31 outubro, 2008

Helmut Newton

Domestic nude, 1993
© Helmut Newton


Helmut Newton fotografava assim

Inês Nadais
(P2
, Público, 31.10.2008)

Nas imagens de Helmut Newton (Berlim, 1920-Los Angeles, 2004), as mulheres comem sexo ao pequeno-almoço: não há espaço para mais nada a não ser para esse mínimo denominador comum da condição humana, como demonstram as fotografias desde ontem expostas na galeria La Fábrica, em Madrid. Ele não mostrava as mulheres como elas eram: mostrava as mulheres como elas iam ser.

Há um extraordinário sentido de futuro nas 18 fotografias agora reunidas em Madrid (11 imagens da série Special Collection, quatro do portfólio Cyberwomen, e ainda Parlour Games, Domestic Nudes e Teacher and Slave): Helmut Newton não era um fotógrafo, era um visionário, e isso faz com que seja possível olhar para estas imagens feitas na década de 90 e ver o futuro, mais do que o passado. Cibermulheres, amazonas domésticas, raparigas com causa (e que dão o corpo por ela): com ele, elas passaram de objectos sexuais a sujeitos sexuais. É essa revolução na história da fotografia (e, em geral, na história da representação da mulher) que a galeria La Fábrica pretende sublinhar nesta retrospectiva (a galeria chama-lhe, em subtítulo, qualquer coisa como Visionando La Mujer del Nuevo Milenio) que fica até ao fim de Novembro.

Filho de uma norte-americana e de um judeu que era fabricante de botões, Helmut Newton nasceu em Berlim, de onde fugiu em 1938, três semanas depois da Noite de Cristal (onda de violência dirigida pelos nazis contra os judeus, na Alemanha e na Áustria). Foi em Singapura, no final desse ano, que se tornou fotógrafo, mas só a partir de 1961 (durante a Segunda Guerra Mundial interrompeu a carreira para conduzir camiões no Exército australiano), ano em que se fixou em Paris, é que definiu mais objectivamente aquilo que lhe interessava e se impôs como a testemunha de um certo mundo (um mundo que ele transformou em iconografia): "Evitei tanto quanto possível fotografar em estúdio. Ao fim e ao cabo, uma mulher não passa a vida sentada ou de pé contra um papel de parede. Embora isso não facilite o meu trabalho, prefiro sair à rua com a câmara, enfiar-me em lugares públicos e privados que geralmente só as pessoas ricas frequentam. Foram sempre esses lugares, normalmente inacessíveis aos fotógrafos, que mais me estimularam."

Os trabalhos que fez para revistas como a Vogue, a Elle e a Marie Claire converteram-no num dos mais célebres fotógrafos de moda (ao ponto de não ser possível fazer a história da moda na segunda metade do século XX sem passar por ele). Não podia ter havido um destino mais surpreendente do que esse para um homem que não tinha uma política de gosto: 'Odeio o bom gosto. É o pior que pode acontecer a um artista.'


Helmut Newton
La Fábrica Galería
Verónica, 13, Madrid
Até 29 de Novembro

Benoit Aquin

Untitled 08, Genghis Khan Braving the Storm Series: The Chinese "Dust Bowl"
Xilinhot, Mongólia, China
© Benoit Aquin

O fotógrafo canadiano Benoit Aquin é o grande vencedor do Prix Pictet 2008, entregue ontem à noite em Paris pelo Prémio Nobel da Paz e antigo secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan. A série reconhecida chama-se The Chinese Dust Bowl e aborda a falta de água e a desertificação na China. O Prix Pictet é o único galardão mundial de fotografia centrado na sustentabilidade. A água foi o tema escolhido para a edição inaugural. A bolsa atribuída é de 50 mil libras (cerca de 60 mil euros).
Na China, Benoit Aquin, 45 anos, registou a maior conversão de terra produtiva em terra árida. Trezentos milhões de pessoas são afectadas pelas tempestades de pó na China provocadas pelos terrenos secos que se estendem por quilómetros. A série vencedora retrata os escassos recursos de água, a desertificação e os refugiados ambientais.
Mais de 200 fotógrafos, de 43 países, foram nomeados nesta primeira edição do Prix Pictet, no qual Jorge Molder, fotógrafo e director do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, participou como júri. Dezoito dos melhores fotógrafos mundiais foram escolhidos para a fase final.
O Prix Pictet, patrocionado pelo banco suíço Pictet & Cie e pelo jornal Financial Times, publicou recentemente o álbum L’eau (TeNeues), uma obra que reúne as melhores fotografias dos finalistas.

Para ver mais fotografias de Benoit Aquin clique aqui

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>> Prix Pictet

30 outubro, 2008

4-3=1

An American Index of the Hidden and Unfamiliar
© Taryn Simon

O vencedor deste ano do Deutsche Börse Photography Prize 2009 vai ser um destes quatro nomes: Paul Graham (1956, Ing.), nomeado pelo livro A Shimmer of Possibility (steidlMACK, 2007); Emily Jacir (1970, Pal.), nomeada pela instalação Material for a Film, apresentada Bienal de Veneza 2007; Tod Papageorge (1940, EUA), nomeado pela exposição Passing Through Eden - Photographs of Central Park, apresentada na Michael Hoppen Gallery, em Londres; Taryn Simon (1975, EUA), nomeada pela exposição An American Index of the Hidden and Unfamiliar, na Photographers' Gallery, em Londres.

Passing Through Eden - Photographs of Central Park
© Tod Papageorge

29 outubro, 2008

a Oeste, nada de novo 2

Stern portfolio
© Steve Klein

Primeiro Nick Knight, agora Steve Klein. Voltou a polémica sobre as fotografias da não menos polémica campanha Portugal Europe’s West Coast. Já corre um abaixo-assinado online dirigido ao primeiro-ministro a protestar contra a possível escolha do fotógrafo norte-americano que a troco de 1 milhão de euros (!) produzirá a segunda vaga de imagens (6 ao que consta) com o olímpico objectivo de promover Portugal "lá fora".
Klein é um fotógrafo multifacetado com trabalhos que vão desde a performance fotográfica a campanhas publicitárias das mais cotadas marcas do mercado. Não são raras as vezes que estrelas como Madonna ou Brad Pitt entram na sua objectiva.
O contrato estará a ser negociado por um destes organismos ou pelos três ao mesmo tempo: Ministério da Economia e da Inovação; Turismo de Portugal; Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal.

A petição (que pode ser lida aqui) é uma iniciativa dos "Fotógrafos profissionais de Portugal" e pede a José Sócrates para "salvaguardar, apoiar e promover o trabalho dos profissionais de fotografia portugueses, de forma a proteger a própria imagem do nosso País".

O site de Steve Klein está aqui

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>> a Oeste, nada de novo

Jesus

Jesus is my Homeboy
© David LaChapelle

Galeria londrina Robilant + Voena mostra a peculiar crítica da sociedade de consumo feita por David LaChapelle através de um conjunto de fotografias que tem Jesus Cristo como protagonista. A série foi originalmente publicada em 2003 na revista inglesa I-D.

LaChapelle explica o trabalho Jesus is my Homeboy aqui

Catografias

© Susana Neves

Faltam poucos dias para o fim da exposição de Susana Neves na Galeria Diferença, em Lisboa. National Catographic Magazine usa de forma sensual a percepção e a escala rumo a universos visuais insuspeitos ou descurados. Pontos de partida: pêlos de gato e pétalas. Pontos de chegada: desconhecidos.

As 'gatografias', expostas na Galeria Diferença, não cumprem uma função meramente documental, nem retratam seres inventados, transicionais, a caminho de um Bestiário surreal (...). São mais desertos de gatos, ou cordilheiras e florestas, descobertos num gato sem mestre, nem cenário outro que a ausência de cenário.
A artista quis olhar para os gatos como se fossem flores. E para as flores como se tivessem todas as qualidades felinas clássicas, o mistério, a leveza, a subtil densidade, a capacidade de voo e outras não nomeáveis, a não ser por recurso à arte aristocrática da poesia. Assim, o outro conjunto de imagens de 'National Catographic Magazine', as metamorfoses de uma pétala transformada em signo, em vez de provir de um
herbarium inventado (...) explora os pontos de contacto entre duas realidades exógenas.

Hikaru Katashi, Para Acabar de Vez Com a Fotografia de Gatos

National Catographic Magazine, de Susana Neves
Galeria Diferença
R. S. Filipe Néri, 42 cave, Lisboa
Até 8 de Novembro

28 outubro, 2008

Jonathan Jones

© Dryden Goodwin/Stephen Friedman Gallery

Andava a passear pelo site do Guardian e encontrei o blogue de Jonathan Jones. Fala sobre arte em geral e, de quando em vez, de fotografia.
Este post é sobre o horror nas fotografias de Alexander Gardner.
E este é sobre as fotografias desenhadas que Dryden Goodwin mostra na Photographers' Gallery, de Londres.


Detalhe de uma vista estereoscópica captada por Alexander Gardner em Richmond, Virginia
(Hulton Archive)

27 outubro, 2008

a América de Chris Morris

My America
© Christopher Morris

Durante os últimos anos, o fotojornalista americano Christopher Morris, que já esteve em Portugal para julgar o Prémio Visão/BES, fotografou exaustivamente os protagonistas da política interna dos EUA, em particular a Casa Branca e o seu principal inquilino. Parte desse trabalho, que mostra política sem mostrar caras de políticos, foi impresso há dois anos no livro My America. Agora que George W. Bush se prepara para sair de cena, a galeria londrina Host decidiu recuperar o olhar astuto de Morris sobre os últimos anos do reinado republicano em Washington. O Guardian foi à exposição e ouviu o fotógrafo para quem W. Bush "até é boa pessoa".

Chris Morris explica o seu trabalho aqui

26 outubro, 2008

viagem a Enschede

(© Kate Jackling/Mark Pattenden)

Era para ser uma "peregrinação de despedida" à última fábrica a produzir os cartuchos de fotografias Polaroid, mas a viagem de dois fotógrafos ingleses - Kate Jackling e Mark Pattenden - a Enschede, na Holanda, transformou-se em algo mais. A autorização sem restrições para registar a fábrica (desde que fosse em suporte Polaroid) substituiu a nostalgia pela força criativa. E o resultado desse percurso pelas entranhas do espaço de onde saíram os derradeiros quadrados brancos de fotografia instantânea vai ser transformado numa exposição e num livro. Esperamos para ver.
Enquanto não chega esse momento, já se pode espreitar para uma amostra desse passado aqui

(a viagem de Kate Jackling e Mark Pattenden a Enschende vem contada na edição de Outubro da Wallpaper que não disponibiliza online os artigos da edição impressa)

(© Kate Jackling/Mark Pattenden)

PHotoGalicia

Sem título, 2007
(
© Victoria Diehl)

O PHotoEspaña tem desde o ano passado uma versão redux - o PHotoGalicia. E, tal como no ano passado, há exposições e actividades nas principais cidades galegas, a saber Vigo, A Coruña, Ferrol, Ourense e Lugo. A fotografia histórica está representada pela grande retrospectiva de W. Eugene Smith e a colectiva Neorealismo: A nova imagem em Itália, 1932-1960. Do lado da fotografia contemporânea há o inquietante e engenhoso projecto do catalão Javier Vallhonrat, a galega Victoria Diehl e o italiano Gabriele Basilico.

Para conhecer o programa do PHotoGalicia clique aqui

25 outubro, 2008

nan

Nan Goldin
(© Cláudia Andrade/Público)

Nestes dias, Nan Goldin anda por Lisboa. Katheleen Gomes entrevistou-a para o Ípsilon.
O resultado dessa conversa está aqui

Não sei o que sinto por alguém até fotografar essa pessoa, e ver os diapositivos. Suponho que quando olho para o diapositivo não estou lá, envolvida com a pessoa, por isso torna-se mais objectivo. É aí que sei o que sinto pela pessoa.

Nan Goldin, Ípsilon, 24.10.2008

24 outubro, 2008

oui/non

(© Gérard Castello-Lopes)

O Museu Valencià de la Ilustració i de la Modernitat (MuVIM), em Valencia, Espanha, inaugurou ontem a exposição retrospetiva de Gerárd Castello-Lopes Oui/Non, já apresentada em 2004, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Gerárd (Vichy, 1925) começou a fotografar em 1956, já com 31 anos. Sempre em trânsito entre Paris e Lisboa, nunca teve a sua obra reconhecida durante os anos da ditadura de Salazar. Deixou de fotografar em 1965, e só no início dos anos 80 voltou a fazer fotografia.

22 outubro, 2008

Fernando


Fernando
© Sandra Rocha/KameraPhoto

[...]
Isabel põe um frango a descongelar de molho, em água.
Para o jantar.
O marido saiu às sete da manhã. Anda por fora o sábado
todo, para lá da Guarda, a hora e meia de distância. Esta semana
só almoçou um dia em casa.
Fernando Robalo, 46 anos, estende os braços à sua frente,
enlaça as mãos sobre o mármore branco da mesa de jantar.
Como é que se pede a um homem que conte a sua vida, depois
de um dia de trabalho? Como é que se pede a um homem
que conte a sua vida?

[...]

Kathleen Gomes, Fernando

Testemunhos — Trajectos de Qualificação
Vários autores
Centro de Congressos da Alfândega, Porto
Até 30 de Novembro

ponto marcado

Um Ponto Exacto para Ver
© Hugo Rodrigues Cunha


O projecto Um Ponto Exacto para Ver de Hugo Rodrigues Cunha venceu a 6ª edição do prémio Novos Talentos Fnac Fotografia ao qual concorreram 176 portfolios. O júri, constituído por Fátima Marques Pereira (professora universitária de teoria e história da fotografia), António Pedro Ferreira (fotojornalista do semanário Expresso), António Júlio Duarte (fotógrafo), Miguel von Hafe Pérez (crítico de arte e comissário de exposições) e pelo autor deste blogue, distinguiu ainda com menções especiais os trabalhos A&J, de José Carlos Duarte, e 10 Retratos, 10 Esculturas, de Alexandre Delmar.

A cerimónia de entrega de prémios e a inauguração da exposição do trabalho vencedor acontece no dia 20 de Novembro, na Fnac Almada. As exposições A&J e 10 Retratos, 10 Esculturas vão ser mostradas nas Galerias Fnac Alfragide, no dia 27 de Novembro, e Fnac Viseu, no dia 18 de Dezembro, respectivamente.

Os vecedores das edições anteriores foram Pedro Guimarães, Francisco Kessler, António Lucas Soares, Virgílio Ferreira, João Margalha, Nelson d’Aires e Inês d’Orey.

A declaração do júri sobre o projecto vencedor diz o seguinte:

Um Ponto Exacto Para Ver mostra-nos como a seriação cartográfica através da fotografia pode abandonar a sua condição primeira de documento utilitário e vago de carga simbólica para um objecto estético carregado de referentes que questiona e pensa a maneira como hoje nos relacionamos com uma ideia de espaço em sucessivas aproximações, em novas perspectivas, cada vez mais visível e disponível em todo o tipo de suportes digitais.

A linguagem de registo geotopográfico encontrou na fotografia um dos seus mais poderosos aliados. Ao servir-se dela como suporte não satisfez apenas uma necessidade de representação realística e descritiva - criou, por si, obras de relevância conceptual e poética únicas e forneceu massa criativa a uma grande diversidade de autores ao longo da história da imagem fotográfica. Hoje, representa um dos mais intensos programas de produção artística ligados à fotografia contemporânea.

O trabalho de Hugo Rodrigues Cunha é herdeiro dessa corrente que usa diferentes abordagens da espacialidade à procura de significados travestidos, ocultos, que tentam aproximar-se de uma organização do real, de uma certa ordem do olhar.

Partindo de um visão bidimensional de imagens satélite disponibilizadas pelo programa informático Google Earth, a partir da qual é possível ver boa parte da superfície terrestre, Um Ponto Exacto Para Ver convoca-nos para uma experiência ao mesmo tempo documental e contemplativa, onde, para além do exercício de encontrar as diferenças e as semelhanças num e noutro registo, ganham importância, numa ordem estética, as cargas histórica, social, política, económica e ecológica transportadas pela imagem fotográfica tridimensional. Este último modo de ver dá-nos o "conforto" da verticalidade em relação ao chão e, em muitos casos, a largueza em perspectiva. Mas é só uma liberdade aparente porque, ao mesmo tempo, está lá a visão cega em profundidade, minuciosa em localização e contexto, onde vemos o aguilhão do pionés que nos manieta e orienta o olhar, que nos sublinha a imobilidade fotográfica através de uma longitude e uma latitude.

É uma dualidade visualmente atraente que nos leva a seguir a configuração, recorte e organização do rio Tejo na margem lisboeta, muito perto da desembocadura no mar. À medida que o olhar segue do ponto exacto de onde se vê pela linha do horizonte para onde somos impelidos a ver revela-se uma margem ribeirinha que continua inacessível e em desalinho.

Para lá da emoção que nos provoca a diferença das escalas fornecida pela bidimensionalidade da imagem pública do Google Earth,
Um Ponto Exacto Para Ver incentiva-nos a rever as referências que guardamos de um espaço e a pôr em causa de forma crítica as imagens que temos dele.

/uma fotografia, um nome\

Movido a pés
© Orlando de Azevedo


O documental é um caso grave na significação fotográfica contemporânea. Até aos anos 50 era tudo fácil, arrastava-se com gosto a interpretação positivista: uma perspectiva que olha para fora, de reportagem, partidária mas colectiva. Perdera-se a reflexão sobre a não coincidência do olho humano com a câmara que punha em causa o naturalismo e passara-se a aceitar alegremente a verosimilhança da imagem.

A fenomenologia, dando predomínio no conhecer à consciência e, de certo modo, o uso vulgar da teoria psicológica do Gestalt, com o seu jogo de interpenetração de forma e fundo, abalaram a dualidade sujeito-objecto e trouxeram a primeiro plano o papel do sujeito. É um sujeito que revela o outro nas suas percepções, antagoniza o mundo e o que observa, expressando-o simbolicamente. O “eu” artista que se vai definindo é solitário, condensa em si a aprendizagem, mostra-se na obra. Passa-se da metonímia à metáfora. A Arte Pop é já um processo em desenvolvimento sobre a significação, anunciando o neo-documentalismo.

Torna-se então evidente que esta fotografia de Orlando de Azevedo não se expressa como um documento, o que a síntese interpretativa que é Movido a pés, bem explica. E, se a expressão do condutor nos apela ao expressionismo duro, o sentido da imagem é outro. Tudo aí, neste contemporâneo Robinson Crusoé se conjuga para o símbolo: a imitação eficaz da carrinha de transporte, (é um 2º carro, é uma empresa, há outro veículo em circulação), o farol protegido pelo plástico, as tábuas mal ajustadas de restos de armário de cozinha, as janelas de plástico transparente, o espelho reflector com a imponência devida, as rodas de refugo e, virado para nós, o firmamento das estrelas do glamour da moda. Sendo e não sendo materialmente uma carrinha de transporte, é uma ideia de veículo, como são aquelas associações primárias que nos dão o indeciso mas eficaz conhecimento do mundo. Esta imagem mostra-nos a incompatibilidade da ideia com a medida, a impossibilidade de ser reduzida ao seu conteúdo material. E isto é, no mínimo, uma das definições da arte.

Orlando Azevedo é um fotógrafo de coisas belas, paisagens poderosas, sensibilidades muitas, retratos do acontecer e do quase, quase ser. Entende que a haver estética, se trata afinal de um momento subjectivo da objectividade que é própria do estético que o objecto parece desencadear no fotógrafo. E assim as suas imagens são literatura, enrolam a sua dose de poesia.

Naturalmente não aceita que interpretem as suas imagens como metáforas. Mas eu vejo aqui a alegoria da criatividade, o que é decididamente bom nesta nossa época em que dominam o pessimismo cultural e o optimismo tecnológico. E por isso mesmo não é um momento decisivo nem essa recessão infantil, mais erótica do que estética onde se inscreve muita da arte contemporânea. Nada disto se resume a um acontecer, está mais do lado do ir sendo e é isso que sentimos. Fez capa de um livro de Eduardo Galeano e foi seleccionada na América Latina quando da comemoração dos 500 anos de domínio português. O que também é uma alegoria, doa ou não doa a nós, portugueses.

De forma irrazoável uma alegoria desperta-nos um sentimento de utopia. Este condutor que faz carretos e descansa no intervalo do percurso pedonal não criou uma utopia, porque a sua ideia se realiza. Mas suscita as muitas utopias que ainda nos ligam o cérebro e a mão e que são para nós, no deserto da vida, as pequenas glórias do quotidiano.

Maria do Carmo Serén

Orlando Azevedo, açoriano no Brasil, é escritor, fotógrafo, editor.
Criou a Bienal Internacional de Fotografia e o Museu de Fotografia Cidade de Curitiba.

21 outubro, 2008


entre aspas

Al Berto, 1996
© Luísa Ferreira

Quem está aí para morrer?
Quem está aí para a travessia dos vastos oceanos?

Resíduos de luas quebradas. O mar, é tão tarde sobre o mar. E na mesma morte somos a lua e o mar. O zinabre das sílabas que, a pouco e pouco, corrói o pensamento.

(A janela aberta, o copo de cerveja, a noite - sempre a noite ecoando passos, vozes, silêncios.
A mão, a tua mão quase líquida cercando o sexo. A língua na humidade doutra língua. O corpo celebrando a vida doutro corpo.)

Estremece o ar, a caneta, a tinta, os astros e o receio de quem parte sem dizer adeus.
Quem chegará depois de ti?
Quem nunca esteve aqui? - no resplendor do plâncton, por baixo da pele...

Quem regressou? - nesta imagem que aprisionou o firmamento do teu rosto, e com o tempo se desfaz...

Al Berto, Dispersos, Assírio & Alvim

InSight America

Youngstown, EUA, 2008
© Alex Webb

Contagem decrescente para as eleições americanas (4 de Novembro).
A Magnum arregaçou as mangas e meteu 14 fotógrafos na rua (salvo seja) a tentar responder a estas perguntas: Who are the people of America? What are we thinking? What makes us angry and frustrated? What gives us hope? Are some of us really all blue and some all red? Or are we mostly shades of purple?
O resultado está a ser mostrado em permanência na web através do projecto InSight America aqui

19 outubro, 2008

photo docs

Conversations In Vermont, 1969
© Robert Frank

Mais sugestões de "documentários fotográficos" na agenda do doclisboa:

Nacional 206
Catarina Alves Costa, 53’, Portugal, 2008
24 OUT. 18.00 - Londres (sala 2)
Fábrica de têxteis. Estrada Nacional 206, entre Guimarães e Famalicão, no Vale do Ave. À procura de testemunhos sobre os percursos escolares, encontramos o quotidiano e a rotina de uma fábrica que nunca pára, dia e noite, e dos que nela trabalham. O filme mostra uma empresa com oitenta anos, ainda nas mãos da terceira geração de familiares do Sr. Oliveira, o fundador. Com 1200 trabalhadores, exporta 80% da sua produção para a Alemanha, os EUA e o Japão produzindo tecido de grande qualidade para marcas como Armani e Hugo Boss. Dentro dos seus corredores e maquinaria, seguimos o quotidiano e rotina dos trabalhadores que nos falam da escola, e do seu percurso profissional e pessoal.
(Documentário que faz parte do projecto Testemunhos que inclui uma exposição colectiva de fotografia)

Standard Operating Procedure
Errol Morris,111´, EUA, 2008
22 OUT. 20.30 – Londres (sala 1) 20 OUT. 21.00 – Culturgest (grande auditório)
As fotografias tiradas por soldados na prisão de Abu Ghraib mudaram a imagem que a América tinha de si mesma. Mas um mistério fica por desvendar: serão estas a prova evidente do abuso sistemático dos militares americanos ou apenas documentam o comportamento aberrante de alguns soldados? Através do depoimento dos oficiais que tiraram as fotografias e daqueles que estavam nas fotografias, o documentário examina detalhadamente o contexto das imagens. O espectador arrisca-se a ficar perplexo: como é que actos abjectos de humilhação e de tortura (na maior parte dos casos sobre inocentes presos ao acaso) podem ser classificados pela jurisdição norte-americana como “Standard Operating Procedures” (Procedimentos de rotina)?

Conversations in Vermont
Robert Frank, 26´, EUA, 1969
23 OUT. 22.45 – Culturgest (pequeno auditório)
Considerado o primeiro filme autobiográfico de Robert Frank, reconhecido fotógrafo e cineasta suíço radicado nos Estados Unidos desde os anos 1950, Conversations in Vermont é citado pelo autor como uma obra “sobre o passado e o presente”, resgatada ao tempo em que casou com a sua mulher, Mary, e construída como “uma espécie de álbum de família”. No centro desta viagem pessoal e familiar está a relação de Frank, como pai, com os seus dois filhos, Pablo e Andrea, numa tentativa frágil e sincera de comunicar com eles a história de uma vida.

Les Années Déclic
Raymond Depardon, 65´, França, 1983
Retrato autobiográfico de Raymond Depardon onde o fotógrafo sobrepõe a voz ao seu rosto, recorrendo a uma série de fotografias suas captadas entre 1957 e 1977. Este documentário retrata o percurso do artista ao longo de vinte anos de fotos e recupera excertos de alguns dos seus filmes. No rosto de Depardon encontramos ainda o ponto de partida para uma reflexão sobre a imagem, já que o realizador não pode deixar de referir-se a si próprio sem deixar de referir os seus objectos de criação. Ambos estão ligados, pois são as imagens que permitem o fotógrafo interrogar o seu mundo e trajecto.

I'll be your Mirror
Nan Goldin e Edmund Coulthard, 50´, França/EUA, 1996
21 OUT. 21.00 - Londres (sala 2)
Em I’ll Be Your Mirror, Nan Goldin, símbolo vivo do meio artístico, evoca a sua vida extraordinária e um dos legados criativos mais exemplares na história da fotografia. O seu trabalho, conhecido por retratar a ascensão da classe média norte-americana e por ter captado o lado mais selvagem e livre da comunidade underground nova-iorquina durante os anos 1970, encontra neste filme um novo modo de olhar a sua carreira. Recorrendo a entrevistas com alguns dos seus amigos mais íntimos, gravações vídeo e fotografias da sua autoria, Goldin recorda o tempo de uma geração.

Let’s Get Lost
Bruce Weber, 120´, EUA, 1989
20 OUT. 23.30 – São Jorge (sala 3)
Quando Bruce Weber (o célebre fotógrafo de moda), conseguiu chegar perto do seu ídolo Chet Baker, um dos mais geniais trompetistas da história do jazz, a vida do músico era já um mundo em queda marcado pelo alcoolismo e pela dependência às drogas. Let’s Get Lost é uma viagem feita de contrastes entre duas épocas distintas no percurso do artista: dos auspícios da sua carreira nos anos 1950 à decadência dos seus últimos anos na década de 1980. Um filme que nos oferece imagens raras das suas primeiras actuações e juventude, entrevistas com amigos, familiares e amantes.

Profils Paysans: L’Approche; Le Quotidien; La Vie Moderne
Raymond Depardon, 90´, 85´, 88´, França, 2000
26 OUT. 11.30 – São Jorge (sala 1)
Trilogia sobre o mundo rural em França.

(sinopses dos filmes: doclisboa)

natureza

© Dora Nogueira


A [Kgaleria] inaugurou uma nova exposição, Trabalho de Campo, de Dora Nogueira, sobre as inconstâncias do espaço e das coisas que nele crescem ou que nele são implantadas.

Trabalho de Campo, de Dora Nogueira
[
Kgaleria]
de 4ª a sáb. das 15h00 às 20h00
Rua da Vinha (Bairro Alto) 43 A
Até 22 de Novembro

15 outubro, 2008

Jerónimo

Jerónimo Viana a bordo do "Portugal Novo", Testemunhos
© António Júlio Duarte



[...]
A noite é mais escura no mar, porque não é só o céu que está apagado. Há sempre terra à vista, nem que seja um fio de luzes. Por vezes parece que a perdemos mas ela limitou-se a mudar de flanco. O barco roda.
«Pronto. Querias a terra, já está do teu lado.»
É sempre de noite que o Portugal Novo e a sua tripulação deixam a doca de Leixões. Tem de ser de noite, para o polvo não fugir. As bóias sinalizam as zonas de boas largadas, onde estão os alcatruzes ou potes, que foram deixados uma semana, quinze dias ou um mês antes. Para dar tempo ao polvo de entrar. O que os homens fazem agora a estibordo, impermeáveis ao frio, é, na linguagem do mar, a alagem. A recolha dos potes, com o polvo lá dentro. Quando vem lá dentro. Para o fisgar de dia há outras manhas: gaiolas. E ainda há a rede para a faneca, o congro, a pescada.

[...]

Kathleen Gomes, Jerónimo

Nota: O catálogo Testemunhos vai ser lançado amanhã na livraria Byblos, em Lisboa, às 18h30.

Testemunhos — Trajectos de Qualificação
Vários autores
Centro de Congressos da Alfândega, Porto
Até 30 de Novembro

14 outubro, 2008

William Claxton, 1927-2008

Steve McQueen
William Claxton

Morreu William Claxton, o fotógrafo que imortalizou vários músicos de jazz, como Stan Getz, Duke Ellington, Charlie Parker, Thelonious Monk e Chet Baker, que ajudou a catapultar para a fama, em 1952.
Para além de fotógrafo de personalidades (captou Bob Dylan, Frank Sinatra, Steve McQueen...) Claxton, que tinha 80 anos, assinou muitas capas de discos e notabilizou-se também no mundo da moda. Em 1960, com a mulher Peggy Moffit a servir como modelo, fotografou as peças do controverso estilista Rudy Gernreich.
Entre os álbuns publicados destacam-se Jazz: William Claxton, Young Chet, Claxography, Steve McQueen e Jazzlife.
Costumava dizer que a fotografia era como “jazz para os olhos”.

O obituário do Los Angeles Times está aqui e o do New York Times aqui
Para ver o site oficial de William Claxton clique aqui

>>post relacionado:
>Chet

Chet Baker (Piano), Hollywood, 1954
William Claxton

da fotografia

(© Colecção particular)

É muito esclarecedora a resposta que o "abogado del navegante" do El Mundo deu a um leitor sobre várias questões jurídicas relacionadas com a fotografia. Embora seja para um ordenamento jurídico diferente do nosso vale a pena ler a pergunta...

Siempre tengo la duda y nunca me lo han aclarado del todo. Tengo varias páginas personales, con 30.000 visitas mensuales, y en ellas cuelgo fotos de actos sociales públicos, fiestas, toros, carnavales, etc. ¿Debo de tener algún cuidado en publicar dichas fotos en Internet?

...e a resposta.

13 outubro, 2008

crónica visual

Gosto de portas. Esta é no Centro Comercial do Campo Pequeno, em Lisboa.
© Miguel Madeira

Miguel Madeira, fotojornalista e editor de fotografia do Público, inaugurou no sábado uma crónica visual no P2 que terá periodicidade semanal. O conceito agrada-me muito. É atraente e difícil porque enquanto a crónica textual se constrói segundo regras e signos mais ou menos estáveis e estabelecidos, a crónica visual joga-se num campo de leitura escorregadio e muito mais subjectivo. As imagens são acompanhadas por um brevíssimo apontamento, ora de seca localização, ora de encantamento pessoal. Boa sorte.

São as chaves do Cupido. O copo estava há anos atrás de mim.
© Miguel Madeira

Outro Korda

Auto-retrato, Alberto Korda

Korda queria conhecer as mulheres mais bonitas de Cuba

Sérgio C. Andrade
(Público, P2, 13.10.2008)

Acabar de vez com a ideia de que Alberto Korda (Havana, 1928-Paris, 2001) foi o autor de uma só fotografia - a de Che Guevara, Guerrilheiro Heróico, que o tempo transformou num ícone da Revolução - ou que foi o fotógrafo oficial da revolução cubana. É esta a principal virtude da exposição Korda conhecido, desconhecido, na Fonoteca de Havana, e que tem registado um êxito sem precedentes junto do público da capital cubana.

"Só dez por cento da sua obra tem a ver com o tema da revolução", diz a sua filha, Diana Díaz (o pai chamava-se Alberto Díaz Gutiérrez, e corre que escolheu o apelido Korda por causa da sua parecença fonética com Kodak!). No próximo mês de Dezembro, a exposição de Korda vai ser mostrada em Madrid, na Casa da América, e é a pretexto disso que o jornal El País ouviu a filha do fotógrafo e também Cristina Vives, comissária da exposição em parceria com o jornalista Marck Sanders (os dois são igualmente autores do livro-catálogo homónimo já editado em Espanha).

"Korda não só foi uma testemunha de excepção dos anos épicos da revolução cubana, foi um artista incrivelmente moderno", diz Cristina Vives ao El País. "As fotografias de mulheres que ele fez no seu estúdio nos anos 50 são verdadeiramente revolucionárias. E esse trabalho de composição com modelos, ele iria mais tarde aplicá-lo aos líderes guerrilheiros."

A exposição, subdividida em cinco capítulos - Estúdios Korda, Os líderes, O povo, A mulher e O mar -, revela uma vertente marcante, e até agora desconhecida, da produção de Korda na década de 1950. Foram os anos em que ele decidiu virar-se para a fotografia de moda e montar um estúdio com o seu nome em Havana, "para poder conhecer as mulheres mais bonitas de Cuba", confidenciou o artista a Marck Sanders, na última entrevista que deu antes de morrer, de ataque cardíaco, em 2001, em Paris, onde se deslocara para acompanhar uma exposição individual.

Nas fotografias dessa época, Korda retratava os corpos e os perfis de modelos belas e exuberantes, como Norka ou Julia, que mais tarde viriam a tornar-se suas mulheres. Remonta a esse tempo "um espírito Estúdios Korda", que Cristina Vives reclama como sendo "arte de vanguarda".Foi no final dos anos 50 que o fotógrafo se envolveu com os ideais e com o movimento revolucionário - um dia, fotografou A menina com a boneca de palha e viu aí a metáfora de um povo explorado e empobrecido num país a precisar de mudança.

Guerrilheiros e modelos
Durante uma década, dedicou-se à causa da revolução, que divulgou e celebrou em fotografias que correram o mundo e se tornaram célebres, como a do Guerrilheiro Heróico ou a Entrada de Camilo Cienfuegos e Fidel Castro em Havana. "Mas ele não foi o fotógrafo oficial do regime, foi antes um electrão livre", reclama a sua filha Diana, explicando que foi a sua amizade com Fidel que lhe permitiu captar instantâneos que ninguém mais conseguiu. Isso é agora visível na exposição (e no livro), em fotos inéditas ou pouco conhecidas do líder da revolução a comer um gelado com Che Guevara, em pijama, ou então rodeado por um grupo de excitadas "rainhas da rádio de Nova Iorque".

Mas até as suas fotos mais conhecidas dos protagonistas da revolução "têm um ângulo distinto" e manifestam "o seu meticuloso trabalho de edição, que convertia as imagens originais em algo diferente", nota Cristina Vives, acrescentando que Korda "retratou os guerrilheiros como se eles fossem modelos".

Há uma justificação histórica para o facto de a obra "pré-revolucão" e exterior a esta dimensão mais política ser a menos conhecida de Korda. Em 1968, e como aconteceu à maioria dos negócios privados, o seu estúdio em Havana foi nacionalizado e as chapas que retratavam o movimento de Fidel (cerca de 50 mil) foram depositadas no Arquivo Histórico do Conselho de Estado. O restante trabalho desapareceu - houve, na altura, quem achasse as fotografias "pornográficas".

Na década seguinte, Korda virou-se para a fotografia submarina (fundou mesmo o Departamento Subaquático da Academia das Ciências) e chegou a ganhar prémios internacionais, em Itália e no Japão, com as suas fotografias, mas também estas viriam a desaparecer.

Parte delas foi agora recuperada por Cristina Vives e Marck Sanders em velhas revistas - como a Carteles, onde Korda fotografava as beldades do cinema, que eram comentadas pela pena do escritor Guillermo Cabrera Infante, sob o pseudónimo de G. Caín, conta o El País -, e em arquivos privados.


Korda numa sessão de moda

»vejamos»» [as sugestões dos leitores]

Josef Koudelka, Invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia, 1968
(
© Josef Koudelka/Magnum)

»»Pedro Mendes está em Nova Iorque e, para os que forem para o lado de lá do Atlântico, sugere uma visita à exposição Invasion 68 Prague, de Josef Koudelka. A mostra está aberta até dia 30 de Outubro na galeria da Aperture Foundation.

A crítica de Roberta Smith no New York Times está aqui
Mais informações sobre a exposição aqui

11 outubro, 2008

para a Golegã

Preparação do processo de albumina
(
© Luís Pavão)

A partir de segunda-feira decorre a Semana da Fotografia da Golegã promovida pelo Centro de Estudos em Fotografia da mesma localidade ribatejana. A inicitiva vai ser acolhida na Casa/Estúdio Carlos Relvas e estará focada nos processos fotográficos históricos que fogem aos materiais sensíveis de produção industrial e à fotografia digital.

O programa é o seguinte:

Dia 13
- Workshop e conferência sobre impressão em albumina orientados por Luís Pavão

Dia 14 - visita guiada por Luís Pavão à exposição Processos Históricos Alternativos – Uma Experiência Pedagógica.

Dias 15, 16 e 17 - Seminário e workshop sobre impressão em colódio húmido, orientados por Mark Oosterman e France Scully, historiadores e considerados os actuais mestres deste processo fotográfico.

Dia 18 - Conferência A Época de Carlos Relvas ou um Passeio pelo Álbum de Família, orientada por José Soudo. Dois workshops destinados a crianças dos 8 aos 12 anos. A Máquina Fotográfica Sem Lente dá o nome ao workshop da manhã promovido por Paula Lourenço. O objectivo é que cada criança construa a sua pinhole e se aproxime do suporte fotográfico. À tarde, Laura Guerreiro falará sobre A Fotografia Azul onde o processo de cianotipia estará em destaque.

As inscrições podem ser feitas aqui

10 outubro, 2008


entre aspas

Al Berto, 1996
© Luísa Ferreira

Mas não é nada disto que hoje te quero confiar, querido diário. Quero é contar-te o que aconteceu no outro dia. Esteve por aqui uma rapariga a fotografar-nos. Alinhámo-nos rapidamente. Aprumados, como se deve estar, e deixámos que ela - parece que se chama Luísa - nos tirasse o retrato.

Al Berto, Dispersos, Assírio & Alvim

Nota: a "rapariga" que tirou o retrato é Luísa Ferreira que teve a amabilidade e a paciência de remexer no seu arquivo para encontrar esta fotografia de Al Berto. Faz parte de uma sessão com o poeta, no Verão de 1996, para captar um retrato que figurasse numa exposição na Maison de la Poésie, em Paris. Acabou por ser escolhida uma fotografia 6x6, embora Luísa tenha utilizado também filme de 35mm, como é o caso da imagem que nos mostra aqui. Obrigado.

09 outubro, 2008

“Che” morto


São duas as fotografias mais conhecidas de “Che” Guevara. Uma é a de Alberto Korda, conhecida por Guerrilheiro Heróico, tirada no dia 5 de Março de 1960. É a das t-shirts, de que o artista plástico Jim Fitzpatrick foi o primeiro a criar uma estampa. O guerrilheiro participava num memorial às vítimas de uma explosão. Atrai desde então pelo seu olhar perdido no mundo com que sonhava. Outra é esta, tirada no dia 9 de Outubro de 1967, um dia depois de ser ferido numa perna, detido e morto em La Higuera, na Bolívia do Presidente René Barrientos.

Atrai porque choca, porque é o fim do sonho, a tiro, pela mão do soldado Terán, por ordem do coronel Anaya, que por sua vez a recebeu do alto. Não se conhece o autor. Nas imagens filmadas que na altura se fizeram do cadáver, circulam repórteres e militares. O corpo foi enterrado clandestinamente, para ser descoberto por investigadores forenses, em 1997, numa vala comum em Vallegrande, a cerca de 50 quilómetros do lugar onde foi morto.

Ernesto “Che” Guevara, de nascimento argentino e do mundo por escolha, com a revolução cubana pelo meio, já era um mito. O seu enterro às escondidas não evitou a glorificação, que teve a sua expressão máxima nos funerais de Estado a que Fidel Castro presidiu em Outubro desse mesmo ano. Todos os dias desfilam pessoas pelo mausoléu em Santa Clara, de pedra e de silêncio. Gustavo Villoldo, 72 anos, o agente da CIA que levou os restos mortais do guerrilheiro para os enterrar, de noite, fundo na terra e na memória, hoje exilado em Miami, com oito filhos e 17 netos, queixou-se no ano passado de tanta homenagem. “Não compreendo os jovens que crêem que 'Che' merece admiração”, disse. Pois não.

Fernando Sousa
(Público, P2, No Passado, 9 de Outubro de 1967)

testemunhos

(© António Júlio Duarte)

Inaugura hoje no Centro de Congressos da Alfândega, no Porto, a exposição colectiva Testemunhos — Trajectos de Qualificação que envolve várias áreas da criação artística (fotografia, documentário e escrita). A qualificação, na escola e no trabalho, é o referente geral para o qual trabalharam dez autores. Na fotografia há trabalhos de Patrícia Almeida, Augusto Brázio, António Júlio Duarte, Sandra Rocha, André Cepeda, Pedro Letria, Augusto Alves da Silva e João Serra. O documentário Nacional 206 foi realizado por Catarina Alves Costa e mostra uma fábrica de têxteis situada no Vale do Ave. A escrita dos vários perfis retratados esteve a cargo de Kathleen Gomes. A iniciativa partiu do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

O comissário Sérgio Mah explica o projecto assim:
Procurou-se (...) potenciar uma representação actualizada e empiricamente sensível sobre o quotidiano de pessoas e perfis sócio-profissionais, sobre contextos de formação e sobre condições sociais e ambientes laborais em que o desafio da qualificação tem vindo a adquirir especial oportunidade e relevância pública.
(...)
Testemunhos — Trajectos de Qualificação propõe uma incursão sobre experiências reais nos domínios do trabalho e da formação, mas também sobre modos e percursos de vida que inevitavelmente nos faz pensar sobre a relação entre trajectos educativos e trajectos profissionais.

Testemunhos — Trajectos de Qualificação, vários autores
Centro de Congressos da Alfândega, Porto
Até 30 de Novembro

06 outubro, 2008

Goldin+D' Agata

Aka Ana, de Antoine D`Agata, 2008

Há duas presenças de relevo do universo da fotografia no DocLisboa 2008 - VI Festival Internacional de Cinema Documental: a norte-americana Nan Goldin fará parte do júri da competição internacional e o francês Antoine D`Agata mostrará o filme Aka Ana (60'), objecto híbrido entre a fotografia e a imagem em movimento inspirado n`O Império dos Sentidos (Nagisa Oshima, 1976). Aka Ana foi rodado durante uma estadia do fotógrafo em Kujoyama, Japão, entre Setembro e Dezembro de 2006, onde um grupo de prostitutas se mostra em devaneio e transgressão.

Aka Ana, Antoine D`Agata (60', França, 2008)
17 Outubro, 22h30, Cinema Londres (sala1)
25 Outubro, 23h00, Cinema Londres (sala 2)

o fantasma de Borrell

Robert Capa, A Morte de um Miliciano, 1936

A dúvida. Sempre a dúvida. Cada vez que surge uma exposição da obra de Robert Capa, o fantasma de Frederico Borrell, o protagonista da célebre fotografia Morte de um Miliciano, reaparece para questionar a "verdade" da imagem e lançar a discussão sobre a manipulação do instante-chave que atingiu a escala máxima da iconografia da Guerra Civil de Espanha.
A propósito da exposição This is War! Robert Capa at Work, na Barbican Art Gallery, em Londres, o El País fez ontem um bom retrato da discussão acerca do mistério que rodeia a fotografia da morte de Borrell, captada no dia 5 de Setembro de 1936, em Cerro de la Coja, localidade andaluza de Cerro Muriano.

O artigo do El País está aqui

This is War! Robert Capa at Work e Gerda Taro, On the Subject of War
Barbican Art Gallery, Londres
Enre 17 de Outubro e 25 de Janeiro

05 outubro, 2008

Carlos Afonso Dias

Miradouro de Sta. Luzia, Lisboa, 1957
(© Carlos Afonso Dias)

Depois de um consagrado (José M. Rodrigues), de uma aposta (Miguel Santos) e de um olhar de fora (Flor Garduño) a Galeria Pente 10 presta homenagem a um histórico da fotografia portuguesa que teve, durante anos, a sua obra voltada ao esquecimento - Carlos Afonso Dias (Lisboa, 1930).
Em actividade desde meados da década 50, contemporâneo de Gérard Castello Lopes, Costa Martins/Vítor Palla, Carlos Afonso Dias foi um dos poucos que nos anos de penumbra criativa do Estado Novo desviaram caminho da fotografia salonista e académica que então se praticava. Sem referências internas para seguir, os que escolheram a fotografia livre do jugo ideológico procuraram noutras paragens o seu modelo de fotografia. Henri Cartier-Bresson foi um desses faróis. E com ele a fotografia preocupada com os valores e a dignidade do ser humano que Carlos Afonso Dias também praticou.
O percurso de Carlos Afonso Dias na fotografia portuguesa é discreto e foram raras as vezes que mostrou o seu trabalho em público. O primeiro grande raio de luz que se projectou sobre as imagens que tirou em Portugal e no estrangeiro foi dado pela Galeria Ether, Vale Tudo Menos Tirar Olhos, em 1989, com a exposição Fotografias 1954-1969.
A exposição que agora se mostra na Pente 10 recupera boa parte das imagens mais significativas dos primeiros anos de actividade de Carlos Afonso Dias, engenheiro geógrafo de profissão, e revela também um pequeno conjunto (6 fotografias) captadas nos últimos anos.

Carlos Afonso Dias é um grande fotógrafo português e, como todos nós, é um fotógrafo 'estrangeirado'. Seria bom que o público que se interessa pela fotografia soubesse que os fotógrafos portugueses só se servem de um ingrediente nacional: a água. Tudo o resto: a máquina, a objectiva, o filme, os filtros, o flash, os produtos químicos, o ampliador, as lâmpadas, o papel vem de fora. Como de fora vem a moda, um estilo, as preocupações, as revistas e os livros; numa palavra: os paradigmas.

Gérard Castello Lopes
, prefácio a Carlos Afonso Dias, Lisboa, 1989



Avenida da Liberdade, Lisboa, 1957
(© Carlos Afonso Dias)

Fotografias 1956-2008, Carlos Afonso Dias
Galeria Pente 10
Trav. da Fábrica dos Pentes (ao Jardim das Amoreiras), 10, Lisboa
Até 7 de Novembro

04 outubro, 2008

XDR-TB

(© James Nachtwey)

Em 2007, o fotojornalista James Nachtwey foi galardoado com o TED Prize. Com os 100 mil dólares que recebeu, Nachtwey andou por várias zonas do globo para fotografar a luta contra uma nova mutação do bacilo da tuberculose que está a fazer milhares de vítimas, a XDR-TB (extremely drug-resistant tuberculosis). Parte desse trabalho foi revelado hoje através de um slideshow na página XDRTB.org e vai ser publicado num especial de oito páginas da revista Time. O slideshow será também projectado em várias cidades do mundo incluindo Nova Iorque, Paris, Los Angeles, Melbourne, Seul, Hong Kong e Londres.

Photographers go to the extreme edges of human experience to show people what's going on. They aim their pictures at your best instincts: generosity, a sense of right and wrong, the ability and the willingness to identify with others, the refusal to accept the unacceptable.
James Nachtwey

O slideshow sobre a XDR-TB está aqui

02 outubro, 2008

Cutileiro inédito

Blow Up, Hampstead Heath, 1965
(© João Cutileiro)

Em parte, a culpa foi da rebarbadora que ao moldar a pedra mármore atirou para o ar milhões de partículas de pó. Mesmo quando se mudou para uma casa maior, em Évora, o escultor João Cutileiro não se conseguiu livrar do pó. E não havia maneira de fazer a “necessária desinfecção” para entrar na câmara escura livre da nuvem de poeira branca e fina que se entranhava na mais ínfima ranhura. Cobria-lhe o corpo e a roupa. Nessa altura, para Cutileiro tirar fotografias era “fácil”, “revelar e imprimir” é que era “um horror” porque no papel fotográfico vinham sempre impressas as marcas do escultor e da escultura na pedra – os minúsculos grãos de pó.

O corpo coberto de pó é a imagem que temos do mestre. O pó ganhou a batalha. E a fotografia foi ficando pelo caminho. Os líquidos a apodrecerem nos tanques da câmara escura. O pó ganhou a batalha, mas João Cutileiro escultor nunca deixou de ser fotógrafo – de esculturas e de retratos dos que o rodearam ao longo dos últimos 60 anos.

Ainda que de forma intermitente, o resultado desse labor dedicado à imagem fotográfica foi sendo mostrado em público, pelo menos desde o início dos anos 60. Às vezes em complemento de exposições de escultura, outras como criação solitária sempre voltada para o rosto e para o corpo. Desafiado pelo crítico de arte Alexandre Pomar, João Cutileiro decidiu agora revelar um conjunto de fotografias vintage, boa parte das quais inéditas e provas únicas (alguns negativos perderam-se num armazém em Londres), na galeria de fotografia e casa de leilões Potássio 4, em Lisboa. A mostra, que será inaugurada no dia 9, antecede um leilão de 30 lotes, agendado para o dia 23, cuja receita reverterá a favor da Abraço, a associação de apoio a pessoas infectadas com VIH/Sida.

O género que mais fascina Cutileiro na fotografia é o retrato, com rosto ou sem ele, com roupa ou sem ela. Na exposição que vai abrir portas, que recupera imagens captadas em Inglaterra e em Portugal durante os anos 50, 60 e 70 e impressas pelo autor, não há grandes derivações. Revelam-se corpos ora em pose assumida e ambientes íntimos, ora em flirt a espreitar pelo buraco da fechadura. Em Blow Up (Hampstead Heath, 1965), Cutileiro lembra esse papel do fotógrafo como um caçador implacável a “roubar” imagens a casais incógnitos que rebolam abraçados pelos jardins. Na longa sequência La Grande Stripteaseuse (Londres, 1966) revela-se a cumplicidade entre retratista e retratado e mistura-se sensualidade com uma certa joie de vivre.

Para Alexandre Pomar, a exposição da Potássio 4 vai surpreender porque esta faceta de João Cutileiro fotógrafo “não é conhecida ou foi esquecida”. Em declarações ao P2, o crítico sublinha a qualidade dos retratos do escultor, muito “originais e frescos” para a época em que foram captados. Pomar salienta ainda uma forte presença do corpo feminino nestas imagens, consequência directa da bagagem que traz da escultura, onde as curvas da mulher são presença constante. “Estas fotografias de corpos são esculturas. Ele fez estas imagens com um olhar de escultor.”

Se por um lado, a escultura foi uma das razões que fizeram com que o trabalho de João Cutileiro na fotografia não fosse mais “regular”, por outro foi muito por causa dela que começou a pegar em máquinas fotográficas, quando era estudante na Slade School of Arts de Londres. “As esculturas não viajam. Convinha fotografá-las, fosse para os relatórios de fim de ano, fosse para o que fosse eu precisava de tirar fotografias”, disse ao P2 por telefone.

Podiam ser só simples registos documentais de peças esculpidas para trabalhos académicos, mas o certo é que essas imagens geraram cobiça entre os outros estudantes. Já havia quem fizesse esse trabalho, mas Cutileiro baixou o preço e tornou-se no fotógrafo oficial dos aspirantes a escultores. Com o dinheiro veio uma Rolleiflex em segunda mão que “uns belos anos” mais tarde foi emprestada ao neurologista António Damásio e nunca mais foi devolvida (“espero que ele leia isto”, ri-se Cutileiro). “Nos primórdios, em Londres, por causa da minha necessidade de sobrevivência, a fotografia foi uma muleta enorme, direi mesmo uma cadeirinha de rodas”, revela o escultor.

Depois dessa fase em que se serviu da fotografia de uma forma “utilitária”, e quando ainda faltavam alguns frames para acabar os rolos de 12 exposições, o escultor começou a fotografar os filhos dos amigos, muito mais velhos, que lhe pediam várias cópias para mandar para a família. Foram as últimas imagens com as quais ganhou dinheiro, no princípio da década de 70. A partir daí, passou a convidar amigos a posarem para sua câmara, apenas por prazer.

A propósito desta exposição, Alexandre Pomar escreve no seu blogue: "Cutileiro é um dos nomes certos da revolução fotográfica dos anos 50 e um dos poucos, um dos primeiros, que nesse tempo mostrou publicamente as suas fotografias”. Para além do escultor, apenas Fernando Lemos e a dupla Victor Palla/Costa Martins tinham mostrado fotografias em exposições individuais de galeria, lembra Pomar. Contudo, João Cutileiro não se sente parte desse grupo, não tanto pelo estilo mas mais pela distância geográfica: “eu estava em Londres e eles estavam cá e isso fazia com que eu estivesse muito à margem das preocupações deles”.

Durante anos a fio ligado à fotografia analógica, Cutileiro é hoje um defensor acérrimo da imagem digital e vai tirando partido de uma ou outra brincadeira técnica. “Como eu estou velho, podre e perro, em vez de me baixar, rodo o visor e tenho a imagem do que os meus joelhos vêem. Sinto-me à vontade no universo da fotografia digital”. O aviso não podia ser mais claro: “no futuro, nunca mais ninguém vai querer fotografar em suporte analógico. Está morto e enterrado”.

Sérgio B. Gomes
(P2, Público, 1.10.2008)

Alexandre Pomar fala sobre a exposição e sobre o percurso de João Cutileiro na fotografia aqui

João Cutileiro, Vintage nudes from the 60s and the 70s
Galeria Potássio 4, R. dos Navegantes, 16, Lisboa
Exposição: de 9 a 23 de Outubro
Leilão: 23 de Outubro, às 09h00

01 outubro, 2008

newman


Apagou-se mais um olhar magnético de Hollywood.
Vamos ter saudades dele.

 
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