31 agosto, 2006

*Três perguntas a...

O Arte Photographica inaugura hoje uma nova categoria de posts: *Três perguntas a...
Regra geral os fotógrafos gostam pouco de falar sobre os seus trabalhos e projectos. Remetem para o clássico “as fotografias falam por si”.
Embora respeitando quem acha que a voz das imagens serve per si como roteiro de interpretação de um suporte cada vez mais difícil de ver, achamos necessário ouvir os fotógrafos acerca das imagens que fazem e mostram para uma abordagem do seu trabalho mais construtiva na crítica e mais eficaz na fruição estética.
Como nem só de fotógrafos depende a fotografia, tentaremos ouvir também quem decide o que vemos, quem se dedica a pensar a imagem fotográfica e quem, de alguma forma, se relaciona com ela, na escrita literária ou ensaística, na conservação, na investigação e na comercialização.
As perguntas dirigidas a fotógrafos seguirão uma estrutura mais ou menos fixa: uma pergunta sobre a(as) motivação(ões) que os levam a fotografar; outra sobre um aspecto particular da exposição, livro, prémio ou acontecimento que motivou a entrevista; e outra sobre os projectos em que estão empenhados.

O *Três perguntas a... arranca com António Júlio Duarte, fotógrafo cujo trabalho foi recentemente reunido num álbum retrospectivo organizado pela ADIAC (Associação para a Difusão Internacional da Arte Contemporânea) e distribuído pelo PÚBLICO.


António Júlio Duarte, sem título (auto-retrato), da série Agosto, Colecção João Jacinto, 2000

Por que é que fotografas?
Para justificar/validar a minha curiosidade pelos outros.

O que é que o flash te mostra que a luz natural não te mostra?
O uso do flash em alguns dos meus trabalhos começou por razões meramente técnicas, a necessidade de fotografar em locais escassamente iluminados. Tornou-se uma atitude de rejeição do papel tradicionalmente discreto do fotógrafo. Gosto que as pessoas aceitem e reajam à minha presença. É também uma atitude crítica. A luz fria e directa do flash destrói qualquer hipótese de “glamourização” da realidade.

Que projectos te ocupam agora?
Um trabalho de retratos de emigrantes em Madrid. Mudar de casa.


29 agosto, 2006

Estar vivo

Julia Margaret Cameron, The Echo, 1868

Ponho-me a olhar as fotografias. Conheço as caras e não as conheço, congeladas a meio de uma expressão com qualquer coisa de incompleto nelas. Não é que lhes falte vida, têm vida, falta-lhes uma parte do que são, no caso de lhes tocar toco papel, não carne e ainda por cima, em algumas delas, com um rectângulo de vidro a separar-nos. Só os mortos estão inteiros nos retratos, porque se tornaram retratos, são retratos, e o que guardo na memória vai-se desarticulando, diluindo, deixando de ter forma: gestos, atitudes, cheiros que se desvanecem lentamente como o perfume nos frascos vazios que conservam uma vaga aura adocicada de flores.
No caso dos vivos encontro fragmentos deles que me não chegam nem consolam. Olham-me desprovidos de voz e de espessura. Digo-lhes o nome e não respondem.
Digo
- Tu
e observas-me indiferente, sempre com os mesmos brincos, o mesmo penteado, a mesma blusa, a mesma idade que recusa os anos. Digo
- Tu
e nenhuma mão chega à minha cara, não respiras contra mim, não me procuras, aprisionada na moldura. Porque é que o teu peito não respira? Porque é que as tuas pernas não se enrolam nas minhas? Porque não sais daí? Será o mesmo, o teu nome? Ou será que foi o meu nome a mudar? Perguntas, perguntas. Cheio de perguntas sempre.
(...) Retratos.
Nós de pé nos retratos e portanto vivos. Conheço as caras e não as conheço. Congeladas a meio de uma expressão com qualquer coisa de incompleto nelas. Olham-me desprovidas de voz e de espessura. Não me sinto triste. Palavra de honra que não me sinto triste. Sentado a esta mesa vejo um avião chegar. E, de súbito, uma alegria inexplicável: acho que é por ter corpo e estar vivo. Corrijo: tenho a certeza que é por ter corpo e estar vivo. E o meu coração ou o despertador
(um deles)
a bater, a bater.
António Lobo Antunes, Retratos, Visão, 25.05.2006



(manipulação gráfica: artephotographica)

28 agosto, 2006

Tunick no México

Spencer Tunick, Barcelona, 2003

Spencer Tunick está a planear mais uma das suas instalações fotográficas. A próxima paragem é na Cidade do México. Desta vez, o fotógrafo americano quer juntar mais de 9000 pessoas. O local ainda não foi revelado. A concretizar-se, esta seria a fotografia de Tunick a envolver mais pessoas, ultrapassando a imagem feita em Barcelona com 7000 corpos despidos. Apesar de já haver autorizações oficiais, o projecto está a causar alguma polémica nos meios mais conservadores mexicanos. A lista de voluntários já ultrapassou os 6000 mil nomes, mas os patrocínios ainda são poucos. O click está marcado para Setembro.

25 agosto, 2006

Rever


Para quem perdeu a oportunidade de ver a exposição Densidade Relativa no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP) pode agora apreciá-la no Centro de Artes de Sines e no Centro Cultural Emmerico Nunes, em Sines, até ao dia 29 de Outubro. Para além de dar a conhecer ao grande público as aquisições feitas pelo CAMJAP nos últimos quatro anos, a mostra pretende estabelecer um diálogo com trabalhos mais antigos da colecção. O suporte fotográfico é um dos mais representados com obras de Helena Almeida, Vasco Araújo, António Júlio Duarte, Eurico Lino do Vale, José Luís Neto, João Vilhena, entre outros.

A Fundação Calouste Gulbenkian explicou o conceito de Densidade Relativa desta forma:

"A ideia de trabalhar o conceito de densidade das obras começou por surgir com a constatação de que a palavra é muito frequente nos textos de crítica de arte. O mesmo acontece com a palavra "intensidade", que facilmente se associa à primeira. Rapidamente se percebe que "densidade" pode ser sinónimo de riqueza ou de impenetrabilidade, quando não se refere mais literalmente à acumulação de elementos no espaço, por oposição ao vazio ou à rarefacção. O pensamento em torno destas variantes conduziu à percepção de que o conceito poderia ser útil no estabelecimento de um contínuo entre a "matéria" do pensamento e a dos corpos e objectos, neste caso, a das obras de arte.

Partamos do princípio de que o encontro pessoal com uma obra possa ser uma experiência mensurável em intensidade.

Sabemos, por experiência, que uma obra nos pode ser indiferente, repelente, atraente, intrigante, perturbadora, apaziguadora...e em diferentes doses. No caso de ser uma obra de arte, acrescenta-se a tudo o que a caracteriza como imagem, objecto ou situação, tudo o que lhe determina a condição artística: uma intenção de que o seja, por parte do seu autor, um contexto expositivo, um estatuto socialmente atribuído e uma série de dispositivos, nem sempre consensuais e que dificilmente se enumeram com rapidez ou sem problematização, próprios da aparente excepcionalidade do seu território.

Imaginemos que a intensidade de cada experiência (estética, cultural) diante duma obra é determinada, em boa parte, pela sua densidade. Densidade/Intensidade - seria esta a relação. Para tal seria necessário encontrar medidores de densidade, fazer uma densimetria das imagens. E em consequência, também uma densimetria da experiência (mais ou menos intensa) do confronto com elas.

A objectividade, apesar de tudo possível, de um olhar atento a estes aspectos, não nos pode fazer esquecer que é a existência duma relação com a obra que lhe dá forma. É a relação de alguém com a obra que opera qualquer passagem da suposta objectividade a todas as gamas de subjectividade, que o mesmo é dizer, de mundo pessoal acrescentado àquele que a obra propõe. Nesse sentido, todos os medidores de densidade propostos terão o seu simétrico no universo de quem se dispõe a uma leitura. É necessário, por isso, pensá-los nesse lugar de encontro onde um lado e outro se fundem e com consciência da inter-relação em jogo."


Centro de Exposições do Centro de Artes de Sines
Todos os dias, das 14h00 às 20h00
Centro Cultural Emmerico Nunes
Todos os dias, das 14h00 às 20h00
Entrada livre

24 agosto, 2006

SerraMayaRamosFazenda

João Serra


Nuno Maya


João Serra, Nuno Maya, Bruno Ramos e Frederico Fazenda são os vencedores da edição 2006 do Prémio Revelação BES/Serralves. No total, foram admitidas a concurso 74 candidaturas. Cada vencedor vai receber uma bolsa de produção artística de 7500 euros para concretizar uma exposição na Casa de Serralves em Novembro.
O júri da 2ª edição do Prémio era constituído por Ricardo Nicolau (Museu de Serralves), Manuel Oliveira (Centro Galego de Arte Contemporânea), Liliana Coutinho (crítica de arte), Jacinto Lageira (crítico de arte), Mark Godfrey (crítico de arte, professor da Slade School of Fine Art – Londres). Para a escolha dos trabalhos vencedores os critérios foram “a qualidade intrínseca de cada projecto”, a “ambição apresentada” e a “adequação de cada trabalho ao tipo de prémio em jogo. O júri destaca ainda os textos de apresentação dos projectos para uma melhor compreenção das “motivações de cada concorrente e avaliar, em cada caso, a possível coincidência entre intenções e realização”.

O júri justificou as suas escolhas assim:

João Serra apresentou como projecto uma série de fotografias de bairros da periferia de Lisboa em processo de desaparecimento. O curioso é que o artista não sacrifica a sofisticação cromática e composicional, apostando num cruzamento singular entre o poético e o político. Tomando em consideração as qualidades formais e estéticas da fotografia, Serra procura situar-se nessa fina linha onde se encontram equlibrados o político e poético (e como este último é do domínio do ‘fazer’, esta será a procura de um encontro profícuo).

Nuno Maya concorreu com o projecto “Perpétuos Movimentos Efémeros”, uma instalção onde junta a impressão fotográfica e a projecção vídeo, num projecto que visa uma viagem pelos padrões de comportamento do movimento humano nos espaços arquitectónicos e públicos de uma cidade

Bruno Ramos apresentou a concurso um projecto de realização de um conjunto de fotografias de grande formato intitulado "Tragédia de um homem só". Cada uma destas fotografias mostrará uma personagem numa situação quotidiana, na qual é introduzida uma ambiência estranha pelo momento em que se realiza essa acção e pelo lado fortemente encenado da fotografia.

Com a instalação de vídeo "Satélite", Frederico Fazenda pretende criar um dispositivo sensorial a partir do qual são questionados os formatos e modos de receber uma experiência e de estar num lugar. O vídeo que estará nesta instalação é feito de imagens recolhidas de um ponto numa floresta no norte da Europa, escolhida pelas suas qualidades formais, dadas pela localização.

Frederico Fazenda


Bruno Ramos

23 agosto, 2006

Joe Rosenthal (1911-2006)

Joe Rosenthal, Rising the Flag on Iwo Jima, 1945, Associated Press

Joe Rosenthal estava lá. No “instante fatal”, para apanhar o momento que condensa turbilhões de acontecimentos num só. É nestes casos que a imagem do acontecimento conquista um estatuto que se confunde com o do acontecimento em si. Rouba-lhe importância. Por causa da densidade de significados que comporta, em vez de mostrar o acontecimento a imagem eclipsa-o. E aí a fotografia ganha aura, liberta-se, deixa de estar só impressa em papel para morar no imaginário colectivo como “a imagem do acontecimento”. Chamam-lhe ícones.
Rosenthal nega qualquer encenação do momento, a imagem que ficou como símbolo da vitória das tropas norte-americanas na batalha do Mount Suribachi, na ilha japonesa de Iwo Jima, durante a II Guerra Mundial. Foi com esta fotografia, captada no dia 23 de Fevereiro de 1945, que Rosenthal, a trabalhar como correspondente da Associated Press, venceu o Prémio Pulitzer.
Joe Rosenthal nasceu em Washington em 1911. Começou a trabalhar na Newspaper Enterprise Association (São Francisco) em 1930, quando a fotografia ainda era um hobby para si. No Exército, a sua queda para a fotografia foi rejeitada por causa de problemas na visão. Em 1932, mudou-se para o San Francisco News, onde começou a carreira como fotorepórter. Quando a Associated Press comprou a Wide World Photos, Rosenthal fazia parte dos quadros da agência e passou a ser seu fotógrafo. Deixou a AP depois do final da guerra, em 1945, para se juntar ao San Francisco Chronicle onde trabalhou 35 anos até se reformar, em 1981.
Joe Rosenthal morreu no domingo em São Francisco com 94 anos.

Joe Rosenthal (Eric Risberg/Associated Press)

18 agosto, 2006

No rasto do fogo

Nelson d`Aires, Contra-Fogo, 2005


Nelson d`Aires, Contra-Fogo, 2005


Seguir o rasto dos incêndios florestais não é difícil. A força com que alteram e devastam paisagens é tudo menos subtil. É uma força exibicionista que se pode sentir, cheirar, ouvir e ver ao longe. De muito longe. Há gritos de sirenes, serpentes obesas de fumo, pânico nos rostos de quem proteje. Há cansaço nos rostos de quem combate, de quem luta em desigualdade contra as labaredas. Foi para tentar mostrar uma faceta diferente dessa força que Nelson d`Aires decidiu, há um ano, seguir o som das sirenes, chegar perto das colunas de fumo. Durante as duas últimas semanas de Agosto de 2005, percorreu perto de três mil quilómetros, fotografou incêndios no Norte e Centro do país. Dessa atracção pelas chamas resultou o ensaio Contra-Fogo, distinguido em Julho com o Prémio Novos Talentos Fnac. O trabalho está dividido em duas partes, noite e dia, que revelam facetas diferentes deste ritual de incandescência todos os anos cumprido. No meio do frenesim e do pânico colectivos em que se desenrolam os incêndios, Nelson quis apanhar o que está para além do facto. Quis perceber o que fica depois da devastação. O que foi o combate nos "bastidores", que expressões e comportamentos provocou.
Nelson d`Aires, de 31 anos, começou a fotografar em 2002. Depois de ter feito Contra-Fogo decidiu dedicar-se a tempo inteiro à fotografia.
Para além deste porfolio foram ainda distribuídas menções especiais a Teresa Sá (conjunto de imagens sem título) e a Ivo Dias de Sousa/João Paulo Aça, por Slobodj.
O juri que escolheu os trabalhos vencedores da edição deste ano do prémio integrava Tereza Siza (CPF), Fátima Marques Pereira (professora), Rita Carmo (fotógrafa), António Pedro Ferreira (fotógrafo) e David Clifford (fotógrafo).

2005: 8.086 incêndios; 325.226 hectares de área ardida; 525.000.000 euros de prejuízo; 16 mortos.

Fonte: Associação Florestal de Portugal



Nelson d`Aires, Contra-Fogo, 2005


Nelson d`Aires, Contra-Fogo, 2005

17 agosto, 2006

Para Colónia

Nan Goldin, Jimmy Paulette + Taboo, I`m Bad, Nova Iorque, 1991


No xadrez, quando o peão atinge a oitava linha adversária pode transformar-se noutra peça, mais poderosa, com mais liberdade de movimentos, como a rainha, por exemplo. Uma metamorfose sacrificial que pode mudar o rumo do jogo. Transformar o que parecia perdido. Tornar vencedor o quase vencido. Vencido o quase vencedor.
Esta transfiguração do peão no xadrez serviu de mote a Eighth Square, a exposição com que o Museu Ludwig (Colónia, Alemanha) quer “tirar do armário” a reflexão sobre comportamentos sexuais marginalizados, desconstruir “o discurso heterossexual sobre género”, alertar para a discriminação política, social e artística exercida sobre a liberdade de opção sexual. E questionar: “o que é que significa o desejo divergente?”; “como é que o mundo olha para os homens femininos e para as mulheres masculinas?”.
Eighth Square, que o Museu Ludwig diz ser a primeira mostra - de fotografia e não só - com uma aproximação crítica às “sexualidades marginalizadas”, reúne 260 trabalhos de 80 artistas, desde os anos 60 até ao presente.
Entre os nomes seleccionados há uma verdadeira constelação de estrelas, entre as quais: Diane Airbus, Francis Bacon, Mattew Barney, Louise Bourgeois, Brassaï, Gilbert & George, Nan Goldin, David Hockney, Jasper Johns, Robert Mapplethorpe, Tracey Moffatt, Bruce Nauman, Robert Rauschenberg, Cindy Sherman, Wolfgang Tillmans, Jeff Wall e Andy Warhol.

The Eighth Square - Gender, Life, and Desire in the Arts since 1960
Entre 19 de Agosto e 12 Novembro
Ludwig Museum
Bischofsgartenstraße 1, 50667, Colónia
Telefone: 49 221 221 261 65
Fax: 49 221 221 24 114
Mail: info@museum-ludwig.de
De Ter. a Dom. das 10h00 às 18h00.
Primeira sexta-feira do mês das 10 às 22h00.
Fechado às segundas-feiras.

Perguntar


"Mesmo que não ganhem pó parecem mortos, os móveis que sobejam hirtos e dignos, uma fotografia com um sorriso que se não dirige a ninguém, olhos que desistiram de nos alcançar, indiferentes. Em que sítio vivem agora?"

António Lobo Antunes, Crónica antiga que achei numa gaveta, Visão, 22.12.2005



(Manipulação gráfica e escolha da fotografia: Arte Photographica)

15 agosto, 2006

Descodificar

Gorka Lejarcegi, 1987

Vale a pena ler o Pie de Foto que Juan José Millás escreve todos os dias no suplemento de Verão do El País (Revista de Agosto). Sempre a partir de uma fotografia, Millás vai tecendo textos que nos fornecem pistas preciosas para descodificar melhor o complexo mundo de imagens em que estamos mergulhados.
Para ler a crónica El Aparecido (09.08.2006) clique na imagem abaixo.


Nota: na fotografia de Gorka Lejarcegi aparecem, entre as grades, letras ao contrário que ficaram na imagem feita, por scanner, a partir do jornal

14 agosto, 2006

Rosa Casaco, de salonista a paparazzi

Salazar e Christine Garnier fotografados por Rosa Casaco na Arrábida


Na PÚBLICA de ontem sai um retrato mais alargado sobre António Rosa Casaco, o PIDE fotógrafo que liderou a brigada que matou o general Humberto Delgado e a sua secretária. Rosa Casaco, falecido no início de Julho, foi um dos mais activos e premiados fotógrafos salonistas portugueses. Como seria de esperar, fez também alguns trabalhos menos claros para a polícia política do Estado Novo. Uma actividade como “paparazzi” ainda pouco conhecida. O texto é do autor deste blog.
Para ler o artigo em formato pdf clique aqui.

Fotografia salonista?
É o tipo de fotografia ideológica e militante de cariz essencialmente amador que se praticava com um espírito desportivo, como quem vai à pesca ou caça aos domingos. O objectivo era ter o maior número de provas a concurso para coleccionar taças, medalhas, distinções, menções honrosas nos salões de fotografia que cresceram como cogumelos em todo o mundo, desde os anos 30. A partir dos quadros de honra estabeleciam-se classificações nacionais e internacionais. O fenómeno entra em declínio em finais dos anos 60.

11 agosto, 2006

Para Braga

Jorge Molder é um dos artistas representados

A fotografia está de regresso a Braga. Os Encontros de Imagem na capital do Minho tiveram de parar em 2003 e 2005 por falta de dinheiro. A edição deste ano (18ª) vai arrancar com metade do orçamento habitual, mas o director do evento, Rui Prata, promete exposições de “bom nível” que dignifiquem “a fotografia e os criadores”. Os Encontros deste ano, organizados pelo Museu da Imagem, marcam os 20 anos da iniciativa e vão mostrar 190 fotógrafos em nove espaços da cidade. Entre artistas representados haverá trabalhos de Arno Fischer, Brian Griffin, Gilbert Garcin, Georges Dussaud, Betina Flitner, Bruce Gilden, Bernard Plossu, Diane Arbus, Jorge Molder, Patrice Tosani, Tracy Tucker, Martin Parr, Adriano Miranda, entre muitos outros (190!)...
Rumar a Braga a partir de 23 de Setembro.

Exposições:

Teatro Circo: Documento e memória - Imagens de 70 autores

Casa dos Crivos: O jogo das formas - Trabalhos de 30 fotógrafos. Também patente na Torre de Menagem

Biblioteca Lúcio Craveiro Silva: Paisagens

Museu D. Diogo Sousa: Memórias da cidade

Museu da Imagem: Homenagem (a Brian Griffin e Gilbert Garcin)

Museu dos Biscainhos: Homenagem (a Arno Fischer)

Mosteiro de Tibães: Corpo e identidade - Sobre narcisismo e imortalidade

Braga Parque: Farm Security Administration - A política do New Deal, imposta nos Estados Unidos entre 1933 e 1937 (Franklin D. Roosevelt)

09 agosto, 2006

Uma imagem da história


Denunciar.
Divulgar.
Criar.
Testemunhar em silêncio.
Registar.
Registar sem alterar a rumo dos acontecimentos.
Registar, só... Os fotojornalistas contam-nos uma história visual fotográfica desde 1842, ano em que o The London Illustrated News começou a usá-la de uma forma mais ou menos corrente nas suas páginas. Thins as they are: Photojournalism in context since 1955 mostra-nos apenas uma parte dessa história, a que ficou nas lentes de nomes como Henri Cartier-Bresson (a Rússia pós-Estaline), Diane Airbus (a América dos excluídos), Susan Meiselas (a Nicarágua de ascensão sandinista). Dá-nos uma história fotográfica da história e dá-nos a história do jornalismo fotográfico com a reprodução das imagens tal qual foram impressas em revistas como a Esquire, Life, Fortune ou Paris Match. Explica-se ainda como é que o fotojornalismo se foi adaptando, nos últimos 50 anos do século passado, a diferentes velocidades: a lenta dos procedimentos da imprensa (o seu suporte natural); a frenética da tecnologia fotográfica.
Ao todo, há 120 reportagens acompanhas por textos que contextualizam o acontecimento fotografado, traçam um perfil do fotógrafo e explicam onde e como é que foram publicados.
Mary Panzer (historiadora e antiga curadora de fotografia do National Portrait Gallery) escreve um ensaio histórico sobre o fotojornalismo, Christian Caujolle (curador e fundador da Agência Vu), reflecte sobre o futuro deste trabalho e Michiel Munneke (director da World Press Photo) assina o prefácio.
A obra, editada pela Aperture e World Press Photo, recebeu este ano o Prémio Infinity do International Center of Photography para o melhor livro de fotografia publicado em 2005.

07 agosto, 2006

Pele

Em pose para a fotografia de Tunick (Jörg Carstensen/EPA)

Multidão sem roupa, ao ar livre ou não, tornou-se sinónimo de Spencer Tunick, o fotógrafo dos espaços moldados por pele humana. A última composição/instalação de Tunick aconteceu no Dusseldorfer Museum Kunst Palast, em Dusseldorf, na Alemanha. O convite partiu da Quadriennale 06, festival de arte que a partir de agora se organiza de quatro em quatro anos naquela cidade.

05 agosto, 2006

Lembrar



"
(...)
Todo o resto da nossa vida, minha e do meu pai, foi dedicada aos livros - e ao escritório de advocacia mais ou menos familiar, onde entrei a contragosto e de onde me retirei para Moledo, arrastando comigo os fins-de-semana da família, álbuns de fotografia e uma biblioteca em busca de organização. Apenas se mantêm os fins-de-semana e os álbuns de fotografia.
(...)"

António Sousa Homem, Da ignorância, NS, 05.08.2006

(manipulação gráfica: artephotographica)

04 agosto, 2006

Fotografar pintando II

Idoia Montón, Sisógenes, 1997


Parece que está no centro da discussão a crescente importância dos códigos e da estética fotográfica na produção das artes plásticas contemporâneas. Depois de Serralves (Imagens em Pintura, Eberhard Havekost, Johannes Kahrs, Magnus Von Plessen e Wilhelm Sasnal), é a vez do Museo Patio Herreriano, em Valladolid, questionar esta assimilação cada vez mais descomplexada do fotográfico e da sua realidade ilusória. A exposição chama-se Icónica e apresenta trabalhos de 13 artistas.
É sobre essa tentação da pintura pela fotografia que João Lopes escreve hoje (Por amor de Betty, 6ª), num ensaio a propósito da obra recente do pintor fotográfico alemão Gerard Richter.



Gerard Richter

"I pursue no objectives, no system, no tendency; I have no program, no style, no direction. I have no time for specialized concerns, working themes or variations that lead to mastery. I steer clear of definitions. I don't know what I want. I am inconsistent, noncommittal, passive; I like the indefinite, the boundless; I like continual uncertainty."
Gerard Richter

Comprar

Francisco Rocchini, Lisboa, real Palácio d´Ajuda, s/d., albumina


O Centro Português de Fotografia conseguiu reunir na semana passada o dinheiro que lhe permitirá comprar a colecção de fotografia antiga do marchand Luís Belchior, radicado em Paris. O espólio, designado como Colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior, tem mais de 2000 fotografias. O século XIX está melhor representado com mais de 70 por cento das imagens. Entre os autores representados contam-se vários fotógrafos estrangeiros que se radicaram em Portugal, como Emílio Biel, Francesco Rocchini e Alfred Fillon. Entre os portugueses há imagens de Freire de Andrade, dos estúdios Perestrellos e Vicentes, Camacho e Carlos Relvas.


02 agosto, 2006

Kidman.Arbus


Nicole Kidman vai ser Diane Arbus no cinema. A estreia de Fur, realizado por Steven Shainberg, está marcada para Novembro, nos EUA. Robert Downey Jr. interpreta o papel de Allan Arbus, marido da fotógrafa. A biografia não-autorizada de Arbus, escrita por Patricia Bosworth, que nos anos 60 foi modelo da artista, serviu de matriz ao filme.

Diane Arbus começou a fotografar com Allan. Depois de se separar do marido, aprendeu com Alexey Brodovitch e Richard Avedon. No início dos anos 60 deu início à carreira de fotojornalista e publicou na Esquire, The New York Times Magazine, Harper`s Bazaar e Sunday Times, entre outras revistas. Por esta altura, escolheu uma máquina reflex de médio formato Rolleiflex com dupla objectiva, em detrimento das máquinas de 35 mm. Com a Rolleiflex teria “vistas largas”, mais resolução e um visor à altura da cintura que lhe proporcionava uma relação mais próxima com o fotografado. Entram também em cena os flashes em fotografias tiradas de dia. O objectivo era separar o essencial do acessório. Duas bolsas Guggenheim (1962 e 1966) permitiram-lhe desenvolver melhor um trabalho de autor, mostrado pela primeira vez num museu em 1967 (colectiva New Documents Museum of Modern Art).
Em Julho de 1971 suicidou-se tomando barbitúricos e cortando os pulsos. O catálogo da exposição retrospectiva que o curador John Szarkowski concebeu, em 1972, tornou-se num dos mais influentes livros de fotografia. Desde então, foi reimpresso 12 vezes e vendeu mais de 100 mil cópias. A exposição do MoMa viajou por todo o país e foi vista por 7 milhões de pessoas. No mesmo ano, Airbus tornou-se a primeira fotógrafa americana a ser escolhida para a Bienal de Veneza. Diane Airbus fotografou essencialmente pessoas à margem da sociedade e pessoas comuns em poses e expressões enigmáticas.

"Para mim o sujeito de uma fotografia é sempre mais importante que a fotografia. E mais complicado..."

Diane Airbus
Nicole Kidman (Metropolitan FilmExport)

(dados factuais sobre Diane Airbus adaptados a partir da WikipediA)

 
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