07 novembro, 2006

À venda 2

Aproxima-se a data (quinta-feira) do 2º leilão exclusivamente dedicado à fotografia organizado pela Potássio 4. Depois de um olhar mais atento pelo catálogo nota-se que houve mais esforço na descrição, identificação e enquadramento histórico dos lotes em relação ao primeiro leilão. É um trabalho louvável que dá outro interesse à venda e fornece ao comprador pistas seguras sobre os lotes que lhe interessam. Para além da habitual divisão por suportes fotográficos, há também agora uma muito útil divisão por temas (monarquia, militária, desporto, etc.) para facilitar a vida aos coleccionadores mais metódicos. No conjunto, este leilão é mais fraco do que a venda realizada a 1 de Junho. A quantidade (há mais 100 lotes) não acrescentou valor qualitativo ao leilão. Mas há, como seria de esperar, muitos lotes (ou conjunto de lotes) que se destacam dos demais. Como prometido, aqui fica uma selecção das peças mais interessantes baseada essencialmente em dois critérios: gosto pessoal; importância para a história da fotografia em Portugal.


Secção: daguerreótipos, ambrótipos e ferrótipos

Fotógrafo não identificado, daguerreótipos (15 x 12,5 cm. aprox.)

Lote 1
Preço: 300 €

Os daguerreótipos com pessoas ou paisagens de Portugal são sempre imagens interessantes. Os retratos de pessoas, ainda que raros, vão aparecendo. Já as paisagens nacionais em daguerreótipo são verdadeiras preciosidades. Para além de terem inscrito o ano em que foram tomados, estes dois daguerreótipos têm a particularidade de identificarem os retratados: “Joaquina Emília de Campos Rodrigues em 1856” e “(...) Augusto de Campos Rodrigues em 1855”. A imagem da mulher está retocada à mão, como era hábito fazer em muitos daguerreótipos daquela época.


Secção: álbuns de viagem e outros

264 fotografias, em papel de revelação (álbum: 25,5 x 35,5)

Lote 45
Preço: 400 €

Este álbum mostra instantes dos Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936, nos quais o ditador Adolf Hitler tentou provar as suas teorias da superioridade racial ariana. A provar exactamente o contrário, o velocista afro-americano Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro e tornou-se num dos heróis da competição. São dele algumas fotografias que aparecem neste álbum assim como de outros campeões olímpicos como Ismayr, Salminen, C.C. Johnson, T. Valla, H. Machata. Há também imagens do ditador alemão. Os Jogos Olímpicos de Berlim foram os primeiros a terem transmissão televisiva.


Álbum com 40 folhas com 1 prova albuminada por página. Cada imagem tem 19,5 x 26 cm aprox.

Lote 50
Preço: 1000 €

Fotografias de G.B. Brusa, C. Henaggio, Mosehacke, J.V., N.D., Francesco Rocchini e outros fotógrafos não identificados. 70 instantâneos de cidades europeias Veneza, Milão, Lago di Como, Estocolmo, Cannes, Monte-Carlo, Lisboa, Sintra. Numa das imagens de monumentos de Lisboa, vê-se a derrocada que sofreu uma parte do Mosteiro dos Jerónimos, actualmente a entrada do Museu de Arqueologia.


Secção: monarquia

Fotografia atribuída a Enrique Casanova (1850-1913), captada em Abril de 1903 (papel de revelação).

Lote 64
Preço: 1500 €

Fotografia de viagem ao Egipto onde aparecem a rainha D. Amélia, os príncipes D. Luís Filipe, D. Manuel e respectiva comitiva. A imagem está assinada por D. Amélia, D. Luís Filipe, D. Manuel, Visconde da Asseca, Gabriel Kerauch, Fernando Serpa e a Condessa de Figueiró (Pepita).
Este é um dos lotes muito bem documentados. O texto diz o seguinte: “A 28 de Fevereiro de 1903, D. Amélia, tomando o título de Marquesa de Vila Viçosa, partiu com os seus filhos para o Mediterrâneo e Oriente, a bordo do Iate Real ‘Amélia’. Visitaram Jerusalém, Cairo, Port Said entre outras regiões, levando na sua comitiva os Condes de Figueiró; o Visconde da Asseca; o doutor Kerauch - perceptor dos príncipes; D. António de Lencastre - médico; o reverendo Damasceno Fiadeiro, o pintor Enrique Casanova, entre outros. Enrique Casanova foi figura de destaque na côrte portuguesa, como pintor da Real Câmara e professor de aguarela dos príncipes reais, tendo acompanhado a Rainha nesta viagem artística ao Egipto. Sabe-se que levou máquina fotográfica para esta viagem, com a qual obteve vários clichés, alguns deles publicados na revista Brasil - Portugal.”


Secção: carlos relvas e mariana relvas

Auto-retrato de Carlos Relvas acompanhado por Mariana Relvas (prova de albumina)

Lote 70
Preço: 600 €

O photographo amador português do século XIX mais famoso regressa a este leilão com um conjunto imagens albuminadas significativo. No primeiro leilão da Potássio 4, a fotografia de Carlos Relvas colocada à venda suscitou algum suspense (era a capa do catálogo), mas quando subiu à praça acabou por não confirmar o interesse que se formou à sua volta. Foi vendida praticamente pelo preço-base (620 euros). A imagem deste lote (um auto-retrato de estúdio de Carlos Relvas e Mariana Relvas), foi oferecida a Carlos Zepherino, fundador do Grémio Cartaginense na Sertã, em 1888. O cartão onde está colada esta albumina exibe (como era hábito em muitas imagens de Relvas) a colecção de medalhas e condecorações que o fotógrafo foi coleccionando ao longo dos anos. Há ainda uma dedicatória e a assinatura de Carlos Relvas.


Secção: monumentos e edificações

Mário Novais. Sé Velha de Coimbra (papel de revelação)

Lote 114
Preço: 25 €

Esta imagem faz parte de um conjunto de 8 fotografias de Mário Novais, fotógrafo que manteve uma relação estreita e longa com a ditadura de Salazar. Participou em vários livros de propaganda nacionalista do Estado Novo e foi o único fotógrafo com acesso a todos os pavilhões da Exposição do Mundo Português, em 1940. As imagens apresentadas a leilão seguem a mesma lógica estética das imagens impressas na obra Paisagem e Monumentos de Portugal (de Reis Santos e Carlos Queiroz, publicada em 1938).


Secção: personalidades

Ferreira da Cunha. Oliveira Salazar (papel de revelação, 38,5 x 26 cm.)

Lote 123
Preço: 200 €

É uma das melhores imagens deste leilão. Está carregada de dramatismo e expectativa. Salazar ouve com ar grave e olha directamente nos olhos do militar que o avisa de uma intentona contra o seu regime. É uma grande imagem de reportagem que capta um momento raro (não encenado) do ditador em plena acção governativa. Perante o relato que lhe apresentam, ele tem de decidir rápida e eficazmente. Esta é uma daquelas fotografias que despertam a curiosidade para saber o que acontece a seguir. A legenda diz o seguinte: “Após tentativa de revolta militar contra a ditadura, Salazar ouvindo o relato do ataque ao Quartel de Metralhadoras 1, feito pelo capitão David Neto, que o dirigiu e comandou 26.8.1931”. A fotografia foi feita para o Notícias Ilustrado.


Secção: localidades e sítios

Fotógrafo não identificado. Largo de Camões (Ca. de 1890, papel directo, 30 x 36 cm.)

Lote 161
Preço: 200

Seria uma fotografia perfeitamente banal de um monumento lisboeta, não fossem os espectadores, que se julgam na sombra, a transmitirem inocência, curiosidade e estranheza perante a objectiva do fotógrafo. O poeta perde todo o protagonismo perante estes olhares de espanto de quem ainda não acredita bem que é possível “apanhar” o tempo.


Secção: caminhos de ferro

Emílio Biel – Casa Fritz. Viaduto de Vila-Meã, da série Caminhos de Ferro do Douro. Fototipia, ca. 1887 (48,5 x 66 cm.)

Lote 233
Preço: 150 €

Emílio Biel fotografou muitos troços das linhas paralelas de ferro que se espalhavam de norte a sul do país. A série apresentada a leilão mostra pontes, viadutos e estações da região duriense.


Secção: artes e artistas

W. B. Sherwood, Durban. Papel directo, formato carte-de-visite

Lote 265
Preço: 800 €

É uma imagem conhecida e já serviu para ilustrar a capa de uma fotobiografia de Fernando Pessoa. O poeta tinha 10 anos quando tirou este retrato em Durban, na África do Sul, onde viveu e estudou. A expressão do Pessoa que nos foi dado a ver já está aqui. E quanto mais se olha para ela mais se fica com a impressão que o poeta só teve uma expressão. E manteve-a sempre de cada vez que enfrentava uma máquina fotográfica, quer tivesse 3, 10 ou 30 anos. No verso da fotografia, Pessoa escreveu esta dedicatória: “Á sua querida tia Lisbella com muitos beijos do seu sobrinho muito amigo Fernando. Durban 1898”.


Secção: fotografia de autor

Constantino Varela Cid, “Saudades do Mar”, Nazaré (papel de revelação virado, Ca. 1940, 30,5 x 30 cm.)

Lote 295
Preço: 600 €

Outra grande imagem do leilão. Varela Cid, como boa parte dos fotógrafos da época, era um entusiasta dos salões de fotografia. Esta imagem tem o selo de participação num desses concursos que decorreu em Estocolmo, na Suécia. Para além desta fotografia, há outras 3 imagens do autor.


Joaquim Moraes (albumina, Ca. 1890)

Lote 322
Preço: 400 €

É uma fotografia rara. Antecipa a pose e os preparativos para a fotografia que vai ser. Apesar de não estar em bom estado de conservação, é um documento importante para a história da fotografia portuguesa porque revela também o trabalho de Joaquim Moraes, alguém que até agora tem estado na sombra do irmão José Augusto da Cunha Moraes.


Secção: livros e edições
Victor Palla e Costa Martins, Lisboa, Cidade Triste e Alegre. Ed. dos autores, Lisboa, 1959

Lote 375
Preço: 300 €

Foi um dos lotes que mais surpreendeu no leilão de Junho. É o livro de fotografia dos arquitectos que ousaram fazer fotografia da cidade que também era feia, miserável, boémia e decadente.


Portugal 1934, Edição do Secretariado de Propaganda Nacional, Lisboa, 1934

Lote 376
Preço: 300 €

Álbum monumental de propaganda nacionalista e imperialista feito sob a batuta de António Ferro, contratado um ano antes para liderar o Serviço de Propaganda Nacional. A fotomontagem é um dos arranjos gráficos recorrentes ao longo da obra que conta com a participação fotográfica de Alvão, A. Rasteiro, João Martins, Diniz Salgado, Ferreira da Cunha, Francisco Santos, Horácio Novais, Joshua Benoliel, José Mesquita, Luis Teixeira, Pinheiro Correia, Mário Novais, Octávio Bobone, Raimundo Vaissier, Raúl Reis, Salazar Diniz, Serra Ribeiro, V. Rodrigues.


Tytania (pseud.). Fairylife and fairyland : a lyrie poem / Communicated by Tytania trough her Secretary , Thomas of Ercildourne. London: L. Booth, 1870. (16 provas de albumina)

Lote 377
Preço: 2000 €

É o lote mais caro do leilão. A encadernação é rica mas está em mau estado. Um dos motivos que mais interesse despertou no fotógrafo, que se esconde num pseudónimo, foi o Palácio de Monserrate com oito fotografias no total da obra.


Secção: fotografia contemporânea
Alberto Picco. Fotografia de estudo para capa da revista do jornal Independente, nº 118, 24 de Agosto de 1990 (papel de revelação)

Lote 396
Preço: 30 €

Esta imagem de Alberto Picco faz parte de um pequeno grupo de lotes dedicados à fotografia contemporânea que faz aqui a sua estreia em leilões de fotografia em Portugal. Apesar de tímida, a iniciativa de trazer à praça fotografia que se praticou recentemente em Portugal abre um novo e importante campo para o curto mercado nacional. Além de outra fotografia de Picco, há três imagens de Agostinho Gonçalves que exploram uma composição distorcida.


Guia de compras
Onde ver as fotografias antes de as comprar?
A Potássio 4 (loja 4, módulo 3 do CCB, Lisboa) tem desde ontem todos os lotes expostos para consulta. É possível haver “engarrafamentos”, por isso convém telefonar para perceber se há mesas (e luvas) disponíveis. O prazo para ver as fotografias que vão a leilão acaba amanhã (entre as 10h00 e as 20h00). O catálogo está disponível online aqui.

Como comprar?
O pregoeiro deste leilão deve impor um ritmo mais acelerado em relação ao que aconteceu na primeira venda. É preciso estar atento e pensar depressa para não deixar escapar o lote que se quer. A venda está agendada para quinta-feira, às 21h00, na sala Laman do CCB. Antes de entrar, os interessados devem fazer uma inscrição para receber uma raqueta com um número de licitação. Também será possível licitar por telefone e, pela primeira vez, pela Internet. Para estas duas últimas modalidades de licitação é preciso fazer uma pré-inscrição no site http://www.p4photography.com/.

Quanto custa?
O preço que aparece no catálogo é o preço-base do lote. Ao número decidido pelo martelo, deve acrescentar-se a comissão da leiloeira (15 por cento) e sobre esta 21 por cento de IVA.

Como pagar?
Todos os lotes arrematados deverão ser totalmente pagos num prazo de 24 horas depois do fim do leilão no local da venda ou na sede da empresa que a organizou. As peças poderão ficar na posse do comprador logo depois do leilão terminar.

Potássio Quatro
Loja 4, módulo 3, Centro Cultural de Belém, Lisboa
Tel., Fax.: 213621894
Email: info@potassioquatro.com

05 novembro, 2006

princípio

Índio da tribo Kuikuro, Brasil (Sebastião Salgado/Amazonas/NB Pictures)


Sebastião Salgado inaugurou na semana passada uma exposição em Belo Horizonte, no Brasil, que levanta um pouco o véu do megaprojecto que está a desenvolver nos últimos paraísos naturais da Terra. Génesis (nascimento) é para Salgado um trabalho de antropologia planetária. O longo percurso começou em 2004 e deve terminar em 2012. O fotógrafo brasileiro acaba de chegar da península russa de Kamchatka, onde captou imagens de vulcões. No ano passado, andou pela cordilheira dos Himalaias, pelo deserto da Namíbia e pelas ilhas Galápagos. Os próximos destinos são as regiões glaciares da Argentina e do Chile e a Antártida.



Baleia, Patagónia, Argentina (Sebastião Salgado/Amazonas/NB Pictures)



O projecto está dividido em quatro blocos temáticos: Criação; Arca de N; Homem Antigo; Sociedade Antiga. Para além de várias empresas americanas e brasileiras, Génesis só é realizável graças ao apoio de jornais europeus como The Guardian, La Repubblica, Vanguardia e Paris Match. A edição online do The Guardian tem disponível uma galeria de imagens e artigos onde é possível seguir as pisadas de Sebastião Salgado nesta sua tentativa de captar a essência dos lugares primeiros e encontrar formas não agressivas de nos relacionarmos com eles.

This is the point for me, that there is a hope. So many times I've photographed stories that show the degradation of the planet. I had one idea to go and photograph the factories that were polluting, and to see all the deposits of garbage. But, in the end, I thought the only way to give us an incentive, to bring hope, is to show the pictures of the pristine planet - to see the innocence. And then we can understand what we must preserve.

Sebastião Salgado


Iguana marinha, Ilhas Galápagos (Sebastião Salgado/Amazonas/NB Pictures)



Génesis, Sebastião Salgado
Museu de Artes e Ofícios de Belo Horizonte
Praça Rui Barbosa, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Tel.: 55 31 3248 8600
Email: info@mao.org.br

30 outubro, 2006

Para a Galiza

A Coruña, na Galiza, recebeu durante o mês de Outubro o festival de fotografia Olladas´06. Algumas exposições prolongam-se por mais tempo em outras cidades galegas.


Exposições:Exposições:
Exposições:Exposições:


J. M. Castro Preto, 1999


Ferrol, Fundación Caixa Galicia: Vidas Privadas - Esta mostra resulta de uma selecção de 69 imagens dos 42 autores representados na Fundación Foto Colectania, um dos mais importantes espólios privados de fotografia em Espanha que reúne também vários nomes portugueses. Entre os artistas representados destacam-se os espanhóis Francesc Català-Roca, Xavier Miserachs, Paco Gómez, Gabriel Cualladó, Joan Colom, Carlos Pérez Siquier, Joan Fontcuberta, Pere Formiguera, Humberto Rivas, Toni Catany, Cristina García Rodero, Alberto García Alix, Susy Gómez, Xavier Ribas, Javier Vallhonrat e os portugueses Helena Almeida, Gérard Castello-Lopes, António Júlio Duarte, Fernando Lemos e Sena da Silva.
Esta exposição conta as Vidas Privadas de cada uma das imagens apresentadas. As peripécias, circunstâncias e condicionantes com que os seus autores se debateram no momento em que as captaram. Quando foram compradas, as fotografias vieram acompanhadas por textos dos fotógrafos acerca delas. É essa “história” que agora também se revela.
A Fundación Foto Colectania concentra a sua colecção nos últimos 50 anos da fotografia em Portugal e Espanha. Até 3 de Dezembro


J. M. Castro Preto, 1999


Santiago de Compostela, Fundación Caixa Galicia: Historia da Fotografia en España- Conta a história política, social, cultural, industrial e urbanística do país pela imagem fotográfica desde 1939, ano do anúncio da invenção do daguerreótipo, até à passagem do século XX para o XXI. 350 imagens vindas de mais de 100 colecções públicas e privadas tentam dar um retrato de conjunto das mudanças operadas em Espanha. Em paralelo, pode fazer-se também um percurso histórico pela evolução dos suportes e das técnicas de produção da imagem fotográfica. A selecção foi feira pelo historiador Públio L. Mondejár. Até 15 de Novembro


Arquivo Pacheco


Santiago de Compostela, Fundación Caixa Galicia: Arquivo Pacheco– Selecção de imagens do espólio do fotógrafo português Jaime de Sousa Guedes Pacheco, estabelecido em Vigo nos primeiros anos do século XX. Até 30 de Novembro


Entre aspas

Assad Mouhsin (Associated Press)

Pensamos pouco sobre aqueles que vemos nas imagens. Pensamos ainda menos sobre aqueles que as imagens nos obrigam a ver.

João Lopes, Entre as Imagens, Diário de Notícias, 6ª (15.09.2006)

27 outubro, 2006

O Livro filmado

Exemplar do livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre


Eles apanharam com grande sensibilidade e amor, as pessoas, as ruas e as coisas nos anos de chumbo, que eram aqueles.

Fernando Lopes


Preparava-me para escolher alguns documentários que tinha perdido no docLisboa deste ano quando um conjunto de quatro pequenos cartazes fixados na parede da videoteca temporária da Culturgest me prendeu o olhar. Gostei do grafismo. Aproximei-me. Um mostrava o rosto de uma criança, os outros três transcreviam frases sobre uma realização extraordinária "durante os anos de chumbo". Letras pequenas de rodapé falavam de Lisboa, Cidade Triste e Alegre.
Era um filme sobre O Livro. O Livro de fotografia com o qual, em 1959, os arquitectos Victor Palla e Costa Martins quebraram as regras do fazer e do mostrar nesses anos de definhamento. O documentário está entre os cerca de 800 filmes não seleccionados pela organização do festival. Depois de vê-lo aceita-se a decisão. Durante os 44 minutos que dura a fita, raramente se pode contemplar aquilo que realmente aqui interessaria: as fotografias. Um dos culpados é a banda sonora, um jazz frenético (mal escolhido) cuja cadência rítmica vai ditando a passagem das imagens, também ela demasiado febril. As vozes convidadas para a narração não ajudam. Há nelas uma leitura apressada dos textos que faz lembrar a previsão do tempo para amanhã. A lista de entrevistados é longa (20, para um filme que ficou com 44 minutos). Poucos são os depoimentos com algum valor acrescentado para o documentário que, segundo percebi, pretendia, por um lado, sublinhar a pedrada no charco que a obra representou no contexto político, social e artístico do Portugal domesticado pelo regime salazarista e, por outro, tentar conhecer estes dois homens que ousaram estampar fotografias de uma Lisboa que se queria escondida. No fim, distinguem-se as conversas com José Soudo, Dália Dias, Fernando Lopes e Nuno Teotónio Pereira. Para além dos cartazes e do grafismo do filme, salva-se a iniciativa de querer divulgar uma obra pouco conhecida para o comum dos portugueses (muito conhecida para os mercadores de livros de arte). É pouco. Lisboa, Cidade Triste e Alegre merecia mais.

Lisboa, Cidade Triste e Alegre, de Luís Camanho
DVCAM/Cor/44'/2005

26 outubro, 2006

Olharmo-nos

Céu Guarda, Os Outros


Os areais, à beira-mar ou à beira-rio, são talvez os locais onde as pessoas mais se olham. Não para si, mas entre si. Céu Guarda, fotojornalista da agência [ kameraphoto ], meteu os pés na água e passou o último Verão numa dessas praias, junto a uma lagoa, a olhar para os outros, a fixá-los em retrato de corpo inteiro estudado, sempre no mesmo lugar, para que, agora, outros ainda olhem para eles. E, porque não, para que estes olhem também para si próprios - numa das imagens de frente para a câmara, na outra, nessa estranha posição de quem se mostra sem ver a quem. Nas impressões de médio formato saltam à vista as tonalidades infindáveis que o céu nos oferece. São tantas como as fotografias que se lhe podem tirar. Para lá do retratado, mais perto ou mais longe do horizonte, pequenos pontos ganham formas ora de barquinhos à vela, ora de cabeças à tona, ora de bóias de salvação. São cenários irrepetíveis, como o céu.

Céu Guarda, Os Outros


Os Outros, Céu Guarda
[ K Galeria ]
de 4ª a sáb. das 15h00 às 20h00
Rua da Vinha (Bairro Alto) 43A
Tel.: 213431676
E-mail: kgaleria@kameraphoto.com

24 outubro, 2006

*Três perguntas a...


Paulo Nozolino (Paulo Pimenta/PÚBLICO)

Paulo Nozolino. Fotógrafo lisboeta a viver no Porto. Mostra actualmente na Galeria Quadrado Azul, no Porto, 15 imagens sobre as difíceis condições em que vivem dezenas de famílias ciganas na Cité de Transit d`Erbajolu, em Bastia, na Córsega. A exposição chama-se Scalati (“atolados”).

¿Por que é que ainda fotografas?
Porque ainda tenho interesse pelo mundo em que vivo.

¿O que é que aprendeste com este trabalho em Erbajolu?
É uma grande lição ver pessoas que estão a viver em condições sub-humanas a manterem uma dignidade e uma postura que muitas vezes não se vêem nas pessoas que vivem bem.

¿Que trabalhos te ocupam neste momento?
Trabalho desde há muito sobre a Europa, desde 77. Continua a interessar-me a identidade europeia. Vou continuar a ir para os países de Leste, para os países que vão entrar na União Europeia, para tentar apanhar o que é o espírito europeu, que eu sempre senti. Acho que há uma consciência europeia que esteve latente e cada vez mais surge como uma realidade. A Europa é uma Fénix a renascer das cinzas.

fazer tremer


Era vital para mim ouvir-lhes a voz, avaliar-lhes a inteligência das palavras. Eu parecia perseguir simples corpos, mas o que eu cobiçava era captar almas encerradas em corpos nus. Isso, creio eu, é o que faz uma boa e verdadeira fotografia, que nunca é uma mera imagem para ser vista exclusivamente pelos olhos. É preciso trazer o coração à boca. É preciso ficarmos abalados, a tremer.

Pedro Paixão, Polaroids, revista Umbigo (Setembro, 2006)

23 outubro, 2006

encontros da imagem - 20 anos

A edição deste ano dos regressados encontros da imagem de Braga está perto do fim. Há bons motivos para rumar até ao Norte, antes que se escondam as imagens que marcaram os 20 anos que já leva o certame.


Exposições:Exposições:
Exposições:Exposições:


Teatro Circo: Documento e memória

Martin Parr

(...) uma imagem fotográfica, no limite qualquer imagem fotográfica – independentemente do objectivo que presidiu à sua execução, porque é um produto da cultura humana – parece estar condenada à partida ao estatuto de puro registo para memória futura, usando a saborosa hipérbole judicial. Mário Martins

Clara Gutsche



Mosteiro de Tibães: Corpo e identidade

Diane Arbus

Como um todo, ou fragmentado, a fotografia encontra na apropriação do corpo humano um vasto manancial criativo. Em torno da figura humana, a fotografia desenvolve e aprofunda diferentes caminhos: estéticos, antropológicos, científicos e forenses. Rui Prata

Jorge Molder


Museu D. Diogo Sousa: Memórias da cidade

Jim Dow

A fotografia cria-se a si mesma no processo em que, por ela, a própria realidade vai sendo recriada. Ângela Mendes Ferreira


Paul Reas



Biblioteca Lúcio Craveiro Silva: Paisagens

Rui Fonseca
A fotografia contemporânea empreendeu um trabalho de ruptura deliberada com a tradição de paisagem ligada a uma omnipresente tradição pictural. Os espaços de beleza ou grandiosidade cederam lugar às ‘infrapaisagens’ em declinações do território que preferenciam zonas de lazer ou de trânsito, de actividade industrial ou comercial, ou arrabaldes incaracterísticos de cidades, quase sempre percepcionados como lugares de exclusão identitária e de impossível enraizamento.Ângela Mendes Ferreira

Carmelo Nicosia



Casa dos Crivos, Torre de Menagem: O jogo das formas

Chema Madoz

A fotografia aprecia sobremaneira jogar com as formas – está-lhe na massa do sangue. E com elas joga desde o primeiro momento, porque desde o primeiro momento se veio inscrever necessariamente na longa tradição das artes visuais, e nestas desde há muito afincadamente se ensaiavam os avatares da percepção visual, levando ao limite as possibilidades estéticas, tanto quanto as condicionantes técnicas de cada disciplina o permitiam. Contudo, a própria natureza mecânica da fotografia, se por um lado lhe concedia credibilidade, por outro vedava-lhe a conquista do estatuto de meio de expressão criativa de corpo inteiro. Era preciso provar que a imagem fotográfica, tão concreta e prosaica na sua origem, poderia também ela evocar sentimentos universais e ideias abstractas, o que lhe possibilitaria franquear definitivamente as portas do templo da criação poética. Mário Martins


Corinne Mercadier



Braga Parque: Farm Security Administration

Walker Evans

Hoje, a sigla FSA (Farm Security Administration) já não recorda apenas os danos da crise dos anos 30 e o optimismo do programa New Deal, mas recorda um dos projectos mais ambiciosos da fotografia, incumbido de representar a sociedade norte-americana no período pós-depressão. E, para muitos de nós, a imagem que temos da América desses anos difíceis baseia-se nas obras desses fotógrafos, como Walker Evans, Dorothea Lange e Russell Lee, entre outros, os quais trabalharam com a preocupação constante de testemunhar os problemas do momento, imprimindo-lhes uma visão histórica, económica e sociológica. Rui Prata


Ben Shahn



M. da Imagem, M. dos Biscainhos:Homenagem (Brian Griffin, Gilbert Garcin e Arno Fischer)

Brian Griffin


Ao longo dos vinte anos que se cumprem com esta edição, muitos foram os autores e instituições com quem firmámos laços de amizade, ultrapassando o formalismo das necessárias relações a que a organização de um evento deste género obriga.
(...)
Num acto singelo, mas de profundo reconhecimento, queremos prestar homenagem a Arno Fischer, Brian Griffin e Gilbert Garcin, três nomes que nunca esqueceremos e que, certamente, a História da Fotografia também não.

Arno Fischer



encontros da imagem
Av. da Liberdade, nº 432 – 6º, sala 39, Braga
Tel.: 253278633
e-mail: ei@encontrosdaimagem.com
Até 29 de Outubro

20 outubro, 2006

Helena Almeida X 2

Helena Almeida, Dentro de Mim, 2000 (colecção da artista)

De uma penada, dois documentários sobre a obra e vida de Helena Almeida, a pintora do corpo fotografado.

O primeiro - A Segunda Casa - passa hoje na 2: e procura explorar a forma como Helena Almeida coloca em confronto os trabalhos que tem feito em vídeo com os que usam o suporte fotográfico. O registo, com uma forte tónica biográfica, pretende também dar a conhecer uma sucessão de artistas da família de Helena: Leopoldo de Almeida, Artur Rosa, Rosa Almeida, Joana Rosa.

O segundo - Pintura Habitada - é exibido no domingo na Culturgest, no âmbito do doclisboa 2006. O filme procura documentar a transversalidade dos vários suportes utilizados por Helena Almeida para reiventar o corpo, como a pintura, o desenho, a fotografia ou, mais recentemente, o vídeo.


Helena Almeida, Dentro de Mim, 2000 (colecção da artista)


A Segunda Casa, Helena Almeida
Realização: Óscar Faria
Duração: 55´
20.10.2006, na 2:, às 00h30

Pintura Habitada
Realização: Joana Ascensão
Duração: 52´
doclisboa 2006
22.10.2006, na Culturgest (Grande Auditório), às 16h30

19 outubro, 2006

O que ficou

Cinco imagens que me ficaram na retina no
World Press Photo deste ano.


Andrew Testa, Panos Pictures para o The New York Times.
Funeral de vítimas do massacre de Srebrenica, Potocari, Bósnia, 11 de Julho

Um rapaz bósnio reza junto a um dos 610 caixões armazenados numa fábrica na aldeia de Potocari, os quais serão enterrados a 11 de Julho, no décimo aniversário do massacre de Srebrenica, quando sérvios mataram mais de 7000 homens e rapazes muçulmanos em emboscadas e execuções em massa.



Yannis Kontos, Polaris Images.
O filho ajuda o pai a vestir-se, Serra Leoa

O pequeno Abu (7 anos) abotoa o colarinho do pai, no abrigo que partilham num campo para amputados, perto de Freetown, na Serra Leoa. Ambos os braços de Abu Bakarr Kargbo foram cortados por rebeldes da Frente Unida Revolucionária, durante a longa guerra civil da Serra Leoa. Após a celebração de um acordo de paz em 2004, combatentes de ambos os lados beneficiaram de programas de reinserção social, mas pouco se fez pelos amputados.



Pål Hermansen, para Orion Forlag/Getty Images.
Urso polar, Svalbard

Um urso polar devora uma foca sobre uma massa de gelo flutuante, perto do glaciar Mónaco, na costa noroeste de Svalbard (Spitsbergen), na Noruega. Os ursos polares alimentam-se principalmente de focas; nos meses de Verão, atacam as que gozam o sol em cima das massas de gelo flutuante, pois necessitam de uma plataforma flutuante para capturar as suas presas. No Verão de 2005 havia muito pouco gelo a norte de Svalbard. Os ursos polares estão em extinção. Os cientistas preocupam-se com os efeitos da poluição e do aquecimento global na alimentação desses animais.



Åsa Sjöström
Escola de ballet, Moldávia

Estudantes de dança com 16 anos de idade fazem exercícios no Teatro da Escola de Ópera e Ballet de Chisinau, a capital da Moldávia. A escola é um local muito competitivo. A Moldávia é um dos países mais pobres da Europa, e muitos jovens vêem o ballet como uma forma de aceder à riqueza e viagens pelo estrangeiro. Todos os anos, doze rapazes e doze raparigas com cerca de oito anos de idade são iniciados no estudo do ballet. Ficam na escola durante nove anos, com um mínimo de cinco horas diárias de treino, para além dos estudos normais. A cada ano, os números da turma vão diminuindo. Os menos talentosos são impedidos de continuar.



Pieter Hugo, Corbis.
Mallam Gahdima Ahmadu com a hiena Jamis, Abuja, Nigéria

Mallam pertence a uma companhia que viaja pelo norte da Nigéria com três hienas, duas pitões africanas e quatro macacos. Além de divertirem as populações, também vendem fetiches e medicamentos à base de ervas, muito procurados na Nigéria.



World Press Photo 2006
Centro Cultural de Belém
Praça do Império
1449-033 Lisboa
Tel.: 213 612 676
Fax: 213 612 622
Até 22 de Outubro
Sábado e Domingo, dias 21 e 22, a exposição prolonga-se até às 20h00.

Nota: Os textos sobre as imagens são da World Press Photo.

18 outubro, 2006

quase morte . morte


Heiner Schmitz, 19 de Novembro de 2003 (Walter Schels)

À volta da água, garante de vida, as imagens de morte. De um lado as de morte, do outro as de quase morte. Mudam os rostos, as rugas, os cabelos, a aura. Os olhos desviam-se mais para os olhos, ainda vivos. Não era preciso a imagem da morte, para sabermos que ela está lá, no olhar, quase morto.


Heiner Schmitz, 14 de Dezembro de 2003 (Walter Schels)


Amor-te (Walter Schels, fotografias. Beate Lakotta, texto)
Museu da Água - Mãe d`Água das Amoreiras
Das 10h00 às 18h00
Até 28 de Outubro

 
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