagens deste leilão. Está carregada de dramatismo e expectativa. Salazar ouve com ar grave e olha directamente nos olhos do militar que o avisa de uma intentona contra o seu regime. É uma grande imagem de reportagem que capta um momento raro (não encenado) do ditador em plena acção governativa. Perante o relato que lhe apresentam, ele tem de decidir rápida e eficazmente. Esta é uma daquelas fotografias que despertam a curiosidade para saber o que acontece a seguir. A legenda diz o seguinte: “Após tentativa de revolta militar contra a ditadura, Salazar ouvindo o relato do ataque ao Quartel de Metralhadoras 1, feito pelo capitão David Neto, que o dirigiu e comandou 26.8.1931”. A fotografia foi feita para o Notícias Ilustrado.


Secção: localidades e sítios

Fotógrafo não identificado. Largo de Camões (Ca. de 1890, papel directo, 30 x 36 cm.)

Lote 161
Preço: 200

Seria uma fotografia perfeitamente banal de um monumento lisboeta, não fossem os espectadores, que se julgam na sombra, a transmitirem inocência, curiosidade e estranheza perante a objectiva do fotógrafo. O poeta perde todo o protagonismo perante estes olhares de espanto de quem ainda não acredita bem que é possível “apanhar” o tempo.


Secção: caminhos de ferro

Emílio Biel – Casa Fritz. Viaduto de Vila-Meã, da série Caminhos de Ferro do Douro. Fototipia, ca. 1887 (48,5 x 66 cm.)

Lote 233
Preço: 150 €

Emílio Biel fotografou muitos troços das linhas paralelas de ferro que se espalhavam de norte a sul do país. A série apresentada a leilão mostra pontes, viadutos e estações da região duriense.


Secção: artes e artistas

W. B. Sherwood, Durban. Papel directo, formato carte-de-visite

Lote 265
Preço: 800 €

É uma imagem conhecida e já serviu para ilustrar a capa de uma fotobiografia de Fernando Pessoa. O poeta tinha 10 anos quando tirou este retrato em Durban, na África do Sul, onde viveu e estudou. A expressão do Pessoa que nos foi dado a ver já está aqui. E quanto mais se olha para ela mais se fica com a impressão que o poeta só teve uma expressão. E manteve-a sempre de cada vez que enfrentava uma máquina fotográfica, quer tivesse 3, 10 ou 30 anos. No verso da fotografia, Pessoa escreveu esta dedicatória: “Á sua querida tia Lisbella com muitos beijos do seu sobrinho muito amigo Fernando. Durban 1898”.


Secção: fotografia de autor

Constantino Varela Cid, “Saudades do Mar”, Nazaré (papel de revelação virado, Ca. 1940, 30,5 x 30 cm.)

Lote 295
Preço: 600 €

Outra grande imagem do leilão. Varela Cid, como boa parte dos fotógrafos da época, era um entusiasta dos salões de fotografia. Esta imagem tem o selo de participação num desses concursos que decorreu em Estocolmo, na Suécia. Para além desta fotografia, há outras 3 imagens do autor.


Joaquim Moraes (albumina, Ca. 1890)

Lote 322
Preço: 400 €

É uma fotografia rara. Antecipa a pose e os preparativos para a fotografia que vai ser. Apesar de não estar em bom estado de conservação, é um documento importante para a história da fotografia portuguesa porque revela também o trabalho de Joaquim Moraes, alguém que até agora tem estado na sombra do irmão José Augusto da Cunha Moraes.


Secção: livros e edições
Victor Palla e Costa Martins, Lisboa, Cidade Triste e Alegre. Ed. dos autores, Lisboa, 1959

Lote 375
Preço: 300 €

Foi um dos lotes que mais surpreendeu no leilão de Junho. É o livro de fotografia dos arquitectos que ousaram fazer fotografia da cidade que também era feia, miserável, boémia e decadente.


Portugal 1934, Edição do Secretariado de Propaganda Nacional, Lisboa, 1934

Lote 376
Preço: 300 €

Álbum monumental de propaganda nacionalista e imperialista feito sob a batuta de António Ferro, contratado um ano antes para liderar o Serviço de Propaganda Nacional. A fotomontagem é um dos arranjos gráficos recorrentes ao longo da obra que conta com a participação fotográfica de Alvão, A. Rasteiro, João Martins, Diniz Salgado, Ferreira da Cunha, Francisco Santos, Horácio Novais, Joshua Benoliel, José Mesquita, Luis Teixeira, Pinheiro Correia, Mário Novais, Octávio Bobone, Raimundo Vaissier, Raúl Reis, Salazar Diniz, Serra Ribeiro, V. Rodrigues.


Tytania (pseud.). Fairylife and fairyland : a lyrie poem / Communicated by Tytania trough her Secretary , Thomas of Ercildourne. London: L. Booth, 1870. (16 provas de albumina)

Lote 377
Preço: 2000 €

É o lote mais caro do leilão. A encadernação é rica mas está em mau estado. Um dos motivos que mais interesse despertou no fotógrafo, que se esconde num pseudónimo, foi o Palácio de Monserrate com oito fotografias no total da obra.


Secção: fotografia contemporânea
Alberto Picco. Fotografia de estudo para capa da revista do jornal Independente, nº 118, 24 de Agosto de 1990 (papel de revelação)

Lote 396
Preço: 30 €

Esta imagem de Alberto Picco faz parte de um pequeno grupo de lotes dedicados à fotografia contemporânea que faz aqui a sua estreia em leilões de fotografia em Portugal. Apesar de tímida, a iniciativa de trazer à praça fotografia que se praticou recentemente em Portugal abre um novo e importante campo para o curto mercado nacional. Além de outra fotografia de Picco, há três imagens de Agostinho Gonçalves que exploram uma composição distorcida.


Guia de compras
Onde ver as fotografias antes de as comprar?
A Potássio 4 (loja 4, módulo 3 do CCB, Lisboa) tem desde ontem todos os lotes expostos para consulta. É possível haver “engarrafamentos”, por isso convém telefonar para perceber se há mesas (e luvas) disponíveis. O prazo para ver as fotografias que vão a leilão acaba amanhã (entre as 10h00 e as 20h00). O catálogo está disponível online aqui.

Como comprar?
O pregoeiro deste leilão deve impor um ritmo mais acelerado em relação ao que aconteceu na primeira venda. É preciso estar atento e pensar depressa para não deixar escapar o lote que se quer. A venda está agendada para quinta-feira, às 21h00, na sala Laman do CCB. Antes de entrar, os interessados devem fazer uma inscrição para receber uma raqueta com um número de licitação. Também será possível licitar por telefone e, pela primeira vez, pela Internet. Para estas duas últimas modalidades de licitação é preciso fazer uma pré-inscrição no site http://www.p4photography.com/.

Quanto custa?
O preço que aparece no catálogo é o preço-base do lote. Ao número decidido pelo martelo, deve acrescentar-se a comissão da leiloeira (15 por cento) e sobre esta 21 por cento de IVA.

Como pagar?
Todos os lotes arrematados deverão ser totalmente pagos num prazo de 24 horas depois do fim do leilão no local da venda ou na sede da empresa que a organizou. As peças poderão ficar na posse do comprador logo depois do leilão terminar.

Potássio Quatro
Loja 4, módulo 3, Centro Cultural de Belém, Lisboa
Tel., Fax.: 213621894
Email: info@potassioquatro.com

 
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