23 outubro, 2006

encontros da imagem - 20 anos

A edição deste ano dos regressados encontros da imagem de Braga está perto do fim. Há bons motivos para rumar até ao Norte, antes que se escondam as imagens que marcaram os 20 anos que já leva o certame.


Exposições:Exposições:
Exposições:Exposições:


Teatro Circo: Documento e memória

Martin Parr

(...) uma imagem fotográfica, no limite qualquer imagem fotográfica – independentemente do objectivo que presidiu à sua execução, porque é um produto da cultura humana – parece estar condenada à partida ao estatuto de puro registo para memória futura, usando a saborosa hipérbole judicial. Mário Martins

Clara Gutsche



Mosteiro de Tibães: Corpo e identidade

Diane Arbus

Como um todo, ou fragmentado, a fotografia encontra na apropriação do corpo humano um vasto manancial criativo. Em torno da figura humana, a fotografia desenvolve e aprofunda diferentes caminhos: estéticos, antropológicos, científicos e forenses. Rui Prata

Jorge Molder


Museu D. Diogo Sousa: Memórias da cidade

Jim Dow

A fotografia cria-se a si mesma no processo em que, por ela, a própria realidade vai sendo recriada. Ângela Mendes Ferreira


Paul Reas



Biblioteca Lúcio Craveiro Silva: Paisagens

Rui Fonseca
A fotografia contemporânea empreendeu um trabalho de ruptura deliberada com a tradição de paisagem ligada a uma omnipresente tradição pictural. Os espaços de beleza ou grandiosidade cederam lugar às ‘infrapaisagens’ em declinações do território que preferenciam zonas de lazer ou de trânsito, de actividade industrial ou comercial, ou arrabaldes incaracterísticos de cidades, quase sempre percepcionados como lugares de exclusão identitária e de impossível enraizamento.Ângela Mendes Ferreira

Carmelo Nicosia



Casa dos Crivos, Torre de Menagem: O jogo das formas

Chema Madoz

A fotografia aprecia sobremaneira jogar com as formas – está-lhe na massa do sangue. E com elas joga desde o primeiro momento, porque desde o primeiro momento se veio inscrever necessariamente na longa tradição das artes visuais, e nestas desde há muito afincadamente se ensaiavam os avatares da percepção visual, levando ao limite as possibilidades estéticas, tanto quanto as condicionantes técnicas de cada disciplina o permitiam. Contudo, a própria natureza mecânica da fotografia, se por um lado lhe concedia credibilidade, por outro vedava-lhe a conquista do estatuto de meio de expressão criativa de corpo inteiro. Era preciso provar que a imagem fotográfica, tão concreta e prosaica na sua origem, poderia também ela evocar sentimentos universais e ideias abstractas, o que lhe possibilitaria franquear definitivamente as portas do templo da criação poética. Mário Martins


Corinne Mercadier



Braga Parque: Farm Security Administration

Walker Evans

Hoje, a sigla FSA (Farm Security Administration) já não recorda apenas os danos da crise dos anos 30 e o optimismo do programa New Deal, mas recorda um dos projectos mais ambiciosos da fotografia, incumbido de representar a sociedade norte-americana no período pós-depressão. E, para muitos de nós, a imagem que temos da América desses anos difíceis baseia-se nas obras desses fotógrafos, como Walker Evans, Dorothea Lange e Russell Lee, entre outros, os quais trabalharam com a preocupação constante de testemunhar os problemas do momento, imprimindo-lhes uma visão histórica, económica e sociológica. Rui Prata


Ben Shahn



M. da Imagem, M. dos Biscainhos:Homenagem (Brian Griffin, Gilbert Garcin e Arno Fischer)

Brian Griffin


Ao longo dos vinte anos que se cumprem com esta edição, muitos foram os autores e instituições com quem firmámos laços de amizade, ultrapassando o formalismo das necessárias relações a que a organização de um evento deste género obriga.
(...)
Num acto singelo, mas de profundo reconhecimento, queremos prestar homenagem a Arno Fischer, Brian Griffin e Gilbert Garcin, três nomes que nunca esqueceremos e que, certamente, a História da Fotografia também não.

Arno Fischer



encontros da imagem
Av. da Liberdade, nº 432 – 6º, sala 39, Braga
Tel.: 253278633
e-mail: ei@encontrosdaimagem.com
Até 29 de Outubro

20 outubro, 2006

Helena Almeida X 2

Helena Almeida, Dentro de Mim, 2000 (colecção da artista)

De uma penada, dois documentários sobre a obra e vida de Helena Almeida, a pintora do corpo fotografado.

O primeiro - A Segunda Casa - passa hoje na 2: e procura explorar a forma como Helena Almeida coloca em confronto os trabalhos que tem feito em vídeo com os que usam o suporte fotográfico. O registo, com uma forte tónica biográfica, pretende também dar a conhecer uma sucessão de artistas da família de Helena: Leopoldo de Almeida, Artur Rosa, Rosa Almeida, Joana Rosa.

O segundo - Pintura Habitada - é exibido no domingo na Culturgest, no âmbito do doclisboa 2006. O filme procura documentar a transversalidade dos vários suportes utilizados por Helena Almeida para reiventar o corpo, como a pintura, o desenho, a fotografia ou, mais recentemente, o vídeo.


Helena Almeida, Dentro de Mim, 2000 (colecção da artista)


A Segunda Casa, Helena Almeida
Realização: Óscar Faria
Duração: 55´
20.10.2006, na 2:, às 00h30

Pintura Habitada
Realização: Joana Ascensão
Duração: 52´
doclisboa 2006
22.10.2006, na Culturgest (Grande Auditório), às 16h30

19 outubro, 2006

O que ficou

Cinco imagens que me ficaram na retina no
World Press Photo deste ano.


Andrew Testa, Panos Pictures para o The New York Times.
Funeral de vítimas do massacre de Srebrenica, Potocari, Bósnia, 11 de Julho

Um rapaz bósnio reza junto a um dos 610 caixões armazenados numa fábrica na aldeia de Potocari, os quais serão enterrados a 11 de Julho, no décimo aniversário do massacre de Srebrenica, quando sérvios mataram mais de 7000 homens e rapazes muçulmanos em emboscadas e execuções em massa.



Yannis Kontos, Polaris Images.
O filho ajuda o pai a vestir-se, Serra Leoa

O pequeno Abu (7 anos) abotoa o colarinho do pai, no abrigo que partilham num campo para amputados, perto de Freetown, na Serra Leoa. Ambos os braços de Abu Bakarr Kargbo foram cortados por rebeldes da Frente Unida Revolucionária, durante a longa guerra civil da Serra Leoa. Após a celebração de um acordo de paz em 2004, combatentes de ambos os lados beneficiaram de programas de reinserção social, mas pouco se fez pelos amputados.



Pål Hermansen, para Orion Forlag/Getty Images.
Urso polar, Svalbard

Um urso polar devora uma foca sobre uma massa de gelo flutuante, perto do glaciar Mónaco, na costa noroeste de Svalbard (Spitsbergen), na Noruega. Os ursos polares alimentam-se principalmente de focas; nos meses de Verão, atacam as que gozam o sol em cima das massas de gelo flutuante, pois necessitam de uma plataforma flutuante para capturar as suas presas. No Verão de 2005 havia muito pouco gelo a norte de Svalbard. Os ursos polares estão em extinção. Os cientistas preocupam-se com os efeitos da poluição e do aquecimento global na alimentação desses animais.



Åsa Sjöström
Escola de ballet, Moldávia

Estudantes de dança com 16 anos de idade fazem exercícios no Teatro da Escola de Ópera e Ballet de Chisinau, a capital da Moldávia. A escola é um local muito competitivo. A Moldávia é um dos países mais pobres da Europa, e muitos jovens vêem o ballet como uma forma de aceder à riqueza e viagens pelo estrangeiro. Todos os anos, doze rapazes e doze raparigas com cerca de oito anos de idade são iniciados no estudo do ballet. Ficam na escola durante nove anos, com um mínimo de cinco horas diárias de treino, para além dos estudos normais. A cada ano, os números da turma vão diminuindo. Os menos talentosos são impedidos de continuar.



Pieter Hugo, Corbis.
Mallam Gahdima Ahmadu com a hiena Jamis, Abuja, Nigéria

Mallam pertence a uma companhia que viaja pelo norte da Nigéria com três hienas, duas pitões africanas e quatro macacos. Além de divertirem as populações, também vendem fetiches e medicamentos à base de ervas, muito procurados na Nigéria.



World Press Photo 2006
Centro Cultural de Belém
Praça do Império
1449-033 Lisboa
Tel.: 213 612 676
Fax: 213 612 622
Até 22 de Outubro
Sábado e Domingo, dias 21 e 22, a exposição prolonga-se até às 20h00.

Nota: Os textos sobre as imagens são da World Press Photo.

18 outubro, 2006

quase morte . morte


Heiner Schmitz, 19 de Novembro de 2003 (Walter Schels)

À volta da água, garante de vida, as imagens de morte. De um lado as de morte, do outro as de quase morte. Mudam os rostos, as rugas, os cabelos, a aura. Os olhos desviam-se mais para os olhos, ainda vivos. Não era preciso a imagem da morte, para sabermos que ela está lá, no olhar, quase morto.


Heiner Schmitz, 14 de Dezembro de 2003 (Walter Schels)


Amor-te (Walter Schels, fotografias. Beate Lakotta, texto)
Museu da Água - Mãe d`Água das Amoreiras
Das 10h00 às 18h00
Até 28 de Outubro

16 outubro, 2006

-You`re beautiful


Bert Stern, 1962


Tinham passado cinco horas.
Os ponteiros estavam agora perto das sete.
Tudo preparado.
Havia Don Pérignon no gelo, luz no ponto certo e algumas vestes transparentes.
O gira-discos portátil tocava Everly Brothers. A máquina pronta a disparar.
Bert Stern já não acreditava que ela aparecesse. Sabia que não era pontual, mas já tinham passado 5 horas.
5 horas.
Agora, se aparecesse era capaz de ficar só 5 minutos.
Esperava. E as perguntas não paravam.

[I was preparing for Marilyn`s arrival like a lover, and yet I was here to take photographs. Not to take her in my arms, but to turn her into tones, and plates, and shapes, and ultimately into an image for the printed page.]

O telefone tocou na suite 261 do Hotel Bel Air.

– Miss Monroe had arrived.

Stern pousa o auscultador lentamente e respira fundo.
Sai ao encontro dela no corredor.
Estranha.
Ela vem sozinha, sem guarda-costas, sem relações públicas ou assessores de imprensa.
Um lenço apanha-lhe o cabelo.
Não tem maquilhagem.
Nota-se que perdeu algum peso.
Estava ali. Ela. Sem nada.
A verdadeira.

–You`re beautiful.
–Really? What a nice thing to say.


E agora o tempo.
Quantos minutos?
Estaria com pressa?

–No, why?
–I thought you are going to have like five minutes.

Ri-se.

–You are kidding.
–Well, how much time have you got?
–All the time that we want!


Pede-lhe então que use apenas um pouco de baton e um risco de eye-liner. Ela aceita.
Enrosca-se em plumas. Brinca com as transparências.
Finge que esconde. Mostra. Tudo.

–You want me to do nudes?
–Uh, well I – I guess so!... it wouldn`t be exactly nude. You`d have the scarf.
–Well, how much would you see through?
–That depends on how I light it.


Vai dançando à sua frente.
Toda. Cicatrizes também.
Ela gosta de fotografias.
Gosta de máquinas fotográficas. De objectivas. Sente-se bem à sua frente.
As vozes quase não se ouvem.
Era tempo de criação. De entrega.

[We hardly talked to each other at all. We just worked it out. I`d photographed a lot of women, and Marilyn was the best. She`d move into an idea. I`d see it, quickly lock it in, click it, and my strobes would go off like a lightning flash – PKCHEWW!! – and get it with zillionth of a second.]

Podiam ter sido só 5 minutos.
Passaram mais de 12 horas.
E muitos rolos ficaram cheios de Marilyn.
A cores.

Fabulous!”, disse o director da Vogue.
Mas havia quase só cor e pele.
Demasiada cor, demasiada pele, pouca roupa para revista de moda.
Demasiada jovialidade, demasiada naturalidade, pouca pose para quem louva a encenação total.
Tragam-se então os flashes outra vez.
Mude-se a película para a vasta gama de cinzentos, quase pretos, quase brancos. Cubra-se a pele de peles, longos vestidos e algumas jóias.
Fixem-se imagens de ar grave ou de profunda melancolia.
Aproxima-se o fim.
Concentração total.
Para ela.

[[the] picture I came for – that one black and white that was going to last for ever like Steichen`s Garbo.]

Nesse lugar de ausência, sem nada.
Ou quase nada.
Quase só luz.

[That space where everything is silent but the clicking of the strobes.]

ela a mover-se.
Altiva. Levanta um pouco a cabeça.
E sorri.

[[...] and her arm was up, like waving farewell. I saw what I wanted, I pressed the button, and she was mine. It was the last picture.]

O X marca.
O X destrói.

[She hadn`t just scratched out my pictures, she`d scratched out herself.]


Bert Stern, 1962


Marilyn Monroe, la dernière séance (Marilyn`s last sitting)
Fondation Dina Vierny - Musée Maillol
Rue de Grenelle, nº 61, Paris
Tel.: 01 42 22 59 58
Até 6 de Novembro

Nota: dados factuais, citações e diálogos retirados de Photo Icons, the story behind the pictures, Hans-Michel Koetzle, Taschen.

13 outubro, 2006

“atolados”

Paulo Nozolino, Cité de Transit d’Erbajolu, Bastia, Dezembro de 2005

O meu trabalho é fotografar as coisas que estão a desaparecer

Depois de se ter mostrado em Bastia, a exposição Scalati (“atolados”), de Paulo Nozolino, viaja até ao Porto (Galeria Quadrado Azul). As 15 imagens de grande formato fazem parte de um trabalho sobre 30 famílias ciganas que a voragem urbanística pretende desalojar da Cité de Transit d`Erbajolu, em Bastia, na Córsega. Sílvia Souto Cunha, jornalista da Visão, conseguiu convencer Nozolino a falar deste trabalho, da sua vida e da sua necessidade extrema de continuar a fotografar. O resultado dessa conversa está na última edição da revista (12.10.2006).

No texto de apresentação da mostra, Paulo Nozolino conta um pouco da sua experiência em Bastia:

La route s’arrête soudain. Les caravanes ont les pneus dégonflés. Ça fait longtemps qu’on ne part plus. Chômage, manque d’argent, enlisement… Les hommes vendent des vieilles voitures et récupèrent ce qu’ils peuvent dans les poubelles de la ville. Les femmes cuisinent, les enfants dorment. Le linge sèche dans les baraques humides. Seul le regard de la jeune fille semble nous sauver du désespoir, car il y a trop de vin et trop de rêves cassés par le temps. On meurt à petit feu dans la cité de transit. Restent les souvenirs des parties de chasse, des fêtes de mariage, des nuits de musique autour du feu. La joie je ne l’ai pas sentie à Erbajolu… juste la pluie, le froid et la boue. On attend que Noël passe, que le Printemps revienne. On parle peu car la survie n’est pas un choix de vie et elle ne mérite pas les paroles. À peine un sourire désenchanté… En plus et derrière tout ça, il y a la menace qu’on viendra un jour les déloger. Cela dure depuis longtemps, ce bruit qui court, qui les ronge. Même s’ils y sont nés et y habitent depuis 30 ans, même s’ils ont la nationalité de la République et le droit de voter, on leur fait sentir qu’ils seront toujours différents. Le terrain d’Erbajolu a toujours été considéré étape de transit. Ils seront amenés ailleurs, sans bruit si possible, loin de la ville, du supermarché et de l’hôtel aux super palmiers. 'Peut-être à Teghime, ancienne décharge à ciel ouvert, sur les hauteurs de Bastia, où le froid et le vent feraient l’affaire'. Je suis sur qu’on finira par les oublier, ces citoyens de la République. Et on pourra enfin continuer la route et construire, construire, construire…

Paulo Nozolino, 6.2.2006



Scalati (“atolados”)
Galeria Quadrado Azul, Porto
Rua Miguel Bombarda, 435
Até 4 de Novembro

12 outubro, 2006

*Três perguntas a...


António Carrapato, auto-retrato, 2006

António Carrapato. Fotojornalista do Público no Alentejo. Expõe actualmente na Fundação Luso-Brasileira um conjunto de fotografias sobre o insólito e o movimento nas ruas de Nova Iorque a Cuba.

¿Por que é que fotografas?
Gosto de registar as situações caricatas da vida. De construir pequenas narrativas à volta delas.

¿Que tipo de situações privilegias quando fotografas o quotidiano da rua?
O insólito e algum humor, não muito explícito.

¿Para além do trabalho de fotojornalista, que outros projectos te ocupam agora?
A Europa neste estado de globalização em que tudo é igual em todo o lado. E um projecto sobre o facto de eu ser alentejano e o Alentejo.

António Carrapato, Cuba, 2005

11 outubro, 2006

Fotografia na arte

Rodney Graham, Schoolyard Tree, Vancouver, 2002

Demorou, mas a fotografia já fez o seu percurso iniciático na arte contemporânea, quer como suporte quer como conceito. O período da afirmação começou nos anos 70. O da consolidação veio com os 80 e os 90. Com este crescendo de influência do suporte fotográfico nas artes, reavivou-se uma discussão que ciclicamente vem à tona: a pintura morreu?
Parece que não. A pintura não morreu. Pelo contrário, reinventou-se. E, nos últimos tempos, têm sido muitas as vozes que apontam o fotográfico como um dos motores desse fulgor. É por aí que se tem potenciado na tela outros significados, outros pontos de partida e de chegada. Chamam-lhe até o “regresso à pintura”.
Num dos percursos possíveis na exposição Helga de Alvear, Conceitos para uma Colecção, ainda patente no CCB, pode acompanhar-se essa integração do suporte fotográfico no mainstream artístico e a forma como serviu para questionar abordagens artísticas em outras áreas, muito particularmente a pintura. Primeiro apenas galerista, Helga de Alvear serviu-se dessa proximidade privilegiada com o meio para dar início a uma colecção que reúne cerca de 2000 mil peças vindas de todo o tipo de experimentalismos artísticos dos últimos 30 anos. Desde os anos 80 que defende os vários usos da fotografia na arte contemporânea. Para esta mostra em Lisboa, Delfim Sardo seleccionou uma pequena parte do seu espólio, considerado um dos mais importantes da contemporaneidade nas mãos de privados. Nos vários núcleos, preferiu usar-se o critério da afinidade entre as obras em detrimento da habitual cronologia. No suporte fotográfico podem encontrar-se, entre outros, o registo documental da efemeridade da performance (Marina Abramovic, Joseph Beuys, Jürgen Klauke, Helena Almeida), as paisagens românticas e as aproximações políticas (Axel Hütte e Allan Sekula), o objectivismo alemão (Bernd e Hilla Becher), a reflexão sobre o espaço público (Thomas Ruff, Andreas Gursky, Candida Höfer) ou a manipulação e assimilação da imagem cinematográfica (Pierre Hyghe, Stan Douglas, Philip-Lorca diCorcia).

Alfredo Jaar, Gold In The Morning, 1985


James Casebere, Yellow Hallway # 2, 2001


Helga Alvear, Conceitos para uma Colecção
Centro Cultural de Belém, Lisboa
Até 22 de Outubro

09 outubro, 2006

olhos

Richard Avedon
I hate cameras. They interfer, they're always in the way. I wish: if I could work with my eyes alone.
Richard Avedon (1923-2004)

06 outubro, 2006

Tempos de infância

Sharon Lockhart, Pine Flet Portrait Studio, 2005
(cortesia Neugerriemschneider, Berlim)

Há um certo desconforto ao ver as fotografias de crianças de Sharon Lockhart. Desconforto porque quando se tenta isolar nestes retratos de corpo inteiro um sinal que possa responder à curiosidade sobre quem são estes rapazes e raparigas, encontramos neles uma quase inexpressividade, ou, pelo menos, uma expressividade pouco habitual em crianças - a de adultos sérios. Apesar da pose declarada, que ajuda definir a condição ficcional destas imagens, desconcerta-nos a segurança, a temeridade com que encaram a objectiva. Há uma consciência plena da fotografia. E há a encarnação de um personagem que choca com a imagem que temos das crianças. A nulidade repetida de um cenário escuro dificulta ainda mais essa necessidade catalogante que tenta responder, entre outras, à pergunta: e estes personagens são bons ou maus?
Sharon Lockhart passou quatro anos na pequena localidade de Pine Flat, na Califórnia. Foi para lá com o objectivo de descansar e desenvolver outros projectos artísticos, mas acabou por decidir transformar em objecto artístico as crianças e sua forma de vida nessa comunidade rural quando se apercebeu da relação de confiança que foi construindo com elas. E assim concebeu o Pine Flat Portrait Studio, instalado dentro de um celeiro com muita luz natural. Para além do suporte fotográfico (19 imagens) escolheu a película cinematográfica (doze filmes de 16 mm) para a construção de planos longos e composições quase estáticas para demonstrar que os tempos da fotografia e os do cinema podem ter relações muito subtis. E até trocadas, contando narrativas pela fotografia e retratando pelo filme. Um regresso aos tempos da infância.


Sharon Lockhart - Pine Flat
Festival Temps D`Images
Museu do Chiado, Lisboa
De ter. a dom., das 10h00 às 18h00
Até 7 de Janeiro

04 outubro, 2006

Recorde para Brassaï

Brassaï, Graffiti I, 1968

A composição de 23 fotografias Graffiti I (1968), de Brassaï, foi vendida ontem por 200 mil euros num leilão em Paris, valor que estabelece um novo recorde para imagens do artista. O leilão, que tem hoje a segunda e última sessão, levou à praça 600 obras, das quais 550 são fotografias e as restantes são esculturas e desenhos. Os 365 lotes leiloados ontem totalizaram 1,8 milhões de euros.
Nascido Gyula Halasz, na localidade húngara de Brasso, Brassaï (1899 - 1984) é um dos fotógrafos que ajudou a construir a imagem de Paris a preto e branco, romântica, mística e cheia de glamour.

When you meet the man you see at once that he is equipped with no ordinary eyes
Henry Miller sobre Brassaï

Da arte

Joel-Peter Witkin, Interrupted Reading, 1999

A única responsabilidade de um artista é fazer arte. E o seu trabalho, bem desempenhado, inclui comover-nos, assustar-nos, divertir-nos e - isto é essencial - ofender-nos.

Rui Tavares, PÚBLICO, 30.09.2006

03 outubro, 2006

segundo

Retrato de Fernando Pessoa, 1898

No final do primeiro, o sentimento que ficou na sala era “venha o segundo”. Ultrapassados medos e incertezas que acompanham todas as iniciativas pioneiras, a Potássio 4 aventura-se agora no segundo leilão exclusivamente dedicado à fotografia em Portugal. A venda está marcada para o dia 9 de Novembro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Esta sessão terá mais 100 lotes do que a anterior e inclui pela primeira vez fotografia contemporânea. O catálogo já está online e pode ser descarregado gratuitamente aqui. Fica prometido para os próximos dias um post sobre os principais destaques.

02 outubro, 2006

As compras de Avedon

Pierre-Louis Pierson, Scherzo di Follia, 1863-66

Richard Avedon (1923-2004) era fotógrafo. E coleccionador de fotografia. Dois anos depois da sua morte, a Avedon Foundation decidiu vender o espólio que inclui imagens de Diane Arbus, Peter Hujar, Irving Penn, August Sander, Henri Cartier-Bresson e vários fotógrafos do século XIX, como Nadar e Pierre-Louis Pierson. Através do conjunto de imagens que Avedon foi juntando ao longo da vida é possível ficar a conhecer melhor o grupo de amigos fotógrafos que o rodeavam e as fontes de inspiração para o estilo de fotografia que mais cultivou - o retrato. Na colecção, há duas peças que merecem destaque. Uma é o portfolio de Diane Arbus "A Box of Ten Photographs" (1970), do qual foram feitas 50 reproduções. Avedon, amigo de Arbus, foi o primeiro a comprar a obra. A fotógrafa riscou a palavra "ten" e escreveu "eleven"com uma nota a dizer "especially for RA". A outra é o conjunto de 18 fotografias da Condessa de Castiglione, da autoria de Pierre-Louis Pierson, que Avedon comprou pouco tempo antes de morrer. Esta série de instantâneos de Pierson é considerada a mais importante na posse de privados e inclui o célebre retrato da condessa "Scherzo di Follia, 1863-66". Fotografias seleccionadas da colecção de Avedon estiveram expostas na Pace/MacGill Gallery, em Nova Iorque e vão ser mostradas, a partir de 5 de Outubro, na Fraenkel Gallery, em São Francisco. A par destas exposições foi editado o catálogo "Eye of the Beholder: Photographs From the Collection Of Richard Avedon" (Fraenkel Gallery) que reúne em cinco booklets os títulos "Diane Arbus", "Peter Hujar", "Irving Penn", "The Countess de Castiglione" e "Etcetera", com imagens de fotógrafos do século XIX e XX.

24 setembro, 2006

*Três perguntas a...


Nelson d`Aires (com Pedro Guimarães, Luís Olival e Ruca), Transmutação, 2005


Nelson d`Aires. Fotógrafo de Vila do Conde, vencedor do concurso Novos Talentos da FNAC. Mostra o projecto Contra-Fogo na loja do Chiado, em Lisboa.

¿Por que é que fotografas?
Não decidi começar a fotografar. A fotografia chegou a mim desconhecida e aos poucos começou a conquistar a minha solidão. Virou amor um dia. Todo o amor acolhe uma relação. Mudei a minha vida, recomecei do zero como se não houvesse ninguém que me impedisse de morrer mais cedo, nem mesmo este amor. Aí escolhi e não decidi. Faço escolhas porque não vivo de certezas.

¿O que é que tentas transmitir com as imagens de Contra-Fogo?
Uma história, uma consciência para além do facto. Tentei criar imagens destituídas da linguagem limpa e formal que é visível no dia-a-dia dos jornais para que as pessoas já habituadas, e por isso quase desinteressadas, pudessem mais uma vez parar e reflectir sobre este assunto que tanto afecta em geral o nosso país e muito em concreto as pessoas que vivem no meio das áreas devastadas pelos fogos.

¿O que é que fotografarias hoje?
Tenho 31 anos, estou a recomeçar do zero uma nova vida com a fotografia. Quero aproveitar esta força para fazer trabalhos que me possam pedir total disponibilidade. Sinto que não tenho o tempo que muitos dos fotógrafos têm ao começar a trabalhar aos 20 anos. Tenho ainda bastante para aprender, preciso de trabalhar muito para, no mínimo, daqui a dez anos poder sentir estabilidade e um maior acesso a trabalhos. Neste momento gostava de receber convites/propostas para fazer trabalhos com jornalistas freelancers, revistas, instituições ou associações. Acredito na fotografia como mais uma ferramenta com poder para melhorar o nosso entendimento para com o mundo em que vivemos. Durante os próximos tempos apetece-me fazer trabalhos em Portugal. Primeiro Portugal, depois o resto do mundo se assim se proporcionar. Interessam-me sobretudo histórias de vidas de pessoas. Histórias que possam servir de ajuda, conhecimento, exemplo e esperança para outras pessoas. Se neste momento tivesse os apoios mínimos, gostaria de iniciar um trabalho sobre crianças que vivem e lutam todos os dias contra doenças raras e sem cura. Documentar e mostrar como é a vida dessas famílias de acordo com as perguntas delas e as minhas também. De alguma forma, contribuir assim para uma maior divulgação de informação e de exemplos de luta e de vida. Gostaria também de poder fotografar e fazer um trabalho sobre as crianças órfãs existentes em Portugal: saber quantas são e quem são. Procurar quem quer adoptar e não consegue e porquê. Conversar e partilhar experiências de famílias que já adoptaram. Um trabalho que pudesse dar a conhecer as histórias de quem é órfão e quem sabe no fim haver pelo menos uma criança que fosse descoberta e adoptada devido a esse trabalho. Eu sei que estes temas já foram abordados por jornalistas. Acho porém que devem ser novamente abordados de uma forma mais extensa no tempo e ter a perfeita noção de que é com mais tempo que os resultados poderão surgir.


Nelson d`Aires (com Pedro Guimarães, Luís Olival e Ruca), Transmutação, 2005

19 setembro, 2006

Do tempo

Craigie Horsfield

Gosto da cor.
E da ausência dela.
Da luz, do brilho.
E da ausência dele.
Gosto da quase penumbra.
Do quase ofuscamento.
Gosto da representação da natureza. Morta.
Da natureza morta, quase viva.
Gosto da composição.
Do arranjo meticuloso.
A imagem sempre a pedir texto sem precisar dele.
Um poema. Que fica escrito só na nossa cabeça.
Gosto das expressões. Despidas. Entregando-se.
Gosto da cumplicidade com a tinta.
E com a ponta do pincel.
Gosto do suporte onde habitam.
Do papel em que ficaram impressas.
Da impressão com que fico.
Gosto da moldura de abraço único.
Pedaço de madeira que se abre para revelar.
Gosto dessa sugestão de um tempo impossível de determinar.
É disso que falam as fotografias de Craigie Horsfield.

Craigie Horsfield - Relation
Fundação Calouste Gulbenkian - Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão.
Até 24 de Setembro.

13 setembro, 2006

Férias

Georges Hoyningen-Huene, Divers, 1930

O Arte Photographica está de férias até final de Setembro. Os posts aparecerão agora ao sabor da preguiça.

Para lá da vista

Evgen Bavcar

Nas Fronteiras Perdidas da última edição da revista Pública, José Eduardo Agualusa escreve sobre o deslumbramento que lhe transmitem as fotografias do escocês Albert Watson, do esloveno Evgen Bavcar e do angolano Fernando Davaidade. A cegueira parcial (Watson) ou total (Bavcar, Davaidade) de que sofrem não é obstáculo para concretizarem imagens carregadas de sentido. Muito pelo contrário:

Ao aceitar a possibilidade de que é possível aprender a ver com um cego (ao colocar uma câmara fotográfica nas mãos de um cego) estamos a reconhecer que vemos mal, ou melhor, que há outras formas de ver. Que é como quem diz: há mais para ver. Estamos, pois, a abrir janelas para um universo que nos surge agora infinitamente mais rico e complexo do que supúnhamos antes.

Albert Watson

11 setembro, 2006

*Três perguntas a...


Cristophe Nivaggioli, retrato de Marta Sicurella


Marta Sicurella. Fotógrafa italiana que tem desenvolvido o seu trabalho em Portugal. Venceu o Prémio Pedro Miguel Frade do Centro Português de Fotografia (CPF) em 2004. Actualmente expõe na Cadeia da Relação, no Porto, o trabalho Vesúvio.


Por que é que fotografas?
Fotografo para me exprimir. Não tento captar instantes ou guardar lembranças, mas sim pôr as coisas cá fora, criar beleza e desenhar percursos com os quais me identifico.

Porquê captar o acto de ver turístico?
O trabalho apresentado no CPF está intimamente ligado a um sítio (o Vesúvio) e ao dia em que lá estive. No fim de um percurso pedestre, existe um miradouro do qual é possível ver, muito ao longe, Pompeia, Herculano e o mar. Uma atmosfera estranha pairava nesse sítio, e o que despertou a minha curiosidade foi o facto de todos os turistas andarem a procura de Pompeia (de facto, mais imaginável do que visível), fotografarem a vista, mas, sobretudo, tentarem perceber o percurso destruidor da lava. Todos estavam a refazer mentalmente séculos de história, livros, textos, imagens, lembranças e toda a "bagagem cultural" relativa ao sítio e ao acontecimento que mais o marcou, numa confrontação, penso que inconsciente, entre o poder da natureza e a pequenez humana, pressentindo a presença simultânea da vida e da morte.

Que projectos te ocupam agora?
Preocupa-me muito definir uma estrutura de trabalho - passar da simples expressão à construção de conceitos. Quero dar ao meu trabalho um sentido mais envolvido, engagé como dizem os franceses, e acredito que o cerne deste envolvimento possa ser a ironia. Neste momento estou a desenvolver um novo trabalho de retrato e tenho uma exposição marcada para Junho 2007.

Marta Sicurella, da série "Vesúvio"

06 setembro, 2006

Lee

Lee Miller, The Bürgermeister`s daughter, Town Hall, Leipzig, 1945 (Copyright: © Lee Miller Archives, England, All rights reserved)

Lee Miller (Poughkeepsie, 1907 – Sussex, 1977) começou por posar para fotógrafos (Steichen, Hoyningen-Huene, Genthe) em Nova Iorque. Fartou-se da vida de modelo e passou-se para o outro lado do Atlântico (Paris, 1929) e da objectiva, pela mão de Man Ray, de quem foi assistente, amante e musa. O Surrealismo estava lá, claro. E Miller começou por aí, construindo imagens à procura do subconsciente, do sonho e do delírio. Montou um estúdio de fotografia na capital francesa, dedicou-se ao retrato e à fotografia de moda. De volta a Nova Iorque (1932), tentou a mesma sorte. O negócio corria bem até que surgiu Aziz Eloui Bey, um abastado egípcio com quem veio a casar. Fecha a porta do estúdio e muda-se para o Cairo. No Egipto apaixona-se pelo deserto, fotografa-o. Em 1937, o Surrealismo veio ter consigo outra vez. Tinha um rosto, chamava-se Roland Penrose, artista interessado nas profundezas do espírito humano, aquele que viria a ser o segundo marido de Lee. Pouco antes das armas se começarem a fazer ouvir na II Guerra Mundial, o casal muda-se para Londres. Aí Lee Miller aceita um convite da Vogue para trabalhar como staff photographer. A um ano do fim do conflito, a revista manda-a para a frente de combate. Lee forma equipa com o fotógrafo da Life David E. Scherman. Torna-se numa das poucas mulheres a registar a Guerra na Europa. 20 dias depois do Dia D, desembarca na Normandia. Fotografa o cerco a St. Malo, a Libertação de Paris, os combates no Luxemburgo e na Alsácia, o encontro entre russos e americanos em Torgau e a libertação dos campos de concentração de Buchenwald e Dachau. Em Munique, regista as casas de Hitler e Eva Braun. Numa atitude que mostra bem o seu espírito desenvolto e provocatório, pede a Scherman que a fotografe a refrescar-se na banheira do ditador alemão. Com a Alemanha capitulada, parte mais para leste no rasto dos farrapos do nazismo, do horror que ficou. De regresso a Londres, trabalha mais dois anos para a Vogue fazendo retratos de celebridades e moda. Depois do casamento com Penrose (1947) dedica-se sobretudo a retratar artistas. A Farley Farm House, casa do casal em Sussex, torna-se um local de visita obrigatória para a vanguarda artística que passava por Inglaterra. Morre aos 70 anos vítima de um cancro. Tanto ela como o marido pouco fizeram para promover o seu trabalho como fotógrafa. No início dos anos 80, o filho de ambos, Antony, começa a estudar, conservar e promover as imagens da mãe.
As fotografias de Lee Miller podem ser vistas actualmente em duas exposições, em Espanha (Bilbao, no Bilbao Bizkaia Kutxa) e na Alemanha (Wolfsburgo, no Kunstmuseum Wolfsburg).


David E. Scherman, Lee Miller in Hitler`s bath, Munique, 1945 (Copyright: © Lee Miller Archives, England, All rights reserved)


Lee Miller y el surrealismo
Até 5 de Outubro
Bilbao Bizkaia Kutxa
Gran Vía, 30 48009 Bilbao (Bizkaia)
Tel.: 944017000
Fax: 944 017 800

Lee Miller: Photographs 1930 - 1970
Até 21 de Janeiro de 2007
Kunstmuseum Wolfsburg
Hollerplatz 1, D 38440 Wolfsburg
Tel.: 490536126690
Fax: 4905361 266966
E-mail: info@kunstmuseum-wolfsburg.de

05 setembro, 2006

70 anos, 09h30

Robert Capa, A Morte de um Miliciano, 1936


Há muitas dúvidas, mas também há algumas certezas. Uma delas é a de que a Morte de um Miliciano foi tirada por Robert Capa por volta das nove e meia da manhã, faz hoje 70 anos. A sombra projectada na terra foi o ponto de partida para a investigação de Patrício Hidalgo, um militar apaixonado pela história da Guerra Civil espanhola. Para além da hora, os investigadores chegaram a acordo sobre o local onde a fotografia terá sido captada: Cerro de la Coja, localidade andaluza de Cerro Muriano. Sobre a identidade do miliciano e a genuidade da sua morte continua a polémica. O certo é que com esta imagem, captada no dia 5 de Setembro de 1936, Capa deu início a uma carreira que ficará como uma das mais brilhantes do fotojornalismo de guerra.

Robert Capa

04 setembro, 2006

Mostrar as feridas

Joel Meyerowitz, de Aftermath: The World Trade Center Archive

No dia 5 de Setembro de 2001, Joel Meyerowitz fotografou as torres gémeas pela última vez. Passou muitos dias a fotografá-las para um projecto pessoal antes dos atentados, mas quando o pior aconteceu não estava sequer em Nova Iorque. Três dias depois do 11 de Setembro, meteu uma máquina de grande formato na alcofa e foi para a Zona Zero. Quando chegou ao perímetro de segurança recebeu a primeira nega: “Não pode passar!”. Era um paradoxo. Um dos acontecimentos mais visto de sempre já não podia ser mostrado. Muito menos sem um filtro oficial. Meyerowitz não desistiu. Queria fazer um arquivo de imagens do local para que gerações futuras ficassem a saber “como Nova Iorque lidou com a sua maior tragédia”. Inspirou-se no mega projecto dos anos 30 Farm Security Administration, no qual participaram dezenas de fotógrafos, entre os quais Walker Evans. Nessa altura, o objectivo era documentar as agruras da América da Depressão. Meyerowitz bateu a várias portas à procura de apoios e autorizações e nenhuma se abriu. Até que, por intermédio de um amigo, em finais de Setembro, conseguiu a milagrosa licença para entrar com a sua pouco discreta máquina na Zona Zero. Mais uma vez não conseguiu fazer o que queria. Havia sempre um polícia ou um bombeiro a exigir que se fosse embora. Dois meses depois, arranjou uma licença especial que o tornava “fotógrafo do presidente da câmara” de Nova Iorque, à altura Rudolph Giuliani. O certo é que, o mayor da cidade ferida nem sabia que tinha um fotógrafo oficial na Zona Zero. Não fosse a boa vontade de um grupo de polícias, Meyerowitz nunca teria conseguido acompanhar os trabalhos de transformação do local durante oito meses, até Maio de 2002. Durante esse período, registou 8000 imagens, das quais só conseguiu classificar 5000. Parte desse trabalho está impresso em Aftermath:World Trade Center Archive.

Joel Meyerowitz assina também os textos, feitos a partir de centenas de testemunhos de trabalhadores anónimos que deram o primeiro passo na transformação da Zona Zero. O fotógrafo, de 68 anos, é autor da obra Bystander: A History of Street Photographyby, em parceria com Colin Westerbeck.
Para ler uma entrevista a Joel Meyerowitz a propósito do lançamento de Aftermath: World Trade Center Archive clique aqui.

I don’t think it was just important, I thought it was essential. I wanted people to experience the site viscerally, to see for themselves what they couldn’t experience in actuality .You can’t go back in time but you can explore the past through photography

Joel Meyerowitz, de Aftermath: The World Trade Center Archive

Aftermath: The World Trade Center Archive
Fotografias e textos de Joel Meyerowitz
Phaidon Press, 304 páginas

02 setembro, 2006

Para Perpignan


Rena Effendi, Bacu, Azerbaijão

Começa este fim-de-semana o Visa Pour l´Image de Perpignan, o festival que celebra o fotojornalismo. Inspirados no Grand Prix du Reportage que o jornal Paris-Match atribuía em Paris de dois em dois anos, alguns dirigentes locais quiseram fundar um galardão fora da capital que servisse para pensar, repensar e discutir o papel da imagem na imprensa. Da sintonia entre várias entidades locais, o grupo Filipacchi, o jornal Paris-Match e a revista Photo nasceu, em 1989, o Festival International do Grand Reportage Photo à Perpignan, hoje Visa Pour l´Image de Perpignan. Este ano cumpre-se a 18ª edição que apresenta mais de 30 exposições de alguns dos melhores fotojornalistas da actualidade e do passado. Nas Soirees (entre os dias 4 e 9, às 21h45, no Campo Santo), haverá projecções vídeo de várias reportagens fotográficas nos mais variados pontos do globo. O principal colóquio (agendado para os dias 7 e 8, entre as 15h00 e as 17h30, no Palais des Congrès), moderado pelo fotojornalista e escritor Patrick Bard, abordará o tema Photojournalisme: quand le sujet devient objet.
O abalo provocado com o suporte digital e as mudanças operadas na maneira de fazer e distribuir imagens são um dos eixos do festival. No texto de abertura, Guy Peron, presidente da Associação Visa Pour l´Image, lança a discussão: “a profissão de fotojornalista está ameaçada? Pode vir a desaparecer?”. Jean François Leroy, director-geral da edição deste ano, questiona a hierarquia das notícias que se pratica nos principais meios de comunicação mundiais.

Algumas exposições em destaque:
Samuel Aranda (Agence France Presse): Les Traversées de l'enfer. Sobre a deslocação humana oriunda da África subsariana em direcção às Canárias.
Contact Press Images: Trente ans de Contact(s). Celebração dos 30 anos da agência fundada em 1976 pelos fotógrafos Robert Pledge e David Burnett. Passaram pela Contact nomes como Alexandra Avakian, David Burnett, Gilles Caron, Frank Fournier, Lori Grinker, Kenneth Jarecke, Yunghi Kim, Annie Leibovitz, Li Zhensheng, Don McCullin, Dilip Mehta, Alon Reininger.
Rena Effendi (Photographer.ru): L'Azerbaïdjan en quête d'identité. Retrato de um país em transição, 15 anos depois da independência.
Henri Huet (Associated Press): Rétrospective. Sobre o trabalho de um fotógrafo pouco conhecido que captou, segundo a organização, as melhores imagens da guerra do Vietname.
Reuters: Covering the quake. Sobre o violento sismo que abalou parte da Índia e do Paquistão em 2005 provocando cerca de 75 mil mortos e milhares de deslocados. 16 fotógrafos de 13 nacionalidades deram a conhecer ao mundo, durante seis meses, os contornos desta tragédia.
Alvaro Ybarra Zavala (Agência Vu): Les enfants de la douleur. Sobre as primeiras vítimas dos conflitos no mundo: as crianças. Seguiu o sofrimento dos mais novos nas guerras do Sudão, Colômbia, Tchetchénia, Geórgia e Uganda, entre outros locais. Para lá da violência provocada pelos tiros das armas, Zavala quis retratar também a violência do trabalho escravo (Bolívia) e a violência da doença (República Centro-Africana). Este trabalho deu origem ao livro The Childrem of Sorrow.
Imprensa: 40 jornais franceses e internacionais mostram as suas melhores reportagens do ano na corrida para o Visa d`or 2006.
World Press Photo: referência mundial das exposições de fotojornalismo. Perpignan é o seu lugar natural.

"(...) nous continuons à penser que les personnes compétentes, capable de nous donner une information visuelle juste, sont indispensable, qu'elles s'imposent.
Nous serons donc toujours à leur côté."

Guy Peron, presidente da Association Visa pour l’Image - Perpignan

"On s'en fout ! Nous voulons savoir ce que mange Zidane, ce que pense Figo, si Beckham va bien, si Ronaldo dort bien... Elle est où, la hiérarchie de l'info? Nous avons du souci à nous faire ! Le photojournalisme ne va pas aussi mal que certains aiment le dire.
L'information - elle - a un peu mal au foot. Carton rouge!"
Jean-François Leroy, director-geral do 18º Festival International du Photojournalisme, Visa pour l`Image


Alvaro Ybarra Zavala, Bolívia

Association Visa pour l'Image - Perpignan
Entre os dias 2 e 17 de Setembro
Hôtel Pams, 18 rue Emile Zola, 66000 Perpignan
Tel: 33 4 68 62 38 00
fax : 33 4 68 62 38 01
e-mail: contact@visapourlimage.com

 
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